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Bárbaro é o Rei dos Ostrogodos

Texto João Barbosa

Há uns anos percebi, através dum artigo numa revista portuguesa vínica, que o Antigo Regime – sistema que vigorou na Europa desde finais do século XVI até à Revolução Francesa – afinal subsiste.

Se fosse um cronista político, essa Excelência seria arrasado da Esquerda até à Direita, incluindo monárquicos (julgo que defensores do Absolutismo devem ser três). Esse fidalgo da Casa Real do Vinho, espanhol de nascimento, defendeu que há uma nobreza entre os apreciadores.

Essa nobreza é formada por pessoas que, embora seduzidas pelo efeito do álcool, não se deixam embriagar; coisa de bárbaros, de ignorantes, selvagens… não estou a exagerar, os termos foram basicamente estes.

O arauto do Rei do Vinho é, para mim, o bobo da Corte. Porque não sabe História nem de Antropologia, nem pensa no que escreve. Além dos bárbaros, o escrevinhador ainda acrescentou um patamar de enófilos não conscientes. Há povo, burguesia e nobreza. O clero ficou de parte, ou então o bobo é também cardeal.

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Totila, Rei dos Ostrogodos, reinou de 541 a 552. Pintura do século XVI, de Francesco de’ Rossi. (moderno)

Não estou a defender que se beba desregradamente ou de forma que possa criar sarilhos. Durante séculos, aliás milénios, o álcool foi mais do que prazer. O vinho foi fonte de calorias, de bebida saudável (beber água, sobretudo nas cidades, era um risco para a saúde, devido à poluição de imundices de toda a espécie) e fonte de prazer.

Obviamente que o tempo mudou, felizmente. Num documentário, realizado pelo sociólogo António Barreto, mostra-se que em 1979 havia crianças, na Fonte da Telha – nos arredores de Almada e Sesimbra – cuja dieta incluía sopas-de-cavalo-cansado. Este facto gravíssimo revela o estado de miséria que se viveu até à instauração da Democracia, mas também o modo como era visto o vinho no dia-a-dia.

O alcoolismo, com base no vinho ou outro produto, não é desejável em qualquer aspecto. Porém, há uma diferença entre alcoolismo, intoxicação e bebedeira numa farra. Se o vinho – o álcool – chegou aos nossos dias é, em grande parte, devido ao seu uso «mágico», indutor dum estado alterado de consciência.

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Teodorico, o Grande, Rei dos Ostrogodos, reinou de 475 a 526. Pintura medieval

Depois, à parte do alcoolismo, da intoxicação ou do beber até cair (binge drinking), há o civismo, substantivo que tem tanto de ébrio quanto de sóbrio. Quem quer festejar sem limite tem todo o direito de o fazer, critico se for manobrar máquinas, pondo em risco a sua vida e a dos outros, criando momentos de perigo.

Aliás, os povos do álcool – os que o têm na cultura – sabem, mais ou menos, lidar com a situação, o que não significa ausência de problemas. O National Geographic Channel transmitiu uma série de documentários acerca dos vícios e dos locais onde os tóxicos criam calamidade de saúde pública. Entre, as situações (repetidas) de crack, heroína, cocaína, analgésicos para cavalo (!!!) também apareceu o álcool – numa única situação.

palácio de Teodorico - rei dos Ostrogodos - em Ravena

Palácio de Teodorico, em Ravena – onde grandes farras, por certo, aconteceram.

Nem todas as sociedades ameríndias (possivelmente a grande maioria) conheciam o álcool a quando da chegada dos europeus. As suas defesas são ainda hoje frágeis, em algumas regiões. Em algumas zonas remotas do Alasca, o consumo de álcool (destilado) equipara-se ao flagelo da heroína, como o verificado em Portugal na década de 90 do século XX. Uma garrafa de whisky em Anchorage vale mais de dez vezes nas zonas isoladas.

A moderação deve ser obrigatória. O civismo e a consciência no seu consumo deve inibir episódios de risco. Um grão-na-asa de vez em quando não é grave. Os «beatos» do vinho têm, certamente, as mesmas hipocrisias dos «beatos» doutras moralidades.

Pereira d’Oliveira, Madeira – Do armazenamento à venda ao balcão da adega

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Não devem existir muitos lugares no mundo onde se possa comprar ao balcão e directamente ao produtor, uma garrafa de vinho do século 19. Correcção, oito vinhos do século 19 ao balcão.

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira wine list

Lista de vinhos da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pois bem, na adega da Pereira d’Oliveira no Funchal, podemos. E que tesouro escondido é, repleto de garrafas e barris, digno de um coleccionador. Como é que a Pereira d’Oliveira tem tal fantástica e abundante colecção?! Tão abundante que torna a escolha difícil.

Parte da explicação reside no facto de a Pereira d’Oliveira ser uma amalgamação de seis empresas da Madeira: João Pereira d’Oliveira, João Joaquim Camacho & Sons, Júlio Augusto Cunha & Sons, Vasco Luís Pereira & Sons, Adegas do Torreão e, muito recentemente, Barros e Sousa.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe & Luis Pereira d'Oliveira

Filipe & Luis Pereira d’Oliveira, 6ª e 5ª geração de produtores Madeira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas essa não é a principal razão. Luís Pereira d’Oliveira, juntamente com o seu irmão Aníbal, representam a quinta geração da família à frente do negócio que em 1850 foi fundado por João Pereira d’Oliveira. Sendo o responsável pelas vendas, conta-me a história, uma história que me parece familiar (estou a falar da Caves São João’s million bottle cellar in Bairrada). Revela-me que a empresa apenas começou a exportar há 30 anos porque a terceira e quarta geração – o seu pai, tio e avô – não tinham qualquer interesse em fazê-lo. Os três preferiam vender os vinhos exclusivamente na Madeira e em Portugal Continental, o que explica o porquê de a Pereira d’Oliveira ter 1.600.000 litros de vinho Madeira com mais de 20-30 anos. Uau!

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira deformed Moscatel bottles

Garrafas de Moscatel deformadas da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Apesar de hoje em dia a empresa exportar vinho Madeira para 16 países, velhos hábitos demoram a morrer. Quando pergunto a Pereira d’Oliveira (Luís) sobre a compra da Barros e Sousa, diz-me que apenas aconteceu por uma razão – para ampliar a porta da adega/instalações de 600 metros quadrados (que já é uma das três instalações da Pereira d’Oliveira no Funchal). Com 1030 metros quadrados, a vizinha Barros e Sousa vai ajudar a aliviar a pressão do espaço e permitir à Pereira d’Oliveira manter uma longa tradição de engarrafamento on demand (não existem planos para pôr de parte novos vinhos para perpetuar a marca Barros e Sousa).

Esta prática (engarrafamento on demand) engloba uma concentração tipo elixir e intensiade por que é conhecida esta empresa da Madeira. Por exemplo o Bastardo 1927, engarrafado pela primeira vez em 2007, 60 anos depois dos 20 mínimos exigidos para um Madeira Frasqueira de topo.

Com o seu toque acelerado a “vinagrinho”, o super-complexo estilo da casa é também conhecido por outra tradição de longa duração. O Madeira da Pereira d’Oliveira é envelhecido em barris de madeira muito antigos (a maior parte com mais de 60 anos, alguns até com mais de 100). Um processo que, quando executado devidamente e durante um longo período de tempo, confere uma subtil interacção do vinho, da madeira, do calor e do oxigénio, que lentamente realça as inúmeras camadas.

O mundo moderno venera a rapidez mas aqui não há lugar para isso. Ou como Pereira d’Oliveira o diz, “Não gostamos de andar rápido porque isso pode originar algo desinteressante”. Apesar do contexto desta afirmação ser o de continuar um pequeno e independente negócio de família, espelha profundamente a filosofia de vinificação que aqui se pratica. Uma filosofia que permace intacta desde que o enólogo Filipe da sexta geração se juntou ao seu pai, Aníbal.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe Pereira d'Oliveira behind the counter

Filipe Pereira d’Oliveira ao balcão – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A política de “manter o rumo sem mudanças bruscas” é também uma benção para os turistas, especialmente para aqueles que frequentemente saem dos cruzeiros e visitam a ilha sem terem carro à disposição. A Pereira d’Olivereira é absolutamente firme no que toca a estar no coração do Funchal e, situada no número 107, na rua dos Ferreiros, esta adega com atmosfera do século 17 (originalmente uma escola) está a um passo do porto, a norte da catedral da cidade..

Embora a selecção de Madeiras para prova impressione, torna-se quase insignificante quando comparado com o que se pode comprar do outro lado do balcão. Com 56 Madeiras single vintage (Colheita e Frasqueria) à venda, pode-se festejar quase qualquer aniversário que nos venha à cabeça. Mas tomem nota, devem contactar o Livro de Recordes do Guinness se o vosso ano de nascimento está compreendido entre 1850 e 1895.

Aqui estão as notas de prova do meu top 7 deste número 107 (preços de adega)

Photo Credit Sarah Ahmed A fine selection of Pereira d'Oliveira Frasqueira madeira

Uma excelente escolha de vinhos Frasqueira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Sercial 1971 (Madeira)
Mogno com reflexos vermelhos. Fantástico perfil da variedade com a sua acidez de toranja, notas doces de tangerina e goiaba. Muito enfumaçado, longo e agradável. Concentração com linha e longevidade. €94/garrafa

Pereira d’Oliveira Terrantez 1971 (Madeira)
Âmbar profundo, com um nariz e palato complexos. Mais rico que o Sercial, com uma acidez a laranja (não a toranja), mais madura e arredondada. No entanto mais seco, mais saboroso com um delicioso suporte de tabaco, cedro e especiarias secas. Muito persistente com um fundo mineral/iodo num final longo. €110/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Bastardo 1927

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 (Madeira)
Esta garrafa em particular foi retirada do barril em 2014; o 1927 é o único Bastardo da Pereira d’Oliveira, e portanto, extremamente raro. A tonalidade carregada relembra-nos que a Bastardo é uma uva tinta e não branca. É mais robusto, mais doce e com mais fruta no seu palato doce-picante e tâmara amarga. A acidez sumarenta  está bem integrada, misturando-se e extendendo a fruta até um final longo com especiarias escuras, suaves sementes pretas de cardomomo e leve cigarrilha de café crème. O final é um pouco poeirento mas a fruta é generosa o suficiente para manter à distância qualquer adstringência da madeira. €300/garrafa

Pereira d’Oliveira Verdelho 1912 (Madeira)
Esta casa é conhecida pelo Verdelho. Filipe Pereira d’Oliveira diz-me que é um fã do seu estilo meio-seco (e tal como eu, um firme fã do Terrantez). Este tem um um palato avivado fora do comum para um vinho de 102 anos. Não se deixem enganar pela sua tonalidade de mogno maduro – as aparências iludem. Revela goiaba fresca, jovial e picante, chutney de tâmaras carnudas com tamarindo amargo e um toque de pele de toranja. Uma maravilha. Espero ser assim tão cheia de energia se chegar aos 102 anos!! Juntamente com o Terrantez 1880, a minha escolha da prova. €330/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Moscatel cask

Barril de Moscatel da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Moscatel 1875 (Madeira)
Já antes tinha tido a sorte de provar um Moscatel muito velho, fino e raro – o 1928 Morris Muscat de Rutherglen e o José Maria Fonseca Apoteca Moscatel de Setubal 1902. Ambos eram intensamente viscosos. Ainda não tinha encontrado nenhum Moscatel na Madeira, mas a imagem de marca da ilha realmente transporta e distingue este Moscatel – diria que é o melhor de entre estes exemplares muito velhos que provei. Por isso, embora tenha uma cor mogno muito escuro, com uma correspondente concentração super intensa de açucar Demerara, escuro, ligeiramente amargo, com especiarias poeirentas(cardamomo preto, tamaraindo), café do campo e melado, é muito nivelado e a acidez bem integrada oferece uma certa precisão já para não falar da impressionante longevidade. Não é viscoso o que confere a este vinho uma fantástica energia e brilho. €760/garrafa

 

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira - the oldest madeiras tasted

Pereira d’Oliveira madeira – os vinhos mais velhos que provei – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Terrantez 1880 (Madeira)
Relativamente pálido, naquilo que parece ser um traço dos Terrantez. Muito interessante, mas acima de tudo, uma incrível elegância, longevidade e integração para a idade que tem. Uma boa base de especiarias delicadas e tabaco conferem-lhe linha e entusiasmo. Brilhante equilíbrio e serenidade. Juntamente com o Verdelho 1912, a minha escolha da prova. €780/garrafa

Pereira d’Oliveira Sercial 1875 (Madeira)
É difícil acreditar que este Sercial tem quase mais 100 que o primeiro (também ele um Sercial) dos sete magníficos vinhos que escolhi. A semelhança com a família estão bem patentes,  em termos varietais e estilo da casa. Goiaba, pele de toranja e até umas notas de maça acabada de cortar cantam por entre o véu de fumo e minerais. O seu distinto aroma vulcânico, iodo e algas servem de lebrete palpável do muito peculiar terroir montanhoso, oceânico e vulcânico da ilha. Incrível longevidade, persistência e delicadeza. Acho até que pode ser outro dos meus favoritos… €760/garrafa

Contactos
Rua Ferreiros 107
9000-082 FUNCHAL
( )
Tel: (+351) 291 220 784
Fax: (+351) 291 229 081
Site: perolivinhos.pai.pt

J.Faria & Filhos, no reino da Tinta Negra

Texto João Pedro de Carvalho

De forte implementação no mercado regional da Madeira, a J. Faria & Filhos, Lda. apenas começou a comercializar Vinho Madeira em 1993, apesar de ter sido fundada em 1949 onde a principal actividade era o fabrico de licores tradicionais e concentrados de frutos. Com o crescimento do mercado regional a empresa alargou o leque de produtos passando a comercializar licores, Aguardente de Cana-de-açúcar (Rum da Madeira), Brandy, Vinhos da Madeira e Concentrados de frutos.

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J. Faria & Filhos, Lda. © Blend All About Wine, Lda.

A produção de Vinho Madeira na J. Faria & Filhos tem como base a casta Tinta Negra, que dá origem a uma alargada gama de vinhos com destaque para os 5 e 10 anos. Numa visão geral são vinhos feitos para agradar e que se encontram facilmente na grande distribuição. Um produtor que se pode dizer recente e sem toda a carga histórica a que estamos acostumados noutros lados, resta apenas indicar os dois vinhos que mais se destacaram em toda a prova.

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5 anos Meio Doce © Blend All About Wine, Lda.

5 anos Meio Doce
O mais equilibrado da gama dos 5 anos, com ligeiro crescimento no copo, consensual, muitas tâmaras e notas de bolo de mel, ligeira frescura em fundo a aguentar o conjunto. Na boca mantém a mesma prestação, simples e direto, ligeira complexidade num conjunto simples e descomplicado.

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10 anos Seco © Blend All About Wine, Lda.

10 anos Seco
Foi o vinho que mais gostei da prova, novamente os tons da Tinta Negra a marcarem presença embora o conjunto mostre um pouco mais de complexidade e uma maior frescura, com notas de fruto seco, ligeiramente salgado, num final médio.

Contactos
Travessa do Tanque, 85/87
9020-258 Funchal
Tel: +351 291 742 935
Fax: +351 291 742 255
E-mail: info@jfariaefilhos.pt
Site: www.jfariaefilhos.pt

Blandy, uma dinastia ligada ao vinho Madeira

Texto João Pedro de Carvalho

A história deste produtor começa com a chegada de John Blandy à Madeira, são dois séculos de uma dinastia de comerciantes cuja importante ligação ao mundo do Vinho da Madeira começa com o estabelecimento da firma em 1811 começando nesse ano como exportador de vinhos. Compra a propriedade onde hoje se encontra a Antiga Adega no Funchal – Blandy Wine Lodges. Após o declínio das exportações por causa das devastadoras pragas, primeiro o Oidium Tuckeri em 1851 e em segundo a Phylloxera em 1872, surge da união de várias empresas exportadoras a Madeira Wine Association em 1913 com objetivo de alivar os custos que envolviam todo o negócio. Foi nessa altura em que muitas dessas empresas não conseguiram resistir aos tempos menos favoráveis e acabaram por encerrar portas, vendendo os stocks à Blandy’s. Em 1925, a Blandy’s juntou-se à M.W.A. que sobreviveu até 1986, ano em que se torna a Madeira Wine Company SA.

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Blandy Wine Lodges © Blend All About Wine, Lda.

Uma história notável de uma família que teve um papel muito importante no desenvolvimento do vinho Madeira, expandindo os seus negócios para a atividade bancária, seguros, reparação de navios… Duzentos anos depois a Blandy continua uma empresa familiar onde Michael e Chris são a 6ª e 7ª geração a trabalhar no negócio.

Se noutro artigo tinha afirmado que os vinhos da Henriques & Henriques foram os primeiros grandes vinhos da Madeira que tive oportunidade de beber, os Blandy foram sem dúvida alguma aqueles que cimentaram o gosto e todo o meu entusiasmo pelo vinho Madeira ao longo dos anos enquanto enófilo. Foi um daqueles momentos muito especial o que envolveu a visita à Blandy no Funchal, realmente só o poder estar sentado naquela fantástica sala de provas vale uma ida à Madeira. A prova ficou a cargo daquele que é um dos grandes da enologia mundial, Francisco Albuquerque, e foi todo um privilégio poder ter ali uma grande lição sobre o vinho Madeira com prova incluída.

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Francisco Albuquerque © Blend All About Wine, Lda.

Não deixa de ser interessante que o vinho Madeira é um vinho que se alimenta de tempo, precisa de tempo para crescer, não de meses nem dias, mas de anos e quantos mais anos passarem mais complexidade ele ganha, mais mágico se torna. Os destaques como não podia deixar de ser, vão para alguns dos Vintage/Frasqueira provados:

Blandy’s Malmsey 1988
Um dos grandes vinhos que tive oportunidade de provar foi o Malmsey 1988, passou em cascos cerca de 25 anos até serem lançadas em 2013 cerca de 1600 garrafas no mercado. Destaca-se pela frescura e finesse do conjunto, pelo incrível detalhe e precisão com que nos apresenta um conjunto de aromas muito bem definidos. Enorme na complexidade e equilíbrio, no imediato a laranja cristalizada a marcar pontos, figo, tâmaras, tabaco, muita especiaria, flores com fruto seco no fundo, o vinho desdobra-se em camadas. Conquista o palato com muita classe, toque de caril seguido de passas, novamente a passa de figo com nozes em destaque que quase se trinca, numa completa harmonia com o que encontramos no nariz, grande equilíbrio entre acidez/fruta/doçura.

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Sala de provas de vinhos Frasqueira da Blandy’s © Blend All About Wine, Lda.

 

Blandy’s Terrantez 1976
E como já vem sendo hábito o que aqui se destaca novamente é a enorme elegância de todo o conjunto, este trabalho tão preciso de alta relojoaria é a marca da casa. Neste caso um Terrantez de 1976, que se mostrou bem mais elegante que o Terrantez 1977 colocado lado a lado na prova. A complexidade neste vinho é tremenda, tudo muito delicado mas profundo e muito complexo, com notas de caril em conjunto com chocolate e raspas de laranja, tâmaras, ligeiro balsâmico, caramelo torrado, nozes, tudo embrulhado numa grandiosa acidez que se junta ao aroma de móvel velho encerado. Na boca é um monstro muito bem-educado, entra ligeiramente doce para depois ser arrebatador pela frescura que invade todo o palato, renova as sensações do nariz, tem aquele toque agridoce que vai lavrando a língua até final em perfeita harmonia com a fruta e a acidez.

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Blandy’s Verdelho 1973 Garrafa de Amostra © Blend All About Wine, Lda.

Blandy’s Verdelho 1973
O exemplo perfeito de que o vinho da Madeira precisa e pede tempo é o do vinho que se segue, um Verdelho 1973 que apenas vai ser lançado agora no mercado. O vinho é mais um caso sério desta casa, contido de início mas muita complexidade, vem por finas camadas, charuto, maracujá, frescura e vivacidade dos aromas num conjunto com muita harmonia. A vivacidade dos aromas destaca-se, conjunto muito marcante no palato pela secura com um misto de untuosidade/doçura muito ligeira que lhe confere uma outra dimensão, colocando este Verdelho na galeria dos grandes desta casa.

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Blandy’s Bual 1920 © Blend All About Wine, Lda.

Blandy’s Bual 1920
É um vinho arrebatador a todos os níveis, complicado descrever tanta emoção enclausurada numa garrafa sempre que o tenho à minha frente, no copo ou na garrafa. Aqui o campeonato é o mais alto possível, este Bual 1920 tem a capacidade rara de nos conseguir calar. Podemos estar de conversa mas quando chega a vez deste 1920 as pessoas ficam caladas, olham, cheiram o copo… pausa, voltam a rodopiar cheiram novamente com um sorriso e depois começam a divagar. O bouquet é qualquer coisa de fantástico, concentrado, fresco, pecaminoso e novamente de enorme elegância, começa com toque de laca, abre e depois dá lugar à festa, toffee, nozes, caixa de charutos, aromas envoltos numa capa fresca e ligeiramente untuoso repleto de tâmaras, figos, fruta cristalizada. Tudo isto passa para o palato, entra cheio de vontade, untuoso, guloso para depois se mostrar com grande elegância, frescura e um final muito longo e persistente. Inesquecível.

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Blandy’s Verdelho 1887 © Blend All About Wine, Lda.

Blandy’s Verdelho 1887
Em 2011 foi identificado um Verdelho que estava colocado em demijohn de 50 litros, um Verdelho 1887 que acabaria por ser engarrafado em 2013. Destaca-se no imediato pela sua tonalidade, com aqueles lindos rebordos verde-esmeralda a indicarem uma idade de respeito. No aroma a festa é grande, começa por um toque de laca, depois serena e desperta para a sua plenitude, toque de madeira velha com fruta cristalizada, bolo inglês, figo e maçã em tarte, num sem fim de aromas que o envolvem num turbilhão de emoções. Boca arrebatadora, largo, profundo, denso e misterioso. Muito boa presença de fruta ao nível do nariz, ainda limpa e fresca, estamos a falar de um vinho de 1887, complementa-se com notas de caramelo, raspas de casca de laranja, grão de café verde num misto que combina o toque ligeiramente doce e frutado de início para terminar seco e untuoso no final.

Contactos
Blandy’s Wine Lodge
Avenida Arriaga 28,
9000-064 Funchal,
Madeira – Portugal
Tel.: (+351) 291740 110
Fax: (+351) 291 740111
Site: www.blandys.com

Feiticeiros da Madeira

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

A indústria do vinho é bem conhecida pela sua hospitalidade. No geral as pessoas são afáveis e acolhedoras. Quando as pessoas partilham o mesmo tipo de entusiasmo por alguma coisa, neste caso vinho, estão mais interligadas e quase que parece conhecermos as pessoas mesmo quando não conhecemos. Claro que há sempre algumas maças podres, mas mesmo assim considero a indústria do vinho uma agradável área de negócio.

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Barril de Malvasia – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tomem o exemplo da Barbeito. A primeira vez que os visitei na Madeira estava de férias, a viajar com a minha mulher e a sua família. Estão a ver o típico turista, a apreciar as vistas, piscina, Coral (cerveja), “bolo do caco” (pão de alho), espetada, vinho, esquivando-se dos “velhinhos alegres e divertidos”, dormir, tomar um duche e repetir tudo outra vez? Tentei no entanto organizar algumas actividades extracurriculares e fomos visitar a Vinhos Barbeito. Encontrar a adega revelou-se uma tarefa quase impossível para o taxista, mas depois de muitas paragens lá conseguiu encontrar o sítio. Durante a visita provamos vinhos datados de 1875! Foi uma visita muito casual, com os meus sogros e mesmo assim eles tiveram a amabilidade de nos mostrar estes grandes vinhos. Foi realmente fantástico e um bom exemplo da generosidade que existe no negócio dos vinhos.

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Corrimão\cano de transporte de vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Vinhos Barbeito está situada numa zona industrial no cimo de um morro ventoso. Enquanto algumas das adegas da Madeira são rústicas, a adega da Barbeito tem um toque moderno. Nada de extravagante, apenas prática. Consegue-se perceber que quem desenhou o layout das instalações foi alguém com uma mente ligada aos vinhos. Até o corrimão do parque de estacionamento é na realidade um cano para transportar o vinho desde a área de vinificação até outro edifício onde estão os barris e se faz o engarrafamento. Espectacular, não é?!

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Laboratório de vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Vinhos Barbeito foi fundada em 1946 o que, em anos-de-vinho-Madeira, significa um projecto relativamente recente. Desde aí que a propriedade se estabeleceu como uma das adegas mais emocionantes em Portugal. O enólogo Ricardo Diogo é como que um feiticeiro quando se fala de lotear de vinhos. Alguns chamam-no “o Gandalf da Madeira”. Bem, na verdade não sei se chamam ou não mas deviam. Não digo que os vinhos da Barbeito sejam perfeitos, nada é, mas estão rapidamente a tornar-se num sinónimo de vinhos de notável qualidade.

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Máquina de rotulação – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Na minha recente visita à adega, a missão era muito simples: provar tantos vinhos quanto humanamente possível. Missão cumprida! Provamos inúmeras amostras num alinhamento nada menos que épico. Começando por algumas Tinta Negras e Bastardo, de 5 e 10 anos, até anos como 1834. Deixem-me repetir, podem não ter percebido bem, MIL OITOCENTOS E TRINTA E QUATRO! Isso sim, é um vinho velho. Remonta ao ano em que foi abolida a inquisição espanhola. Alguns vinhos são impossíveis de descrever ao pormenor, por isso nem vou tentar. Vou apenas dizer que o vinho é para lá de fenomenal.

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Velha Guarda – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Aqui estão as minhas escolhas de entre os vinhos provados:

Barbeito ‘Ribeiro Real’ Verdelho 20 anos
Um vinho feito de Verdelho e um toque de vinhos Tinta Negra 100 anos das lendárias vinhas Ribeiro Real. Perfumados aromas de especiarias e uma delicada intensidade que nos faz perder o nariz no copo durante muito tempo. No momento em que o vinho toca na língua somos transportados para outro lugar. A palavra “persistente” não chega sequer para começar a descrever a longevidade de sabores deste vinho. Continuam e continuam… Fantástico!

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Barbeito ‘Ribeiro Real’ Verdelho 20 anos – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Barbeito ‘Mãe Manuela’ Malvasia 40 anos
Um lote antigo de Malvasia. Um toque floral, vegetal, licor e notas de chocolate preto. Uma rica e deliciosa sensação na boca que é imediatamente realçada por uma acidez vibrante tornando toda a experiência extremamente agradável. Um vinho complexo que o vai fazer suspirar por mais um copo, mesmo semanas após a degustação. Definitivamente um dos vinhos mais fabulosos que provei este ano. Fenomenal.

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Barbeito ‘Mãe Manuela’ Malvasia 40 anos – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Contactos
Estrada da Ribeira Garcia
Parque Empresarial de Câmara de Lobos – Lote 8
9300-324 Câmara de Lobos – Portugal
Tel: (+351) 291 761 829
Fax: (+351) 291 765 832
Email: info@vinhosbarbeito.com.pt
Site: www.vinhosbarbeito.com

Henriques & Henriques

Texto João Pedro de Carvalho

Durante muitos anos a família Henriques foi a maior proprietária vinícola da ilha da Madeira, com as primeiras vinhas plantadas por ordem do Infante D. Henrique no ano de 1425. Daquela que foi uma tradição familiar passou a empresa fundada em 1850 pelas mãos de João Gonçalves Henriques. Após a sua morte em 1912, foi criada entre os seus dois filhos, Francisco Eduardo e João Joaquim Henriques, uma sociedade que deu origem ao nome Henriques & Henriques.

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Henriques & Henriques Wine Lodge & Shop © Blend All About Wine, Lda.

Em 1968, com a morte do último Henriques, João Joaquim Henriques, conhecido por “João de Belém”, que não tendo descendentes fez com que a empresa fosse herdada pelos seus três amigos e colaboradores: Alberto Nascimento Jardim, Peter Cossart (que fez 53 vindimas na companhia) e Carlos Nunes Pereira. Em Junho de 1992, é feito um avultado investimento na construção de novas instalações em Câmara de Lobos e um novo centro de vinificação na Quinta Grande, onde em 1995 se planta um novo vinhedo, 10 hectares, sendo dos poucos produtores de vinho da Madeira que possui vinhas próprias. Foi o filho de Peter Cossart, John Cossart, que deu seguimento à gestão da empresa mas que acabaria por falecer em 2008. Num passado recente a multinacional francesa La Martiniquaise (dona da Justino’s Madeira) tornou-se sócio maioritário da H&H, passando desta forma a controlar cerca de 70% da produção total do Vinho da Madeira, mantendo-se o Dr. Humberto Jardim como C.E.O.

Alguns dos mais antigos vinhos da Henriques & Henriques, fazem parte do lote dos primeiros grandes Madeira que tive a oportunidade de provar e que me despertaram o interesse pelo Vinho da Madeira, por curiosidade eram todos Boal como por exemplo o Old Wine Boal 1887, Solera Boal 1898 ou o Reserva Velhíssima W.S. Boal que faz parte de um quarteto de sonho cujas diminutas quantidades já não permitem que sejam colocados em prova.

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Barricas de “Canteiro” Henriques & Henriques © Blend All About Wine, Lda.

Após a visita tive oportunidade e provar vários vinhos, destaque rápido para o descomprometido Monte Seco Extra Dry 3 Anos, feito a partir da casta Tinta Negra, cheio de retoques a lembrar um Fino de Jerez sem aquele característico toque da “flor” e que nos sugere um vinho ideal para acompanhar entradas, com uma abordagem simples, directo e bastante seco. Outros vinhos da Henriques & Henriques já foram devidamente abordados no artigo anterior da Olga Cardoso.

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H&H Verdelho 20 Anos © Blend All About Wine, Lda.

H&H Verdelho 20 Anos
Os Madeira 20 Anos são recentes no mercado, têm a particularidade de as quantidades serem reduzidas e o lote ir variando, por isso alguns são mesmo edições exclusivas e irrepetíveis. Neste caso é um Verdelho, casta que tem a particularidade de conseguir manter durante muito tempo os seus aromas e sabores frutados, algo que se destaca e bem neste vinho de muito bom recorte. Frutos tropicais com maracujá bem fresco, ananás em calda, especiarias, madeira velha, laca, melado, complexo a mostrar harmonia entre concentração e frescura. Boca a condizer, acidez bem presente com sabor inicial a fruta, abrindo depois num conjunto untuoso e com boa concentração, algum fruto seco a complementar, final longo e persistente.

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H&H Century Malmsey Solera 1900 © Blend All About Wine, Lda.

H&H Century Malmsey Solera 1900

Um dos vinhos emblemáticos deste produtor, perde-se no tempo a idade da Solera que lhe deu origem, remonta certamente ao séc XIX e o resto são detalhes que apenas enriquecem e aguçam a vontade de o ter no copo e contemplar o precioso líquido. Um vinho que transborda na complexidade, madeira antiga das barricas, frutos secos, passas de figo com nozes, mel, nariz de aconchego pela sensação de untuosidade e ao mesmo tempo de frescura. Caixa de charutos, desdobra-se como que por finas camadas de aromas e sabores, boca de veludo marcada pela frescura, concentração e uma tremenda elegância. Há vinhos que não se esquecem e este é certamente um deles.

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H&H Verdelho Reserva Ribeiro Real N.V. © Blend All About Wine, Lda.

H&H Verdelho Reserva Ribeiro Real N.V.
Este vinho e o momento que envolveu a sua prova, são a essência do que é o mundo do Vinho da Madeira, algo único, arrebatador e direi mesmo impossível de acontecer em qualquer outra parte do mundo. Para tal basta ter em conta que a responsável pela prova em mais de 19 anos a trabalhar na H&H nunca tinha sequer provado o dito cujo tal a sua raridade. Perde-se no tempo o registo capaz de nos dizer com precisão a sua idade, embora tudo aponte para a metade do século 19. Proveniente de vinhas localizadas na zona conhecida pelo Ribeiro Real, os mais de cinquenta anos que passou em Canteiro tornaram-no concentrado, glicérico, deram-lhe um refinadíssimo e profundo bouquet, ao olhar é percetível aquela bonita coroa esverdeada. O resto é um monumento à casta Verdelho, engarrafado em 1957, com aroma da madeira velha onde morou, laca, toques de laranja/toranja cristalizada, iodo, muita frescura e elegância num conjunto profundo e misterioso. Boca em perfeita sintonia, meio seco, saboroso com a concentração a ser compensada pelo arrasto mineral acompanhado por uma acidez que revitaliza o palato, repete o toque de toranja bem no final da boca. Inesquecível.

Contactos
Sítio de Belém 9300-138
Câmara de Lobos
Madeira – Portugal
Tel.: (+351) 291 941 551/2
Fax.: (+351) 291 941 590
E-mail: HeH@henriquesehenriques.pt
Site: www.henriquesehenriques.pt

Yes we can: Madeira Vintners – Uma nova abordagem ao Madeira

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

A Declaração de Independência dos Estados Unidos, assinada em 1776, foi comemorada com um copo de vinho Madeira. Mas não é o terceiro presidente dos Estados Unidos (o autor da Declaração), Thomas Jefferson, que me vem à cabeça quando me encontro com Paulo Mendes. Em vez disso, lembro-me do slogan de campanha de Barack Obama ‘yes we can’.

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“Yes, we can” in onlifesuccess.net

O negócio mais difícil

Mendes, o CEO tenaz e arquitecto de raça rara de uma nova empresa da Madeira, teve que ser criativo, até pouco ortodoxo, uma vez que, como é o primeiro a admitir, “A Madeira Vintners tem uma enorme desvantagem – não tem vinhos velhos”.

Embora Mendes se esteja a referir à desvantagem de recriar o perfil estilístico da Madeira a partir de um stock jovem (o vinho Madeira é em grande parte um casamento de vinhos velhos e jovens), essa falta de vinhos velhos quase foi fatal do ponto de vista legal (descrito mais abaixo). A lei prevê que até mesmo as novas empresas devem possuir 120,000 litros de Madeira.

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Paulo Mendes a todo o gás – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Com tudo isto o começo não foi encorajador para este consultor de gestão altamente experiente, que confessa: “no começo eu era o consultor arrogante que pensava que tudo e todos estavam errados”. Quando se deu conta de que “o negócio do vinho é um dos, se não o, negócio mais difícil que eu já vi na minha vida”. Um homem com um curriculum vitae bem considerável voltou a estudar entre 2010-2012, completando MBAs em Wine Marketing & Gestão de Vinhos na Escola de Negócios de Bordéus e em Marketing de Vinhos e Vinificação na Universidade da Califórnia, Davis.

Ainda assim, ele deve ter ido buscar energias ao sucesso da regeneração alcançada na Co-operativa Agrícola do Funchal (“CAF”), o fornecedor de produtos agrícolas e jardinagem que tem sido gerido desde 1999 por este perspicaz estrategista nado da Madeira. Foi o excedente de caixa gerado por esta “profunda” regeneração que incentivou a CAF a diversificar o seu vinho Madeira em 2008 (a Madeira Vintners é uma divisão independente da CAF). Mendes claramente brilha perante os desafios.

Entre a espada e a parede

Naturalmente, de início os planos de Mendes giravam à volta da compra de stocks maduros de vinho Madeira ou da aquisição de uma empresa estabelecida para que cumprisse as normas mínimas de armazenamento e produzir vinho Madeira desde o princípio. Infelizmente, diz-me, nenhuma das empresas existentes estava disponível para vender stock e “perdemos todas as propostas de aquisição”, mais recentemente para a Pereira d’Oliveira, que adquiriu a Barros e Sousa no ano passado. Isto deixou-o entre a espada e a parede.

No entanto, graças a uma vindima generosa em 2012, foi concedida uma isenção especial dos requisitos de armazenamento para novas empresas à Madeira Vintners; a primeira colheita, nesse mesmo ano, foi processada na adega da Barbeito. Com um enorme suspiro, Mendes diz que circulavam rumores a Madeira Vintners não era mais do um veículo estatal criado para comprar os excedentes de uva. Rumores esses que devem ter sido frustrantes já que, e deixando de parte o facto de que a Madeira Vintners (CAF)  é propriedade privada, foram um soco no estômago na estratégia da Madeira Vintners para o sucesso. A Madeira Vintners é altamente selectiva no que toca à origem das uvas.

Má matéria-prima, maus resultados

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Mendes ao lado de pequenas caixas que podem albergar 30Kg nas quais as uvas são colhidas – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Em relação a esta estratégia, Mendes explica que está a apostar na qualidade e proveniência da sua matéria-prima, numa tentativa de diferenciar a Madeira Vintners da competição. Alerta para a dura realidade de que “ou temos qualidade acima da média, ou estamos mortos” certamente faz sentido porque com apenas vinhos jovens para vender, a Madeira Vintners terá como alvo os consumidores de nível de entrada os quais Mendes acredita não estarem actualmente bem servidos. Descartando muitos dos 3 anos Madeiras, 3 anos de nível de entrada do circuito turístico como “impróprios para consumo, apenas para uso culinário”, acredita que é imperativo para a ilha para aumentar a quantidade de vinhos básicos de qualidade se querem que novos consumidores explorem a categoria e não a descartem.

Por esta razão, abandonou o mercado local e tradicional, de modo a controlar melhor a qualidade da uva. Na opinião de Mendes, porque os produtores da ilha são predominantemente pequenos (muitos dos quais são jardineiros ou agricultores, não viticultores), querem vender as suas uvas à primeira oportunidade e os agentes que operam no mercado são pagos ao quilograma, não há incentivos para que as uvas pendurem até que tenham atingido o equilíbrio ácido e de açúcar correcto. São muitas as uvas, diz, colhidas no nível mínimo de maturação (9% de potencial de álcool) e para Mendes, que franze perante o “Madeira que se parece com Porto,” estas uvas altamente ácidas exigem elevadas adições de açúcar desnecessárias.

Tirando o intermediário da equação, a Madeira Vintners lida diretamente com maiores e contratados produtores que são por sua vez mais profissionais. Ainda assim, a Madeira Vintners trabalha com eles intensivamente para garantir que as vinhas são devidamente cuidadas e as uvas colhidas no momento ideal. Em troca, a Madeira Vintners assegura a compra das uvas colhidas mais tarde e mais maduras, pagando mesmo um valor acima da média aos seus produtores.

Não é o único incentivo financeiro para a qualidade. Mendes também paga mais aos produtores que mantiverem baixos os níveis de ácido glucônico, cuja formação está associada à Botrytis cinerea (um bolor). Se tiver demais a Madeira Vintners não vai sequer vindimar.

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Mesa de Selecção – Foto de Madeira Vintners | Todos os Direitos Reservados

O rigoroso processo de seleção continua na nova e brilhante adega da empresa onde, Mendes vangloria-se, a Madeira Vintners é a única empresa a separar as uvas na recepção, bem como na vinha utilizando uma tabela de classificação. Diz que há uma diferença quântica em relação às que são uvas separadas e as que não são; as primeiras têm aromas frutados e nenhuma da rusticidade associada ao bolor. Estimando que 5-10% das uvas colhidas à mão são descartadas, diz, “é doloroso e caro, mas nós acreditamos que, se separarmos as uvas, teremos uvas imaculadas”.

Terroir interessa

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Diferentes produtores, Diferentes Terroirs – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este ano, a Madeira Vintners comprou 110 toneladas de apenas 20 produtores cuja produção anda à volta de três toneladas – uma quantidade considerável para os padrões da Madeira. Permitindo à Madeira Vintners processar cada vindima dos produtores em separado (a adega está equipada com fermentadores de formato relativamente pequenas, albergando entre uma a dez toneladas). “Para quê estragar os vinhos, misturando”, pergunta, “quando você podemos reflectir o produtor, os solos e o clima?”

Ao adoptar esta abordagem de pequenas quantidades, Mendes está deliberadamente a criar diferença em relação à competição. Como diz pragmaticamente, “para sobreviver e trazer complexidade, estamos a trabalhar com o maior número de quantidades quanto possível nas vinhas”, incluindo o Listrão (a.k.a. Palomino) e o Caracol, da ilha vizinha, Porto Santo, cujos solos calcários diferem do terreno vulcânico da Madeira. Interessado em agradar a um novo público, do qual, admite, os conhecedores costumam fazer parte. Mendes tem como objetivo “levar ao entusiasta da Madeira uma nova abordagem em que as ‘terroir’ interessa”, considerando mesmo a rotulagem dos vinhos por produtor e/ou vinha.

O Pequeno colisor de partículas da Madeira

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Large Hadron Collider in news.discovery.com

A complexidade derivada do Terroir é uma coisa, mas então e a intensidade e complexidade únicas derivadas do envelhecimento dos melhores Madeiras (com cinco ou mais anos)? Essas características (tradicionalmente obtidas através da oxidação do envelhecimento em barril) definem o vinho Madeira e são um pré-requisito para a obtenção de selo de aprovação do Instituto do Vinho da Madeira. Será que o tempo será um inimigo de Mendes até ter acumulado stock de vinhos velhos?

Enquanto diz “Por sermos uma nova empresa não significa que não acreditemos que o tempo é fundamental”, Mendes acredita ter encontrado uma solução alternativa – os seus próprios aceleradores de partículas de vinho Madeira. Essencialmente, trata-se de “utilizar vários e diferentes processos na adega”, que, se tudo correr como planeado, vai ajudar a atingir a complexidade e perfil dos Madeiras 5-10 anos em apenas três anos.

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Tinta Negra fermentada em pele versus sozinha – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Durante a fermentação, estas técnicas incluem, a fermentação em barril, maceração a frio, flotação, fermentação completa da pele e fermentação maloláctica. Fez parte de um programa de degustação de vinhos de 2013 que mostrou como esses métodos podem alterar o perfil do Madeira, às vezes de forma dramática.

A Fermentação em barril introduziu uma maior complexidade derivada de madeira e cognac (os barris foram adquiridos a Remy Martin). Quanto maior for o barril (que variam desde 350 litros a 600 litros), melhor a integração do carvalho.

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Cubas de pequenas dimensões versus barris Remy Martin – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A maceração a frio em peles durante três dias antes da fermentação produziu um Malvasia mais escuro, com mais especiarias e textura, mais homogéneo e desenvolvido. Um Caracol de 2014 fermentado em peles é muito mais escuro e mais intensamente frutado e picante.

Também foi fascinante ver a diferença entre vinhos fermentados com o sem temperatura controlada (20 graus Celsius). O controlado originou um vinho muito mais equilibrado, com mais frutas e fragrância para equilibrar o álcool.

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Mendes com as cubas de aço inox com temperatura controlada – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Embora cerca de 10% dos vinhos estarem a ser envelhecidos em canteiro (barril) durante um período mínimo de cinco anos, Mendes afastou-se da tradição em relação ao processo de aquecer os vinhos em tanque, estufagem (tradicionalmente os vinhos são mantidos durante três meses a 45-50º C). A sua abordagem mais diferenciada visa introduzir uma maior complexidade – diferentes opções de mistura – através de diferentes tamanhos de estufa (40,000 litros, 10.000 litros e 1,000 litros) e de aquecer as estufas a temperaturas ligeiramente mais baixas do que o normal, com variações de temperatura mais lentas e ao longo de períodos mais longos. O objetivo é imitar o envelhecimento em porão de carga de quando o Madeira foi transportado pelo Equador alcançar o seu paladar de assinatura a terra queimada (madeirado).

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Micro-Oxigenação durante a estufagem – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mendes também está a apostar na utilização da micro-oxigenação durante o processo de estufagem para replicar a oxidação tradicional em barril. Das amostras de 2014 que provamos, os que tiveram um trabalho de oxigênio provaram ser mais encorpados – mais precoces.

Sem coragem não há glória

Ainda sem vinhos para mostrar o fruto dos seus esforços, a pergunta à qual todos esperam resposta é, conseguirá este underdog remar contra a maré da tradição, ou correrá Mendes o risco de se tornar um cruxificado messias como o actual presidente dos Estados Unidos? Só o tempo o dirá, mas, como dizem, sem coragem não há glória.

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A variedade é o sabor da vida – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Estou ansiosa para provar os primeiros lançamentos da Madeira Vintner. Eles estão actualmente agendados para 2016, desde que Mendes (e os clientes seleccionados) ache que estão prontos.  Enquanto os vinhos fortificados lutam para permanecer importantes à geração X e Y, a nova perspectiva de Mendes sobre o Madeira – vinhos baseados em terroir, complexos, mas limpos com álcool inferior mas equilibrado (18 graus no máximo) e níveis de açúcar e acidez mais baixos – é certamente um ponto de vista bem-vindo.

Contactos
Cam. Sao Martinho, 56 Funchal
Madeira 9000-273
Portugal

Instituto do Vinho Madeira – Uma Masterclass que fez toda a diferença!

Texto Olga Cardoso

Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P. – IVBAM, é o organismo responsável pela fiscalização das actividades vitivinícolas regionais e pela certificação e controlo de qualidade do Vinho da Madeira.

Trata-se de um organismo que, dotado de autonomia administrativa e financeira, se preocupa eficientemente pela consolidação e crescimento sustentado da produção dos artigos tradicionais regionais, sem nunca esquecer a manutenção da qualidade e a sua promoção eficaz e crescente, quer a nível nacional, quer a nível internacional.

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Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P. – IVBAM – Foto cedida por IVBAM | Todos os Direitos Reservados

A Madeira possui cerca de 400 hectares de vinha. Os terrenos agrícolas caracterizam-se por declives muito acentuados, que regra geral se encontram sob a forma de socalcos, designados por poios. A água de rega na Madeira é captada nas zonas altas da ilha e é conduzida através de canais denominados por “levadas” que integram um impressionante sistema de 2150Km de canais.

O sistema de condução mais tradicional é o da “latada” (pérgola), no qual as vinhas são conduzidas horizontalmente. Mais recente é o sistema de condução em espaldeira, que, no entanto, só pode ser utilizado em terrenos com declives menos acentuados.

Por regra, a vindima ocorre entre meados de Agosto e meados de Outubro e é feita de forma totalmente manual. Os esforços são muitos e os rituais espelham a dificuldade relativa a todo um sistema de minifúndio espalhado por uma orografia extremamente acidentada.

Falar de Vinho Madeira é o mesmo que falar em dramatismo. Dramaticidade essa que se manifesta não só na paisagem avassaladora da ilha, como também no método de vinificação dos seus vinhos e no seu longo período de estágio.

Dramaticidade é de facto uma palavra que assenta bem não só na Madeira mas em tudo o que é Português. Somos um povo dramático sim…e isso manifesta-se em diferentes aspectos da nossa cultura.

A nossa canção ou música nacional é o  Fado – existirá outra tão forte, triste ou sentida? Realmente percebo a dificuldade de alguém proveniente do Norte da Europa, pessoas normalmente mais frias, precisas e desprovidas de sentimentos tão melancólicos, ou de alguém proveniente de países mais alegres e descontraídos como são os países do continente Sul Americano.

De facto, não deve ser fácil perceber todos estes nossos sentimentos exacerbados!

Mas voltando a falar de vinho…é realmente um orgulho ser Português. Somos ainda neófitos no que respeita a vinhos de mesa. Ganhámos hoje vários prémios internacionais e somos já contemplados por publicações como a Wine Spectator com lugares cimeiros no que concerne aos melhores vinhos do mundo. Mas nesta área, há ainda um longo caminho a percorrer, isto se quisermos manter e incrementar todo este reconhecimento de qualidade.

Produzimos pouco mais de 6 milhões de hectolitros por ano. Querer estar no topo do mundo no que diz respeito à qualidade, exigirá muito de nós no futuro. Querer espalhar a boa nova pelo consumidor internacional e não ficar cingido apenas ao reconhecimento das revistas, exigirá muito mais ainda. Sim, porque não se esqueçam que uma coisa é o reconhecimento da imprensa e outra, bem diferente, é a aceitação dos consumidores, esses sim, irão permitir o crescimento dos vinhos portugueses.

A imprensa compra vinhos? Não. O trade compra vinhos? Sim, mas para vender e só enquanto isso financeiramente se justificar. Então quem é que temos de conquistar? Os consumidores – naturalmente!

Ora bolas, lá estou eu a divagar…voltemos então ao Vinho Madeira e ao IVBAM.

Este ano fui 4 vezes à Madeira e estou prestes a embarcar novamente. É verdade…não me canso e penso até ficar muito mais ligada àquela ilha no futuro.

A última viagem à Madeira, que ocorreu em meados de Novembro 2014, foi realmente marcante. Toda a equipa Blend – All About Wine’s team members ficou muito bem impressionada. Visitamos todos os produtores de Vinho Madeira e fizemos ainda uma prova genérica de vinhos de mesa Madeirenses.

Experimentamos diferentes restaurantes fantásticos da ilha e percebemos o seu enorme potencial turístico…ainda tão estranhamente esquecido no que respeita aos seus vinhos!

Os vinhos provados ao longo dos 5 dias de viagem foram muitos e de elevada qualidade. Vinhos novos, mas sobretudo vinhos muito velhos. Vários vinhos com mais de 100 anos, que nos contaram e nos provaram toda a peculiaridade desta ilha vitícola.

Alguns deles foram provados durante a MasterClass do IVBAM, muito bem conduzida pela Chefe da Câmara de Provadores – Rubina Vieira.

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MasterClass do IVBAM, conduzida pela Chefe da Câmara de Provadores – Rubina Vieira © Blend All About Wine, Lda.

Para além de bem conduzida, esta MasterClass foi ainda simpaticamente personalizada. Sim, foi uma Blend – All About Wine Masterclass – nada e criada para nós!

Provámos 12 vinhos provenientes de diferentes anos, produtores e castas. Começamos com um Colheita de 1996 e terminámos com um Verdelho de 1850.

Os que mais me impressionaram foram o Sercial 1862 e o Moscatel 1875. O Bastardo de 1927, pela sua diferença e raridade, também não me passou indiferente.

Complexidade, concentração, profundidade e equilíbrio foram características comuns a estes dois vinhos, sendo o primeiro, obviamente, bastante mais seco e muito mais delgado do que o segundo, o qual revela aspectos mais viscosos e melosos, embora se tenha mostrado muito harmonioso e sem revelar qualquer tipo de excessos. Que grandes vinhos!

Mas o que importa aqui não é falar dos vinhos e/ou produtores pelas suas particularidades ou diferenciações, isso caberá a cada um dos meus colegas, ao falarem de cada produtor individualmente.

Aqui importará falar do Vinho Madeira em toda a sua plenitude e grandiosidade. São 5 as castas ditas nobres do Vinho Madeira. Numa classificação estipulada por grau crescente de doçura temos: Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia e sim…o Terrantez!!!

Em termos de grau de doçura ficará entre o Verdelho e o Boal, mas sendo tão raro, e correspondendo a menos de 1% das plantações da ilha, nem sequer poderá ser considerado!

Falámos de uma casta que dá lugar a vinhos absolutamente excepcionais. Pense-se por exemplo na enormidade do Terrantez 1880 da Pereira D’Oliveira…talvez um dos vinhos mais perfeitos que provei até hoje.

 

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Mesa de Prova © Blend All About Wine, Lda.

Não sendo considerada uma casta nobre, a Tinta Negra, é uma casta muito utilizada no Vinho Madeira. Hoje em dia são já consideráveis, não só em quantidade mas também em qualidade, os vinhos Madeira produzidos através dessa casta.

No que respeita à ordem de vindima, as castas colhidas, por uma habitual ordem de prioridade, são:

  1. Verdelho;
  2. Boal;
  3. Tinta Negra;
  4. Malvasia;
  5. Sercial;

No que respeita ao processo de vinificação e/ou envelhecimento verifica-se que poderá ocorrer por um de dois processos: Estufagem ou Canteiro.

Estufagem: – O vinho é colocado em estufas de aço inox, aquecidas por um sistema de serpentina, por onde circula água quente, por um período nunca inferior a 3 meses, a uma temperatura entre os 45 e 50 graus Celsius. Concluída a «estufagem», o vinho é sujeito a um período de «estágio» de pelo menos 90 dias à temperatura ambiente. A partir deste momento pode permanecer em inox, ou ser colocado em cascos de madeira, até reunir as condições que permitem ao enólogo fazer o acabamento do vinho, para que possa ser colocado em garrafa, com a garantia de qualidade necessária. No entanto, estes vinhos nunca podem ser engarrafados e comercializados antes de 31 de Outubro do segundo ano seguinte à vindima. São vinhos maioritariamente de lote.

Canteiro: – Os vinhos seleccionados para estágio em Canteiro (esta denominação provém do facto de se colocar as pipas sob suportes de traves de madeira, denominadas de canteiros) são envelhecidos em cascos, normalmente nos pisos mais elevados dos armazéns onde as temperaturas são mais elevadas, pelo período mínimo de 2 anos. Trata-se de um envelhecimento oxidativo em casco, desenvolvendo os vinhos, características únicas de aromas intensos e complexos. Os vinhos de canteiro só poderão ser comercializados, decorridos pelo menos 3 anos, contados a partir de 1 de Janeiro do ano seguinte ao da vindima.

No que respeita à fortificação, verifica-se que esta consiste na paragem da fermentação com a adição de álcool vínico a 96% vol. A escolha do momento da interrupção da fermentação faz-se de acordo com o grau de doçura pretendido para o vinho, podendo-se, com este procedimento, obter quatro tipos de vinho: o seco, o meio-seco, o meio-doce e o doce.

Para mim, falar de Vinho Madeira é o mesmo que falar em Vinhos apaixonantes, envolventes e arrebatadores. Confesso-me completamente rendida os seus encantos. Sou uma Madeira Wine Geek…é verdade!

Volúpia e sedução, luxúria e lascívia andam por aqui de mãos dadas com uma enorme sensibilidade, delicadeza e erudição. Quem disse que estas características aparentemente antagónicas não se podem harmonizar na perfeição? Será que toda esta energia telúrica, toda esta autenticidade e profundidade, consubstanciarão mesmo o sabor antecipado do paraíso?

Voltaire dizia que os Tokaji possuíam o condão de conferir vigor à mais pequena fibra do seu cérebro. Bom, o Senhor era um iluminista e eu não sou…mas acho que é realmente isto que se passa comigo relativamente ao Vinho Madeira!

Mas enquanto o Tokaji é considerado o Rei dos Vinhos e o Vinhos dos Reis (assim o disse um dia Louis XV ao oferecer um copo daquele vinho à sua amante Madame de Pompadour), permitam-me dizer que, para mim, pela sua acidez triunfante e o seu mártir processo de vinificação, condições que o tornam quase imortal, o Madeira é muito mais do que um Vinho dos Reis…é um verdadeiro vinho dos DEUSES!

E por último mas não menos importante, vejam este excelente vídeo sobre o vinho Madeira.

Vídeo cedido por Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P. – IVBAM

Contactos
Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P.
Rua Visconde de Anadia, nº44
9050-020 Funchal
Tel: (+351) 291 211 600
Fax: (+351) 291 224 791
E-mail: ivbam.sra@gov-madeira.pt
Site: www.ivbam.gov-madeira.pt

Justino’s Madeira Wine

Texto João Pedro de Carvalho

A tradição do vinho na Madeira é secular, tudo começou no século XV quando o Infante D. Henrique ali mandou plantar vinhas de Malvazia/Malmsey importada da Grécia. Passados mais de 500 anos o Vinho Madeira tornou-se um dos ícones do Mundo do Vinho, quer pela longevidade quer pela qualidade, marcando presença em acontecimentos tão marcantes como por exemplo a Declaração da Independência dos Estados Unidos a 4 de Julho de 1776.

Na recente viagem à Madeira uma das empresas visitados foi a “Justino´s, Madeira Wines, S.A.” criada em 1953 mas cujo fundador foi Justino Henrique Freitas em 1870 quando ainda era uma companhia familiar conhecida como Vinhos Justino Henriques (V.J.H.). Em 1981 Sigfredo da Costa Campos compra a empresa e amplia o seu valor com a compra do stock da Companhia Vinícola da Madeira. Associa-se em 1993 ao grupo Francês “La Martiniquaise” e em 1994 muda-se das instalações no centro do Funchal para o Parque Industrial de Cancela onde se encontra até hoje. Com a sua morte em 2008 a empresa, passou a ser detida na totalidade pelo grupo Francês.

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Alinhamento dos 10 Anos (Sercial, Verdelho, Boal, Malvazia*) © Blend All About Wine, Lda.

A prova, excelente por sinal, foi realizada nas atuais e modernas instalações onde me deixou alguma saudade aquela atmosfera tão característica das adegas mais antigas por onde a passagem do tempo deixou as suas marcas e histórias. Felizmente essa carga nostálgica passou de imediato com a excelência dos vinhos que me iam sendo servidos.

Antes do destaque daqueles que mais gostei, um pequeno apontamento sobre os Justino’s 10 Anos das castas mais conhecidas (Sercial, Verdelho, Boal, Malvazia), vinhos que nos oferecem uma intensidade e maturidade acima da média. E é muito provavelmente a partir de aqui que se começa a melhor entender o “Mundo Madeira” em vinhos cuja harmonia de conjunto se mistura num bouquet mais adulto e que já nos permite sonhar com os patamares mais altos.

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Justino’s Terrantez Old Reserve © Blend All About Wine, Lda.

Justino’s Terrantez Old Reserve
A Terrantez é uma casta rara e quase extinta, que envolve os vinhos a que dá origem com uma capa de mistério e fascínio. Estamos perante um vinho com mais de quarenta anos, alguns apontamentos tal como os toques esverdeados no rebordo indicam que pode ser bem mais velho que isso. Um vinho concentrado e profundo, notas de iodo, caril, laca, madeira de casco velho, frutos secos com bolo inglês, exótico e misterioso. Boca com entrada que envolve e forra o palato com travo untuoso de nozes e amêndoas, geleia de laranja, enorme elegância com aquela acidez que conquista num final muito longo e persistente.

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Justino’s Sercial 1940 © Blend All About Wine, Lda.

Justino’s Sercial 1940
Pela alta acidez que a casta transporta para os vinhos, é a que mais tempo necessita para se desenvolver e mostrar em garrafa. De todos o meu favorito com muitas notas de maresia, muita amêndoa salgada, laca, complexidade e elegância, mel com casca de laranja cristalizada ao mesmo tempo que debita uma frescura bem afiada a embalar toda a prova. Grande presença no palato com ligeira untuosidade de frutos secos salgados, iodo, raspas de citrinos, muita emoção e sabor, mais uma vez a acidez em destaque num vinho a todos os níveis inesquecível.

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Justino’s Verdelho 1954 © Blend All About Wine, Lda.

Justino’s Verdelho 1954
Um vinho que emana frescura e energia, complexidade a rodos num conjunto denso e até algo cerrado de início com aquele toque de limão muito maduro em geleia, chá verde, ramalhete de flores na companhia de nozes, muita vivacidade em conjunto pujante e seco. Boca em contraste com os aromas, cheio de sabor com notáveis apontamentos onde se destaca a secura que revitaliza o palato e convida a mais um trago, sempre com muito sabor e ligeiro toque de untuosidade num vinho que termina apimentado e com um enorme final.

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Justino’s Malmsey 1933 © Blend All About Wine, Lda.

Justino’s Malmsey 1933

Um grande vinho que mostra a razão pela qual não há vinhos comparáveis com os grandes Madeira, aqui a longevidade coabita com uma complexidade/frescura difícil de encontrar noutro local. Este é dos grandes, daqueles que conquista no imediato, sente-se por natureza da casta que é mais doce e “pesado” que os provados anteriormente. Grande complexidade com notas de caramelo de leite, passas de figo, laca, frutos secos, elegância entre conjunto e aquela acidez necessária que lhe dá enorme vida, café moído, caixa de charutos, especiarias, tudo muito bem pronunciado numa perfeita harmonia entre nariz e boca. Palato com passagem untuosa e fresca, com aquela pontinha doce no final que o torna pecaminoso.

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Madeira
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Casa da Passarella – Uma história escrita com vinho

Texto João Pedro de Carvalho

Nascida em 1908, a Região Demarcada do Dão é a região de vinhos tranquilos mais antiga de Portugal. Historicamente o berço de grandes vinhos, viu nascer duas décadas antes a Casa da Passarella, produtor emblemático por onde passaram nomes lendários da enologia portuguesa, como os saudosos Dr. Mário Pato e Eng. Alberto Vilhena, entre muitos outros. Atualmente a Casa da Passarella tem cerca de 100 hectares, dos quais 45 hectares são de vinha, divididos em sete parcelas distintas com características únicas e diferenciadoras quer pela diversidade de castas quer pelas diferentes exposições e solos. Desses apenas 4,4 hectares correspondem a vinhas velhas, às quais se juntam quatro parcelas centenárias exteriores à propriedade e de reduzida produção.

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Vinhas Velhas Casa da Passarella – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro registo data de 1893 com a marca Villa Oliveira, pelo meio contou com períodos de maior e menor saudade, mas todo este novo renascer da Casa da Passarella deu-se recentemente com a colheita 2008. Hoje passados 6 anos já se pode falar de uma notável consistência dos vinhos deste “novo” produtor sendo altura ideal para tomar pulso aos novos lançamentos. Aos grandes nomes da enologia que passaram por esta Casa junta-se agora a assinatura do enólogo Paulo Nunes, grande comunicador tanto pela maneira apaixonada como explica os seus vinhos quer pela forma como guia de forma efetiva a identidade da vinha para dentro da garrafa.

Tendo boa matéria-prima e quem a saiba interpretar, o resultado só pode ser uma gama que assenta numa matriz muito bem delineada em pura simbiose com um traço identificativo dos fiéis exemplares da região do Dão, mais propriamente na sub-região da Serra da Estrela. Assistimos portanto a uma combinação entre modernidade com o procurar manter a tradição, o resultado são vinhos bastante apetecíveis. Na gama Casa da Passarella tudo começa com “A Descoberta”, os vinhos mais diretos onde a fruta ganha destaque pela maneira airosa e fresca com que se mostra, aos quais se junta o “Abanico” em modo tinto Reserva, o mais robusto e tenso da gama, com predomínio da Touriga Nacional num conjunto que mostra alguma austeridade e claramente feito para durar.

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“OEnólogo” | “OEnólogo” Vinhas Velhas tinto – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

De seguida a gama “OEnólogo” onde o branco de 2013 com a juventude à flor da pele mostra a casta Encruzado num perfil ainda tenso e mineral. O tinto “OEnólogo” Vinhas Velhas com um conjunto demasiado tentador pela maneira como a fruta/frescura/madeira se combinam em grande harmonia num conjunto de puro prazer à mesa.
[Veja o nosso artigo sobre o ano anterior desta gama]

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Villa Oliveira Encruzado 2012 | Villa Oliveira Touriga Nacional 2010 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

É dessas vinhas velhas que saem os dois topos de gama, os Villa Oliveira. O Villa Oliveira Encruzado 2012 tem vindo a acomodar-se na garrafa, mais adulto e mais sério desde a última prova no início deste ano. Algo marcado pela tosta e pela baunilha da madeira onde estagiou, tem a fruta debaixo bem suculenta e fresca, conjunto amplo e complexo, muito prazer durante toda a prova a pedir carnes brancas com molho cremoso. O Villa Oliveira Touriga Nacional 2010 segue o caminho do Reserva, tenso, musculado com austeridade e frescura, muita fruta suculenta em nariz e boca, num conjunto ainda por desprender as amarras, coisas que apenas o tempo irá permitir.

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Casa da Passarela “Enxertia” 2011 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

Como novidade surge pela primeira vez o Casa da Passarella“Enxertia” 2011, uma nova marca que irá mostrar o melhor varietal de cada colheita cabendo a 2011 o Alfrocheiro. Atrativo de aroma com muita fruta negra (amora, framboesa, bagas), muita vivacidade e harmonia com caruma de pinheiro, ligeiro balsâmico com especiarias em fundo. Conjunto complexo e fresco, num dos melhores exemplares desta casta.

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O Fugitivo Garrafeira branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

Para terminar foram apresentados dois novos vinhos, a lançar para o próximo ano, que se inserem na gama “O Fugitivo”, vinhos que acontecem, visões mais intimistas do enólogo em quantidades muito limitadas como seria de esperar, neste caso o O Fugitivo Garrafeira branco 2013, onde a Encruzado se mistura com vinhedo velho resultando em apenas 2500 garrafas a entrar no mercado daqui por um ano, feito a pensar na guarda e no crescimento em garrafa. Menos marcado pela madeira que o Villa Oliveira, muito tenso, cheio de nervo, coeso e profundo, fruta fresca presente e madura com acidez a marcar a prova, mineralidade acentuada no final de boca. É um branco de respeito que tem tudo para brilhar muito alto.

O Fugitivo Vinhas Centenárias red 2011 nasce de quatro parcelas de vinhedo com mais de 100 anos, castas tintas com algumas castas brancas misturadas. O resultado é um vinho arrebatador, desafiante e que sai claramente fora do atual contexto. Conjunto muito perfumado, frescura na ribalta com balsâmico, bergamota, envolvente e complexo, no fundo suave nota do engaço maduro. Muita energia, boca com austeridade, fruta vermelha suculenta e a harmonia a começar a surgir, pede desde já pratos de forte tempero, num grande vinho à imagem do Dão.

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