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Até no vinho

Texto João Barbosa

Bom dia, nunca gostei de usar um espaço de escrita de assunto concreto para escrever acerca da profissão – tal como não gosto de poemas de teorização acerca da poesia e do «mundo» dos poetas. Faço-o agora, porque neste caso tem relevância para o leitor.

A razão do tema, que não versa directamente o vinho e a gastronomia, é para alertar ao bom-senso do leitor. Nem tudo o que está nos livros é verdade, tal como nos jornais ou nos blogues.

A internet não matou nem vai matar a imprensa em papel, que está a ser testada pela Lei de Darwin: o mundo não é dos mais fortes nem dos mais inteligentes, mas dos que melhor se adaptam às transformações da natureza. Não vejo nenhum mal em si mesmo, mas a relação entre jornalistas e bloguistas ou críticos de sites na internet não é pacífica: angústias, sentimento de traição, de perda de «privilégio» (perda ou diluição de influência). Do outro lado, angústia, sentimento de menorização, incorrecta procura de conquistar o que não é seu, pois jornalismo e bloguismo não são bem a mesma coisa.

Não vou tentar esmiuçar pontos de vista, apenas que reconheço vantagens em ambas e que são compatíveis. A internet deu voz ao cidadão, que anteriormente só se manifestava por carta ao director da publicação.

O universo todo por explorar, a liberdade da humanidade. Porém, nem sempre a responsabilidade acompanha, como deve sempre, a liberdade. Por isso, na troca de beijinhos entre jornalistas e bloguistas vem a questão da idoneidade, da equidistância, da competência, da natação em mares de perigosa proximidade com interesses privados.

Estou muito à vontade nisto, pois sou simultaneamente jornalistas (26 anos) e bloguista (10 anos) e escritor de vinho (um ano) – sendo este último filho dos anteriores. O que me faz escrever agora foi uma crítica no poderoso The Times acerca dos Açores, particularmente da transportadora aérea SATA. Fiquei feliz porque encontrei o substrato da base do debate e por não ser comida e bebida.

Os bloguistas são, em todo o mundo, frequentemente vistos com desconfiança: quem são? Respondem a quem? Quem os «policia» editorialmente? Que códigos de ética e deontologia seguem?

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Máquina de escrever

É verdade que X% não sabe do que escreve, tem horror a estudar, sabe tudo e, nem que seja involuntariamente, premeia os bens que lhe enviam para comentar… «digo bem, pois assim garanto que me vão continuar a mandar KYXZ para pedir opinião. Tenho do que gosto e grátis e ainda dou sentenças».

Mas também é verdade que o mesmo se passa com X% de jornalistas e críticos (de meios «convencionais»). Em 26 anos de jornalismo conheci críticos de gastronomia, automóveis, cinema… até de tourada. Nem todos sabiam/sabem do que estavam/estão a escrever. Um dia quis confirmar que Fulano era um bluff e todo o seu conhecimento tinha a consistência de claras batidas em castelo. Fiz-lhe duas perguntas muito básicas e às quais não soube responder – perguntas tão elementares que eu, que do assunto percebo quase nada, sabia, como mais gente o sabe e não exerce esse ofício.

Não se tratava de crítico de comida ou de vinho. Como conheço bloguistas de várias temáticas que abastecem o ego através dos seus blogues.

Onde entra o The Times? Não há vencedores absolutos, mas o The Times é um dos mais influentes e credíveis jornais do mundo, como o The New York Times, The Washington Post, Le Monde, The Financial Times, The Wall Street Journal, etc.

Num texto de crítica acerca de viagens, o crítico sentenciou que a SATA (Serviço Açoriano de Transporte Aéreo) é a pior companhia aérea do mundo. Dá-me igual, não tenho nacionalismo no transporte aéreo nem voei alguma vez nesta transportadora.

Perante esta afirmação, devo deduzir que o crítico (jornalista) já voou em todas as companhias aéreas e o faz com regularidade para sustentar a afirmação. Calma! Não é esse «saber absoluto», afirmação peremptória e inequívoca, um dos pontos em que os bloguistas são mais atacados?

Ainda antes de a internet estar generalizada, um jornalista espanhol, do insuspeito El País (Espanha), veio a Portugal fazer uma reportagem pelo país. O senhor descobriu que, em plena década de 90 (século XX), o transporte de tracção animal era muitíssimo comum, tal como viajar a cavalo, de burro ou de mula.

Espanha fica ao lado e milhões de espanhóis conheciam Portugal. O ridículo com que quis achincalhar o país e os portugueses tombou todo sobre ele – creio que perdeu o emprego devido a essa reportagem ao século XIX.

Repito o segundo parágrafo:

– A razão do tema, que não versa directamente o vinho e a gastronomia, é para alertar ao bom-senso do leitor. Nem tudo o que está nos livros é verdade, tal como nos jornais ou nos blogues.

Um dia circulou um vídeo no Facebook que mostrava uma cena curiosa, que deixou muita gente a acreditar ou na dúvida. Um amigo, montador de cinema, resumiu o assuntou genialmente:

– Também vi o dedo do ET acender uma luz.

Cuidado com as imitações e com as certezas. Esperem aí, deixem-se ficar, que já volto a escrever sobre vinho.

Nota final: Embora não tenha sido para ganhar ofertas (felizmente nunca precisei de esmolas ou presentes), escrevi e sentenciei acerca dum tema para o qual não estava preparado: comida, restaurantes. Tomei consciência e deixei-me disso. Todos os textos foram retirados. Escrevo quando a insistência no convite torna falta de educação não aceitar – e tudo preto no branco. Aconteceu/acontece no âmbito do meu blogue, onde assumo que toda a escrita é pessoal e baseada no gosto. Sou crítico amador no blogue e cronista fora dele. Não sou nem quero ser crítico profissional, quero contar estórias.

Porto das 5 by Real Companhia Velha

Texto João Pedro de Carvalho

O Porto das 5 é um movimento criado pela Real Companhia Velha, que comemora este ano 260 anos da sua fundação e que pretende promover o consumo de Vinho do Porto junto do consumidor. O nome invoca o tão famoso “Chá das 5” levado para Inglaterra por Catarina de Bragança, filha de Dom João IV, casada com Carlos II de Inglaterra. Do dote do seu casamento constava uma caixa de chá, o mesmo chá que Catarina de Bragança já bebia em Vila Viçosa, terra onde nasceu, e que se tornaria no mais britânico de todos os hábitos, o famoso 5 o’clock tea. A explicação desta vontade surgiu na voz de Pedro Silva Reis, filho do actual presidente da Real Companhia Velha e responsável pelo marketing da empresa, que afirma que “Os portugueses estão cada vez mais a despertar para hábitos já bem enraizados noutros países, em que se reúnem depois do trabalho, em bares, wine bars, quiosques e esplanadas, para tomar um copo de vinho, a solo ou harmonizados com snacks ou finger foods”.

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Porto das 5 by Real Companhia Velha – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

O que se pretende com esta iniciativa é que o consumo de Vinho do Porto se torne um hábito à refeição ou até fora dela. A implementação deste “movimento” passa pela criação de cartas de vinhos do Porto com as respectivas sugestões de harmonização, que podem ser pairings de vinho do Porto com queijos, chocolates e, numa vertente não gastronómica, com charutos, entre outros. A oferta será adaptada aos locais onde vai estar disponível, sendo vasta a gama de vinhos do Porto com a assinatura da Real Companhia Velha. Para o demonstrar foram apresentados numa muito interessante harmonização de vários estilos de Vinhos do Porto com as mais variadas combinações e momentos.

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Royal Oporto Tawny 10 Years – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

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Royal Oporto L.B.V. 2011 – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

Os dois primeiros vinhos a serem sugeridos mostram toda a sua polivalência e são uma excelente porta para o fantástico mundo do Vinho do Porto com preços mais acessíveis aos quais o consumidor sem fazer grande investimento pode chegar e desfrutar em pleno em sua casa. Neste mano a mano, o Royal Oporto Tawny 10 Anos mostra-se fresco e de perfil equilibrado e doce, sem grandes exaltações com muito aroma de fruta passa, resultou em cheio com a proposta apresentada. Já o Royal Oporto L.B.V. 2011 mostra a garra e energia do estilo Ruby, cheio e opulento, reveste totalmente o palato com sabores de frutos silvestres, muito morango, amora, framboesa, num fundo fresco e apimentado. Um vinho mais polivalente e que mostra energia suficiente para acompanhar um bom corte de novilho acabado de sair da grelha.

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Real Companhia Velha Vintage 1970 – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

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Real Companhia Velha Vintage 1967 – Foto Cedida por Real Companhia Velha | Todos os Direitos Reservados

Os últimos vinhos a entrarem em cena foram três Vintages em idade adulta, arrebatadores e memoráveis. Das propostas que foram colocadas na mesa descartei a que remetia para os charutos. Todos os vinhos que aqui coloco foram acompanhados numa base de queijo, seja com Queijo da Serra da Estrela quer com Stilton. O primeiro foi o Real Companhia Velha Vintage 1970 com Pêra-rocha recheada com queijo da Serra, um Vintage a mostrar-se muito envolvente, conquistou no imediato com toques de caramelo, fruta fresca misturada com fruta passa, flores e ligeiro bálsamo. Belíssima presença na boca, muito boa frescura com presença a forrar o palato, cheio de sabor e muito boa persistência, com energia suficiente para ir ao embate com o Queijo da Serra em que a acidez corta a parte mais gorda do queijo enquanto a sensação de untuosidade combina lindamente com o tom mais gordo que nos resta. Para o segundo momento de Stilton com cracker de especiarias e Granny Smith desidratada foi servido o Real Companhia Velha Vintage 1967. Se o anterior Vintage já me tinha deixado rendido aos seus encantos, o que dizer deste que quanto a mim se mostra ainda melhor, um deleite para os sentidos. Enorme elegância e frescura, novamente o caramelo de leite, untuoso, conquistador no imediato. Riquíssima complexidade, tudo muito bonito e aprumado, sério, no palato é largo e persistente, muito saboroso e com enorme persistência. E mesmo com o poderio do Stilton o Vintage 1967 mostrou-se um verdadeiro colosso, ombreando lado a lado, numa combinação também clássica e que novamente mostra a vontade que estes vinhos têm em vir para a mesa dos consumidores fazer destes brilharetes. Termino com um vinho que estava destinado aos fumadores, optei por resgatar o Real Companhia Velha Vintage 1957 e tentar fazer a harmonização com as duas propostas que já tinham sido feitas, sendo que a forma incisiva e acutilante como se mostra, muito mais frescura e menos untuosidade que os dois anteriores fazem dele um vinho indicado para os charutos que do outro lado da sala já fumegavam. No entanto foi com o Silton que mais gostei, o que demonstra a versatilidade do Vinho do Porto nos seus mais distintos estilos e a capacidade de acompanhar desde a refeição a momentos mais festivos até a momentos de pura descontracção a solo. Encontramos às 5 para um Porto?

Contactos
Real Companhia Velha
Rua Azevedo Magalhães 314
4430-022 Vila Nova de Gaia
Tel: (+351) 223 775 100
Fax: (+351) 223 775 190
E-mail: rcvelha@realcompanhiavelha.pt
Wesbiste: www.realcompanhiavelha.pt

Cockburn’s Port

Texto Bruno Mendes

Foi em 1815 que os dois irmãos escoseses, já com um negócio de sucesso, Robert e John Cockburn decidiram montar uma filial no Porto, denominada R&J Cockburn’s. A Cockburn’s conseguiu construir uma reputação notável a nível de Porto Vintage e os registos demonstram isso mesmo, no início do século XX lideravam nas casas de leilões de Londres com os preços mais altos.

Como todas as primeiras empresas de vinho do Porto, a Cockburn’s viu o seu nome mudar, neste caso para Cock­burn’s & Co, nome que persiste até hoje. A família cresceu com a inclusão de outras famílias, como os Wau­chopes, os Smithes, os Teages e os Cobbs.

Há 10 anos, em 2006, a Symington adquiriu a Cockburn’s, passando assim a ser novamente propriedade de apenas uma família.

Para uma visão mais detalhada vej o vídeo abaixo.

Marcolino Sebo Wines – Quinta da Pinheira Colheita Seleccionada 2010 and Visconde de Borba Reserva 2011

Texto João Barbosa

Foi na indústria extractiva que Marcolino Sebo conseguiu com que pagar terra arável. Estremoz é terra de mármore e de vinha. Parcela a parcela junto 190 hectares, dos quais 130 estão com vinha.

A história vitícola de Marcolino Sebo começa em 1975, quando o país ardia de paixões políticas, quase desembocando numa guerra civil que dividiria o país ao meio – fico por aqui quanto à história de Portugal.

Até 1999, Marcolino Sebo vendeu as uvas para a Adega Cooperativa de Borba, tornando-se num fornecedor destacado. Nesse ano fez a primeira vindima em nome próprio e estreou a adega.

Todas as vinhas estão dentro da demarcação do Alentejo, dentro da sub-região de Borba. Nem todos os seus vinhos são DOC Alentejo (denominação de origem controlada), vários estão classificados como Regional Alentejano. Além dos vinhos tranquilos, Marcolino Sebo também produz licorosos e vende aguardentes bagaceira e vínica. Acrescente-se uma pequena produção de azeite.

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Marcolino Sebo in marcolinosebo.com

Tudo se aproveita e se poupa. Os generosos permitem-lhe não desperdiçar vinho que dificilmente venderia. As aguardentes são adquiridas a quem lhe compra subprodutos vínicos. As barricas já sem utilidade são usadas para o estágio dos espíritos.

O vinho é quase todo tinto: seis tintos, três brancos, um rosé, um licoroso branco, uma aguardente vínica (velha) e uma aguardente bagaceira. Porquê tantos tintos? Porque são os mais procurados – simples.

Numa gama tão larga, a ementa de Marcolino Sebo vai dos 2,5 euros até aos 20. Monte da Vaqueira (branco e tinto) é a base. As ideias que fogem ao perfil principal surgem com a marca Quinta da Pinheira, mas o emblema vai para as prateleiras como Visconde de Borba. O licoroso e as aguardentes são vendidos com o nome do produtor.

Bem, ao que interessa. Não experimentei a gama toda, mas ainda assim a amostra foi vasta. Síntese elaborada por Jorge Santos, com um orgulhoso sotaque alentejano e grande simpatia.

Portugal tem a sorte (mérito) com os seus vinhos generosos/licorosos – diferenciação burocrática para designar vinhos fortificados e que sinceramente só atrapalha. Com Vinho do Porto, Vinho da Madeira e Moscatel de Setúbal, entre outros, brilhar não é fácil. Estes néctares são tradicionais em quase todo o país e o Alentejo é uma das suas pátrias. Portanto… O MS Licoroso Branco, feito com um lote de rabo de ovelha e de roupeiro, está nessa família antiga. Tem frescura e é guloso. Quanto ao resto, não se pode comparar.

Jorge Santos explicou-me que os vinhos da casa pretendem responder a duas questões: a tradição e o mundo. Mas discordo! Está bem, isso da tradição, mas não encontrei outro sotaque que não fosse o das frases cantadas do «idioma» alentejano. Sublinho que Marcolino Sebo tem também vinhas de castas não portuguesas.

Só por si, isto que escrevi acima não é nem positivo nem negativo – pois há bom e mau no que é antigo e nas «viagens». Neste caso, o balanço é claramente positivo, seja nos néctares mais agarrados à pátria alentejana, seja nos que resolveram passear um bocadinho.

Olhando para o conjunto… e tratando-se de Alentejo, onde nos brancos pontifica a casta antão vaz… epá! A culpa não é nem do produtor, nem do enólogo, nem da casta. Não gosto da antão vaz! Está bem, esquecendo-me do gosto pessoal, há que dar voto de confiança.

Reconheço que há alguma injustiça escolher para comentar só alguns vinhos. Qual o critério a seguir? Ficar pelos topos de gama? Apontar aos de preço mais democrático? Dos vários critérios possíveis, vou escolher pelo lado materno – alentejana, embora duma terra sem vinha (Castro Verde).

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Visconde de Borba Reserva 2011 in marcolinosebo.com

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Quinta da Pinheira Colheita Seleccionada in marcolinosebo.com

Vou assumir conscientemente o gosto pessoal – já conto um pormenor deste assunto. O Quinta da Pinheira Colheita Seleccionada 2010 (alicante bouschet, aragonês e trincadeira) e o Visconde de Borba Reserva 2011 (alicante bouschet, aragonês, tinta caiada e trincadeira) agradaram-me no «ponto G» enófilo, pelo seu forte sotaque.

O pormenor a que me referia é que, ao almoço, com Jorge Santos e Sónia Sebo (filha de Marcolino Sebo e gestora da firma), fui «obrigado» a conhecer vários «elementos da família». No final, já alegres, o enólogo entregou-me três garrafas (as referidas e Quinta da Pinheira Tinto 2011) e disse-me que eram os «seus», aqueles cujo sotaque cantado lhe dão o calor da região.

Pois, sim. É verdade! Bem falam cantando.

Todos ali cantam. E o cante alentejano é Património Imaterial da Humanidade, sentenciou a UNESCO.

Contactos
Quinta da Pinheira – Arcos
7100 Estremoz
Tel: (+351) 268 891 570
Fax: (+351) 268 891 571
Email: geral@marcolinosebo.com
Website: www.marcolinosebo.com

A Adega do Cartaxo e o renascer do Ribatejo

Texto João Pedro de Carvalho

Fundada em 1954, por um grupo de 22 associados, a Adega Cooperativa do Cartaxo tem raízes numa região com uma forte tradição vitivinícola onde existem referências históricas a esta actividade, anteriores ao seculo X. A Adega funcionou até 1974 nas instalações da antiga Junta Nacional do Vinho (actual IVV), desde então labora nas actuais instalações, sempre investindo no reforço dos seus recursos humanos e tecnológicos ao serviço de uma melhor produção vinícola. Na actualidade a Adega do Cartaxo possui 216 associados com uma área de vinha de 616 hectares dos quais 244 são DOC e 370 IGP, sendo sem sombra de dúvidas mais um dos bons exemplos em que uma Adega Cooperativa se soube remodelar e actualizar face às necessidades do mercado e as exigências do consumidor. A remodelação da imagem dos seus principais vinhos criando rótulos apelativos e distintos fazem parte dessa nova imagem, a qualidade dos vinhos com enologia a cargo do Engº Pedro Gil tem valido inúmeros reconhecimentos dentro e fora de portas.

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Adega do Cartaxo – Foto Cedida por Adega Cooperativa do Cartaxo | Todos os Direitos Reservados

Num portfólio recheado de inúmeras referências, decidi focar a atenção naqueles que para mim são as estrelas da companhia, cabendo ao Bridão Private Collection 2013 ser o primeiro de um conjunto de três vinhos escolhidos. Neste vinho o lote é a meias entre a Touriga Nacional e Alicante Bouschet, com estágio de 10 meses em barricas de carvalho Português. Um vinho maduro, concentrado e opulento, carregado de fruta madura com toque de especiarias. Boa a frescura que o rodeia, macio e guloso, e com uma boa complexidade e a facilidade com que cativa, diga-se que é daqueles vinhos que facilmente agrada sem ter muito que pensar, porque quem bebe vinhos não tem de perder tempo a pensar, bebe porque sabe bem e este vinho sabe bem, sabe muito bem.

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The three wines – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Dando o salto até ao Bridão Reserva branco 2014 onde despontam as castas Fernão Pires e Arinto, com fermentação e estágio em barrica de carvalho Francês durante 3 meses. O resultado é um branco que alia o peso da fruta com uma boa frescura e sensação de aconchego conferida pela madeira. O conjunto de aromas é convidativo de tal forma que literalmente sugere uma tarte de limão merengada tanto em aroma como no sabor onde a acidez se mostra vincada mas com o espectável arredondamento/cremosidade conferida pela passagem na madeira. Bom a acompanhar peixes no forno ou grelhados com molho de manteiga e limão. Para terminar o Bridão Reserva tinto 2013 que junta Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Tinta Roriz e Syrah, com estágio de 6 meses em barricas de carvalho Francês. Tudo muito bem embrulhado com notas vegetais bem frescas, frutos do bosque em tons negros muito maduros, a madeira envolve o conjunto e nota mais para o bom trabalho realizado com as barricas. Boa complexidade num perfil sério de que se é fácil de gostar, apelativo apesar da ligeira austeridade que aparenta ter, algum tabaco, pimenta, ligeiro balsâmico a mostrar-se em pano de fundo. São três vinhos bastante apelativos com preço abaixo dos 10€ que facilmente conquistam o consumidor à mesa, haja pois boa comida por perto.

Contactos
Adega Cooperativa do Cartaxo
EN 365-2 2070-220
Cartaxo, Portugal
Tel: (+351) 243 770 987
Fax: (+351) 243 770 107
E-mail: geral@adegacartaxo.pt
Website: www.adegacartaxo.pt

Casa Ferreirinha – História e Arte

Texto Bruno Mendes

Fundada no século XVIII, por Bernardo Ferreira, a Casa Ferreirinha foi adquirida em 1987 pela Sogrape. Os vinhos produzidos por esta casa, e a casa em si, são sinónimo de história e arte. Uma figura incontornável na história desta empresa é, sem dúvida, Dona Antónia Adelaide Ferreira, que, com o seu espírito empreendedor, refinou a fórmula da empresa e a consolidou.

A Sogrape tem sabido respeitar e preservar todo o património histórico e cultural que a Casa Ferreirinha implica e sempre manteve até aos dias de hoje, porém, permitindo que a empresa se adeque à inovação e à actualidade. A empresa conta com várias gamas de vinho, como o Vinha Grande, Esteva, Papa Figos, Planalto, Callabriga, Reserva Especial, Quinta da Leda, AAF e claro, o lendário Barca Velha.

Para conhecer um pouco melhor a história desta casa, veja o vídeo abaixo.

Dois rosados do Tejo – Casal da Coelheira 2015 e Tyto Alba 2015

Texto João Barbosa

A Comissão Vitivinícola Regional do Tejo tem vindo a enviar vinhos para prova e que merecem aprovação – se mo permitem. Não dá para escrever acerca de todos, mas alguns mostram-se tão felizes que não há desculpa ou prioridade que os empurrem da sala das obrigações.

As firmas que produzem estes dois néctares são bem diferentes, começando pela dimensão até à natureza social. A empresa Casal da Coelheira tem origem no início do século XX e representa 250 hectares, dos quais 64 são de vinha. Contrariamente à anterior, a Companhia das Lezírias é uma sociedade anónima detida inteiramente pelo Estado – 17.800 hectares (1.500 hectares estão arrendados), sendo 130 hectares de vinha.

Sendo enorme, pensava que era ainda maior. Ainda assim, a Companhia das Lezírias é provavelmente a maior propriedade portuguesa. Se os números que tive acesso estão correctos, a área quase chega perto do dobro da cidade de Lisboa (10.000 hectares – Wikipédia).

Irei escrever mais, mas posso resumir estes dois vinhos numa interjeição:

– Oh Verão! Vem cá já! Não te demores.

O Casal da Coelheira 2015 é fantasticamente simples, feito com base em touriga nacional e syrah. Cumpre brilhantemente a função de diversão com que foi provavelmente concebido. Fácil no trato, prazenteiro, guloso sem ser um xarope, onde pontifica o aroma da groselha. Está decidido! Este é obrigatório para este Verão! Não o colocaria a acompanhar comida – eventualmente uma salada de frango com frutas. Quer conversa, vai ajudar na sedução… irá dar um contributo positivo para a taxa de natalidade.

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Casal da Coelheira Rosé 2015 in casaldacoelheira.pt

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Tyto Alba Vinhas Protegidas Rosé 2015 in tytoalba.pt

O Tyto Alba Vinhas Protegidas 2015 é uma revelação absoluta. O nome é bonito! E mais bonito quando se sabe que homenageia uma ave magnífica: a coruja-das-torres – que em Portugal conhece mais designações.

É uma revelação – para mim – porque não estava à espera de nada que se lhe compare.

– O que é isto?! Meus Deus!

Foi mais ou menos assim. Sou aficionado dos rosados, gosto dos doces aos extra-secos. Ponderados todos, este é (provavelmente) o rosé português melhor que bebi! Se não é o melhor que bebi, é pelo menos o que mais prazer me deu.

Nem sequer beneficiou de nenhum acontecimento que o balizasse. Um normal dia da semana, em que não estava stressado ou relaxado, nem triste nem alegre, nem cansado nem atlético, nem faminto nem saciado. Penso que estava no «ponto zero» ou no «ponto 50» numa escala de zero a 100.

– O que é isto?! Meus Deus!

Fresquíssimo, elegante, escorregadio, animal-de-festa, uma complexidade incomum, muito fácil, excelente para pratos leves, excelente para conversar, magnífico para dançar. Com a vantagem de ter apenas 12,5% de teor de álcool. Fiquei com uma vontade que aquele momento não terminasse.

O Tyto Alba Vinhas Protegidas 2015 resulta da junção de touriga nacional e de merlot. Conhecendo o calor da região e olhando para a graduação alcoólica deste néctar, tenho a dizer:

– Vale bem a pena não considerar os rosados como subprodutos dos tintos.

Depois dos anos iniciais – em que os rosados eram bizarrias, vistos como moda passageira, solução para aproveitamento de sobras ou curiosidade para ajudar a vender «o» vinho – hoje fazem-se em Portugal muitos rosés «verdadeiros» ou «honestos», feitos com vontade de os fazer e de os construir bem. Quer um, quer outro, estão na secção dos bons rosados nacionais.

Só posso aplaudir quem quis colher as uvas mais cedo e se empenhou em fazer um vinho e não uma sobra – não quero dizer que não existam bons rosados mais alcoólicos e resultando de aproveitamento de uvas colhidas para tintos.

Ao contrário da coruja-das-torres, o Tyto Alba Vinhas Protegidas 2015 voa de dia e de noite. A ave é uma espécie protegida. O vinho deve ser caçado até à extinção. E também ajudará a fazer crianças!

Adega de Vidigueira, a Inspiração e a Bonança

Texto João Pedro de Carvalho

Era uma vez, lá muito longe, uma região de vinhos chamada Alentejo onde a seu tempo foram convocadas algumas “fadas madrinhas “que tiveram o condão de criar cada uma delas uma Adega Cooperativa. Surgiram assim as Cooperativas de Borba, Portalegre, Redondo, Reguengos de Monsaraz, Granja/Amareleja e Vidigueira. Durante décadas estas Adegas foram o expoente máximo das sub-regiões onde ficaram inseridas, os vinhos diferenciavam-se entre si e mostravam com brio as características dessas regiões e das castas que então eram quase exclusivas de umas e de outras. Depois vieram os tempos sombrios, a magia que envolvia as Adegas Cooperativas foi-se perdendo muito por causa da paragem do tempo que literalmente engoliu a grande maioria. A juntar a tudo isso, uma nova vaga de produtores sedentos pelo reconhecimento deu origem a uma vaga de novos rótulos a surgirem nas prateleiras a uma velocidade estonteante. Com tanta oferta o consumidor ficou confuso e sem saber bem para onde se virar, se por um lado tinha ali à mão os vinhos que sempre se acostumou a ter à mesa, por outro lado tinha também muitos “brinquedos” novos que lhe chamavam a atenção. Foi a necessária aposta na expansão e renovação do portfólio das Adegas Cooperativas, com a introdução de novos produtos mas essencialmente com a reformulação de toda a imagem, que se veio dar uma lufada de ar fresco que fez renascer algumas delas.

A Adega de Vidigueira é um destes casos com “final” feliz, onde a posta na renovação se fez e cujos frutos se começam agora a colher, lembro que foi considerada recentemente a “Cooperativa do Ano 2015” pela Revista de Vinhos. Numa viagem que aproxima a Adega e a sua vila, Vidigueira, a conquistas de outros tempos, à ligação com Vasco da Gama − o Conde da Vidigueira, pretende-se cumprir a promessa de descoberta e afirmação de uma região tão profundamente marcada pela cultura do vinho. O portfólio foi assim dividido em sete actos (O Prenúncio | A Partida | A Saudade | A Inspiração | A Decisão …) que os interligam numa viagem pela região, cultura e história, sempre numa descoberta.

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Vidigueira Alicante Bouschet 2014 – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

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Vidigueira Reserva 2014 – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

No Acto IV A Inspiração surge este Vidigueira Alicante Bouschet 2014 a mostrar todo o temperamento da casta, austeridade a fazer-se sentir com muita fruta madura juntamente com compota, cacau, a precisar de algum tempo no copo porque tudo vem inicialmente muito enrolado num manto bem fresco. Um vinho que tem tanto de intenso como de guloso, jovem e pronto para durar em garrafa, numa prova de boca cheia de energia que o remete para acompanhar pratos de bom tempero. No Acto VI A Bonança surge o Vidigueira Reserva 2014, um 100% Syrah com estágio de 12 meses em barricas novas de carvalho francês. Um belo vinho com tudo para agradar e conquistar no imediato, cheio e carnudo, muito sumarento e guloso com a fruta a explodir de sabor na boca, toque morno e sedoso num vinho de bela estrutura e firmeza. A frescura embala o conjunto sem deixar a fruta cair em tentações menos próprias, suculento, complexo e perigosamente atractivo, um Syrah opulento e lascivo. Abrir em ocasião onde a bonança mereça ser festejada.

Contactos
Bairro Indústrial
7960-305 Vidigueira
Tel: (+351) 284 437 240
Fax. (+351) 284 437 249
Email: geral@adegavidigueira.pt
Website: www.adegavidigueira.com.pt

Morgadio da Calçada – Tradição e história únicas

Texto Bruno Mendes

Situada em Provesende e mandada construir no final do século XVII pelo desembargador Jerónimo da Cunha Pimentel, a casa do Morgadio da Calçada é um dos mais antigos solares deste local. Abriu ao público nos anos 90 e tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento da região, sem nunca perder a sua identidade.

Provesende está inserida na região do Douro (classificada como património mundial pela UNESCO) e é uma das seis aldeias classificadas do Vale do Douro. Os vinhos do Morgadio da Calçada contam com a assinatura de Dirk van der Niepoort e nascem do planalto esverdeado que contrasta com a restante região vinhateira do Douro.

Para uma visão mais detalhada veja o vídeo abaixo.

Era o vinho, meu Deus era o vinho

Texto João Barbosa

O vinho vive em mim, não só por o gostar de o beber, mas por tudo o que lhe está associado. Há mais textos de economia acerca do sector do que (provavelmente) trabalhos históricos, antropológicos ou sociológicos.

Há 30 anos havia tabernas em Lisboa… tabernas mesmo tabernas, não sítios bonitos de cenário e comida de pobre para ricos. Muitos petiscos a – agora chamam-lhes tapas, em espanhol é mais giro, provincianismo – serviam para chamar a bebida e alguns eram oferecidos.

Hoje é raffiné (estrangeirismo forçado, provocação por causa do que escrevi acima) servir cascas de batata fritas e cobrar como se fossem batatas de prata. Eram oferecidas e com sal. Outra coisa engraçada – esta é patética, mas ajuda a explica por que o bacalhau era alimento acessível aos pobres – eram as lascas. Sim, nada mais do que o «fiel amigo» seco e com o sal da conserva. Era barato e salgado, entretinha a boca e chamava mais uns copos.

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Uma taverna em Lisboa in Lisbon in Arquivo Municipal de Lisboa

Muitas tabernas eram igualmente carvoarias, onde se misturavam os odores do vinho (mau), da fuligem e da serradura… sim, os alcoólicos das tabernas bebiam até ao «limite», as limalhas de madeiras serviam para facilitar a limpeza… absorventes.

As tabernas, hoje chiquérrimas, eram feias, nojentas, malcheirosas e mal frequentadas. O vinho chegava em barris de madeira, de vários tamanhos, com sarro. Para os nostálgicos e românticos digo:

– Não! Antigamente, os tempos não eram melhores!

O texto ocorreu-me porque fui matar saudades duma canção, de um genial humorista português. Em 1977, o actor Hérman José também se dedicava à música e lançou o disco (45 rotações) «Saca o saca-rolhas». Além da graça, a canção é uma janela para Portugal de há 30 anos.

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O disco “Saca o saca-rolhas” de Herman José

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Ramo de loureiro in wikimedia.org

«Saca o saca-rolhas, abre o garrafão, viver sem vinho não presta». Esta afirmação está (sendo generoso) no limite do politicamente correcto. Os jovens dificilmente a saberão e os não portugueses certamente desconhecem.

Nos versos, além da indicação de consumo de um garrafão (cinco litros), conta-se dos motoqueiros a acelerar, depois de beber álcool, a arriscarem-se a congestão, por mergulharem no mar depois da farra, e (deduz-se) levar um passageiro a mais na moto. As estradas portuguesas eram uma guerra civil, no que respeita a mortes.

É claro que ainda persiste alguma dessa realidade. Porém, não tem a condescendência de outrora e é motivo de crítica unânime. Nesse tempo, o vinho era a base da bebedeira dos portugueses, mais do que cerveja… e os destilados estavam longe das algibeiras.

Este ponto merece um enquadramento histórico. Portugal, em 1974, passou duma economia fechada e controlada e aos poucos foi-se abrindo. Em 1975, as colónias tornaram-se independentes, com implicações financeiras. Na equação têm de se colocar as crises do petróleo, convulsões económicas derivadas de opções políticas, etc.

Se até 1974 o whisky escocês, por exemplo, estava «escondido» e o gin espanhol era tenebroso, as bancarrotas de 1977 e 1983, com intervenções do Fundo Monetário Internacional, tornaram bem visível a fronteira das bebidas alcoólicas.

O dinheiro fresco que brotava das fontes comunitárias, a partir de 1986, ajudou a mudar o paradigma. Alteraram-se os vários padrões de consumo, mas os portugueses continuam a exigir que o vinho seja barato. Nem pensam em quanto o produtor investe, o risco e a quanto vende.

No tempo do saca-rolhas do Hérman, o consumo era muito elevado e o preço muito baixo – algo também possível graças à produção de vinho-a-martelo, uma mistela que «até» podia conter vinho, mas era um composto de inúmeros de produtos que o adulteravam e embarateciam: falsificação de bens alimentares.

Os portugueses aceitam pagar um euro por uma garrafa de água ou 60 cêntimos por uma bica, mas um vinho acima dos cinco euros é um objecto de joalharia. Fiz as contas e o vinho ao valor do café custa 15 euros (0,75 litros).

Mas não posso terminar este olhar para o retrovisor sem um verso popular, com o sarcasmo da falsa ingenuidade: «À porta do Santo António [igreja] está um ramo de loureiro, é uma pouca-vergonha fazer do santo tasqueiro».

As tabernas tinham à porta, à disposição dos clientes, ramos de loureiro. Ao que parece, mascar estas folhas faz desaparecer o hálito a vinho. Bem se vê que os foliões iam aos tombos para casa, mas provavam a inocência, junto das justas recriminações das mulheres, por o hálito não ser a copo.

Uma convenção: eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei.