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Quinta da Lapa – Na terra de Pina Manique, com bons vinhos

Texto José Silva

Tem quase 300 anos esta propriedade ribatejana e diz-se que por ali poderá ter passado Pina Manique. Foi comprada pelo empresário Canas da Costa e foi um amor à primeira vista para a sua filha Sílvia, arquitecta de profissão. Para além da recuperação impecável da casa senhorial, onde agora funciona um belíssimo turismo rural com 11 suites, Sílvia apaixonou-se completamente pelas vinhas.

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Casa Senhorial – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E assim nasceu um projecto vitivinícola de sucesso, com a contratação do enólogo Jaime Quendera e a sua enorme experiência. São vinhas que têm entre 15 e 25 anos, com algumas castas autóctones mas também de outra regiões e mesmo estrangeiras, que ali encontraram solos e clima a que se adaptaram muito bem: arinto, tamarez, trincadeira das pratas, tincadeira preta, touriga nacional, tinta roriz, merlot, syrah, cabernet sauvignon e alicante bouschet.

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As vinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Graças aos solos predominantemente argilo-calcários, mas onde a influência das águas do rio Tejo, nas suas ancestrais cheias em que invadia as margens, é enorme, estes vinhos adquirem não só acidez mas até alguma mineralidade que os torna também apetecíveis. No turismo rural fazem-se também eventos, onde se bebem os vinhos da casa e onde são servidas refeições confeccionadas na enorme e bem equipada cozinha, ou então preparadas por um amigo da casa, o sr. Afolfo Henriques, o conhecido homem da aldeia da Maçussa.

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Uma das suites – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As 11 suites são todas diferentes, algumas delas a recuperação de espaços já existentes e com muitas peças de mobiliário que foi também recuperado, de grande beleza. O edifício central, de forma quadrada, encerra um enorme terreiro, com árvores frondosas, de belo efeito. À volta da casa estão as vinhas e algum olival, a moldar a paisagem de toda a quinta. No conjunto de edifícios da quinta está a adega, pequena, simples mas bem equipada, incluindo a sala de barricas, fundamentais para estagiar alguns dos tintos que tanto apreciamos.

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A sala das barricas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Desta vez foi uma refeição que culminou a apresentação das novas colheitas da Quinta da Lapa. Em primeiro lugar o pão, da Maçussa, que o próprio Adolfo Henriques coze, estaladiço por fora, fofo por dentro, a rescender, saboroso, irresistível. Depois alguns petiscos: melão com presunto, apaladado e fresco, ovas de bacalhau com tomate seco, requintado, salmão fumado, aveludado e de paladar sofisticado e, claro, o queijo chèvre da Maçussa, nas versões ao natural e panado com rúcula e compota. Uma maravilha.

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Melão com presunto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Salmão fumado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Chèvre Cheese – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O prato principal foi um delicioso cabrito assado no forno, com arroz de cogumelos e batatinha assada e, à parte, uma simples mas soberba salada de alface e cebola roxa.

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Cabrito assado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Salada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Terminou-se com um bolo de chocolate em boa companhia, uma gulodice pegada.

E provaram-se as novas colheitas da Lapa, a começar pelo espumante Quinta da Lapa Bruto Natural preparado só com Arinto, com muita frescura e elegância, acidez sempre bem presente, um belo espumante.

O Quinta da Lapa Branco Reserva 2014, feito com Arinto e Tamarez, é muito fresco no nariz, com algumas notas tropicais mas também cítricas e uma boca cheia de frescura e acidez equilibrada.

Há vários vinhos mono casta, a começar pelo Quinta da Lapa Touriga Nacional 2012, casta que se adaptou francamente bem ali, com muita intensidade aromática, floral e elegante. Na boca é persistente, intenso, com muito boa fruta, óptima acidez e final prolongado.

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Quinta da Lapa Bruto Natural – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Reserva branco 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Touriga Nacional 2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O Quinta da Lapa Merlot 2013 apresenta-se autoritário, fugoso, frutos pretos bem maduros e algumas notas de chocolate, com belo volume, taninos bem casados e acidez intensa, um conjunto muito equilibrado.

O Quinta da Lapa Syrah Reserva 2012 apresenta aromas de frutos pretos e algumas especiarias, complexo, intenso. Na boca tem grande volume, é poderoso mas ao mesmo tempo equilibrado, com taninos sedosos e um belo final.

Finalmente o Quinta da Lapa Cabernet Reserva 2012, com aromas complexos de frutos selvagens, plantas do monte, algumas notas vegetais e especiarias com muita elegância. Na boca aparecem frutos pretos muito maduros, uma óptima acidez, taninos bem domados, muito complexo e intenso.

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Quinta da Lapa Merlot 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Syrah Reserva 2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Cabernet Reserva 2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O Quinta da Lapa Reserva 2011, talvez o mais complexo de todos, tem aromas de fruta muito madura, especiarias, notas de fumo e chocolate. Na boca é bastante harmonioso, persistente, sedoso, com final longo, um vinho cheio de finesse. Vieram então os dois vinhos especiais desta casa ribatejana.

O Quinta da Lapa Nana Reserva 2011 é uma sentida homenagem da produtora à sua mãe. Apresenta-se com muita fruta, algumas notas de especiarias, muito fresco. Na boca é muito elegante, persistente, aveludado, com fragrâncias de frutos vermelhos e algum floral e final longo e seguro.

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Quinta da Lapa Reserva 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Nana Reserva 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Lapa Reserva 2013 Homenagem 500 anos Santa Teresa d’Ávila – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Finalmente o Quinta da Lapa Reserva 2013 Homenagem 500 anos Santa Teresa d’Ávila – um vinho de comemoração, cheio de fruta e especiarias no nariz, muito elegante, altivo. Intenso e equilibrado na boca, simples mas ao mesmo tempo autoritário, um vinho especial, de homenagem a Teresa de Ahumada, e cujo poema de fé se encontra eternizado numa lápide existente na Quinta da Lapa:

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Lápide – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

“Nada te perturbe, nada te espante,
tudo passa, Deus não muda.
A paciência tudo alcança.
Quem a Deus tem, nada lhe falta.
Só Deus basta.”

Do Ribatejo, com carinho…

Contactos
Agrovia, Sociedade Agro-Pecuária, SA
Quinta da Lapa
2065 – 360 Manique do Intendente
Tel: (+351) 263 486 214
Mobile: (+351) 917 584 256
Email: geral@quintadalapa-wines.com
Website: www.quintadalapa-wines.com

Ao sabor da história: Frasqueira Soares Franco

Texto João Pedro de Carvalho

Nas aventuras e desventuras de um enófilo há momentos que marcam de certa forma o nosso percurso, a origem é quase sempre um ou vários vinhos inesquecíveis. Não haverá nada mais empolgante que literalmente dar de caras com uma preciosidade e desbravar caminho até descobrir a sua história. Foi isso que aconteceu com dois exemplares raríssimos pertencentes à Frasqueira de António Porto Soares Franco, cujos vinhos fazem parte do espólio familiar da família Soares Franco localizado no quartel general da José Maria da Fonseca mais propriamente na Adega dos Teares Velhos. Recuamos ao tempo de António Porto Soares Franco, que era na altura sócio da Companhia de Aguardentes da Madeira, as ligações à ilha abriram muitas portas e oportunidades de negócio, é aqui que entra o nome Abudarham. Consultando o livro “Madeira: The islands and their wines by Richard Mayson”, ficamos a saber que José Abudarham tinha dupla nacionalidade, Inglês e Francês, e que chegou à Madeira na primeira metade do séc. XIX. Ali se estabeleceu no negócio do vinho, com acesso ao que de melhor se produzia na altura, mas também do empréstimo de dinheiro, que mais tarde iria dar origem à Companhia de Seguros Aliança Madeirense. O seu negócio do vinho era centrado em vinho engarrafado, vendido essencialmente para França e Alemanha, após a sua morte em 1869 a firma passou a chamar-se Viúva Abudarham & Filhos acabando por na passada do tempo ser vendida à Madeira Wine Association que é hoje a Madeira Wine Company. Sabendo a origem e o seu comerciante, restava apenas reparar nos detalhes que a pequena fita colada à garrafa tinha, a tinta permanente que já mal se vislumbrara no rótulo surgia ténue e a indicar 1795. Após alguma pesquisa e cruzamento de dados chega-se à conclusão que o vinho em causa é um Terrantez 1795 do qual há vários de garrafas que foram a leilão. A rolha saiu à força das lâminas, intacta e com a marca José Maria da Fonseca, sinal de que as rolhas são mudadas de x em x anos, o que foi confirmado pelo próprio produtor.

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Adega dos Teares Velhos – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

A segunda garrafa conta uma história diferente e que nos remete para o Vinho do Porto, também ostenta o nome Frasqueira Soares Franco cujo rótulo apenas mostra R.M 187X. Dada a idade das duas garrafas o tempo encarregou-se de comer grande parte dos rótulos e com eles a sua preciosa informação, no Madeira salvou-se a data numa fita de papel e neste Vinho do Porto ainda lhe resta algo de contra rótulo. Confirma-se posteriormente que as iniciais remetem para Ramiro Magalhães, um antigo comerciante de Vinho do Porto que morava no Bombarral. Ramiro Magalhães foi homem importante na sua terra, grande negociante de vinhos que para o seu tempo teria sido dos primeiros a ter automóvel e motorista. No contra rótulo consegue-se vislumbrar que o número que falta ficando o ano completo deste Vintage de 1878, o último ano pré filoxera. Neste caso não haverá muito mais a dizer, a informação restante apenas nos remete para o ano em causa que foi considerado ano clássico de Vintage.

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Um dos vinhos provados – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Frasqueira Soares Franco – Abudarham – Terrantez 1795: É impressionante a capacidade que este vinho tem em perfumar toda uma sala. Mal cai no copo ficamos hipnotizados pelas tonalidades que brilham no copo, um vinho com 221 anos a mostrar a razão pela qual mesmo depois de todos os vinhos servidos ao jantar, chega o Madeira e é o rei da festa. Neste caso o vinho é arrebatador e inesquecível, antes de tudo um ligeiro pico de volátil para depois ir conquistando com um tom morno e aconchegante de caramelo, baunilha, toffee, que nos preparam para o embate seguinte, uma enorme frescura. É essa mesma frescura que nos domina e deixa de mãos presas ao copo, um uau sai de imediato, é tipo aquelas montanhas russas que quando acaba queremos repetir. Aqui é igual, um vai e vem de sensações, aromas presos no tempo vão saltando do copo, fica a sensação de ligeira untuosidade carregado de frescura, no fundo algo que recorda o cheiro de cinzas de charuto. No palato é outra luta, uma conquista que nos prende com caramelo e açúcar queimado, arredonda ligeiramente num ponto que quase se trinca para depois disparar numa espiral louca de acidez com ligeiro amargo no final de boca. Inesquecível.

Blend-All-About-Wine- At the flavour of history Frasqueira Soares Franco-Vinho Madeira

Frasqueira Soares Franco – Abudarham – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine- At the flavour of history Frasqueira Soares Franco-Vinho do Porto

Frasqueira Soares Franco – Ramiro Magalhães – Vintage 1878 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Frasqueira Soares Franco – Ramiro Magalhães – Vintage 1878: Um Vintage com 138 anos de vida, sim disse vida porque apesar de a tonalidade lembrar um tawny velho é notável a frescura e a definição aromática. Muito preciso e delicado, enorme elegância com aromas a fazer lembrar tabaco doce, especiarias finas, casca de laranja cristalizada, fruta em passa com tâmaras, conjunto acolhedor e ligeiramente untuoso. No palato entra guloso, untuoso e com bom volume de boca, ligeiro vinagrinho, é quase como um berlinde doce e fresco que se vai desfazendo no palato até que apenas resta um fino e prolongado final de boca. Majestoso.

Lusovini – Produção e Distribuição

Texto Bruno Mendes

Fundada em 2009, a Lusovini, com sede na Vila de Nelas, no Dão, onde estão localizados os seus escritórios, armazéns e adegas, tem desenvolvido o seu negócio através de uma política de internacionalização. A empresa já expandiu os seus horizontes até Angola, Moçambique e Brasil com os nomes Lusovini Angola, Mozamvini e Brasvini, respectivamente.

Além de produção própria em várias regiões vitivinícolas de marcas como Cativo (Vinho Verde DOC), Palavrar (Douro DOC), Torre de Coimbra (Bairrada DOC), entre outras, a Lusovini aposta também numa rede de parcerias com produtores e enólogos como Anselmo Mendes (Vinho Verde), Domingos Alves de Sousa (Douro), Luís Duarte (Alentejo), Álvaro de Castro, João Paulo Gouveia (Dão), entre outros, permitindo-lhe assim abranger um maior leque de regiões e público alvo.

Para ficar a conhecer melhor esta empresa produtora/distribuidora veja o vídeo abaixo:

Snob do vinho

Texto João Barbosa

Quem é chato é chato! Quem quer ser chato consegue ser chato. Provavelmente, ser-se chato é das poucas coisas em que não é necessário ter-se um estudo adequado, educação familiar ou genes. O talento em se ser chato não implica ter talento.

Já ser-se snob é diferente! Se o chato é um especialista, o snob é um chato com doutoramento. Um snob pode levar horas a perorar acerca dos matizes dos fígados dos pescados, da evolução da estética das jantes dos Maserati ou da importância do verde na cultura islâmica. Para um snob, as Variações de Goldberg por Glenn Gould são corriqueiras.

Acima de tudo… ou abaixo de tudo… um snob é um arrogante. Nenhum cavalheiro amesquinha ou se vangloria. Por isso, é alguém sem nobreza – sine nobilitate, expressão latina donde surgiu o vocábulo inglês.

Isto porque no vinho há chatos e snobes… os chatos são divertidos nas tabernas e os snobes insuportáveis nos salões. Sem escândalo mudamos de lugar na taberna ou fugimos, já a etiqueta impede tais movimentos em ambientes mais formais.

Parece simples, mas vou complicar. Penso que ninguém tem o direito de impor os seus gostos e conceitos. Porém, as diferenças entre as pessoas podem ser grandes e a ruptura torna-se inevitável. Nem outros têm de achar que a touriga franca é a melhor do mundo, como não sou obrigado a gostar de antão vaz.

Há uns dias provei vinhos com pessoas de diferentes nacionalidades e percebemos que, além das banalidades que estabelecem os padrões de qualidade, nada fazia convergir narizes e bocas. O problema não estava no reconhecimento da qualidade ou da sua falta, mas da divergência nos atributos que distanciam um vinho bem feito doutro bom ou de um excelente.

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A provar Rosé in fm.cnbc.com

Um rosado deve ser doce? Um rosado deve ser doce e sem acidez? Um rosado deve ter sobretudo acidez? Podem parecer questões tolas, mas o assunto colocou-se. Nem sou dono da razão nem os oponentes são tolos ou desconhecedores. Eram pessoas habituadas a provar e justificavam as afirmações.´

Temos, os portugueses, a mania de elogiar os nossos vinhos, porque acompanham bem a comida, porque têm acidez. Isso é uma vantagem? Dizemos que sim… e se quisermos ficar só na conversa e sem um amanhã para os mandar para a cama, vamos insistir na obrigatoriedade da acidez? Porém, um xarope é feliz na amenização dum diálogo?

Temos, os portugueses, a mania de elogiar muito o carácter frutado dos nossos vinhos… mas… é uma vantagem? Sinceramente, frequentemente a fruta cansa-me e se é para saber a fruta, então que bebo sumo – dá-me vontade de gritar.

O meu citado debate não se ficou pelos rosés. Esse episódio tornou-se apenas na melhor ilustração do que o berço, latitude, longitude e cultura (sentido étnico) se podem traduzir. Mas posso acrescentar com informação vinda doutra conversa.

Quando valorizamos ou penalizamos um vinho pela cor estamos a ser justos ou correctos? Vou contornar tintos e brancos… um rosado é melhor ou pior se for cor-de-rosa, salmão ou alaranjado? É importante a cor ou não? Ou o vinho dá prazer através dos sentidos do olfacto e do paladar e apenas gostamos de acrescentar aspectos que não estão ligados?

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Cores do Rosé in characterspub.com

Até ouvi dizer, mais do que uma vez, que o vinho é fantástico, porque agrada a todos os sentidos. Olfacto? Certo! Paladar? Certo! Tacto? Sim, na boca mostra rugosidade e macieza… Visão? Tem cor, vê-se se tem bom aspecto. Audição?… Ouve-se o saltar da rolha.

Juro! Ouvi essa proeza mais do que uma vez. Tenho a declarar que nem caibo em mim de feliz e contente quando oiço o som duma rolha a sair da garrafa… sou eu com a rolha e o cão de Pavlov com a sineta! Francamente! E a cor? Sinceramente, só me interessa enquanto servir para indicar a saúde do vinho. Debater tons de cor é tão útil como saber de cor as referências Pantone.

Ah! A cor dos pinot noir… de quais? Da Borgonha ou do Tejo? O vinho é para o nariz e para a boca! Penso que debater a cor do vinho – excluo a avaliação visual que permite saber da sanidade – é como discutir tons de pele.

Não tenho conhecimento nem pachorra para debater as diferenças ou variações das castas conforme a sua localização. Nem para certezas acerca da imutabilidade das características dos vinhos de cada região. O chato sabe tudo, incluindo aquilo que não sabe. O snob sabe e pensa que sabe tudo ou, pelo menos, mais do que os outros.

No final só me basta um resultado: prazer. Ou tive ou não. Felizmente, as conversas citadas não foram com chatos nem snobes. O que poderia ter sido um pesadelo foi aprendizagem. A verdade não muda, mas porque os pontos de vista variam o conhecimento é diverso.

Continuo sem gostar de rosados doces sem acidez. Porém, agora sei que se comparado com um refrigerante açucarado esse vinho pode ser fantástico.

PS: Snob era eu antigamente, agora sou apenas chato!

Arundel, pelas terras de Pavia com Joaquim Arnaud

Texto João Pedro de Carvalho

Joaquim Arnaud, é um nome que existe desde 1883 e que tem vindo por tradição, a passar de geração em geração. É descendente de uma família Alentejana, de Pavia, ligada à Terra, e aí documentada desde 1515. A referida família, desde sempre se dedicou, ao montado, olival, vinha, cultivo de cereais e criação de gado (porcos, vacas, ovelhas e cavalar). As suas herdades situam-se nos concelhos de Mora e Arraiolos, distrito de Évora. Em 2010, como forma de potenciar estes recursos, Joaquim Arnaud, decide criar a sua marca personalizada, à qual atribui o seu próprio nome. O seu objectivo de negócio, assenta em apresentar ao mercado produtos seleccionados e de pequenas tiragens, em que se conjuga o artesanal com o sofisticado. É desta maneira que se apresenta o produtor Joaquim Arnaud, os vinhos que cria na sua adega falam por si, numa prova onde apenas me centrei nos exemplares oriundos do Alentejo, mais propriamente de Pavia.

Os seus vinhos exprimem uma vontade e um ideal, são ao seu gosto o que o levou a afastar-se do crivo da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana. Desta maneira não se sente apertado nem julgado, cria de forma livre os seus vinhos oriundos do terroir de Pavia. A sua gama de vinhos tem vindo a ser ampliada, nota-se que por ali não há pressa de lançar novidades nem novas colheitas, os vinhos apenas são dados a conhecer quando Joaquim Arnaud entende que é o momento. Por isso mesmo durante a prova oscilamos entre a força da juventude e os exemplares com os taninos já educados. Dos cinco vinhos apresentados decidi separar em três grupos:

Arundel Young 2013 e Arundel Petit 2012 são o exemplo da juventude e da força da fruta, ambos com aquela dose de austeridade a conferir muito boa energia ao conjunto. Ambos partilham o mesmo lote composto por Aragonez, Syrah, Trincadeira e Alicante Bouschet sendo que depois apenas varia o estágio em barrica, sendo de 6 meses para o Young e de 9 meses para o Petit. Vinho de perfil carnudo, denso, Alentejo bem presente com bouquet de qualidade a apresentar notas ameixa, amoras, especiarias, compota, boa frescura e pureza de aromas num conjunto que conquista e arrebata facilmente ao primeiro contacto. Vinhos que pedem comida por perto, carnes grelhadas são no momento o par ideal.

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Os Vinhos – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Mais recentes são as edições resultantes da parceria com a Trienal do Alentejo, a primeira edição é o Arundel 36 2009 que resulta de um vinho que ficou literalmente esquecido na adega, muito pouca quantidade da qual apenas resultaram cerca de 500 garrafas e cujo estágio total foi de 36 meses. Conjunto sério que mostra um misto de fruta doce com notas de mirtilo vermelho com morango e amoras, tudo fresco, perfume floral ligeiro com especiaria de fundo. Grande harmonia de conjunto, com uma boa passagem de boca, aqui num perfil mais aberto e menos concentrado mas a vincar todo o palato com sabores de fruta e especiarias. Termina amplo com ligeira secura na faceta gastronómica que é apanágio desta casa.

A segunda edição dá por nome de Arundel T&T 2012 de lote com base nas castas dos dois vinhos anteriores, apenas o estágio passa para 12 meses de barrica. O T&T para os mais curiosos são as iniciais da Trienal e da Terranagro (empresa produtora dos vinhos de Joaquim Arnaud). Mais um exemplar que conjuga finesse, frescura com a fruta neste caso menos presente dando lugar a um lado mais floral e especiado. A fruta vermelha e ácida, em tons de framboesas e mirtilos, surgem em segundo plano ao lado de um ligeiro terroso/grafite. Boca cheia de sabor, ligeira secura no fundo, muito cacau, folha de tabaco e fruta.

O culminar é o Arundel Great 2008, 400 garrafas com direito a um estágio de 12 meses em barricas mais 24 meses em garrafas num lote 100% Alicante Bouschet. Um tinto arrebatador ao primeiro contacto tal a finesse e lascividade com que se mostra. Pura classe, muita harmonia num vinho adulto e pronto a dar prazer, muito perfumado com a fruta sumarenta e fresca, inserida num bouquet de enorme qualidade onde tudo se mostra bem definido, nada beliscado pelo tempo apenas a mostrar que tem sabido evoluir para o melhor dos lados. Tal como todos os vinhos do produtor mostra um carácter bem Alentejano, a pedir mesa por perto, brilhando muito alto com umas perdizes albardadas.

Quinta de la Rosa – no coração do Alto Douro

Texto Bruno Mendes

Perto do Pinhão, a cerca de 100kms do Porto, nas margens do rio Douro podemos encontrar a Quinta de la Rosa, propriedade da família Bergqvist desde 1906. Actualmente conta com 55 hectares de vinhas com as castas tintas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Cão e Souzão e as brancas Viosinho, Rabigato e Códega.

Em 2011 a Quinta de la Rosa sofreu uma remodelação completa, que estava a ser preparada há 7 anos, e que terminou em 2012. Esta remodelação inclui uma nova adega, instalações de armazenamento com temperatura controlada, melhoria nas instalações de descarga e escolha das uvas, entre outras.

Para uma visão mais detalhada sobre este produtor veja o vídeo abaixo e consulte o artigo previamente publicado here.

Vinho Português – Moda ou Justiça?

Texto João Barbosa

Não parece haver dia em que não surja uma notícia positiva para a gastronomia portuguesa, seja referente a comida ou a vinho – sobretudo à bebida. Perante tal, como me devo sentir como português? Não sei e a razão é porque desconheço se tal acontece por moda ou justiça.

Quem lê dirá:

– Como não sabe? Tem obrigação de saber. Se escreve sobre vinho, tem de saber, obrigatoriamente.

É verdade! Mas há sempre um erro de paralaxe, resultado dos afectos e da memória. A subjectividade que dita que a comida da mãe seja a melhor do mundo ou que a selecção portuguesa mereça, logo desde o primeiro jogo, ganhar o campeonato de futebol.

Não sou um fanático, mas tenho em Portugal as raízes. É claro que penso que o destaque que o país está a ter na gastronomia tem mais de justiça do que de moda. Há certamente erro de avaliação, embora espero que reduzido.

Estar na moda é bom! Ajuda ao ânimo, puxa auto-estima para cima, dá notoriedade. Contudo, é passageira. Se alguma coisa está sempre na moda é porque não se trata de moda, mas de qualidade em abundância.

A moda é conjuntural e a qualidade estrutural. Por isso, quem está bafejado pelo reconhecimento só tem de insistir na procura da qualidade e na diferenciação. Desse modo irá ganhar valor.

É por isso que não gosto da sentença de que algo tem uma boa relação entre o preço e a qualidade. Não vejo que tal seja elogioso, embora a generalidade das pessoas considere que significa boa oportunidade ou justiça.

Pagar um hectolitro com dez cêntimos é uma boa relação entre a qualidade e o preço? É! É porque, independentemente da qualidade, quem conseguir aproveitar vai ganhar dinheiro. Mas isso não significa que o vinho tenha qualidade… claro que não, mas o postulado não é esse, mas o de um suposto equilíbrio entre uma coisa e outra.

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Wine in tasteportugal-london.com

Quero que o vinho português ganhe a reputação do francês ou do italiano – só para citar dois casos. Produzir bem está ao alcance de quem se empenhe e barato de quem consegue trabalhadores aflitos.

Obviamente que caro não significa qualidade. Acresce que ninguém gosta de se sentir estúpido, pelo que pagar 50 euros por 0,75 litro de zurrapa será episódio único. A justiça está no ponto em que um produto é vendido a preço idêntico ao de outro com qualidade comparável.

Ter uma «boa relação entre a qualidade e o preço» pode ajudar no início e aliviar a pressão sobre a tesouraria. A médio prazo torna-se injusta. Se ainda não convenci o leitor, penso ter o argumento derradeiro:

Portugal factura mais com hortofrutícolas do que com vinho. Isto significa que o valor-acrescentado não é pago com justiça. Generalizando e partindo do princípio que o custo da terra é comparável e que os factores de produção estão equiparáveis, mais vale fazer couves do que vinho. Não há encargos com enologia nem com armazenamento mais longo e empate de capital é muito menor.

Voltando ao início, o vinho português tem sido reconhecido e de modo variado. De todas as notícias, valorizo aquelas que não versam o factor preço. Reporto-me às avaliações da crítica, com pontuação qualitativa apenas, ou a vitórias em concursos de prestígio.

Dir-se-á que os grandes vinhos, aqueles que custam quase o mesmo que um pequeno automóvel citadino, não vão a concurso, pelo que as vitórias são relativas. Claro, quem tem a perder não vai a jogo. Compete a quem chega mostrar merecimento. Os jovens cavaleiros desafiam os grandes senhores.

Diz-se que «quem canta, seus males espanta», mas a música tem sido madrasta para os portugueses. Em 48 edições do Eurofestival da Canção, em que Portugal falhou apenas quatro edições, nunca músicos portugueses conseguiram ir além do sexto lugar – Lúcia Moniz, em 1996, com «O meu coração não tem cor».

A culpa foi da ditadura, mas a jovem democracia não foi premiada. Porque Portugal compra poucos programas de televisão, mas outros pequenos países compram o mesmo e venceram. Porque a língua portuguesa é difícil, mas o Brasil é uma superpotência musical… quase qualquer coisa serve para justificar os desaires.

Enquanto a música portuguesa não ganha o Eurofestival da Canção e a literatura lusófona não alcança o mais do que justo segundo Prémio Nobel, o vinho vai dando alento, consolando mágoas.

Que venha o reconhecimento duradoiro. E estou quase certo que, quando os vitivinicultores portugueses conseguirem solidificar a reputação, a gastronomia de comer (já vão surgindo sinais) vai tornar-se «obrigatória», o que levará os críticos do livro vermelho – não o do Maoísmo, mas o dos pneus – a afixar estrelas em casas que as merecem há muitos anos.

Grupo Enoport United Wines

Texto Bruno Mendes

A história da Enoport começa em 1881, através da fundação da empresa Adegas Camillo Alves, a mais antiga do grupo de empresas que veio a dar origem ao Grupo Enoport United Wines. Surgiu da vontade de João Camillo Alves comercializar vinhos de qualidade de uma forma organizada.

É um grupo que produz vinhos nas várias regiões do país, e de diferentes gamas, uma vez que adquiriu várias outras empresas ao longo dos anos, como por exemplo, a Cavipor, a Caves Velhas ou a Caves Acácio.

Para ficar a conhecer mais detalhadamente a história do Grupo Enoport United Wines veja o vídeo abaixo.

Escondido 2012 – um cavalheiro lisboeta

Texto João Barbosa

Há pessoas que precisam de várias vidas. Uma delas é Aníbal Coutinho, que não se satisfaz com uma só tarefa. Canta no Coro Gulbenkian, é vitivinicultor, enólogo, consultor na área dos vinhos do Continente, crítico e autor de roteiros enogastronómicos, além de ter trabalhado como escanção, no restaurante Jacinto, em Lisboa. Todas estas actividades permitem-lhe uma visão ampla sobre o vinho.

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Aníbal Coutinho – Foto Cedida por Aníbal Coutinho | Todos os Direitos Reservados

Agora importa o seu vinho mais pessoal. Mais pessoal, porque as videiras que dão a fruta estão na propriedade familiar onde passa as férias. O primeiro Escondido a ser revelado foi o da colheita de 2006. Este é o quarto a mostrar-se ao mundo.

A razão de em dez anos só terem sido mostradas quatro edições prende-se com o facto deste vinho ser um projecto que, não sendo uma brincadeira, vive em torno da família e do tempo possível para os trabalhos agrícolas.

Não é uma brincadeira! Aníbal Coutinho leva-o muito a sério, em investimento pessoal, profissional e obviamente financeiro. Por outro lado, trata-se de um vinho de grande qualidade. Se a agricultura, a meteorologia e o dia-a-dia laboral não cooperarem, o Escondido fica em casa.

Além da família, há dois outros contribuidores importantes: Vera Moreira e António Ventura, enólogos do Grupo Parras. Aqui tenho de pôr um sinal! António Ventura é dos enólogos portugueses por quem tenho maior respeito. É um Senhor que lida com muitos milhões de litros. A enologia de ourives impressiona sempre, mas o trabalho de grande volume exige um rigor e concentração que nem todos saberão fazer.

A vinha, com 15 anos, situa-se no campo da bola usado nas brincadeiras familiares… um campo de futebol que não tem as dimensões máximas, que rondam um hectare. Tem as mínimas, 0,4 hectares. Mas Aníbal Coutinho garante que nem chega para futebol de salão.

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As vinhas – Foto Cedida por Aníbal Coutinho | Todos os Direitos Reservados

Não cabem 22 jogadores e quatro árbitros, mas encaixam-se as castas cabernet sauvignon, merlot, syrah e touriga nacional. A escolha das castas relaciona-se com as características atlânticas do clima da propriedade. Aníbal Coutinho inspirou-se em Bordéus e na sua viticultura, conta. A penúltima casta citada, oriunda das Côtes du Rhône, está plantada no interior da vinha, de modo a conseguir abrigo.

O terreno, com solo argilo-calcário, situa-se em Olelas, entre Sabugo e Almargem do Bispo, no Concelho de Sintra, na região de Lisboa. Em linha recta, o mar fica entre dez e 15 quilómetros, diz Aníbal Coutinho. Esta proximidade oceânica tem causado dissabores… uma desatenção e fica sem uvas. Acresce que não são feitos tratamentos, o que a torna ainda mais vulnerável. Eis a razão de em dez anos só terem vindo a público quatro colheitas.

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As vinhas – Foto Cedida por Aníbal Coutinho | Todos os Direitos Reservados

O Escondido 2012 estagiou 24 meses em madeira, divididos numa barrica usada de carvalho francês, uma barrica usada de carvalho americano, durante 15 meses, e uma barrica nova de carvalho americano, nos nove meses restantes do segundo ano.

Por razões históricas e, certamente também, por influência religiosa, os portugueses têm medo da palavra luxo. Mas as coisas são o que são. O Escondido é um vinho de luxo! Recebe todos os cuidados para que o seja, tem grande qualidade obrigatória e a quantidade é diminuta. Se o ano agrícola se perdeu ou se a qualidade não atinge o patamar que o produtor deseja, o vinho fica para ser bebido apenas pela família e amigos. O Escondido 2012 teve uma produção de 500 garrafas de 0,75 litros e 100 garrafas magnum.

A frescura do local sente-se no copo. É um vinho que quer que nos sentemos com ele à mesa, à volta de um prato substancial. É para ser bebido muito lentamente. O Escondido 2012 foi-me apresentando, no restaurante Jacinto, acompanhado por um cozido à portuguesa. Uma combinação muito feliz, pois trata-se duma refeição vasta em diversidade de carnes e de vegetais, que se não deixa comer em cinco minutos.

Um aspecto de notar é que, embora se bata na perfeição com um prato pesado, o Escondido 2012 não é um vinho de Inverno. Não o beberia com uma salada, mas não obriga a que tenha de ser servido quando a comida gorda reina nas mesas. É um vinho fresco e complexo, com grande elegância e com um final longo. Evolui muito bem com o passar do tempo em que decorre a refeição.

Tem tempo para viver, tem tudo o que é necessário para uma longa vida em garrafa. Não arrisco prazos, mas quanto a longevidade, Aníbal Coutinho pensa que poderá crescer até aos 20 anos.

Blackett – Portos datados ou o caminho da tentação

Texto João Pedro de Carvalho

Sofro a bem sofrer uma valente paixoneta por Vinho do Porto e mais especificamente por Tawny datados. A escada ou caminho da tentação e também da perdição que representam os 10, 20, 30 ou mais de 40 anos é para mim um paraíso sem fim. Admito que a minha carteira não me permite gozar dos celestiais prazeres e de toda a exclusividade com que um +40 anos nos presenteia. Mas também digo que fico bastante satisfeito com os prazeres mais terrenos e acessíveis que os 10 e 20 Anos apresentam. Ora neste campo cabe trazer à conversa os mais novos exemplares do recente produtor já aqui abordado, Blackett. Na verdade, torna-se complicado ter de descer a escada, pois uma vez aqui em cima tudo parece mais bonito e airoso, são outros os luxos de um Porto 30 Anos e quem é que gosta de abdicar deles?

A apresentação do produtor foi a modos que feita no anterior artigo quando me foquei no Blackett 30 Anos. Desta vez troquei as voltas ao jogo, se é que o era, e comecei a prova pelo Blackett 10 Anos num estilo onde se esperava ser a fruta a surgir em grande quantidade como noutras casas, mas aqui não, a fruta surge mas nota-se que a evolução e mesmo todo o blend que por ali foi construído tem um bouquet ligeiramente mais evoluído e isso é bom, muito bom. Temos portanto um 10 Anos que aparenta ser um bocadinho mais velho, bem guloso e fresco, com uma grande envolvente e definição dos aromas. A fruta sim está presente nos seus retoques mais macerados, fruta passa, uma boa untuosidade que combina com os frutos secos e o toque amanteigado. No palato mostra-se muito fresco, complexo, belo equilíbrio entre a fruta/untuosidade/frescura/doçura num longo final. É a chave de ouro para terminar em beleza uma refeição de amigos, família ou mesmo aquele final de serão com a calma já instalada.

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Port Blackett 10 years – Foto Cedida por Alchemy Wines | Todos os Direitos Reservados

Terminando em beleza com o 20 Anos, onde me atrevo a dizer o que mais gostei da trilogia dos Porto Blackett, mais ainda que do 30 Anos. Balanço perfeito entre a energia da juventude e a sabedoria que só a idade sabe trazer, com tudo isto o resultado só pode ser muito bom. Maior presença dos frutos secos com toque de caramelo, amplo e untuoso, bem fresco, tudo a mostrar capacidade de nos cativar mais e mais. Conquistador no palato pela harmonia que mostra, ligeiramente mais seco embora com uma presença mais duradoura. É um Porto 20 Anos de grande nível que entra para o lote dos meus favoritos. É daqueles vinhos criados para acompanhar aqueles momentos só nossos, no sofá a ouvir o nosso cd favorito ou a ler o livro que nos agarra e que só o conseguimos largar quando termina, até à série que acompanhamos religiosamente ao final da noite.

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