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Bárbaro é o Rei dos Ostrogodos

Texto João Barbosa

Há uns anos percebi, através dum artigo numa revista portuguesa vínica, que o Antigo Regime – sistema que vigorou na Europa desde finais do século XVI até à Revolução Francesa – afinal subsiste.

Se fosse um cronista político, essa Excelência seria arrasado da Esquerda até à Direita, incluindo monárquicos (julgo que defensores do Absolutismo devem ser três). Esse fidalgo da Casa Real do Vinho, espanhol de nascimento, defendeu que há uma nobreza entre os apreciadores.

Essa nobreza é formada por pessoas que, embora seduzidas pelo efeito do álcool, não se deixam embriagar; coisa de bárbaros, de ignorantes, selvagens… não estou a exagerar, os termos foram basicamente estes.

O arauto do Rei do Vinho é, para mim, o bobo da Corte. Porque não sabe História nem de Antropologia, nem pensa no que escreve. Além dos bárbaros, o escrevinhador ainda acrescentou um patamar de enófilos não conscientes. Há povo, burguesia e nobreza. O clero ficou de parte, ou então o bobo é também cardeal.

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Totila, Rei dos Ostrogodos, reinou de 541 a 552. Pintura do século XVI, de Francesco de’ Rossi. (moderno)

Não estou a defender que se beba desregradamente ou de forma que possa criar sarilhos. Durante séculos, aliás milénios, o álcool foi mais do que prazer. O vinho foi fonte de calorias, de bebida saudável (beber água, sobretudo nas cidades, era um risco para a saúde, devido à poluição de imundices de toda a espécie) e fonte de prazer.

Obviamente que o tempo mudou, felizmente. Num documentário, realizado pelo sociólogo António Barreto, mostra-se que em 1979 havia crianças, na Fonte da Telha – nos arredores de Almada e Sesimbra – cuja dieta incluía sopas-de-cavalo-cansado. Este facto gravíssimo revela o estado de miséria que se viveu até à instauração da Democracia, mas também o modo como era visto o vinho no dia-a-dia.

O alcoolismo, com base no vinho ou outro produto, não é desejável em qualquer aspecto. Porém, há uma diferença entre alcoolismo, intoxicação e bebedeira numa farra. Se o vinho – o álcool – chegou aos nossos dias é, em grande parte, devido ao seu uso «mágico», indutor dum estado alterado de consciência.

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Teodorico, o Grande, Rei dos Ostrogodos, reinou de 475 a 526. Pintura medieval

Depois, à parte do alcoolismo, da intoxicação ou do beber até cair (binge drinking), há o civismo, substantivo que tem tanto de ébrio quanto de sóbrio. Quem quer festejar sem limite tem todo o direito de o fazer, critico se for manobrar máquinas, pondo em risco a sua vida e a dos outros, criando momentos de perigo.

Aliás, os povos do álcool – os que o têm na cultura – sabem, mais ou menos, lidar com a situação, o que não significa ausência de problemas. O National Geographic Channel transmitiu uma série de documentários acerca dos vícios e dos locais onde os tóxicos criam calamidade de saúde pública. Entre, as situações (repetidas) de crack, heroína, cocaína, analgésicos para cavalo (!!!) também apareceu o álcool – numa única situação.

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Palácio de Teodorico, em Ravena – onde grandes farras, por certo, aconteceram.

Nem todas as sociedades ameríndias (possivelmente a grande maioria) conheciam o álcool a quando da chegada dos europeus. As suas defesas são ainda hoje frágeis, em algumas regiões. Em algumas zonas remotas do Alasca, o consumo de álcool (destilado) equipara-se ao flagelo da heroína, como o verificado em Portugal na década de 90 do século XX. Uma garrafa de whisky em Anchorage vale mais de dez vezes nas zonas isoladas.

A moderação deve ser obrigatória. O civismo e a consciência no seu consumo deve inibir episódios de risco. Um grão-na-asa de vez em quando não é grave. Os «beatos» do vinho têm, certamente, as mesmas hipocrisias dos «beatos» doutras moralidades.

Eu e a minha sombra: Na estrada com Luís Sottomayor, vindima do Douro 2014

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

A cada vindima no Douro, Luís Sottomayor acumula em dois meses, cerca de 10 a 15 mil quilómetros em viagens até às várias vinhas e adegas para avaliar as uvas e fazer vinho. Trabalho duro! Mas, para o Enólogo Director da Sogrape, é, de longe, a sua época favorita do ano. No final de Setembro passei três dias a acompanhar Sottomayor para saber mais sobre a vida no dia-a-dia de um Enólogo Director numa vindima.

Então o que é que eu descobri na nossa viagem da vindima de 2014? Bem, para começar, deixem-me dizer que não foi surpresa nenhuma quando Sottomayor me confidenciou que teria seguido uma carreira no exército se não tivesse seguido a tradição da família e entrado no negócio do vinho. O homem tem nervos de aço. Supervisionar uma tão vasta vindima é quase equivalente a uma expedição militar, mesmo sendo a sua 26ª vindima.

Por um lado é necessário um delineamento estratégico, especialmente no pleaneamento antecipado. O primeiro passo consiste em averiguar as exigências de produção de cada um dos tipos de vinho, DOC Douro e Porto, bem como de cada uma das marcas (includindo Ferreira, Sandeman, Offley e Casa Ferreirinha). Depois é necessário saber qual a melhor maneira de responder a essas exigências, com recurso aos 500 hectares de vinhas da Sogrape e aos fornecedores (de uvas e vinho). Um plano  evidencia as uvas que serão escolhidas, quando e como.

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Na Quinta do Sairrão em S. João Pesqueira, preparados para a vindima, faça chuva ou faça sol – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Por outro lado uma “expedição” como uma vindima requer reacções rápidas. Onde não se considera as oscilações climatéricas da mãe natureza, compensa ser flexível. A vindima de 2014 é um exemplo perfeito. Embora Sottomayor e a sua equipa revejam semanalmente o plano delineado em Agosto, a chuva intensa obrigou a contínuas alterações do calendário das vindimas (talvez com um desvio de 20% em relação ao plano original, diz o prório Sottomayor). Além do mais, com a produção em baixa, foi necessário encontrar novas fontes de fornecimento de uva.

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Luís Sottomayor, ou o Sr. Tesouras de Poda como também é conhecido na Quinta do Caêdo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

É necessário um “exército” – entre 200 a 300 pessoas – durante o período das vindimas, o que significa que é essencial uma soberba capacidade de liderança. E Sottomayor, ou o Sr. Tesouras de Poda como também é conhecido, está perfeitamente preparado para dar o exemplo. O reconhecidamente exigente enólogo é fotografado na Quinta do Caêdo a retirar os cachos apodrecidos pela chuva. Naquele momento até me perguntei se ele iria assumir o papel de instrutor, subir as calças, entrar nos lagares e supervisionar a pisa da uva!

Mas estou a divagar. Vamos começar pelo princípio, na Quinta do Porto em Sabrosa, perto do Pinhão, onde passamos uma manhã húmida e nublada com o proprietário e viticulutor Vitorino a provar o Tinta Roriz. O objectivo? Avaliar o tamanho das bagas (que terá impacto na produção), quando deverão as uvas ser colhidas e qual o seu destino – no vinho do Porto ou do Douro e a que nível de qualidade. Para Sottomayor, apesar da utilização das imagens de satélite para ajudar na avaliação do nível de maturidade das uvas, não existe substituto a uma visita às vinhas para provar as uvas.

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Luís Sottomayor com Vitorino na Quinta do Porto – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Lição número um, evitar as uvas das vinhas que circundam o vinhedo. O solo é mais rico e mais produtivo e portanto não representativas. Então emaranhamo-nos no vinhedo onde provamos a Tinta Roriz de duas parcelas diferentes. Sottomayor reconhece então que a primeira terá como destino vinhos básicos ou Portos enquanto que a segunda, que já mostra uma melhor estrutura e perfume está destinada a voos maiores. A primeira será fermentada em cubas e depois extraída gentilmente. Quanto à de melhor qualidade “Vamos extrair tudo” diz Sottomayor, que devido às suas condições amenas vai caracterizar o ano 2014 para a Tinta Roriz, uma casta que só se dá bem a cada dez anos. Será pisada nos lagares.

Também demos uma primeira vista de olhos às vinhas Touriga Franca. Embora ele descreva a casta como “normalmente o melhor amigo do enólogo”, a chuva não tem ajudado. Como Sottomayor tinha antecipado, tem os primeiros sinais de apodrecimento (a Touriga Franca tem cachos relativamente compactos e assim, quando chove muito as uvas incham, exercendo força umas sobre as outras, podendo acontecer rompimento o que abre portas a uma possívle infecção). Um cheiro a vinagre (sumo de uva oxidado) evidencia os cachos mais afectados, mas claro que Sottomayor olha além das mais superficiais e puxa os cachos para averiguar se há rompimento ou apodrecimento. A decisão é que a vindima deve ser executada rapidamente, num prazo máximo de dois dias.

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Vindima em Sousão na Quinta do Caêdo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Rapidamente atravessamos o rio e nos pusemos a caminho das Quintas do Vau e do Caêdo em Ervedosa do Douro onde está uma equipa a arduamente vindimar as vermelhas Sousão (daí as caixas floridas com manchas roxas). Enquanto caminhamos pelo vinhedo, Sottomayor descarta à volta de doze cachos em rápida sucessão, ao mesmo tempo que explica que é necessário retirá-los porque durante o transporte as uvas apodrecidas iriam destruir [e manchar] os restantes 25Kg da caixa.

Como Sottomayor tinha previsto e apesar de um início de dia pouco auspicioso, ao meio-dia o sol aparece e vamos para a frente com o nosso almoço-piquenique entre as vinhas. A seguir é a Quinta do Seixo (Valença do Douro) para provar amostras de fermentação e uvas fermentadas que foram colhidas antes das chuvas intensas. Estas escuras, ricas mas equilibradas componentes de mistura confirmam que se não fosse a chuva, este poderia ter sido um ano clássico de Porto Vintage.

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Amostras tintadas na Quinta do Seixo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

É divertido provar os Portos na sua crua juventude e contrastar com a mistura de vinhas de uma única casta, a Tinta Francisca (floral e elegante). É a primeira vez que provo esta casta a “solo” e, transpira, a primeira vez que Sottomayor a faz. Esta relativamente rara casta foi apenas plantada em 2008 e por isso quer tirar-lhe as medidas. Normalmente para melhor entrosamento e equilíbrio prefere co-fermentar, juntamente com castas diferentes (e com exemplares de diferentes vinhas) do que misturar antes da fermentação. A vindima é planeada de acordo com isso.

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Luís Sottomayor com Eduardo Gomes a provar Touriga Nacional – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Depois da degustação vamos visitar as vinhas nas quais Sottomayor e o Eduardo Gomes me proporcionam uma masterclass na identificação das uvas da Touriga Nacional que estão prontas a ser colhidas. Primeiro, quando se retira uma uva, esta deve sair facilmente do cacho. Depois, quando a apertamos, devagar, com o polegar e o indicador, se estiver madura e pronta a ser colhida retem as marcas dos dedos. As peles maduras não devem ser amargas nem vegetais, mas a melhor pista para a qualidade dos taninos são as grainhas. Devem desfazer-se na boca. A polpa deve reter uma boa acidez e perfume.

Embora Sottomayor reconheça que mais uma semana de permanência em vinha permitiria à Touriga Nacional do primeiro local (solos mais pobres) atingir a maturação perfeita, há que ser pragmático. Está prevista muito mais chuva para o dia 7 de Outubro e portanto a decisão é de as colher no dia seguinte. Nisto diz o Eduardo Gomes “Temos dois chapéus, o de viticultor e o de enólogo, hoje ganha o viticultor.”. Mesmo assim, Sottomayor acha que a Touriga Nacional vai alcançar o patamar DOC Douro/Porto Vintage. Quanto à parcela de vinhas que visitamos com solos mais ricos, perto do curso de água, é outra história. Não está tão madura e precisa de mais uma semana antes de ser colhida.

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Luís Sottomayor em degustação com um fornecedor – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

No segundo dia passamos por um fornecedor independente para avaliar a qualidade de alguns novos e básicos Portos, isto a caminho do mais alto vinhedo da Sogrape, os consideráveis 120 hectares da Quinta do Sairrão em S. João da Pesqueira. Elevando-se (desde so 120m) até 700 acima do nível médio das águas do mar e os seus pontos mais altos fazem com que seja um dos mais incrivéis e ultimamente mais escolhidos vinhedos. Desde 2006 que tem sido um contributo para a altíssima Casa Ferreirinha Barca Velha e é também responsável pelo aparecimento de um novo vinho branco, o Casa Ferreirinha Antónia Adelaide Ferreira 2012.

Excepcionalmente, porque a chuva foi pior no cimo do vinhedo, as vinhas mais altas estão a ser colhidas primeiro. Como é esperado, uma das coisas boas que a elevação traz é boa exposição ao vento. Isso ajuda a secar a fruta. Para tirar o máximo partido disso, na semana anterior Sottomayor deu instruções para se desfolhar as vinhas da Touriga Nacional e da Touriga Franca de modo a expor as vinhas ao sol. No entanto, de preferência ambas ainda precisam de uma quinzena para desenvolvimento do sabor e maturação ideal dos taninos. Embora reconhecendo que é um risco, é um risco pesado com base no facto de ainda poderem atingir a qualidade de Reserva. É um risco que está preparado a correr, adicionando, “Se chover, vimos a correr!”. Num tom mais feliz, a Tinta Roriz das vinhas mais altas está com óptimo aspecto e será colhida neste dia.

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Vinhas desfolhadas na Quinta do Sairrão em S. João Pesqueira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A seguir provamos alguns vinhos brancos directamente do lagar e das barricas, todos colhidos antes da chuva. Sottomayor está extremamente satisfeito com a qualidade apresentada dizendo mesmo “Melhor do que em 2013, mais ácido e muito limpo” (Este sentimento foi reforçado pela degustação final na Quinta do Cavernelho em Vila Real no caminho de volta ao Porto).

Enquanto provamos Rosés, Tintos e Portos da Quinta, produzidos a partir de uvas colhidas antes e depois das chuvas, Sottomayor realça as vantagens de ter tantos componentes para lotear, bem como de sítios diferentes, à sua disposição (e dentro desses sítios, os diferentes aspectos e diferentes elevações). E por falar nisso, o nosso dia termina com a visita a mais alguns produtores de vinho e à Adega Cooperativa de Freixo de Numão, onde das 4 amostras concordamos quais as duas que melhor encaixavam no Ruby e no Tawny.

Harvest at Leda Credit Sarah Ahmed

Vindima na Quinta da Leda, Almendra – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

No terceiro dia estamos no coração do Douro Superior e de visita à jóia da coroa da Sogrape no que toca a vinhos tintos DOC Douro, Quinta da Leda em Almendra, a principal fonte de Barca Velha. Para acelerar o processo, o enólogo residente António Braga tem aqui hoje, 50 pessoas a vindimar. Diz que foi um ano pouco ortodoxo com 90mm de chuva durante a vindima, número esse que, em 2005, representou a precipitação de todo o ano!

Embora tenha resultado em alguma diluição e apodrecimento, Braga diz que o tempo quente que se seguiu ajudou à recuperação das vinhas. Acredita que “No entanto é um ano muito, muito bom para as uvas colhidas após a chuva. E um ano fantástico para uvas colhidas antes da chuva” (e ficou patente nas amostras que provamos). Além do mais, mesmo sendo as uvas Touriga Franca sempre mais pequenas na Leda, a divisão dos cachos não é tão problemática como nos outros sítios.

Ainda assim, mesmo as uvas sendo mais diluídas do que o habitual, Sottomayor decide que elas precisam de mais 7 a 10 dias para se concentrar – será a última casta escolhida, o que é arriscado, por isso os dois concordam em colher algumas parcelas mais cedo de modo a mitigar o risco . Pelo menos há menor probabilidade de ser comido pelos javalis que se alimentam das vinhas. Aparentemente, eles preferem (castas mais doces) a Touriga Nacional e a Tinta Barroca.

Luis Sottomayor & Antonio Braga tasting at Leda Credit Sarah Ahmed

Luís Sottomayor em degustação com António Braga na Quinta da Leda, Almendra – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Como no que toca ao consumidor final, o que interessa é a qualidade dos vinhos quando acabados. Não vamos falar de batalhas, será que Sottomayor ganhou a guerra em 2014? Apesar de ter dito que a qualidade dos tintos só ficaria mais latente em Novembro, depois dos vinhos terem concluído a fermentção maloláctica, quando o encontrei em Londres, uns quinze dias depois numa antevisão do Sandeman Cask 33 Very Old Tawny Port, disse-me que apesar da vindima ainda estar a decorrer (e estava a chover naquele dia na Quinta do Sairrão), estava “muito feliz” com a qualidade do vinho, incluíndo Touriga Franca que tinha sido colhida uma semana antes.. “belos aromas, mas ainda está a fermentar, veremos..”. Não é apenas um homem de precisão militar, é também um político!

Cinco dias depois recebi o relatório da vindima da Sogrape. Aqui está o que diz em relação ao Douro:

“Na Quinta do Seixo, a vindima começou dia 4 de Setembro, com uvas da Quinta e uvas da Quinta do Caêdo, das vinhas mais próximas ao Douro e com exposição a Oeste e a Sudoeste. No dia 15 de Setembro já tinham sido colhidas 600 toneladas e o entusiasmo entre os trabalhadores das adegas era perceptível devido à qualidade das uvas que iam chegando e aos resultados alcançados durante a fermentação.

Eduardo Gomes, o responsável pela vinificação nesta adega, atribuiu o resultado ao nível de consistência apresentado durante o período de maturação, devido ao clima ameno. Não houve calor excessivo, as plantas não passaram por nenhuma falta de água, e isto resultou em uvas de qualidade e muito saudáveis.

Da mesma forma, na Quinta da Leda no Alto Douro, as expectativas também foram elevadas no início da vindima, pelas mesmas razões. António Braga, o enólogo residente neste adega, realça uma maturação lenta, durante o qual a videira funcionou bem, o que significa que as uvas que entraram adega estavam em boa condição fisiológica.

Agora, a vindima está praticamente a acabar, e o Enólogo Chefe da Sogrape Vinhos na região do Douro, Luís Sottomayor, diz que os vinhos 2014 são de muito boa qualidade, e está, justificadamente, muito satisfeito. Apesar de a vindima ter decorrido praticamente durante duas semanas de chuva, isto adicionou frescura, um bom sabor frutado e um amplo volume dos vinhos na boca.

As condições climatéricas que se verificaram durante a maturação e durante a vindima afectou as principais castas de uvas de forma diferente. Em particular favoreceu a Tinta Roriz. De acordo com Luís Sottomayor, 2014 foi o ano para esta casta, uma vez que beneficiou de um ciclo de crescimento fresco, sem picos de calor, o que levou as condições ideais para a maturação. A formação da uva foi uniforme e a pele desta casta resistiu aos efeitos da chuva e deu origem excelentes vinhos. Por outro lado, a variedade Touriga Franca, que prefere altas temperaturas e tempo seco, não estava no seu melhor nesta época de chuva. No entanto, os vinhos feitos no início da vindima de 2014, quando não havia chuva, são de boa qualidade.

2014 também foi um bom ano para os vinhos brancos, porque, na opinião de Luís Sottomayor, foi um ano que promoveu boa acidez e expressão aromática, o que resultou nalguns vinhos elegantes. No entanto, a quantidade foi um pouco menos do que no ano anterior, em especial nas áreas mais altas. ”

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Douro Wine Fest e Tasca da Quinta

Texto José Silva

Foi um fim-de-semana de verão muito chuvoso, entre os dias 18 e 21 de Setembro, aliás como todo este verão de 2014 e as vindimas já tinham começado, lentamente, com muito cuidado.

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O Primeiro “Douro Wine Fest” – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Aconteceu então o primeiro “Douro Wine Fest”, numa organização da empresa Offe, apoiada pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal e a Câmara municipal da Régua e do Museu do Douro.

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Apoiado pelo Turismo do Porto e Norte – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma instalação de grande qualidade foi cuidadosamente montada na marginal da cidade da Régua, mesmo junto à marina, num cenário que não podia ser mais bonito, dominado pelo rio Douro.

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Douro Wine Fest – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Douro Wine Fest – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Apesar do tempo, os produtores aderiram em massa e esgotaram os espaços disponíveis e o público apareceu em força evitando os aguaceiros que caíam de vez em quando.

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Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

Sábado não choveu e a temperatura era mesmo de verão e foram milhares de visitantes a invadir o recinto.

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Douro Wine Fest – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Onde, para além dos produtores de vinho, havia várias lojas de produtos gastronómicos da região e dois restaurantes da Régua a servir petisco diversos.

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Sala de Prova – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Prova de Vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa sala própria decorreram muitas provas de vinhos e de alguns produtos e por ali passaram produtores e enólogos do Douro, a mostrar e partilhar as suas experiências e os seus vinhos. E houve muita música e alguns espectáculos que foram até de madrugada. No final o balanço foi bastante positivo e muito melhor teria sido se não fosse a chuva, o que deu boas indicações para o próximo ano, com mais um Douro Wine Fest.

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Douro Wine Fest – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas a Régua está a mexer, o que se verificou pele quantidade de visitantes do evento, e têm aparecido novos espaços, entre wine bars e restaurantes.

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“Tasca da Quinta”, uma Tasca à moda antiga – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um dos mais recentes é uma tasca à maneira antiga, resultante da recuperação dum espaço rústico muito bonito, cuja traça se manteve. Como se mantiveram o xisto e a madeira que já existiam, tendo-se recuperado o espaço com a modernidade necessária para poder servir bons petisco num ambiente confortável. Os proprietários chamaram-lhe “Tasca da Quinta”, que também têm uma pequena produção vinícola, do outro lado do rio.

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“Tasca da Quinta” – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A sala é ampla, com soalho de xisto, cores vivas, grossas traves de madeira no tecto, um enorme balcão, que deixa ver a cozinha moderna por detrás.

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Staff “Tasca da Quinta” – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Onde duas mulheres apaixonadas pelo que fazem, tratam produtos muito bons de maneira tradicional, para nosso consolo. Serve-se pão regional e broa de milho para acompanhar óptimo presunto, sardinhas de escabeche e codorniz de escabeche, e algumas tapas tendo como base o pão e a broa: tapa de bacalhau com pimento vermelho e tapa de moira deliciosas. Também muitíssimo boas as costelinhas de porco em vinha d´alho e as açordas, de que se destaca a açorda de cogumelos, soberba.

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Costelinhas de Porco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Açorda de Cogumelos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

Entre outras possibilidades fecha-se a refeição com uma saborosa e cremosa tarte de maçã.

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Tarte de Maça Cremosa – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Há várias mesas ocupadas por estrangeiros que se deliciam com os petiscos bem portugueses…e com o vinho do Douro. Bebe-se mais um copo e continua-se a conversa sobre o Douro e o seu desenvolvimento. E deseja-se uma vindima com o mínimo de estragos possível, apesar da chuva que não se vai embora…

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«Vinhos de Quinta»

Texto Patrícia Pais Leite

Os vinhos que têm na garrafa as menções “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”, chamados vulgarmente «Vinhos de Quinta», estão sujeitos a um regime legal próprio, que teve a ultima alteração em Agosto de 2012.

Legenda
DO: Denominação de Origem
IG: Indicação Geográfica

Conceito

A expressão corrente «Vinhos de Quinta» refere-se a vinhos que contêm na garrafa menções que indicam uma exploração vitícola e que, por isso, cumprem determinados requisitos legais.

A utilização do nome de uma exploração cria uma imagem de prestígio junto do consumidor e gera valor acrescentado decorrente da noção de genuinidade em relação à terra onde esse vinho é produzido e ao produtor.
Por esse facto, foi criado um regime legal próprio que sujeita estes vinhos a medidas de controlo e fiscalização, de forma a evitar a utilização abusiva das menções e a proteger o consumidor contra o risco de erro ou confusão.

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Quinta vitivinícola © Blend All About Wine, Lda.

As menções que indicam uma exploração vitícola estão determinadas na lei comunitária, sendo para Portugal as seguintes: “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”.
Estas menções apenas podem ser utilizadas em vinhos com DO ou com IG e também para vinhos espumantes de qualidade.
[Para saber mais sobre os vinhos com DO e com IG, pode consultar o nosso artigo anterior]

Além disso, os vinhos devem ser elaborados exclusivamente a partir de uvas colhidas na exploração vitícola referida e o detentor dessa exploração deve assumir inequivocamente a direcção efectiva e a responsabilidade exclusiva pela vinificação, pelo vinho produzido e pelo respectivo engarrafamento.

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Transporte de uva © Blend All About Wine, Lda.

Enquadramento

Até agosto de 2012 era a Portaria n.º 1084/2003 que definia regras específicas para a utilização das menções “Quinta” e “Herdade”, consideradas pela lei como as de utilização mais frequente para indicar uma exploração vitícola. O regime era semelhante ao actualmente em vigor (abaixo exposto), excepto no que toca à necessidade do nome da exploração vitícola em causa ser registado como marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, requisito este que foi suprimido no novo regime.

As restantes menções previstas para designar uma exploração vitícola – “Casa”, “Paço”, “Palácio” e “Solar” – estavam sujeitas a regras de utilização mais rigorosas no que se refere ao local da vinificação, por se considerarem menções normalmente associadas aos valores patrimoniais em presença. Tanto na lei comunitária anterior e na Portaria n.º 924/2004, estas quatro menções podiam ser utilizadas desde que vinho proviesse exclusivamente de uvas colhidas nas vinhas da exploração vitícola e a vinificação tivesse sido aí efectuada. Na altura, este regime era mais restritivo quanto ao local da vinificação do que o regime das menções “Quinta” e “Herdade”.

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Vinhas © Blend All About Wine, Lda.

Com a actual lei comunitária em vigor desde 1 de agosto de 2009, foi conveniente estabelecer a nível nacional num único diploma, a Portaria n.º 239/2012, as menções utilizadas para designar na rotulagem o nome da exploração vitícola e de modo a reforçar o prestígio do vinho junto do consumidor.

Regime nacional

Quem pode utilizar as menções “Casa”, “Herdade”, “Paço”, “Palácio”, “Quinta” e “Solar”, ou seja, quem pode produzir «Vinhos de Quinta»?
Qualquer pessoa singular ou colectiva desde que seja proprietária ou tenha uma relação contratual em que lhe assegure o gozo, o uso ou a fruição das vinhas da exploração (por exemplo, arrendamento, cessão de exploração, comodato, etc). Trata-se do agente económico detentor da exploração vitícola, que deve inscrever-se na respectiva entidade certificadora numa categoria correspondente à actividade de produção de vinho e engarrafamento (Vitivinicultor-Engarrafador ou Produtor e Engarrafador).
[Para saber mais sobre as categorias Vitivinicultor-Engarrafador ou Produtor e Engarrafador, pode consultar o nosso artigo anterior]

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Uva na videira © Blend All About Wine, Lda.

A lei exige que o nome da exploração vitícola conste na descrição do registo predial ou na matriz da propriedade rústica. As vinhas em questão e as instalações de vinificação também devem estar inscritas na respectiva entidade certificadora e as uvas e o vinho devem ser participados na declaração de colheita e produção do agente económico detentor da exploração vitícola.

Além disso, os «Vinhos de Quinta» estão sujeitos a conta-corrente específica, em registos do agente económico detentor da exploração vitícola e na respectiva entidade certificadora. Por fim, os agentes económicos que, a 31 de julho de cada ano, detenham «Vinhos de Quinta» devem incluí-los na sua declaração de existências.

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Centro de vinificação © Blend All About Wine, Lda.

Quanto à vinificação e ao engarrafamento, estas operações podem ser efetuadas em instalações de terceiros, desde que o detentor da exploração vitícola assuma inequivocamente a direcção efectiva e a responsabilidade exclusiva pela vinificação, pelo vinho produzido e pelo respectivo engarrafamento.

O agente económico detentor da exploração vitícola que vinifique os seus «Vinhos de Quinta» em instalações de terceiros deve ainda comunicar à entidade certificadora competente, pelo menos com 48 horas de antecedência, a data e o local previsto para o engarrafamento. Na rotulagem este agente económico deve identificar-se através da expressão «engarrafado para …» ou, se identificar também o prestador de serviços de engarrafamento, através da expressão «engarrafado para … por …».

Vinho Português: O Amigo Flexível dos Sommeliers?

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

Fico sempre impressionada com os paralelismos entre os vinhos Portugueses e os vinhos Italianos. Eles partilham um contorno de taninos e de acidez muito food-friendly, especialmente os vinhos do Norte destes países compridos e magrinhos.

Ainda mais impressionante é o seu constrangimento de riquezas varietais. Portugal tem mais de 250 uvas autóctones, enquanto que Itália tem, de acordo com Ian D’Agata (Native Wine Grapes of Italy) o dobro deste número!

Combine-se esta enorme diversidade de castas com o terreno igualmente diverso de cada um destes países (pense em montanhas, costas, colinas ondulantes, planícies e ilhas) e tem-se uma excelente receita para uma combinação de vinho e comida de sucesso – um estilo de vinho para praticamente qualquer prato que consiga mencionar.

No entanto, Itália e Portugal separam-se quando se trata de reputação internacional e perfil da sua cozinha. Quem não conhece “Os 3 Pês” – pizza, pasta (massa) e parmesão – no rasto dos quais, milhões de litros de vinho Italiano conseguiram ser distribuídos em restaurantes, lojas gourmet e supermercados por todo o mundo?

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Queijo Serra da Estrela – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Contrariamente, para além das suas antigas colónias, os pratos clássicos Portugueses são conspícuos pela sua ausência. Os sommeliers do Reino Unido que visitaram Portugal comigo esta Primavera no Wines of Portugal’s Wine Quest ficaram boquiabertos com as especialidades regionais até então desconhecidas, como leitão, cabrito assado e queijo da Serra da Estrela combinados com os vinhos locais.

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Sommeliers do Reino Unido – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Foi portanto interessante ver como eles posteriormente, responderam ao desafio do Wines of Portugal de encontrar em casa (no Reino Unido), combinações de deixar água na boca entre comidas e os seus vinhos preferidos. Estão listadas uma selecção de sugestões sumptuosas emergentes desta iniciativa inteligente de interacção com jovens sommeliers do Reino Unido. Mas antes, ficam aqui cinco razões pelas quais o sommelier campeão do Wine Quest (Dorian Guillon do Alain Ducasse at The Dorchester, com três estrelas Michelin) acredita que os vinhos Portugueses “têm definitivamente o potencial para aumentar o seu mercado no Reino Unido:

  1. Diversidade de uvas indígenas para o amador mais aventureiro
  2. Vinhos com um sentido de lugar, expressão e carácter
  3. Vinhos food friendly com diferentes estilos para “brincar” à mesa
  4. Estilos diversos, desde os de gama baixa, deliciosos e frutados, aos mais refinados tintos (por ex. Baga envelhecido em garrafa na Bairrada)
  5. Descoberta para os comensais com menu de degustação

Por isso digo: “Coragem Portugal, mantenham a fé!”

Anselmo Mendes Alvarinho Contacto 2013 (Vinho Verde)
com lagostins em lume lento com gengibre e caviar (Adam Pawlowski, Heathcotes)

Vadio Branco 2013 (Bairrada)
com travessa dim sum de shumai de vieira, har gau, bolinho de camarão e cebolinho chinês e bolinho de shimej (Gabor Foth, Hakkasan).

Terrenus White 2012 (Portalegre, Alentejo)
com rodovalho da Cornualha com azeitonas verdes, ostras picadas e velouté de sake (Anja Breit, The Ledbury)

Quinta do Ameal 2004 (Vinho Verde)
com medalhões de tamboril em papelote com cenouras bebé, cominhos, coentros, frutos secos e nozes e sabayon de laranja com chouriço, servido com arroz de açafrão (Antonin Dubuis of The Savoy Grill).

Caves São João Porta dos Cavaleiros White 1985 (Dão)
com lagosta fumada temperada simplesmente com azeite, sal e pimenta (Dorian Guillon, Alain Ducasse at The Dorchester).

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Caves São João Porta dos Cavaleiros White 1985 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Terrenus Tinto 2009 (Alentejo)
com carne de veado, puré de batata fumado e cogumelos selvagens (William Wilson, The Chesterfield Mayfair).

Vadio Grande Vadio 2011 (Bairrada)
com queijos duros e maduros – Cheddar, Parmesão (Piotr Pietras, Maze by Gordon Ramsay).

Quinta da Vacarica 2008 (Bairrada)
com Côte de Boeuf[1] na grelha com foie gras ou molho de trufas. (Dorian Guillon, Alain Ducasse at The Dorchester).

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Quinta da Vacarica 2008 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Quinta Vale Dona Maria 2011 (Douro)
com carne de veado, puré de aipo e molho de ameixa (Adam Pawlowski, Heathcotes).

Quinta Vale Dona Maria 2011 (Douro)
com barrigas de porco crocantes, couve lombarda, lingueirão, molho de jalapeno e maçãs assadas. (Antonin Dubuis of The Savoy Grill).

Por Terras de Baião

Texto José Silva

Inserida na região demarcada dos vinhos verdes, Baião é uma vila serrana, no cimo da serra da Aboboreira, onde a gastronomia tem ainda grande tradição, a par da excelência de muitos vinhos, entre brancos, rosados e alguns tintos. Em recente visita à região, o nosso poiso foi a beleza natural da Quinta da Covela, respirando aquele ar puro, com muito sossego e vinhos deliciosos.

A quinta está muito bonita, agora com as vinhas cheias de uvas e os laranjais e limoeiros carregados de frutos, apesar de ser já verão adiantado, com laranjas doces e saborosas e limões sumarentos e aromáticos.

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Laranjeiras – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ao lado da quinta, um bosque frondoso é protecção natural para uma produção em modo biológico com óptimos resultados. Passear pela quinta é fascinante e ao mesmo tempo retemperante, com todo aquele sossego à nossa disposição e uma grande diversidade de plantas, a começar nas vinhas e nos laranjais, mas também um enorme cerejal, vários outros tipos de árvores de fruta e muitas outras plantas e árvores frondosas que constituem uma moldura natural para a beleza da quinta.

A casa principal, em rude granito envolvida por trepadeiras e outros arbustos que lhe dão um ar confortável e acolhedor, está muito bem situada e tem duas esplanadas espaçosas, com exposições diferentes, utilizadas para apreciar muitas das refeições que ali se servem ao logo do ano. Em frente à casa, uma pequena adega, onde estagiam grande parte dos vinhos que ali se produzem.

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Casa Principal – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mais abaixo, uma simpática piscina sabe bem para nos refrescarmos nos dias de calor intenso durante o verão.

Os vinhos da Covela têm vindo a afirmar-se não só na região mas em todo o país, até porque são vinhos muito gastronómicos, a fazer óptimas ligações com vários tipos de comida portuguesa, e mesmo com comidas de outras terras, de que se destacam as comidas chinesa, japonesa, tailandesa e indiana. São vinhos com boa estrutura, muito frescos e com belíssima acidez, a que se juntam aromas florais, em alguns casos, e frutados, noutros, em conjuntos cheios de elegância e harmonia.

O Covela Edição Nacional Arinto 2013 é uma boa novidade. Um vinho muito fresco, cheio de mineralidade na boca, seco, com óptima acidez, jovem e elegante. O Covela Edição Nacional Avesso 2013 continua em grande nível, num ano de grandes vinhos brancos, com notas citrinas intensas, ligeiramente mineral, acidez equilibrada mas bem presente, muito elegante.

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Quinta da Covela – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O Covela Rosé é impressionante, ao mesmo tempo elegante e complexo, com notas de frutos vermelhos e algumas fragrâncias florais, óptima acidez e ligeira mineralidade, um vinho gastronómico com grande final de boca.

Finalmente o Covela Escolha, um branco cheio de corpo e estrutura, elegante e suavemente floral, óptima acidez, alguma fruta de polpa branca, ligeiramente mineral, com grande final de boca. Um vinho para durar muitos anos.

[Veja o nosso artigo anterior sobre a Quinta da Covela.]

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Mesas Restaurante Tormes – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

À noite, a opção foi jantar ali bem perto, num espaço novo inserido num ambiente tradicional cheio de história: o novo Restaurante “Tormes”, no complexo da Fundação Eça de Queiróz, propriedade que pertenceu ao célebre escritor português e onde repousa muito do seu espólio. Pois ali funciona agora um simpático restaurante, aproveitando instalações com belas paredes em granito e tecto de madeira. Existe uma sala de maiores dimensões para serviços, muito bem apetrechada. No restaurante as mesas são muito bem-postas e até há um belo piano que pertenceu ao escritor.

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Melão com Presunto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ele fez inúmeras referências nos seus romances a muitos pratos que apreciava, ou que, pelo menos, os seus personagens apreciavam. E neste restaurante, que tem um óptimo serviço de mesa, a ementa tenta reproduzir muitas das receitas que Eça relatava nos seus livros. Vem à mesa pão, broa de milho e melão com presunto como primeira entrada. Não faltam os peixinhos da horta, uns deliciosos cogumelos salteados, carnudos e saborosos e umas fantásticas febrinhas de porco de vinha d’alho.

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Lulas Fricassé – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Como primeiro prato apreciou-se as lulas de fricassé, neste caso acompanhadas com batatas salteadas com a casca e sobre tosta de pão regional com alho, azeite, sal e uma salada verde. Depois veio a perdiz à convento de Alcântara, um clássico queirosiano, bem corada, com muita cenoura e batatinha aloirada, deliciosa. Terminou-se com uma sobremesa mista com ananás, trouxas-de-ovos e leite-creme. Puxado!

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Regional Minho Wine 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Durante o repasto apreciaram-se dois vinhos brancos da própria Fundação, primeiro um Vinho Regional Minho Colheita 2013, simples mas agradável, fresco, com óptima acidez e alguma fruta no nariz; depois um verde Tormes Escolha, muito bem apresentado, mais encorpado, ainda com bastante frescura e boa acidez, seco, complexo, um vinho elegante. Ambos acompanharam muito bem a refeição, num “cheek to cheek” bem interessante.

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Tormes Escolha – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De regresso à Covela, para a última noite na companhia daquele silêncio penetrante que faz bem ao corpo, relembramos Eça de Queiróz e compreendemos porque ele tanto apreciava esta região, quando, em carta dirigida a sua mulher, aquando da sua primeira visita a Tormes, em Maio de 1892, dizia assim: “A quinta…é excelente…e tão fértil que quase não necessita de adubos…É toda em socalcos…O monte desce até ao Douro…O que sobe e o que desce é tudo admirável de vegetação, de verdura, de águas, de sombras, de belas vistas…”
Até um dia destes, Baião…

Contactos
Quinta de Covela
William Smith & Lima Lda.
S. Tomé de Covelas
4640-211 BAIÃO
Tel: (+351) 254 886 298
E-Mail: info@covela.pt
Site: www.covela.pt

Fundação Eça de Queiróz
Restaurante Tormes
Caminho de Jacinto, 3110
Quinta de Tormes – Baião
4640-424 Santa Cruz do Douro
Tel: (+351) 254 882 120
Fax: (+351) 254 885 205
E-mail: info@feq.pt
Site: www.feq.pt

“Taste in Adegas”, Os Vinhos do Pico

Texto José Silva

É uma ilha encantadora, uma das nove ilhas que constituem o arquipélago dos Açores. De origem vulcânica, por todo o lado se vêm aquelas pedras castanhas e cinzentas, a revelar a sua origem nas erupções que ali aconteceram há muitas centenas de milhares de anos. Essas pedras são usadas para muitos fins, incluindo a construção de casas, e para aqueles muros baixinhos que moldam uma grande parte da paisagem da ilha. E que se destinam a cultivar a figueira e a vinha. Assim, os pequenos muretes protegem as plantas do vento forte e por vezes salgado e concentram o calor durante o dia, o que à noite mantém uma temperatura constante nas plantas.

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Muretes © Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Estas formações, únicas e de grande beleza paisagística, fruto do trabalho humano, chamadas currais ou curraletas, foram, em 2004, classificadas património da humanidade. E são, a par da observação das baleias, dos vinhos do Pico e da excelente comida local, um conjunto de atractivos que cada vez levam mais gente à ilha. E que tem ainda como cabeça de cartaz o imponente monte do Pico, um antigo vulcão com 2.350 metros de altitude, a serra mais alta de Portugal.

Os vinhos do Pico, esses, estão cada vez melhor, hoje recorrendo também a modernas tecnologias e a melhor trabalho nas vinhas, mas mantendo a sua grande tipicidade, utilizando as várias castas da região. Sobretudo os brancos, cheios de frescura e mineralidade a par duma acidez notável, mas também alguns tintos que já se revelam bem interessantes. E os licorosos, com grande tradição no Pico, hoje mais polidos e modernos, muito bons.

Mas no Pico há uma grande tradição, que agora também se abre ao público em geral e aos turistas em particular, que é a visita às pequenas adegas. Ali, os proprietários têm por costume receber amigos e convidados para provar os vinhos e apreciar petiscos tradicionais, sobretudo o saboroso caldo de peixe, que é na realidade uma caldeirada de peixe, mas sem batata, que é servida cozida, à parte. Alguns tipos de peixe são cozidos com vários temperos, parte do caldo vai ensopar fatias grossa de pão e, à parte, são servidas batatas cozidas e o molho de vilão tradicional.

Depois, em pequenas tigelinhas, é servido o caldo de peixe, bem quente. Na sobremesa aprecia-se queijo da ilha e rosquilha, um tipo de regueifa mas levemente adocicada, ainda na companhia do caldo.

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Molho de Vilão © Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Hoje, muitos desses produtores recebem nas suas pequenas adegas os visitantes, por um preço adequado, mostrando a beleza das construções, a maior parte das quais ainda sem electricidade. E dão a provar os seus vinhos e os seus petiscos. Uma vez por ano, com o apoio do governo regional, tem lugar o “Taste in Adegas”, organizado pela Adeliaçor, em parceria com a Escola de Formação Turística e Hoteleira de S. Miguel, cujo objectivo é esse mesmo, mostrar essas pequenas adegas e deixar que os turistas usufruam duma tradição que não se pode perder.

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“Taste in Adegas” © Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Os vinhos do Pico têm vindo a melhorar de ano para ano, apresentando vinhos brancos de grande nível, em que a frescura e a acidez se destacam, cheios de elegância mas com personalidade e características particulares de cada um. E mesmo marcas menos conhecidas como “Curraleta”, “Buraca” ou “Cancela do Porco” se revelaram magníficos e acima de tudo bastante gastronómicos, fazendo óptima companhia quer aos pratos mais tradicionais da ilha, como as lapas grelhadas, o polvo guisado, a excelência do atum grelhado, o caldo de peixe das adegas, o bife à portuguesa e a costeleta duma carne de vaca irrepreensivel e, claro, o ananás açoreano, único no mundo, mas também a pratos mais elaborados a partir de produtos regionais como um tártaro de veja e sopa de beterraba fria ou lírio em crosta pecan e ragout de cogumelos.

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Curraleta | Buraca | Cancela do Porco © Fotos de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Os licorosos do Pico, “Lajido” e “Csar”, continuam em grande nível, a que agora se junta um belíssimo “Curral Atlantis”, vinhos cheios de elegância, aromas cítricos suaves e bem integrados, notas de mel e aquela acidez vibrante que os torna apetecíveis e que liga muito bem com vários tipos de sobremesa e mesmo com a excelência do ananás açoreano.

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Lajido | Czar | Curral Atlantis © Fotos de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi uma visita em que descobrimos a nova realidade da ilha do Pico e dos Açores em geral, com um turismo moderno em busca de locais paradisíacos com paisagens arrebatadoras e um mar fabuloso e rico, num destino com grande qualidade ecológica graças a um belo trabalho de preservação do património e valores culturais. De que a produção de vinho é uma das partes mais importantes, reconhecida internacionalmente.
Para o ano lá esperamos voltar.

Contactos
Rua do Pasteleiro s/n
Angústias
9900-069 Horta
Tel: 292 200 360
Telemóvel: 913 397 808
Email: adeliacor@sapo.pt
Site: www.adeliacor.org

O famoso Master Sommelier João Pires partilha alguns segredos, mas não o maior!

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

Filmado em seis países durante dois anos, o documentário americano “Somm” segue quatro potenciais Master Sommeliers, na sua tentativa de passar o “altamente intimidante” Exame Master Sommelier e de se juntar à Corte de Master Sommeliers – “uma das organizações mais prestigiadas, secretas e exclusivas do mundo.”.  Membro da Corte dos Master Sommeliers desde 2009, o lisboeta João Pires tem desfrutado de uma ilustre carreira internacional, recentemente no restaurante Londrino com duas estrelas Michelin, “Dinner by Heston”.  De momento em licença de paternidade, encontrei-me com João Pires que reflectiu sobre o que é necessário para chegar ao topo.

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João Pires – Foto cedida por João Pires | Todos os Direitos Reservados

1. Já se descreveu o Sommelier como a ligação entre o Chef e o produtor de vinho. Concorda?
Nem por isso! O Sommelier é a ligação entre o produtor de vinho e o convidado.

2. Na sua opinião, quais as qualidades de um grande sommelier
Um grande sommelier é aquele que compreende que, acima de tudo, é o convidado que importa e não o seu próprio orgulho.
 
3. E o que faz uma boa lista de vinhos?
Uma boa lista de vinhos é uma lista que vende. Se vende é porque está orientada para o convidado e portanto, o convidado compra. Não é, definitivamente, a lista desenhada para ganhar prémios, embora haja algumas listas vencedoras de prémios que são muito boas. Mas não o contrário!

4. Escolher um vinho pode ser intimidante, especialmente quando a lista de vinhos é enorme. Como podem os comensais tirar o melhor partido de um sommelier?
Fale com o sommelier, desafie-o. Eu já vi listas de vinhos pequenas, directas,das quais mal se pode comprar o que quer que seja, e já vi listas com 1000 entradas ou mais, as quais os convidados conseguem facilmente consultar, desde que bem guiados por um bom sommelier. Não é o tamanho, mas a engenharia da lista de vinhos que conta (e o sommelier, claro).

5. Qual é a sua abordagem à combinação da comida e do vinho?
Perceber o peso da comida, guiar-se pela cor principal do prato, a chave é o balanço da acidez. Perceber a ocasião e respeitar o orçamento do convidado.

6. Já se deparou com um prato que o derrotou na tentativa de encontrar uma combinação satisfatória com um vinho?
Oh sim, muitas vezes e às vezes é quase impossível encontrar o vinho que nós achamos ser a combinação certa. Bom, numa mesa de quatro pessoas há pelo menos quatro combinações de vinho possíveis, certo? E que vinho juntar a uma tábua de 6 queijos que tem desde um queijo de cabra leve a um Cheddar velho ou um queijo azul salgado? E como combinar um jantar Chinês, por exemplo, quando eles partilham tantas comidas diferentes ao mesmo tempo? O mundo do vinho tem que compreender que a combinação da comida e do vinho nem sempre é possível.

7. A combinação da comida e do vinho tem necessariamente que ser um compromisso? Acolhe de bom grado as tendências para haver cada vez mais vinhos ao copo e menus de degustação?
Sim, concordo e o vinho a copo é uma boa solução. Mas se foi pedida uma garrafa, tente recomendar algo “mesmo no meio”, como um Pinot Noir que agrade a todos, se houver um pedido de peixe e carne, por exemplo.
 
8. Com carta-branca, o que pediria (vinho/comida) como a sua última ceia?
Champagne, mais champagne e porque não ostras frescas perto do mar?

9. Os Chefs mais conhecidos transformaram os jantares luxuosos nos hotéis. O que é mais importante, a cultura do Chef ou a cultura do hotel ou são simbióticas?
São ambas importantes e colidem tantas vezes, não é fácil gerir. Os Chefs são bons “restaurateurs” (donos de restaurantes) e os hotéis gabam-se de ter boas “competências de gestão”.

10. Os hotéis de luxo têm clientes internacionais e o próprio João é bastante viajado, tendo estudado em Paris, trabalhado em salas de restaurantes em Portugal, Toronto e Londres e treinado sommeliers em Macau, Marrocos e nas Filipinas. Que diferenças culturais (internacionais) mais se destacaram para si, em termos de consumo de vinho?
Nunca nos podemos esquecer do que é trabalhar num restaurante de elevado perfil, com três estrelas Michelin em Paris. A pressão e atenção ao detalhe são tais, que é quase loucura. Relativamente ao consumo de vinhos, os vinhos Franceses dominam com a excepção daqueles países onde o vinho faz parte da cultura, como a Itália, Espanha ou Portugal onde as pessoas, compreensivelmente, bebem os vinhos locais.

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João Pires – Foto cedida por João Pires | Todos os Direitos Reservados

11. O crítico americano Robert Parker protestou recentemente contra uma moda por uvas obscuras nas listas de vinhos. Qual a importância de apresentar aos comensais novas experiências de vinho e quão fácil é persuadir os grandes gastadores a não pedir os previsivelmente prestigiosos?
Quem é o Robert Parker? E qual o significado de “obscuro”? De qualquer modo, o ABC está cada vez mais posto de lado (tudo menos o Chardonnay ou o Cabernet). Porque não persuadir os grandes gastadores com prestigiados vinhos de topo? Nós gerimos um negócio e da minha parte, não há mal nenhum em encomendar e beber um DRC (Domaine de la Romanée-Conti), um Château Pétrus ou um Champagne Salon. É uma pena que eu não o possa fazer regularmente. Apesar de, por outro lado, as castas menos conhecidas e os sabores diferentes a bons preços serem considerações supremas, porque as pessoas têm uma mentalidade mais aberta do que nunca antes, e são entusiastas por sabores diferentes.

12. O Porto e o Madeira são de rigueur numa lista de vinhos clássica, no entanto, fora de Portugal, os vinhos de mesa Portugueses têm-se debatido por deixar a sua marca. Isto está a começar a mudar. O que precisam os produtores de vinhos Portugueses de fazer para contestar esta conjuntura? 
Bom, primeiro, o Porto e o Madeira não são (infelizmente) de rigueur numa lista de vinhos clássica e neste país (Reino Unido) eles não vendem. Mas os vinhos Portugueses não fortificados estão a surgir, devagarinho. Vai demorar até que figurem em listas de vinho de topo, mas as coisas estão a melhorar. Os produtores Portugueses precisam de se juntar (alguns já o estão a fazer e com enorme sucesso).

13. Que regiões Portuguesas, uvas, estilos de vinho e produtores se destacam para si? 
Devo dizer que há bons vinhos por todo o país e melhores do que nunca. Consegue comprar em Portugal, vinhos de boa qualidade entre os 3 e os 10€, o que é extremamente difícil nos supermercados do Reino Unido. Pessoalmente adoro o Douro, o Dão e a Bairrada para os tintos e o Alvarinho para o branco. Mas, dito isto, podemos encontrar excelentes vinhos no Alentejo, Lisboa e noutras regiões.

14. Tem um currículo invejável. De que feito profissional se sente mais orgulhoso? 
Tornar-me um Master Sommelier.

15. Havendo ainda menos Master Sommeliers do que Masters of Wine (219 versus 313), é notoriamente difícil tornar-se membro da corte dos Master Sommeliers. Por que motivo o recomendaria aos outros? 
Não tenho a certeza se o recomendaria. É tão exigente e sacrificamos tantas coisas na nossa vida pessoal que é difícil dizer para avançar por este caminho. Mas apesar disto, aprende-se muito e é muito recompensador.

16. Que impacto tem para um sommelier, trabalhar num restaurante com uma, duas e três estrelas Michelin?  
Um impacto enorme. Não há nada mais sério que o vinho para as receitas e padrões de serviço elevado. E quanto mais elevada a categoria, mais exigente e mais difícil é. Muito stressante, mas extremamente recompensador (e não estou a falar de salários)!

17. Que experiência lhe ensinou mais e/ou quem influenciou mais a sua carreira?
O European Sommelier Contest (Concurso de Sommelier Europeu) em 1994 que naquela altura foi patrocinado pelo Champagne Ruinart. Eu estava a representar Portugal e foi nesse momento que decidi dedicar a minha vida a sério ao vinho. E o meu primeiro estágio em Paris em 1996 no restaurante com 2 estrelas MichelinLes Amassadeurs”, Hotel Crillon. Fiquei boquiaberto com os sommeliers e o sommelier chefe Frederic Lebel.

18. Como se sente por ter deixado a sala do restaurante? De que tem mais saudades? E de que tem menos saudades?
Eu estou a sentir-me muito bem depois de 25 anos a fazer isso. Devo dizer que não sinto muitas saudades. Do que sinto falta é do exercício diário e, acima de tudo, dos meus convidados.

19. E a seguir?
Boa pergunta, mas não lhe posso dizer neste momento. Estou a desfrutar da minha pequenina Isabella, a minha bebé de 4 meses. Tenho-me sentido extremamente feliz e abençoado.

As DO e IG Portuguesas

Texto Patrícia Leite 

Os vinhos portugueses contam com 31 Denominações de Origem (DO) e 14 Indicações Geográficas (IG). Para conhecer este património colectivo tão vasto e único, podemos começar por identificar essas DO e IG e as entidades que as certificam. Antes disso, revisitamos os conceitos de DO e IG e de Entidade Certificadora.


Legenda
DO: Denominação de Origem;
IG: Indicação Geográfica;
EC: Entidade Certificadora;
Produtos vitivinícolas: vinhos, vinhos espumantes, vinhos frisantes, vinhos licorosos, vinagres de vinho, aguardentes de vinho e aguardentes bagaceiras;
Certificação de produtos vitivinícolas: processo de validação da conformidade do produto com os requisitos definidos pela Entidade Certificadora para a DO ou a IG, o qual é evidenciado, no caso dos produtos engarrafados, através do selo de garantia constante da garrafa.

Denominação de Origem (DO) e Indicação Geográfica (IG)

No sector dos vinhos, uma DO é o nome geográfico de uma região (ou uma denominação tradicional, associada a uma origem geográfica ou não) que serve para identificar um produto vitivinícola:
– cuja qualidade ou características se devem, essencial ou exclusivamente, ao meio geográfico, incluindo os factores naturais (ex: clima, solo, castas) e humanos (ex: técnicas de vinificação);
– cujas uvas provêm exclusivamente dessa região;
– e cuja produção ocorre no interior dessa região.

O conceito de IG difere do conceito de DO essencialmente nos seguintes pontos:
– a qualidade, reputação ou outras características do produto podem ser atribuídas a essa origem geográfica, não sendo relevantes os factores humanos, como na DO;
– pelo menos, 85% das uvas utilizadas são provenientes exclusivamente dessa região, não a totalidade das uvas, como na DO.

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Douro | © Blend All About Wine, Lda

Em ambos os conceitos, a produção deve localizar-se no interior da área geográfica delimitada, sendo que “produção” abrange todas as operações desde a vindima até ao termo do processo de vinificação, ficando excluídos todos os processos posteriores a esta.

Na prática, um vinho com DO provém exclusivamente de uvas da região demarcada, mas um vinho com IG pode ser produzido até 15% com uvas de outra origem geográfica, que não a área de produção da IG.

Além disso, para serem certificados com DO os vinhos devem preencher requisitos mais apertados, por exemplo quanto ao teor alcoólico, às castas utilizadas, aos métodos de vinificação, às práticas enológicas, às características organolépticas (cor, limpidez, aroma e sabor), entre outros.

[Sobre este tema, poderá também consultar o nosso artigo anterior]

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© Blend All About Wine, Lda

As Entidades Certificadoras

Em 2004 foi criada no sector dos vinhos português a figura das Entidades Certificadoras (EC) para exercer funções de controlo da produção e comércio e de certificação de produtos vitivinícolas com DO e/ou IG.

Uma EC e o respectivo laboratório devem estar acreditados pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC), para o controlo e certificação dos produtos vitivinícolas com direito a DO ou IG (norma NP EN 45011) e para os ensaios físico-químicos inerentes ao controlo e certificação (norma NP EN ISO/IEC 17025).

Assim, as entidades já existentes no sector, ou seja as Comissões Vitivinícolas Regionais, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P. e o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P., tiveram de se candidatar à designação de EC para continuar certificar a respectiva DO e/ou IG.

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© Blend All About Wine, Lda

Nove das catorze entidades do sector já estão a acreditadas pelo IPAC, estando em curso os restantes processos de acreditação, conforme informação do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. de 31 de Agosto de 2013  (Ver pdf)

[Sobre este tema, poderá também consultar o nosso artigo anterior]  previous article

Quem certifica o quê?

No quadro infra, indicamos as DO e as IG existentes em Portugal e as respectivas EC. A cada região vitícola corresponde um número de localização do mapa obtido em www.viniportugal.pt, que aqui reproduzimos.

Tabela “Quem certifica o quê?” © Blend All About Wine, Lda

Contactos
Comissões Vitivinícolas Regionais e Outras Entidades Certificadoras
Instituto da Vinha e Do Vinho I.P.

Da escrita ao Vinho: Parte 3 – Os Vinhos de Tiago Teles

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Teresa Calisto

Tiago Teles nasceu em Paris e apanhou o bichinho do vinho em França, enquanto estudante de Telecomunicações em Toulouse, através do programa de intercâmbio de estudantes Erasmus (os pais de Tiago regressaram a Portugal quando ele tinha dois anos de idade).
Ao aperceber-se, como diz, “do quão extraordinário pode ser o vinho”, a sua percepção do vinho mudou profundamente. Tendo sido criado com vinhos relativamente simples, como os das propriedades da família dos seus pais de Vinho Verde e Bairrada, Tiago explica que, antes de ir para França, ele via o vinho como nada mais do que algo “naturalmente presente na dieta… algo nutritivo.”

Depois do seu percurso de Erasmus, Tiago regressou a Portugal. As provas na sua loja de vinho local, em Campo de Ourique – “uma velha loja de vinho” – despertaram ainda mais o seu interesse pelos vinhos. Na realidade, não demorou muito até que Tiago aliasse as suas competências técnicas à sua paixão pelo vinho, co-fundando o fórum online sobre vinho, Os5às8.

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Tiago Teles & Vinhas – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Entre 2002 e 2006, Os5às8 permitiu-lhe praticar e consolidar as suas competências como crítico de vinho. Foi também o co-autor de quatro edições de um guia anual de vinho. De seguida, Tiago co-fundou o site NovaCrítica-vinho, para o qual trabalhou como crítico de vinho entre 2007 e 2009 e co-autorou o guia “Portal Portugal Guia de Vinhos Portugueses e Estrangeiros” 2008 e 2009.

Quando ele descreve a prova de vinhos como “uma busca incessante de equilíbrio entre “nós” e a experiência de vida”, seria talvez inevitável que o próximo passo de Tiago fosse produzir o seu próprio vinho. Juntamente com o seu pai, um co investidor, o escritor de vinhos autodidacta/futuro produtor, embarcou numa viagem de descoberta que envolveu visitar vinhas durante vários anos e culminou no Gilda, um vinho tinto. Gilda ganhou o seu nome do barco de madeira retratado no rótulo, que o avô de Tiago construiu e ao qual deu o nome da sua mulher.

Durante estas viagens, diz o Tiago, “nós observamos e provamos inúmeros estilos de vinho e castas”, acrescentando “eu precisava mesmo de amadurecer e me tornar humilde em relação ao vinho, provando muito, observando, libertando-me do desejo humano de controlar e disciplinar a natureza do vinho”, principalmente quando “vinhos sem natureza são os menos inspirados.” Os vinhos de Tiago são feitos com leveduras indígenas, sem enzimas, acidificação, filtragem ou clarificação, para que não se “distorça” o vinho.

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Tiago Teles na Adega – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Claro que é impossível escapar por completo ao desejo de controlar e disciplinar a natureza do vinho, porque os seres humanos dão necessariamente forma ao conceito ou estilo do vinho. Para Tiago e seu pai, o conceito é “produzir bom vinho, com um carácter popular… os vinhos devem ser bebidos por qualquer pessoa” e “transmitir a simplicidade do vinho criado para o seu propósito histórico, que é refrescar e acompanhar refeições a qualquer momento, em qualquer lugar.” “Fazer vinhos caros não é um objectivo,” afirma Tiago; em Portugal, o Gilda é vendido por 9€.

Quanto ao que ele quer dizer com “bom vinho”, Tiago define-o como elegante, digestível, vinho puro. Na sua opinião, as castas são menos importantes, na verdade “não relevantes”.

Antes, está convencido que a melhor maneira de expressar a localização é através de álcoois equilibrados e de extracções suaves, “caso contrário, o açúcar irá simplesmente remover a expressão mineral e vegetal.”

É uma afirmação provocadora, quando o seu vinho é produzido numa região que tem vivido alguma controvérsia relativamente a que castas obtêm o selo de garantia oficial e podem usar a indicação de origem Bairrada. Tiago afirma que “a Bairrada é uma região, não uma uva” e mantém que “as castas, independentemente de quais sejam, devem transportar o local” nomeadamente “transmitindo exactamente o calcário e o perfil fresco da Bairrada.”

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Gilda – Foto cedida por Tiago Teles | Todos os Direitos Reservados

Apesar de ser fã da velha vinha Baga (a casta tinta tradicional da Bairrada), na sua opinião “devido à sua diversidade de solo e influência atlântica, a Bairrada é uma região que tipicamente beneficia de blends e é também apropriada para uvas que amadureçam cedo.” Motivo pelo qual ele está “bastante feliz” com o Merlot que obteve do coração da Bairrada e misturou com Castelão e Tinto Cão para a primeira colheita de Gilda 2012. Diz, “respeitamos as pessoas que plantaram Baga há 80 anos e respeitamos as pessoas que plantaram Merlot há 25 anos. Contextos diferentes, convicções diferentes. Mas certamente, um bom legado para a Bairrada.”

É, portanto, curioso que o Gilda não esteja rotulado Bairrada, mas antes Vinho de Portugal? Tiago admite que, por um lado, tinha medo de desapontar os fãs do estilo robusto, tradicional da Bairrada (Baga). Por outro lado, tinha receio de alienar as pessoas que procurassem o seu estilo preferido (elegante, digestível). No entanto, em 2013 ele terá a coragem das suas convicções e o Gilda (nesta colheita um blend de Merlot, Tinta Barroca e Tinto Cão) será rotulado Bairrada. Estão também em movimento, planos para recuperar uma velha propriedade na região dos Vinhos Verdes, pertencente à mãe de Tiago e fazer um vinho branco. E assim, a viagem

Contactos
Tiago Teles Vinhos de Portugal
Campolargo 3780-180 S. Mateus – S. Lourenço do Bairro – Portugal
Email: tiagoteles@outlook.pt
Site: www.tiago-teles.pt