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Os brancos 2014 das Caves do Solar de São Domingos

Texto João Pedro de Carvalho

Desde 1937 que a empresa Caves do Solar de São Domingos, produz espumantes, aguardentes velhas, aguardente bagaceira, vinhos Bairrada e Dão. As suas galerias escavadas na rocha merecem uma visita, um local fantástico onde se albergam mais de dois milhões de garrafas de espumante, largos milhares de vinhos engarrafados e centenas de quartolas em carvalho francês para as suas afamadas aguardentes vínicas.

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Solar de São Domingos – Foto Cedida por Caves do Solar São de Domingos | Todos os Direitos Reservados

Com alguns dos seus espumantes a fazerem parte da minha lista de favoritos em solo nacional, é sobre os novos brancos que agora escrevo, os novos 2014 que acabam de entrar no mercado. A colheita de 2014 foi matreira com a chuva a aparecer em força, sorte para todos os que vindimaram antes das chuvas que tiveram uvas brancas de enorme qualidade. Estas palavras repetidas de Norte a Sul onde por um lado mostraram tristeza pelo potencial que se perdeu nas castas brancas de maturação mais tardia mas também pelas tintas, as brancas de maturação mais precoce deram origem a vinhos de muita qualidade.

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São Domingos white 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Neste caso são dois brancos de 2014 mas bem diferente entre eles, enquanto o São Domingos é fiel ao perfil Bairradino com o lote a ser dominado pelas castas locais Maria Gomes (80%) e Bical (20%). As uvas oriundas de S. Lourenço do Bairro, Vilarinho do Bairro e Ventosa do Bairro, criadas em solos arenoargilosos deram origem a um branco apenas com passagem pelo frio do inox. Aroma muito limpo com fruta em evidência, citrinos, polpa branca, flores a dar perfil cheiroso em muito boa envolvência tanto em nariz como na boca. Boa presença no palato, fruta limpa a fazer-se sentir, mostra alguma garra com alguma secura mineral de fundo. Um branco que pede mesa, marisco, um peixe-espada no carvão ou até mesmo uma sopa de peixe.

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Volúpia white 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O outro branco é a faceta mais inovadora deste produtor, o Volúpia 2014, que vem embrulhado numa das obras da poetisa calipolense Florbela Espanca. Invocando a voluptuosidade e sedução, desejo e sabor, busca de harmonia e prazer de beber uva branca. Um desejo de amar perdidamente, amar só por amar, aqui e além. Seria assim que Florbela Espanca definiria este vinho branco cheio de poesia, carregado de sensualidade e irreverência, profundamente pessoal e feminino. Composto por  Sauvignon Blanc (50%), Chardonnay (35%) e Maria Gomes (15%) provenientes da Carregosa com apenas passagem por inox. O resultado é diferente, de aroma complexo e muito fresco, perfumado e cheio de notas de fruta muito madura, limpa e que apetece trincar. É acima de tudo um vinho de perfume delicado, cativador, com uma prova de boca onde conjuga volume com frescura de forma graciosa. Tem acidez e estrutura que lhe dão a capacidade de acompanhar pratos de tempero mais oriental, ou que se deixe brilhar a acompanhar as mais variadas tapas ao final de tarde no terraço.

Contactos
Caves do Solar de São Domingos, S.A.
Ferreiros – Anadia
Apartado 16
3781-909 Anadia – Portugal
Tel: (+351) 231 519 680
Fax: (+351) 231 511 269
Email: info@cavesaodomingos.com
Website: www.cavesaodomingos.com

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio “New Douro”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Uma das minhas piadas varietais favoritas diz respeito à Cabarnet Sauvignon, sobre a qual o enólogo californiano Sean Thackrey entoou memoravelmente, “Defenitivamente não quereria sentar-me ao seu lado num jantar; é demasiado educada!”. Sem dúvida que esta icónica casta de Bordéus é para as uvas o que as riscas-de-giz são para os fatos – emana postura, sofisticação, poder e controle.

Caso se esteja a perguntar o que é que isto tem a ver com o Douro, fique comigo. Aliás, recue um pouco até ao meu artigo de Fevereiro sobre a vertical de Chryseia com Bruno Prats em que descrevi como este reconhecido enólogo bordalense, nado e criado um homem de Cabarnet, controla soberbamente a sua matéria-prima. Prats confessou que na sua óptica apenas a Touriga Nacional e a Touriga Franca são “interessantes”, ao mesmo tempo que demonstrou uma clara preferência pelas plantações de bloco (monovarietais) em deterimento das tradicionais plantações multivarietais field blend do Douro. Porquê? Para “ter a certeza de as estar a colher na altura certa”.

Cristiano Van Zeller in didu.com.br

A ‘altura certa’ é um tema por si próprio (o colega escritor Andrew Jefford aborda-o aqui) mas, discursando na prova anual de Londres “New Douro”, Cristiano van Zeller da Quinta Vale D. Maria discordou sobre até que ponto é necessário manter o controlo dos recursos naturais do Douro. Ao reflectir sobre o carácter português – um carácter que, “gostou do caos durante muito, muito tempo” – afirmou “temos que fazer uso do nosso carácter – um pouco de caos. Não temos de controlar tudo. Uma pequena surpresa todos os anos, é isso temos estado a tentar fazer no Douro”. Em relação às castas sublinhou que, “as plantações são muito diferentes de qualquer outro lugar no mundo… é muito difícil para qualquer uva expressar realmente o que o Douro é e o que tem a dizer, e por isso os viticultores tentam encontrar o perfil do Douro ao juntarem umas às outras”.

Também existe um segredo local. Van Zeller revelou, “se plantarmos por bloco, claro que as uvas têm diferentes períodos de amadurecimento, mas quando estão todas aleatoriamente e razoavelmente misturadas num único talhão, verificamos que a diferença temporal entre a que amadurece primeiro e a que amadurece por último, é muito mais reduzida – apenas 3 a 4 dias.”. A cereja no topo do bolo é que as field blends envolvem necessariamente uma co-fermentação de diferentes castas, um processo que David Guimaraens da The Fladgate Partnership verificou “conferir uma maior dimensão de sabor e equilíbrio”. E é por isso que agora prefere micro-talhões monovarietais (apenas algumas linhas), que podem ser colhidas alternadamente com micro-talhões de diferentes variedades e ser co-fermentadas (pode ler o que David Guimaraens tem a dizer sobre a evolução do afastamento e retoma a uma abordagem mais multi-varietal aqui).

Esta nova abordagem pode ser descrita como um caos organizado mas, quando Van Zeller revelou que a composição varietal das field blends de vinhas velhas é adaptada para os diferentes terroirs, fez parecer que sempre houve método no meio da aparente loucura. Por exemplo, disse que o Vale do Torto tem à volta de 7-8% Rufete, enquanto que o Vale do Pinhão tem mais Sousão; a Tinta Francisca sempre foi mais importante na Quinta do Roriz.

Para David Baverstock, da Quinta das Murças, que fez a abertura do Simpósio “New Douro” e que teve lugar no mês passado, o caos organizado resume bem a vida no Douro. Explicou que os desafios da região são “o que nos move como enólogos – tentar controlar as coisas ao máximo mas sabendo que no final de contas temos de ‘ir com a corrente’. Para além das field blends e da topografia montanhosa, as condições meteorológicas também desempenham um papel importante em qualquer colheita”.

David Baverstock in blog.esporao.com

A diversidade de terroir no Douro foi o tópico do simpósio e, dos quatro oradores, Baverstock era o que estava numa posição mais priveligiada para falar do progresso que foi feito, remontando a 1990 quando deixou a região pela Esporão no Alentjo. Disse-me que “Mudou radicalmente. Era muito fácil no início dos anos 90, não exisitia grande competição na altura. O Barca Velha era reconhecido como um grande vinho mas raramente era lançado para o mercado. O Dirk e o Cristiano estavam apenas começar, a Duas Quintas também, era muito fácil avançar com projectos como a La Rosa e a Crasto. Mas agora, o nível de vinificação, a qualidade dos vinhos e o conhecimento do potencial do Douro, com os seus diferentes meso e micro climas, estão num patamar altíssimo.”.

Aprofundando o tema e passando para os tipos de solo, Baverstock falou do importante papel do xisto no Douro. Aparentemente, o Douro é uma das poucas regiões que tem o xisto alinhado verticalmente, o que permite às raízes da vinha entrarem no solo por entre as placas de rocha. O facto de as chuvas serem escassas no Douro combinado com a friabilidade do xisto permite que as vinhas se enraízem “muito fundo”. Os melhores lugares permitem mesmo que as raízes cheguem a cerca de 10 metros de profundidade, o que ajuda as vinhas a ultrapassar a difícil (quente e seca) época de crescimento. Por outro lado, o xisto (especialmente em encostas íngremes) é bem drenado, o que significa que as vinhas nunca chegam a ficar impregnadas de água. O xisto também é vantajoso porque, estando num constante estado de decomposição, proporciona às vinhas os oligoelementos que precisam para sobreviver.

As raízes das vinhas do Douro podem ser profundas mas, no que toca aos produtores, Paul Symington da Symington Family Estates confessou, “estamos apenas a começar a apalpar a superfície do que é a verdadeira história do Douro.” Contrastando-o com o terroir razoavelmente homogêneo de Bordéus, descreveu o Douro como “a região vitivinícola mais diversa das grandes regiões vitivinícolas do mundo.” As razões desta diversidade? Symington debitou uma longa lista de factores que têm impacto sobre os estilos de vinhos, incluindo a surpreendente variação de precipitação e temperatura, dependendo da localização, altitude e aspecto. Nos sítios em que as vinhas estejam viradas para pontos diferentes, e mesmo dentro da própria vinha, os Symington colhem as uvas em caixas codificadas por cores de acordo com o aspecto. O pH do solo também é muito diferente ao longo Douro, algo que tem impacto na capacidade para vinha absorver os minerais (fica comprometida se os solos forem muito ácidos).

Paul Symington in symington.com

O discurso de Van Zeller centrou-se na grande diversidade de castas do Douro e na tendência de retoma às plantações multivarietais de grande densidade, sejam os micro-talhões de Guimaraens ou a sua nova versão das plantações antigas na Quinta Vale D. Maria. “Estou a misturar tudo”, disse, pois percebeu que a qualidade e perfil não derivam da idade da vinha em si, mas sim da mistura de castas nas vinhas e da co-fermetação das uvas (isto apesar de Dirk Niepoort ter afirmado a sua crença de que as vinhas velhas “falam muito mais alto” sobre o terroir do que a casta). Trabalhar com uma ampla diversidade de castas é, também aqui, um ponto vantajoso, ao dizer “nem todas as castas são afectadas pelas mesmas doenças ao mesmo tempo ou têm a mesma produção, portanto, de uma maneira ou de outra podemos garantir uma certa capacidade de produzir excelênica a maior parte das vezes.

Dirk Niepoort da Niepoort concluiu o simpósio a enfatizar que, o “novo” em “New Douro” se refere ao facto de que até recentemente os produtores apenas pensavam em vinho do Porto – “todos nós sabemos quais são as melhores vinhas e locais para Porto, mas algo novo aconteceu, uma prioridade diferente e portanto temos de olhar para o Douro com uma prespectiva completamente diferente.”

Dirk Niepoort in adfwines.com

Na opinião firme de Niepoort, as melhores vinhas para Porto não são necessariamente as melhores para vinhos DOC Douro, isto porque, “o Porto gosta de condições extremas – vinhas viradas a sul e particularmente secas e quentes. Mas para os tintos e especialmente para os brancos precisamos de algo menos extremo – vinhas viradas a norte são muito mais interessantes e, de repente, por causa do frio da noite que influencia a acidez, a altitude já interessa”. Acredita que os melhores locais para brancos estão agora a ser identificados.

No entanto, os vinhos DOC Douro já representam um terço (em termos de valor) da produção e Niepoort acredita que a procura por mais vinho de qualidade superior vai aumentar muito em breve. Embora Symington não tenha dúvidas na capacidade dos melhores vinhos do Douro competirem com os melhores das outras regiões ou sobre a perspectiva de produzir muito mais, perguntou, “estará uma pessoa normal que vemos passar na rua na disposição de pagar £20 por uma garrafa de vinho do Douro?”. Para ele, a resposta é “Ainda não chegamos lá.”.

Quer esteja na disposição de pagar £20, ou substancialmente mais ou menos, descobri muitos vinhos excitantes no meio dos últimos lançamentos mostrados na prova “New Douro”. Os brancos 2013 representam uma das melhores colheitas que já provei, enquanto que os melhores tintos de 2012 já são abordáveis, com um charme elegante. Procurem e encontrarão!

Aposto na Península de Setúbal

Texto João Barbosa

A Península de Setúbal é uma região «curiosa». Por um lado, está na Área Metropolitana de Lisboa, mas é também Alentejo. É decalcada do mapa dos distritos e se o desenho político já era abstruso, misturando realidades diversas, no vinho a patacoada é maior.

Não percebo que sentido faz uma vinha em Grândola estar no mesmo saco que uma em Palmela. Ah! A costa atlântica… então, por que é que Odemira é Alentejo? Além de que os concelhos alentejanos do distrito de Setúbal não estarem, de facto, numa península.

Burocracias e non-sense à parte, interessa o vinho duma região que considero muito interessante, do ponto de vista enófilo. Aliás, duas regiões que considero muito interessantes do ponto de vista enófilo.

Começo – e irei acabar – com a qualidade do vinho. É difícil encontrar um mau vinho da Península de Setúbal. Nas «duas regiões» há produtores de confiança. No entanto, são poucos os que têm uma dimensão para se mostrarem e com massa crítica. De acordo com informações da Comissão Vitivinícola Regional (CVR), há um «top 9», o que comprova o que quero dizer: o décimo é doutra realidade. São poucas as casas com, pelo menos, dimensão para delas se ouvir falar.

Por ordem alfabética – para não ferir susceptibilidades – Adega de Palmela, Adega de Pegões, Bacalhôa, Ermelinda Freitas, Horácio Simões, José Maria da Fonseca, SIVIPA, Venâncio da Costa Lima e Xavier Santana. Juntos fazem 98% do vinho. Entretanto, há um que ressurge Herdade de Rio Frio.

O sucesso dos vinhos pode avaliar-se pela dimensão da área agricultada, embora diminuindo: 9.450 hectares (2000) para 9.400 (2013). É a 6ª em produção, a 4ª na exportação e, garante a CVR, a evolução das vendas tem sido «excelente».

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Península de Setúbal in www.vinhosdapeninsuladesetubal.pt

Em 2000 fizeram-se 12.622 hectolitros de Moscatel de Setúbal, enquanto em 2013 chegou a 14.298. Os néctares com certificação Palmela passaram de 19.286 (2000), para 24.622 (2013). Os Regionais Península de Setúbal pularam de 110.818 (2000), para 245.558 (2013).

Em relação ao número de produtores, de 2000 para 2013: de 92 passaram a para 128. De Moscatel de Setúbal eram nove e hoje são 12. De Moscatel Roxo havia quatro e agora há seis.

Quanto a sucesso, penso que estamos conversados. Sendo as «9» responsáveis por 98%, isto quer dizer que servem de locomotiva para as pequenas firmas que exploram nichos. De todas elas, tenho uma especial afeição pela Herdade do Portocarro – com os fantásticos vinhos Cavalo Maluco e Anima – situada no Alentejo litoral.

Há uns anos, visitei, no âmbito dum programa para a RTP, um produtor da região e, apontando para uma vide de uvas tintas, perguntei ao repórter de imagem:

  • Sabes que casta é esta?

Respondeu-me que não.

  • É castelão.

Tinha, talvez, 95% de acertar… interveio o lavrador:

  • Por acaso, é syrah.

Durante mais de um século, os vinhos da região «significavam» castelão. Surgiram outras, mas esta variedade encontrou um patamar de estabilidade: 70% das tintas.

O que tem, então, esta região «2 em 1» de especial? Um misto de frescura e de calor, das areias e do bafo inerente ao Alentejo. Frescura advém-lhes, na Península de Setúbal, das localizações que podem estar mais altas e argilosas (Serra da Arrábida) e dos ventos que chegam dos estuários do Tejo e do Sado. No Alentejo Litoral, o Sado está mais próximo, os charcos dos arrozais convivem, o mar está perto e os pinhais dão-lhe subtilezas.

Quanto a mim – aqui junto o factor subjectivo do gosto – estas são duas regiões que valem bem a pena conhecer. E têm uma outra vantagem… os preços são habitualmente amigos da algibeira. Além de que há GRANDES vinhos, na península setubalense e no litoral alentejano.

Nome de código: Samarrinho

Texto João Pedro de Carvalho

Com os seus 258 anos de história, a Real Companhia Velha decidiu enveredar por um caminho de pesquisa, inovação  e experimentação. Desde 1996, ano em que foi criada a chamada ‘Fine Wine Division’, a Real Companhia Velha tem vindo a fazer um complexo trabalho de experimentação e inovação, levada a cabo numa missão conjunta entre as jovens equipas de vitivinicultura e de enologia. Um dos primeiros vinhos a ser consagrado foi o Chardonnay da Quinta de Cidrô com a colheita 1996.

Séries Real Companhia Velha Samarrinho 2013 foto by Real Companhia Velha

Séries Real Companhia Velha Samarrinho 2013 – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

Em 2002, após algumas visitas a campos ampelográficos da região a equipa técnica decidiu plantar algumas castas brancas – por exemplo Alvarelhão Branco, Alvaraça, Esgana Cão, Donzelinho Branco, Samarrinho, Touriga Branca – na Quinta Casal da Granja (Alijó) e tintas – Donzelinho Tinto, Malvasia Preta, Preto Martinho, Cornifesto, Tinta Francisca – na Quinta das Carvalhas (Ervedosa do Douro). A escolha das castas baseou-se na análise visual de alguns parâmetros morfológicos (vigor, porte, sensibilidade à secura) e produtivos (fertilidade, tamanho dos cachos, prova de bagos), sendo da responsabilidade da equipa da Real Companhia Velha a recolha das varas para enxertia.

Daqui resultou em 2012 do lançamento da marca “Séries Real Companhia Velha”, que embora tenha sido registada como uma marca de vinho, na realidade trata-se de um conceito que pretende pôr em evidência o trabalho na área da inovação e experimentação. Quando bem-sucedidos enologicamente estes vinhos são postos à venda e, se resultarem bem comercialmente, passam na colheita seguinte a integrar o portefólio comercial da Companhia. Assim aconteceu com o monocasta de Rufete, um peculiar tinto de 2010, que na colheita de 2011 integrou o portefólio da Quinta de Cidrô. Seguiu-se o ‘Séries Real Companhia Velha Espumante Chardonnay e Pinot Noir Bruto 2011’, que na edição seguinte já se vestiu de ‘Real Companhia Velha’.

Casal da Granja  - Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Casal da Granja – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Após um aprofundado estudo, liderado pela equipa de viticultura, descobriu-se que a casta Samarrinho era uma presença incontornável nas Vinhas Velhas do Alto Douro. Pedro Silva Reis, presidente da RCV, acredita que a Samarrinho pode mesmo tornar-se numa referência para os brancos da região, pelo que a empresa decidiu já avançar para um processo de apuramento clonal que está a ser desenvolvido com o Instituto Superior de Agronomia. O problema é, para já, o material genético existente — que se encontra em acelerado processo degenerativo — se mostrar muito sensível a doenças como o desavinho e bagoinha, o que fez com que se perdesse toda a colheita de 2014.

Um vinho único e raro, apenas foram produzidas 860 garrafas, de uma uva até hoje desconhecida e que nos vem demonstrar todo o potencial que Portugal tem para se afirmar no Mundo dos Vinhos pela diferença e identidade muito própria dos seus vinhos. Este Samarrinho mostra-se diferente, carácter vincado, nariz de grande definição que mistura fruta de polpa branca com fruta de caroço, mel, muita frescura, flores, com algumas semelhanças a exemplares da casta Riesling. Na boca é marcado pela frescura, em corpo mediano que se funde com boa untuosidade, fruta em calda, fundo mineral e seco a mostrar-se com nervo e sem esconder boa apetência para evoluir em garrafa.

Contactos
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Herdade de Rio Frio Branco 2013 e Herdade de Rio Frio Tinto 2013

Texto João Barbosa

Sou um nostálgico, ou não tivesse seguido o estudo de História. Não há futuro sem presente, nem presente sem passado. O tempo não retrocede, mas de trás podem colher-se conhecimentos úteis.

Não foi apenas a proximidade de Lisboa, capital e maior centro de consumo do país, que ditou que a margem esquerda do Tejo fosse farta em vinho. Quando uma vinha atinge 4.000 hectares não há acaso. Quem gosta de história que espreite o sítio na internet, que tem para ler.

A Herdade de Rio Frio – certamente uma das maiores propriedades rurais portuguesas (possivelmente já foi mais vasta), com 5.200 hectares – teve a maior vinha do mundo. Hoje são 118 hectares de vinha nova.

O negócio de outrora – décadas – é muito diferente do que o de hoje; o mundo mudou. Antigamente, a quantidade era o objectivo primeiro. Hoje, a empresa aposta no segmento «premium» e na exportação. A enologia está a cargo de Mário Andrade.

A estreia fez-se com um branco e um tinto, ambos classificados como Regionais Península de Setúbal e da colheita de 2013. Mais tarde virão néctares com Denominação de Origem Controlada Palmela e – ainda bem – Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo de Setúbal.

A prova dos dois vinhos deu-me juízos diferentes. Não me refiro a qualidade, mas ao monstro totalitário da subjectividade que me ataca quando escrevo opinião. Tem a ver com o branco, e já explico.

O Herdade de Rio Frio Tinto 2013 dá prazer a quem gosta de vinhos com calor – não estou a dizer nem sopa nem compota – no carácter, mas frescura na boca. As uvas que tem no lote são conhecidas, ainda que uma delas comece agora a dar muitos mais sinais de vida fora do Douro: a touriga franca.

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Herdade de Rio Frio tinto 2013 in www.rio-frio.eu

Quanto a mim, a touriga franca é a melhor casta tinta portuguesa e que explica o «fenómeno» do Douro. Não é uma variedade solista, é «a equipa», que faz jogo, puxa pela equipa, recupera bolas, recua para defender e lança o contra-ataque. Aqui representa 30%. A syrah deu muito boas provas no Alentejo e a localização da Herdade de Rio Frio é também ela quente, representa outros 30%. A merlot surpreendeu-me e os seus 40% dão brilho.

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Herdade de Rio Frio branco 2013 in www.rio-frio.eu

Já o Herdade de Rio Frio Branco 2013 sofre do «elemento patogénico» designado por antão vaz. Se a casta tem tantos adeptos e vinhos tão elogiados, quem estará a ver mal serei eu, mas estou aqui para dizer o que penso.

Os enólogos têm percebido que «abominável» melhora com a arinto – para mim a melhor uva branca portuguesa – que dá vida e boas maneiras «à coisa». Fez-se com antão vaz (30%), arinto (30%), fernão pires (20%) e verdelho (20%) – uma equipa de calor e frescura. Um vinho equilibrado.

Tenho um amigo que garante que o melhor Vodka-Vermute se faz da seguinte forma: deita-se o vermute no copo e despeja-se todo. Depois coloca-se o vodka e bebe-se. É o que penso da antão vaz… talvez mais ainda. Reconheço que tenho bebido bons vinhos com antão vaz, em todos eles um factor comum: não se sente «a famigerada».

Foi calor enjoativo da antão vaz o que me entristeceu neste vinho, que globalmente apreciei. Sou provavelmente hiper-sensível… e reconheço que o problema deve ser meu e não do mundo. Quem gostar desta casta terá aqui prazer.

Contacts
Sociedade Agrícola de Rio Frio S.A.
Herdade de Rio Frio
2955-014 Pinhal Novo
Tel: (+351) 212 319 661
Fax: (+351) 212 319 629
E-mail: riofrio@rio-frio.eu
Website: www.rio-frio.eu

O vinho é amigo e o psicólogo é psicólogo

Texto João Barbosa

Por motivos de saúde, que não vou partilhar a razão, fiz análise face-a-face e psicanálise. A minha experiência não cabe na piada, certamente com muitos exemplos de verdade, de que o paciente fala e o analista adormece, boceja ou pensa que ainda tem de ir ao supermercado.

Garanto que não. A minha analista, que vou manter em recato, é a melhor do mundo! Não que eu tenha feito análise com todos os analistas do planeta, mas porque é verdade. E uma verdade é uma verdade. Uma verdade nunca se irá desmentir ainda que elementos da investigação possam indicar um outro caminho… é como as mães: «melhor do mundo»!

Quem fez análise, com um bom profissional, percebe o que estou a afirmar. Ajuda muito ter alguém que, não sendo família nem amigo nem colega de trabalho, nos ajuda, com conselhos não vinculativos, fazendo de espelho, colocando questões, obrigando-nos a pensar.

Dizer que as depressões, os esgotamentos ou os vícios não se curam, no todo ou em parte, com apoio de especialistas não sabe o que diz. Há quem diga que são males dos ricos, dos ociosos e preguiçosos, dos tolos, etc.

Não! Não! E não! Mas uma coisa é certa; a análise não se realiza em cinco sessões e depois recebe-se alta. É cara. O caro é sempre relativo. Se temos uma qualquer doença e se o tratamento custa muitos euros, esse dinheiro acaba por não contar. Todavia é uma soma considerável, cada um sabe da sua algibeira e cada psicólogo tem o seu preço por consulta.

Os psicólogos não fazem a vez da família nem dos amigos. Embora se criem relações emocionais e afectivas, o psicólogo é um profissional especializado.

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in pt.forwallpaper.com

Os amigos são como o vinho – em toda a crónica escrevo «vinho», porque é essa a bebida a que estou ligado na Blend, mas o correcto é afirmar «álcool». Dão apoio, mas não ajudam a curar. Com o vinho é quase a mesma coisa. Uma festa sem vinho promete ser uma chatice – claro que há os abusadores e aqueles que, devido a alcoolismo, têm de se abster.

O vinho dá alegria, solta-nos, desbloqueia conversas, faz rir. Que bom ter uma conversa a quatro: «eu, o amigo e dois copos». Penso que um pifo, de vez em quando, pode ser positivo. Desde que seja de vez em quando e a seguir não se tente conduzir o automóvel ou trabalhar com máquinas ou cirandar na sua proximidade.

Podemos ter amigos ou compinchas no local de trabalho, mas trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. No serviço estamos a cumprir uma missão, que será remunerada no final do mês.

O que escrevi acima acerca do pifo «higiénico» é absolutamente questionável e condenável para muitos. Não é um dogma. O amigo que nos dá o ombro para chorar ou o abraço de alegria pode ser tão desastrado quanto o excesso de álcool, apesar da generosidade.

O vinho ajuda a esquecer? Tirará algum peso, mas não apaga a memória. O vinho faz uma festa? Certamente que, sozinho, não a faz. O vinho, para um enófilo como eu, é um amigo. Não é o cônjuge, com quem se partilha a cama, a mesa, as tarefas domésticas e as contas.

Dizem muitos médicos que beber um copo de vinho às refeições (ou só numa), faz bem. Dizem sempre tinto, pelo que suponho ser por essa substância válida esteja na película. Se assim é, talvez comer uvas seja mais saudável.

Uma outra situação, essa muito grave e porta larga para o alcoolismo, é matar a sede com vinho. O álcool, além de poder criar estados alterados de consciência, em excesso é nocivo, de curto a longo prazo, além de desidratar.

A água é o melhor líquido para matar a sede. Não há melhor. A água é a melhor bebida do mundo. O vinho pode ser um bom amigo ou uma má companhia. É amigo, não resolve. Para resolver há a água e o psicólogo.

O Antigo Carteiro, em Lordelo do Ouro, na invicta cidade…

Texto José Silva

Hélder Sousa é de Santo Tirso, mas veio estudar teatro para o Porto e formou-se como produtor de teatro, trabalhando nessa área durante algum tempo.

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Hélder Sousa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Até que, de repente, como também gostava de beber e comer, decidiu mudar de vida. Num acesso de ingenuidade resolveu avançar com um restaurante e tomou conta do Carteiro, que já existia.

E rebaptizou-o como o Antigo Carteiro. Foi até viver para o mesmo largo onde se situa o restaurante, que era um antigo posto dos correios. No largo conhece as pessoas e os vários locais, frequenta o café e as pessoas conhecem-no e respeitam o seu trabalho. O restaurante era de comida tradicional, familiar, e situa-se na rua Senhor da boa Morte, acima do Largo do Ouro, mesmo em frente ao rio Douro, com a aldeia da Afurada do outro lado, já em Gaia.

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Letreiro Original que Indica um Posto de Correios. – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No rés-do-chão funciona a cozinha e no primeiro piso há uma interessante e apelativa esplanada, onde se mantém o letreiro que indica um posto de correios.

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Há duas Salas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá dentro há duas salas, uma para a frente, com várias janelas e bordejada por espelho ao comprido, de belo efeito. A de trás mais pequena, mas ambas muito confortáveis, bem decoradas, em tons claros, muito airosas.

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As mesas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As mesas são bem-postas, muito completas e o serviço é familiar, personalizado, muito simpático, com o Hélder sempre presente, servindo, explicando como são preparados os pratos, que ingredientes levam, quais os produtos de que são feitos, nota-se bem a sua paixão, o bom gosto por este projecto de vida que abraçou com carinho, mas também com perseverança. O Hélder desenvolveu o seu próprio conceito e passou a oferecer um restaurante de toalha branca, com mais conforto e a servir a comida que ele gosta. Os vinhos fazem parte deste projecto, tentando servir vinhos diferentes e menos conhecidos, que façam boas harmonizações com a sua cozinha. Entende que a cozinha deve usar produtos muito bons, para que os resultados sejam os desejados. E tenta recuperar algumas coisas que caíram no esquecimento ou que são muito pouco usadas, como a língua afiambrada e os escabeches, de que é grande fã. Da sua ementa fazem também parte o bacalhau e o polvo, a língua de vaca e a perna de cordeiro, a bochecha de vitela, o joelho de porco e o arroz de enchidos, enfim, como ele próprio costuma dizer, uma comida dos pés à cabeça.

Recentemente juntou alguns amigos e dois produtores de vinho que, na tranquilidade duma tarde de domingo, embarcaram numa viagem saborosa e envolvente.

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Tostas com Tomate e outras com Salmão Curado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E começamos por umas tostas com tomate e umas outras com salmão curado, muito bem apresentadas e muito saborosas.

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Cavala Marinada com Tomate Seco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se uma deliciosa cavala marinada com tomate seco, um peixe que dá cozinhados fantásticos, esta cheia de requinte e muito bem temperada. O crocante do tomate seco fazia o complemento muito bem.

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Petingas de Escabeche – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As petingas de escabeche tradicionais comiam-se na totalidade, cabeça e tudo!

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Língua Afiambrada com Pimenta rosa e Rúcula – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A língua afiambrada com pimenta rosa e rúcula esteve também cheia de elegância, muito apaladada.

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Risotto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se um risotto feito com arroz carolino, cogumelos shitake frescos, cogumelos porcinos secos e espargos verdes, um belo conjunto.

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Perdiz de Escabeche – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A perdiz de escabeche é uma tradição, aqui servida fria com tostinhas, deliciosa.

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Bochechas de Vitela – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois vieram as bochechas de vitela que foram marinadas durante várias horas, com puré de abóbora e grelos salteados, de grande nível.

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Sobremesa em Recipiente Triplo- Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fechou-se uma refeição muito completa com a sobremesa, servida num simpático recipiente triplo, também constituída por três sabores diferentes: mousse de chocolate, crumble de maçã com vinho do Porto e um suculento doce de ovos com amêndoa queimada e pimenta rosa. Este repasto completo foi acompanhado por dois vinhos brancos muito diferentes mas excelentes:

o Solar dos Lobos já de 2014, jovem, irreverente, cheio de frescura, com uma óptima acidez, consistente, a ligar muito bem com os escabeches.

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Solar dos Lobos 2014 branco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Casal de Santa Maria 2010 branco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E um Casal de Santa Maria da colheita de 2010, com toque precioso de madeira, aromas complexos deliciosos, de espargos e algum tropical suave, bela estrutura e uma acidez cheia de elegância, a aguentar muito bem pratos como a língua afiambrada, o risotto de cogumelos e espargos e a bochecha de vitela.

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Vieira de Sousa Tawny – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para a sobremesa a escolha recaiu sobre um tawny da casa Vieira de Sousa, muito elegante, aromas de frutos secos intensos, redondo e profundo, com óptima acidez, crocante, levemente tostado, a proporcionar um grande final, já a tarde ia longa…

Contactos
O Antigo Carteiro
Rua Senhor da Boa Morte, 55
4150-686 Porto
Mobile: (+351) 937 317 523
E-mail: oantigocarteiro@gmail.com
Facebook: www.facebook.com/oantigocarteiro

Viva a Crise!

Texto João Barbosa

A quem andam os bons produtores a vender o seu vinho? Ponto prévio: o que é isso de ser um bom produtor? Englobo neste universo aqueles que têm esmero, empenho e brio. Que têm um enólogo, residente ou não, consultor, ou não, que controla a produção, que tem equipamentos necessários.

Neste universo cabe muita gente, que faz vinho em todas as regiões, com diferentes estilos, com diversos preços. Oiço dizer, inúmeras vezes, que hoje não há vinho mau em Portugal… é mentira!

Se 95% do vinho vendido em Portugal custa abaixo de cinco euros, só por acaso inexplicável pode ter qualidade. Preço não traduz falta de qualidade, mas também não o seu oposto. O dilema com as médias é o dos frangos: comi um frango e tu não comeste. Entre os dois, comemos meio galináceo cada.

Os vinhos de um euro e picos desequilibram a média. É impossível ter rentabilidade com um produto feito com preceitos e vendê-lo a cêntimos – o euro e picos custa nas lojas. O país está carregado de gente, desde produtores individuais, empresas e cooperativas que fazem zurrapas. Algum desse vinho vai para destilação, não é chamado para as contas, outro é exportado para mercados da saudade e onde o padrão de exigência é baixo.

Coloco, exagerando, o limiar da qualidade nos três euros. Peço ao leitor enófilo que não vá a uma garrafeira, mas que dê uma volta pelas mercearias de bairro, por supermercados como o Minipreço, Pingo Doce ou Lidl e veja o que por lá se vende. Há muita oferta e, se perguntar ao um funcionário acerca de quantidade vendida e rotação, verá um mundo que pensa não existir.

Os portugueses não gostam de gastar dinheiro em vinho. É um produto menor, alimento dispensável… é como as mães: os miúdos gostam sempre mais do cão do que da mãe! Porquê? Porque a mãe está garantida. Tantas e tantas vezes só lhe damos valor quando é muito velhinha ou se libertou do corpo.

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Vinho © Blend All About Wine, Lda.

O enófilo questione os amigos, aqueles que bebem do vinho que leva para os convívios, quanto estão dispostos a gastar por uma garrafa. Refiro-me ao universo português e não ao grupo restrito de enófilos, beneficiários de enófilos e de quem tem euros disponíveis.

Mau vinho é o que há mais por aí. Infelizmente, o bag in box transformou-se no bad in box. A imagem não descola e quem se atrever a encher um saco com vinho razoável pode ter a certeza que dá cabo da reputação. As caixas vieram substituir o garrafão.

O enófilo que passeie não se fique pelas casas com enoturismo ou loja catita e minimamente cuidada. Procure o «vinho do produtor», aquele «purinho», talvez intoxicado com fitofármacos. Compre e beba! Faz bem, é educativo «calibrar o gosto».

Exemplos? O Vinho do Porto do Minipreço custa três euros e picos… acredita que é bom? Porém foi aprovado – uma vergonha absoluta. Ou marcas brancas do Lidl ou do Pingo Doce. À parte, o Continente tem vinho sem cadastro criminal.

Muitas zurrapas são fabricadas por produtores sérios. Porém, um contrato de muitos milhares e a cêntimos só se pode traduzir em sobras de sobras, refugo que poderia ir para queimar. Não se pode ter tudo! Se a cadeia de distribuição quer baratezas não pode esperar qualidade.

Num país que não valoriza o seu vinho – apesar de um vox pop concluir que temos o melhor do mundo – e não está disposto a pagar com justiça, a porta da rua é serventia da casa. Afirmo, categoricamente, que o melhor que aconteceu aos bons produtores foi a crise.

Se por cá, quem produz bem (muitíssimos) andava aos caídos, a roubar clientela em carrossel – levas-me o negócio e eu apanho o do outro –, a ser vigarizado por quem não paga, desde distribuidores a donos de restaurantes, a crise foi um Joker da Santa Casa, para alguns foi a taluda.

Pagam mais e pagam. Dá mais trabalho, tira horas de sono, mas há reconhecimento e gente disposta a pagar, e com justiça.

Coleção Privada Domingos Soares Franco Moscatel de Setúbal (Armagnac)

Texto João Pedro Carvalho

Nasci e fui criado no Alentejo, mais propriamente em Vila Viçosa, quis a vida que aos meus 18 anos tivesse vindo estudar para Lisboa. Numa altura em que o vinho pouco me dizia a não ser por motivo de estar à mesa com os amigos lá se ia abrindo uma garrafa. E aqui novamente o destino colocou-me a morar paredes meias com um dos principais distribuidores de vinho da região de Lisboa. Não me lembro das vezes que lá entrei, na memória apenas retenho o muito que aprendi com as horas de conversa, os muitos vinhos que durante anos fui comprando e conhecendo, muitos deles acabadinhos de chegar dos produtores que na altura surgiam como cogumelos. O interesse pelo mundo do vinho foi crescendo e crescendo, fizeram-se as devidas formações e desta forma fui acompanhando já de forma mais consciente o evoluir de muitas dessas referências, o evoluir de muitos desses produtores.

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Coleção Privada Domingos Soares Franco Moscatel de Setúbal (Armagnac) – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Um daqueles momentos marcantes foi a descoberta dos grandes exemplares de Moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca ou mesmo do Bastardinho. E durante largos anos, hoje ainda se mantém, sempre que havia um jantar mais especial de amigos lá surgiam aquelas garrafinhas de Alambre20 Anos ao final da refeição para satisfação de todos.

Numa dessas visitas tinha acabado de chegar um novo lançamento da José Maria da Fonseca, um Moscatel a que o seu enólogo Domingos Soares Franco, decidido em inovar, chamou Colecção Privada. Fruto de uma investigação que durou cinco anos de ensaios com quatro tipos distintos de aguardente: neutra, Cognac, Armagnac e 50/50 Cognac Armagnac. Resultado foi que prevaleceu a escolha no Armagnac pela subtileza, frescura, complexidade e harmonia que mostra durante a prova. O envelhecimento é feito em cascos de madeira usada, sem estágio posterior em garrafa pois não evolui após o engarrafamento.

Sem ter todo aquele porte mais denso e melado que os exemplares mais velhos e de categoria superior, este Coleção Privada Domingos Soares Franco 2004 banhado com Armagnac mostra-se fresco e delicado, ao mesmo tempo que desperta o lado mais guloso. Muita tangerina, caramelo, alperce, tília, muito bem composto com um palato forrado de sabor, elegante e suavidade da fruta com caramelo e calda de laranja, acidez muito presente até final. Despedida longa e persistente, numa belíssima harmonia entre as sensações tanto do aroma como do palato. Para mim que sou guloso é parceiro ideal com uma torta de laranja.

Contactos
Quinta da Bassaqueira – Estrada Nacional 10,
2925-542 Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, Portugal
Tel: (+351) 212 197 500
E-mail: info@jmf.pt
Website: www.jmf.pt

Quinta de Soalheiro – Alvarinho em todas as Direcções

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

‘Scales fall from the eyes’ (“Tirar as palas dos olhos”). É uma frase dramática. Uma frase que utilizo por duas vezes nesta peça e que portanto, caro leitor, me senti na responsabilidade de investigar a sua origem. Provavelmente já sabe que vem da Bíblia, do conto de Saulo, um perseguidor de cristãos, que após ter sua visão restaurada por um Cristão, vê a luz e converte-se ao Cristianismo.

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Dá-me a luz do sol; A Quinta de Soalheiro é um hotspot para o Alvarinho – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A minha conversão ao Vinho Verde, ou mais propriamente ao Alvarinho, esteve longe de ser uma experiência religiosa. Mas confesso que tenho sido um pouco evangélica em relação ao Alvarinho desde que o descobri, há cerca de 12 anos atrás, na Prova Anual de Vinhos de Portugal. Estava um dia invulgarmente quente e ensolarado em Londres – e qual sítio melhor para saciar a minha sede do que a mesa de Vinho Verde?

À medida que dava o meu primeiro gole do Alvarinho Palacio da Brejoeira, experienciei o meu primeiro momento “scales fall from eyes” (abrir os olhos). Percebi que o Vinho Verde não era apenas um agradável produto comercial, gaseificado, e meio-seco. O Brejoeira era tão elegante e requintado como a sua delicada garrafa flute. E ganhava aos pontos ao Rias Baixas Albariño que eu na altura vendia em Oddbins.

O meu segundo momento “scales fall from eyes” (abrir os olhos)? Foi uma prova vertical na Quinta de Soalheiro com o enólogo Luis Cerdeira. Provamos este, a primeira marca de Alvarinho em Melgaço, da colheita de 1995. Outro mito desmentido. Nem todo o Vinho Verde é, como dizemos na Hugh Johnson Pocket Wine, “DYA” (drink the youngest available – beber o mais jovem dísponível). O 1995 (unoaked) estava glorioso.

Plante a casta certa (Alvarinho) no lugar certo (Monção e Melgaço) e este prospera, mesmo depois de 14 anos em garrafa! Daqui para a frente, valerá a pena procurar nos rótulos de Vinho Verde por essa sub-região de alta importância, Monção e Melgaço, já que estão em andamento planos para permitir que que todos os produtores de Vinho Verde, e não apenas aqueles localizados em Monção e Melgaço, coloquem Alvarinho no rótulo frontal.

O que faz o Alvarinho de Monção e Melgaço tão especial? A pista está no nome da quinta dos Cerdeira. Soalheiro significa ensolarado, localizado no interior e abrigado da influência do Atlântico. Monção e Melgaço é a região do Vinho Verde mais seca e ensolarada. As percentagens hl/ha também são mais baixas, o que explica o porquê dos Alvarinhos desta Sub-Região terem a concentração necessária para envelhecer tão brilhantemente, isto já para não falar da sua grande complexidade e requinte.

Estou ansiosa por partilhar estas experiências de ‘abrir os olhos’ em Junho numa prova mini-vertical na Quinta de Soalheiro (e uma visita ao Palácio da Brejoeira), quando eu estiver a conduzir o Premium Tour da Blend – All About Wine, de produtores de excelência do Douro e Vinho Verde. Espero que se possam juntar a mim.

Aqui estão as minhas notas sobre os últimos lançamentos da Quinta de Soalheiro:

Quinta de Soalheiro Alvarinho Bruto 2013 (Vinho Espumante IG Minho)

Amarelo pálido com bolhas de tamanho considerável. Manga verde no nariz, seguido de um palato cremoso a salada de frutas, muito focado na fruta. É, de facto, muito vínico – mais parecido com um vinho de mesa do que um espumante. Também porque as bolhas não são muito persistentes, embora a fruta seja. E também tenho a certeza que o intuito de Cerdeira não era um espumante tipo champanhe. Pelo contrário, a intenção é destacar fruta ensolarada da Soalheiro. Sim, pensa que apenas a Austrália transporta o sol para copo, acontece que este também. Muito agradável, divertido e irresistível, trouxe-me memórias da minha primeira prova com Cerdeira num longo almoço de convívio no restaurante Panorama. Foi a companhia perfeita a caranguejo barrado em pão rústico e saboroso. Isto é para beber! 12.5%

Quinta de Soalheiro Dócil 2014 (IG Minho)

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Quinta de Soalheiro Dócil 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este Alvarinho meio-seco, equilibrado e com textura, mostra uma cascata de sabores à medida que se abre, desde doce de pêra cozida, casca de pêra e lichia a maracujá. Uma lenta e muito suave pulsação de acidez desperta os sabores. Muito diferente dos estilos mais secos – um Alvarinho em câmara lenta. 9% , 48g/l de açucar residual.

Quinta de Soalheiro Alvarinho 2014 (Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Alvarinho 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Esta foi uma colheita complicada devido às chuvas no fim de Setembro e Outubro. No entanto a Soalheiro já tinha colhido a sua fruta. A amplitude da concentração e complexidade deste vinho fica demonstrada pelo quão bem sabe no segundo dia, quando do copo saltam madressilva, maracujá e lúpulo. Muito expressivo, e no palato mostra maracujá suculento, lichia e pêssego branco. Uma acidez persistente e agradável no final, atractivo para os apaixonados pelos poderosos Sauvignon Blancs da Nova Zelândia. 12.5%

Quinta de Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 (DOC Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

O nome ‘Primeiras Vinhas’ – um dos meus Alvarinhos favoritos – pressupõe que este seja proveniente das vinhas mais velhas da Soalheiro (mais de 30 anos de idade). De um ano excelente e de amadurecimento lento (com mais chuva de Inverno do que o que é costume, e com Julho e Agosto muito secos e quentes mas com noites frias), é um vinho adorável, com várias camadas, sendo porém, de expressão muito suave e elegante. Basta dizer que não salta do copo em direcção a nós como o seu irmão mais novo, mas procure e encontrará! No nariz, damasco ceroso e, no palato revela camadas de laranja vigorosa (um apelativo toque amargo), madressilva, pêssego cremoso amarelo e branco, borras agradáveis e notas de frutos secos nogados (15% deste cuvée foi fermentado em barril). Uma acidez dançante e minerais cintilantes levam a um final muito longo e suave, com uma fantástica ressonância de back palate. Lindo. 13%

Quinta de Soalheiro Reserva Alvarinho 2013 (DOC Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Reserva Alvarinho 2013 – Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

O Reserva foi fermentado e envelhecido em barricas de carvalho francês (em novas e em já utilizadas), em “batonnage” com borras finas, até ao final de Junho de 2014. Por vezes achei este vinho demasiado amadeirado para o meu gosto mas, o 2013 mostra uma fantástica transparência a alperce, pêssego, lichia e ananás. Um pingo de sabor a baunilha e ervas secas acrescentam interesse. Grande postura e equilíbrio; muito bom. 13%

A propósito, a gama de Alvarinhos da Soalheiro extende-se a uma aguardente Alvarinho e a ‘allo’ uma mistura minhota das castas Alvarinho e Loureiro. Tal como tinha dito, em todas as direcções!

Contactos
Quinta de Soalheiro
Alvaredo . Melgaço
4960-010 Alvaredo
Tel: (+351) 251 416 769
Fax: (+351) 251 416 771
E-mail: quinta@soalheiro.com
Website: www.soalheiro.com