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Vins de Soif: Os Super-Sofisticados Vinhos Quotidianos de Portugal na Moda

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Os vinhos de Tiago Teles não poderiam encontrar maior contraste do que o EXPLICIT tinto, the subject of my last post.  Não foi surpresa nenhuma para mim que Teles tivesse sido influenciado pelas suas últimas viagens a Beaujolais e à Borgonha. Os vinhos tintos de 2013, Gilda e Maria da Graça, são tão perfumados e femininos quanto os EXPLICT tintos são musculados e masculinos. Os níveis de álcool são pólos opostos! O EXPLICIT 2012 com 15.5%, o Maria da Graça 2013 com 11%.

Qual dos estilos gosto mais? Na verdade, gosto dos dois. Como Dave Powell, fundador da Torbreck Wines (produtor de ousada alta octanagem, mas sempre equilibrada, belezas de Barossa) uma vez memoravelmente me disse. “não significa que queira comer bife todas as noites”.

Para mim, um dos aspectos mais excitantes do vinho é a diversidade de estilos. Com um número vertiginoso de variáveis associadas ao terroir, castas, vindimas e vinificação, apreciar o vinho é excitante, uma aventura interminável. Na verdade, agora que penso nisso, reconheço que os tintos de Teles são ambos estreias para mim. Acho que nunca tinha provado nem um lote de Merlot, Tinta Barroca e Tinta Cão, nem um lote de Alfrocheiro e Alicante Bouschet.

Contudo, como Teles realçou na entrevista do ano passado, as castas são menos importantes do que a origem e, sem dúvida, ambos os tintos, como ele diz “transmitem exactamente o perfil calcário e frio da Bairrada”. Quase se pode sentir o frio dos ventos do Noroeste Atlântico desta região costeira e o barro húmido sob os seus solos calcários.

Em Londres, a intervenção mínima de Teles, o estilo “vin de soif” (leve, fresco, de matar a sede, baixo teor alcoólico) é actualmente moda nos bares de vinhos e lojas independentes que surgiram na minha freguesia, em Hackney. Se este estilo lhe for apelativo, da próxima vez que for a Londres faça um percurso por estes sítios, Trangallán, Brawn, Sager & Wilde, Rawduck, Primeur, VerdenNoble Fine Liquor, Bottle Apostle e Borough Wines.

Aqui estão as minhas notas sobre os tintos 2013 de Teles:

Tiago Teles Gilda 2013 (Bairrada)

Este lote de Merlot, Tinta Barroca e Tinta Cão vem de solos argilosos e calcários. As uvas foram colhidas na segunda semana de Setembro. O tom pálido de carmesim/rubi revela o delicado estilo vin de soif. Nariz fresco e vivo, o palato revela jorros suculentos e brilhantes de ameixas e framboesas acabadas de apanhar – adorável pureza de frutas e animação. Ao abrir, notas de tabaco e especiarias aumentam o interesse. Taninos gentilmente agitados conferem textura e prolongam um equilibrado e sereno final. 12.5%

Tiago Teles Maria da Graça (Vinho do Portugal 2013)

A Alicante Bouschet tem polpa roxo escuro (a maior parte das uvas tintas tem polpa vermelha). Os seus pigmentos mancham as folhas das vinhas e conferem uma tremenda profundidade, escura como tinta, aos vinhos, e no entanto este lote de Alicante Bouschet e Alfrocheiro ainda é mais pálido do que o Gilda. Sem madeira, também é mais delicado, ao estilo Beaujolais com os seus suaves taninos sedosos (para acompanhar peixe), perfume floral de peónia e frutos silvestres e suculentos. Delicado e fresco é delicosamente digerível e tem apenas 11%.

Aqui estão os três mais vivos “vin de soif” tintos Portugueses que eu recomendaria:

Campolargo Alvarelhão 2012 (Bairrada)

Feito por Raquel Carvalho, que também fez os vinhos de Teles, esta rara uva tinta produz um tinto muito perfumado, frutado, fresco com pimenta branca, violetas e a caruma levam-no aos seus tons de cereja amarga subtilmente carnuda e salgada. Uma massagem de taninos de fruta empresta uma aderência muito suave e atractiva. 12.5% abv

Filipa Pato & William Wouters Post Quercus Baga 2013 (Bairrada)

Este pálido vinho rubi é feito a partir das mesmas uvas Baga de vinha velha que o Pato’s Nossa Calcario. Contudo, ao contrário do Nossa, que é envelhecido em carvalho (quercus), este vinho foi envelhecido subterraneamente em duas ânforas de 300 litros. Ânforas porque, primeiro são feitas de barro – o solo da região (que de facto dá o nome à região). Em segundo porque o barro permite uma micro-oxigenação suave que, juntamente com uma abordagem não interventiva, de extração vis a vis (simplesmente passa por uma longa fermentação com as películas), é responsável pelos seus taninos suavemente finos. A fruta sempre bonita e pura – cereja vermelha, caroço de cereja e ameixa suculenta e, embora delicada, brilha intensamente, perdurando no palato. Adorável – um tinto para um dia alegre de verão num piquenique. 11.5% abv

Anselmo Mendes Pardusco 2012 (Vinho Verde)

Após o desengace e esmagamento, este lote de 40% Alvarelhão, 30% Borraçal, 25% Pedral e 5% Vinhão foi fermentado a frio durante 12 horas e prensado após apenas 12 de fermentação com as películas. É fresco, viçoso, seco e persistente com baga vermelha e cereja e um toque floral no final. Muito arredondado nos taninos, acidez e fruta, bebe-se extremamente bem para um Vinho Verde tinto. 12.5%

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1350-316 LisboaS. Condestável
Portugal
Email: tiagoteles@outlook.pt
Site: www.tiago-teles.pt

Contra todas as expectativas

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Na Finlândia não é fácil encontrar uma boa garrafa de vinho português. Quando comecei a bradar por aqui sobre os vinhos de Portugal, a escolha era escassa. Hoje em dia a possibilidade de escolha é maior mas continua pequena. Nas “escolhas básicas” das lojas monopólio, há aproximadamente 22 tintos portugueses diferentes, 9 brancos, 2 espumantes e um rosé. Há mais alguns na selecção especial mas a maior parte das pessoas nunca a utiliza ou tão pouco conhece a sua existência. Não há muito por onde escolher. Fico contente por as pessoas se mostrarem interessadas e por alguns vinhos esgotarem mesmo, devido às boas críticas que receberam.

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Cabeça de Toiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Fui à loja monopólio mais próxima e peguei no primeiro vinho português que não que ainda não conhecesse. Foi o Caves Velhas Cabeça de Toiro Reserva 2010 do Tejo. A Caves Velhas pertence à Enoport United Wines que é um grupo de antigas adegas portuguesas tais como a Adega Camilo Alves, Caves Dom Teodósio, Caves Moura Basto e mais algumas. O vinho era um lote 50/50 de Touriga Nacional e Castelão. A garrafa veio numa caixa de cartão que estava coberta de fotografias de medalhas e outros feitos, que este vinho em particular recebeu. Não augurava ser algo bom.

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Rolha – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Ao provar o vinho achei que a Touriga Nacional combinava muito bem com a Castelão. A Castelão a suavizar o aroma floral da Touriga, sem no entanto perder um bocadinho que seja da sua intensidade. Tal como o rótulo sugere é um vinho robusto. Encorpado, com fruta madura e aromas de carvalho terroso. Estava à espera de algo mais pesado mas felizmente não era. Não deixa de ser um vinho com alguns “tomates” mas, talvez com comida se revelasse exactamente aquilo que o médico havia receitado.

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Tagliata picante e guacamole robusto à Ilkka – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Então, tive que fazer um grande bife para acompanhar. Normalmente consigo cozinhar um bom bife, mal passado é claro, mas desta vez deixei-o passar o ponto. Distraído pelo copo de vinho na minha mão, esqueci-me do bife e o resultado foi um bife bem passado. Raios! Ainda estava com fome portanto tinha de pensar em algo. Então surgiu-me a ideia de uma picante tagliata-esque de bife fatiado. Também fiz um puré de guacamole e voilá, o almoço estava pronto. E estava muito bom, sou eu que o digo. Mas a coisa mais surpreendente foi quão bem o vinho acompanhou este tipo de comida picante. É óbvio que acompanha bem um bife, mas um bife com pimenta, limão e coentros, quem diria… Ainda que eu tenha feito asneira a cozinhar, o vinho conseguiu salvar o dia.

O branco dos Druidas

Texto João Pedro de Carvalho

A figura do Druida, associada à mitologia Celta, detinha o saber das palavras e da escrita, tal como da cura, especialista nas práticas de magia, sacrifício e augúrio, baseado numa filosofia natural, procurava buscar o equilíbrio, ligando a vida pessoal à fonte espiritual presente na Natureza. Tendo como princípio esse mesmo respeito e ligação com a natureza e acima de tudo uma forte ligação à terra, surge este projeto de dois enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa. Escolheram o Dão e a casta Encruzado com a vontade de criar um branco de topo, nascido de uma vinha com 40 anos de idade situada a 500 metros de altitude na Quinta da Turquide, ali bem perto da Serra da Estrela. Um projecto minimalista onde as produções são sempre muito limitadas como no exemplo do Druida tinto cuja produção se limitou a apenas 500 garrafas.

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Druida Encruzado Reserva 2012 branco – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

O Druida Reserva branco 2012 seguiu o seu percurso de forma natural, fermentando usando apenas leveduras autóctones e meditou em barricas de carvalho francês durante nove meses. Tal como a casta, o vinho é de caracter bem vincado, teimoso, envergonhado, diga-se de passagem que por vezes assume uma faceta de polimorfo tal e qual o Druida. A Encruzado é uma casta que precisa de tempo para se acomodar e poder então sim mostrar todo o seu esplendor, neste caso o vinho está ainda em crescimento precisando um pouco mais de paciência. A prova que dá neste momento coloca lado a lado uma complexidade ainda em fase de construção suportada por uma belíssima dose de frescura. A austeridade mineral ainda domina a fruta, tudo com uma madeira que surge com grande subtileza, num conjunto qual riacho pleno de frescura, com margens floridas, vai quebrando a pedra, lavando a fruta de pendor citrino, numa prova que nos transporta para o dito local com a Serra da Estrela em pano de fundo.

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O melhor vinho

Texto João Barbosa

O melhor vinho do mundo é português, da minha região, do meu concelho, da minha freguesia, da minha aldeia e, por acaso, é o meu. Este raciocínio é partilhado, no todo ou na parte, por muitos portugueses.

Obviamente que não há «o melhor vinho do mundo». O bairrismo é muito português e dá-me gozo, se não for alarve, pois gera conversa, troca informações entre divergentes. Gosto do espírito (saudável) de família, clã e de tribo.

Penso que é unânime que nunca houve tão bom vinho em Portugal como hoje. Porém, sempre se fizeram vinhos de excelência. Antes de existirem enólogos já se fabricavam néctares divinos. Mérito da natureza, certamente, mas sobretudo do produtor.

Os antigos não eram burros. Sabiam o que faziam e, certamente, conheciam coisas que hoje são desconhecidas de muitos profissionais experimentados e cultos.

Dou um exemplo que não diz respeito ao vinho. Um amigo teve, a dada altura, uma oficina de prataria, destinada a restauros de antiguidades e reproduções de qualidade. Contratou um grupo de ourives de reconhecida qualidade e tarimba. Porém, quando a peça tinha origem mais remota do que o século XVIII (inclusive) nem sempre se sabia o que fazer.

Alguns males deste país são a falta de arquivos, por desleixo, terramotos, maremotos, incêndios e pilhagens de guerra. Perante o desespero e vontade de desistência dos artífices, o meu amigo reuniu a equipa e sentenciou:

– Caros amigos, os antigos não eram estúpidos, como hoje não somos mais estúpidos do que eles. Se faziam «estas» coisas é porque era possível fazer. Se é possível fazer, vamos fazê-las. Não há outra hipótese.

Procurou e encontrou bibliografia e fontes de informação, estudou as peças. Os oficiais e mestres leram, digeriram e, passado um tempo, estavam a trabalhar reproduções ou reparações de artefactos cujo conhecimento técnico se perdera.

As romãs enxertam nas laranjeiras, com vantagens, embora o oposto não seja possível – nem dá hipótese. É estranho, porque não fazem parte da mesma família. Não conheço agrónomo que explique.

Os antigos sabiam, empiricamente, que o cultivo de leguminosas junto às vinhas era benéfico, além de fornecer alimento. Que (caso de Colares) as macieiras contrabalançam o desgaste causado pelas videiras, fazendo fé no que me disse um homem da região.

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Vinho in wikipédida.org

 

Espero nunca perder o deslumbre continuado pelas coisas do vinho e da lavoura – da natureza e do homem. O Vinho da Madeira é maravilha (sem o artigo, como diziam os medievais) de se ver, sabendo dos seus padecimentos.

Os meus 45 anos permitiram-me «ver» uma multidão vinhos novos e velhos imbebíveis, mas também de pérolas. Hoje, com todo o conhecimento e mão-de-obra qualificada, é fácil encontrar um bom vinho. O que não era verdade, por isso encanto-me com peças de arqueologia e/ou museologia enológica.

Sei que serei fustigado por só escrever alguns e dos mais recentemente revelados, mas vai: o Taylor’s Scion, o Taylor’s Single Harvest 1863 ou o Moscatel de Setúbal Superior 1911 são colossos. A Sogrape prepara-se para celebrar os 225 anos da Sandeman e é de esperar outro grande vinho, tal como foi Kopke 375, que marcou o aniversário da casa.

A vida destes vinhos, todos aguardentados, é naturalmente mais longa. Todavia, nos «normais» há, por exemplo, excelentes Bairrada, Dão e até Alentejo…

Voltando ao princípio, ao amor ao terrunho, que tolda a lógica e o bom-senso; um produtor alentejano lançou, há um ano (dois ou três) um licoroso com oito anos de estágio em barrica. O preço de saída ombreava com o de prateleira de Vinho do Porto 20 anos.

O Alentejo é o Douro – nas condições de excelência para este género como na qualidade consistente percepcionada. O preço do abafado alentejano era estapafúrdio. Que saiba, vendeu-se todo. A quem? A quem acredita que o vinho da sua região é o melhor de Portugal, quiçá do mundo.

Poucas certezas e muitas mais dúvidas

Texto João Barbosa

Diz um amigo que as tradições são para se quebrarem. Nesta provocação cabem verdades boas e lamentos. Já não se queimam «ímpios», como já ninguém sabe fabricar as talhas de barro, para a feitura de vinho no Alentejo – perda de conhecimento histórico e antropológico.

Esta coisa das tradições é como a do gosto. O gosto discute-se e deve ser discutido; o que não se discute é o direito à oposição e o respeito que exige. No caso do vinho, e outros alimentos, uma denominação de origem deve ser mais do que uma delimitação geográfica. De todos os factores, debruço-me no primordial: casta.

A casta e a sua ligação à terra são a herança, património transmitido aos futuros. Contudo, devem ser um travão à imaginação, gosto, etc. Se um vitivinicultor quiser fazer azul, quando a tradição é verde, deve ser livre de o fazer. O que não é correcto é chamar verde ao que é azul.

A questão está no rótulo, na palavra referente ao território e à uva que é seu emblema. Um vinho com denominação de origem controlada não é melhor nem pior do que um regional; são coisas diferentes e separadas se devem manter.

Discutir as castas da Bairrada é uma tradição. Quanto a mim, no topónimo não cabem as cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, etc. Como não cabem apenas a baga e a maria gomes.

É verdade que, nessa região, a presença de variedades estrangeiras não é propriamente recente. A partir de que tempo se pode considerar como «autêntica»: dez anos, 20, 30, 100?

Reconheço alguma xenofobia. Tanto mais que há castas estrangeiras em Portugal há séculos, como a malvasia ou a moscatel de alexandria. Essas são portuguesas, e o que dizer da alicante bouschet que encontrou o seu habitat no Alentejo?

Há outra questão, a da transumância interna. A touriga nacional tem tanto de alentejana quanto a syrah. Aqui sublinho a alvarinho; partilhada por minhotos e galegos. Descoberta como grande casta, tornou-se apetecível noutras paragens.

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Casta alvarinho in wikipédia.org

Num primeiro momento reinou algum provincianismo quanto à permissão do uso rótulos da região dos Vinhos Verdes, que não da sub-região de Monção e Melgaço. Podia haver alvarinho num rótulo alentejano, mas não num de Ponte de Lima. Chegou-se a um acordo, a 13 de Janeiro, muito feliz. Todos podem usar o nome da casta, mas a sub-região de Monção e Melgaço vê reconhecida a sua especialidade através de selo de garantia exclusivo.

Ao problema da autenticidade acrescento os factores enológicos … com a padronização dos processos, será que Regional Alentejano, Regional Tejo, Dão ou Douro não ficarão parecidos? A tecnologia não esbate o território e casta?

No afã de diferenciar acontecem coisas como as verificadas na Beira. Não entendo o mapa. O problema não é haver muitas denominações de origem, mas sítios sem valor-acrescentado ou especialização, «lugares inexistentes».

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Folha de alvarinho in wikipédia.org

Isso, o consumidor não percebe, mas entende escalas. Devia existir uma tabela de classificação: Primeira Classe, Segunda Classe, etc. Lá estou eu a complicar e já basta o que é – dirão muitos. Complicado é andar sempre a mexer na toponímia e tratar por igual o que é diferente.

O que pensa um consumidor estrangeiro ao ver um Douro a três euros e outro a 80 euros? Mais caro não é melhor, é sabido. Não é mais claro assumir diferença e/ou especificação de terroir?

Explicar a um estrangeiro que Portugal existe e faz vinho há milénios é tarefa vivida por muitos. Colocar a diferenciação numa casta – que se pode cultivar até em Marte – é preferível a dizer a verdade?! Que fazemos lotes? O trabalho de explicar touriga nacional e blend não é o mesmo? Antes mais cedo do que depois ter de dizer que o Pai Natal não existe.

Não me considero analfabeto, pelo que opto pelo princípio da incerteza. Tenho preferência, não sou peremptório. Daqui por uns 300 anos a merlot não será – pelos meus argumentos – tão bairradina quanto a baga? Vencido, mas não convencido! Por paixão e pouca lógica.

A Vinha das Romãs

Texto João Pedro de Carvalho

No Monte da Ravasqueira (Arraiolos) decidiu-se em 2002 arrancar um conjunto de romãzeiras que ocupavam um área de cinco hectares para ali se plantar vinha, mais propriamente Syrah e Touriga Franca. Aquela vinha passou a chamar-se a Vinha das Romãs e cedo ganhou protagonismo pela qualidade destacada dos vinhos a que dá origem, revelando uma concentração e um nível de maturação único em toda a área de vinha do Monte da Ravasqueira.

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Vinha das Romãs 2011 & Carne de Porco à Portuguesa – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

É por isso mesmo um “single vineyard”, “monopole”, “vino de pago”, onde o terroir imprime características diferenciadoras e únicas. Aqui o que se procura é o equilíbrio perfeito entre as duas castas, isolando a cada colheita as melhores zonas de cada casta que melhor transmitem a singularidade do local.

Este 2011 é o melhor Vinha das Romãs até à data, conta com Syrah (70%) e Touriga Franca (30%) num perfil claramente Alentejano em que se conjuga frescura e uma qualidade da fruta bastante acima da média. Limpo, boa complexidade com a barrica onde passou vinte meses muito bem integrada num conjunto harmonioso, baunilha e muita fruta negra bem redonda e gulosa, regaliz, especiarias com uma frescura que tantos dizem não fazer parte dos vinhos do Alentejo, como andam enganados. Um belíssimo vinho do Alentejo, que sabe bem, que dá muito prazer ao ser bebido, corpo mediano com muita fruta a explodir de sabor, taninos a conferir algum nervo ao conjunto que se mostra muito envolvente, longo e prazenteiro.

Contacts
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Site: www.ravasqueira.com

Esotérico Não Erótico: Os vinhos Explicit da Jorge Rosa Santos e Filhos

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Já lá vai o tempo em que tive aulas de Latim. E não tenho memória de alguma vez ter feito um enólogo corar, mas Jorge Rosa Santos (júnior) corou enquanto explicava que a marca da sua família, “Explicit”, deriva da expressão latina explicare.

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EXPLICIT tinto, à base de solos xistosos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Significa “revelar-se” e, portanto, também tornar visível. Neste caso, o terroir muito particular das vinhas íngremes e cobertas de xisto da sua família, nas encostas da Serra d’Ossa perto de Estremoz, no Alentejo. Portanto e desde já, vamos deixar isso claro, não é uma referência erótica, antes esotérica. E é uma alcunha adequada para os vinhos da Jorge Rosa Santos e Filhos, extremamente sérios e impulsionados pelo terroir.

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Irmãos e enólogos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Quando comprou um retiro de fim-de-semana no Alentejo, o cirurgião Jorge Rosa Santos não partiu com a intenção de fazer vinho. Foi antes uma consequência inevitável, já que a casa tem oito hectares e três dos seus filhos são enólogos – Frederico (Terras d’Alter), Vasco (Monte da Ravasqueira) e Jorge júnior (Casal Santa Maria). O quarto, Ricardo, é arquitecto, tal como a sua mãe.

Quando me encontrei com Jorge júnior, disse-me que o ponto forte deste projecto de família é que “fazemos aquilo que queremos e aquilo em que acreditamos…não estaríamos a fazer vinho desta maneira se estivéssemos a trabalhar para outra pessoa”. Por exemplo, em 2004, a família ignorou os avisos de que eram “loucos” por estarem a cultivar os seus primeiros dois hectares de Syrah em solos virgens e, no ano seguinte, mais dois hectares de Alicante Bouschet e Aragnoes (Tinta da Pais, clone pequeno e de pele fina da Ribero del Duero). Loucura, como apelidaram, porque em solos rochosos de xisto (20-30cm de profundidade) e com um gradiente de 30%, as vinhas nunca seriam economicamente viáveis.

A vinificação também é pouco convencional. O “Explicit” tinto é deixado em volume livre, sem sulfuração, durante 3 meses. Permitir o oxigénio infiltrar-se nesse volume livre explica a sua rusticidade, e às vezes o toque de acidez volátil típica dos Portos (demasiada em 2008). Aos olhos de Jorge, estas qualidades (juntamente com a concentração intensa, elevado grau de álcool e a formidável estrutura naturalmente conferida pelas vinhas) “dão-nos a nossa própria identidade”. Altamente necessária, reconhece, já que o Alentejo tem muitos projectos a produzir vinho de qualidade mas projectos específicos, como o “Explicit” estavam a faltar, projectos que “capturam a essência da vinha dentro da garrafa”.

Dez anos após terem sido apelidados de loucos, o projecto da família Rosa Santos está a prosperar. Uma prova vertical do “Explicit” tinto destacou a poderosa assinatura salgada de taninos “ósseos” deste tinto impulsionado pelo terroir, qualidades minerais de grande efeito; a progressiva redução de Syrah, melhores condições na adega e a adição da Aragones parece ter dado frutos, originando um vinho mais brilhante e compacto (menos parecido com o Porto). Além disso, o “Explicit” tinto tem desde aí a companhia do “Explicit” branco e do mais acessível “Implicit” (tinto e branco), todos produzidos com uvas compradas.

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A provar a gama – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

Aqui estão as minhas notas sobre as últimas novidades da gama da família e as minhas escolhas da prova vertical Explicit Red (2008-2012):

IMPLICIT branco 2013 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote não envelhecido em carvalho com 50% Alvarinho, 25% Viognier, 12,5% Rousanne e 12.5% Moscatel. As uvas foram obtidas de vinhas relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. Um branco aromático, picante, frutado (mas em nada tutti-frutti), com boa profundidade e equilíbrio, e um salgado e atractivo gosto picante. 13%

EXPLICIT branco 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Proveniente de um hectare de mistura de vinhas velhas, em Portalegre, 540 metros acima do nível médio das águas do mar. Em relação ao estilo, é completamente diferente do Implicit – como Jorge diz, muito mais ao estilo do Mundo Velho porque a fruta, embora presente, não é evidente. Ao invés, a impressão mais notória é de minerais salgados e borras cremosas e finas com sabor a noz. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho até ao início da Primavera, apresenta o carvalho muito suavemente. Apesar de lhe faltar um pouco de acidez, este vinho vasto e texturado é bastante interessante. Gostei muito da sua particularidade não forçada. 14%

IMPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote com 50% de Touriga Nacional, 40% de Syrah e 10% Alicante Bouschet. As uvas foram obtidas de vinhas xistosas, relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. A Touriga confere um bom toque floral – rosa damascena – ao nariz e palato, e a cereja preta também – fresca e cozida. Taninos texturados e maduros mas também salgados, uma mineralidade enferrujada e uma acidez fresca emprestam estrutura e equilíbrio. Muito bom – um rótulo jovem e sério do qual 6546 garrafas foram produzidas.

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Vertical de EXPLICIT tinto – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

EXPLICIT tinto 2010 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah e Alicante Bouschet das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido 17 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Tal como os que o precederam, o 2010 é um vinho escuro e salgado, com a ameixa ponteada a chocolate amargo a despontar a sua essência firme de taninos calcários e “ósseos”. Notas de garrigue (erva mediterrânea) e minerais esfumaçados conferem uma rusticidade selvagem e muito atraente a este tinto encorpado, que é ainda mais imponente pelo seu chassis extraordinariamente longo de taninos maduros mas muito presentes (este vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Esta estrutura de taninos, juntamente com uma acidez (própria) muito equilibrada, permite a este vinho ter 15.5% sem qualquer esforço. Pode-se abrir mas ainda está em desenvolvimento; recomenda-se guardar por mais 5 anos. 5962 garrafas/20 barricas produzidas.

EXPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah, Alicante Bouschet e Aragones das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido durante 24 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Embora o carvalho e o álcool sobressaiam no primeiro dia, no segundo dia este vinho é inundado por uma excelente mineralidade poeirenta. Amora doce e carnuda controlada pela sua abundante película e essência de taninos (também esta vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Um vinho muito visceral, quase cru, com o seu esqueleto, não a carne, em primeiro plano. Eu guardaria este vinho pelo menos durante 2/3 anos antes de o abrir e é conservável por mais alguns anos. 11247 garrafas/40 barricas produzidas.

Hotel Quinta da Serra

Texto José Silva

Mesmo lá no alto do Jardim da Serra, numa zona muito montanhosa, de estradas sinuosas, mas onde a paisagem ganha outra beleza, outra amplitude, é um passeio fascinante, que pode passar pela grandiosidade do Cabo Girão.

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Paisagem a partir do Jardim da Serra – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ali temos uma perspectiva incrível da costa sul da ilha da Madeira, com escarpas a pique sobre o mar, umas centenas de metros lá abaixo, onde as fajãs amenizam a descida até à água.

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Patamares – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas onde, em cada minúsculo patamar, se podem ver plantações diversas, fruto de trabalho manual em condições extremas. E muitas dessas plantações são vinhas muito velhas, onde os viticultores colhem todos os anos pequenas quantidades de uvas, que vão integrar lotes do famoso vinho licoroso da ilha. Lá mais acima, no Jardim da Serra, a mais de 800 metros de altitude, num hotel de cinco estrelas cheio de requinte, implantado num enorme jardim e na floresta adjacente, de grande beleza, funciona um restaurante igualmente requintado, liderado por um chefe francês há muitos anos radicado na ilha. Ocupa um espaço enorme num dos edifícios do complexo hoteleiro, ligeiramente elevado, completamente envidraçado de um dos lados, com vista soberba pela serra abaixo.

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Sala Ampla – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É uma sala ampla, espaçosa mas acolhedora, cheia de luz, decorada com requinte em tons mornos, onde predominam o castanho e o cinzento, com um belíssimo soalho de madeira e uma lareira aconchegante num dos topos. Mesas muito bem-postas, cheias de elegância, com todos os pertences em cima, incluindo óptimo serviço de copos. O serviço, a cargo de pessoal jovem, é muito competente, atencioso e simpático, muito bem dirigido. Uma ementa eclética, onde entram muitos produtos de produção biológica da própria quinta, que estão em fase de certificação, apresenta peixe e carne frescos da própria ilha, confeccionados com requinte e extremamente bem apresentados. Na nossa visita, fomos recebidos pelo próprio chefe que, num português quase fluente, nos deu as boas vindas e explicou um pouco a filosofia da sua cozinha.

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Manteiga, Azeite e flôr de sal – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Passados à mesa, apresentaram-nos vários tipos de pão, para barrar com manteiga simples e outra com ervas, ou molhar no azeite e dar-lhe um toque de flor de sal.

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Vieira Corada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A oferta do chefe foi uma vieira corada, com creme de abóbora e crocante, com toque de pimenta rosa. Simples mas delicioso.

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Creme de maçarocas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se um requintadíssimo creme de maçarocas da quinta, atrevido, cremoso, muito apaladado, soube muito bem, bem quente.

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Rosé Primeira Paixão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Por essa altura já apreciávamos o Rosé Primeira Paixão, que ligou muito bem, quer com a vieira, quer com o creme de maçarocas. Veio então o peixe espada fumado preparado em tempura, ligeiramente crocante, saboroso, consistente, e um chutney de frutas de Cornus Kousa da própria propriedade a fazer uma óptima ligação.

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Peixe-Espada fumado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O vinho era já o bairradino Entre II Santos branco, a ligar muito bem, na temperatura certa. Passamos ao prato de carne, que foi um borrego orgânico recheado com acelgas, assado, que foi servido com puré de batata e castanhas. Paladares cruzados que se completaram muito bem, mais uma vez produtos locais mas confeccionados com grande requinte.

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Borrego – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O vinho tinto também da Bairrada, Entre II Santos esteve sempre à altura. A refeição iria terminar com a mesma qualidade com que começara, uma tarte tatin de maçã domingo, gelado de chocolate e erva caninha, simples mas cheia de requinte, sabores suaves que se completaram muito bem.

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No nosso caso foi jantar, mas quem vá almoçar, é aconselhável dar um passeio pela beleza dos jardins e da floresta e dar uma olhadela à horta biológica, de onde vêm muitas das ervas aromáticas e legumes que depois podemos apreciar à mesa.

Contactos
Quinta da Serra
Estrada do Chote Nº 4/6 – Jardim da Serra
9325 – 140 Camara de Lobos Madeira
Portugal
Tel: (+351) 291 640 120
E-mail: info@hotelquintadaserra.com
Site: www.hotelquintadaserra.com

O melhor de 2014

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Foi um ano e tanto. Era suposto ter sido razoavelmente relaxado mas provou ser um dos mais agitados. Fui a Portugal sete vezes durante este último ano. Pode não parecer muito, mas viajar de Helsínquia até Portugal é praticamente a viagem mais longa que se pode fazer dentro da Europa Continental. Ainda assim tenho sempre prazer em lá ir e o meu entusiasmo em relação a Portugal e aos seus vinhos cresce a cada visita.

Aqui estão alguns dos meus momentos favoritos passados em Portugal neste último ano:

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Vinho Verde – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Lindo, Vinho Verde. A Primavera na região vitivinícola do Vinho Verde  is spectacular. Like the name suggests it’s really really green. People are burning leaves and branches on their yards creating this unique scent that fills the air. Belly full of delicious alheira sausage and a glass full of Alvarinho. Doesn’t get much better than that.

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Essência do Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grandes Madeiras. A degustação de vinhos Madeira realizada por Rui Falcão no evento Essência do Vinho no Porto, foi nada menos que fantástica. O alinhamento contou com Barbeito Sercial 1898, Blandy’s Verdelho 1887, d’Oliveira Verdelho 1850, Justino’s Boal 1934 e Henriques & Henriques Malvasia Solera 1900. Simplesmente, wow! É disto que os sonhos são feitos.

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João Nicolau de Almeida – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grande J.! Conhecer João Nicolau de Almeida da Ramos Pinto foi como aquilo que sempre imaginei que as pessoas sentem ao conhecem o Jay-Z. Não gritei nem lhe pedi para assinar o meu decote, mas não andei muito longe disso. É um enólogo visionário e um pioneiro no vale do Douro. Beber com ele foi definitivamente um momento vínico a recordar.

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Camaleão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Camaleão. Na passagem pela degustação da Young Winemakers of Portugal, em Lisboa, deparei-me com o Camaleão. O rótulo do Camaleão é impresso com uma espécie de tinta térmica que reage à temperatura. Verde – demasiado quente, azul – pronto a servir. Uma ideia brilhante e que me faz perguntar porque nunca vi isto noutro lugar antes. O vinho também era bom.

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Tomates – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tomates arrebatadores. “Corações de boi”, estas relíquias que comi na adega da Vale da Capucha…meu Deus. Provavelmente os melhores tomates do mundo. Pareciam bifes, só que saudáveis. Regue-os com um pouco de azeite, uma pitada de sal e prepare-se para experiência incrível.

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Liguem os vossos motores – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

batmobile vínico. Estava de visita às vinhas da região vitivinícola de Colares, perto de Lisboa, quando vi este homem. Era tempo de vindima e este encantador senhor estava a transportar caixas carregadas de uvas para a adega. Este senhor conduzia um veículo da velha guarda e quando ligou o motor quase parecia uma cena saída de uma banda desenhada do Donald Duck. Deixou-me até conduzir por um bocado.

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Jantar – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Vamos comer. O jantar na Cervejaria Ramiro em Lisboa, com Eduarda e Luís da Vadio e com o redactor Jamie Goode foi fantástico. Algumas das coisas que tento comer sempre que estou em Portugal são camarões, perceves, e claro, muita cerveja. Para terminar, o tradicional prego e estamos arrumados. Delicioso.

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O Barão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O Barão. Outra grande pessoa que conheci neste ano que passou foi Bodo von Bruemmer. Este jovem de 103 anos começou a produzir vinho quando já tinha mais de 95 anos. O quê?! Se isso não é suficiente para te fazer acreditar que nunca é tarde demais, nada fará.

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Noval – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quinta do Noval. Juntamente com as suas vinhas Nacional, a Quinta do Noval é uma das propriedades mais icónicas não só em Portugal mas no mundo. Conhecer esta quinta há muito que está na minha lista de coisas-a-fazer e finalmente consegui. Agora desejo lá voltar para apreciar alguns Portos épicos.

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Madeira – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Pérola do Atlântico. Estive de visita à ilha da Madeira algumas vezes este ano e não me sai da cabeça quão bonita é. É pura e simplesmente majestosa. Adorei o tempo que lá passei e estou ansioso por lá voltar. Digno de peregrinação vínica e, quando lá estiverem, aproveitem também para beber uns copos de Poncha.

Votos de um delicioso 2015 a todos os leitores!

O terroir e o ambiente

Texto João Barbosa

A palavra terroir é uma coisa esquisita que, provavelmente, apenas conhecida pelo povo do vinho. Tenho ouvido acrescentos e tesouradas quanto ao significado desta palavra francesa sem tradução para outra língua – afirmação carente de estudo exaustivo da minha parte.

Terroir tem uma dimensão quase mágica, antropológica e amorosa. Quanto a mim, é solo, subsolo (ou até onde chegam as raízes), ecossistema de proximidade, envolvente natural (vida e não vida) transportada pelo vento, factores climatológicos, casta adequada, conhecimento agrícola e intervenção humana no campo. Tudo bonito e que se pode estragar por trabalhos «violentos» na adega.

região de Borgonha

Região Vitivinícola da Borgonha in en.wikipedia.org

Nenhum vitivinicultor diz mal do seu vinho e há «milhares» que dizem que a sua quinta tem um terroir próprio. Mudar «uma vírgula» não muda propriamente um texto. A minudência do terroir vem por empréstimo da Borgonha, onde existem micro regiões. La Tâche tem pouco mais de seis hectares, um exemplo. Dos seis aos 540 hectares, há terroirs para todos os conceitos. Até aqui está quase tudo bem. A complicação surge quanto ao modo de amanhar a terra.

La Tâche

La Tâche in en.wikipedia.org

Primeiro ponto: um território onde a vinha é regada é parte do terroir? Quem molha as videiras diz que sim, quem não lhes dá água afirma que não, porque prova que a trepadeira não está instalada num local confortável – não é dali.

Segundo ponto: vinhas tratadas com herbicidas, fungicidas e pesticidas de síntese têm o direito de serem parte dum terroir? Porém a adição de calda bordalesa, por mais natural que seja, também não passeia naturalmente na terra e o cobre é tóxico.

sulfato de cobre

Sulfato de Cobre in www.ebah.com.br

Terceiro ponto: aparar as ervas é consentâneo com a natureza? O plantio – ancestral e hoje reconhecido –, nas entrelinhas, de plantas que fixam azoto é consentâneo?

Aparador

Aparador de ervas

Quarto ponto: se o vinho é um produto de «agricultura inteligente» negar ou reduzir ao mínimo a intervenção humana não contraria a essência da lavoura?

O Domaine de La Romanné-Conti, na Borgonha, adoptou há anos a prática de agricultura biológica, depois de biodinâmica e hoje o amanho é feito com tracção animal. Exagero ou marketing?

A biodinâmica é um modelo radical de agricultura biológica – assumo o adjectivo como substantivo – que defende uma intervenção mínima, certificada por um organismo privado e pouco flexível: a Demeter. O movimento foi criado, na Alemanha, por Rudolf Steiner, que a apresentou em 1924. Não sei por que carga de água os nazis foram implicar com a filosofia.

Rudolf Steiner - em 1905

Rudolf Steiner in en.wikipedia.org

A biodinâmica recolhe contributos ancestrais, como os ciclos lunares ou a astrologia zodiacal, de 12 signos. Para mim, é misticismo, porque na realidade são 13. Porém, 12 é um número mágico, formado por outros algarismos transcendentes, como o três e o quatro.

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Zodiaco e ciclos lunares in commons.wikimedia.org

Para se ter uma noção do radicalismo: uma herdade com cerca de 500 hectares ia sendo chumbada, porque um buraco no caminho fora tapado com bocados de tijolo. Foi complicado fazer crer que o tijolo é feito de barro. Só cultiva biodinâmico quem quer, e mal não faz.

Para remate conto o que ouvi acerca dum produtor da Borgonha. Diz que a casta só se manifesta nos primeiros anos. Depois da maturidade, a planta expressa o terroir.

Rega, não rega? Casta específica, ou não? Cultivo nas entrelinhas, ou não? Aparar as ervas bravias, ou não? Usar tracção animal, ou não? Usar produtos de síntese, ou não? Cada um tem o seu conceito de terroir e de boa prática de lavoura.

Céptico ou discordante de alguns factores enunciados, o que sei é que há vinhos fantásticos onde não se pratica agricultura biológica nem biodinâmica e onde a rega é praticada.