Blend All About Wine

Wine Magazine
Trinca Bolotas – Nado e criado no Alentejo!

Texto Olga Cardoso

Provei este vinho pela primeira vez num almoço organizado pela Sogrape, no restaurante Largo, em pleno Chiado Lisboeta.

Pela mão do Chef Miguel Castro e Silva, fomos experimentando diferentes pratos bem harmonizados com vinhos da Herdade do Peso (Peso Estate).

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© Blend – All About Wine, Lda.

O mote deste encontro era precisamente a apresentação deste novo vinho alentejano e a mesa não poderia estar melhor decorada. Estava repleta de sobreiros em forma de bonsai, os quais no final do almoço foram simpaticamente oferecidos aos convivas.

À semelhança da mesa, o nome e a imagem do vinho também não poderiam ter sido melhor conseguidos.

A cor laranja remete-nos para a luz e o calor das planícies alentejanas e o nome Trinca Bolotas homenageia o tradicional “porco boloteiro”, o único sobrevivente dos suínos de pastoreio da Europa.

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Cachaço de Porco – © Blend – All About Wine, Lda.

Como não poderia deixar de ser, o prato escolhido pelo Chef Miguel Castro e Silva para harmonizar com o Trinca Bolotas foi um tenro e delicioso Cachaço de Porco. Excelente ligação!

Segundo Luis Cabral de Almeida, o enólogo que assume agora os destinos da Herdade do Peso, depois de 10 anos passados na Finca Flichman, também propriedade da Sogrape e situada em Mendonza, Argentina, dada a sua excepcional relação qualidade/preço (€ 5,99), este vinho é um sério candidato ao lugar de embaixador da viticultura da região.

Trata-se de facto de um vinho elaborado por uvas produzidas em conformidade com as directrizes de produção integrada de agricultura sustentável, ao qual facilmente poderemos vaticinar um grande sucesso comercial.

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Trinca Bolotas – Photo provided by Sogrape Vinhos, SA | All Rights Reserved

TRINCA BOLOTAS TINTO 2013 – DOC ALENTEJO
Na verdade este vinho não poderia ser mais alentejano! Faz inteiramente jus à região. No nome, na imagem, mas também nas suas características intrínsecas. Elaborado a partir das castas Alicante Bouschet (44%), Touriga Nacional (40%) e Aragonêz (16%), estagiou durante 6 meses em barricas novas de carvalho francês e caucasiano.

O charme do Alicante Bouschet made in Alentejo, faz-se bem sentir. Na cor, no volume e nos aromas a fruta preta de grande qualidade. A Touriga Nacional confere-lhe todo o seu lado floral e o Aragonês fecha o leque com aromas de fruta vermelha madura.

Na boca mostra-se bem fresco (sim a Vidigueira, por muito que achem que não, é um paraíso de frescura) e revela também boa estrutura, acidez correcta e taninos, que embora presentes, são macios e perfeitamente adequados à harmonização deste vinho com diferentes iguarias, nomeadamente, os tradicionais e deliciosos pratos de carne alentejanos.

Um vinho que faltava no portefólio alentejano da Sogrape Vinhos!


Trinca Bolotas. Da sua mesa vê-se o Alentejo | 2014 – (c) Sogrape Vinhos, SA

E porque o melhor se deixa sempre para o fim (pelo menos eu gosto de o fazer) aqui fica um pequeno vídeo, que nos mostra a vida deste Trinca Bolotas (e do porco propriamente dito!) no seu habitat natural – as planícies alentejanas ou mais propriamente … a Herdade do Peso.

Contactos
Herdade Do Peso E Anexas – Sociedade Agrícola, Lda.
Rua da Misericórdia 46
Site: www.herdadedopeso.pt

«Vinhos de Quinta»

Texto Patrícia Pais Leite

Os vinhos que têm na garrafa as menções “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”, chamados vulgarmente «Vinhos de Quinta», estão sujeitos a um regime legal próprio, que teve a ultima alteração em Agosto de 2012.

Legenda
DO: Denominação de Origem
IG: Indicação Geográfica

Conceito

A expressão corrente «Vinhos de Quinta» refere-se a vinhos que contêm na garrafa menções que indicam uma exploração vitícola e que, por isso, cumprem determinados requisitos legais.

A utilização do nome de uma exploração cria uma imagem de prestígio junto do consumidor e gera valor acrescentado decorrente da noção de genuinidade em relação à terra onde esse vinho é produzido e ao produtor.
Por esse facto, foi criado um regime legal próprio que sujeita estes vinhos a medidas de controlo e fiscalização, de forma a evitar a utilização abusiva das menções e a proteger o consumidor contra o risco de erro ou confusão.

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Quinta vitivinícola © Blend All About Wine, Lda.

As menções que indicam uma exploração vitícola estão determinadas na lei comunitária, sendo para Portugal as seguintes: “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”.
Estas menções apenas podem ser utilizadas em vinhos com DO ou com IG e também para vinhos espumantes de qualidade.
[Para saber mais sobre os vinhos com DO e com IG, pode consultar o nosso artigo anterior]

Além disso, os vinhos devem ser elaborados exclusivamente a partir de uvas colhidas na exploração vitícola referida e o detentor dessa exploração deve assumir inequivocamente a direcção efectiva e a responsabilidade exclusiva pela vinificação, pelo vinho produzido e pelo respectivo engarrafamento.

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Transporte de uva © Blend All About Wine, Lda.

Enquadramento

Até agosto de 2012 era a Portaria n.º 1084/2003 que definia regras específicas para a utilização das menções “Quinta” e “Herdade”, consideradas pela lei como as de utilização mais frequente para indicar uma exploração vitícola. O regime era semelhante ao actualmente em vigor (abaixo exposto), excepto no que toca à necessidade do nome da exploração vitícola em causa ser registado como marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, requisito este que foi suprimido no novo regime.

As restantes menções previstas para designar uma exploração vitícola – “Casa”, “Paço”, “Palácio” e “Solar” – estavam sujeitas a regras de utilização mais rigorosas no que se refere ao local da vinificação, por se considerarem menções normalmente associadas aos valores patrimoniais em presença. Tanto na lei comunitária anterior e na Portaria n.º 924/2004, estas quatro menções podiam ser utilizadas desde que vinho proviesse exclusivamente de uvas colhidas nas vinhas da exploração vitícola e a vinificação tivesse sido aí efectuada. Na altura, este regime era mais restritivo quanto ao local da vinificação do que o regime das menções “Quinta” e “Herdade”.

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Vinhas © Blend All About Wine, Lda.

Com a actual lei comunitária em vigor desde 1 de agosto de 2009, foi conveniente estabelecer a nível nacional num único diploma, a Portaria n.º 239/2012, as menções utilizadas para designar na rotulagem o nome da exploração vitícola e de modo a reforçar o prestígio do vinho junto do consumidor.

Regime nacional

Quem pode utilizar as menções “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”, ou seja, quem pode produzir «Vinhos de Quinta»?
Qualquer pessoa singular ou colectiva desde que seja proprietária ou tenha uma relação contratual em que lhe assegure o gozo, o uso ou a fruição das vinhas da exploração (por exemplo, arrendamento, cessão de exploração, comodato, etc). Trata-se do agente económico detentor da exploração vitícola, que deve inscrever-se na respectiva entidade certificadora numa categoria correspondente à actividade de produção de vinho e engarrafamento (Vitivinicultor-Engarrafador ou Produtor e Engarrafador).
[Para saber mais sobre as categorias Vitivinicultor-Engarrafador ou Produtor e Engarrafador, pode consultar o nosso artigo anterior]

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Uva na videira © Blend All About Wine, Lda.

A lei exige que o nome da exploração vitícola conste na descrição do registo predial ou na matriz da propriedade rústica. As vinhas em questão e as instalações de vinificação também devem estar inscritas na respectiva entidade certificadora e as uvas e o vinho devem ser participados na declaração de colheita e produção do agente económico detentor da exploração vitícola.

Além disso, os «Vinhos de Quinta» estão sujeitos a conta-corrente específica, em registos do agente económico detentor da exploração vitícola e na respectiva entidade certificadora. Por fim, os agentes económicos que, a 31 de julho de cada ano, detenham «Vinhos de Quinta» devem incluí-los na sua declaração de existências.

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Centro de vinificação © Blend All About Wine, Lda.

Quanto à vinificação e ao engarrafamento, estas operações podem ser efetuadas em instalações de terceiros, desde que o detentor da exploração vitícola assuma inequivocamente a direcção efectiva e a responsabilidade exclusiva pela vinificação, pelo vinho produzido e pelo respectivo engarrafamento.

O agente económico detentor da exploração vitícola que vinifique os seus «Vinhos de Quinta» em instalações de terceiros deve ainda comunicar à entidade certificadora competente, pelo menos com 48 horas de antecedência, a data e o local previsto para o engarrafamento. Na rotulagem este agente económico deve identificar-se através da expressão «engarrafado para …» ou, se identificar também o prestador de serviços de engarrafamento, através da expressão «engarrafado para … por …».

Júlio B. Bastos Garrafeira Alicante Bouschet 2007

Texto João Pedro de Carvalho

Ainda por terras de Estremoz, saindo da Quinta do Mouro viro à esquerda e rumo em direção a Monforte, um pouco antes da zona dos Supermercados na saída de Estremoz viro à esquerda na placa que indica Agroturismo. Um pouco mais à minha frente fica a Quinta Dona Maria, que segundo conta a história foi adquirida em tempos por D.João V para oferecer a uma cortesã, D.Maria, por quem estava perdidamente apaixonado. Esta Quinta é também conhecida como Quinta do Carmo, pois numa época posterior à edificação da casa, construiu-se uma capela datada de 1752, que foi dedicada e consagrada a Nossa Senhora do Carmo.

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Quinta Dona Maria – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O vinho foi sempre parte integrante da Quinta, juntamente com os seus imponentes lagares de mármore, mas seria apenas nos anos 80 com enologia de João Portugal Ramos que Júlio Bastos, o atual proprietário, iria começar a comercializar os seus vinhos, com destaque para os fantásticos Garrafeira Quinta do Carmo 1985, 1986 e 1987, onde despontava a casta Alicante Bouschet. A ligação desta casta à Quinta Dona Maria surge com um dos seus antigos proprietários, John Reynolds (Herdade do Mouchão) casado com Isabel d´Andrade Bastos.

Os anos passaram e após a venda da marca Quinta do Carmo ao grupo Bacalhoa, Júlio Bastos decidiu relançar em 2003 os vinhos com o nome Quinta Dona Maria. Recuperou o vinhedo mais antigo de Alicante Bouschet e na colheita de 2004, com enologia de Sandra Gonçalves, decidiu homenagear o seu pai, Júlio Bandeira Bastos com o lançamento do primeiro Garrafeira Dona Maria.

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Júlio B. Bastos Garrafeira Alicante Bouschet 2007 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Júlio B. Bastos Garrafeira Alicante Bouschet 2007 é o resultado da escolha das melhores uvas das vinhas velhas (50 anos) de Alicante Bouschet, pisadas em lagares de mármore e posteriormente estagiado em barricas novas de carvalho francês durante 14 meses.

Um portento de vida e classe, liquorice, tinta da china, denso e profundo com enorme frescura e definição, envolvente com uma complexidade invejável num vinho que apesar dos seus 7 anos ainda está muito novo. A fruta silvestre muito madura, limpa, envolta numa capa de notas balsâmicas, onde a barrica integrada aconchega um conjunto de luxo de traço Alentejano. Boca a condizer, sente-se um conjunto firme, intenso e ao mesmo tempo harmonioso, profundo e conquistador num final muito longo. Um hino à região e ao passado glorioso desta casa.

Contactos
Quinta do Carmo 7100-055 Estremoz
Tel: (+351) 268 339 150
Fax: (+351) 268 339 155
Email: donamaria@donamaria.pt
Site: donamaria.pt

Quinta do Mouro Vinha do Malhó 2009

Texto João Pedro de Carvalho

Se há locais destinados à produção de vinho de alto gabarito, a zona de Estremoz (Alentejo) é um desses sítios a ver pela quantidade de projectos e respectiva qualidade dos vinhos ali produzidos. A Quinta do Mouro localizada em Estremoz é sem dúvida alguma um dos melhores exemplos do que de melhor se faz no Alentejo e em Portugal. Ali quem manda é o carismático produtor Miguel Louro, podendo mesmo afirmar que os grandes vinhos que ali são produzidos são frutos da sua teimosia e genialidade. O primeiro Quinta do Mouro saiu para o mercado em 1994, em 1999 foi lançado o ensaio daquele que é o mais cobiçado vinho do produtor, o Quinta do Mouro Rótulo Dourado.

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Quinta do Mouro Vinha do Malhó 2009 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

A última coqueluche a sair da adega dá pelo nome de Vinha do Malhó 2009, o primeiro vinho do produtor produzido apenas de uma vinha (2ha) plantada em 2001, a do Malhó, composta por duas parcelas na encosta em frente à casa da Quinta do Mouro. Localizada em solo de xisto, muito pobre, o rendimento é baixo e durante todos estes anos tem contribuído apenas para enriquecer o lote do Quinta do Mouro.

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Adega Quinta do Mouro – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Estamos perante mais um vinho fruto da saudável teimosia que caracteriza Miguel Louro, uma vez que contrariando toda a equipa de enologia ele considerou que um dos lotes disponíveis se diferenciava com mais amargos, mais acidez, mais taninos, mais de tudo… as tais características únicas e com identidade suficiente para espelhar aquilo que Miguel Louro entende ser o espelho da Vinha do Malhó numa produção de 3.000 garrafas que só voltará a ser lançado com a colheita de 2012. Como já foi dito destaca-se pela frescura, pela solidez e profundidade que mostra mesmo sendo ainda um jovem com toda uma vida pela frente. Esse vigor sente-se no palato, dominado por taninos e fruta muito viva, segundo plano terroso e especiado num final muito longo e persistente. Elegante e provocador, uma verdadeira tentação.

Contactos
Quinta do Mouro
7100 – 056 Estremoz
Tel.: (+351) 268 334 097
Fax: (+351) 268 337 585
E-mail: geral@quintadomouro.com
Site: www.quintadomouro.com

Tons de Outono

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Se há uma coisa que sei, uma coisa da qual tenho a certeza absoluta, é que o Inverno na Finlândia é inevitável. Enquanto estação, não é das minhas preferidas. Não por causa da neve, que por vezes pode chegar até à cintura. Nem mesmo do frio, que pode atingir os 40ºC negativos em algumas partes da Finlândia. É a escuridão que me afecta verdadeiramente.

Mas do Outono, gosto. De certa forma, até gosto mais do que do Verão. A natureza na Finlândia é para além de linda quando as cores do Outono começam a aparecer. Há algo de verdadeiramente mágico nesta estação. Dias solarengos e frescos, folhas no chão, longos passeios na floresta… aah, que bom!

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A preparar a sauna – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Os sons crepitantes de uma sauna aquecida a lenha, são possivelmente os sons mais relaxantes deste planeta e é algo que associo às noites escuras de Outono. Há também algo no Outono que faz com que eu sinta uma sede fora do normal de bom vinho. Não que precise de muitas razões para beber vinho, mas a atmosfera lareira-aconchegante-hey-vamo-nos-enroscar do Outono, faz com que realmente se queira beber vinho como se não houvesse amanhã.

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Terras do Demo (A Garrafa e o Cais) – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Uma escapadela rápida para o campo depois de uma viagem de trabalho intensiva, é o que veio mesmo a calhar. Fui buscar um amigo meu ao aeroporto de Helsínquia numa noite, já tarde, e, enquanto conduzíamos pelo denso nevoeiro, a garrafa que eu tinha deixado no chão do carro, começou a chamar a atenção dos viajantes sedentos. O meu amigo estendeu a mão para a garrafa, que se revelou ser um vinho espumante rosé da região Távora-Varosa. Esta peculiar região de vinho montanhosa, partilha fronteira com o Douro a norte e o Dão a sul. É bastante remota e a maioria das vinhas crescem entre 500 a 800 metros acima do nível do mar.

Enfim, a garrafa que estava no chão do carro ficou meio vazia antes de chegarmos ao nosso destino, mas quando finalmente chegámos e nos instalámos, tive oportunidade de a provar antes que desaparecesse.

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Terras do Demo – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Terras do Demo Touriga Nacional Rosé Bruto 2012
Algumas bolhas de rosé são bastante delicadas e frescas, outras são mais substanciais, com mais carne à volta do osso. Este vinho está precisamente no meio desses dois estilos. À primeira vista, pôs-me a pensar “Não é exactamente champanhe, pois não?”. Ignorante, eu sei, mas no ponto. Depois de algum tempo, este revelou-se um vinho espumante muito decente, com um bom benefício para o seu custo. A garrafa promete demasiado, sem dúvida. Quer dizer, é uma garrafa lindíssima: o colar exsuda prestígio e tal, vestida para impressionar. Mas o líquido no interior é mais terra a terra. Uma boca agradável e cremosa, com um saboroso e ácido final de arando. Sentado ao fundo do cais, a ver o pôr-do-sol, este vinho pode ser um delicioso e inesperado prazer, desta curiosa “DOCsinha”.

Contacts
Moimenta da Beira
Sernancelhe
Vila Nova de Paiva
Sátão
Site: www.terrasdodemo.pt

ODE

Texto José Silva

Um conceito diferente, uma experiência gastronómica fantástica, o prazer de estar à mesa com tempo. O jovem proprietário do ODE tem um verdadeiro culto pelos vinhos portugueses, que ali são servidos com rigor, com bons copos e às temperaturas adequadas, e dos produtos tradicionais e de origem, com que são confeccionados os muitos petiscos e pratos desta casa de bem comer. Um oásis num deserto que demora a desaparecer.

Este ODE foi a recuperação inteligente e com bom gosto dum espaço antigo em plena zona histórica da cidade do Porto, bem perto do Cais dos Bacalhoeiros e da Ribeira.

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Cristóvão Sousa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa construção típica em granito, tem logo à entrada uma bonita mesa de xisto que alberga meia dúzia de pessoas, com o balcão da cozinha aberta mesmo em frente. A parede lateral tem um castiço escaparate com legumes e fruta frescos e, logo ao lado, os modernos armários de temperatura controlada onde repousam os vinhos em condições excelentes. Ao fundo, dois degraus acima, uma primeira sala, quase um privado, com o tradicional granito da cidade nas paredes e grossas traves de madeira nos tectos. Decoração magnífica, requintada, “cozy”, lindíssima. À direita, uma escada de madeira leva-nos ao primeiro piso, à sala principal, com meia dúzia de mesas e o mesmo estilo, mas com vista para o largo e uma nesga de rio. Serviço impecável, gente jovem bem dirigida pelo proprietário, a transmitir a paixão e o bom gosto.

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Polvo “à Lagareiro” – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Sentados à mesa de xisto da entrada, que partilhamos com dois dos muitos estrangeiros que enchiam por completo o restaurante, veio para a mesa pão regional de Bragança e dois pequenos recipientes com azeite, um de Trás-os-Montes e outro alentejano. Logo de seguida foi servida manteiga dos Açores, muito boa, salpicão de porco bízaro de Melgaço e um queijinho de Azeitão, qual deles o melhor!! Estava lançada a viagem por uma cozinha simples, com vários sabores e aromas, com excelentes produtos, bem temperada. A sopinha de legumes frescos foi reconfortante, soube muito bem. Uma deliciosa alheira de Vinhais grelhada, veio já cortada em pequenos bocados, cada um com um pedaço de manga em cima, paladares a contrastar, de belo efeito. Depois foi a vez dum escabeche de espadarte que estava no ponto, envolvido por cebola e pimento, vinagre na quantidade certa, bem bom. Não faltou o tradicional polvo à lagareiro em toda a sua pujança, tenro e muito apaladado, acompanhado de batata com pele e legumes cozidos e regado, mais uma vez, de óptimo azeite.

Por fim a carne, desta vez uns nacos de novilho grelhados, na companhia de molho de caril goês e arroz basmati com raspa de lima, num conjunto de contrastes delicioso.

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Muros de Melgaço – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Graça Reserva – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Embora nos tentassem com um vulcão de chocolate com Ártico de tangerina ou um pudim da avó Dulce, já não aguentamos e ficamos por um prato de fruta bem conseguido. O proprietário é incansável no acompanhamento que vai dando aos clientes, transmitindo duma forma encantadora a sua paixão pelo que faz, mas também o rigor na apresentação do que vem à mesa, a atenção no servir dos vinhos, o controlo das suas temperaturas, o cuidado nas harmonizações que se aconselham.

Os vinhos estiveram muito bem representados, começando-se pelo Muros de Melgaço de 2013, um Alvarinho seguro, cheio de vida, fresco, muito aromático e com acidez equilibrada. O branco do Douro Graça Reserva 2009, é feito de uvas de vinhas antigas, cheio de mineralidade, complexo, fresco e com belíssima acidez, em grande forma.

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Pardusco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta dos Frades – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois foi o Pardusco 2012, um tinto diferente, moderno, quase um palhete, muito fresco e suave no nariz, envolvente na boca, cheio de fruta e acidez muito equilibrada, requintado. O Quinta dos Frades Vinhas Velhas 2009 esteve em grande nível, cheio de elegância, redondo, aveludado mas seguro, ligeiramente especiado, com notas de fumo, grande vinho. Em contraste, mas em grande forma, esteve o Grou 2008, um alentejano que continua a evoluir muito bem em garrafa, com óptima estrutura, bom volume de boca, taninos sóbrios, frescura e acidez em belo equilíbrio, delicioso.

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Grou – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Olho no Pé – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O colheita tardia Olho No Pé de 2011 está mesmo bom, doce mas com excelente acidez, notas de fruta madura,  uma mescla deliciosa, bebeu-se várias vezes…

Terminamos à conversa com o proprietário com um Porto Tawny Ode, cheio de tradição, elegante, autoritário, que fechou uma longa mas excelente refeição, uma autêntica ode à culinária de qualidade.

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ODE (Reserve Tawny) – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Contactos
ODE Porto Wine House
Largo do Terreiro 7
4050-301 Porto
Telemóvel: 913 200 010
E-mail: info@odewinehouse.com
Facebook: odeportowinehouse

Maçanita – Nascido para se destacar

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

O lema na  Fita Preta é “why spend a lifetime trying to blend in, when you were born to stand out.” (porquê passar uma vida a tentar misturar-se, quando nasceu para se destacar). E assim é com os vinhos.

Veja-se a gama  Sexy range – branding ousado (de mau gosto, alguns poderão dizer) num país que foi descrito como a nação Católica Romana mais socialmente conservadora.

Ou o tema deste post, os excitantes e desafiadores vinhos Signature Series, sobre os quais escrevo de seguida. Maioritariamente monocasta, estes vinhos desafiam directamente a tradição Portuguesa de misturar diferentes castas e, no entanto, noutros aspectos são absolutamente reverentes à tradição.

O homem por detrás da assinatura é António Maçanita, co-fundador da Fita Preta e produtor de vinhos. Perguntei-lhe sobre os desafios de ser diferente, o que aprendeu pelo caminho e o que vem a seguir. Naturalmente, também provei o mais recente lançamento da Fita Preta Signature Series que analiso abaixo.

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António Maçanita at Winery – Foto Cedida por Fita Preta | Todos os Direitos Reservados

A entrevista

Sexy mas não Kiss: o António tem reputação de ser um marketeer astuto, no entanto, com um portfolio de marcas tão diverso – Sexy e os quatro rótulos diferentes Fita Preta – parece que ignorou a mais antiga regra do livro – Keep it simple, stupid (K.I.S.S. – mantém as coisas simples, estúpido)
Como bem sabe, em Portugal é sempre com um ou dois beijos, depende de quem encontrar. E nós não somos diferentes. O nosso K.I.S.S. é só visto de um ângulo diferente, não “o mercado vai gostar daquilo em que acreditamos”, mas do ponto de vista que aquilo que acreditamos ser bonito, estético, divertido, que vale o esforço, desafiador, esperamos que depois o consumidor goste e partilhe do mesmo entusiasmo. Às vezes é como diz “não é simples”, e nós sabemos disso. Mas mais importante, é autêntico e nós só engarrafamos e rotulamos aquilo que podemos apoiar.

Dito isto, conforme fomos crescendo e lançando novos vinhos, tivemos que tentar organizar a nossa mensagem para o público, o melhor possível. Por exemplo, temos estado a separar a comunicação (website e redes sociais) para a marca Sexy do restante portfolio, porque é uma marca tão forte e um vinho tão vocacionado para festas que precisa do seu próprio mundo.

Finalmente, obrigada pelo elogio “marketeer astuto”. Adorei – para um produtor de vinhos que vem de uma família de professores anti comerciais e que nunca tinha vendido nada na sua vida antes do vinho, nem mesmo as suas velhas pranchas de surf, isso é óptimo.

A importância de um nome: voltando-nos para a marca Signature Series da Fita Preta, não é fácil cortejar o mercado das exportações com castas e regiões de vinho inéditas e impronunciáveis. O que o motivou a criar esta gama e a colocar o seu nome?
A Signature Series by António Maçanita é onde dei mais espaço a mim próprio para o teste e erro, para sonhar mais alto, para ir fora da caixa. Eu questiono os porque sins e porque nãos. É aqui que eu mudo o Mundo, mesmo que apenas um bocadinho, e assumo responsabilidade por isso.

A minha primeira signature foi Branco de Tintas 2008 (um vinho branco a partir de uvas tintas) feito de Trincadeira e Alfrocheiro. Fi-lo durante uma fase em que não havia suficientes uvas brancas no Alentejo para as necessidades do mercado. Então pensei, porquê entrar novamente na loucura de arrancar as tintas e plantar as brancas e porque não fazer brancos com uvas tintas? Fizemo-lo e o vinho foi muito bom. Acabou na lista de melhores vinhos do ano da nossa revista de vinhos local e foi um dos primeiros brancos a partir de tintas em Portugal. Agora há mais de uma mão cheia de produtores que o fazem. Mas o mais engraçado (ou não) é que não foi certificado como vinho Alentejano, porque era um vinho branco feito a partir de uvas de vinho tinto e no entanto, nesse ano, a região permitiu que os produtores usassem 20% de vinho branco de fora da região, sendo, mesmo assim, certificado como Alentejano… veja lá.

A partir daí, fiquei entusiasmado com as “talhas” (ânforas de argila). A ideia surgiu durante uma viagem de avião de regresso, depois de visitar uns amigos na Califórnia que estão a fazer um fantástico Sauvignon Blanc em ovos de cimento.  Disse para mim mesmo, porque não usar as nossas “Talhas” que fazem parte do nosso património – um símbolo do Alentejo? Então quando cheguei, compramos uma “Talha” de 1940 de 1000 litros (a qual pagamos com 300 garrafas de vinho espumante). No entanto, decidimos fazer o processo de vinificação moderno (prensagem de cachos inteiros, fermentação a frio) em vez do tradicional “método Talha” que é com o contacto da pele. O resultado depois da fermentação foi simplesmente impossível de beber – “cera de abelhas” e “químico”. Engarrafamo-lo de qualquer forma dizendo “é o que é” e depois de 6 meses na garrafa, tornou-se incrível. A parte “química” ficou por trás do nariz dando ao vinho camadas do estilo Riesling e a fruta veio para a frente do palato – muito fresco e limpo. Ainda é um dos meus preferidos e um hino à história Alentejana.

A partir daqui o papel da Signature passou a ser o de salvar uma casta quase extinta, “Terrantez do Pico”. Está agora em boa forma, a ser replantada por todos os Açores. Também estou a testar outra uva açoriana “Arinto dos Açores”, fazendo um “Branco de Indígenas” puro (um branco sem fermento inoculado, nem controle de temperatura) e finalmente, trazendo de volta o Castelão.

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António Maçanita com Talha – Foto Cedida por Fita Preta | Todos os Direitos Reservados

A completar um ciclo? Recordar a tradição (seja de castas, do processo vinícola ou do estilo do vinho) é um dos cunhos da Signature Series da Fita Preta. O que aprendeu ao investigar o passado e em que aspectos, se algum, adaptou a tradição aos gostos contemporâneos?
Enquanto país do velho mundo produtor de vinhos, nós introduzimos muitas novas técnicas – aço inoxidável, fermentos seleccionados, castas estrangeiras, vinhas completamente varietais, vinhos direccionados para o consumidor, etc. Isto levou a uma melhoria geral dos nossos vinhos, tanto tintos como brancos, mas também retirou um pouco da “alma” dos nossos vinhos – o que dava aos vinhos um sentido de lugar quando os provamos. O desafio é complexo. Está entre escolher o que trazer de volta, que pode acrescentar complexidade e tipicidade e que novas técnicas aplicar, mantendo sempre em mente que também somos parte da história.

O Potencial do Pico: eu visitei recentemente os Açores e fiquei surpreendida pela qualidade e carácter distintivo, mineral e salgado dos seus brancos secos, e também ao aprender sobre o Arinto  dos Açores e o Terrantez do Pico, quando pensava que o Verdelho (em estilos mais doces/fortificados) era o pilar principal da produção.
O potencial dos Açores é incrível. As castas Verdelho (a verdadeira), Arinto dos Açores ou Terrantez do Pico são de um potencial enológico incrível. São minerais e salgadas e, com boa acidez, têm excelente potencial de envelhecimento. O terroir é único, com rocha vulcânica, proximidade ao oceano e tempo frio a moderado. Esta combinação é explosiva para grandes vinhos brancos. E concordo que este novo lote de 2013 mostra precisamente isso.

Acredito também que os vinhos fortificados sérios, que forjaram a reputação do Pico no passado, verão um renascimento. Como as listas e até os menus de banquetes reais mostram, rivalizou com o melhor Madeira em mercados como Reino Unido, Holanda, Estados Unidos e Rússia. Era conhecido em alguns mercados como Pico-Madeira por causa desta semelhança.

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Vindima do Pico – Foto Cedida por Fita Preta | Todos os Direitos Reservados

E a seguir?
Muita coisa! A nossa marca Sexy tem visto um grande crescimento no vinho espumante de “método tradicional” na França e nos Estados Unidos. Para Fitapreta, Palpite e Preta, um quarto das nossas vinhas estão agora em conversão para a certificação orgânica. Nos Açores, estou a trabalhar de perto com outros produtores e com o departamento agrícola, ao mesmo tempo que desenvolvemos o nosso projecto de produção própria nas ilhas. E depois há os meus projectos de consultoria nas Quinta de Sant’Ana, Cem Reis e Arrepiado Velho entre outros.

The wines

Fita Preta Signature Series Branco de Talha by Anónio Maçanita 2012 (Vinho Regional Alentejano)
Talha é uma referência a uma tradição de produção vinícola muito tradicional, que data da presença Romana no Alentejo há muitos anos atrás. Talha significa que o vinho foi fermentado numa ânfora – só uma neste caso – uma ânfora de 1000 litros de 1946. E mantendo a tradição, este vinho fica-se pelas castas brancas clássicas da região – Roupeiro (70%) e Antão Vaz (30%).  Ou pelo menos estas dominam o vinho onde (invulgarmente) a fruta provém de uma mistura de vinhas de 25-30 anos, das castas locais. Fui surpreendida pela palidez do vinho e pelo seu nariz tenso, até que me apercebi que tinha sido transferido para tanques de aço inoxidável depois de 28 dias (as ânforas são mais porosas que um tanque, o que resulta numa maior oxidação). Então a que sabe este vinho invulgar – um blend das técnicas tradicionais e modernas? É sofisticado, com bastante aldeído o que poderia ser um desastre, mas neste caso é positivo, fazendo um vinho vivo e mercúrico, de uma complexidade e frescura semelhantes ao xerez, com noz fresca, verde. Uma textura almofadada acrescenta à sua sensação de leveza, trazendo ao mesmo tempo peso. Um final longo revela as notas a terra que o atravessam. Muito interesse aqui, um vinho de ying e yang, que afasta e puxa. Gosto da sua energia, complexidade e persistência. 1300 garrafas produzidas. 13.5%

Fita Preta Signature Series Branco de Indígenas by Anónio Maçanita 2010 (Vinho Regional Alentejano)
Branco de Indígenas é uma referência ao facto de que este monocasta Arinto, foi fermentado em barrica (carvalho Francês) com fermentos 100% naturais/indígenas. Com a sua acidez limpa e revigorante, o seu palato cítrico focalizado, penso no Arinto como no Riesling de Portugal. Mas a vinificação traz outra dimensão à uva. Ou mais precisamente, traz uma maior dimensão, alargando o palato, tornando-o menos sumo de citrino, mais casca de limão e, como a casca de limão, tem uma qualidade textural – uma qualidade cremosa que associo aos fermentos naturais, talvez também uma função das borras/agitação das borras? O vinho é mais salgado também, com massa azeda e torrefacção de carvalho (gosto a noz). Pessoalmente gosto de ver um pouco mais de fruta e energia, mas para quem gosta de textura, tem um langor atractivo e sedoso. 800 garrafas produzidas. 12.5%

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Branco de Talha, Terrantez do Pico, Dranco de Indígenas – Foto Cedida por Fita Preta | Todos os Direitos Reservados

Fita Preta Signature Series Arinto do Açores 2013 (Vinho Regional Açores)
O Master Sommelier João Pires seleccionou este branco tenso para uma prova no 10 Fest Azores – uma mostra brilhante dos produtos da ilha e do talento dos chefes locais e internacionais. É um exemplo super intenso e revigorante, com um nervosismo fantástico e a textura subtil das borras que associo aos seus vinhos. Firmemente enrolada, a sua fruta “limonada” é disparada com minerais e sal, tão enérgico e picante que correu muito bem com o primeiro prato de cracas polvilhadas com paprika e sapateira com vichyssoise do Head Chef do hotel The Yeatman, Ricardo Costa. Tinha o peso e a intensidade para igualar este prato, apesar da sua pronunciada linearidade. 13.5%

Fita Preta Signature Series Terrantez do Pico by Anónio Maçanita 2013 (Vinho Regional Açores)
Palha pálida com noz doce, ligeiramente “axerezado” (aldeído), nariz salgado, um toque de iodo e casca de toranja também, todas estas notas transportadas num palato texturado, encerado e completamente seco, juntamente com notas de maçã castanha/pisada. A acidez relativamente firme traz enfoque e extensão. Menos consensual que o Arinto dos Açores, mas com qualidades que me lembraram o Loire Chenin, mais especificamente o mais muscular Chenins from Anjou (apesar de não ser tão frutado), não lhe falta estrutura nem carácter. Muito bom. 25% deste vinho foi fermentado em barricas de carvalho (presumo que barricas antigas) durante 9 meses com battonage semanal. Produzidas apenas 646 garrafas numeradas – a minha amostra foi a garrafa número 534. Ainda mais raro quando consideramos que estas 646 garrafas são as únicas garrafas de Terrantez do Pico varietal que existem (exceptuando a colheita anterior de Maçanita). E para explicar isto um pouco mais, menos de 100 vinhas desta casta praticamente extinta, existem fora da colecção dos serviços agrários. 13%

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Tinto de Castelão – Foto Cedida por Fita Preta | Todos os Direitos Reservados

Fita Preta Signature Series Tinto de Castelão by Anónio Maçanita 2010 (Vinho Regional Alentejano)
A casta Castelão pode ter sido colocada no mapa pela marca Periquita de José Maria Fonseca, da Península de Setúbal mas, de acordo com Maçanita, Castelão teve origem no Alentejo, onde permanece a terceira casta mais plantada. Tendo em atenção o antigo ditado que Castelão “precisa de tempo”, Maçanita deu à uva isso mesmo – este vinho foi macerado durante 30 dias após a fermentação, estagiou em barrica durante 24 meses e em garrafa durante 20 meses, antes de ser lançado. É um tom de rubi translúcido, com um nariz doce de cinco especiarias e frutas vermelhas de Verão. Na boca é impressionantemente fresco, com um palato de Pinot Noir de cereja vermelha e groselha crocante e precisa, e taninos firmes de fruta picante (tão mais tensos e secos que o carvalho) e uma baforada de charuto. Um final muito longo e persistente, revela notas atractivas e complexas de campari e chocolate de leite. Com tempo no copo e à medida que vai aquecendo, torna-se rico, mais encorpado, mais achocolatado. Pessoalmente servi-lo-ia um pouco fresco para manter a tónica na fruta vermelha e a frescura que tanto admirei. 2636 garrafas, a minha, a garrafa 28.  14%

Contactos
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Burmester Colheita 2001

Texto João Pedro de Carvalho

Passear nas ruas do Centro Histórico de Gaia é como dar um salto atrás no tempo, imaginar a rolagem das pipas pelas pedras da calçada, as enormes salas de estágio onde moram autênticos sonhos por engarrafar. Visitar cada uma das caves é entrar num mundo aparte, apesar do fio condutor que as une, ali mora um silêncio que perdura na história, talvez apenas o sussurro dos néctares divinos que vão estagiando seja o único som que mereça ser ouvido, autênticos pavilhões do conhecimento que se pudessem falar teriam tanto para nos contar, tal a história e segredos que encerram.

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Burmester Colheita 2001 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

A Burmester pertence ao grupo Sogevinus e é um especialista no que toca à categoria de Porto Tawny. Neste caso o que cai no copo é o Burmester Colheita 2001, um vinho de perfil muito novo com todas as vicissitudes que tal acarreta uma vez que a sua complexidade não se aproxima dos patamares alcançados pelos vinhos de maior idade, mantendo da mesma forma o fio condutor tão característico dos grandes Porto Colheita desta casa. Se colocado ao lado de um 20 Anos teremos por comparação um vinho muito mais complexo que resulta da mestria do blend das variadas colheitas que dele fazem parte.

Por aqui o que se encontra é este bouquet menos rendilhado mas ao mesmo tempo ligeiramente evoluído, profundo e intenso, cheio de vida, com notas de avelã e alperce seco. Já a mostrar aquele toque untuoso no palato acompanhado de grande frescura e elegância, numa passagem que deixa boas recordações. O prazer de beber um Porto Colheita dos mais recentes é algo único, ter lado a lado a magia da oxidação com a força da juventude, capaz de ligações fantásticas como por exemplo uma generosa fatia de Bolo Inglês.

Contactos
Avenida Diogo Leite 344
Vila Nova de Gaia
4400-111
Portugal
Tel: (+351) 22 374 66 60
Fax: (+351) 22 374 66 99
E-mail: comercial@sogevinus.com
Site: www.burmester.pt

Quinta de Santiago encontra o Lagostim

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Nós, os Finlandeses somos conhecidos por termos tradições esquisitas. Inventamos e recebemos anualmente o campeonato mundial de Transporte da Esposa e matança do mosquito. Temos competições de lançamento de botas de borracha e telefones Nokia. Celebramos o Verão desaparecendo para o campo e bebendo entre nós. No 1º de Maio bebemos imenso hidromel caseiro sem álcool. Claro que fomos nós que inventámos a sauna, que usamos semanalmente. Até tivemos Campeonatos Mundiais de Sauna para ver quem consegue estar mais tempo sentado numa sauna cada vez mais quente, mas depois houve pessoas que morreram e tivemos que parar. Também inventámos o Pai Natal. Quer dizer, não inventamos nada, ele é real. Acabei de o ver há uns meses atrás.

No Inverno vamos nadar no lago ou no mar, fazendo um grande buraco no gelo. Nós, os Finlandeses, bebemos a maior quantidade de café do Mundo e somos muito bons no hóquei no gelo. Ainda não somos grandes bebedores de vinho, mas de cerveja gostamos. A Finlândia é chamada a terra dos mil lagos mas na realidade temos perto de 200 000 lagos. No final de Agosto, muitas pessoas fazem jantares festivos de lagostim, onde simplesmente se comem lagostim e apanham bebedeiras. Esta é a história de uma dessas noites.

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Ilkka Sirén em bebé (1986) – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Como pode ver pela foto acima, eu compareci à minha primeira festa do lagostim quando tinha apenas três semanas. A tradição dos jantares festivos de lagostim está profundamente enraizada na minoria Sueca da Finlândia, mas hoje em dia é celebrada por todos. A época de pesca do lagostim começa na Finlândia todos os anos, no dia 21 de Julho ao meio dia, mas normalmente, as pessoas começam a comê-los no final de Agosto quando as noites escurecem. Habitualmente, a noite começa como qualquer outra noite na Finlândia, com o aquecimento da sauna. Eu estava encarregue disso e, enquanto a sauna aquecia, preparamos os lagostins na cozinha. Os lagostins são como mini lagostas de água doce, bombardeadas com endro. Normalmente comem-se apenas com pão branco. Mas o verdadeiro truque é aprender a comê-los correctamente sem cortar os pulsos com a faca especial de lagostins. Acredite em mim, torna-se um bocadinho difícil depois de uns shots de akvavit.

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Prato de Lagostins – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Portanto, depois de umas horas de relaxamento na sauna e de nadar no lago, estava na altura de começar a jantar. Começamos por servir akvavit a toda a gente, uma bebida picante da Noruega. Depois começa a cantoria. Cantamos a canção Sueca bem conhecida chamada Helan går. Quer dizer “tudo ao mesmo tempo” e diz, literalmente que se não beber o shot de golada, não vai ter nem mais meio copo. Portanto nós cantamos, nós bebemos e nós servimos mais um copo. Depois começamos a comer. A minha mulher traz a sua deliciosamente cremosa sopa de cogumelo e eu pego numa garrafa de Quinta de Santiago Alvarinho Reserva “Segredo da Avó” 2013 de Monção e Melgaço. Normalmente não começo logo com o reserva, mas achei que a sopa rica e cremosa precisava de algo um pouco mais robusto. O vinho teve algum contacto com a pele e um toque de estágio em carvalho. Combinou lindamente com a sopa de cogumelos. A acidez fresca equilibrou muito bem a textura encorpada da sopa, trazendo também aromas cítricos agradáveis e especiarias suaves à mistura. Sozinho parecia um pouco estranho e jovem, que era, mas com a comida floresceu.

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A abrir um lagostim utilizando uma faca – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois servimos mais uma rodada de akvavit e a cantoria continuou. Esta pode não ser a melhor maneira de garantir que se detectam todas as nuances no vinho, mas é tão divertido. De seguida veio o prato principal, la écrevisse, o lagostim. A minha sogra traz dois grandes pratos cheios destes sujeitinhos, o que me inspira a cantar outra canção. E sim, mais um shot de akvavit. Cambaleio até à cozinha, pego numa garrafa de Quinta de Santiago Alvarinho 2012 (o irmão mais novo do vinho anterior) e volto para a mesa. Entretanto, o meu sogro serviu mais uma rodada de shots e bota abaixo. Por esta altura, as cascas de lagostim voam por todo o lado, sorveres ruidosos ecoam na sala, risos ruidosos e mais cantoria. A atmosfera é desordeira mas toda a gente está feliz. Eu sirvo o Alvarinho enquanto tento não ser esfaqueado pela faca do lagostim. O reserva foi uma combinação sólida com a comida, muito bom. Mas este Alvarinho jovem com os pequenos diabos vermelhos, foi algo de soberbo. Os lagostins estão cheios de água de endro salgada que combinou espantosamente bem com o carácter fresco, aveludado do Alvarinho e o toque salgado no final. Não conhecia bem este produtor, mas este vinho interessou-me definitivamente e estou ansioso por provar mais dos seus vinhos no futuro.

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Quinta de Santiago – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois de devorarmos os lagostins era hora da sobremesa. Lembro-me de haver vinho do porto e talvez uma ou duas canções. Quando tudo acabou já passava da meia-noite, estava na altura para o segundo round na sauna. Nada como uma sessão de sauna fumegante a 90°C como digestivo. As risadas, cantoria, bebidas e todo o tipo de conduta desordeira continuaram até ao raiar da madrugada. Foi um característico bacanal Finlandês. Felizmente só o fazemos uma vez por ano.

Contactos
Quinta de Santiago
Rua D. Fernando nº 128
Cortes, Monção
4950-276 Mazedo
Telemóvel: 917557883
email: wines@quintadesantiago.pt

O X marca o local para Hélder Cunha, o produtor-itinerante-salteador-de-uvas dos “Casca Wines”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

O produtor Hélder Cunha e o actor José Fidalgo atravessaram Portugal de mota para o programa de TV “Rotas do Vinho“. Rotas estas que, sem vinhas nem adega, Cunha passou a conhecer bem, já que ele faz parte da nova geração de produtores-itinerantes-salteadores-de-uvas de Portugal, cuja missão é muito simplesmente, procurar as melhores uvas, onde quer que elas estejam. Desde que as uvas sejam portuguesas, não interessa se a região está na moda ou não e, por este motivo, eu tiro o chapéu a Cunha.

No Casca Wines, que co-fundou com o produtor Frederico Gomes, os vinhos são feitos em parceria com agricultores e adegas locais em 10 regiões DOC.

Estou particularmente enamorada das gamas Monte Cascas Single Vineyard e Ícone, especialmente dos peculiares vinhos de Colares e do Tejo, cujas vinhas envelhecidas podem bem ser descritas como relíquias nacionais. Quando lamenta “Portugal deixou que a sua cultura vinícola escapasse por entre os dedos”, o objectivo de Cunha é preservá-la e renovar a tradição única Portuguesa de fazer vinho. Aqui fica o que ele teve a dizer sobre este importante tópico, após o qual encontrarão as minhas notas sobre as gamas Monte Cascas Single Vineyard e Ícone.

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Hélder Cunha – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

A entrevista

1. Os dias de glória de Portugal – a sua Época dos Descobrimentos – já desapareceram há muito. No entanto, apesar de não ter vinhas próprias, o Hélder está a injectar o espírito inquieto de Vasco da Gama no portfólio de várias origens do Monte Cascas. Diga-me porque é que adora fazer-se à estrada.

Voltar aos velhos tempos, redescobrir os tesouros do país. Eu acredito que Portugal ainda é um excelente produtor de vinhos. Temos uma riqueza de variedades e terroirs que é única no mundo dos vinhos. Antes de ter estabelecido o Casca Wines, tinha a ideia de que os vinhos Portugueses ofereciam uma experiência de prova rara. Senti que com uma abordagem moderna à produção tradicional, poderíamos oferecer um novo e requintado paladar ao mundo dos vinhos. Antes do estabelecimento das cooperativas há 60 anos, as vinhas eram plantadas para produzir qualidade e não apenas quantidade. Adoro fazer-me à estrada porque é possível descobrir vinhas anteriores a esses tempos.

2. O X marca o local: O quê são e onde estão, na sua opinião, as melhores uvas do país e porquê?
Há alguns anos atrás, eu acreditava que a qualidade vinha de uma determinada área/região. Hoje em dia, uma vez que estamos a produzi em 10 DOCs diferentes, eu acredito que a qualidade vem do amor que damos ao nosso trabalho, Os melhores produtores de uvas são aqueles que amam as suas vinhas e isso é fácil de ver e de sentir! O nosso desafio agora é atingir a grandeza em diferentes DOCs.
No entanto, é um facto que é mais fácil cultivar uvas perfeitas em terroirs que tenham um solo neutro ou básico, um clima fresco mas seco, com varietais que tenham mais acidez. Temos que nos lembrar que Portugal é um país quente e que a proximidade ao Atlântico e a altitude ajudam a atingir um maior equilíbrio nas uvas (e nos vinhos).

3. Um produtor Australiano descreveu recentemente, as suas vinhas mais antigas e mais pressionadas como “os velhotes escanzelados” porque, inicialmente, os seus vinhos são pouco encorpados e precisam de tempo em pipa para revelar a sua graça e equabilidade – uma qualidade pouco em voga na nossa sociedade de consumo imediato. O Hélder empenhou-se em procurar os velhotes escanzelados – qual é a atracção para um rapaz novo como você?
O equilíbrio que uma vinha mais velha pode trazer, ajuda a mostrar o melhor da sua região. Os “velhotes escanzelados” são como os nossos avós a quem a experiência trouxe equilíbrio. Concordo com o produtor Australiano, estes vinhos precisam de tempo para atingir a sua graça, pelo que a única forma de os mostrar nesta sociedade de rápido consumo é partilhando-os, abrindo uma garrafa e explicando a sua origem e o que se espera nos próximos anos. Um dos nossos primeiros clientes privados que valorizou o facto de estarmos a fazer algo especial, acabou de nos escrever a pedir-nos a nossa primeira colheita de Malvasia de Colares, porque ele tem três caixas, mas quer comprar mais para envelhecer.

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Hélder Cunha – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

4. Compensa trabalhar com os velhotes escanzelados? Veja o Fernão Pires, uma variedade laboriosa que normalmente faz grandes volumes de vinho barato. É difícil desafiar a percepção desta uva mesmo que advenha de vinhas centenárias?
Sim, muito difícil! Apesar disso, os nossos clientes de exportação que conhecem pouco Fernão Pires, simplesmente não se importaram que a uva fosse usada para vinhos baratos. Olharam apenas à qualidade. Isto ajudou a convencer o público Português e, hoje em dia, o nosso Fernão Pires é conhecido pelos “connoisseurs”.

5. É difícil procurar e usar uvas de vinhas tão antigas e veneráveis ou elas são descuidadas, negligenciadas e bastante disponíveis?
É mais difícil agora do que quando começamos. Estas vinhas são negligenciadas e os fundos da União Europeia para a reestruturação das vinhas, dizimaram muitos dos “tesouros” que existiam. Também o preço das uvas que os agricultores recebem não reflecte a qualidade que se pode obter a partir das vinhas velhas. Por isso um agricultor elimina-as e planta vinhas novas. Portalegre, sem dúvida uma das melhores áreas para produzir um verdadeiro vinho Alentejano, é um bom exemplo. Hoje em dia, é muito difícil encontrar uma vinha muito antiga com uma quantidade viável de uvas porque a maioria foi abandonada quando as cooperativas entraram em declínio.

6. Tem planos para assentar e comprar a sua própria vinha ou será sempre um rolling (terroirista) stone?
Sim, um dia terei as minhas próprias vinhas, mas isso não quer dizer que deixe de ser um terroirista rolante.

A prova

Casca Wines Monte Cascas Colares Malvasia 2011 (Colares)
Malvasia de Colares é exclusivo da região de Colares e não existe muito. As uvas para este vinho, 36 caixas no total, vieram de duas vinhas velhas com mais de 80 anos a dois passos de distância (um quilómetro) do Atlântico, plantadas em – surpresa das surpresas – solo arenoso (chamado Chão de Areia), por cima do mais duro Chão Rijo, composto por calcário acastanhado. É um vinho muito complexo, redondo e texturado, mas fresco, com toques de cogumelo e pântano salgado do bosque no seu palato intensamente pedregoso e mineral. Único. 11,5%

Monte Cascas Vinha da Padilha Fernão Pires 2010 (Tejo DOC)
Fernão Pires é plantada em abundância no Tejo onde, pode dizer-se, a familiaridade desta casta gera desprezo. Mas tal não acontece com este vinho. Provém de uma vinha bush vine excepcionalmente envelhecida (com mais de 100 anos) em Almeirim, localizada em solo de argila aluvial cinzenta. Colhida na quarta semana de Outubro quando as uvas estavam, sem dúvida, super maduras, o resultante vinho envelhecido e dourado é rico e meio seco, com 6.2gr/lt de açúcar residual. No entanto, mantém-se bem equilibrado com uma acidez suavemente ondulada e muito bem integrada com o travo de camomila e caroço de pêssego, marmelo, damasco encerado e pêra seca. Longo e cremosamente sedoso na boca, este é um vinho sensual sobre o qual nos devemos demorar. Foi fermentado em 100% carvalho Francês (barricas antigas) onde estagiou durante 12 meses. Foram produzidas 54 caixas. 12%

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Transporte de uvas Ramisco para o Monte Cascas Colares Tinto – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

Casca Wines Monte Cascas Colares Ramisco 2009 (Colares)
Ramisco também é exclusiva de Colares, cujos solos arenosos protegeram esta uva tinta da devastação da phylloxera. Atraiçoando as suas raízes de “velhote escanzelado” (provém das mesmas vinhas do Malvasia de Colares), este vinho abriu desde a última vez que o provei em 2012. Um nariz tentador traz-me à mente beterraba e rábano recém-ralado – picante e de fazer estalar os lábios. Mostra o crocante e vívido mirtilo e fruta vermelha – romã, cereja vermelha madura e perfumada e framboesa. Um final persistente revela conotações deliciosas de cogumelo/trufa. Apesar de mais esguio e firme, apelaria aos amantes de Pinot Noir. 11%

Monte Cascas Vinha da Carpanha 2010 (DOC Dão)
Proveniente de uma vinha de baixa produção (2t/ha), com 56 anos de idade, em Penalva do Castelo, a 526 metros em solos graníticos com ardósia e argila, este é um vinho de um roxo profundo e opaco, com 65% Touriga Nacional e 35% Jaen. Especiarias escuras – alcaçuz e cravo-da-Índia – e carvalho mocha ligam-se com bergamota doce, agulhas de pinheiro secas, amora bem definida e cereja. Apesar dos taninos serem finos e do conjunto ser muito elegante, este estilo bem estruturado, escuro e reflexivo precisa de tempo para desfiar e livrar-se do seu carvalho novo, demasiado entusiasta (passou 24 meses em carvalho novo Francês) e para mostrar o seu melhor. Cunha não discordou da minha opinião sobre o carvalho e acredita que para as subsequentes colheitas Dão e Douro mono vinhas, o carvalho está melhor equilibrado. 14.5%

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Uvas – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

Monte Cascas Vinha do Vale 2009 (DOC Douro)
Proveniente de uma vinha com 94 anos, de baixa produção (1t/ha), plantada em socalco de pedra, condução tradicional “em taça”, com mais de 20 castas diferentes, a 110m no Vale Torto. As uvas são parcialmente desengaçadas (30%) e esmagadas directamente para um lagar, após a fermentação, o vinho estagiou durante 24 meses em barricas novas de carvalho Francês. Esta colheita quente e muito seca, tem um tom profundo de beringela com um nariz balsâmico bastante avançado com ameixa assada e frutos pretos. Na boca é mais fresco, com uma mineralidade atractiva, amora e groselhas bastante sumarentas, picantes, com notas de eucalipto, pelo que é menos quente no palato que no nariz. Ainda assim, mais avançado do que eu esperaria. 14.5%

Monte Cascas Vinha das Cardosas 2010 (DOC Bairrada)
De uma vinha de alta densidade e pouca produção (2t/ha), que foi plantada em 1914 nos solos calcários da Cordinhã. Com vinhas Baga de condução tradicional “em taça” e um punhado de Maria Gomes (3%) & Bical (1%), passou por uma fermentação adequadamente tradicional em lagares com 30% de desengace. Um nariz e palato firmes e enrolados, tem um travo de agulhas de pinheiro verde (30% desengace) na sua fruta de ameixa, altamente concentrada, precisa, mas sumarenta, o que significa que limpa o (não tão tradicional) carvalho Francês novo, no qual estagiou durante 24 meses, com facilidade. Um chassis de taninos finos e acidez muito persistente mas bem integrada, apoiam um final longo e tenso. A Baga jovem e austera faria-me aguardar pelo menos uns cinco anos antes de voltar a dar outra olhadela. Muito prometedor. 13%

Contactos
Casca Wines, Lda.
DNA Cascais – Ninho de Empresas.
Cruz da Popa
2645 – 449 Alcabideche – Cascais, Portugal
Tel.: (+351) 212 414 078
Email: info@cascawines.pt
Site: www.cascawines.pt
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