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Wine Magazine
Quinta do Vallado – Tawnies 30 e 40 anos

Texto Olga Cardoso

Lançados no mercado em finais de 2012, estes Tawnies datados vem confirmar toda a qualidade dos vinhos produzidos pela Quinta do Vallado. Depois da excelência do seu Tawny 20 anos, esta Quinta, anteriormente detida pela lendária D. Antónia Ferreira e actualmente nas mãos da sua 5ª geração, colocou no mercado dois Portos velhos de bela estrutura e tonicidade.

São vinhos plenos de história. Vinhos mantidos pela mestria dos enólogos, que neste caso particular, mais do que fazer…importa não estragar o que o tempo já fez! Vinhos nobres e enaltecidos pela força da evaporação, que lhes confere uma enorme concentração e os transforma quase numa essência.

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Quinta do Vallado Tawnies – © Blend – All About Wine | Todos os Direitos Reservados

TAWNY 30 ANOS 

De cor ambarina com laivos alaranjados, este Tawny mostra-se de fácil empatia. Do encanto do vinagrinho à casca de laranja, das amêndoas torradas à noz-moscada, do figo seco aos pralinés, tudo se desvenda do seu conjunto olfactivo complexo e sedutor. Na boca apresenta-se glicerinado e viscoso. Com uma acidez muitíssimo bem medida, termina intenso e com notável profundidade. Exemplo de verdadeira mestria!

TAWNY 40 ANOS

De ar grave e sério, este Porto datado apresenta uma cor acobreada intensa e escura. No nariz revela notas inflamadas de caramelo, noz, avelã e muito, muito café. Bastante especiado, com evidentes toques de cravinho e canela, mostra-se untuoso, volumoso e aprimorado. Compacto e elegante, exibe uma frescura e uma acidez absolutamente irrepreensíveis. Perfeito para momentos de introspecção e para meditar nas grandes decisões da vida.

Contactos
Quinta do Vallado – Sociedade Agrícola, Lda.
Vilarinho dos Freires
5050-364 – Peso da Régua | Portugal
Phone: +351 254 318 081
Email: geral@quintadovallado.comgeral@quintadovallado.com
Site: www.quintadovallado.com

Caves São João – Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1983 – 1985

Texto João Pedro de Carvalho

Não se pode falar da história do vinho do Dão, uma das mais antigas regiões vitivinícolas de Portugal, demarcada em 1908, sem mencionar as carismáticas Caves São João e os seus míticos Porta dos Cavaleiros dos anos 60 e 70.

Alguns deles fazem mesmo parte do lote dos melhores vinhos alguma vez feitos em Portugal. As Caves São João foram fundadas em 1920 pelos irmãos José, Manuel e Albano Ferreira da Costa, mas apenas em 1959, já com os descendentes dos fundadores, Alberto e Luís Costa, iriam surgir as marcas que lançaram as Caves São João para o estrelato – o Frei João (Bairrada) e o Porta dos Cavaleiros (Dão) cujo Reserva ostenta um bonito rótulo de cortiça, inovador para a altura.

Caves S. João – Foto de João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Sem produção própria ou sequer vinificação na região do Dão, limitavam-se a comprar vinhos nas adegas cooperativas e em algumas quintas da região para posterior estágio e loteamento na sua sede localizada na Bairrada.

Aqui foi decisivo o grande conhecimento que os irmãos Alberto e Luís Costa detinham sobre a região, facto que lhes permitiu adquirir/abastecer de forma continuada com alguns dos melhores vinhos de toda a região.

A mestria com que dominavam a arte do lote e tendo em conta a qualidade da matéria-prima disponível, permitiu criar vinhos de excelsa qualidade com um cunho muito próprio aliado a um perfil marcadamente clássico da região, vinhos que perduraram na sua grande totalidade até aos dias de hoje.

Com a evolução dos tempos e consequente evoluir da região do Dão, passou a DOC em 1990, no final dos anos 80 muitos dos que antes forneciam as Caves São João com os melhores vinhos enveredaram pela produção própria, desta maneira a qualidade dos lotes disponíveis como seria de esperar sofreu um rude golpe.

No silêncio das caves residem nos dias de hoje mais de um milhão de garrafas que resistiram imaculadas à passagem do tempo e cujos vinhos na maior parte dos casos mostram uma saúde invejável. É pois todo um privilégio e uma rara oportunidade para os apreciadores poderem entrar em contacto com toda a glória e esplendor de tempos que já não voltam.

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985 – Foto de João Pedro Carvalho | All Rights Reserved

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1983 (Dão) 

Mostra o aroma clássico que de imediato nos remete para a sua região de origem, o Dão.
Precisa de tempo no copo, complexo e profundo com muito mato, caruma, ervas de cheiro, fruta negra (cereja, framboesa) sumarenta bem limpa e fresca a ser acompanhada por notas de violeta, fumado, terroso e especiado (pimenta). Mais robusto que o 1985 com uma presença vegetal mais acentuada, pleno de harmonia na boca com muita fruta madura, cereja em destaque, pinheiro e especiaria, tudo com grande frescura, corpo médio numa passagem pelo palato sedosa e cheia de vivacidade, final longo e persistente.

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985 (Dão)

Aroma clássico da região, quase que em forma de compêndio, mais fresco e definido que o 1983, embora de igual patamar de qualidade, aqui com a energia de uma fruta vermelha (bagas silvestres) muito viva, tabaco seco, fumo, ameixa seca, pinhal, cheio de finesse. Boca cheia de fruta viva e suculenta que apetece trincar, acetinado no palato, um autêntico prazer que apetece beber, fantástico equilíbrio e uma frescura invejável. Um hino ao que de melhor o Dão e Portugal têm para oferecer. Vinho de classe mundial? Porque não.

Contactos
Caves de São João
São João da Azenha, Anadia, Ap-1
3781-901 – Avelãs de Caminho, Portugal
Phone: + 351 234 743 118
Email: geral@cavessaojoao.com
Site: http://www.cavessaojoao.com/

Breves momentos com a Casa da Passarella

Texto Ilkka Sirén | Tradução Patrícia Leite

Eu gosto de vinho. Eu gosto de comida. Eu gosto de estar com boa gente. Gosto particularmente de todas estas coisas juntas. Sempre que possível, tento rodear-me de pessoas com quem gosto de passar uns bons momentos, a maioria das quais partilha o meu entusiasmo por tudo o que seja apetitoso. Nunca tive problemas em apreciar um ou dois copos sozinho, mas o vinho, como a comida, é uma coisa que é realmente melhor quando partilhado.

Acho que essa é uma das principais razões pelas quais eu adoro Portugal. Não é preciso muito para convencer um Português a desfrutar de um copo de vinho connosco, a partilhar um pouco de comida, a partilhar um breve momento nesta nossa vida errática. Por muito lamechas que soe, a vida é uma compilação desses breves momentos. Portanto, dentro deste espírito, eu convidei alguns amigos para provar uns vinhos da região do Dão.

Casa da Passarella é uma propriedade que tem uma daquelas histórias tipo “adega arruinada salva por milionário”. A propriedade data de 1892 e era um projecto muito ambicioso de um senhor chamado Amand d’Oliveira. Plantaram 200 hectares de vinhas, que imagino tenha sido uma tarefa árdua naquela altura. Algumas dessas vinhas ainda existem. Mas como acontece com tantas outras propriedades, tudo acabou em ruinas. Pelo menos até 2007, quando a propriedade foi adquirida por Ricardo Cabral. Uns anos e uns milhões de euros depois, bada-bing-bada-boom, a Casa da Passarella começa a dar cartas novamente.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Portanto, os meus amigos vieram cá a casa e eu abri uma garrafa de Casa da Passarella O Enólogo Encruzado 2012. O vinho começou tímido, mas passado um bocado começou a abrir. A maior parte dos encruzados que vejo aqui na Finlândia são muito relaxados e normalmente, bastante maduros mostrando toneladas de frutas tropicais. Podem ser bastante agradáveis, mas não é o estilo que normalmente escolho. Contrariamente, este vinho era menos frutado e mais contido, mostrando agradáveis citrinos e aromas de ervas verdes com um final longo, de deixar água na boca. Eu desafiei um bocado o vinho, ao emparelhá-lo com uma salsicha txistorra picante. Foi pura e simplesmente pecaminoso, e por pecaminoso quero dizer, pecaminosamente delicioso. A ligeira viscosidade do encruzado funcionou bem com as especiarias e a acidez cortou a gordura da salsicha, tornando a combinação deliciosa.

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Salsicha Chistorra & Casa da Passarella O Enólogo Encruzado 2012 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois veio a altura do tinto. Provamos o O Oenólogo Vinhas Velhas 2010 tinto, um vinho feito de vinhas velhas com uma mistura de castas locais como Baga, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Jaen, Tinta Carvalha etc. O nariz era especiado com boa fruta vermelha. O que eu gosto nestes vinhos do Dão que vêm de perto da Serra da Estrela é que são tendencialmente frescos. É sem dúvida uma região mais fresca, o que se consegue provar nos vinhos. Este vinho tinha uma boa estrutura, cheio de corpo e equilíbrio. Estava à espera de algo mais “rústico” mas, pelo contrário, revelou-se bastante polido. Cheio de corpo, taninos suaves, gosto persistente. Muito bebível agora mas dentro de 5 a 10 anos pode transformar-se num verdadeiro sedutor de deixar cair o queixo.

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Casa da Passarella O Oenólogo Vinhas Velhas 2010 Tinto – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Portanto, ali estávamos nós. A beber, a comer, a rir enquanto víamos o sol a pôr-se em Helsínquia. Só foi preciso um pouco de vinho, um bocadinho de comida e alguns amigos para me fazer, durante aquele breve momento, verdadeiramente feliz.

Contactos
Casa da Passarella
Rua Santo Amaro, 3, Passarella
6290-093 Lagarinhos
Telefone: 00 351 238 486 312
Email: info@casadapassarella.pt
Site: www.casadapassarella.pt

As DO e IG Portuguesas

Texto Patrícia Leite 

Os vinhos portugueses contam com 31 Denominações de Origem (DO) e 14 Indicações Geográficas (IG). Para conhecer este património colectivo tão vasto e único, podemos começar por identificar essas DO e IG e as entidades que as certificam. Antes disso, revisitamos os conceitos de DO e IG e de Entidade Certificadora.


Legenda
DO: Denominação de Origem;
IG: Indicação Geográfica;
EC: Entidade Certificadora;
Produtos vitivinícolas: vinhos, vinhos espumantes, vinhos frisantes, vinhos licorosos, vinagres de vinho, aguardentes de vinho e aguardentes bagaceiras;
Certificação de produtos vitivinícolas: processo de validação da conformidade do produto com os requisitos definidos pela Entidade Certificadora para a DO ou a IG, o qual é evidenciado, no caso dos produtos engarrafados, através do selo de garantia constante da garrafa.

Denominação de Origem (DO) e Indicação Geográfica (IG)

No sector dos vinhos, uma DO é o nome geográfico de uma região (ou uma denominação tradicional, associada a uma origem geográfica ou não) que serve para identificar um produto vitivinícola:
– cuja qualidade ou características se devem, essencial ou exclusivamente, ao meio geográfico, incluindo os factores naturais (ex: clima, solo, castas) e humanos (ex: técnicas de vinificação);
– cujas uvas provêm exclusivamente dessa região;
– e cuja produção ocorre no interior dessa região.

O conceito de IG difere do conceito de DO essencialmente nos seguintes pontos:
– a qualidade, reputação ou outras características do produto podem ser atribuídas a essa origem geográfica, não sendo relevantes os factores humanos, como na DO;
– pelo menos, 85% das uvas utilizadas são provenientes exclusivamente dessa região, não a totalidade das uvas, como na DO.

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Douro | © Blend All About Wine, Lda

Em ambos os conceitos, a produção deve localizar-se no interior da área geográfica delimitada, sendo que “produção” abrange todas as operações desde a vindima até ao termo do processo de vinificação, ficando excluídos todos os processos posteriores a esta.

Na prática, um vinho com DO provém exclusivamente de uvas da região demarcada, mas um vinho com IG pode ser produzido até 15% com uvas de outra origem geográfica, que não a área de produção da IG.

Além disso, para serem certificados com DO os vinhos devem preencher requisitos mais apertados, por exemplo quanto ao teor alcoólico, às castas utilizadas, aos métodos de vinificação, às práticas enológicas, às características organolépticas (cor, limpidez, aroma e sabor), entre outros.

[Sobre este tema, poderá também consultar o nosso artigo anterior]

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© Blend All About Wine, Lda

As Entidades Certificadoras

Em 2004 foi criada no sector dos vinhos português a figura das Entidades Certificadoras (EC) para exercer funções de controlo da produção e comércio e de certificação de produtos vitivinícolas com DO e/ou IG.

Uma EC e o respectivo laboratório devem estar acreditados pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC), para o controlo e certificação dos produtos vitivinícolas com direito a DO ou IG (norma NP EN 45011) e para os ensaios físico-químicos inerentes ao controlo e certificação (norma NP EN ISO/IEC 17025).

Assim, as entidades já existentes no sector, ou seja as Comissões Vitivinícolas Regionais, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P. e o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P., tiveram de se candidatar à designação de EC para continuar certificar a respectiva DO e/ou IG.

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© Blend All About Wine, Lda

Nove das catorze entidades do sector já estão a acreditadas pelo IPAC, estando em curso os restantes processos de acreditação, conforme informação do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. de 31 de Agosto de 2013  (Ver pdf)

[Sobre este tema, poderá também consultar o nosso artigo anterior]  previous article

Quem certifica o quê?

No quadro infra, indicamos as DO e as IG existentes em Portugal e as respectivas EC. A cada região vitícola corresponde um número de localização do mapa obtido em www.viniportugal.pt, que aqui reproduzimos.

Tabela “Quem certifica o quê?” © Blend All About Wine, Lda

Contactos
Comissões Vitivinícolas Regionais e Outras Entidades Certificadoras
Instituto da Vinha e Do Vinho I.P.

Da escrita ao Vinho: Parte 3 – Os Vinhos de Tiago Teles

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Teresa Calisto

Tiago Teles nasceu em Paris e apanhou o bichinho do vinho em França, enquanto estudante de Telecomunicações em Toulouse, através do programa de intercâmbio de estudantes Erasmus (os pais de Tiago regressaram a Portugal quando ele tinha dois anos de idade).
Ao aperceber-se, como diz, “do quão extraordinário pode ser o vinho”, a sua percepção do vinho mudou profundamente. Tendo sido criado com vinhos relativamente simples, como os das propriedades da família dos seus pais de Vinho Verde e Bairrada, Tiago explica que, antes de ir para França, ele via o vinho como nada mais do que algo “naturalmente presente na dieta… algo nutritivo.”

Depois do seu percurso de Erasmus, Tiago regressou a Portugal. As provas na sua loja de vinho local, em Campo de Ourique – “uma velha loja de vinho” – despertaram ainda mais o seu interesse pelos vinhos. Na realidade, não demorou muito até que Tiago aliasse as suas competências técnicas à sua paixão pelo vinho, co-fundando o fórum online sobre vinho, Os5às8.

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Tiago Teles & Vinhas – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Entre 2002 e 2006, Os5às8 permitiu-lhe praticar e consolidar as suas competências como crítico de vinho. Foi também o co-autor de quatro edições de um guia anual de vinho. De seguida, Tiago co-fundou o site NovaCrítica-vinho, para o qual trabalhou como crítico de vinho entre 2007 e 2009 e co-autorou o guia “Portal Portugal Guia de Vinhos Portugueses e Estrangeiros” 2008 e 2009.

Quando ele descreve a prova de vinhos como “uma busca incessante de equilíbrio entre “nós” e a experiência de vida”, seria talvez inevitável que o próximo passo de Tiago fosse produzir o seu próprio vinho. Juntamente com o seu pai, um co investidor, o escritor de vinhos autodidacta/futuro produtor, embarcou numa viagem de descoberta que envolveu visitar vinhas durante vários anos e culminou no Gilda, um vinho tinto. Gilda ganhou o seu nome do barco de madeira retratado no rótulo, que o avô de Tiago construiu e ao qual deu o nome da sua mulher.

Durante estas viagens, diz o Tiago, “nós observamos e provamos inúmeros estilos de vinho e castas”, acrescentando “eu precisava mesmo de amadurecer e me tornar humilde em relação ao vinho, provando muito, observando, libertando-me do desejo humano de controlar e disciplinar a natureza do vinho”, principalmente quando “vinhos sem natureza são os menos inspirados.” Os vinhos de Tiago são feitos com leveduras indígenas, sem enzimas, acidificação, filtragem ou clarificação, para que não se “distorça” o vinho.

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Tiago Teles na Adega – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Claro que é impossível escapar por completo ao desejo de controlar e disciplinar a natureza do vinho, porque os seres humanos dão necessariamente forma ao conceito ou estilo do vinho. Para Tiago e seu pai, o conceito é “produzir bom vinho, com um carácter popular… os vinhos devem ser bebidos por qualquer pessoa” e “transmitir a simplicidade do vinho criado para o seu propósito histórico, que é refrescar e acompanhar refeições a qualquer momento, em qualquer lugar.” “Fazer vinhos caros não é um objectivo,” afirma Tiago; em Portugal, o Gilda é vendido por 9€.

Quanto ao que ele quer dizer com “bom vinho”, Tiago define-o como elegante, digestível, vinho puro. Na sua opinião, as castas são menos importantes, na verdade “não relevantes”.

Antes, está convencido que a melhor maneira de expressar a localização é através de álcoois equilibrados e de extracções suaves, “caso contrário, o açúcar irá simplesmente remover a expressão mineral e vegetal.”

É uma afirmação provocadora, quando o seu vinho é produzido numa região que tem vivido alguma controvérsia relativamente a que castas obtêm o selo de garantia oficial e podem usar a indicação de origem Bairrada. Tiago afirma que “a Bairrada é uma região, não uma uva” e mantém que “as castas, independentemente de quais sejam, devem transportar o local” nomeadamente “transmitindo exactamente o calcário e o perfil fresco da Bairrada.”

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Gilda – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Apesar de ser fã da velha vinha Baga (a casta tinta tradicional da Bairrada), na sua opinião “devido à sua diversidade de solo e influência atlântica, a Bairrada é uma região que tipicamente beneficia de blends e é também apropriada para uvas que amadureçam cedo.” Motivo pelo qual ele está “bastante feliz” com o Merlot que obteve do coração da Bairrada e misturou com Castelão e Tinto Cão para a primeira colheita de Gilda 2012. Diz, “respeitamos as pessoas que plantaram Baga há 80 anos e respeitamos as pessoas que plantaram Merlot há 25 anos. Contextos diferentes, convicções diferentes. Mas certamente, um bom legado para a Bairrada.”

É, portanto, curioso que o Gilda não esteja rotulado Bairrada, mas antes Vinho de Portugal? Tiago admite que, por um lado, tinha medo de desapontar os fãs do estilo robusto, tradicional da Bairrada (Baga). Por outro lado, tinha receio de alienar as pessoas que procurassem o seu estilo preferido (elegante, digestível). No entanto, em 2013 ele terá a coragem das suas convicções e o Gilda (nesta colheita um blend de Merlot, Tinta Barroca e Tinto Cão) será rotulado Bairrada. Estão também em movimento, planos para recuperar uma velha propriedade na região dos Vinhos Verdes, pertencente à mãe de Tiago e fazer um vinho branco. E assim, a viagem

Contactos
Tiago Teles Vinhos de Portugal
Campolargo 3780-180 S. Mateus – S. Lourenço do Bairro – Portugal
Email: tiagoteles@outlook.pt
Site: www.tiago-teles.pt

BARBEITO – A Hora das Malvasias

Texto Olga Cardoso

Falar de vinhos Barbeito é falar, em primeiro lugar, de tradição com paixão. Tudo começou em 1946 com Mário Barbeito Vasconcelos, numa altura em que existiam mais de 30 produtores e exportadores de vinhos Madeira. Hoje em dia existem apenas sete.

Em 1985, com o falecimento de Mário Barbeito, foi a sua filha Manuela Vasconcelos, quem assumiu a gestão da empresa, tornando-se na primeira mulher a exercer a actividade de exportação de vinhos Madeira. Em 1991, Manuela passou o testemunho ao seu filho, Ricardo Diogo Freitas. Apesar de manter o respeito por métodos tradicionais, Ricardo trouxe uma nova energia e espírito de inovação aos Vinhos Barbeito.

Gosto do seu atrevimento e da forma “rebelde” como encara a produção dos Madeira. Marcou a diferença ao lançar vinhos únicos, de cascos únicos e vinhas únicas. Para além disso, foi também um dos primeiros a valorizar a Tinta Negra (casta que não faz parte das chamadas castas nobres), através do envelhecimento da mesma no tradicional método de canteiro.

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Diploma – © Blend All About Wine, Lda | Todos os Direitos Reservados

Eu costumo chamar-lhe o Dirk Niepoort da Madeira. E é disto que o país precisa. Pessoas que pensem fora da caixa e que elevem o nome de Portugal e dos vinhos Portugueses.

Produzir vinhos e vendê-los nos mercados internacionais é hoje muito distinto do que era há 30 anos atrás. Competimos com grandes marcas e grandes países produtores. Por essa razão, impõe-se pensar diferente, fazer diferente e ser diferente! Somos muito pequenos, nunca poderemos competir em volume, mas poderemos competir em qualidade e singularidade.

Singularidade é coisa que não falta aos vinhos Madeira. São vinhos emocionais, vinhos intelectuais que contam com o tempo e a mestria de quem os faz…vinhos que envelhecem suavemente e para os quais o tempo é um factor de qualidade e distinção!

A Barbeito produz excelentes vinhos provenientes das diferentes castas Madeirenses, mas é de Malvasias que irei agora falar, até porque esta casta tem uma relação intrínseca com este produtor, quanto mais não seja por ser a casta preferida de Manuela Vasconcelos.

MALVASIA 2002 – Casco Único 260 D + E
Este vinho foi envelhecido em cascos de carvalho francês segundo o método tradicional de Canteiro. Nos seus aromas primários predominam o pêssego e as nectarinas. Mas são o caramelo e os frutos secos que se fazem mais sentir. Senti ainda algum caule e vegetal. A boca é densa e volumosa, doce como é típico de um Malvasia, mas anda assim, pareceu-me mais seco que a maioria dos Malvasias existente no mercado. Boa concentração, com notas de figos e casca de laranja. Elegante e com notável acidez, deverá ser servido e desfrutado a uma temperatura entre os 12 e os 14 graus.

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Malvasia (Single Cask) – © Blend All About Wine, Lda | Todos os Direitos Reservados

MALVASIA 20 YEARS – Lote 14050
Pareceu-me um vinho muito moderado no nariz. Fino e delicado. Elegante e com grande chame. Cativa pela contenção olfactiva que depois explode em enormes sensações no palato. Na boca é pungente, profundo e poderoso. É aqui que ele mostra toda a sua raça.

Imagino que seja um grande desafio para o produtor fazer um vinho destes. Quase feito a metro e esquadro. Tudo muito bem pensado e executado. A mestria da mão humana faz-se bem sentir aqui.

Foram produzidas apenas 1020 garrafas e quem tiver a oportunidade de o comprar, dará certamente o seu dinheiro por bem empregue. Apesar de poderoso, consegue ser também fino e bem cuidado. O seu final de boca revela toda a sua finura, acidez complexante e enorme persistência.

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Malvasia 14050 – © Blend All About Wine, Lda | Todos os Direitos Reservados

MÃE MANUELA – 40 Years
E eis que chegamos ao crème de la crème das Malvasias! Uma forma de terminar um artigo em apoteose! Sendo a Malvasia a casta preferida de Manuela Vasconcelos, Ricardo Diogo, resolveu fazer um tributo à sua mãe, engarrafando 1050 garrafas deste precioso vinho feito a partir de uma mistura de Malvasias com 40 anos e alguns vinhos mais velhos da colecção privada da família.

Com evidentes aromas a frutos secos e caramelo, são ainda percetíveis as suas notas de frutos cítricos e casca de laranja. Quase tudo é possível detectar-se neste vinho tal a sua complexidade. Figos secos, folha de tabaco e toques de madeira velha, são também bastante notórios.

Este vinho já mereceu enormes elogios por parte da imprensa especializada, nacional e internacional, e é muito fácil perceber a razão. Nobre, estruturado e elegante, mostra uma boca apaixonante, com uma acidez picante e um final muito focado…quase interminável!

Existem vinhos de antologia??? Então este é um deles…!!!

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Mãe Manuela © Blend All About Wine, Lda | Todos os Direitos Reservados

Veja aqui e aqui a opinião da Sarah Ahmed – The Wine Detective. 

Contactos:
Barbeito Wines
Estrada da Ribeira Garcia
Parque Empresarial de Câmara de Lobos – Lote 8
9300-324 Câmara de Lobos – Madeira – Portugal
Telefone: 00 351 291 765 832
Email: info@vinhosbarbeito.com.pt
Site: http://www.vinhosbarbeito.com

Uma Tarde em Camarate com Domingos Soares Franco

Texto José Silva

Domingos Soares Franco dispensa apresentações no mundo do vinho. Pertence à família proprietária da empresa José Maria da Fonseca , onde é também o responsável da enologia, mas é acima de tudo um apaixonado do vinho e um pesquisador, sempre insatisfeito, sempre a tentar fazer melhor e a tentar fazer coisas diferentes.

O seu trabalho é certamente uma das grandes razões do sucesso dum dos maiores produtores de vinho portugueses. Mas é também uma pessoa divertida que gosta de se relacionar com muita gente, e de apreciar as coisas boas da vida. Todos os anos, em Junho, Domingo Soares Franco convida um pequeno grupo de jornalistas que também são seus amigos para um almoço absolutamente informal na sua casa de Camarate, onde a primeira regra é que cada um leve uma garrafa de vinho, às quais Domingos Soares Franco junta meia dúzia de garrafas da casa.

A segunda regra é que não há regras: provam-se os vinhos (que entretanto foram colocados em várias champanheiras com gelo para estarem à temperatura adequada), trocam-se opiniões, fazem-se comparações, recordam-se outras provas, outros vinhos, outros estilos. Com todos os convidados já presentes, a que se juntaram a mulher e o filho de Domingos Soares Franco e o seu sobrinho António, sentamo-nos à mesa, para uma refeição simples mas completa.

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Vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Antes já se tinham petiscado uns frutos secos, umas tostas, pão e um queijo de Azeitão, curado, seco, que a mulher de Domingos Soares Franco não queria que ele colocasse na mesa, tal era o mau aspecto!

Mas Domingos, conhecedor quer do produto quer do gosto dos seus convidados, nem hesitou em colocá-lo na mesa. E o queijo lá desapareceu num ápice! Já se tinham provado os espumantes Terras do Demo Malvasia Fina e Terras do Demo Touriga Nacional, o alvarinho Nostalgia de 2013 e o II Terroirs do mesmo ano, e um branco do Dão da Quinta dos Carvalhais, que estiveram muito bem, cheios de vivacidade e frescura, a desaparecerem rapidamente.

E veio a primeira surpresa de Domingos Soares Franco, uma comparação entre dois brancos da casa, com alguns anos de garrafa, que é assim que o enólogo os quer: o Pasmados Branco 2009 que está cheio de estrutura e complexidade, com uma bela acidez e a madeira muito bem integrada, que foi comparado com o seu “avô” Pasmados de…1963, uma coisa muito séria, evoluído, sedoso, seco, brilhante! A dar muito boas indicações para a possibilidade de envelhecimento destes vinhos.

Ainda passaram pela mesa o Casal Santa Maria Pinot Noir 2011, o Mapa 2010, o Casa da Pasarela O Enólogo 2010 e o Painel 2001, todos em muito boas condições, a dar-nos muito prazer a beber.

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Batuta 05 | Pasmados – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Voltando à mesa de almoço, foram servidos uns camarões grandes com maionese, alface e espargos, muito saborosos. E continuamos a nossa prova de vinhos, agora na companhia de óptima comida. Até havia um Ribeira del Duero 2003, um Mythos 2005 e um Batuta 2005, ainda em muito bom nível, com aquele toque dos tintos já com alguns anos e ainda a subir.

Aos camarões seguiu-se um prato com grande tradição na casa, uma sopa suculenta de ervilhas com chouriço e ovo escalfado, que fomos repetindo enquanto aguentamos, sempre na companhia daqueles vinhos fantásticos. Embora todos eles já tivessem sido provados nesta altura da refeição, voltaram aos copos os Romeira 1987, Bairrada Vinus Vitae 1987 e Quinta das Cerejeiras 1995, cheios de saúde, equilibrados, elegantes.

E veio então a segunda surpresa de Domingos Soares Franco, um tinto Colares de 1969, um clássico, aquela elegância no nariz, sedoso na boca, a dar prazer até à última gota. E uma relíquia dos vinhos portugueses, o José de Sousa Rosado Fernandes de 1940, um vinho absolutamente extraordinário, de que Domingos Soares Franco teve a ousadia de abrir duas garrafinhas! Difícil de descrever, absolutamente fantástico! Já não o provava há alguns anos, meu Deus, como continua exuberante, perfeito!!!

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Trilogia – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Chegada a ocasião das sobremesas, que foram colocadas no balcão – e das quais fazia parte obrigatória a verdadeira torta de Azeitão – vieram os licorosos, que em Azeitão são os moscatéis e também um vintage de 2000 da Ramos Pinto.

Passaram pelos copos o Alambre 20 anos (veja aqui um artigo Blend sobre este vinho), sempre seguro, muito agradável, e um delicioso Bastardinho 30 anos, cheio de elegância, uma acidez incrível, fresco, sedoso mas com uma bela estrutura, um grande vinho. E cantaram-se os parabéns, pois o filho de Domingos fazia anos.

Mas Domingos Soares Franco preparava a última surpresa da tarde: uma garrafa de Trilogia, um vinho exotérico, incrível, soberbo. Um vinho de contemplação! Depois disto, ficamos arrumados, a vociferar impropérios a Domingos e a lembrarmo-nos do patinho feio dos desenhos animados quando dizia: “It’s an injustice, it is!!!”

O sorriso aberto e franco de Domingos Soares Franco acompanhou-nos até casa, com satisfação.

Até para o ano Domingos, em Camarate…

Contactos
José Maria da Fonseca, S.A.
Quinta da Bassaqueira, Estrada Nacional 10
2925-542, Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, Portugal
Tel: 351 212 197 500
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Roques & Maias – Os Novos Clássicos do Dão

Texto João Pedro de Carvalho

Se há produtores marcantes quer ao nível da Região quer ao nível dos vinhos que produz, o proprietário da Quinta dos Roques (Mangualde) e da Quinta das Maias (São Paio de Gouveia) é seguramente um desses casos, assumindo-se como um dos melhores produtores de Portugal e um dos pilares da Região do Dão.

A Quinta dos Roques fica situada a 450 metros de altitude, onde predominam os solos arenosos com presença de granito. Num total de 40 hectares divididos em 12 parcelas, viu em 1978 o seu vinhedo ser reconvertido para o que conhecemos hoje em dia. A Quinta das Maias fica situada no sopé da Serra da Estrela, em pleno Parque Natural a 600 metros de altitude, sendo a vinificação feita, desde 1992, na Quinta dos Roques.

A característica dominante desde que surgiram em 1990 é o fantástico equilíbrio que os seus vinhos conseguem mostrar entre elegância e potência, numa combinação perfeita entre o clássico e o moderno, aliada a uma tremenda vocação gastronómica. Neles encontramos um fio condutor que se soube manter através do tempo e ao longo da sua gama, tal como uma invejável consistência colheita após colheita, sempre alheados de modas ou das tentações mercantilistas do agrado fácil, mostram uma saudável austeridade que mesmo assim lhes permite um desfrute pleno enquanto novos.

FOTO 1 - ROQUES

Quinta das Maias (Jaen 1999) – Quinta dos Roques (Touriga Nacional 1999 | Alfrocheiro Preto 1999 | Reserva 1999) – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O grande responsável por tudo isto é Luís Lourenço, membro do grupo de produtores Independent Winegrowers Association e um dos pioneiros e principais responsáveis pelo ressurgimento do “novo” Dão, aquele que em parte hoje conhecemos e apreciamos. Mantendo-se leal no que toca à região, quebrou em parte com os tradicionais vinhos de lote e cedo decidiu vinificar a solo as castas de que dispunha. Daqui resultou um melhor entendimento das castas e dos seus locais, permitindo aprimorar o perfil dos vinhos produzidos, tanto nos Roques como nas Maias e entender qual o melhor contributo de cada uma para o lote final. O culminar desses seus estudos surge pela primeira vez no ano de 1996 com o lançamento dos seus primeiros monocasta a que chamou Colecção e cuja iniciativa se tem repetido até aos dias de hoje sempre que os anos tenham qualidade para tal. Durante os primeiros anos a enologia esteve a cargo do Prof. Virgílio Loureiro que deu lugar em 2002 a Rui Reguinga.

Início de prova com o branco Quinta dos Roques Encruzado, um vinho que precisa de descansar dois a três anos após ser colocado no mercado para ganha uma outra dimensão, a nível da complexidade de sabores e aromas. Neste caso é um 2004 que com dez anos se mostra na plenitude das suas capacidades. Nos tintos foi feita uma pequena retrospetiva do ano 1999 em que todos os vinhos em prova se apresentaram com 12,5%Vol., estando presente o Quinta das Maias Jaén, Quinta dos Roques Alfrocheiro Preto, Quinta dos Roques Touriga Nacional e Quinta dos Roques Reserva.

Quinta dos Roques Encruzado 2004 (DOC Dão): Espetacular envolvência de aromas, complexidade envolta numa onda fresca com toque melado. Fruta (Citrinos) madura, suculenta, resina, rebuçado de limão, profundo e cativante. Boca com boa frescura a envolver a fruta, untuoso, grande presença com muita harmonia, final longo e persistente.

FOTO 2 - ROQUES

Encruzado Quinta dos Roques 2004 – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Quinta das Maias Jaén 1999 (DOC Dão): É um miminho bom, cheio de fruta (amora, cereja, mirtilo) limpa, redonda e rechonchuda, envolta em frescura. Perfumado, sempre com um ligeiro toque rústico, bosque, flores, pinheiro. Delicada e refinada complexidade com palato de veludo tão característico do Dão, fresco e ainda com alguma garra a mostrar secura num prolongado e especiado final.

Quinta dos Roques Alfrocheiro Preto 1999 (DOC Dão): Mais escuro e fechado que o Jaén, fresco, fruta densa e mais gulosa com destaque para morango, bagas silvestres muito envolvente com rama de tomate e especiarias a complementar. Entra mais saboroso e domado na boca, mais acidez presente envolta por uma capa vegetal, muita e boa fruta pelo meio num conjunto de grande presença e envolvência, final longo.

Quinta dos Roques Touriga Nacional 1999 (DOC Dão): Sente-se a Touriga no nariz, violetas, bom perfume, evolução grande no copo com fruta resplandecente e muito madura (bagas, mirtilos, bergamota), baunilha, caruma, pinheiro, chocolate e tabaco num conjunto profundo e conversador. Boca com enorme vida e presença, muita classe com harmonia e sabor marcado pela fruta opulenta que se mastiga, folha seca de tabaco, final longo e persistente deste glorioso Touriga Nacional.

Quinta dos Roques Reserva 1999 (DOC Dão): Mostra a arte e mestria do lote, depois de provadas algumas das principais castas que lhe compõem o lote, faltou Tinta Roriz e Tinto Cão. Perfeito entendimento das castas num conjunto cheio de classe, terciários de grande qualidade, fina complexidade de um conjunto muito composto, fresco e apelativo. Boca com frescura, fruta viva e saborosa a marcar o palato, boa concentração em equilíbrio com acidez e corpo de média estrutura. Sem cansar, este vinho brilha à mesa com a mais variada gastronomia. Um prazer.

Contactos
Quinta dos Roques
Rua da Paz – Abrunhosa do Mato
3530-050 Cunha Baixa – Portugal
Phone: 00 351 232 614 511
Email: info@quintaroques.pt
Site: www.quintaroques.pt/

Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério”

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Teresa Calisto

Se existe um estilo de vinho firmemente associado com o Verão e o espírito das férias é sem dúvida o Rosé. Será coincidência que o Brasil, um país sinónimo de sol e espírito de férias, tenha sido o público-alvo do Mateus Rosé quando este foi lançado pela primeira vez em 1942?

Quanto a nós Britânicos, quando entrevistei o Sir Cliff Richards há uns anos atrás, ele disse-me que é fã de, adivinhem, Mateus Rosé desde que comprou a sua primeira casa no Algarve, nos anos 60. Parece portanto que o espírito das férias da estrela de “Summer Holliday” chegou em força, e na realidade talvez seja o elixir da juventude do cantor ainda com ar de rapaz.

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Mateus Expressions – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas ao longo da última década, tem havido uma grande mudança entre os consumidores que, nos dias de hoje, estão a disfrutar do rosé o ano inteiro e não apenas durante as férias ou no Verão. Na realidade, no ano passado no Reino Unido, uma em cada oito garrafas de vinho compradas em supermercado eram Rosé, quando no ano 2000 eram apenas uma em cada 40. A base das vendas de vinhos tem sido as opções agora populares e até na moda, de vinhos correntes mais doces.

Apesar do Mateus Rosé continuar a ter um desempenho acima da média nesta categoria, as marcas californianas, como a Blossom Hill, Gallo e Echo Falls, têm sido sem sombra de dúvida os maiores beneficiários do fenómeno Rosé. Como foi prova o meu painel no Decanter World Wine Awards, regra geral os rosés de baixa gama Portugueses, falharam miseravelmente em construir o seu sucesso a partir da fama do Mateus Rosé, graças ao uso grosseiro de açúcar residual e à falta de frescura.

Contudo, estando na moda, há uma nova tendência: o rosé “a sério” e, vejam lá, o Brad Pitt e a Angelina Jolie produzem um: Chateaux Miraval de Provence! Até o Mateus se tornou mais sofisticado, com o lançamento de uma nova gama alta, Mateus Expressions (na imagem). E fico muito contente de dizer que encontrei recentemente fortes provas que sugerem que Portugal poderá apresentar melhores resultados com esta nova tendência, focada na qualidade e na complexidade. Aqui ficam as minhas escolhas de Rosés “a sério” de entre as opções Portuguesas:

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Principal Rosé Tête de Cuvée 2010 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Principal Rosé Tête de Cuvée 2010 (Bairrada)

“Tête de Cuvée” é um vinho produzido a partir da primeira prensagem das uvas, o que quer dizer que normalmente é mais puro e de qualidade superior. Principalmente quando, como este vinho, é feito no Rolls Royce das prensas – uma Coquard Champagne – a partir da primeira prensagem (600 lt.) de Pinot Noir, destinado aos vinhos espumosos (comentados abaixo). O sumo prensado passa ao ritmo da gravidade para pequenos tanques (suavemente, mais uma vez), o que também explica a sua tonalidade de um bege rosado super pálido e palato subtil, salino e apetitoso. Cremoso, mas fresco e suavemente frutado (ruibarbo/morango), é muito longo e persistente. Um Rosé seriamente gastronómico – muito provavelmente o melhor que provei de Portugal. Excelente. 12.5% apv (álcool por volume)

Colinas Espumante Bruto Rosé 2009 (Bairrada)

Uma efervescência muito impressionante, salmão, 100% Pinot Noir, que envelheceu durante 3 anos sobre as borras. Tem muita energia e tensão. Apenas uma alusão a arrastamento verde, sobre a impressão geral de aridez e constrição. Um final longo, focado e seco, com uma lágrima fina, muito persistente. Uma estrutura adorável. Excelente. 12.5% apv

Casa de Saima Rosé 2013 (Bairrada)

Cingindo-se às uvas portuguesas desta vez (Baga com apenas um toque de Touriga Nacional) este Rosé da Bairrada, pálido mas brilhante, é fabulosamente salino, fresco e seco. O centro firme e ácido da Baga traz grande energia e linha à sua delicada e crocante fruta vermelha (arando) 13% apv.

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Casa Ferreirinha Vinha Grande Rosado 2012 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Casa Ferreirinha Vinha Grande Rosado 2012 (Douro)

As marcas Casa Ferreirinha e Mateus pertencem à Sogrape. Enquanto o Mateus Expressions de alta gama é ainda bastante comercial (doce), este rosé seriamente pálido e seco, é ao mesmo tempo, de qualidade e complexo. Com origem 100% Touriga Nacional (que parece funcionar muito bem para os rosés) e do ponto mais alto da Quinta do Sairrão (a 650m) é delicadamente frutado, com um palato texturado (suavemente cremoso), com especiarias, apetitoso (nozes) e mineral. Um rosé adorável, nada pomposo, mas ao mesmo tempo sofisticado, com uma acidez finamente equilibrada. Muito bom. 12% apv

Quinta do Perdigão Rosé 2013 (Dão)

José Perdigão, arquitecto e produtor de vinhos orgânicos a tempo inteiro, está habituado a dar 300% a tudo e, quando ele me disse que este era o Rosé mais sério que já tinha produzido, eu sabia que estava prestes a provar um deleite raro. Comparado com as minhas outras recomendações, tem uma tonalidade rosa muito profundo – parecido com a cor dos notáveis rosés Australianos Grenache! Também é similarmente muscular no palato. A razão? Em 2013, o Dão passou por condições desafiantes na altura da colheita, com momentos de chuva intensa e explosões de tempo quente. Alguma da fruta para este vinho chegou com Baumé muito elevado (com potencial teor alcoólico de 15.5 a 16%!). Consequentemente, Perdigão introduziu, pela primeira vez e muito astutamente, caules de uva à fermentação, o que trouxe perfume, frescura e ajudou a baixar o grau alcoólico. Assim, no final de contas, obteve uma situação win-win: fruta fabulosamente exuberante (baga vermelha, groselha e cereja) e um bom corpo com equilíbrio. Quanto à complexidade, as notas minerais e florais de assinatura do Dão estão bem presentes neste blend de Touriga Nacional, Jaen e Alfrocheiro. Como diz Perdigão “não é um rosé de piscina”. Recomenda ainda que acompanhe atum seco e wasabi. Muito original (talvez até único dado o ano de produção). Muito bom. 13.5% apv

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José Perdigão – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Julia Kemper Elpenor Rosé 2013 (Dão)

O rosé de Kemper também é feito a partir de fruta orgânica, mas não podia ser mais diferente. Feito de 100% Touriga Nacional é pálido e ultra delicado, com suaves notas a fruta vermelha e a flores (violetas). Deliciosamente estaladiço e seco com acidez fresca e mineral.

Muxagat MUX Rosé 2012 (Douro)

Este é um rosé realmente interessante – estou tentada a dizer intelectual, mas tenho receio que isso seja ir longe de mais! Bom, o que quero dizer é que tem pouca semelhança aos vinhos cor-de-rosa adocicados, baratos e alegres que podem ser encontrados em qualquer esquina e supermercado. Tudo isto tem lógica, tendo em conta que MUX vem de uma vinha muito elevada, a 700m. Além disso, é influenciado pelo tipo de rosés secos e apetitosos, que os amigos franceses de Mateus Nicolau de Almeida gostam de beber num dia de Verão (pense em Provence, Bandol, Tavel). Um blend de Tinta Cão e Tinta Barroca, que é fermentado e envelhecido parcialmente em tanque, parcialmente em barril (velho). Este vinho de um bege Rosado é cremoso mas seco e apetitoso com boa acidez, notas florais elevadas e de especiarias secas e um toque de chocolate no seu final duradouro. Muito melhor do que soa! Muito bom. 13% apv

António Madeira, A Estrela em Ascensão do Dão Serrano

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Estive recentemente num encontro de um grupo de wine bloggers Finlandeses. De vez em quando, este grupo de geeks sedentos encontra-se para provar alguns vinhos, normalmente “às cegas”, e comer boa comida. E já me conhecem, não é preciso muito para me convencer a comer e a beber.

Inicialmente era suposto fazermos um picnic ao ar livre, mas o tempo não esteve do nosso lado, por isso refugiamo-nos numa adega, localizada na baixa de Helsínquia. Toda a gente trouxe algumas garrafas e servimo-las “às cegas”, uns aos outros. A noite teve um começo dramático quando um dos bloggers deixou cair ao chão, uma garrafa de champagne Pommery NV dos anos 70, que se partiu juntamente com uma garrafa de Blanc de Noir, um vinho branco tranquilo de já-não-me-recordo-de-onde. Passados 15 minutos a praguejar e a desdenhar silenciosamente, continuamos com a prova. Na realidade, os rapazes conseguiram salvar parte do champagne antigo e vertê-lo em alguns copos de vinho, usando um filtro de café. Estava altamente oxidado e já tinha passado o seu auge há bastante tempo, mas ainda era bastante interessante para aqueles que gostamos de, ocasionalmente nos entregar à necrofilia viníca.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Havia todo o tipo de vinhos a ser servidos, do neozelandês Grüner Veltliner ao Pinot Noir Catalão. Um dos vinhos que eu trouxe, foi um António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011. Esta foi muito provavelmente, a primeira vez que foi provado na Finlândia e eu estava curioso por ouvir o que as pessoas pensavam do vinho.

António Madeira é um tipo francês mas que tem as suas raízes em Portugal. Começou a procurar uma vinha na região de vinho do Dão em 2010 e encontrou um vinhedo de 50 anos, que tinha sido negligenciado, no sopé da Serra da Estrela. António assumiu a tarefa de a recuperar e em 2011 produziu o seu primeiro vinho desta vinha. Eu tinha visto algumas fotografias deste lugar, que parece uma mini versão de Mendoza com a Serra nevada de fundo. Não tão grande nem dramática como os Andes, mas ainda assim muito bonita.

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Queijo – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quando o servi aos meus amigos wine geeks na prova cega, eles tiveram muita dificuldade em localizar com precisão a sua origem. Não porque não tivesse um carácter distintivo, mas apenas porque os vinhos do Dão são quase completamente desconhecidos na Finlândia. Uma situação que espero que mude no futuro. A hipótese mais próxima foi a Galícia. Depois de cheirar e de provar, ou melhor, depois de o beber, a opinião geral parecia muito positiva. As pessoas reconheceram que ainda era um vinho muito jovem, mas que tinha sem dúvida potencial para envelhecer bem.

Então, o que achei do vinho? Eu já o tinha provado uma vez no evento Simplesmente Vinho, no Porto. Lembro-me de ter provado muitos vinhos nesse dia. Nestes eventos vínicos, mesmo um bom vinho, pode escapar ao nosso radar. Fiquei feliz pela oportunidade de o provar outra vez. O que me surpreendeu neste vinho foi o facto de António, que é um rapaz novo, não ter exagerado. Poderá questionar-se “porque é que isso é tão surpreendente?” mas, da minha experiência, muitas vezes quando estes jovens ases fazem o seu primeiro vinho, têm tendência a produzir vinhos para impressionar os outros ou para provar um ponto de vista. Demasiada extracção, demasiado carvalho, demasiado “natural” ou qualquer outra aldrabice. Deve manter-se o ego fora da equação e deixar que as vinhas falem por elas próprias e, neste caso, parece que António fez precisamente isso. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito sobre os vinhos Dão Serrano no futuro.

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António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011

Esta velha vinha tem uma mistura de castas tradicionais Portuguesas como Tinta Pinheira e Negro Mouro. O vinho tem um toque muito clássico. Fruta vermelha viva com o aroma a pinheiro verde que encontro com frequência nos vinhos do Dão. Boa estrutura e frescura que lhe dá uma boa apetência a ser bebido, já nesta idade. O que poderá explicar por que motivo a garrafa se esvaziou tão rapidamente. Um vinho bem equilibrado que nos faz questionar por que motivo os vinhos do Dão não são conhecidos mundialmente. Bom, que seja ouvido! Estes vinhos conseguem conquistar as mentes e os corações de qualquer entusiasta vinícola de Tóquio ao Rancho Cucamonga.

Contactos
António Madeira
Tel: + 33 680633420
Email: ajbmadeira@gmail.com
blog “A palheira do Ti Zé Bicadas”
vinhotibicadas.blogspot.fr