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Escangalharam a cara da Uma Thurman – O Factor Fruta

Texto João Barbosa

Neste Fevereiro brotou, com brutalidade, um retrato da actriz norte-americana que lhe rouba toda a sensualidade intensa e felina. Meu Deus! Quem foi o carniceiro que se tomou por cirurgião plástico?

A abominável figura resultou de efeitos especiais, um misto de luz, pouca sombra e uma maquilhagem de deplorável gosto. Uma Thurman, nascida nesse belíssimo ano de 1970 (!), com metro e 81, serve-me de muleta para o tema do vinho.

Ouvi a um enólogo espanhol que na sua profissão há os fruteiros e os carpinteiros. Ou seja, os que privilegiam a fruta e os preferem o trabalho com madeiras. Provavelmente, haverá mais famílias, mas estas duas categorias servem-me.

Tenho notado haver – entre enófilos, críticos e escritores de gastronomia – uma grande valorização da fruta. Em parte, parece-me bem, uma vez que o vinho não se faz doutra coisa que não de fruta.

Vários procedimentos podem esbater, maquilhar, mascarar ou esconder uma verdade. Estragar é sempre mais fácil do que consertar, sendo que os remendos nunca serão exactidão. Há desastres nas adegas – que esfrangalham o vinho como a maquilhagem da Uma Thurman – e há bóias salva-vidas; se tiver um vinho mau e tiver de o vender, possivelmente o enólogo terá de recorrer a base e rímel para criarem efeito especial. Enganará principiantes e tolos, mas não gente com currículo e sabedoria.

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Fruit in cutcaster.com

É fácil gostar-se de fruta – o que não é bom nem mau – e às vezes só não chega. Entram artifícios para que se realcem notas de produtos industriais de fácil gosto. Não digo que seja bom ou mau, depende de como se apresente e onde se apresente – se é para fruição pueril, em fato de banho ou menos do que isso num jacuzzi, tudo bem. Se é para valsar, calça de ganga não é vestimenta que se queira.

A defesa da fruta parece-me bem em parte, porque resumir vinho a fruta é uma chatice. O aborrecimento decorre abundantemente da vontade e necessidade do produtor fazer negócio. Nada a opor.

O que me custa é quando essa naturalidade da fruta, ou das flores, se transforma numa caricatura. A demanda torna-se insana (!) repetidamente. Reparei que vários produtores do Dão estão a apostar na touriga nacional e evidenciando-lhe os aromas de violeta.

Um caso concreto: tenho bebido caricaturas de vinho do Dão. Caricaturas de touriga nacional. Os vinhos não têm nada de errado, estão bem-feitos e honestos. Mas a ânsia de alcançar um Graal e o trabalho para realçar as características do que a natureza dá criam coisinhas muitíssimo feias.

É como o maquilhador de Uma Thurman: o técnico não estragou nada, está lá tudo e não acrescentou nada que não se pudesse retirar. Porém, a actriz ficou horrorosa!

Sinceramente, a fruta – a frutinha – cansa-me. Ouvir elogios à fruta é para mim tão emocionante como o resultado dum jogo de futebol-americano – que, na verdade, deveria chamar-se andebol-americano.

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Oak barrels in en.wikipedia.org

Fruta significa fruta e muitas vezes é tão aborrecida como um barrote de carvalho dentro dum copo. Não sou caruncho, não me alimento de madeira. Todavia, a madeira faz-me falta nos tintos. Só entendo os «unoaked» como princípio «filosófico» ou «ético» – exagerando – pois o prazer é fraco.

Apesar de tudo, branco e tinto não são a mesma coisa. Como resumiu uma amiga:

– Se é para cheirar e saber a maracujá, prefiro um sumo de maracujá.

Se eu produzisse vinho, contrataria um enólogo carpinteiro… mas dava-lhe pouco dinheiro para não poder comprar muitas barricas.

Manual Técnico de Vinhos – Bom e útil, por isso feliz

Texto João Barbosa

Diz-se que o português é pessimista, fatalista… o fado e a saudade. Sabemos também que somos os melhores do mundo e que na festarola só não ganhámos aos espanhóis – escrevo isto sussurrando, não vá um «vecino» ouvir estas letras e começar a tirar proveito em risota.

Ouvi há uns tempos que somos um povo bipolar. Penso que há muita verdade nisso, pois oscilamos entre esse oito e oitenta. Porém, ao longo da história, o português tem demonstrado saber adaptar-se à realidade e ao mundo.

Como diz o povo: Tristezas não pagam dívidas! Nestes anos difíceis – que começaram ainda antes de 2011 e da Troika – o português mostra a sua fibra. A crise e a austeridade causaram e causam mossas, mas entre falências e desilusões, a verdade é que não quebrámos.

Coisas simples fazem maravilhas. Quando se está na mó de baixo, se atentarmos podemos encontrar ferramentas para consertar dificuldades. Coisas simples dão trabalho.

Há dias, foi publicado um livro de enorme utilidade para os empresários da restauração, da hotelaria e enófilos. De que vale haver conhecimento se não for transmitido? Ninguém nasce ensinado e temos a vida toda para aprender.

O Turismo de Portugal publicou o «Manual Técnico de Vinhos», com a finalidade de manual. É pena serem apenas 2.500 exemplares… espero que o sucesso seja grande, para que venham muitas edições e com muitos mais livros. E que sucedam novas obras, com mais ideias.

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Manual Técnico de Vinhos in turismodeportugal.pt | Todos os Direitos Reservados

O custo? É caro? É barato? Não sei das algibeiras dos outros, mas penso que uma ferramenta de trabalho não tem propriamente um custo. São dez euros para a comunidade escolar – suponho que de hotelaria – e 15 euros para o público em geral.

Posso argumentar com o preço que se paga por um combinado económico… uma simples refeição – sopa, meia dose, bebida e café – custa metade disso num desinteressante snack bar, que vende vinho – a preço acima do valor do conhecimento. Bom, deixo em paz as algibeiras e não tenho ordenados para pagar.

Como disse, é simples – o simples dá trabalho. A obra foi feita a cinco mão, quatro (oito) ligadas a escolas de hotelaria e turismo: João Covêlo (Porto), Luciano Rosa (Algarve), Luís Lima (Estoril) e Paulo Pechorro (Coimbra). Juntaram-se as do enólogo Carlos Freire Correia.

O simples dá trabalho. Este tem ainda o mérito de ter vários níveis de leitura. Penso que auxilia quem começa, relembra alguns pontos apagados, faz pensar a quem anda mais traquejado. Como os livros do Tintim: dos 7 aos 77 anos.

Ninguém pensará que existe uma árvore das garrafas e que algumas cultivares dão sumo de limão e outras vinho. Porém, quantos conhecem o processo desde a génese ao desarrolhar ou os diferentes procedimentos?

Logo as primeiras informações do «Manual Técnico de Vinhos» arejam algumas certezas, contextualizando a situação portuguesa no mundo. Depois, nele cabe desde a videira à percepção dos aromas e sabores. Termina com um útil glossário.

É coisa pouca? Não é. É simples? Só de ler. Além de meritória iniciativa, é um trabalho bem feito, em que «as coisas não são assim porque são assim», mas antes «são assim, porque…». Defeitos? Terá. Li-o célere e só notei que faltou um acento agudo em Francónia – região da Alemanha integrada no Estado Federado da Baviera.

Quando dei por mim estava a pensar em Oscar Wilde

Texto João Barbosa

Os portugueses desvalorizam o vinho e essa desconsideração é transversal a classes sociais e económicas. Indaguemos professores catedráticos, de ciências várias, acerca da hipótese de o vinho ser arte…

Já coloquei a questão diversas vezes e somei: o vinho pode ser alimento, negócio, produto indutor de alteração de estado de consciência e daí derivando para finalidade de dependência tóxica e doença aditiva, flagelo social e problema de saúde pública… arte, é que não – quase sempre.

Como só faz falta quem cá está e só é sábio quem pensa e se permite pensar, deixo-os na paz das academias. Dedico-me à afirmação de que o vinho é uma peça de teatro!

Todas as representações têm o mesmo texto de base, o elenco, o cenário e… nunca é o mesmo. E se acrescentarmos mais elementos – época, sociedade, companhia dramática – maiores serão as disparidades.

Vou contar uma experiência – extrema – que certamente a maioria dos enófilos já experimentou: abrir garrafas iguais duma colheita antiga. Lembro-me duma em que se desrolharam cinco garrafas «iguais», em que três estavam magníficas e diferenciadas, outra cansada e a quinta estragada. Desde esse ano de 1955 que a sua vida foi igual… todavia… porém… contudo… no entanto… mas…

Gosto muito de Camões e das suas sabedorias!

Os marinheiros que presenciaram um fenómeno eléctrico e meteorológico eram desmentidos por quem nunca sentira a água salgada na pele, agarrados aos calhamaços das certezas. Luís de Camões, na sua descrição da viagem de Vasco da Gama para a Índia, presencia o fogo-de-santelmo, descreve-o e desafia:

“– Vejam agora os sábios de escritura, que fenómenos são estes de natura.”

Envelhecer é uma arte, garante o cantautor Sérgio Godinho. É válido para os homens e para o vinho – uma peça de teatro em que os actores são bio-seres.

Há o encanto da juventude e o charme da experiência – como há também adolescentes alarves e idosos caquécticos e mal-humorados. Outro dia entristeci-me quando vi uma «amiga», com 46 anos, mais «jovem» do que quando tinha 17. A plástica correu-lhe bem, a ideia de a fazer tornou-a patética.

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O retrato de Dorian Gray in wikipedia.pt

O romance homo-erótico «O retrato de Dorian Gray», de Oscar Wilde – editado com censura em 1890 e em versão integral no ano seguinte – ocorre-me frequentemente quando penso em vinho com idade.

A beleza do sempre-jovem Dorian – que fez um pacto para se tornar eternamente jovial – contrastava com o envelhecimento e degradação do quadro, reflectindo a idade, o vício e a corrupção moral.

Quando o desejo me assalta para um vinho com idade, olho para a garrafa e imagino o único romance de Oscar Wilde. Que vinho ali viverá? O rótulo envelheceu na vez do vinho?

Nesta pequena fantasia não entram mais personagens, além de Dorian e seu corruptor; nem mesmo Basil Hallward, o artista que lhe apreendeu a beleza e o «entregou» ao hedonista Lorde Henry Wotton, que – como Fausto – o leva a cair… o único modo de nos livrarmos duma tentação é a ela nos entregarmos. O poeta usou o mesmo pensamento noutra vez: «Consigo resistir a tudo, menos a uma tentação».

Assim se traça o destino da garrafa de vinho velho ou de vinho antigo, o Dorian ou o seu retrato. Uns envelhecem e outros ganham charme. Citando novamente Sérgio Godinho: «Pode alguém ser quem não é»?

Piparote na adega

Texto João Barbosa

Podem o Governo e organizações económicas fazer campanhas de promoção e defesa das produções portuguesas que o indígena vai sempre olhar para si e para a algibeira. Somos um povo individualista, muitas vezes invejoso e com grande pontaria para acertar com as balas nos pés.Há dias provei um vinho da Adega Cooperativa de Vila Real que bom prazer daria num dia quente. Um rosado guloso para ser bebido à conversa, demasiado doce para acompanhar o que quer que seja.

Não havia nada de errado com o vinho. A crítica vai para o vedante. É certo que vinhos para serem bebidos jovens se compreende a utilização de carica ou tampa de rosca. Percebe-se, mas fica mal aos portugueses. Pelo menos no que vendem dentro de portas. Há mercados que preferem objectos sintéticos… e aí é negócio, compreendo se enquadrem nessa prateleira de vinhos fáceis e breves.

Uma empresa que escolher, para fechar o seu vinho, um cilindro sintético, escorregadio para saca-rolhas razoáveis, de cor a imitar a da cortiça, devia pagar 85% de IRC. No mínimo! Não só é uma «fraude» imitar cortiça, como é um atentado à economia.

Fake

Rolha sintética

O turismo é responsável por 5,8% da riqueza nacional. Em Maio, talvez Abril, chegam escandinavos da cor de leite, pouco resistentes à força do Sol da Europa meridional. De Junho a Setembro, chegam aos milhares, em voos regulares, em companhias low-cost, em charters, de comboio… todo o ano chegam cruzeiros. Lisboa, Algarve, Porto, Madeira ou Fátima oferecem variedade: praia, negócio, cultura, espiritualidade, etc.

O turista senta-se numa esplanada da Rua Augusta e pede um vinho. O empregado, de humor variável, apresenta-lhe uma garrafa com vedante artificial. Que imagem leva para a sua terra? Que os portugueses desprezam a sua economia.

A Adega Cooperativa de Vila Real não é, infelizmente, caso único. O que torna mais grave é ser uma empresa que lida com muitos agricultores, que lhes paga as uvas e sustenta emprego directo e indirecto. Devia ter mais respeito pelos silvicultores e industriais nacionais.

Ao escolher uma rolha falsa, a Adega Cooperativa de Vila Real deita por terra o incentivo ao consumo do que é nosso. Por que raio hei-de beber vinhos portugueses? O que me levará a oferecer Douro, Alentejo, Bairrada… a um amigo doutro país?

Os cilindros com cor de cortiça – além de parecerem o que não são – são feitos com materiais sintéticos, com impacto negativo no ambiente. Pode argumentar-se que pode ser reciclado. Pois, mas até aí chega a cortiça: além de reciclável é facilmente reutilizável. Acresce, que os montados, para lá do rendimento e do emprego que geram – directa e indirectamente – são positivos para o meio ambiente, fixando carbono e sustentando ecossistemas.

Irá longe o tempo em que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses. Vai longe, mas a fileira dá emprego a muitos portugueses. Em 2012, o vinho foi responsável por 11% das exportações de bens alimentares. No conjunto das vendas ao exterior, o vinho pesou 1,6% – correspondendo a 725 milhões de euros.

Cork

Rolha cortiça

E o que dizer da cortiça? Pela casca do sobreiro nascem 2% das exportações nacionais – 845,7 milhões de euros, por 189,3 mil toneladas. A fileira da cortiça dá trabalho a mais de 8.700 pessoas.

Não seria melhor que os portugueses se apoiassem mutuamente? Os silvicultores, muitos deles também vitivinicultores ou viticultores, merecem reconhecimento. Não é caso único, repito… mas a uma casa com tantos agricultores fica muito mal trocar a rolha de cortiça por um bocado de «palavrão».

Pão com Presunto

Texto João Barbosa

Menino Carlitos, quanto são dois mais dois?

– São quatro, senhora professora.

O menino Carlitos cresceu, passaram a chamar-lhe Senhor Carlos (e apelido), e percebeu, num momento de proveitoso ócio, que dois mais dois podem não ser quatro. Chegou lá enquanto se deliciava com uma sandes de bom pão e excelente presunto.

Em gastronomia é frequente a matemática, no ramo da aritmética, não ser uma ciência exacta. A soma do pão, com o seu adocicado e um pouco acre, e do presunto, com o seu sal – simplificando: valem mais do que em separado.

A união faz a força… se não for desastrada. Entre o acerto e o desastre, as harmonizações do vinho (ou doutra bebida) com a comida são um jogo de prazer, de adivinhação e de conversa. Uns tenderão a juntar por afinidades e outros por disparidades. É como as relações amorosas:

– Que lindo casal, vivem juntos há 50 anos. Têm tanto em comum, que só poderia dar certo.

– Que lindo casal, vivem juntos há 50 anos. Se não fossem tão diferentes um do outro e certamente estariam divorciados no final do primeiro ano.

À vontade do freguês! Este desafio gastronómico enriquece culturalmente. Só por si, a comida pode ser apenas alimento. Vejo uma grande diferença entre comer e alimentar. Alimento-me para viver, já que não sou planta e, por isso, não realizo a fotossíntese. Como por prazer, tal como gosto de cinema, artes plásticas ou poesia. Vinho será apenas álcool se dele não tirarmos prazer da cor, aroma e paladar.

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Wine & Food in idealmagazine.co.uk

 

Confesso-me muito insensível à cor. Serve-me para perceber defeitos ou evolução, é instrumento de análise, é função e não forma. Não me embebedo com o rubi ou o âmbar. O mesmo não acontece com o aroma e o comportamento na boca.

Ainda assim, vinho não pode ser apenas vinho, ainda que gostando muito… um copo ao almoço, outro no final do dia de trabalho e um para o jantar… mais uns tantos numa festa – se conduzir, não beba.

O vinho tem de ser compreendido como um polígono. Se for visto apenas como vinho, para que interessam as condicionantes, naturais e humanas, que constituem o terroir? Dentro dum copo há, ou pode haver, história, literatura, música, memórias dum livro, lembranças de afectos.

Não gosto muito de me citar ou de palrar egocentricamente, mas aqui prefiro. Não sou dono de experiências alheias. E se quem divergir quiser tirar pagode, que o faça à minha custa – pois sou o dono da prosa – e não de alheios.

Um dia causei risota porque descrevi publicamente um vinho com uma identificação de lugar. Talvez pudesse enumerar um ramalhete diversificado, com algumas flores verdadeiras, outras induzidas, sugeridas, inventadas e de plástico. Era um vinho fantástico, de enorme complexidade. Aquele Vinho do Porto ficava em Óbidos, numa floreira enorme como uma floresta, pendendo na parede branca duma casa de regalo.

Outra vez defini um vinho com a palavra «Natal». Podia ter cantado uma ladainha: massa de bolo, frutos secos, fruta cristalizada, especiarias, blá, blá, blá… – oh tédio enfadonho! Sim, é um pleonasmo.

Quanto mais somarmos, maior será o resultado – exceptuando se escolhermos desgostos. Cada acrescento de história, antropologia e arte é mais do que a sua unidade. O resultado pode ser uma simples e sintética palavra… garanto, e bem que sou falador e vasto escrevinhador.

Até da amizade se faz vinho

Texto João Barbosa

Os portugueses têm uma enorme capacidade de inventar anedotas. Ou britânicos são subtis, algo frios e certeiramente inteligentes. Os alemães parecem não ter sentido de humor, mas têm… quem não tem são os suíços, ou não fosse a Confederação Helvética um ninho de banqueiros. Os alemães têm humor sem graça, mas fazem chalaças.

Disse-me uma amiga – alemã, por sinal – que o humor português é sádico. É verdade! Rimo-nos da desgraça alheia, ainda que duma personagem inexistente. Rimo-nos de nós mesmos, o que valorizo – traduz inteligência pelo auto-conhecimento, sentido crítico e relativização.

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Vinho & Amigos in wallpaperscraft.com

Acontece um fenómeno qualquer, em qualquer lugar do mundo, e o português fez dez anedotas na primeira meia hora após o incidente. Somos muitas vezes cruéis e injustos. Não deve haver português que não tenha ouvido a anedota do senhor Fonseca. No seu leito de morte chamou os filhos e ensinou-lhes uma esperteza:

– Nunca se esqueçam, que até das uvas se faz vinho.

Este senhor Fonseca nunca terá existido – deverá ser fruto de galhofa de mau gosto, ao citar-se uma pessoa real, e está datada. Reflecte uma época em que se valorizava produzir muito, interessando pouco o fazer bem.

Chamamos amigo a alguém que conhecemos há um mês e ignoramos a generalidade dos seus defeitos e virtudes. Porém, como tudo tem um começo, gosto dizemos que estamos a fazer amizade com alguém que acabámos de conhecer. Travar conhecimento parece suíço.

Gambrinus in gambrinuslisboa.com

Há uns dias fui ao Gambrinus – restaurante histórico da Baixa de Lisboa – beber umas imperiais com dois amigos. Um fugiu cedo e fiquei com o outro camarada à conversa, entre cervejas e croquetes… não hei-de estar gordo: um croquete tem praticamente as mesmas calorias diárias necessárias para um homem adulto.

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Imperial

A dada altura olhámos para o lado e estava um cavalheiro com um prato de ostras. Pediu para beber Moët & Chandon, o que nos deu oportunidade para encetar conversa. O meu amigo, ainda mais sociável do que eu, questionou-o por que escolhera aquele vinho.

Porque gostava, ora pois! Ah, sabe… temos belos espumantes… e coisital… que tal está? Palavra puxa conversa e ali ficámos, muito depois da hora prevista, conversando com o cavalheiro.

Um senhor simpático, de fácil conversa, educado… já disse cavalheiro?… Bem, o nosso interlocutor produz vinho na quentíssima região da Granja-Amareleja. A climatologia foi chamada para o debate, o amanho da terra naquelas paragens, história, a alimentação…

Sinceramente, não sei quantos quartos de hora durou a conversação. Sei que foram vários e tão agradáveis que foram escassos, travados pelos compromissos familiares. Ora o fazer amizade dos portugueses e a franqueza que o vinho merece proporcionaram um belíssimo momento.

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Guadelim Reserva 2009

À saída, o nosso bom conversador ofereceu-nos uma garrafa do seu vinho. Não conhecia. Guadelim Reserva 2009, com denominação de origem controlada de Granja-Amareleja. Potente e envolvente, com o calor daquelas paragens e muito longe de ser uma sopa ou uma compota. Nele mora ainda a madeira de azinho – obviamente inexistente – traduzindo uma boa integração e identificação.

O que ficou dessa conversa? Uma vontade de conhecer o território das vinhas donde saíram as uvas que fizeram o Guadelim e… uma noite cálida, neste Inverno bem frio, a jantar com amigos.

A propósito, Guadelim é nome duma ribeira. Pode ser Godelim, vem do árabe, quer dizer «rio da fonte», e mistura-se com língua germânica. Pois, até com dicionários se faz… água.

O melhor vinho

Texto João Barbosa

O melhor vinho do mundo é português, da minha região, do meu concelho, da minha freguesia, da minha aldeia e, por acaso, é o meu. Este raciocínio é partilhado, no todo ou na parte, por muitos portugueses.

Obviamente que não há «o melhor vinho do mundo». O bairrismo é muito português e dá-me gozo, se não for alarve, pois gera conversa, troca informações entre divergentes. Gosto do espírito (saudável) de família, clã e de tribo.

Penso que é unânime que nunca houve tão bom vinho em Portugal como hoje. Porém, sempre se fizeram vinhos de excelência. Antes de existirem enólogos já se fabricavam néctares divinos. Mérito da natureza, certamente, mas sobretudo do produtor.

Os antigos não eram burros. Sabiam o que faziam e, certamente, conheciam coisas que hoje são desconhecidas de muitos profissionais experimentados e cultos.

Dou um exemplo que não diz respeito ao vinho. Um amigo teve, a dada altura, uma oficina de prataria, destinada a restauros de antiguidades e reproduções de qualidade. Contratou um grupo de ourives de reconhecida qualidade e tarimba. Porém, quando a peça tinha origem mais remota do que o século XVIII (inclusive) nem sempre se sabia o que fazer.

Alguns males deste país são a falta de arquivos, por desleixo, terramotos, maremotos, incêndios e pilhagens de guerra. Perante o desespero e vontade de desistência dos artífices, o meu amigo reuniu a equipa e sentenciou:

– Caros amigos, os antigos não eram estúpidos, como hoje não somos mais estúpidos do que eles. Se faziam «estas» coisas é porque era possível fazer. Se é possível fazer, vamos fazê-las. Não há outra hipótese.

Procurou e encontrou bibliografia e fontes de informação, estudou as peças. Os oficiais e mestres leram, digeriram e, passado um tempo, estavam a trabalhar reproduções ou reparações de artefactos cujo conhecimento técnico se perdera.

As romãs enxertam nas laranjeiras, com vantagens, embora o oposto não seja possível – nem dá hipótese. É estranho, porque não fazem parte da mesma família. Não conheço agrónomo que explique.

Os antigos sabiam, empiricamente, que o cultivo de leguminosas junto às vinhas era benéfico, além de fornecer alimento. Que (caso de Colares) as macieiras contrabalançam o desgaste causado pelas videiras, fazendo fé no que me disse um homem da região.

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Vinho in wikipédida.org

 

Espero nunca perder o deslumbre continuado pelas coisas do vinho e da lavoura – da natureza e do homem. O Vinho da Madeira é maravilha (sem o artigo, como diziam os medievais) de se ver, sabendo dos seus padecimentos.

Os meus 45 anos permitiram-me «ver» uma multidão vinhos novos e velhos imbebíveis, mas também de pérolas. Hoje, com todo o conhecimento e mão-de-obra qualificada, é fácil encontrar um bom vinho. O que não era verdade, por isso encanto-me com peças de arqueologia e/ou museologia enológica.

Sei que serei fustigado por só escrever alguns e dos mais recentemente revelados, mas vai: o Taylor’s Scion, o Taylor’s Single Harvest 1863 ou o Moscatel de Setúbal Superior 1911 são colossos. A Sogrape prepara-se para celebrar os 225 anos da Sandeman e é de esperar outro grande vinho, tal como foi Kopke 375, que marcou o aniversário da casa.

A vida destes vinhos, todos aguardentados, é naturalmente mais longa. Todavia, nos «normais» há, por exemplo, excelentes Bairrada, Dão e até Alentejo…

Voltando ao princípio, ao amor ao terrunho, que tolda a lógica e o bom-senso; um produtor alentejano lançou, há um ano (dois ou três) um licoroso com oito anos de estágio em barrica. O preço de saída ombreava com o de prateleira de Vinho do Porto 20 anos.

O Alentejo é o Douro – nas condições de excelência para este género como na qualidade consistente percepcionada. O preço do abafado alentejano era estapafúrdio. Que saiba, vendeu-se todo. A quem? A quem acredita que o vinho da sua região é o melhor de Portugal, quiçá do mundo.

Poucas certezas e muitas mais dúvidas

Texto João Barbosa

Diz um amigo que as tradições são para se quebrarem. Nesta provocação cabem verdades boas e lamentos. Já não se queimam «ímpios», como já ninguém sabe fabricar as talhas de barro, para a feitura de vinho no Alentejo – perda de conhecimento histórico e antropológico.

Esta coisa das tradições é como a do gosto. O gosto discute-se e deve ser discutido; o que não se discute é o direito à oposição e o respeito que exige. No caso do vinho, e outros alimentos, uma denominação de origem deve ser mais do que uma delimitação geográfica. De todos os factores, debruço-me no primordial: casta.

A casta e a sua ligação à terra são a herança, património transmitido aos futuros. Contudo, devem ser um travão à imaginação, gosto, etc. Se um vitivinicultor quiser fazer azul, quando a tradição é verde, deve ser livre de o fazer. O que não é correcto é chamar verde ao que é azul.

A questão está no rótulo, na palavra referente ao território e à uva que é seu emblema. Um vinho com denominação de origem controlada não é melhor nem pior do que um regional; são coisas diferentes e separadas se devem manter.

Discutir as castas da Bairrada é uma tradição. Quanto a mim, no topónimo não cabem as cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, etc. Como não cabem apenas a baga e a maria gomes.

É verdade que, nessa região, a presença de variedades estrangeiras não é propriamente recente. A partir de que tempo se pode considerar como «autêntica»: dez anos, 20, 30, 100?

Reconheço alguma xenofobia. Tanto mais que há castas estrangeiras em Portugal há séculos, como a malvasia ou a moscatel de alexandria. Essas são portuguesas, e o que dizer da alicante bouschet que encontrou o seu habitat no Alentejo?

Há outra questão, a da transumância interna. A touriga nacional tem tanto de alentejana quanto a syrah. Aqui sublinho a alvarinho; partilhada por minhotos e galegos. Descoberta como grande casta, tornou-se apetecível noutras paragens.

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Casta alvarinho in wikipédia.org

Num primeiro momento reinou algum provincianismo quanto à permissão do uso rótulos da região dos Vinhos Verdes, que não da sub-região de Monção e Melgaço. Podia haver alvarinho num rótulo alentejano, mas não num de Ponte de Lima. Chegou-se a um acordo, a 13 de Janeiro, muito feliz. Todos podem usar o nome da casta, mas a sub-região de Monção e Melgaço vê reconhecida a sua especialidade através de selo de garantia exclusivo.

Ao problema da autenticidade acrescento os factores enológicos … com a padronização dos processos, será que Regional Alentejano, Regional Tejo, Dão ou Douro não ficarão parecidos? A tecnologia não esbate o território e casta?

No afã de diferenciar acontecem coisas como as verificadas na Beira. Não entendo o mapa. O problema não é haver muitas denominações de origem, mas sítios sem valor-acrescentado ou especialização, «lugares inexistentes».

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Folha de alvarinho in wikipédia.org

Isso, o consumidor não percebe, mas entende escalas. Devia existir uma tabela de classificação: Primeira Classe, Segunda Classe, etc. Lá estou eu a complicar e já basta o que é – dirão muitos. Complicado é andar sempre a mexer na toponímia e tratar por igual o que é diferente.

O que pensa um consumidor estrangeiro ao ver um Douro a três euros e outro a 80 euros? Mais caro não é melhor, é sabido. Não é mais claro assumir diferença e/ou especificação de terroir?

Explicar a um estrangeiro que Portugal existe e faz vinho há milénios é tarefa vivida por muitos. Colocar a diferenciação numa casta – que se pode cultivar até em Marte – é preferível a dizer a verdade?! Que fazemos lotes? O trabalho de explicar touriga nacional e blend não é o mesmo? Antes mais cedo do que depois ter de dizer que o Pai Natal não existe.

Não me considero analfabeto, pelo que opto pelo princípio da incerteza. Tenho preferência, não sou peremptório. Daqui por uns 300 anos a merlot não será – pelos meus argumentos – tão bairradina quanto a baga? Vencido, mas não convencido! Por paixão e pouca lógica.

O melhor de 2014

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Foi um ano e tanto. Era suposto ter sido razoavelmente relaxado mas provou ser um dos mais agitados. Fui a Portugal sete vezes durante este último ano. Pode não parecer muito, mas viajar de Helsínquia até Portugal é praticamente a viagem mais longa que se pode fazer dentro da Europa Continental. Ainda assim tenho sempre prazer em lá ir e o meu entusiasmo em relação a Portugal e aos seus vinhos cresce a cada visita.

Aqui estão alguns dos meus momentos favoritos passados em Portugal neste último ano:

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Vinho Verde – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Lindo, Vinho Verde. A Primavera na região vitivinícola do Vinho Verde  is spectacular. Like the name suggests it’s really really green. People are burning leaves and branches on their yards creating this unique scent that fills the air. Belly full of delicious alheira sausage and a glass full of Alvarinho. Doesn’t get much better than that.

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Essência do Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grandes Madeiras. A degustação de vinhos Madeira realizada por Rui Falcão no evento Essência do Vinho no Porto, foi nada menos que fantástica. O alinhamento contou com Barbeito Sercial 1898, Blandy’s Verdelho 1887, d’Oliveira Verdelho 1850, Justino’s Boal 1934 e Henriques & Henriques Malvasia Solera 1900. Simplesmente, wow! É disto que os sonhos são feitos.

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João Nicolau de Almeida – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grande J.! Conhecer João Nicolau de Almeida da Ramos Pinto foi como aquilo que sempre imaginei que as pessoas sentem ao conhecem o Jay-Z. Não gritei nem lhe pedi para assinar o meu decote, mas não andei muito longe disso. É um enólogo visionário e um pioneiro no vale do Douro. Beber com ele foi definitivamente um momento vínico a recordar.

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Camaleão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Camaleão. Na passagem pela degustação da Young Winemakers of Portugal, em Lisboa, deparei-me com o Camaleão. O rótulo do Camaleão é impresso com uma espécie de tinta térmica que reage à temperatura. Verde – demasiado quente, azul – pronto a servir. Uma ideia brilhante e que me faz perguntar porque nunca vi isto noutro lugar antes. O vinho também era bom.

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Tomates – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tomates arrebatadores. “Corações de boi”, estas relíquias que comi na adega da Vale da Capucha…meu Deus. Provavelmente os melhores tomates do mundo. Pareciam bifes, só que saudáveis. Regue-os com um pouco de azeite, uma pitada de sal e prepare-se para experiência incrível.

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Liguem os vossos motores – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

batmobile vínico. Estava de visita às vinhas da região vitivinícola de Colares, perto de Lisboa, quando vi este homem. Era tempo de vindima e este encantador senhor estava a transportar caixas carregadas de uvas para a adega. Este senhor conduzia um veículo da velha guarda e quando ligou o motor quase parecia uma cena saída de uma banda desenhada do Donald Duck. Deixou-me até conduzir por um bocado.

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Jantar – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Vamos comer. O jantar na Cervejaria Ramiro em Lisboa, com Eduarda e Luís da Vadio e com o redactor Jamie Goode foi fantástico. Algumas das coisas que tento comer sempre que estou em Portugal são camarões, perceves, e claro, muita cerveja. Para terminar, o tradicional prego e estamos arrumados. Delicioso.

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O Barão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O Barão. Outra grande pessoa que conheci neste ano que passou foi Bodo von Bruemmer. Este jovem de 103 anos começou a produzir vinho quando já tinha mais de 95 anos. O quê?! Se isso não é suficiente para te fazer acreditar que nunca é tarde demais, nada fará.

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Noval – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quinta do Noval. Juntamente com as suas vinhas Nacional, a Quinta do Noval é uma das propriedades mais icónicas não só em Portugal mas no mundo. Conhecer esta quinta há muito que está na minha lista de coisas-a-fazer e finalmente consegui. Agora desejo lá voltar para apreciar alguns Portos épicos.

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Madeira – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Pérola do Atlântico. Estive de visita à ilha da Madeira algumas vezes este ano e não me sai da cabeça quão bonita é. É pura e simplesmente majestosa. Adorei o tempo que lá passei e estou ansioso por lá voltar. Digno de peregrinação vínica e, quando lá estiverem, aproveitem também para beber uns copos de Poncha.

Votos de um delicioso 2015 a todos os leitores!

O terroir e o ambiente

Texto João Barbosa

A palavra terroir é uma coisa esquisita que, provavelmente, apenas conhecida pelo povo do vinho. Tenho ouvido acrescentos e tesouradas quanto ao significado desta palavra francesa sem tradução para outra língua – afirmação carente de estudo exaustivo da minha parte.

Terroir tem uma dimensão quase mágica, antropológica e amorosa. Quanto a mim, é solo, subsolo (ou até onde chegam as raízes), ecossistema de proximidade, envolvente natural (vida e não vida) transportada pelo vento, factores climatológicos, casta adequada, conhecimento agrícola e intervenção humana no campo. Tudo bonito e que se pode estragar por trabalhos «violentos» na adega.

região de Borgonha

Região Vitivinícola da Borgonha in en.wikipedia.org

Nenhum vitivinicultor diz mal do seu vinho e há «milhares» que dizem que a sua quinta tem um terroir próprio. Mudar «uma vírgula» não muda propriamente um texto. A minudência do terroir vem por empréstimo da Borgonha, onde existem micro regiões. La Tâche tem pouco mais de seis hectares, um exemplo. Dos seis aos 540 hectares, há terroirs para todos os conceitos. Até aqui está quase tudo bem. A complicação surge quanto ao modo de amanhar a terra.

La Tâche

La Tâche in en.wikipedia.org

Primeiro ponto: um território onde a vinha é regada é parte do terroir? Quem molha as videiras diz que sim, quem não lhes dá água afirma que não, porque prova que a trepadeira não está instalada num local confortável – não é dali.

Segundo ponto: vinhas tratadas com herbicidas, fungicidas e pesticidas de síntese têm o direito de serem parte dum terroir? Porém a adição de calda bordalesa, por mais natural que seja, também não passeia naturalmente na terra e o cobre é tóxico.

sulfato de cobre

Sulfato de Cobre in www.ebah.com.br

Terceiro ponto: aparar as ervas é consentâneo com a natureza? O plantio – ancestral e hoje reconhecido –, nas entrelinhas, de plantas que fixam azoto é consentâneo?

Aparador

Aparador de ervas

Quarto ponto: se o vinho é um produto de «agricultura inteligente» negar ou reduzir ao mínimo a intervenção humana não contraria a essência da lavoura?

O Domaine de La Romanné-Conti, na Borgonha, adoptou há anos a prática de agricultura biológica, depois de biodinâmica e hoje o amanho é feito com tracção animal. Exagero ou marketing?

A biodinâmica é um modelo radical de agricultura biológica – assumo o adjectivo como substantivo – que defende uma intervenção mínima, certificada por um organismo privado e pouco flexível: a Demeter. O movimento foi criado, na Alemanha, por Rudolf Steiner, que a apresentou em 1924. Não sei por que carga de água os nazis foram implicar com a filosofia.

Rudolf Steiner - em 1905

Rudolf Steiner in en.wikipedia.org

A biodinâmica recolhe contributos ancestrais, como os ciclos lunares ou a astrologia zodiacal, de 12 signos. Para mim, é misticismo, porque na realidade são 13. Porém, 12 é um número mágico, formado por outros algarismos transcendentes, como o três e o quatro.

Rythme_sidéral_Biodynamie

Zodiaco e ciclos lunares in commons.wikimedia.org

Para se ter uma noção do radicalismo: uma herdade com cerca de 500 hectares ia sendo chumbada, porque um buraco no caminho fora tapado com bocados de tijolo. Foi complicado fazer crer que o tijolo é feito de barro. Só cultiva biodinâmico quem quer, e mal não faz.

Para remate conto o que ouvi acerca dum produtor da Borgonha. Diz que a casta só se manifesta nos primeiros anos. Depois da maturidade, a planta expressa o terroir.

Rega, não rega? Casta específica, ou não? Cultivo nas entrelinhas, ou não? Aparar as ervas bravias, ou não? Usar tracção animal, ou não? Usar produtos de síntese, ou não? Cada um tem o seu conceito de terroir e de boa prática de lavoura.

Céptico ou discordante de alguns factores enunciados, o que sei é que há vinhos fantásticos onde não se pratica agricultura biológica nem biodinâmica e onde a rega é praticada.