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Anselmo Mendes, Produtor e Enólogo

Texto José Silva

Sendo de Monção, Anselmo Mendes acabou por se estabelecer em Melgaço, em 1997, onde comprou uma propriedade e onde, além duma pequena casa, acabou por construir uma adega. Que foi crescendo, crescendo, até ao limite possível. E assim, foi com naturalidade que lançou, em 1998,o seu primeiro vinho, o Muros de Melgaço.

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Anselmo Mendes – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Estudioso, pesquisador, aplica os ensinamentos da riquíssima história dos vinhos portugueses à produção dos seus próprios vinhos, juntando-lhes a modernidade apenas necessária. Gosta de estudar as vinhas, sendo hoje enólogo consultor em várias outras regiões do país e mesmo no Brasil. Também gosta de ensinar e dar formação a quem trabalha com ele e o acompanha, que também o ajudam a fazer experiências, muitas experiências, na vinha, mas sobretudo na adega, com que também se vai divertindo. Aliás Anselmo Mendes é uma pessoa divertida, de conversa fácil e muito interessante, que transpira a paixão e o conhecimento que tem deste mundo fascinante que é o vinho.

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New winery – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Quando a sua adega chegou ao seu limite físico, Anselmo Mendes resolveu construir uma adega de raíz, mais abaixo, moderna, bem equipada, mas com espaço adequado á quantidade de vinho que produz nos dias de hoje.

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Old facilities recuperated – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Mas aproveitou para recuperar as antigas instalações com muito bom gosto, transformando a adega das cubas numa zona de provas, que inclui uma confortável sala de estar e uma sala de provas muito bem equipada, com vista para o vale, que vai até ao rio Minho.

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Old Barrels’ room- Photo by José Silva | All Rights Reserved

A antiga sala de barricas, mantendo algumas das velhas barricas e equipamentos que já não se usam, é agora uma sala para as suas “experiências”, de que por vezes saem coisas deliciosas.

Numa visita recente, passamos pela adega para provar alguns vinhos das cubas, todos de 2014, com destaque para um Loureiro que nos deixou quase estarrecidos, tal a sua qualidade e potencial! E, claro, provaram-se os Alvarinhos que hão-de dar os vários vinhos deste produtor, bem conhecidos no mercado. No entanto Anselmo Mendes promete novidades para este ano…ficamos a aguardar.

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Bottling and labeling – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Saídos da adega, onde se engarrafavam e rotulavam já alguns vinhos, não passaram 5 minutos até estarmos nas “velhas” instalações, neste caso no conforto da sala de provas.

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Tastings’ room – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Mas não resistimos a passear um pouco pelas vinhas, nesta época do ano completamente nuas, após terem sido podadas, que daqui a um mês estarão a dar os primeiros rebentos.

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The vineyard – Photo by José Silva | All Rights Reserved

No frio da manhã o vale estava tranquilo, o fumo das lareiras aqui e ali, e os montículos das vides resultantes da poda a marcar também a paisagem, com um tanque de água corrente de permeio.

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Tank – Photo by José Silva | All Rights Reserved

E, a toda a volta, os imponentes muros de granito, a fazer algumas separações, entre o arvoredo e a vinha, e entre patamares de várias vinhas.

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Granite Walls – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Dizia o Anselmo: “Já não se fazem muros destes!” A diferença principal entre os vinhedos de Alvarinho de Monção e Melgaço (que constituem, em conjunto, a sub-região de Monção e Melgaço), é que em Monção os vinhedos estão principalmente num amplo vale, que vai estreitando para montante, apertado entre o rio Minho e a montanha, até que toma a forma de patamares, por ali acima, já em Melgaço. Estas vinhas do Anselmo são um bom exemplo disso.

Ainda passamos pela antiga adega de barricas, agora a aguardar novidades e novos processos, e ficou combinada nova visita em vindimas, lá para Setembro, para nos divertirmos um bocado. Mas era hora da prova principal, e sentamos-nos à mesa com o nosso anfitrião, para provar…18 vinhos!!

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18 wines’ tasting – Photo by José Silva | All Rights Reserved

A coisa prometia e lá fomos guiados pelo mestre, que foi explicando, aconselhando e por vezes justificando as suas escolhas. Mas será preciso justificação para provar estes vinhos?!

Começamos pelos Muros Antigos de 2014, 2012 e 2010. Mesmo o 2010 ainda muito fresco, com muito boa acidez, e o 2014 ainda cheio de fruta, algum tropical, sedoso, a prometer belas experiências lá para o verão. Seguiram-se os Muros Antigos Loureiro de 2014 e 2010. A outra casta que Anselmo Mendes trabalha intensamente, na perfeição, aqui a dar-nos duas perspectivas diferentes: 2014 muito floral, intenso, com óptima acidez na boca e um final muito fresco e persistente, e 2010 sensacional, evoluído mas ainda com bela acidez, alguma fruta branca madura, exótico, com final aveludado e elegante, a provar que também os brancos da região dos vinhos verdes envelhecem com galhardia.

Passamos então aos quatro Muros Antigos Alvarinho: 2014, 2012, 2010 e 2009. O primeiro, ainda muito jovem, quase um bebé, a precisar de tempo de garrafa, mas já a denotar alguma mineralidade a equilibrar a fruta, que está bem presente, com bom volume de boca, na linha dos seus irmãos mais velhos. 2012 é já um clássico deste patamar, a fruta mais moderada embora presente, uma mineralidade intensa, elegante mas robusto, muito boa acidez, num conjunto muito equilibrado ainda com alguma juventude. 2010 é um Alvarinho já com alguma evolução em que a fruta quase desapareceu, para dar lugar a notas secas, aromas químicos deliciosos ainda muito suaves, mas onde a mineralidade granítica se mantém e se afirma. Redondo na boca, persistente, volumoso, até ligeiramente austero, com muito boa acidez a dar-lhe prolongamento final. 2009 é já um Alvarinho evoluído, muito elegante, até mesmo exótico, cheio de complexidade, com aromas terciários inebriantes e difíceis de distinguir mas por isso mesmo tentadores e um final muito longo, sedoso, seguro.

Passando para outro estilo, provaram-se os Contacto de 2014, 2012 e 2010. Um Alvarinho mais aromático, este 2014 ainda cheio de fruta tropical, intenso, muito fresco, aveludado, um dos mais gastronómicos, pede comida. 2012 apresentou-se mais fechado, embora no copo fosse evoluindo, ainda alguma fruta, mas mais madura, fresco e elegante. 2010 a apresentar alguma evolução, mantendo o perfil de suavidade, agora quase sem fruta, mas com toque seco e notas tostadas, muito envolvente na boca, com acidez intensa a dominar um belo conjunto.

Veio então o Muros de Melgaço com a sua garrafa estranha mas que é já uma referência. O 2013 apresentou-se cheio de força, notas de fruta tropical bem madura, muito maracujá, elegante e intenso, muito redondo na boca, com óptimo volume, um dos grandes clássicos de Anselmo Mendes. O 2009 apresenta grande evolução, já muito pouca fruta, muito suave, notas intensas de evolução, ainda alguma frescura, complexo mas muito seguro, ainda vai evoluir muito, para nosso prazer. Finalmente passamos aos dois patamares superiores dos Alvarinhos de Anselmo Mendes.

Primeiro os Curtimenta 2013 e 2012. O 2013 está poderoso, ainda com muita fruta, com notas tropicais, mas com uma mineralidade intensa e muita frescura. Na boca é incrível, a mineralidade quase salina a traduzir os terrenos graníticos na sua plenitude, fresco, acidez intensa e um final imenso. O 2012 é semelhante ao anterior, apenas mais elegante, mantendo o volume na boca, intenso, mineral, ligeiramente mais sedoso, a revelar que a evolução no tempo vai ser fascinante.

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A fantastic tasting – Photo by José Silva | All Rights Reserved

E terminamos uma prova fantástica com dois Parcela Única: 2013 e 2012. Qual deles o melhor! 2013 ainda cheio de juventude, a fruta tropical muito elegante, aveludado, cheio de requinte no nariz, quase um perfume. Na boca é envolvente, apresenta-se muito equilibrado entre a frescura, a fruta e a acidez, tudo dominado por uma mineralidade que se vai sentindo ao longo da prova, precisa de estar algum tempo no copo e não pode ser servido muito fresco. Final muito elegante e longo, muito longo. O 2012 em relação ao anterior tem um perfil semelhante, ainda mais elegante, a fruta a ficar mais suave, o perfume mais envolvente, muito complexo, um vinho fantástico.

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On the way out – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Deixamos Melgaço com a certeza que em breve teremos mais alguns excelentes vinhos no mercado. Em Setembro, lá estaremos nas vindimas.

Contactos
Zona Industrial de Penso, Lote 2
4960-310 Melgaço · Portugal
Tel/Fax: (+351) 227 128 541
E-mail: anselmo.mendes@netcabo.pt
Site: www.anselmomendes.pt

MAPA a nadar ribanceira acima como um Burbot

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

As estações potenciam oportunidades para beber diferentes tipos de vinho. Aqui na Finlândia podemos dizer que altura do ano é pelo que as pessoas estão a beber nesse momento. Durante a Páscoa bebe-se principalmente vinho tinto e, países como a Espanha e a Itália são bastante populares, especialmente os vinhos da Veneto, como o Valpolicella por exemplo. Se vir pessoas a consumir quantidades excessivas de espumantes baratos pelas ruas e parques de estacionamento, então provavelmente é dia 1 de Maio. No início do Verão os vinhos rosés começam a emergir como se fossem ursos que terminaram o seu período de hibernação.

Quando as pessoas começam a levar para as suas casas os vinhos bag-in-box, significa que o pleno Verão está a chegar. No final do Verão os rosés desaparecem tão rápido como apareceram e, quando os dias começam a encurtar as pessoas mudam a preferência para os tintos encorpados, provavelmente do Chile ou Argentina. Posso estar a exagerar um pouco, mas os finlandeses são bastante previsíveis no que toca a hábitos de beber. Em boa verdade acho que acontece o mesmo por todo o mundo.

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Ovas de Burbot – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tal como as quatro diferentes estações do ano mudam, também a comida e bebidas que consumimos mudam. Uma das iguarias desta altura do ano na Finlândia é o burbot. Provavelmente nunca ouviu falar dele, mas é um peixe. Não é de todo um dos peixes mais bonitos, parece um cruzamento de bacalhau com enguia, mas é sem dúvida um dos mais saborosos. A época do burbot é geralmente entre Janeiro e Fevereiro. Existem algumas maneiras de o cozinhar, mas a mais famosa é a sopa clássica de burbot. Certifique-se que retira as ovas antes de o deitar na panela. Normalmente comem-se em tostas ou blinis com cebola e natas. As ovas do burbot são de grão fino e extremamente saborosas. Normalmente a bebida de eleição para acompanhar seria uma cerveja e schnapps, mas eu optei por um vinho branco do Douro.

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MAPA Douro Branco 2013 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O Douro ainda é largamente visto como a terra do vinho do Porto. Se há 20 anos alguém dissesse que o Douro era capaz de produzir vinhos frescos não fortificados, a maior parte das pessoas apelidá-lo-ia de louco. Eu tenho a minha cota parte de altos e baixos na relação amorosa que tenho com o vale do Douro e os seus vinhos. Mas de vez em quando dou de caras com vinhos que me relembram a razão pela qual me apaixonei por ele. Foi esse o caso do MAPA Douro Branco 2013 que escolhi beber com as ovas do burbot. O MAPA vem de Muxagata, um local do Douro Superior. O vinho em si tinha menos aromas de frutos tropicais maduros do que eu estava à espera. Mais virado para citrinos frescos, brotos de abeto e um toque de pêra. O que realmente me impressionou foi a estrutura compacta do vinho que ainda assim ostentava uma certa ligeireza que conferia ao vinho um final longo e de deixar água na boca. Foi uma óptima harmonização com a comida e pareceu criar um burburinho positivo à mesa, o que é sempre bom.

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MAPA Vinha dos Pais 2013 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Com o prato principal, a sopa, bebemos o MAPA Vinha dos Pais 2013. É praticamente um lote típico do Douro com os suspeitos do costume, como a Rabigato, a Viosinho, a Arinto e a Gouveio. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho de 500 litros durante 12 meses. Ambos os vinhos eram de 2013, mas ao contrário do MAPA Branco este vinho pareceu-me demasiado jovem. Com a comida comportou-se bastante bem mas sem ela o vinho era um pouco estranho. O carvalho não estava realmente integrado, mas tinha uma mineralidade subjacente fantástica. Reconheço ainda que, após apenas mais um ano em garrafa poderá estar muito mais equilibrado. É uma daquelas coisas que é preciso esperar para ver. Após a pureza magnífica do primeiro vinho fiquei ligeiramente desapontado. Principalmente porque o carvalho parecia não encaixar e em vez de ter um perfil de sabor linear parecia algo desconectado. Posso apenas tê-lo encontrado numa fase estranha e irei definitivamente prová-lo de novo para ver a sua evolução.

No geral, o MAPA é realmente uma boa adição à fantástica categoria de vinhos do Douro Superior. Estou ansioso por beber mais dos seus vinhos e quem sabe, talvez, um dia visitá-los em Portugal, com ou sem o burbot.

Contactos
MAPA
Muxagata – Vila Nova de Foz Côa – Douro Superior
Urbanização Vila Campos, lote 40
5000-063 Vila Real
Tel: (+351) 259 374 155
Mobile: (+351) 938 537 914
E-mail: geral@mapavinhos.pt
Site: www.mapavinhos.pt

Pão com Presunto

Texto João Barbosa

Menino Carlitos, quanto são dois mais dois?

– São quatro, senhora professora.

O menino Carlitos cresceu, passaram a chamar-lhe Senhor Carlos (e apelido), e percebeu, num momento de proveitoso ócio, que dois mais dois podem não ser quatro. Chegou lá enquanto se deliciava com uma sandes de bom pão e excelente presunto.

Em gastronomia é frequente a matemática, no ramo da aritmética, não ser uma ciência exacta. A soma do pão, com o seu adocicado e um pouco acre, e do presunto, com o seu sal – simplificando: valem mais do que em separado.

A união faz a força… se não for desastrada. Entre o acerto e o desastre, as harmonizações do vinho (ou doutra bebida) com a comida são um jogo de prazer, de adivinhação e de conversa. Uns tenderão a juntar por afinidades e outros por disparidades. É como as relações amorosas:

– Que lindo casal, vivem juntos há 50 anos. Têm tanto em comum, que só poderia dar certo.

– Que lindo casal, vivem juntos há 50 anos. Se não fossem tão diferentes um do outro e certamente estariam divorciados no final do primeiro ano.

À vontade do freguês! Este desafio gastronómico enriquece culturalmente. Só por si, a comida pode ser apenas alimento. Vejo uma grande diferença entre comer e alimentar. Alimento-me para viver, já que não sou planta e, por isso, não realizo a fotossíntese. Como por prazer, tal como gosto de cinema, artes plásticas ou poesia. Vinho será apenas álcool se dele não tirarmos prazer da cor, aroma e paladar.

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Wine & Food in idealmagazine.co.uk

 

Confesso-me muito insensível à cor. Serve-me para perceber defeitos ou evolução, é instrumento de análise, é função e não forma. Não me embebedo com o rubi ou o âmbar. O mesmo não acontece com o aroma e o comportamento na boca.

Ainda assim, vinho não pode ser apenas vinho, ainda que gostando muito… um copo ao almoço, outro no final do dia de trabalho e um para o jantar… mais uns tantos numa festa – se conduzir, não beba.

O vinho tem de ser compreendido como um polígono. Se for visto apenas como vinho, para que interessam as condicionantes, naturais e humanas, que constituem o terroir? Dentro dum copo há, ou pode haver, história, literatura, música, memórias dum livro, lembranças de afectos.

Não gosto muito de me citar ou de palrar egocentricamente, mas aqui prefiro. Não sou dono de experiências alheias. E se quem divergir quiser tirar pagode, que o faça à minha custa – pois sou o dono da prosa – e não de alheios.

Um dia causei risota porque descrevi publicamente um vinho com uma identificação de lugar. Talvez pudesse enumerar um ramalhete diversificado, com algumas flores verdadeiras, outras induzidas, sugeridas, inventadas e de plástico. Era um vinho fantástico, de enorme complexidade. Aquele Vinho do Porto ficava em Óbidos, numa floreira enorme como uma floresta, pendendo na parede branca duma casa de regalo.

Outra vez defini um vinho com a palavra «Natal». Podia ter cantado uma ladainha: massa de bolo, frutos secos, fruta cristalizada, especiarias, blá, blá, blá… – oh tédio enfadonho! Sim, é um pleonasmo.

Quanto mais somarmos, maior será o resultado – exceptuando se escolhermos desgostos. Cada acrescento de história, antropologia e arte é mais do que a sua unidade. O resultado pode ser uma simples e sintética palavra… garanto, e bem que sou falador e vasto escrevinhador.

Cru: Os Vinhos de Luis Seabra

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Em 2012, Luís Seabra abandonou o seu prestigiado cargo de enólogo na Niepoort para se lançar a solo. Explica, “depois de tantos a fazer para outros aquilo que adoro, acho que chega uma altura em que pensamos, porque não fazermos para nós próprios”.

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Luis Seabra – Foto Cedida por Luis Seabra Vinhos | Todos os Direitos Reservados

A filosofia da Luis Seabra Vinhos está inserida no nome de marca Cru. O objectivo de Seabra é fazer vinhos “que realmente digam de onde vêm, vinhos de vinhas específicas, com intervenção mínima, vinhos verdadeiros e honestos, crus e puros…Regresso ao essencial.”.

“Regresso ao essencial” tem um tem um significado muito específico para nós britânicos. Foi o slogan de campanha que voltou para assombrar o ex-Primeiro Ministro Britânico John Major durante a década de 90 numa série de escândalos que abalaram o partido Tory. O que significará exactamente para Seabra?

Diz-me que “a única coisa utilizada nos vinhos é o enxofre (um agente antioxidante e antimicrobiano) ” e, mesmo assim, em quantidades baixas “apenas para manter os vinhos debaixo de olho.”. Acrescenta ainda “também prefiro ter mais oxigénio no sumo e nos vinhos jovens de modo a que se conseguiam estabilizar de todas as maneiras e possam envelhecer melhor na garrafa.”. O impacto desta abordagem de intervenção mínima é facilmente perceptível nos vinhos texturais, não forçados de Seabra e, em particular, nos seus vinhos brancos, que ao invés de um sabor frutado mostram um perfil mais terroso.

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Luis Seabra Cru Xisto Tinto 2013 old vineyard – Foto Cedida por Luis Seabra Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Em França, Cru também denota uma vinha especial ou área de vinhas. Embora de momento Seabra esteja a comprar parcelas de vinhas velhas a alguns viticultores que conhece há muito tempo ele diz, “no momento em que seja proprietário das vinhas poderei fazer CRU de um talhão específico”.

Sem dúvida que também vai adpotar uma abordagem de intervenção mínima no cultivo da uva. Por agora, admite, honestamente, “Tenho alguns conhecimentos sobre gestão de vinhas, mas estou a enganar-me a mim próprio. O que faço está lentamente a mudar a mentalidade dos viticultores… Se conseguir que um viticultor específico não utilize herbicidas num ano já será um grande feito para mim.

Além disso, na calha estão mais dois tintos da vindima de 2014 – um tinto do Douro e outro de “um projecto louco”, diz, com um produtor espanhol de Navarra, Laderas de Montejurra.

Abaixo estão as minhas notas dos seus primeiros lançamentos Cru 2013. Cada um carrega o nome do seu solo de origem – Xisto e Granito – cuja influência Seabra procura transmitir a nu para o copo. Poderão prova-los com Seabra no Simplesmente Vinho 2015 que será realizado na cidade Porto no fim deste mês.

Luis Seabra Vinhos Granito Cru Alvarinho 2013 (Monção-Melgaço,Vinho Verde)

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Luis Seabra Cru Xisto Branco 2013 & Granito Alvarinho 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Proveniente de quarto talhões em Melgaço. As uvas foram fermentadas e depois estagiaram 9 meses em borras, em tonéis de carvalho da Europa de Leste (um tonel novo de 2000 litros, e o outro, um experiente tonel de carvalho de 1000 litros). O vinho passou por uma fermentação maloláctica parcial. Citrinos picantes e frutas de caroço no nariz, seguido de um palato textural e terroso com borras suaves e almofadadas e um final melado. Um Alvarinho bem-feito e muito textural com uma subjacente acidez mineral, suave mas persistente. 12,5%

Luis Seabra Vinhos Xisto Cru Branco 2013 (Douro)

As uvas deste lote orientado a Rabigato são provenientes de três vinhas velhas em Meda (+80 anos), no Douro Superior, elevadas, entre 650 a 700m acima do nível médio das águas do mar. As outras castas (30% do lote) são Códega, Gouveio, Viosinho e Dozelinho Branco. Um vinho muito sugestivo com acidez dançante e mineral, que depois de algum tempo no copo, revela subtilmente camadas de fumo e noz no seu palato muito textural e vegetal a espargos brancos. Tal como o Alavarinho, demonstra borras muito distintas e almofadadas. 12%

Luis Seabra Vinhos Xisto Cru Tinto 2013 (Douro)

Luis Seabra Xisto Tinto 2013

Luis Seabra Cru Xisto Tinto 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este exemplar de barrica, um lote de Rufete, Touriga Franca, Tinta Carvalha, Alicante Bouchet, Donzelinho Tinto e Malvasia Negra entre outras, é proveniente de duas vinhas de Cima Côrgo com mais de oitenta anos, uma a 400m em Vale Covas, a outra a 570m em Ervedosa (o que é bastante alto para tintos). Ambas foram plantadas em solos de ardósia com predominância de xisto azul. As uvas foram fermentadas, sendo que 50% engaçadas, em barris de madeira abertos, de 3500 litros. O vinho estagiou depois em borras em barris de carvalho francês. É marcadamente um tinto fresco do Douro. Um mundo à parte de alguns dos estilos encorpados, ricos e robustos da região, mostra cereja vermelha crocante, cereja preta sumarenta e groselha e frutos silvestres e leve carvalho, permitindo que os seus taninos finos mas de carga firme e a mineralidade xistosa e enfumaçada tragam textura e interesse ao conjunto. Uma adorável intensidade de vinha, com caruma profundamente incorporada, e um perfume floral tintado que me traz à mente o Dão. Promissor e diferente, no bom sentido.

Contactos
Luís Seabra Vinhos Lda
Rua da Reboleira, Nº 19, 3º Traseiras
4050-492 Porto
E-Mail: lseabrawine@gmail.com

Até da amizade se faz vinho

Texto João Barbosa

Os portugueses têm uma enorme capacidade de inventar anedotas. Ou britânicos são subtis, algo frios e certeiramente inteligentes. Os alemães parecem não ter sentido de humor, mas têm… quem não tem são os suíços, ou não fosse a Confederação Helvética um ninho de banqueiros. Os alemães têm humor sem graça, mas fazem chalaças.

Disse-me uma amiga – alemã, por sinal – que o humor português é sádico. É verdade! Rimo-nos da desgraça alheia, ainda que duma personagem inexistente. Rimo-nos de nós mesmos, o que valorizo – traduz inteligência pelo auto-conhecimento, sentido crítico e relativização.

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Vinho & Amigos in wallpaperscraft.com

Acontece um fenómeno qualquer, em qualquer lugar do mundo, e o português fez dez anedotas na primeira meia hora após o incidente. Somos muitas vezes cruéis e injustos. Não deve haver português que não tenha ouvido a anedota do senhor Fonseca. No seu leito de morte chamou os filhos e ensinou-lhes uma esperteza:

– Nunca se esqueçam, que até das uvas se faz vinho.

Este senhor Fonseca nunca terá existido – deverá ser fruto de galhofa de mau gosto, ao citar-se uma pessoa real, e está datada. Reflecte uma época em que se valorizava produzir muito, interessando pouco o fazer bem.

Chamamos amigo a alguém que conhecemos há um mês e ignoramos a generalidade dos seus defeitos e virtudes. Porém, como tudo tem um começo, gosto dizemos que estamos a fazer amizade com alguém que acabámos de conhecer. Travar conhecimento parece suíço.

Gambrinus in gambrinuslisboa.com

Há uns dias fui ao Gambrinus – restaurante histórico da Baixa de Lisboa – beber umas imperiais com dois amigos. Um fugiu cedo e fiquei com o outro camarada à conversa, entre cervejas e croquetes… não hei-de estar gordo: um croquete tem praticamente as mesmas calorias diárias necessárias para um homem adulto.

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Imperial

A dada altura olhámos para o lado e estava um cavalheiro com um prato de ostras. Pediu para beber Moët & Chandon, o que nos deu oportunidade para encetar conversa. O meu amigo, ainda mais sociável do que eu, questionou-o por que escolhera aquele vinho.

Porque gostava, ora pois! Ah, sabe… temos belos espumantes… e coisital… que tal está? Palavra puxa conversa e ali ficámos, muito depois da hora prevista, conversando com o cavalheiro.

Um senhor simpático, de fácil conversa, educado… já disse cavalheiro?… Bem, o nosso interlocutor produz vinho na quentíssima região da Granja-Amareleja. A climatologia foi chamada para o debate, o amanho da terra naquelas paragens, história, a alimentação…

Sinceramente, não sei quantos quartos de hora durou a conversação. Sei que foram vários e tão agradáveis que foram escassos, travados pelos compromissos familiares. Ora o fazer amizade dos portugueses e a franqueza que o vinho merece proporcionaram um belíssimo momento.

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Guadelim Reserva 2009

À saída, o nosso bom conversador ofereceu-nos uma garrafa do seu vinho. Não conhecia. Guadelim Reserva 2009, com denominação de origem controlada de Granja-Amareleja. Potente e envolvente, com o calor daquelas paragens e muito longe de ser uma sopa ou uma compota. Nele mora ainda a madeira de azinho – obviamente inexistente – traduzindo uma boa integração e identificação.

O que ficou dessa conversa? Uma vontade de conhecer o território das vinhas donde saíram as uvas que fizeram o Guadelim e… uma noite cálida, neste Inverno bem frio, a jantar com amigos.

A propósito, Guadelim é nome duma ribeira. Pode ser Godelim, vem do árabe, quer dizer «rio da fonte», e mistura-se com língua germânica. Pois, até com dicionários se faz… água.

Restaurante “Cozinha do Manel”, vinte e cinco anos a servir boa comida

Texto José Silva

É um dos restaurantes clássicos da cidade do Porto, que celebrou recentemente vinte e cinco anos de vida. Fica na parte superior da cidade, na freguesia de Campanhã, não muito longe da estação de caminho de ferro com o mesmo nome. E continua a pertencer à mesma família, liderada pelo sr. Manuel, cujo diminutivo deu nome a esta casa de bem comer, muito conhecida na cidade, mas também um pouco por todo o país, onde foi criando clientes dedicados mas também muitos amigos. Aliás muitos desses amigos, que são ao mesmo tempo personalidades públicas bem conhecidas, estão registados em fotografias que ocupam a enorme parede da entrada, entre músicos, actores, jornalistas, jogadores de futebol e políticos.

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Parede da Entrada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas que nesta “Cozinha do Manel” são tratados como qualquer outro cliente, ou seja, são sempre muito bem tratados.

O sr. Manuel partilha a gestão da casa com o seu genro, enquanto mulher e filha partilham a cozinha e preparam os manjares que deliciam a clientela.

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O balcão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A casa tem à entrada um enorme balcão, onde outrora também se comia, e que é bordejado e ocupado por utensílios e artefactos antigos, numa decoração que tem também a companhia de imensas garrafas de vinhos e licorosos, muitos deles com uma respeitosa idade.

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Azeitonas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

Ao fundo do balcão, uma montra espelha a qualidade dos produtos, tendo sempre em exposição polvo, enormes postas de bacalhau, enchidos diversos conservados em azeite, azeitonas e vários tipos de legumes frescos, tudo à vista, sem truques. Logo a seguir é a cozinha, com um balcão de serventia onde são pousados tachos e travessas fumegantes que o pessoal de sala transporta para a mesa de seguida.

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Sala de Refeições – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Alguns degraus acima é a sala de refeições, sobre o comprido, com enorme janela ao fundo, decorada com sobriedade, azulejos até meio das paredes, grossas traves de madeira no tecto, soalho em tijoleira escura, de belo efeito. E uns curiosos quadros, que mais não são do que guardanapos de algodão do restaurante, em que alguns clientes fizeram desenhos, geralmente sobre a cidade do Porto, e que foram encaixilhados.

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Mesas bem-postas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As mesas são muito bem-postas, com atoalhados brancos imaculados e todos os pertencentes em cima, e o serviço é profissional e atencioso, bem liderado. A ementa do restaurante é relativamente curta, mas baseada em produtos de muita qualidade e uma confecção tradicional, genuína, apaladada. Há muito poucos grelhados, alguns cozidos, mas sobretudo comida de tacho, arrozes diversos e a grande tradição dos assados nos fornos de lenha, que são acesos todos os dias.

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Os fornos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Situados nas traseiras do piso inferior, com enormes portas de ferro, é quase um ritual acender os fornos pela manhã, com tempo, e novamente ao começo da tarde, para poder servir os assados ao jantar.

Por ali passam o bacalhau, o cabrito – este por encomenda – mas também diariamente a vitelinha saborosa, com as batatinhas tostadas por companhia.

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Vitelinha Saborosa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A acompanhar estes pitéus os grelos salteados ou um belíssimo esparregado, e um arroz que também vai àquele forno de lenha, simplesmente divinal.

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Salpicão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A refeição começa com pão e broa de milho, azeitonas, presunto, salpicão, bacalhau desfiado com cebola e azeite, bolinhos e pataniscas de bacalhau, petingas e alguns outros petiscos dependendo da época, que é sempre respeitada. Há sempre sopa de legumes, mas também pode aparecer uma canja ou umas papas de sarrabulho.

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Filetes fofinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A pescada fresca pode ser cozida com todos ou nuns filetes fofinhos, assim como o polvo, em filetes, na companhia de arroz do mesmo.

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Bacalhau – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O bacalhau é uma tradição da cidade e aqui neste espaço é venerado: assado na brasa ou no forno, posta enormes, no ponto, sempre com muita cebola e batata cozida ou assada no forno. Em alguns dias há prato do dia – terça-feira é “obrigatório” o arroz de pato – por vezes, durante o inverno, um soberbo cozido à portuguesa e duas vezes por semana as mais que tradicionais tripas à moda do Porto.

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Arroz com salpicão, morcela e toucinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Aqui na Cozinha do Manel preparadas com rigor, excelentes, com a curiosidade de, junto com o arroz, serem servidas rodelas de salpicão e de morcela e pedaços de toucinho, irresistível.

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Cabrito assado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O cabrito assado nos fornos de lenha, por encomenda, é delicioso, bichinhos pequenos, bem temperados, assados lentamente, tostadinhos por fora e suculentos por dentro, excelentes.

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Bolinhos de gerimu – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na sobremesa o leite-creme, mousse de chocolate, bolinho de gerimu e rabanadas fazem as delícias dos mais gulosos.

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Canecas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma garrafeira muito completa e uma grande divulgação dos vinhos verdes tintos, servidos com rigor, em canecas de loiça, de belo efeito.

Se tinha que apanhar um comboio, ali adiante na estação de Campanha, o mais certo é já o ter perdido…

Contactos
Restaurante A Cozinha do Manel
Rua do Heroísmo 215 4300-259
Porto, Portugal
Tel: (+351 )225 363 388

 

Uma boa escolha para do dia-a-dia

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes com a vontade de escrever sobre as novidades que entram no mercado ou sobre os inúmeros vinhos que fazem as nossas delícias, acabamos por esquecer e deixar de lado aqueles que no dia-a-dia nos fazem companhia à refeição. São os vinhos que bebemos em casa de forma completamente descomprometida, apenas porque nos apetece beber um simples copo à refeição, e que no caso dos brancos temos sempre uma garrafa pronta a abrir colocada no frio. São estes fiéis amigos que raramente têm um lugar de destaque perante tanta novidade e marca na ribalta. Um desses vinhos que me tem acompanhado ao longo da última década, ainda que com altos e baixos entre colheitas, tem sido o Adega de Pegões Colheita Selecionada branco.

Adega de Pegões Colheita Selecionada white Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Adega de Pegões Colheita Selecionada branco
Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Comprei este branco de 2013 no supermercado com um preço bem aliciante uma vez que não chega aos 3€, o lote teve ajustes e viu a certa altura a Pinot Blanc ser substituída pela Verdelho, de resto continua o blend de Arinto, Chardonnay e Antão Vaz, dos solos de areia da região de Pegões onde a respectiva Adega Cooperativa está localizada. Fermenta em barrica de carvalho francês onde estagia durante quatro meses com direito a batonage. A relação entre aquilo que custa e a satisfação que proporciona é elevada, ficando por vezes a pensar quantos vinhos de custo muito superior me deixaram renitente ou até defraudado com o tanto que custaram e o tão pouco que mostraram.

Um branco que acompanha bem pratos de carnes brancas ou peixe, mostra notas de fruta bem fresca por entre o tropical e frutos de pomar, ligeiro vegetal também fresco num conjunto a mostrar boa harmonia entre madeira e fruta, muito certinho com toque de ligeira baunilha que o envolve. Estrutura mediana com frescura, bem afinado, sente-se a fruta madura embalada por sensação de alguma cremosidade a meio do palato, final médio.

Contactos
Cooperativa Agrícola Sto. Isidro de Pegões
Rua Pereira Caldas nº 1
2985-158 PEGÕES VELHOS
Tel: (+351) 265 898 860
Fax: (+351) 265 898 865
E-mail: geral@cooppegoes.pt
Site: www.cooppegoes.pt

Quinta do Pôpa Homenagem 2009 para beber e quadrar

Texto João Barbosa

Quando se olha para trás, aí uns 20 anos, para situar um momento após a entrada na então Comunidade Económica Europeia (1986), que muito alterou Portugal, o país não é o mesmo. Em tantas coisas, são dois países.

Há 25 anos não havia canais de televisão privada e nem «restaurantes» MacDonalds – lembro-me de, em 1991, mocinhas adolescentes se concentrarem, junto ao primeiro «Mac», entusiasmadíssimas com a colecção de objectos que de lá traziam, como palhinhas, copos, etc. As marcas de roupa, normais na Europa, davam algum status – hoje parece ridículo.

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Festival da Canção in aluzdomeucaminho.blogs.sapo.pt

O Festival da Canção, o Eurofestival da Canção e o Natal dos hospitais eram um acontecimento. Os dois primeiros, por serem emitidos à noite, reuniam «todo» o país e eram assunto de conversa nos dias seguintes. Já o outro programa, que durava horas infinitas, tinha como espectadores reformados e pacientes hospitalares.

O país era, talvez, ingénuo, com tanta modernidade para aprender. Ter-se-ão perdido coisas boas, mas também infelizes. Como tudo. Para mim, há 25 anos foi o começo do meu ofício, no Diário Económico, órgão onde talvez tenha sido o mais jovem redactor.

Bebia-se mais vinho e os «mais velhos» bebiam o «da casa». Havia pipos e tabernas. Nesse começo dos anos 90 um vinho duriense ganhou uma projecção enorme – julgo por causa dum prémio – e tornou-se apetecido, mais caro. Pelo pioneirismo ainda muitos o têm a marca como referência nos píncaros: o Cabeça de Burro, das Caves de Vale do Rodo. Não é o que foi, como se comprova pelos cerca de 7,5 euros com que é vendido ao público.

Passou-se do oito ao 8000. O número de agricultores diminuiu, mas aumentou o de produtores engarrafadores. Fixe! Mas são tantos, tantos, tantos, que é impossível conhecê-los todos e, mais ainda, provar todos os seus néctares. E continuam a brotar, a fonte parece inesgotável.

Por diversas razões, alguns produtores recentes ganham projecção. Uma das razões – a principal ou que deveria ser a mais importante – é a qualidade do produto que põem no mercado. Não basta. Há que ter cuidado com a designação da marca, com o aspecto do rótulo e perceber que se navega numa multidão. São cada vez mais os vitivinicultores que recorrem a profissionais de comunicação e, por isso, agências especializadas iluminam os seus clientes.

Todavia, tudo vai bater ao ponto inicial: a qualidade. Ainda jovem, a Quinta do Pôpa é uma mais-valia para os enófilos. Gente jovem e dinâmica está merecidamente a ganhar lugar nas notícias e artigos – e cá estou eu a juntar-me à festa. Todo o profissionalismo concentra-se no fundamental: qualidade e «honestidade».

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@ Quinta do Pôpa – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

Esta honestidade que refiro é a de transmitir a natureza ao produto final. Vinho verdadeiro, sem máscaras ou artifícios. A Quinta do Pôpa faz vinho Quinta do Pôpa. O cuidado e o rigor têm uma origem acrescida: o saber e arte de Luís Pato, um dos homens que ousam afirmar e fazer excelentes vinhos com a complicada casta baga, da Bairrada.

Francisco Ferreira, conhecido pela alcunha do «Zeca do Pôpa, fez pela vida e conseguiu amealhar para comprar uma quinta no Douro, em 2003. Situada em Adorigo, no Concelho de Tabuaço, a Quinta do Vidiedo, com 14 hectares, foi rebaptizada, em 2008, para Quinta do Pôpa. Os netos quiseram homenagear o avô e concretizar o seu sonho de fazer vinho.

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Vanessa Ferreira e Stéphane Ferreira – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

A primeira colheita foi em 2007. Este ano, Vanessa Ferreira e Stéphane Ferreira, netos do «Pôpa» lançaram o Quinta do Pôpa Homenagem 2009.

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Quinta do Pôpa Homenagem 2009 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

As uvas vieram de vinhas velhas (40%) e de talhões individuais de tinta roriz (35%) e touriga nacional (25%). Fermentações separadas em pequenos lagares de inox, macerações prolongadas, onde foram pisadas a pé. O vinho foi directamente para barricas de carvalho francês – 40% novas e 60% de segundo e terceiro anos.

Escrever acerca de evocações é-me doloroso, pelo receio de se ser deselegante ou desagradável. Remato com a sentença de que a homenagem calhou muito bem. Honra pela qualidade e respeito pela terra e suas uvas.

Contactos
Quinta do Pôpa, Lda.
E.N. 222 – Adorigo
5120-011 Tabuaço
Portugal
Email: geral@quintadopopa.com
Telemóvel: (+351) 915 678 498
Site: www.quintadopopa.com

Restaurante Caxena

Texto José Silva

É num local improvável que descobrimos um restaurante que ficaria bem em qualquer cidade do litoral ou do interior.

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Situado no cimo da Serra do Suajo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas está situado no cimo da serra do Suajo, pertencendo ao concelho de Arcos de Valdevez, num local de grande beleza, com uma paisagem soberba, aqueles montes agrestes, com vegetação rasteira e algum arvoredo aqui e ali. A fauna, muito característica, é sobretudo composta pelo gado bovino da raça autóctone cachena, um boi de monte que se alimenta nos pastos abundantes, e dos garranos, cavalos selvagens que vivem em liberdade por aquelas serranias. Também aparecem javalis e alguns veados, e os lobos são por ali bastante abundantes. Pelos céus limpos esvoaçam milhafres e águias, a par das outras aves mais vulgares. Foi este sossego, esta tranquilidade, toda esta beleza, que entusiasmaram o proprietário, um empresário de Barcelos, que resolveu comprar uma ruína – um pouco atrás do local onde se situa o restaurante – que recuperou para ali passar fins-de- semana e férias com a família. Mas, quando resolveu abrir o espaço ao turismo rural, nunca mais lá conseguiu ir com a família, tal foi o sucesso.

Então comprou, mais à frente, várias casas duma minúscula aldeia, que recuperou e equipou, para o mesmo fim, com sucesso semelhante. E foi com naturalidade que, seguindo também os pedidos dos muitos e muitos hóspedes, acabou por recuperar outra ruína e construir o restaurante “Caxena”, a poucos metros das casas de turismo.

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Ar rústico, em granito – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com um ar rústico, em granito, que ali é abundante e também molda a paisagem, é completado com muita madeira, quer no exterior quer no interior.

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Simpático bar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá dentro, no rés do chão, um simpático bar, com balcão e sofás, e um expositor com alguns  produtos da região para venda, e que funciona também como wine bar, até às 23 horas.

Peças do um lagar antigo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Num recanto, algumas peças antigas do que teria sido um lagar, e depois, no interior, outra surpresa, a garrafeira do restaurante, muito bem decorada e recheada com muitas referências de bons vinhos de várias regiões.

Garrafeira e Carta de vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Este espaço é também a carta de vinhos, pois os clientes são convidados a vir ali e escolher o vinho ou vinhos que vão apreciar à refeição, estando todos eles com o respectivo preço indicado, e refira-se que são preços extraordinariamente acessíveis.

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Primeiro Piso – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma escadaria de madeira leva-nos ao primeiro piso, onde a sala se abre para a paisagem em enormes vidraças, com muita luz a entrar por ali dentro. Mais uma vez decoração muito atraente, aqui com os tectos totalmente em madeira, assim como o soalho, em madeira corrida.

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As paredes – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Algumas paredes em granito e outras em tijoleira, numa das quais está encastrado um bonito e útil recuperador de calor, a dar conforto ao espaço, neste tempo de frio intenso.

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As mesas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mesas de boa madeira muito bem-postas, com utensílios de qualidade. O serviço está a cargo de pessoas competentes, com formação, de bom gosto, atentos, com muita simpatia, impecável. A ementa é reduzida, e utiliza produtos endógenos, da região, fazendo assumidamente a sua correcta divulgação, o que é de aplaudir, para além dos petiscos que se podem apreciar durante o dia, no wine bar, para fazer companhia aos vários tipos de vinho. Na nossa refeição começamos pelo pão regional e a broa dos Arcos de Valdevez, comprada a um fornecedor que respeita a tradição, preparada com farinha de milho e cozida em forno de lenha.

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Preseunto & Queijo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E que acompanharam muito bem presunto delicioso, queijo seco e um requeijão fantástico, também de produção local.

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Feijão Tarrestre – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa mesinha de apoio está exposto o feijão também produzido por ali, o feijão tarrestre, nos seus tons castanho, beije, branco, vermelho e até preto, que seria utilizado no arroz, e que pode ser comprado ali mesmo.

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Entradas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Veio seguidamente um misto de entradas composto por pimentos padrón, cogumelos salteados e duas confecções tendo por base a carne de vaca cachena: uma espetada grelhada no ponto, com cubos de carne, chouriço, bacon, tomate e pimento verde, e um picadinho ou estufadinho, pedacitos de carne de vaca estufados, com cebola e cenoura, molho apuradinho, muito bom.

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Belouros – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

Mas também se experimentaram os belouros brancos, feitos de farinha de milho amassada com um pouco de banha, tendida de forma a formar um rolo, de que se cortam rodelas grossas que são fritas em banha e, já no prato, são polvilhadas com cominhos. Um primor de simplicidade e paladar!

E chega a hora do prato principal, em que há duas ou três opções. Optou-se pela posta de carne de vitela cachena, grelhada na brasa só com sal, e que foi acompanhada com o tal arrozinho malandrinho de feijão tarrestre.

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Carne Saborosa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Carne muito saborosa, tenra, suculenta e um arroz fantástico, bem temperado, de chorar por mais.

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Arroz Malandrinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fechou-se um belo repasto com dois produtos também locais: a laranja, doce e muito sumarenta, e os charutos dos Arcos, massa fininha recheada com doce de ovos.

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Cerqueiral 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Acompanhou-se esta refeição deliciosa com um vinho verde tinto da região, o Cerqueiral já de 2014, servido nas malguinhas características, encorpado, espesso, suave no nariz mas concentrado na boca, fresco e com acidez intensa, a ligar muito bem com a comida.

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Malguinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois da refeição, um passeio a pé por um dos muitos trilhos que por ali existem recomenda-se vivamente…

Contactos
Lugar de Oucias,
Carralcova
4970-105 Arcos de Valdevez
Telemóvel: (+351) 969 804 619
Telemóvel: (+351) 962 632 488
D’Avillez Garrafeira 1995

Texto João Pedro de Carvalho

Em 1369 a família Avillez radicou-se em Portalegre, instituindo diversos morgadios. A partir de 1980, Jorge D’Avillez reestruturou as vinhas respeitando as castas tradicionais na região, e a vinificação passou a ser feita numa nova adega, na Quinta da Cabaça, de acordo com a moderna tecnologia. Em 1990 com a enologia da empresa José Maria da Fonseca, nascem as marcas D´Avillez e Morgado do Reguengo, os Garrafeira foram durante uma década símbolos do melhor que se produziu na região, tendo por direito próprio lugar entre os grandes vinhos criados em Portugal.

O último exemplar terá sido o Garrafeira 2000, já longe das performances dos seus antecessores, a estocada final foi dada com a venda da Quinta da Cabaça em 2005 para a Adega Cooperativa de Portalegre. A marca ficou no limbo, surgindo agora pelas mãos da Herdade dos Muachos, não tendo qualquer ligação com aquilo que foi no passado.

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D’Avillez Garrafeira 1995 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

 

Este D´Avillez Garrafeira 1995 é um verdadeiro monumento, um daqueles vinhos arrebatadores e que nos mostra de forma clara o motivo pelo qual Portalegre é considerado um região com condições únicas para a produção de grandes vinhos. Nos 1,3 ha de vinha situada em solo xistoso, nasceu de um lote composto por Trincadeira (50%), Aragonês (35%) e Tinta Francesa (15%). Nos primeiros anos após lançamento no mercado, o vinho era compacto e austero, duro, com tudo ainda muito fechado e escondido. O tempo que passou por ele foi sabiamente lapidando este diamante.

O que se destaca é a frescura que abraça todo o conjunto, tudo muito limpo e no mesmo patamar qualitativo, mostrando uma invejável harmonia de aromas e sabores. Fina e delicada complexidade, ervas aromáticas, fruta madura que quase se trinca (cereja, morango), leve ponta de licor com fundo terroso e especiado, Conquista a cada gole, puro deleite, profundo e delicado, um vinho adulto em plena forma, ombreando sem problema com o que de melhor se faz lá por fora.