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Ainda não me cansam as pernas de andar pelo Dão

Texto João Barbosa

Comecei a passear pelo Dão, mas como as estradas são compridas acabei por não chegar ao destino, sem fazer uma pausa de uma semana. Contava que a segunda revelação foi uma festa com vários oficiais de alta patente.

Aconteceu em 2010, quando João Tavares de Pina organizou um evento, em que participaram muitos produtores, todos eles de vinhos de grande qualidade. Este lavrador chamou-lhe «Dão – The Next Big Thing». Para quem não domina a língua inglesa, pode ser «traduzido» como «Dão – A Próxima Grande Surpresa».

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Expressões do Dão in cvrdao.pt

Não tenho nada para ensinar aos dirigentes da Comissão Vitivinícola Regional do Dão mas penso que esse momento deveria repetir-se, de modo a criar uma onda para o reconhecimento… talvez com concurso, debates e críticos internacionais.

Foi um encontro e pêras. Um verdadeiro encontrão. Um encontrão pela variedade e pela qualidade apresentada. Se apontei, não me recordo onde guardei a lista com a informação de todos os produtores, mas foram muitos. Como em tudo, há uns que memorizei pelo agrado.

Um foi o vinho do anfitrião e organizador. Os vinhos Terra de Tavares, muito vibrantes, autênticos, com o carácter do «terroir» – palavra em vias de banalização, devido a constante usurpação, não é o caso neste momento.

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Terras de Tavares, João Tavares de Pina – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Outra bela descoberta foram os da Casa de Darei, mais elegantes do que os anteriores, mas também muito especiais e agarrados à origem. Mas o maior espectáculo aconteceu no selecto Clube de Viseu, no seu salão de festa.

O ponto alto aconteceu quando se serviram os vinhos do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão – situada na Quinta da Cal, no concelho de Nelas. Brancos velhos em plena forma, nomeadamente de 1980 e 1981. Tintos da década de 70 ainda mais joviais.

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Solar do Vinho Dão (CVR Dão) cvrdao.pt

Um grande amigo contou-me de beber uns néctares da UDACA (União das Adegas Cooperativas do Dão) com «séculos», que o fizeram repensar a certeza de só gostar de vinhos novos. Infelizmente, não me passaram pelo estreito.

A minha memória do Dão criou-se do quase nada – como revelei na primeira parte deste passeio de recordações. Até muito tarde, sabia, de vinhos do Dão, apenas marcas antigas, como Porta de Cavaleiros, Dão Pipas, Grão Vasco, Meia Encosta, São Domingos, Messias e Borges… acho que mais nenhum.

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Expressões do Dão in cvrdao.pt

Já na década de 90 encontrei-me com néctares excelentes, ostentando nomes das quintas onde nasciam, o que é natural devido ao declínio das cooperativas da região. De então para cá, a lista tem-se alargado. Sabendo que serei injusto, por omissão involuntária, tenho de citar – além das já referidas – pérolas grená e loiras: Quinta dos Roques, Quinta da Vegia, Quinta da Passarela, Paço dos Cunhas de Santar, Quinta de Carvalhais, Casa de Mouraz, Quinta da Falorca, Duque de Viseu, Pedra Cancela, Pedro & Inês, Quinta da Fata, Quinta de Saes, Quinta da Pellada, Quinta do Perdigão, Quinta de Carvalhais e… saiu pela ordem «inexplicável» da memória, sem hierarquia.

Como em tudo, não há só maravilhas. Ainda assim, o negrume não é absoluto – felizmente. Um dia, embalado pelo prazer do Dão, tropecei num vinho da Adega Cooperativa de Penalva do Castelo. A experiência foi terrível. Sublinho o «foi». Actualmente, o que ali se faz rompe com esse passado.

Tive um mestre no jornalismo que nunca se cansou de elogiar o meu poder de síntese. Nestes artigos não tenho de ser sintético como nas notícias… não consigo dizer tudo o que quero acerca do Dão.

Tenham lá paciência, continua na próxima semana.

À procura do Ouro: O Vinho Português ao Microscópio

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Tem sido um grande privilégio para mim presidir, desde 2011, o painel de Portugal na Decanter World Wine Awards (“DWWA”), que reivindica ser a maior e mais influente competição de vinhos do mundo. Estes ano mais de 16000 vinhos deram entrada na competição, 730 dos quais portugueses (não contabilizando vinho do Porto nem vinho Madeira); poderá consultar os resultados no website da Decanter a 14 de Junho.

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À procura do Ouro: A equipa de elite, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Os vinhos são avaliados por especialistas nas suas respectivas áreas. Todos os anos o meu ilustre painel inclui líderes de opinião e colegas campeões do vinho português. Este ano aproveitei a oportunidade para sondar as suas opiniões relativamente à performance do vinho português nos seus respectivos mercados (principalmente no Reino Unido, que é considerado uma janela de vendas para o mundo inteiro). As contribuições são de:

  • Danny Cameron, director da Raymond Reynolds, Reino Unido, uma importadora especializada em vinho português, que trabalha com algumas das mais conhecidas marcas premium do mercado.
  • Nick Oakley, fundador Oakley Wine Agencies, uma importadora especializada em vinho português que conta com quase todos os múltiplos supermercados como clientes.
  • Jo Locke, Master of Wine e responsável pelas compras em Portugal na loja online do Reino Unido – The Wine Society,  que recebeu mais prémios, merecidamente, pela sua lista de vinhos portugueses.
  • Anne Forrest, anterior responsável pelas compras em Portugal na Direct Wines, e que agora é directora na Vinos Sin Fronteras, Lda, sediada no Porto, uma especialista em exportação de vinho e consultadoria de negócios.
  • Cláudio Martins, anterior gestor/sommelier da britânica New Street Wine Shop, e agora director vínico na Montevino Partners Wine Merchants.
  • Madeleine Stenwreth Master of Wine, freelancer sueca de consultadoria vínica, especializada em desenvolvimento de produtos, blending e estratégias de qualidade e estilo.
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Nick Oakley, Claudio Martins, Madeleine Stenwreth Master of Wine, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Notou algum crescimento nas vendas, qualidade e gama dos vinhos portugueses e, se sim, quais?

Danny Cameron: No Reino Unido acho que o valor ideal para as vendas em loja ronda entre as £8 e as £15 (€11-€20). Desde que a simpática Lehman Bros fez o que fez (crise financeira mundial), que o mercado para a alta gama portuguesa se tem debatido, mesmo os rótulos mais icónicos. Isto sugere que Portugal não é ainda um mercado totalmente confiável para estes potenciais consumidores que, durante as recessões, tendem a voltar àquilo que consideram ser escolhas seguras.

Nick Oakley: Sim, bastantes. Estamos a prever um crescimento de 20% em volume de negócio e ainda mais em valor. Estamos dentro das expectativas após estes quatro meses que passaram.

Jo Locke MW:  Sim,verificamos um aumento nas vendas, em grande parte devido ao grande foco dedicado à região (actividade de vendas dedicada e maior presença em mailings padrão), mas também pelas, agora, provas habituais de vinhos portugueses.

Anne Forrest: Sem dúvida que verificamos um aumento nas vendas no último ano, em especial com um crescimento acentuado no sector das ‘categorias especiais’ de fortificados, p.ex. não só nos normais Ruby, Tawny, Porto branco. Existe um grande interesse, e mútuo, por parte das pequenas e grandes vendedoras em encontrar algo realmente especial, com aquele factor único, que cause ‘wow’ ao cliente após o primeiro gole. Colheitas envelhecidos, Tawnies e Moscatel de Setúbal têm provado ser populares, superando as expectativas. Também constatamos um crescimento do Vinho Verde e de vinhos rotulados como monovarietais ou que estejam em grande forma na região do rótulo.

Cláudio Martins: Existe uma nova onda de vinhos portugueses no Reino Unido, as cartas de vinho dos restaurantes estão a aumentar a sua oferta de vinhos do Minho, Douro, Alentejo e até mesmo alguns do Dão, com diferentes categorias de preço, o que é óptimo. Hoje em dia o consumidor está mais consciente dos vinhos portugueses.

Madeleine Stenwreth MW: A qualidade está constantemente a melhorar; o mercado sabe-o, mas os consumidores têm de estar ainda mais convencidos da origem antes de se aventurarem. Não é fácil captar a atenção dos consumidores, salvo vinhos de marcas conhecidas/respeitadas ou assinados pelo énologo (João Portugal Ramos como exemplo), para criar essa confiança que Portugal ainda precisa de construir. Os vinhos são constantemente lançados no mercado, mas não existe poder para os manter nas prateleiras. A categoria está demasiado fragmentada e complicada para os consumidores saberem o que esperar das diferentes regiões. Isto significa que os consumidores precisam de uma marca confiável para se agarrarem. Acho que existe um problema por existirem tantos nomes que não dizem nada aos consumidores.

Que categorias de vinho português (por estilo, região, casta) estão a mostrar serem mais populares entre os consumidores?

Danny Cameron: Em termos de marketing, as regiões que investiram mais ou menos na promoção das suas regiões parecem estar a obter resultados.

Nick Oakley: Dão, Douro and Vinho Verde (uma nova onda de monovarietal). O Dão tem sido particularmente bem sucessido em todas as categorias – independentes, supermercados, online e mercado/restaurantes (por intermediários). No que toca ao Vinho Verde, os monovarietais Arinto e Avesso têm obtido sucesso até agora, juntando-se ao Alvarinho. Não vejo nenhuma razão para que os Loureiro não se juntem a eles.

Jo Locke MW: O Vinho Verde é a estrela actual, a todos os preços.

Anne Forrest: Neste momento o Dão está a vender muito bem, e tanto os blends tintos como brancos estão a mostrar serem muito populares. Enquanto região, o Dão parece estar a ganhar mais e mais tracção, já que os estilos são bastante consistentes por entre as várias marcas e os consumidores sentem-se confiantes para repetir a compra porque sabem que vão gostar do que vão encontrar na garrafa. Também têm um bom preço/qualidade e complexidade suficiente para manter os consumidores intrigados e a querer mais.

Cláudio Martins: Sem dúvida os vinhos do Minho, e os tintos do Douro ainda são a escolha normal da clientela numa wine shop ou num restaurante.

Madeleine Stenwreth MW: Tintos de qualidade comercial com notória concentração de fruta, mas com taninos suaves, redondos e fáceis de beber, acompanhados ou não por comida.

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Beatriz Machado, Nick Oakley, Claudio Martins, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Que categorias (por estilo, região, casta) o/a impressiona mais; onde prevê ver ainda mais crescimento?

Nick Oakley: Para mim o Dão é a maior história e a minha região favorita. Um extra é que desenvolvemos um tinto à imagem californiana, com 14g de açucar, ao estilo Apothik. Chama-se Wolf & Falcon e foi desenvolvido pela Laithwaites. Aqui penso que foram o estilo e o branding que se sobrepuseram à origem.

Jo Locke MW: O Vinho Verde tem potencial para crescer; o Dão parece estar sub-representado e pode, e deve, fazer mais.

Anne Forrest: O Alentejo foi a região que mais me impressionou este ano. É desta a região que os portugueses adoram beber e parece apelar ao sentimento dos consumidores portugueses que escolhem beber em casa ou nos restaurantes. Existe uma grande competição dentro do mercado nacional com muitas marcas/adegas a surgir e que estão a lutar para se estabelecerem, o que está a impulsionar a qualidade. O Alentejo está a começar a ganhar reputação fora de portas e, penso que, eventualmente, com um pequeno número de produtores de topo a mostrarem o caminho, virá a ser uma ‘escolha segura’ para os consumidores no Reino Unido e em todo o lado.

Claudio Martins: Os vinhos do Dão têm muito para oferecer e a Touriga Nacional tem, naquela região, aquilo que os consumidores britânicos procuram. Prevejo observar um crescimento nos vinhos de Lisboa – se for feita uma boa campanha de marketing, direccionada ao mercado britânico, acredito que as pessoas irão começar a reconhecer os vinhos.

Madeleine Stenwreth MW: Tintos bem feitos, com um pequeno toque comercial, mantendo a pureza e honestidade da fruta. O Douro conseguiu isso. O Alentejo já se atreveu a distanciar-se do, demasiado maduro, tosco e over-oaked devido aos problemas de morrer ainda jovem na garrafa. No topo, poucos perceberam que se pode ir longe na elegância mesmo sendo encorpado. Quanto aos brancos, os pontos altos no DWWA foram sem dúvida os brancos [estejam atentos aos resultados do DWWA]. Vinhos de classe mundial!

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Anne Forrest, Matthieu Longuere Master Sommelier, Jo Locke Master of Wine, Decanter World Wine Awards 2015 – Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Onde acha que à espaço para melhorar?

Danny Cameron: Acho que a qualidade do todo dos vinhos portugueses é, no geral, 100% melhor do que há alguns anos atrás. Mas o país ainda tem poucas potenciais grandes marcas que possam singrar no mercado britânico.

Nick Oakley: Gestão de taninos no sul. Rotulagem por denominação em vez da marca (como em França). Isto está a funcionar para o Dão. De momento há milhares de marcas a tentar alcançar visibilidade e nenhuma a consegui-la. Vamos rotular o Dão como Dão, o Douro como Douro. Esqueçam o branding, ou pelo menos diminuam a sua importância. Só desta maneira é que os compradores ficarão a conhecer os vinhos.

Jo Locke MW: As rolhas são o maior problema neste momento. Como é possível que Portugal produza tanto e fique com o pior para si próprio? O número de vinhos de topo com rolhas pobres é chocante e não abona a favor da sua reputação. O rosé não é levado a sério mas não vejo razão para Portugal não produzir muitos e bons exemplares. Para nós, o mercado, bom, de rosé seco ainda é dominado pelo sul de França e não precisa de ser. Ah, e o pequeno problema de auto-confiança!!

Anne Forrest: Acho que um pouco mais de auto-confiança faria maravilhas! Os produtores que se mostram, que não ficam nos bastidores, que se informam dos mercados e que promovem activamente os seus vinhos estão a encontrar caminhos de entrar no mercado. Acho que Portugal está no caminho certo, portanto mantenham a receita, se faz favor!!

Claudio Martins: Intervenções ao nível de marketing, provas para consumidores, é a única maneira de colocar Portugal no mapa dos consumidores britânicos. O mercado já conhece o potencial e qualidade dos vinhos mas o consumidor precisa de o requisitar.

Madeleine Stenwreth MW: O design é muito importante e, juntamente com bom vinho e esforços para uma continuada educação genérica irão ajudar Portugal a mover-se na direcção certa. João Portugal Ramos é um exemplo do esforço constante para melhorar a qualidade e estilo, em constante evolução do todo para manter o consumidor feliz, e nunca desaponta. A consistência é a chave para uma vida longa nas prateleiras.

Para terminar, a escritora Jane MacQuitty juntou-se ao meu painel este ano, durante um dia; tem sido a correspondente de vinho e bebidas do The Times desde os anos 80. O que disse foi isto, “Como sabe, sou uma grande fã do vinho português, mas sinto que o país é o cavalo negro da Europa, com muito potencial com uma enorme quantidade de castas autóctones, muitos estilos de vinhos regionais e de outro tipo. Acho que o Vinho Verde está no topo da montanha mas também acho que o Dão, seja branco ou tinto, irá produzir muitos vinhos wow no futuro. Resumindo, o que Portugal precisa mesmo é de acelerar e de se juntar ao século XXI.”

Um passeio incompleto pelo Dão

Texto João Barbosa

Uma conversa recorrente cá em casa é acerca da memória. Um tema teimoso, discussão bizantina… é quase um cerimonial para sorrisos, pois já todos disseram e explicaram o que pensam. O meu partido é o de que não são necessárias fotografias para se construírem memórias.

Já colocaram um livro, estrategicamente posto para nele tropeçar com os olhos, em que o autor garante a necessidade das fotografias ou imagens para se fazerem memórias. Ora, em milhares de anos de evolução, o ser humano sempre teve memórias e a fotografia data do século XIX, à década de 20. Mesmo os retratos pintados têm «alguns» séculos, mas são segundos na escala da vivência do Homo sapiens sapiens. Além de que quer a fotografia, quer a pintura – sobretudo esta – não estavam acessíveis à grande maioria da população. Além de que a memória também se falseia e reinventa, até se inventa.

Isto tudo para falar sobre o Dão, de três dos seus vinhos. A minha recordação da zona do Dão limita-se a uma fotografia em que eu e os miúdos de Campo de Besteiros fizemos um comboio com as cadeiras lá de casa. Porém, a recordação mais clara é a da centopeia – que coisa estranha – que se afogara na bacia do lavatório.

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Arco dos Cavaleiros (old) in visoeu.blogspot.pt

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Arco dos Cavaleiros Nowadays in Panoramio.com – Photo by filipe_ | All Rights Reserved

Para mim o Dão – Viseu – tem uma má memória, uma chatice num «restaurante» em que o bife veio com cabelos. Ainda hoje não gosto de Viseu, com todo o respeito pelos seus habitantes, nascidos e apreciadores.

O Dão diz-me quase nada. Porém, o vinho está numa prateleira à parte. O meu pai comprava, muitas vezes, tinto dessa região. Tenho 45 anos e na minha infância o Douro «não existia», o Alentejo «não existia»… da Bairrada não me lembra… havia Vinho Verde e umas marcas de vinhos provenientes de videiras superprodutivas, provavelmente da Estremadura e do Ribatejo.

Como o meu pai bebia quase sempre tinto, o vinho do Dão é encarnado. Ainda hoje! O Doutor Freud explicaria. Porém, é muito mais do que isso. É uma região com néctares maravilhosos, com um bom número de produtores com esmero. O problema do Dão é a dimensão da propriedade e uma característica típica portuguesa – ali talvez sublimada – que é a desunião.

Há dois momentos especiais quando descobri o Dão. Uma garrafa e um evento. O primeiro episódio causou-me o espanto da descoberta do que é um Chuck Norris de salão e outro foi conhecer um grupo de oficiais de alta patente, envergando uniformes de gala.

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Porta dos Cavaleiros Colheita de 1983 in garrafeiranacional.com

Chuck Norris pela sua força e capacidade de resistência, mas com elegância… poderá pensar que James Bond seria «adjectivo» mais correcto, só que o 007 é urbano. Passo a contar: na casa dos meus pais havia uma garrafa de Porta de Cavaleiros, referente à colheita de 1983. Não sei como não foi abatida ao efectivo, mas, como sobreviveu, o meu pai deu-ma, em Fevereiro de 1994, quando passei a ter casa própria e vida de solteiro. Todavia, a garrafa ainda viveu mais de uma década. Um dia, em 2007, resolvi que tinha de ir para dentro. Que espanto! Espanto! Uma jovialidade, elegância… o que tem a ver com Chuck Norris? É que a garrafa (o vinho) apanhou calores, viveu com luz, não se deitou e movimentou-se algumas vezes. Colossal em todos os aspectos!

Não perca o próximo episódio.

O Douro Superior e o seu Festival Anual de Vinhos

Texto José Silva

O Douro Superior é uma região ainda maioritariamente inóspita, montanhosa, com o rio Douro a proporcionar paisagens verdadeiramente arrebatadoras, duma beleza quase sufocante, de cortar a respiração.

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Douro – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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“…por vezes um excesso de natureza!” – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Como dizia Miguel Torga, “…por vezes um excesso de natureza!”

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Os solos são pobres – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Os solos são pobres, onde o xisto é predominante e um clima de extremos, com verões muito quentes, com as temperaturas a ultrapassarem muitas vezes os 45º celsius e muitos meses dum inverno muito frio, mas com muito pouca pluviosidade, a possibilidade de regar as vinhas veio trazer o complemento necessário para ali se fazerem vinhos de excepção.

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Vinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Oliveira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Nos últimos anos a plantação de novas vinhas disparou completamente, com a vinha a conquistar terreno a uma paisagem onde as oliveiras e as amendoeiras eram predominantes. Aqui e ali ainda se continuam a ver os tradicionais pombais em forma de ferradura, tão característicos. E é daquela sub-região que têm saído alguns dos melhores vinhos portugueses dos tempos modernos. Isto tudo não foi certamente alheio à organização, há quatro anos atrás, do primeiro Festival de Vinhos do Douro Superior, este ano na sua quarta edição.

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Festival de Vinhos do Douro Superior Quarta Edição – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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E tem estado muito bem a Revista de Vinhos – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

E tem estado muito bem a Revista de Vinhos que, com a sua enorme experiência, soube interpretar aquilo que se pretende dum festival deste tipo, mas que tem lugar na longínqua Vila Nova de Foz Côa, e tem sabido ali chamar apreciadores de vinhos um pouco de todo o país, para além de gente de toda a região, que ali têm oportunidade de provar as novidades e os grandes clássicos, muitos deles já premiados um pouco por todo o mundo.

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A Revista de Vinhos tem sabido também organizar um programa aliciador para a comunicação social – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Tem sabido também organizar um programa aliciador para a comunicação social e para muitos profissionais do comércio de vinhos, a que se juntam muitos blogers da área, com visitas guiadas que incluem almoços e jantares em algumas das mais bonitas quintas da zona. Estes profissionais sentam-se à mesa para provar os vinhos a concurso, numa prova cega impecavelmente organizada, de onde vão saír os prémios para os vinhos que mais se destacam, na opinião dum painel independente e heterogéneo.

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O Festival – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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O Festival – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Depois é passear pela feira a provar vinhos e alguns produtos regionais – pão, queijos, enchidos, compotas, frutos secos, azeite, etc. – ou assistir a alguns colóquios bem interessantes conduzidos por alguns dos jornalistas da Revista de Vinhos.

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Caminho de Ferro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Hoje, embora o caminho de ferro continue a ser uma boa opção, os acessos a Foz Côa são muito diferentes, melhores e mais rápidos, o que também facilita dar um salto até lá, para passar um dia interessante, regressando pela noitinha, ou mesmo passar dois ou três dias e aproveitar para conhecer melhor uma região com tantos atractivos, sobretudo a nível paisagístico, onde a ecologia é algo natural que está por todo o lado.

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Uma Região com Tantos Atractivos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobretudo a Nível Paisagístico – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Neste caso há que ter alguma atenção aos alojamentos, onde não há grande oferta e que durante o festival estão por vezes completamente cheios.

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Gastronomia Local – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Terrincho tem destaque natural – Foto Cedida Por Revista de Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Apreciar a gastronomia local é outro dos atractivos e que passa pelos peixes do rio fritos ou de escabeche, azeitonas, enchidos e queijos, de que o Terrincho tem destaque natural, e a carne de vaca, com alguma predominância da raça Mirandesa, sejam umas costeletas, um rodião ou a tradicional posta Mirandesa, preparadas de maneira simples: brasa de lenha, sal grosso, cozinhada no ponto. No prato junta-se o molho à base de azeite, alho, salsa e vinagre de vinho…e come-se de olhos fechados.

 

O grupo de jornalistas e blogers aproveita sempre para conviver e trocar experiências, num ambiente de franca camaradagem que é também proporcionado pela organização.

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Ambiente de Franca Camaradagem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No regresso aos vários pontos de origem, já pensamos no ano que vem, para mais uma visita ao Douro Superior, as suas paisagens, a sua comida e os seus vinhos. E às pessoas que fazem tudo isso.

Até para o ano!

Porto Cruz, uma empresa em constante expansão…

Texto José Silva

Embora pertencente a uma grande firma francesa de produção e distribuição de bebidas, é uma empresa portuguesa de sucesso, que alicerça a sua força na produção de vinho do Porto, e que tem um lugar de destaque em Portugal, sendo um dos maiores produtores de vinho do Porto, mas sobretudo no estrangeiro, para onde exporta a maioria da sua produção.

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Porto Cruz – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Faz parte também do seu portfolio a casa C. da Silva, produtora dos vinhos Dalva, uma referência no sector.

Há um par de anos tomou a maioria do capital da Henriques and Henriques e a totalidade do capital da Justino’s, ambos produtores de vinho da Madeira. Recentemente comprou a Quinta de Ventozelo, uma das maiores extensões de vinha do Douro.

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Adega de Alijó – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Mais moderna e revolucionária tecnologia para produção de vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entretanto já tinha inaugurado a nova adega em Alijó, detentora da mais moderna e revolucionária tecnologia para produção de vinhos.

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Adega com capacidade de armazenagem de 22 milhões de litros de vinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É uma adega com capacidade de armazenagem de 22 milhões de litros de vinho, com 40 cubas de 360.000L cada e outras de 180.000L cada, entre muitas outras de menor dimensão. Dois enormes filtros alimentam todo o complexo, assim como sistemas de azoto e ar comprimido. E um inovador sistema de limpeza e desinfecção automático que opera para a limpeza de todas as cubas.

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Sistema de bombagem do vinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O sistema de bombagem do vinho é também automático e tudo é liderado por um sofisticado sistema de domótica.

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Lagares de aço inox – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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A parafernália de equipamentos impressiona o visitante – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com lagares de aço inox que alimentam as cubas onde os vinhos vão fermentar e estagiar, passando depois para barricas ou directamente para as garrafas, toda a parafernália de equipamentos impressiona o visitante, quer pela quantidade, quer pela qualidade, quer pela preservação e higiene, imaculadas.

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Nesta adega estão centralizados todos os trabalhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Nesta adega estão centralizados todos os trabalhos e ali passam a ser feitos todos os vinhos da empresa, sendo armazenados e dali expedidos.

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Armazenados em cubas de inox gigantes © Blend All About Wine, Lda

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Maior parque de balseiros da região © Blend All About Wine, Lda

Muitos deles vão para Vila Nova de Gaia, onde vão estar armazenados em cubas de inox gigantes ou em estágio, no maior parque de balseiros da região, de enorme dimensão.

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As velhas cubas de cimento – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ali a grandeza não é menor, com as velhas instalações sempre em evolução, adaptadas às modernas necessidades, e onde ainda são usadas as velhas cubas de cimento, num aproveitamento inteligente de todo o espaço disponível.

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Sistema sofisticado © Blend All About Wine, Lda

Ali opera também um sofisticado sistema de enchimento, rotulagem e embalamento, que corresponde às necessidades das enormes quantidades de vinho que saem diariamente, rumo a todo o mundo. A eficácia parece ser a palavra de ordem, anunciando-se para breve obras na parte administrativa e no laboratório.

Com a equipa de enologia a cargo do Eng. José Manuel Soares, que tem uma longa experiência na viticultura e enologia duriense, todo o projecto e estratégia são da responsabilidade do Eng. Jorge Dias, que tem sabido desenhar um perfil novo para os vinhos da Porto Cruz e para toda a imagem da empresa, o que está à vista um pouco por todo o lado.

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O imponente edifício Porto Cruz – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Toda essa imagem está concentrada, mais abaixo, na marginal de Gaia, na imponência do edifício Porto Cruz, já uma referência na zona. Duma construção antiga fez-se um espaço onde, como os próprios dizem “o vinho tem que ser vivido!” Decoração arrojada, muito moderna, investiu-se na imagem digital, com soluções muito inovadoras para dar a conhecer o vinho, sobretudo o vinho do Porto, também através do audiovisual. A tudo isto associou-se muito bem a cultura, que utiliza este espaço duma forma permanente ou temporária, tudo em prol do vinho do Porto e da sua história.

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Restaurante Moderno – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No piso de cima funciona um moderno restaurante, com consultoria do chefe Miguel Castro Silva, mas onde o chefe José Guedes faz maravilhas, com uma cozinha consistente e apelativa.

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A vista – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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A vista – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No terraço funciona um bar onde se tem uma visão de 360º sobre Gaia e o Porto, ali em frente, e que funciona até tarde nos meses de bom tempo. Na noite de S. João, estamos em primeira plateia.

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Porto Dalva Golden Branco 1971 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No final duma visita muito completa, brindou-se com um Porto Dalva Golden White 1971.

O rio Douro, esse, passava ali à frente, pachorrento…

Contactos
Espaço Porto Cruz
Largo Miguel Bombarda, N.º23
4400 – 222 Vila Nova de Gaia
Tel: (+351) 220 92 53 40 / 220 92 54 01
Fax: 220 924 299
Website: www.myportocruz.com | www.porto-cruz.com

Vamos Festejar Com Vinho Madeira

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Agapornis (Pássaro do Amor). Os pássaros domésticos mais encantadores de todos. Praticamente desde sempre, o Vinho Espumante é a bebida de eleição para os momentos apaixonados. As bolhas são quase um sinónimo de festejo e, se o amor fosse uma bebida, quase de certeza que seria Champanhe. Mas e se não fosse?

A minha cunhada ficou recentemente noiva e, como é habitual, havia que festejar. Antes de mais, deixem-me dizer que, na Finlândia, as festas de noivado não são um grande acontecimento. Normalmente, e depois de já termos dito a toda a gente que estamos noivos, o máximo que poderá haver é bolo e café com os nossos pais. Não é comum haver uma grande festa, mas não deixa de ser uma excelente notícia e, como tal, merece ser festejada. Então a minha cunhada e o seu noivo organizaram uma pequena reunião.

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O Bolo – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Houve bolo. Feito pela minha cunhada, claro. Tinha mais camadas do que uma cebola e sabia a arco-íris. Havia Champanhe, e muito. Foram feitos discursos e presentes foram oferecidos. E depois, mais Champanhe. Gosto muito de bolhas, mas também acho que um vinho bem feito, seja Vinho Espumante, Branco, Tinto ou Fortificado, é um bom vinho para festejar. Sendo eu um fã do vinho Madeira, pensei que seria simpático dar aos convidados um pouco a provar.

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Bandeja do Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Enquanto vinho, o Madeira não podia ser mais festivo. Um líquido complexo para saborear lentamente, com um poder de sedução quase inigualável. Tinha um par de vinhos da Blandy’s para provar: o Bual Colheita 2002 e o Verdelho 1973. Coloquei os vinhos em alguns copos e, numa bandeja, dei-os a provar “às cegas”. Foi interessante ouvir as opiniões dos convidados, sem fazerem a menor ideia do que estavam a provar. Parecia estarem a gostar muito do jovem Bual, o que foi um pouco surpreendente. Os Madeiras mais jovens tendem a ser um pouco mais fortes, mas penso que o seu perfil ligeiramente mais doce facilitou a abordagem. Para mim o Bual 2002 estava muito fechado. Parecia estar a passar por uma fase e quase de certeza que se irá abrir muito mais, com o tempo.

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Bual Colheita 2002 e o Verdelho 1973 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Por outro lado, o Verdelho 1973 colheu opiniões muito divididas. Ok, nenhum deles era um provador profissional mas, enquanto consumidores estava curioso para ouvir as suas opiniões relativamente aos vinhos. Muito mais aromático do que o Bual. Opulentes aromas nogados e a frutos secos. O 1973 parece estar numa idade perfeita neste momento. A atingir lentamente a maturidade, mas ainda com muito tempo de vida pela frente. Para alguns, a acidez deste vinho foi um choque completo, algo que compreendo perfeitamente. É um gosto adquirido. Mas para mim, este Verdelho estava sensacional. Mais um exemplo clássico da singularidade e do puro poder dos vinhos Madeira.

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O Casal Feliz – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Enquanto bebida celebrativa, o final longo e persistente do Madeira torna-o uma bebida adequada para todo o tipo de ocasiões, e convenhamos, o Madeira é muito mais versátil do que as pessoas pensam. Pode ser utilizado desde aperitivo até digestivo. Não é tão amplamente consumido como o vinho Espumante, o que confere um simpático toque pessoal ao seu serão, seja num aniversário ou numa festa de noivado. Não consigo pensar em melhor maneira de felicitar o feliz casal do que, lhes desejar boa sorte na sua aventura conjunta a brindar com um vinho que pode durar uma vida inteira.

Contactos
Blandy’s
Tel: (+351) 291 740 110
Email: pubrel@madeirawinecompany.com
Website: www.blandys.com

AS – Cork, O Fabrico Moderno de Rolhas

Texto José Silva

Portugal é o maior produtor de rolhas do mundo, sendo também um dos maiores produtores de cortiça.

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Portugal é um dos maiores produtores de cortiça – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A relação das rolhas com o vinho é óbvia e, apesar do ataque constante de outros tipos de cápsulas, a rolha tem-se mantido como a cápsula de referência, havendo mesmo um retorno de muitos produtores pelo mundo fora à utilização das rolhas. Também muito graças à evolução enorme da qualidade da matéria prima, a cortiça.

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Cortiça, a matéria prima – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Tecnologia de ponta - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Tecnologia de ponta – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Há algumas unidades de produção em Portugal que têm investido em tecnologia de ponta, o que se traduz em muito melhor qualidade das rolhas e uma grande redução dos custos de produção, ajudando também à rentabilidade das empresas.

AS-Cork (Américo Sousa & Filhos, Lda) - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

AS-Cork (Américo Sousa & Filhos, Lda) – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É o que acontece com a empresa AS – CORK (Américo Sousa & Filhos, Lda), sediada em Santa Maria de Lamas, que tem vindo a evoluir constantemente, com uma política de investimentos muito bem programada, seguindo um pouco as exigências do mercado. De tal maneira que investiram também no mercado marroquino, onde têm uma unidade de produção com bastante sucesso.

É uma família da região, desde há muito ligada à cortiça, em que dois dos irmãos se dedicam a tempo inteiro às suas três fábricas, localizadas muito perto umas das outras.

A matéria prima é depois escolhida, cortada e armazenada - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A matéria prima é depois escolhida, cortada e armazenada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na primeira recebem a matéria prima, que vai ser escolhida, cortada e armazenada, procedendo-se desde logo a uma escolha rigorosa da cortiça, separando aquela que possa não estar em condições.

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A cortiça é desinfectada em vários processos de estufagem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

De seguida a cortiça é desinfectada em vários processos de estufagem em máquinas adequadas.

Depois de seca é encaminhada para uma primeira fase de fabrico de rolhas, que há-de continuar na segunda unidade fabril.

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Primeira fase de fabrico de rolhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Aparas de Cortiça – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entretanto, num processo de controlo de qualidade constante, as aparas de cortiça e a cortiça com defeito, que não servem para rolhas, mas podem servir para outros fins, são retiradas e vendidas para fábricas que produzem outro tipo de artigos de cortiça – decorativos, isolamentos, granulado, etc. Ali, nada se desperdiça.

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Processo de controlo de qualidade constante – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Discos de Cortiça - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Discos de Cortiça – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na segunda unidade fabril o controlo de qualidade continua, recorrendo a modernos equipamentos, que permitem também alguma inovação, seja no processo de fabrico, seja nos produtos finais, como é o caso dos discos de cortiça – de que são especialistas – que vão ser utilizados para fabrico das rolhas de espumante e champanhe, e que escoam na sua totalidade, sendo vendidos a outras unidades, uma vez que aqui não se fabrica, por enquanto, esse tipo de rolha.

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Unidade altamente automatizada, onde a limpeza é uma prioridade – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Máquinas cada vez mais sofisticadas - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Máquinas cada vez mais sofisticadas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa unidade altamente automatizada, a limpeza das instalações assume uma importância primordial, para que não haja possibilidade de contaminação.

Máquinas cada vez mais sofisticadas, com o recurso a câmaras e mesmo aos raios laser, que fazem leituras a duas e a três dimensões, conseguem um alto rendimento e muita eficiência.

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Laboratório extremamente bem equipado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Uma equipa especializada testa cada tipo de produto final – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No laboratório, extremamente bem equipado (que inclui um cromatógrafo), uma equipa especializada vai fazendo os testes adequados a cada tipo de produto final, com padrões muito exigentes, em que não pode haver lugar ao engano, e que é uma das bandeiras da empresa.

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A terceira unidade fabril – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A terceira unidade fabril compra todo o produto das outras duas, que depois vai vender aos inúmeros clientes, a esmagadora maioria estrangeiros.

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Acabamento das rolhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É aqui que se vai proceder ao acabamento das rolhas, seguindo os pedidos dos clientes, quer nacionais quer estrangeiros.

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Outro laboratório continua o processo de controle – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Outro laboratório continua o processo de controle, cumprindo todos os parâmetros de higiene e segurança estabelecidos, de acordo com a legislação internacional.

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Finalmente as rolhas acabadas e os discos de cortiça são expedidos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Finalmente as rolhas acabadas e os discos de cortiça são expedidos, também aqui recorrendo a embalagens que mantêm o produto final em segurança, até chegar ao seu destino. Uns meses ou mesmo uns anos mais tarde vamos certamente encontrar muitas destas rolhas, quando abrirmos garrafas de vinho, das mais variadas origens, mesmo se for um dos grandes champanhes franceses. Um produto genuinamente português, ao nível do melhor que se faz no mundo…

Se Está Destinado, Está Destinado

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Era o Verão de 2009. Estava a trabalhar em Bierzo, Espanha, no transporte da uva das vinhas para a adega. Para mim era o realizar de um sonho. Quer dizer, só o facto de poder trabalhar ao ar livre, nas vinhas, algo que na Finlândia é impossível, foi uma experiência fantástica. Sempre que tinha fins-de-semana de folga costumava pedir emprestado o carro aos meus amigos e descia até ao Vale do Douro. Já conhecia o local de lá ter trabalhado em vindimas anteriores, em 2008. A viagem de ida e volta entre Bierzo e o Douro, duas das minhas regiões vitivinícolas preferidas, continua a ser uma das memórias que guardo com mais carinho. Vinho, comida, viajar, sem mulher e sem filhos. Só eu e o meu saca-rolhas. Noites longas e memórias tremidas de pessoas a decantar uma garrafa de vinho do Porto Taylor’s 1966 Vintage através de um espremedor de limões. Uma espécie de casa de fraternidade, recheada de jovens aspirantes a enólogos. Bons tempos. Não é que me esteja a queixar da minha vida actualmente, mas sabem como é… Nessa altura já estava completamente apaixonado pelo Douro e planeava mudar-me para lá um dia.

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Taylor’s 1966 Porto Vintage – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

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Decantar vinho do Porto Através de Um Espremedor de Limões – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Mas estar longe de casa durante longos períodos de tempo não é fácil. Terminei tudo com a minha namorada de longa data antes de fazer a mala e viajar para Bierzo, como errante do vinho que sou. A Finlândia estava no meu retrovisor e pensei, já está, é isto. Como estava errado! É como dizem; a ausência faz o coração gostar mais. E não demorou muito até me aperceber o quão idiota fui por ter deixado a minha namorada para trás. O clássico idiota. Por sorte, antes de terminarmos, ela tinha comprado um bilhete para Espanha e não queria perder a oportunidade de fazer uma boa viagem, e então decidimos que seria bom ela vir visitar-me a Bierzo. Vi a minha segunda oportunidade, a oportunidade de corrigir as coisas. Sabia que não queria viver a minha vida sem ela e comecei a planear o pedido de casamento.

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Bierzo em 2009 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Uma semana antes da minha então ex-namorada vir a Bierzo, fui dar uma volta ao Douro à procura de locais onde pudesse fazer o pedido. Queria que fosse especial, e mais especial que o Douro não existe. Conduzi durante um dia inteiro, a visitar vinhedos à procura do sítio perfeito. Nessa noite dormi no carro, no Pinhão, junto ao rio, porque não tinha onde ficar e precisava do dinheiro para poder ter gasolina para a nova viagem ao Douro na semana seguinte. Mas a missão de reconhecimento foi um sucesso porque encontrei um vinhedo fantástico, com uma vista magnífica para o rio. Na semana seguinte fazia esse mesmo percurso, Bierzo-Galiza-Douro, ao lado da minha futura mulher. Ela só ainda não o sabia.

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Vale do Douro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Para encurtar um pouco esta longa história, levei-a àquele lugar especial, fiz o pedido e ela disse que sim. Escusado será dizer que a nossa relação pessoal e a nossa relação com o Vale do Douro ficaram profundamente interligadas. Nessa noite ficamos no acolhedor hotel rural da Quinta do Pégo. Como não tinha um anel para lhe dar, fomos ao Porto no dia seguinte. Depois de procurar um bocado, comprei basicamente o anel de “prata” mais barato que consegui encontrar em Vila Nova de Gaia. Já sei, sempre a manter a classe… Mas toda a viagem foi única, divertida e foi também uma maneira fantástica de começar a nossa vida a dois. Devemos muito disso a Portugal.

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Ponte de D. Luís – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Há algumas semanas, por uma qualquer bizarra coincidência, o meu sogro deu-me a provar um vinho às cegas, coisa que raramente faz. Provo-o. Definitivamente um vinho do Porto, provavelmente um LBV. Mas quando vi que o vinho era, na realidade, um Quinta do Pégo LBV 2009… a mesma quinta em que ficamos quando pedi a minha mulher em casamento e a colheita desse ano. Não faço ideia onde o meu sogro arranjou aquele vinho, além de que ele não sabia qual era a quinta, portanto, foi pura coincidência… Ou será que não? De qualquer forma, trouxe à tona todas aquelas memórias, qual potenciador vínico de memória! O vinho? Denso, frutado e tânico. O típico LBV jovem. Precisa de alguns anos para se abrir. Mas mais do que isso, este vinho foi bom para relembrar que um vinho não precisa de ser sempre o mais caro ou o melhor para nos tocar. Apesar de ser um LBV normalíssimo, é um dos melhores LBVs que já provei. Fez-me realmente feliz.

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Quinta do Pégo 2009 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Contacts
Hotel Rural Qta. do Pégo
Valença do Douro
5120-493 Tabuaço
Tel. + 351 254 73 00 70
Fax + 351 254 73 00 79
E-mail: info@quintadopego.com
Website: www.quintadopego.com

Olho no Pé: A coragem de ir onde nunca outro homem foi

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

No meu último artigo sobre o Douro disse “procurai e achareis”, porque nenhuma outra região portuguesa pode certamente gabar-se de ter uma tão rica diversidade de terroirs? Na realidade,  se procurarmos bem podemos até descobrir vinhos doces no Douro. É claro que não estou a falar de vinho do Porto. Estou a falar de vinhos de sobremesa influenciados por colheita tardia e por botrytis, isto é, sem ser necessária a adição de aguardente vínica.

A adição de aguardente vínica interrompe o processo de fermentação que transforma os açúcares da uva em álcool, o que explica o porquê de os vinhos fortificados, como o vinho do Porto e o  Moscatel do Douro, serem doces. Por outro lado, os vinhos doces não fortificados, confiam simplesmente em ter níveis de açúcar altíssimos. Deixem as uvas na vinha por tempo suficiente e, se o tempo estiver seco e ensolarado, o Douro irá presentear-vos com enormes quantidades de açúcar. Então porque é que não vemos mais vinhos doces, não fortificados, no Douro?

A resposta reside no facto de que, um grande énologo de vinhos de sobremesa tem de ser um equilibrista perfeito entre o açúcar e a acidez.

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Equilibrista in unbornmind.com

À medida que os açúcares da uva sobem, a acidez diminui. Se a acidez for muito baixa, o vinho vai ser demasiado doce, ou pior, flácido. Os grandes vinhos de sobremesa precisam tanto de altos níveis de açúcar como de acidez. Não é uma combinação fácil num clima quente e seco.

É por isso que o punhado de vinhos doces do Douro que encontrei advêm de vinhas a grande altitude. E podem ser realmente impressionantes. Por exemplo, o Rozès Noble Late Harvest 2009, ao qual o meu painel atribuiu a Medalha de Ouro e o Troféu de Vinho Doce no Decanter World Wine Awards 2011, ou o Quinta do Portal Late Harvest 2007, um dos meus 50 Grandes Vinhos Portugueses 2010.Quanto mais elevadas estiverem as vinhas, mais elevada será a acidez, porque, em altitude, as temperaturas caem drasticamente, especialmente durante a noite. Junte-se a este facto o nevoeiro matinal e a humidade, e estão reunidas as condições perfeitas para a botrytis se firmar. E ao contrário do que seria de se esperar, este fungo dá lugar aos mais mágicos vinhos doces, não só porque concentra a doçura e a acidez, mas também porque dá lugar a uma complexidade melada, muitas vezes floral (camomila ou açafrão). Não é de admirar que também seja apelidada de podridão nobre!

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Tiago Sampaio da Olho no Pé no Simplesmente Vinho – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A minha última descoberta no que toca a vinhos de sobremesa, são os vinhos produzidos por Tiago Sampaio da Olho no Pé. Descrevendo-se como “a one man show”, o despertar do interesse de Sampaio pelo vinho foi desencadeado pelo seu avô que o apresentou, quando ainda jovem, às vinhas do Douro e ao mundo do vinho. Mas tenho as minhas suspeitas de que o foco na frescura que Sampaio apresenta nos seus vinhos é resultado dos 5 anos que passou no Oregon (onde tirou um doutoramento em Viticultura e Enologia). O que explica os pálidos mas prometedores Pinot Noirs que tem no seu portfólio – a delicada casta da Borgonha beneficia das noites frescas do Oregon. Sampaio fundou a Olho no Pé quando regressou ao Douro, em 2007, depois da sua estadia nos Estados Unidos. Os vinhos de sobremesa que me mostrou no Simplesmente Vinho, realizado no início deste ano (finais de Fevereiro), são ambos produto de um field blend de vinhas velhas (com mais de 70 anos) maioritarimente composto por Gouveio, em Alijó e a 600 metros acima do nível médio das águas do mar. Devido à sua altitude, tal como Favaios, o município é tradicionalmente famoso pelo seu delicado e fresco Moscatel do Douro, bem como pelos brancos secos que agora começam a ganhar destaque. Aqui estão as minhas notas relativamente aos deliciosos vinhos doces de Sampaio:

Olho no Pé Colheita Tardia

 2011 (Douro)

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Olho no Pé Colheita Tardia 2011 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Sampaio tem um toque muito delicado. Uvas escolhidas a dedo, repletas de açúcar (este vinho tem à volta de 200 g/l de açúcar residual), são colhidas em vindimas sucessivas e altamente selectivas. Foi fermentado de forma natural e muito lentamente. À medida que o sumo da uva se transformava, lentamente, em vinho, foram surgindo aromas e sabores complexos – açafrão, gengibre cristalizado, camomila e peras cozidas. Textura aveludada, muito fresco e puro, o vinho foi envelhecido em borras finas, em barricas de carvalho já usadas, o que permite que a fruta se mostre. Super-agradável com uma qualidade sedutora e não-trabalhada. 11%

Olho no Pé 2011 (Vinho, Portugal)

Se exagerar, será apenas um pouco (no que diz respeito ao Douro), mas reconheço que este cuvée que ainda não tem nome, ousa ir nenhum foi antes. É o produto das mais concentradas uvas atacadas por Botrytis, de 2011 (que é o mesmo que dizer todas as colheitas em que Sampaio já trabalhou). Apenas dois barris foram feitos, que, com o dobro da quantidade de açúcar residual (400 g/l) levaram muito, muito mais tempo para fermentar – dois anos! Com apenas 7% de teor alcoólico está abaixo do nível mínimo para a DOC Douro ou para a classificação VR Duriense. Ainda assim revela a mesma assinatura a açafrão de botrytis que o vinho Colheita Tardia – toque adorável e pureza. Um palato acetinado que revela açúcar caramelizado, algodão doce e uma maçã mais fresca, focada, brilhante e apertada junto do núcleo, conferindo-lhe um traço bem-vindo que equilibra a amargura e a acidez. Saboroso mas fresco, concentrado mas com leveza, esta doce sensação de uvas perdura muito tempo na boca e na memória. Uma experiência!

Contactos
Tiago Sampaio
Rua António Cândido, 7
5070-029 Alijó, Portugal
Mobile: (+351) 960 487 850
E-mail: info@foliasdebaco.com
Website: www.foliasdebaco.com

Bicentenário do Porto Fonseca

Texto João Barbosa

Os vinhos podem dividir-se em bons e maus; os que têm estórias e os que não têm; e os que têm História e os que a não chegam. A este degrau chegam os bons. A longevidade dá a nascer estórias que contam história. A regularidade cria boa reputação e concede estatuto elevado. Os Portos da Fonseca reúnem «bondade», estórias, história, fiabilidade e reputação.

Os centenários são pretexto para brindes. A firma Fonseca hoje integrada no grupo The Fladgate Partnership, celebra o bicentenário. Logo num ano em que outro – substancialmente mais importante – se evoca.

No século XVI viveu um senhor, de seu nome Michel de Nostredame, que ficou célebre pelas profecias, aparentemente certeiras. Profetizou – leia-se e interprete-se como se quiser – o surgimento de três anticristos. O primeiro seria Napoleão Bonaparte e o segundo Adolf Hitler, cuja grafia apresenta semelhanças com o «Hister» anunciado pelo vidente.

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Vinhos do Porto Fonseca in the-yeatman-hotel.com

Tomo a liberdade de reescrever esta «verdade» acerca de anticristos: Josef Stalin, Fuminaro Konoe, Hideki Tojo, Mao Tse Tung, Pol Pot… e muitos ditadores de menor relevo. Napoleão só aos olhos da época pôde ser demónio. Segurou os lemas da Revolução Francesa e espalhou-os – muito enviesadamente – pela Europa.

Antes da «verdadeira» guerra napoleónica, desenrolou-se a Guerra das Laranjas, em 1801, em que Espanha roubou Olivença. Em 1806, Portugal recusou-se a subjugar-se à ordem de participar no bloqueio naval às ilhas britânicas. Por isso foi invadido por Espanha e França, tendo o Rei Dom João VI, a família, a Corte e os criados fugido para o Brasil.

Houve três invasões francesas, em 1807, 1809 e 1810. Designada por Guerra Peninsular, as entradas foram lideradas por Jean-Andoche Junot, Nicolas Jean de Dieu Soult e André Massena. Em 1811, as tropas anglo-lusas chutaram os invasores franceses e espanhóis.

Napoleão Bonaparte caiu diante das tropas britânicas, comandadas por Arthur Wellesley, e aliados, em 18 de Junho de 1815, na Batalha de Waterloo. Findo o conflito, os soldados regressaram; os patriotas da Leal Legião Lusitana e os traidores da Legião Lusitana, que serviram França. Muitos dos traidores foram poupados e alguns têm até nome de rua. Não entendo o meu país.

Os chineses escrevem crise com dois sinais gráficos conjugados: perigo e oportunidade. O risco é inerente aos negócios e em clima de guerra torna-se mais difícil. A Guerra Peninsular terminou a 10 de Abril de 1814, na Batalha de Toulouse. As notícias chegavam lentas, era quase impossível estar actualizado das movimentações dos exércitos. Ainda que tenha passado um ano, montar um negócio naquele contexto foi muito arriscado, até porque o cliente estava na Grã-Bretanha e no mar ainda havia navios inimigos.

Em 1815, João dos Santos Fonseca comprou, apoiado pela família Monteiro, 32 pipas de Vinho do Porto. Mais tarde chegou, em 1860, a família Guimarães – nome anglicizado para Guimaraens – e posteriormente a Yeatman, na segunda metade do século XX.

Uma firma ainda familiar. Duzentos anos depois, o que se pode dizer? Está tudo escrito nos dois primeiros parágrafos.

Contactos
Quinta do Panascal
5120-496 Valença do Douro
Tel: (+351) 254 732 321
E-mail:marketing@fonseca.pt
Website: www.fonseca.pt