Posts Categorized : News

Para a mesa com Pouca Roupa

Texto João Barbosa

Há expressões engraçadas, que, de tão usadas, nem reparamos nem pensamos no que querem dizer… «Foi resvés Campo de Ourique» – o maremoto de 1755 quase chegou à colina de Campo de Ourique. Basta esta, pois não quero escrever um texto para almanaque.

No mundo da gastronomia – em que me centro apenas na componente vínica ou de outras bebidas – há igualmente expressões que dão jeito e, na pressa de se dizer o que se quer, o maremoto leva-lhe parte.

A minha expressão favorita é a do «vinho de piscina». A imagem é maravilhosa – mesmo não pensando num tanque cheio de vinho. Calor, sol, família e amigos. Tudo jóia! Mas… quantos de nós têm piscina ou conhecem alguém com piscina?

Infelizmente não tenho piscina. Azaruncho privado. Outra imagem é do vinho para depois da praia, quando as senhoras se enrolam nuns panos coloridamente desbotados e os homens enfiam os pólos tronco abaixo, contorcendo-se com a canção desagradável do sal, algodão e pelo.

Estiraçados nas cadeiras da esplanada – nas férias tudo é permitido – a ver o mar e o sol a pôr-se, bebendo um «vinho para depois da praia». Tudo jóia! Mas… quantos de nós tem arcaboiço para beber um copo de vinho entre a areia e a casa? Além da questão do volante… Ao jantar, é diferente. Mas, «vinho para depois da praia»?!

Não importa! «Vinho de piscina» e «vinho para depois da praia» são expressões fantásticas. E vêm a propósito de quê? Da nova marca de vinhos de João Portugal Ramos. É um achado!

«Pouca Roupa»! Duas palavras que sintetizam o que já era sintético: «vinho de piscina» e «vinho para depois da praia». Confesso que ao saber do «Pouca Roupa» lembrei-me de toda uma gama: Biquíni (bivarietal), Monoquini (monocasta), Triquini (três, claro)… já Tanga e Sunga… Nudismo, depois de esvaziada.

O que conta esta marca, que se veste de «negro, branco e rosa»? Desde logo um prazer fácil, directo ao assunto. Todos eles, mas uns mais felizes do que outros, o que é normal. São os três Regional Alentejano e referentes à vindima de 2014

Pouca Roupa tinto 2014

O Pouca Roupa Tinto 2014 é um alentejano temperado com Dão… ok, touriga nacional. A touriga nacional é do mundo, pelo que também do Alentejo, onde ocupa áreas significativas. O lote é composto ainda por alfrocheiro e alicante bouschet.

Ora o que tenho a dizer: 14% de álcool é demasiado. Sendo que tem acidez que o aguenta, o organismo não quer saber. A graduação é elevada se pensarmos em «pouca roupa». Só lhe aponto a graduação, é prazenteiro.

Blend_All_About_Wine_Pouca_Roupa_2

Pouca Roupa branco 2014

O Pouca Roupa Branco 2014 é um alentejano diferente, em que viosinho, sauvignon blanc e verdelho se orquestram nos sentidos. Mais uma vez, boa acidez e a pedir comida leve. Aplaudo os seus 12,5% de álcool.

Blend_All_About_Wine_Pouca_Roupa_3

Pouca Roupa Rosé 2014

O Pouca Roupa Rosé 2014 fez-se com uvas touriga nacional, aragonês e cabernet sauvignon. Guloso! A acidez mais do que aguenta os 13% de álcool. Porém, parece-me uma percentagem excessiva, quando penso em «pouca roupa».

Agora resta esperar que a Primavera seja simpática e o Verão seja amigo. Que o tempo de prazer não signifique maldade para as lavouras. Fiz a primeira recomendação a um amigo que tem piscina.

Contactos
João Portugal Ramos Vinhos S.A.
Vila Santa
7100-149 Estremoz
Portugal
Tel.: (+351) 268 339 910
Fax.: (+351) 268 339 918
E-mail: info@grandesvinhos.com
Website: www.jportugalramos.com

Quinta da Pacheca – A Essência do Enoturismo

Texto José Silva

É uma quinta cheia de história, que faz parte da história do vinho, pertencente à família Serpa Pimentel durante 4 gerações.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_1

The Quinta – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Os vinhos da quinta evoluíram imenso em meados do século passado, graças ao trabalho intenso do sr. eng. Eduardo Serpa Pimentel, avô da actual geração, com quem tive o prazer de provar várias vezes. Era um homem conhecedor, de mente aberta e fazia várias experiências nas vinhas durienses, de que recolhia ensinamentos que partilhava com quem o quisesse ouvir. Lembro alguns brancos que fez com castas como Rieseling e Gewurstraminer, coisas diferentes num Douro então ainda muito conservador. Os vinhos, esses, continuaram a fazer-se e chegaram à actualidade de boa saúde e recomendam-se. Estão mais modernos, mais acessíveis, diria mesmo mais apetecíveis e voltaram em força à prateleiras comerciais e à restauração, com imagem renovada, mais moderna, mas mantendo a classe dum nome bem conhecido. Graças também a novos investimentos que têm vindo a ser feito pelos novos proprietários – Maria do Céu Gonçalves e Paulo Pereira – empresários portugueses radicados em França, que compraram a maioria do capital da empresa e que agora a gerem juntamente com a família Serpa Pimentel.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_2

Tourism industry, the restaurant and hotel – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Na vertente turística o restaurante e o hotel são já uma referência no Baixo Corgo e mesmo em todo o Douro, tal a qualidade da oferta.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_3

Interior – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_4

Interior – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Uma unidade muito bem integrada na velha arquitectura da quinta, com 15 quartos onde a beleza e o conforto são uma constante, com um serviço cuidado, impecável, também por isso mantendo uma taxa de ocupação elevada ao longo de todo o ano.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_5

The restaurant – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_6

The restaurant – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Numa sala de grande beleza, cheia de luz, funciona o restaurante onde, para além de deliciosos pequenos almoços, são servidas refeições com muita qualidade, preparadas com produtos portugueses e mesmo regionais, quando possível, em confecções simples e saborosas.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_7

Alheira and Asparagus Pasty – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Na última visita apreciamos de entrada um folhado de alheira e espargos sobre cama de repolgas salteadas em azeite da Pacheca muito saboroso.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_8

Piece of Veel – Photo by José Silva | All Rights Reserved

A que se seguiu um naco de novilho com cogumelo portobelo e risotto de salpicão de Vinhais, carne muito tenra e saborosa, cogumelo a saber a terra, carnudo e um risotto bem conseguido, com um produto muito português, o salpicão.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_9

Sweet made of Cheese and Coffee – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Para sobremesa uma delícia de café e queijo, com macarron de pistáchio, na companhia de panacota de frutos vermelhos, muito bem apresentado.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_10

The Wines – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Estes paladares foram acompanhados pelo Pacheca Branco Colheita já de 2014, cheio de frescura e muito elegante, uma acidez intensa num lote de castas muito equilibrado, um belo vinho. Depois foi o tinto, também colheita mas de 2012, com boa fruta no nariz, equilibrado, bom volume de boca e óptima estrutura, a pedir comida. Para a sobremesa foi o Porto Vintage de 2012, ainda cheio de fruta no nariz, muito vivo, fresco, notas intensas de frutos pretos bem maduros, chocolate e tabaco, com uma bela complexidade, a augurar grande futuro.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_11

New Tawny – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Acabamos a noite com um Tawny novo, muito agradável, com aromas de frutos secos, boa estrutura, sedoso, intenso e com óptima acidez. Claro que ambos os Portos estavam refrescados…

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_12

Winery – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_13

Photo by José Silva | All Rights Reserved

De manhã foi um passeio pela adega com as suas grossas paredes de granito, mas sobretudo pela quinta e tudo o que está à volta, com o Douro logo ali adiante.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_14

The vineyards still bare – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_15

One of a kind Beauty – Photo by José Silva | All Rights Reserved

As vinhas, ainda nuas, à espera das temperaturas primaveris para abrolhar, têm uma beleza muito própria que não me canso de apreciar, estendem-se à beira do rio, e vão pela encosta acima.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_16

Many Houses – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_17

Many Houses – Photo by José Silva | All Rights Reserved

As várias casas da quinta, que respiram antiguidade, continuam a receber-nos com dignidade.

Blend_All_About_Wine_Quinta_Pacheca_18

Terraces and Paths – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Os largos e as alamedas da quinta sugerem passeios retemperantes para apreciar toda aquela beleza, num vale que se estende até ao rio Douro.
Os vinhos, esses, repousam na adega até serem consumidos…

Contacts
Quinta da Pacheca
Cambres – 5110-424 Lamego
Portugal
Tel: (+351) 254 331 229
Fax: (+351) 254 318 380
Website: www.quintadapacheca.com

Druida tinto 2012

Texto João Pedro Carvalho

Na minha vida nunca procurei, nem sequer me agradou, tudo o que seja produto produzido em larga escala, salvo as raras e necessárias exceções à regra, em tudo o resto sempre procurei os pequenos produtores nas mais variadas áreas. Durante anos fui praticante de XC (Cross Country) e como tal fazia parte de um mundo onde se procuram produtos/materiais com alta taxa de rendimento/duração aliando o peso reduzido e preço ajustado, o que na última situação raramente acontece. Transportando para o mundo dos vinhos, o que procuro continua dentro dos mesmos parâmetros de qualidade/satisfação onde o preço de produto de pouca tiragem por vezes se paga caro mas onde na quase totalidade dos casos o investimento a longo prazo é positivo.

Blend_All_About_Wine_Druida_Red_2012_1

Druida tinto 2012 – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Os pequenos “ateliers” ou direi adegas de autor que têm surgido em Portugal nos últimos anos têm feito a diferença e delícia de um nicho de consumidores ansiosos por vinhos de identidade bem vincada com tiragem reduzida. A sensação de exclusividade em ter na mão uma garrafa de vinho de qualidade cuja tiragem do vinho se limitou a 96 ou 200 garrafas é mais um dos motivos de alegria para muitos. Não é pois de estranhar que em quase todos estes projetos o destaque natural centra-se no terreno, mais propriamente na vinha quase sempre de área reduzida, com os vinhos a expressarem de forma clara a terra/local que os viu nascer.

É este o caso do Druida tinto 2012, a mais recente criação da dupla: Nuno do Ó e João Corrêa, após o sucesso que foi o Druida Reserva branco. Há acasos que vêm em boa altura, e a forma como surge este tinto é um desses exemplos. Aconteceu no dia em que se passava o mosto de Encruzado para barricas e se reparou que tinham sobrado duas barricas. O pensamento imediato do que fazer teve como resposta, um tinto. E foi exatamente da parcela vizinha à da de Encruzado na Quinta da Turquide, composta por Jaén, Touriga Nacional, com algum Alfrocheiro e Tinta Pinheira. O resultado foram 2 barricas de 228 litros que repousaram durante 20 meses na adega, resultando cerca de 500 garrafas de um tinto cheio de garra e frescura. Tal como no branco notamos que precisa de tempo para que tudo se arrume e a prova nos proporcione mais prazer do que já dá, apesar da ligeira austeridade com que ainda se apresenta. Conjunto fresco, novelo de complexidade ainda muito apertado mas de grande qualidade, profundo com bonitas notas de pinheiro, violetas, especiaria, fruta limpa de grande qualidade com destaque para a cereja vermelha bem gorda e sumarenta. E no trio de elegância/frescura/estrutura mostra-se um belíssimo exemplar do Dão, de criação minimalista que não se paga caro, um prazer garantido a consumir agora a acompanhar um borrego/cabrito assado em forno de lenha ou daqui por uma boa dezena de anos.

Bolhas Tintas a Testar os Limites

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

O vinho espumante tem um lugar particular na nossa sociedade. É tratado, falado e consumido de maneira bastante diferente de qualquer outra bebida. A campanha de marketing do champanhe ao longo dos séculos deixou um permanente estigma festivo que afecta a maneira de bebermos vinho espumante. É tudo sobre festejo. Felizmente hoje em dia parece haver uma tendência para uma abordagem mais casual às bolhas. Pessoas a abrirem garrafas a meio da semana sem nenhuma razão importante para festejar. Está a tornar-se cada vez mais num vinho do dia-a-dia em vez de uma indicação para enfatizar o facto de que “estamos a ter uma festa”.

Apesar da contínua evolução do mundo do vinho, o vinho espumante continua praticamente inalterado. Parece que ninguém se atreve a desfazer o casamento do vinho com as bolhas, e, talvez, criar algo diferente. Fazer isso é considerado quase um sacrilégio. Mas de vez em quando deparamo-nos com vinhos espumantes que nos fazem despertar deste estranho estado de dormência vínica.

Blend_All_About_Wine_Aphros_Vinhao_Red_Bubbles

Red Bubbles – Photo by Ilkka Sirén | All Rights Reserved

Um desses vinhos foi o Aphros Vinhão Super-Reserva Bruto. Fui a uma prova de vinhos aqui em Helsínquia e deparei-me com uma garrafa dessas bolhas tintas. Algo que não acontece com muita frequência. Primeiro pensei “ah, Lambrusco”, mas para minha surpresa veio de Portugal, e, de todos os lugares, da Região dos Vinhos Verdes. Apesar da Região dos Vinhos Verdes ser bem conhecida pelos seus vinhos brancos frescos, também há alguns fantásticos tintos que lá são produzidos. Um dos clássicos é um tinto de cor carregada da casta Vinhão. Dá lugar a vinhos tão intensamente vermelhos que depois de um copo mais parecemos uma personagem saída do Twilight. Além disso, os vinhos são normalmente acídicos e muito tânicos o que os torna não muito indicados para os iniciantes. Para o ser ainda mais bizarro, é tradicionalmente apreciado em malgas e com produtos do mar como peixe grelhado ou lampreia, com a aparência sinistra. O resultado final, delicioso.

Blend_All_About_Wine_Aphros_Vinhao

Aphros Vinhão Super-Reserva Bruto – Photo by Ilkka Sirén | All Rights Reserved

O vinho em si era opaco com tonalidades vermelhas e roxas. No nariz mostrou-se cheio de frutos vermelhos e especiarias. Uma explosão de aromas, tanto familiares como exóticos. A sensação na boa foi qualquer coisa. Nada o pode preparar para essa sensação se ainda não provou este tipo de vinhos antes. A “mousse” era rica e mais texturada do que o vinho espumante normal. Bastante intenso mas surpreendentemente fresco ao mesmo tempo. Muitos sabores temperados e terrosos com uns agradáveis taninos firmes no fim. O final teve um amargo toque refrescante similar ao de uma cerveja lupulada IPA (Indian Pale Ale). Um pouco herbáceo e vegetal mas não no sentido de não estar maduro.

Apesar de não ser exactamente um vinho mainstream, estou a vê-lo a ser a apreciado por muitas pessoas. Poderá requerer um certo estado de espírito ao bebê-lo e talvez uma boa comida para acompanhar, mas acho que muitas pessoas iriam apreciar a singularidade deste vinho. Na minha vida apenas provei um punhado de vinhos que se aproximam daquilo que este vinho tem para oferecer. Desfiante? Sim. Viável? Quem sabe. Saboroso? Sem dúvida nenhuma.

Contactos
Quinta Casal do Paço
Padreiro (S. Salvador)
Arcos de Valdevez 4970-500 Portugal
Tel: (+351) 914 206 772
Email: info@afros-wine.com
Site: www.aphros-wine.com

Mais generosos do que os outros

Texto João Barbosa

Confesso que não entendo a diferenciação de vinhos em generosos e licorosos, quando são basicamente o mesmo. A diferença nem é subtil, pois os termos diferenciam a nobreza da plebe. Os generosos produzem-se em regiões demarcadas e os licorosos têm direito a Indicação de Proveniência Regulamentada ou apenas de mesa.

Nem é bem assim! Generosos são os Porto, Madeira, Setúbal e Carcavelos. Obviamente, há simples licorosos melhores que alguns generosos.

Blend_All_About_Wine_Londres_generous_1

Vinho da Península de Setúbal

Ignorando a questão semântica – e «generoso» é «todo» o vinho – importa notar a capacidade dos portugueses para fazerem estes néctares. O processo é «simples», por isso há múltiplas imitações – quase todas com dolo – mas não é como cozer ovos. O Vinho do Porto é a vítima óbvia. Uma sina que só lhe reforça a importância.

Há quem classifique os vinhos de colheita tardia – exemplos máximos são os Tokaji (Tokay, na antiga nomenclatura) e os Sauternes – como generoso. Penso que erradamente, pois os métodos são distintos. Não sou nem académico nem enólogo, pelo que nessa discussão abstenho-me e até reconheço que é uma niquice.

Cada boca, sua sentença! Nariz, idem. No mundo maravilhoso do vinho cabem castas e regiões, às vezes quase a mesma coisa. Do branco deslavado ao retinto, há néctares que preferimos.

De todos, fascinam-me os generosos (licorosos incluídos), são capazes de tudo. Do aperitivo à sobremesa, passando por entrada ou companhia de conversa. Neste rectângulo de continente e nos dois arquipélagos autónomos há uma multiplicidade de géneros.

As personalidades vêm das uvas, dos locais, das práticas do homem. Alguém escreveu, no século XIX, que há tantas variedades de Vinho do Porto como fitas num retroseiro. O próprio sítio na internet do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto não referencia todas as variantes… já quanto ao Madeira, penso que o seu estudo é como uma licenciatura.

Blend_All_About_Wine_Londres_generous_2

Vinho Madeira

Tenho um carinho especial pelo Vinho de Carcavelos, um monumento que a cidade de Lisboa – na sua dimensão metropolitana – tratou de corroer, deixando pouco para se fazer. A demarcação abrange partes do Concelho de Oeiras e do Concelho de Cascais. Haverá cinco quintas com vinhas aptas a fazer este vinho de perto do mar. Uma está a cargo de poderes públicos – Câmara Municipal de Oeiras e Ministério da Agricultura – e as outras vivem numa obscuridade muda.

Blend_All_About_Wine_Londres_generous_3

Vinho de Carcavelos

Disse-me o enólogo do município que, quando se avançou com a ideia de fabricar Carcavelos, não se conseguiu encontrar um fio condutor. Provadas muitas garrafas, cada produtor tinha o seu estilo.

Por um lado é bom, porque abre a janela à fantasia: «o que terá sido? Que bom seria se… Ah! Se eu pudesse…». Por outro deprime, porque é um espólio impossível de recuperar. Cinco ou seis quintas não desenham o retrato.

O Vinho de Carcavelos é uma espécie de lince ibérico ou de urso pardo. Só o poder político, através de acções de entidades públicas, pode intervir na sua preservação. O Ministério da Agricultura cede a terra e o Município de Oeiras faz o trabalho.

Blend_All_About_Wine_Londres_generous_4

Vinho do Porto

Não há um «melhor vinho do mundo»… mas em modos genéricos, temos dois dos maiores vinhos do mundo: Porto e Madeira. Lamentavelmente desconhecidos pela generalidade dos portugueses. Uma das muitas idiossincrasias…

Londres, Meca do vinho

Texto José Silva

Das muitas capitais da velha Europa, é certamente Londres que se destaca como o local por onde passam os grandes vinhos do mundo, onde funciona uma espécie de “bolsa” dos vinhos que ali desaguam vindos um pouco de todos os cantos do planeta.

Blend_All_About_Wine_Londres_1

Londres – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E que são passados a pente fino, provados, testados, avaliados e finalmente carimbados por uma classe de provadores de que fazem parte algumas elites, que incluem “Masters of Wine” e “Masters Sommeliers”, que por ali abundam. Depois é a procura mais ou menos intensa por parte de garrafeiras, lojas gourmet, restaurantes e wine bars e mesmo das grandes cadeias de supermercados, num mercado bastante aberto e em que a vontade de provar coisas diferentes e novas é cada vez mais evidente.

Os vinhos portugueses não fogem à regra, bem conhecidos e apreciados entre estes provadores e críticos, e que fazem parte de várias mostras e provas que vão tendo lugar ao longo do ano na capital britânica. Por isso mesmo é pena que tudo isso não se traduza em vendas mais significativas dos nossos vinhos no mercado do Reino Unido. Falta aquele “click” que leve os vinhos portugueses de qualidade ao grande público britânico e faça melhorar as vendas significativamente, num mercado que tem tanto de exigente como de fascinante.

Blend_All_About_Wine_Londres_2

Prova – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Recentemente aconteceu mais uma prova de vinhos portugueses, bastante bem organizada pela ViniPortugal e com a presença de mais de 120 produtores, com muitas provas organizadas pelos muitos distribuidores que importam vinhos lusos, e onde os produtores aproveitaram para mostrar novos vinhos ou pelo menos novas colheitas, tentando melhorar a sua divulgação e, consequentemente, as vendas, acertando novos contractos ou confirmando os já existentes.

Blend_All_About_Wine_Londres_3

Quinta de Cottas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Como aconteceu com um produtor português do Douro, a Quinta de Cottas, que conseguiu renovar o contracto que já tinha com a companhia aérea British Airways, para que, depois de ter tido o seu vinho tinto colheita de 2010 servido a bordo dos aviões da companhia inglesa, seja agora o mesmo vinho tinto, mas da colheita de 2011, a ser servido nos aviões desta companhia aérea. É mais uma achega para a boa aceitação dos vinhos portugueses no difícil mercado britânico. Também na restauração alguns portugueses têm tentado a sua sorte em Londres, seja porque para ali foram em busca duma oportunidade, seja porque já lá viviam e quiseram tentar este mercado onde, apesar de tudo, não há grande oferta de qualidade.

Blend_All_About_Wine_Londres_4

Restaurante em Covent Garden – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entre muitas outras ofertas na velha Albion, há um pequeno restaurante e wine bar em Covent Garden, de seu nome “Canela”, a servir vinhos portugueses e petiscos da nossa terra, que está a ter algum sucesso.

Blend_All_About_Wine_Londres_5

Vinhos Portugueses – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma oferta de vinhos portugueses com alguma variedade e muitos petiscos que estão a ser muito bem aceites pela clientela do espaço. Ali nos encontramos com Jamie Goode, para um almoço divertido.

Blend_All_About_Wine_Londres_6

Jamie Goode – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Quando quis beber uma cerveja “Guiness”, para começar, fui informado que só têm cerveja “Sagres” e “Superbock”, assim mesmo!

Blend_All_About_Wine_Londres_7

Vadio 2013 white – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Jamie Goode escolheu um branco “Vadio”, da colheita de 2013, que esteve muito bem, cheio de frescura, simples e saboroso.

Pela mesa foram passando presunto e alguns queijos, na companhia de pão saboroso.

Blend_All_About_Wine_Londres_8

Pataniscas de Bacalhau – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend_All_About_Wine_Londres_9

Chouriço e Pão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foram as pataniscas de bacalhau e um chouriço grelhado atrevido, que já pedia um tinto.

Blend_All_About_Wine_Londres_10

Lagar de Darei 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi ainda o Jamie Goode que escolheu um tinto “Lagar de Darei” de 2011, sóbrio, apelativo, bem interessante.

Plan B 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De Bortoli 2008 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ao fim da tarde, numa conversa com Sarah Ahmed, à volta dumas garrafas de vinho branco australiano, fizemos a comparação entre estes dois mundos: os vinhos australianos estão por todo o lado!!

Mas em Londres há também alguns locais emblemáticos a servir e vender vinhos de todo o mundo, onde, apesar de haver vinhos portugueses, a sua oferta é diminuta, por vezes mesmo apagada. E onde urge colocar mais vinhos portugueses a serem provados e comprados por um público cada vez mais interessado.

Blend_All_About_Wine_Londres_13

The Sampler – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um desses locais é o “The Sampler”, em South Kensington, que tem uma oferta de 1.500 vinhos de todo o mundo, uma boa parte deles de pequenos produtores, que podem ali ser provados e comprados, com alguns bons vinhos portugueses disponíveis.

Hedonism Wines – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Elegante e Requintada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Noutra zona da cidade, em Mayfair, é a vez de uma loja de vinhos absolutamente fantástica, a Hedonism Wines. Elegante, requintada, muito bem climatizada, enorme, extraordinariamente bem organizada e onde podemos encontrar tudo, mesmo tudo, de todo o mundo.

Garrafas desde €8 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A €15.000 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

Desde vinhos a €8 a garrafa, até raridades a €15.000 a garrafa. Leu bem, €15.000 a garrafa!!

Blend_All_About_Wine_Londres_18

Vinhos Portugueses – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E também ali estão alguns bons vinhos portugueses.

Em restaurantes, bares, wine bars e lojas gourmet, podemos encontrar vinhos portugueses, embora em ofertas muito limitadas, o que não corresponde à fama e à qualidade sempre crescente que têm vindo a assumir junto da crítica internacional. Está por isso na hora de dar o salto, de dar mais visibilidade aos nossos vinhos e de colocá-los nos locais mais emblemáticos da capital britânica. E mesmo que sejam produtores já com tradição, porque não fazê-lo duma maneira divertida…

Blend_All_About_Wine_Londres_19

Porque não fazê-lo de uma maneira divertida? – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Aqui na Blend continuaremos a lutar por isso e disponíveis para apoiar todo o tipo de acções que possam ajudar.
Afinal Londres é já ali, a duas horas de viagem…
Cheers!

O Rufo do Vale D. Maria

Texto João Pedro de Carvalho

Quinta Vale Dona Maria é uma antiquíssima propriedade no coração da Região Demarcada do Douro. Embora o tinto tenha nascido com a colheita de 1997 o primeiro branco surgiu recentemente. Tudo começou num jantar após se debater como adequar as práticas agrícolas de modo a obter melhores condições ambientais para o crescimento da população da Alectoris rufa (nome científico da perdiz-vermelha) no Vale D.Maria. Na divagação da conversa entendeu-se que Rufo (vermelho em Latim) seria bom nome para uma marca de vinho tinto do Douro, significando também o toque do tambor, que anuncia e estabelece o ritmo da entrada de gama dos vinhos Vale D.Maria. Mais recentemente esse Rufo teria a sua versão de branco no mercado.

Blend_All_About_Wine_Rufo_white_1

Rufo do Vale D. Maria 2013 branco- Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

 

Aqui a enologia está a cargo de Cristiano van Zeller, Sandra Tavares da Silva e Joana Pinhão, diga-se que todos os vinhos merecem natural destaque, apetecendo desta vez centrar todas as atenções no único branco, até agora, produzido com a chancela da Quinta Vale D.Maria.

As uvas para este Rufo branco da colheita de 2013 vêm da zona de Sobreda e Candedo (Murça), onde as vinhas se encontram a grande altitude (600 m) para conferir aos vinhos acidez e frescura. A escolha recai num blend de 50% Códega de Larinho e 50% de Rabigato. Enquanto a primeira casta (Códega do Larinho) confere uma certa tropicalidade, a segunda casta (Rabigato) proporciona a acidez natural tão necessária, num conjunto que estagiou cerca de 9 meses em inox até ser lançado para o mercado.

Um branco que nos recebe de braços abertos com bonitos aromas frutados a lembrar citrinos, frutos de polpa branca, algum tropical mas pouco pronunciado num conjunto bastante agradável com toque de mineralidade no fundo. Na boca mostra-se elegante e fresco, com boa intensidade e um toque vegetal aliado à natural doçura da fruta que o embalam para um final de prova com alguma secura, tornando ideal para canapés, saladas, entradas variadas à base de carnes frias ou salmão fumado.

Contactos
Quinta Vale D. Maria
Sarzedinho
5130-113 S. João da Pesqueira
PORTUGAL
Tel: (+351) 223 744 320
Fax: (+351) 223 744 322
E-mail: francisca@vanzellersandco.com , cvanzeller@mail.telepac.pt , joanavanzeller@vanzellersandco.com
Site: www.quintavaledonamaria.com

É tão sensual – Taça vs Flute

Texto João Barbosa

Vinho é festa! Seja com o néctar mais plebeu ao estratosférico, no Ocidente costumamos festejar e brindar com vinho. Nem toda a gente gosta, nem todos têm um gosto sofisticado, instruído, esclarecido. Muitos não têm dinheiro para cumprir o desejo.

Além do vinho, da sua qualidade e preço, há a questão dos copos; um problema no universo dos meus amigos, pois nem todos têm uma relação tão profunda com o vinho, desconhecendo a importância que têm os vasos. Há os renitentes, por teimosia ou incredulidade ou por ignorância ou inexperiência, mas quem bebeu vinho por bons copos…

É um bocado como os talheres. Até muito tarde, os europeus comeram à mão. Um espeto com lâmina era comum nas mesas, fazendo as vezes de garfo e de faca. Apesar de o garfo ser um instrumento muito antigo, de muito antes do nascimento de Cristo.

Hoje, o garfo é tão comum e tão logicamente útil que pode parecer estranho como andaram os europeus a comer à mão até ao século XVI… XIX… XX. Consta que terá entrada na mesa do Rei de França através de Catarina de Medicis, casada com Henrique II.

O garfo substituiu o espeto de lâmina, mas não se lhe juntou a faca. Documentação fiável não há, não lhe deram importância à época, mas reza a lenda que foi no restaurante parisiense La Tour d’Argent que o par se fez.

A data da fundação não é certa, mas esta casa – ainda hoje existe, apesar da mudança de local – é tida como estabelecida em 1582. Terá sido aí que Henrique IV, consorte de França e Rei de Navarra, aprendeu a usar os talheres, o primeiro monarca a utilizá-los.

Luís XIV, seu neto, frequentava o La Tour d’Argent e já seria comum o uso dos talheres na corte. Porém, os faqueiros só começaram a surgir, nas casas abastadas, a partir de meados do século XIX.

Diz-se que o Rei Sol disse do Champanhe que era o «Rei dos Vinhos e o vinho dos Reis», um néctar nascido, em 1670, pela mão de Dom Pérignon. Este espumante não mais saiu de ao pé dos monarcas, que o bebiam por copos indiferenciados e obviamente disfuncionais.

Breastcup

Taça de Champanhe

 

Há duas versões para o nascimento do primeiro copo lhe dedicado. A primeira taça de Champanhe terá sido moldada num seio da Rainha Maria Antonieta ou de Josefina de Beauharnais, mulher de Napoleão Bonaparte.

A ciência e o engenho provaram que a taça é inadequada para um vinho espumante. Como qualquer instrumento, a função é mais importante que a forma. Assim se criou a flute, flauta.

champagne flute

Flauta de Champanhe

 

Se a flauta, com o seu timbre cristalino, combina com a delicadeza dos espumantes e mantém viva a alma do vinho… a taça, nascida na intimidade da realeza, é muito mais bela.

Com snobismo – assumida provocação, sem vontade de ofender – a flauta é burguesa, tem de se mostrar. A taça é fidalga, o ouro-velho da nobreza, discreto e recatado.

Se não convenci, volto aos talheres. A prata – com seu odor característico, requerendo cuidado no preparo para a mesa – nunca será derrotada pelo christofle, um material que ganhou o nome do joalheiro que o criou.

Uma taça é muito mais sensual do que uma flauta… e quem consegue manter num copo, por largo tempo, um delicado vinho espumante?

De Paradoxo e Património: Uma Entrevista com Marta Soares, Casal Figueira

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

“O Vital é a minha cara”, diz Marta Soares do Casal Figueira.  Juntamente com o seu falecido marido, António Carvalho, Soares não só resgatou esta humilde e autóctone casta branca de Lisboa da escuridão como a fez reluzir.

Então como é que Soares descreve a Vital? As palavras surgem em catadupa. Afinal de contas, esta grande pensadora conhece-se bem. “Produtiva, forte, dinâmica. Uma amante do tempo e do espaço. Selvagem como a vinha. Fresca e austera, mas também complexa. Quando a começamos a conhecer, entramos no seu mundo.”. Através de garrafa luminescente de Casal Figueira António Vital 2013, Soares proporcionou-me um vislumbre privilegiado do seu mundo de paradoxo e património.

De paradoxo

Por ser “nascida em cimento”, Soares não tinha como objectivo produzir vinho como tinha Carvalho, cuja família era viticultora há gerações, em Vermelha, perto de Torres Vedras, na região vitivinícola de Lisboa. Pelo contrário, a antiga aluna da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa encontrou a sua identidade na arte. Quando conheceu Carvalho em 1999, Soares estava na iminência de partir para Nova Iorque para dar seguimento à sua carreira, inicialmente com o apoio da Fundação Luso-Americana e, a longo termo através do Programa Fullbright que tinha aprovado o seu portfólio; só precisava de finalizar a documentação.

Apesar de ter tido sucesso com as suas exposições, atira em reflexão, “Acho que era muito nova e depressa apareceu a pressão sobre mim própria; sabia que algo precisava de mudar”. Soares perguntou aos amigos se conheciam algum sítio onde ela pudesse estar em paz para pensar antes de partir para os Estados Unidos. Falaram-lhe de “um amigo louco com uma quinta”, perto de Torres Vedras, que provavelmente teria espaço para ela montar um estúdio.

Este ‘amigo louco’ era Carvalho, que, tendo estudado com viticultores franceses na Escola de Práticas Agrícolas de Montpellier, estava a arar um solitário sulco, produzindo vinho com qualidade e terroir-driven num terreno de propriedade familiar (Casal Figueira) com 50 hectares, 15 dos quais ele plantou com vinha em 1990. Como se isto não fosse suficientemente diferente da tradição lisboeta focada na quantidade, os seus vinhos eram cultivados biodinamicamente e incluíam as castas francesas Marsanne, Roussanne, Petit Manseng e Semillon, além das castas locais Fernão Pires e Arinto.

Soares recorda vivamente, “quando lá cheguei, deparei-me com este sujeito obstinado, com um chapéu, a podar as vinhas, uma por uma, de maneira repetitiva, todos os dias, de manhã até ao fim do dia. Ela olhava e tratava cada vinha como de uma escultura individual se tratasse; quase como o trabalho de um artista – é preciso moldá-la (a escultura) todos os dias, todos os anos, e aí será aquilo que queres que seja.”

Quando Soares e Carvalho partilhavam os frutos do seu trabalho no final daqueles longos dias, Soares encontrou a resposta à questão pertinente que tinha “O que é que motivava este homem?”. Descrevendo o objectivo dele, o vinho, como “muito forte”, diz, “era possível apreciar todo o trabalho”. Soares também se apercebeu que a “ladainha” de poda de Carvalho, com o objectivo de produzir vinho, paradoxalmente também lhe apelava pois “parecia relaxante”, contrastando com a vida de um artista em que “apenas construímos coisas, dia após dia, sem saber exactamente o que estamos a fazer”. Acrescenta ainda, para um viticultor, “nunca se está no comando porque a natureza dita o tempo que se gasta todos os dias, ao passo que um artista deve decidir se vai pintar ou não… tudo é nossa responsabilidade”.

Por outro lado, observa, quando se trabalha com a natureza e materiais orgânicos (o oposto de um artista que trabalha com materiais artificiais “para que possam controlar tudo”), temos de estar preparados para tudo o que acontecer. Através de Carvalho ela veio a perceber que, “se formos destemidos, podemos ver [trabalhar com a natureza] que é uma aventura e redescobrir a paixão diariamente”.

Estes paradoxos e pontos divergentes do seu próprio trabalho fizeram com que Soares se interessasse. Apaixonando-se por Carvalho e, com “tanto para aprender… especialmente em relação à vertente prática”, desistiu dos seus planos em Nova Iorque para ficar com Carvalho e, quando pudesse, o ajudar nas vinhas e na adega.

original label bottle shot

“o primeiro rótulo na língua Casal Figueira” – Foto cedida por Marta Soares | Todos os Direitos Reservados

Por outro lado, diz que a sua boa vontade e energia em relação ao trabalho dele, conferiram força a Carvalho para continuar, mesmo as pessoas não acreditando no seu estilo de vinho. Foi Soares que surgiu com o que descreve ser “o primeiro rótulo na língua Casal Figueira”. O rótulo do branco ostenta o nome da propriedade, descrição “vinho branco”, contando ainda com o esboço da figueira que está ao lado da adega que a própria desenhou. Explica que “foi tudo por causa da simplicidade – atraindo a atenção para o conteúdo e não para o aspecto exterior”.

Ainda assim, também por estarem à frente do seu tempo, Carvalho e Soares foram incapazes de obter sucesso no negócio e entraram em falência em 2003. A família de Carvalho recuperou a quinta, período durante o qual o casal trabalhou para o enólogo espanhol Telmo Rodrigues num projecto de recuperação das vinhas velhas Godello, na Galiza. Quando, no ano seguinte, o pai de Carvalho faleceu, voltaram de Espanha e trabalharam uma vez mais na quinta Casal Figueira até a venderem em 2007 para pagar as dívidas da família.

Soares diz que esta foi uma altura difícil porque sabiam que a quinta teria eventualmente que ser vendida, mas “foi o nascimento de um ‘novo’ Casal Figueira: destemido, mais forte que nunca”. Porquê? Porque Carvalho reconheceu que “só é possível fazer grandes vinhos se nos cingirmos às vinhas e ficarmos lá com elas. É preciso estar em casa. Só dessa forma é que as conseguimos perceber e tirar o máximo delas. Isso é a essência da biodinâmica: ficar lá e percebê-la”.

De Património

Foi então, por isto, que o casal decidiu ficar em Lisboa e procurar as suas castas autóctones. Contrastando com o ano que passaram em Espanha, Soares diz, “Era onde podíamos estar os dois, todos os dias. A amar-nos um ao outro, a amar as vinhas, a amar os nossos filhos. Amar algo requer um cuidado diário”. Além disso, “A nossa região era também o sítio em que já tínhamos algum conhecimento do clima, solo, comportamento das plantas, insectos e falibilidades naturais”.

B R M (Bons Reis Magos) for the labels of wine Antonio

O ritual local e anual de pintura dos B R M (Bons Reis Magos), uma fonte de inspiração para os rótulos do António Vital Casal Figueira – Foto cedida por Marta Soares | Todos os Direitos Reservados

A procura levou Carvalho atrás no tempo, de volta às viagens difíceis, Serra de Montejunto acima, a norte, com a ama que ia visitar os parentes, agricultores. E foi então que o casal encontrou a fonte do aclamado vinho Vital Casal Figueira – quatro talhões de vinhas velhas em calcário com 50-100 anos, 250-400m acima do nível médio das águas do mar, algo incomum em Lisboa. Estas parcelas eram propriedade (e o seu nome em homenagem) dos primos da ama de Carvalho – Acácio, Cremilde, Humberto e Pedra – que, para além de venderem as uvas à cooperativa local, também sempre fizeram o seu vinho daquelas uvas. Descrevendo-o como “muito oxidativo, muito estranho”, Soares sorri interiormente com orgulho quando se regala com o facto “António teve a visão para perceber o potencial da casta”.

The Pedra vineyard plateau at 350 m altitude heading North  80 year old vines in limestone gobelet of Vital

O vinhedo da Pedra a 350 m de altitude;  vinhas Vital com 80 anos, em calcário, Serra Montejunto, Lisboa – Foto cedida por Marta Soares | Todos os Direitos Reservadosd

Foi, acrescenta Soares, o projeto perfeito, porque, vivendo nas proximidades e com a adega a poucos passos de distância, poderiam alcançar o objectivo que tinham, de obter “uma expressão muito clara das uvas”. Aponta, “a proximidade é a palavra principal. Se existir uma grande distância entre a vinha, a adega e o local onde vivemos, há uma falta de qualidade na vida e na frescura das uvas. Se se demorar horas para chegar à vinha, não se vai lá ficar muito tempo, e então é preciso contratar pessoas”.

No entanto, as angústias do casal estavam longe de estar terminadas. Em 2009, Carvalho desmaiou e morreu de ataque cardíaco enquanto pisava as uvas. Tinha apenas 43 anos. A meio da colheita e com dois filhos pequenos para sustentar, Soares diz-me que apenas teve direito a 3 segundos de hesitação sobre se iria continuar com o projecto ou não. Uma hesitação, acrescenta, que resultou única e exclusivamente de se questionar se conseguiria fazer jus ao homem que descreve como sendo “um enólogo incrível…o melhor em todo o Portugal”.

Pergunto se, continuar com o Casal Figueira foi uma maneira de homenagear a visão de António e ficar perto dele? Para Soares o propósito foi muito maior. Ela descreve a situação como “uma epifania da vida, não sobre a arte mas sim sobre a prática…sobre nos relacionarmos directamente com as coisas que fazemos, descartando a teoria e deitando mãos ao trabalho.” – uma abordagem diferente à vida, que aprendeu com Carvalho. Apesar de tudo, consegue olhar para trás, para a morte de Carvalho, e descrevê-la como “uma coisa feliz porque ele deu a vida por algo em que acreditava e foi o seu coração que o falhou e não a vinificação ou a terra”.

layering vines

As novas vinhas Vital são propagadas utilizando a técnica mergulhia, o que Soares aponta “é incrível, porque os meus quadros são feitos de um processo de estratificação ao qual chamei “matrizes””. A cana de uma vinha existente é enterrada junto da vinha “mãe” de modo a criar uma nova vinha; a ligação entre as duas é quebrada quando a nova vinha desenvolve o seu próprio sistema de raiz – Foto cedida por Marta Soares | Todos os Direitos Reservados

De igual motivação, outro objectivo ainda maior, que é o de preservar o património cultural português de vinhas. Para Soares, este transcende mesmo o vinho, que descreve meramente como “um passo necessário para ter uma expressão de vinhas”. “Imagine”, diz, “quando se tem uma exploração agrícola com vinhas velhas de 100 anos, quantas pessoas morreram e a vinha ainda lá está. As vinhas são um registo do tempo e tempo é cultura – devemos cuidar e ter isto bem presente”.

Embora Soares reconheça que “este patrimônio cultural tem um valor incrível em Portugal”, também está ciente de que ao contrário de França, “onde a arte, os vinhos e a literatura estão juntos”, a alta cultura e a agricultura são campos completamente distintos aqui. Acredita apaixonadamente que deve haver uma conexão entre “o que é básico na vida – a produção agrícola – e o que acontece na arte”. Em vez disso, lamenta, “Estamos a procurar noutro lugar, lá fora, nunca olhando para dentro, nunca olhando para aqui”.

SIMPLESMENTE VINHO DAY 2 MORNING LUNCH 015

Casal Figueira António Vital 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Eu consigo relacionar-me com os seus comentários à recente história de vinificação de Portugal, onde poderia ser perdoado pensar que apenas um punhado de uvas nativas, não necessariamente locais, merecem atenção. No entanto, tenho o prazer de ver uma nova geração de produtores como Carvalho e Soares fechando o círculo e abraçando o melhor da tradição. Não apenas castas autóctones, mas também técnicas de viticultura e enologia. Vejam os Baga Friends, ou Rita Marques’ Conceito Bastardo, André Manz’s Jampal e o trabalho de António Maçinta nos Açores ao ressuscitar as castas locais Arinto dos Açores e Terrazntez do Pico.

Voltando ao Vital, um vinho que Soares classifica como um vinho monovarietal, que representa não só a sua cara, mas também “uma riqueza de autenticidade…algo tão simples que não tem preço”. Conclui “é isso que adoro em Portugal e para mim é isso que o Vital representa”.

Sangue na Adega

Texto João Barbosa

Alguém disse – um famoso… político, escritor ou militar… – que um homem sem inimigos não tem préstimo, mais coisa menos coisa. Que saiba, não tenho inimigos, pelo que vou tentar arranjar alguns com esta crónica. O mote tem a cor do sangue!

O Vinho Verde tinto é um «produto» – detesto o termo aplicado a coisas bonitas como o vinho, pelo que aqui é mero recurso e não ofensa – vínico que muitos apreciam, muitos julgam que apreciam (provavelmente não beberam), outros afirmam gostar para serem simpáticos e outros abominam.

Estou no grupo dos que abominam o Vinho Verde tinto!

Atenção a este aspecto: a tradição merece-me todo o respeito, tal como a vertente étnica, verdade regional e carácter. O Vinho Verde tinto consegue todos estes pontos.Carácter é coisa que não falta a este vinho do Entre Douro e Minho. Enquanto enófilo, espero que perdure por muitos e longos anos, guardando as características que os seus amantes apreciam. Mas dispenso-o.

O pior que poderia acontecer – a este «produto» como a qualquer outro com autenticidade – é a perda de identidade, para se moldar ao gosto da moda ou da multidão. Peço aos vitivinicultores que deixem o Vinho Verde tinto continuar como até aqui, não cedendo nessa virtude que é a «verdade».

blend_all_about_wine_vinho_verde_tinto_1

Uvas de Vinho Verde na Vinha – Foto de Feliciano Guimarães | Todos os Direitos Reservados

 

Tenho 45 anos e faço parte duma geração, talvez na última urbana, que teve vinho à mesa: o copo ao almoço (durante a semana de trabalho e no fim-de-semana), o copo ao jantar, nas festas… Em criança não bebia, obviamente. Porém, as pândegas faziam-se com vinho e não com shots ou destilados – que apenas se bebiam nas discotecas.

Alexandre Dumas (Pai) foi, além de romancista de excepção, um gastrónomo de renome, com trabalho publicado, e ainda hoje o deve ser lido por quem gosta dos assuntos da comida, e defendeu que a comida dum local deve ser acompanhada com vinho da mesma proveniência.

A gastronomia é cultura, como as artes ou como os hábitos de trabalho ou os trajes. Para mim faz todo o sentido. Por isso, compreendo que alguns pratos do Entre Douro e Minho devam ser acertados com o seu vinho.

Outra coisa é gostar ou considerar como bom. Mesmo o «bom» é às vezes discutível. O Vinho Verde tinto tem uma grande acidez, é pujante e marca a boca. Este é um daqueles casos em que «bom» se traduz numa grande personalidade, que leva a paralaxes de entendimento. Heterodoxia não é só virtude nem só defeito. Não é consensual: há apaixonados, quem aprecie como acompanhamento preciso e lógico da comida da sua região de origem, e quem não lhe dê afecto, como é o meu caso… não gosto da casta vinhão e mesmo no Douro, onde lhe chamam sousão, a sua presença não me é simpática. Porém, defendo que se mantenha como é, porque autêntico. Bebe quem gosta e/ou percebe, dispensa quem sente comichões.

A tradição é o que é e também as características do que a natureza dá. Um dia queixei-me, a um amigo gastrónomo, dum café célebre que se serve numa, não menos famosa, «cafetaria» de Lisboa. Fui repreendido, porque aquele é «o melhor» café de montanha que há. Ora, ora… de que me serve ser «o melhor» se é desagradável?

O que é isso de «o melhor»? O que diz a «academia» ou o saber ancestral do povo ou o gosto pessoal? É tudo relativo. O meu amigo tem razão, num determinado ponto de vista: é preciso saber o que é para se poder compreender.

O Vinho da Madeira sofre todos os castigos que se podem infligir a um vinho. Quem o prova, desportivamente ou num concurso, deve saber que é um Madeira, pois o padrão tem de ser esse. Não se lhe pode exigir o que não é!

Um carro de Fórmula 1 é melhor do que um de WRC ou doutro que corre o Dakar? Cada um é melhor na sua categoria, são incomparáveis. Porém, há bons e maus Fórmula 1, WRC ou Dakar. Como no vinho. Há bons vinhos jovens e cheios de garra, como o Vinho Verde Tinto.

Nos últimos tempos, têm surgido vitivinicultores de referência a dedicarem-se à produção de Vinho Verde tinto. No entanto, mantenho o «desgosto». Nada a fazer! Serei sempre um herege, para os apreciadores.

As afirmações peremptórias – sempre, nunca, tudo, nada, etc. – são perigosas para quem as profere, pois há-de surgir uma, duas ou 20 excepções só para chatear a sentença. Pode ser o caso.