Coração d’Ouro, da televisão para a mesa Morgadio da Calçada – Tradição e história únicas

Era o vinho, meu Deus era o vinho

Texto João Barbosa

O vinho vive em mim, não só por o gostar de o beber, mas por tudo o que lhe está associado. Há mais textos de economia acerca do sector do que (provavelmente) trabalhos históricos, antropológicos ou sociológicos.

Há 30 anos havia tabernas em Lisboa… tabernas mesmo tabernas, não sítios bonitos de cenário e comida de pobre para ricos. Muitos petiscos a – agora chamam-lhes tapas, em espanhol é mais giro, provincianismo – serviam para chamar a bebida e alguns eram oferecidos.

Hoje é raffiné (estrangeirismo forçado, provocação por causa do que escrevi acima) servir cascas de batata fritas e cobrar como se fossem batatas de prata. Eram oferecidas e com sal. Outra coisa engraçada – esta é patética, mas ajuda a explica por que o bacalhau era alimento acessível aos pobres – eram as lascas. Sim, nada mais do que o «fiel amigo» seco e com o sal da conserva. Era barato e salgado, entretinha a boca e chamava mais uns copos.

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Uma taverna em Lisboa in Lisbon in Arquivo Municipal de Lisboa

Muitas tabernas eram igualmente carvoarias, onde se misturavam os odores do vinho (mau), da fuligem e da serradura… sim, os alcoólicos das tabernas bebiam até ao «limite», as limalhas de madeiras serviam para facilitar a limpeza… absorventes.

As tabernas, hoje chiquérrimas, eram feias, nojentas, malcheirosas e mal frequentadas. O vinho chegava em barris de madeira, de vários tamanhos, com sarro. Para os nostálgicos e românticos digo:

– Não! Antigamente, os tempos não eram melhores!

O texto ocorreu-me porque fui matar saudades duma canção, de um genial humorista português. Em 1977, o actor Hérman José também se dedicava à música e lançou o disco (45 rotações) «Saca o saca-rolhas». Além da graça, a canção é uma janela para Portugal de há 30 anos.

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O disco “Saca o saca-rolhas” de Herman José

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Ramo de loureiro in wikimedia.org

«Saca o saca-rolhas, abre o garrafão, viver sem vinho não presta». Esta afirmação está (sendo generoso) no limite do politicamente correcto. Os jovens dificilmente a saberão e os não portugueses certamente desconhecem.

Nos versos, além da indicação de consumo de um garrafão (cinco litros), conta-se dos motoqueiros a acelerar, depois de beber álcool, a arriscarem-se a congestão, por mergulharem no mar depois da farra, e (deduz-se) levar um passageiro a mais na moto. As estradas portuguesas eram uma guerra civil, no que respeita a mortes.

É claro que ainda persiste alguma dessa realidade. Porém, não tem a condescendência de outrora e é motivo de crítica unânime. Nesse tempo, o vinho era a base da bebedeira dos portugueses, mais do que cerveja… e os destilados estavam longe das algibeiras.

Este ponto merece um enquadramento histórico. Portugal, em 1974, passou duma economia fechada e controlada e aos poucos foi-se abrindo. Em 1975, as colónias tornaram-se independentes, com implicações financeiras. Na equação têm de se colocar as crises do petróleo, convulsões económicas derivadas de opções políticas, etc.

Se até 1974 o whisky escocês, por exemplo, estava «escondido» e o gin espanhol era tenebroso, as bancarrotas de 1977 e 1983, com intervenções do Fundo Monetário Internacional, tornaram bem visível a fronteira das bebidas alcoólicas.

O dinheiro fresco que brotava das fontes comunitárias, a partir de 1986, ajudou a mudar o paradigma. Alteraram-se os vários padrões de consumo, mas os portugueses continuam a exigir que o vinho seja barato. Nem pensam em quanto o produtor investe, o risco e a quanto vende.

No tempo do saca-rolhas do Hérman, o consumo era muito elevado e o preço muito baixo – algo também possível graças à produção de vinho-a-martelo, uma mistela que «até» podia conter vinho, mas era um composto de inúmeros de produtos que o adulteravam e embarateciam: falsificação de bens alimentares.

Os portugueses aceitam pagar um euro por uma garrafa de água ou 60 cêntimos por uma bica, mas um vinho acima dos cinco euros é um objecto de joalharia. Fiz as contas e o vinho ao valor do café custa 15 euros (0,75 litros).

Mas não posso terminar este olhar para o retrovisor sem um verso popular, com o sarcasmo da falsa ingenuidade: «À porta do Santo António [igreja] está um ramo de loureiro, é uma pouca-vergonha fazer do santo tasqueiro».

As tabernas tinham à porta, à disposição dos clientes, ramos de loureiro. Ao que parece, mascar estas folhas faz desaparecer o hálito a vinho. Bem se vê que os foliões iam aos tombos para casa, mas provavam a inocência, junto das justas recriminações das mulheres, por o hálito não ser a copo.

Uma convenção: eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei.

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