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Bruxas da Páscoa e Vinho do Porto

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Chegou a Páscoa. Nós, finlandeses, somos exímios em pegar num feriado religioso, retirar-lhe tudo o que seja religioso e transformá-lo numa grande festa para comer e beber. Claro que há aqueles que seguem a tradição, mas para a maior parte das pessoas é apenas um longo fim-de-semana com amigos e família à volta de uma mesa a passar um bom bocado. Claro que temos uma boa parte de tradições de Páscoa. Os coelhinhos da Páscoa, os ovos de galinha e de chocolate são abundantes. O ovo de chocolate mais famoso é o Mignon e tem estado presente desde os finais do século XIX. Consiste na casca de um ovo verdadeiro recheada com nougat de amêndoa-avelã. Os tradicionais ovos de chocolate ocos não são nada quando comparados a este. Todas as Páscoas há cerca de 2 milhões de ovos Mignon à espera de serem consumidos, um número considerável tendo em conta que são todos feitos à mão.

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Eu e o meu irmão mais velho vestidos de bruxas – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Falando de tradições estranhas da Páscoa, durante este período, os finlandeses também cultivam erva em casa. Calma, não é a ilegal mas sim a normal azevém verde, que é colocada numa pequena taça em cima da mesa para simbolizar o renascimento da vida depois do Inverno e a chegada da Primavera. Além disso há também a tradição de vestir as crianças de bruxas. Sim, é mesmo isso. Acredita-se que antigamente havia, durante a Páscoa, bruxas montadas nas suas vassouras que faziam todo o tipo de travessuras. Agora os miúdos vão de porta em porta vestidos de bruxas, abanando galhos de salgueiro aos estranhos para lhes desejar felicidades, e em troca podem receber alguns doces. Uma estranha mistura de tradições Ortodoxas e Pagãs. Antigamente eram feitas grandes fogueiras para espantar as bruxas, tradição essa que ainda hoje se mantém. Como pode ver na fotografia acima, em criança, costumava passar todas as Páscoas a parecer a avó do Harry Potter.

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Graham’s LBV 2008 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Felizmente a minha carreira como Dumbledore não estava destinada. Em vez disso, posso beber este LBV mágico de 2008 da Graham’s e relaxar com a minha família. Na Finlândia o consumo de vinho sobe um pouco durante a Páscoa. Especialmente o vinho tinto que nas lojas de monopólio atinge mais 64% de vendas do que numa semana normal. O consumo de vinhos de sobremesa também sobe um bocado, o que me traz a este vinho do Porto. Um LBV aveludado é uma bebida excelente para Páscoa. Eu costumo servir Moscato d’Asti com sobremesas mais leves, como panna cotta. Mas com sobremesas de chocolate mais pesadas e com mämmi (uma estranha sobremesa finlandesa) prefiro um LBV firme. 2008 foi o ano da minha primeira visita a Portugal e trabalhei na vindima do Vale do Douro. Lembro-me de que o Verão não foi particularmente quente, para o que Portugal está habituado. Mas para mim, um pálido menino finlandês, parecia que estava a assar no forno e que estava a ficar maduro muito mais rápido do que as uvas. Quando a colheita começou houve algumas previsões meteorológicas sombrias e, mesmo com algumas chuvas, provavelmente muito necessárias, a qualidade do vintage saiu muito boa. Especialmente nalguns Single Quintas e, o nível do LBV é, na verdade, mais do que bom.

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Vinho do Porto e Gouda Velho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Com este firme mas delicado LBV Graham’s 2008 optei por algo super clássico no que toca à harmonização. Vinho do Porto e um queijo Gouda velho a desfazer-se é, provavelmente, a minha harmonização favorita de sempre. Quando o queijo se desfaz em pequenos cristais salgados na boca e o ingerimos juntamente com este vinho do Porto rico, frutado e com muita profundidade…o resultado final é, provavelmente, a coisa mais próxima da perfeição. O Porto tem já alguns anos e, sendo um LBV, começa já a ganhar aquela suavidade atraente em torno das bordas, continuado a ser vibrante e delicioso. Vou saborear este vinho com um grande sorriso no meu rosto e manter o copo debaixo de olho para que as sedentas bruxas da Páscoa não o venham roubar.

Contactos
Graham’s Porto
Vila Nova de Gaia
Portugal
Tel: (+351) 223 776 484 / 485
Email: Lodge: grahams@grahamsportlodge.com
             Geral: grahams@grahams-port.com
Website: www.grahams-port.com

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio “New Douro”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Uma das minhas piadas varietais favoritas diz respeito à Cabarnet Sauvignon, sobre a qual o enólogo californiano Sean Thackrey entoou memoravelmente, “Defenitivamente não quereria sentar-me ao seu lado num jantar; é demasiado educada!”. Sem dúvida que esta icónica casta de Bordéus é para as uvas o que as riscas-de-giz são para os fatos – emana postura, sofisticação, poder e controle.

Caso se esteja a perguntar o que é que isto tem a ver com o Douro, fique comigo. Aliás, recue um pouco até ao meu artigo de Fevereiro sobre a vertical de Chryseia com Bruno Prats em que descrevi como este reconhecido enólogo bordalense, nado e criado um homem de Cabarnet, controla soberbamente a sua matéria-prima. Prats confessou que na sua óptica apenas a Touriga Nacional e a Touriga Franca são “interessantes”, ao mesmo tempo que demonstrou uma clara preferência pelas plantações de bloco (monovarietais) em deterimento das tradicionais plantações multivarietais field blend do Douro. Porquê? Para “ter a certeza de as estar a colher na altura certa”.

Cristiano Van Zeller in didu.com.br

A ‘altura certa’ é um tema por si próprio (o colega escritor Andrew Jefford aborda-o aqui) mas, discursando na prova anual de Londres “New Douro”, Cristiano van Zeller da Quinta Vale D. Maria discordou sobre até que ponto é necessário manter o controlo dos recursos naturais do Douro. Ao reflectir sobre o carácter português – um carácter que, “gostou do caos durante muito, muito tempo” – afirmou “temos que fazer uso do nosso carácter – um pouco de caos. Não temos de controlar tudo. Uma pequena surpresa todos os anos, é isso temos estado a tentar fazer no Douro”. Em relação às castas sublinhou que, “as plantações são muito diferentes de qualquer outro lugar no mundo… é muito difícil para qualquer uva expressar realmente o que o Douro é e o que tem a dizer, e por isso os viticultores tentam encontrar o perfil do Douro ao juntarem umas às outras”.

Também existe um segredo local. Van Zeller revelou, “se plantarmos por bloco, claro que as uvas têm diferentes períodos de amadurecimento, mas quando estão todas aleatoriamente e razoavelmente misturadas num único talhão, verificamos que a diferença temporal entre a que amadurece primeiro e a que amadurece por último, é muito mais reduzida – apenas 3 a 4 dias.”. A cereja no topo do bolo é que as field blends envolvem necessariamente uma co-fermentação de diferentes castas, um processo que David Guimaraens da The Fladgate Partnership verificou “conferir uma maior dimensão de sabor e equilíbrio”. E é por isso que agora prefere micro-talhões monovarietais (apenas algumas linhas), que podem ser colhidas alternadamente com micro-talhões de diferentes variedades e ser co-fermentadas (pode ler o que David Guimaraens tem a dizer sobre a evolução do afastamento e retoma a uma abordagem mais multi-varietal aqui).

Esta nova abordagem pode ser descrita como um caos organizado mas, quando Van Zeller revelou que a composição varietal das field blends de vinhas velhas é adaptada para os diferentes terroirs, fez parecer que sempre houve método no meio da aparente loucura. Por exemplo, disse que o Vale do Torto tem à volta de 7-8% Rufete, enquanto que o Vale do Pinhão tem mais Sousão; a Tinta Francisca sempre foi mais importante na Quinta do Roriz.

Para David Baverstock, da Quinta das Murças, que fez a abertura do Simpósio “New Douro” e que teve lugar no mês passado, o caos organizado resume bem a vida no Douro. Explicou que os desafios da região são “o que nos move como enólogos – tentar controlar as coisas ao máximo mas sabendo que no final de contas temos de ‘ir com a corrente’. Para além das field blends e da topografia montanhosa, as condições meteorológicas também desempenham um papel importante em qualquer colheita”.

David Baverstock in blog.esporao.com

A diversidade de terroir no Douro foi o tópico do simpósio e, dos quatro oradores, Baverstock era o que estava numa posição mais priveligiada para falar do progresso que foi feito, remontando a 1990 quando deixou a região pela Esporão no Alentjo. Disse-me que “Mudou radicalmente. Era muito fácil no início dos anos 90, não exisitia grande competição na altura. O Barca Velha era reconhecido como um grande vinho mas raramente era lançado para o mercado. O Dirk e o Cristiano estavam apenas começar, a Duas Quintas também, era muito fácil avançar com projectos como a La Rosa e a Crasto. Mas agora, o nível de vinificação, a qualidade dos vinhos e o conhecimento do potencial do Douro, com os seus diferentes meso e micro climas, estão num patamar altíssimo.”.

Aprofundando o tema e passando para os tipos de solo, Baverstock falou do importante papel do xisto no Douro. Aparentemente, o Douro é uma das poucas regiões que tem o xisto alinhado verticalmente, o que permite às raízes da vinha entrarem no solo por entre as placas de rocha. O facto de as chuvas serem escassas no Douro combinado com a friabilidade do xisto permite que as vinhas se enraízem “muito fundo”. Os melhores lugares permitem mesmo que as raízes cheguem a cerca de 10 metros de profundidade, o que ajuda as vinhas a ultrapassar a difícil (quente e seca) época de crescimento. Por outro lado, o xisto (especialmente em encostas íngremes) é bem drenado, o que significa que as vinhas nunca chegam a ficar impregnadas de água. O xisto também é vantajoso porque, estando num constante estado de decomposição, proporciona às vinhas os oligoelementos que precisam para sobreviver.

As raízes das vinhas do Douro podem ser profundas mas, no que toca aos produtores, Paul Symington da Symington Family Estates confessou, “estamos apenas a começar a apalpar a superfície do que é a verdadeira história do Douro.” Contrastando-o com o terroir razoavelmente homogêneo de Bordéus, descreveu o Douro como “a região vitivinícola mais diversa das grandes regiões vitivinícolas do mundo.” As razões desta diversidade? Symington debitou uma longa lista de factores que têm impacto sobre os estilos de vinhos, incluindo a surpreendente variação de precipitação e temperatura, dependendo da localização, altitude e aspecto. Nos sítios em que as vinhas estejam viradas para pontos diferentes, e mesmo dentro da própria vinha, os Symington colhem as uvas em caixas codificadas por cores de acordo com o aspecto. O pH do solo também é muito diferente ao longo Douro, algo que tem impacto na capacidade para vinha absorver os minerais (fica comprometida se os solos forem muito ácidos).

Paul Symington in symington.com

O discurso de Van Zeller centrou-se na grande diversidade de castas do Douro e na tendência de retoma às plantações multivarietais de grande densidade, sejam os micro-talhões de Guimaraens ou a sua nova versão das plantações antigas na Quinta Vale D. Maria. “Estou a misturar tudo”, disse, pois percebeu que a qualidade e perfil não derivam da idade da vinha em si, mas sim da mistura de castas nas vinhas e da co-fermetação das uvas (isto apesar de Dirk Niepoort ter afirmado a sua crença de que as vinhas velhas “falam muito mais alto” sobre o terroir do que a casta). Trabalhar com uma ampla diversidade de castas é, também aqui, um ponto vantajoso, ao dizer “nem todas as castas são afectadas pelas mesmas doenças ao mesmo tempo ou têm a mesma produção, portanto, de uma maneira ou de outra podemos garantir uma certa capacidade de produzir excelênica a maior parte das vezes.

Dirk Niepoort da Niepoort concluiu o simpósio a enfatizar que, o “novo” em “New Douro” se refere ao facto de que até recentemente os produtores apenas pensavam em vinho do Porto – “todos nós sabemos quais são as melhores vinhas e locais para Porto, mas algo novo aconteceu, uma prioridade diferente e portanto temos de olhar para o Douro com uma prespectiva completamente diferente.”

Dirk Niepoort in adfwines.com

Na opinião firme de Niepoort, as melhores vinhas para Porto não são necessariamente as melhores para vinhos DOC Douro, isto porque, “o Porto gosta de condições extremas – vinhas viradas a sul e particularmente secas e quentes. Mas para os tintos e especialmente para os brancos precisamos de algo menos extremo – vinhas viradas a norte são muito mais interessantes e, de repente, por causa do frio da noite que influencia a acidez, a altitude já interessa”. Acredita que os melhores locais para brancos estão agora a ser identificados.

No entanto, os vinhos DOC Douro já representam um terço (em termos de valor) da produção e Niepoort acredita que a procura por mais vinho de qualidade superior vai aumentar muito em breve. Embora Symington não tenha dúvidas na capacidade dos melhores vinhos do Douro competirem com os melhores das outras regiões ou sobre a perspectiva de produzir muito mais, perguntou, “estará uma pessoa normal que vemos passar na rua na disposição de pagar £20 por uma garrafa de vinho do Douro?”. Para ele, a resposta é “Ainda não chegamos lá.”.

Quer esteja na disposição de pagar £20, ou substancialmente mais ou menos, descobri muitos vinhos excitantes no meio dos últimos lançamentos mostrados na prova “New Douro”. Os brancos 2013 representam uma das melhores colheitas que já provei, enquanto que os melhores tintos de 2012 já são abordáveis, com um charme elegante. Procurem e encontrarão!

Aposto na Península de Setúbal

Texto João Barbosa

A Península de Setúbal é uma região «curiosa». Por um lado, está na Área Metropolitana de Lisboa, mas é também Alentejo. É decalcada do mapa dos distritos e se o desenho político já era abstruso, misturando realidades diversas, no vinho a patacoada é maior.

Não percebo que sentido faz uma vinha em Grândola estar no mesmo saco que uma em Palmela. Ah! A costa atlântica… então, por que é que Odemira é Alentejo? Além de que os concelhos alentejanos do distrito de Setúbal não estarem, de facto, numa península.

Burocracias e non-sense à parte, interessa o vinho duma região que considero muito interessante, do ponto de vista enófilo. Aliás, duas regiões que considero muito interessantes do ponto de vista enófilo.

Começo – e irei acabar – com a qualidade do vinho. É difícil encontrar um mau vinho da Península de Setúbal. Nas «duas regiões» há produtores de confiança. No entanto, são poucos os que têm uma dimensão para se mostrarem e com massa crítica. De acordo com informações da Comissão Vitivinícola Regional (CVR), há um «top 9», o que comprova o que quero dizer: o décimo é doutra realidade. São poucas as casas com, pelo menos, dimensão para delas se ouvir falar.

Por ordem alfabética – para não ferir susceptibilidades – Adega de Palmela, Adega de Pegões, Bacalhôa, Ermelinda Freitas, Horácio Simões, José Maria da Fonseca, SIVIPA, Venâncio da Costa Lima e Xavier Santana. Juntos fazem 98% do vinho. Entretanto, há um que ressurge Herdade de Rio Frio.

O sucesso dos vinhos pode avaliar-se pela dimensão da área agricultada, embora diminuindo: 9.450 hectares (2000) para 9.400 (2013). É a 6ª em produção, a 4ª na exportação e, garante a CVR, a evolução das vendas tem sido «excelente».

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Península de Setúbal in www.vinhosdapeninsuladesetubal.pt

Em 2000 fizeram-se 12.622 hectolitros de Moscatel de Setúbal, enquanto em 2013 chegou a 14.298. Os néctares com certificação Palmela passaram de 19.286 (2000), para 24.622 (2013). Os Regionais Península de Setúbal pularam de 110.818 (2000), para 245.558 (2013).

Em relação ao número de produtores, de 2000 para 2013: de 92 passaram a para 128. De Moscatel de Setúbal eram nove e hoje são 12. De Moscatel Roxo havia quatro e agora há seis.

Quanto a sucesso, penso que estamos conversados. Sendo as «9» responsáveis por 98%, isto quer dizer que servem de locomotiva para as pequenas firmas que exploram nichos. De todas elas, tenho uma especial afeição pela Herdade do Portocarro – com os fantásticos vinhos Cavalo Maluco e Anima – situada no Alentejo litoral.

Há uns anos, visitei, no âmbito dum programa para a RTP, um produtor da região e, apontando para uma vide de uvas tintas, perguntei ao repórter de imagem:

  • Sabes que casta é esta?

Respondeu-me que não.

  • É castelão.

Tinha, talvez, 95% de acertar… interveio o lavrador:

  • Por acaso, é syrah.

Durante mais de um século, os vinhos da região «significavam» castelão. Surgiram outras, mas esta variedade encontrou um patamar de estabilidade: 70% das tintas.

O que tem, então, esta região «2 em 1» de especial? Um misto de frescura e de calor, das areias e do bafo inerente ao Alentejo. Frescura advém-lhes, na Península de Setúbal, das localizações que podem estar mais altas e argilosas (Serra da Arrábida) e dos ventos que chegam dos estuários do Tejo e do Sado. No Alentejo Litoral, o Sado está mais próximo, os charcos dos arrozais convivem, o mar está perto e os pinhais dão-lhe subtilezas.

Quanto a mim – aqui junto o factor subjectivo do gosto – estas são duas regiões que valem bem a pena conhecer. E têm uma outra vantagem… os preços são habitualmente amigos da algibeira. Além de que há GRANDES vinhos, na península setubalense e no litoral alentejano.

O vinho é amigo e o psicólogo é psicólogo

Texto João Barbosa

Por motivos de saúde, que não vou partilhar a razão, fiz análise face-a-face e psicanálise. A minha experiência não cabe na piada, certamente com muitos exemplos de verdade, de que o paciente fala e o analista adormece, boceja ou pensa que ainda tem de ir ao supermercado.

Garanto que não. A minha analista, que vou manter em recato, é a melhor do mundo! Não que eu tenha feito análise com todos os analistas do planeta, mas porque é verdade. E uma verdade é uma verdade. Uma verdade nunca se irá desmentir ainda que elementos da investigação possam indicar um outro caminho… é como as mães: «melhor do mundo»!

Quem fez análise, com um bom profissional, percebe o que estou a afirmar. Ajuda muito ter alguém que, não sendo família nem amigo nem colega de trabalho, nos ajuda, com conselhos não vinculativos, fazendo de espelho, colocando questões, obrigando-nos a pensar.

Dizer que as depressões, os esgotamentos ou os vícios não se curam, no todo ou em parte, com apoio de especialistas não sabe o que diz. Há quem diga que são males dos ricos, dos ociosos e preguiçosos, dos tolos, etc.

Não! Não! E não! Mas uma coisa é certa; a análise não se realiza em cinco sessões e depois recebe-se alta. É cara. O caro é sempre relativo. Se temos uma qualquer doença e se o tratamento custa muitos euros, esse dinheiro acaba por não contar. Todavia é uma soma considerável, cada um sabe da sua algibeira e cada psicólogo tem o seu preço por consulta.

Os psicólogos não fazem a vez da família nem dos amigos. Embora se criem relações emocionais e afectivas, o psicólogo é um profissional especializado.

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in pt.forwallpaper.com

Os amigos são como o vinho – em toda a crónica escrevo «vinho», porque é essa a bebida a que estou ligado na Blend, mas o correcto é afirmar «álcool». Dão apoio, mas não ajudam a curar. Com o vinho é quase a mesma coisa. Uma festa sem vinho promete ser uma chatice – claro que há os abusadores e aqueles que, devido a alcoolismo, têm de se abster.

O vinho dá alegria, solta-nos, desbloqueia conversas, faz rir. Que bom ter uma conversa a quatro: «eu, o amigo e dois copos». Penso que um pifo, de vez em quando, pode ser positivo. Desde que seja de vez em quando e a seguir não se tente conduzir o automóvel ou trabalhar com máquinas ou cirandar na sua proximidade.

Podemos ter amigos ou compinchas no local de trabalho, mas trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. No serviço estamos a cumprir uma missão, que será remunerada no final do mês.

O que escrevi acima acerca do pifo «higiénico» é absolutamente questionável e condenável para muitos. Não é um dogma. O amigo que nos dá o ombro para chorar ou o abraço de alegria pode ser tão desastrado quanto o excesso de álcool, apesar da generosidade.

O vinho ajuda a esquecer? Tirará algum peso, mas não apaga a memória. O vinho faz uma festa? Certamente que, sozinho, não a faz. O vinho, para um enófilo como eu, é um amigo. Não é o cônjuge, com quem se partilha a cama, a mesa, as tarefas domésticas e as contas.

Dizem muitos médicos que beber um copo de vinho às refeições (ou só numa), faz bem. Dizem sempre tinto, pelo que suponho ser por essa substância válida esteja na película. Se assim é, talvez comer uvas seja mais saudável.

Uma outra situação, essa muito grave e porta larga para o alcoolismo, é matar a sede com vinho. O álcool, além de poder criar estados alterados de consciência, em excesso é nocivo, de curto a longo prazo, além de desidratar.

A água é o melhor líquido para matar a sede. Não há melhor. A água é a melhor bebida do mundo. O vinho pode ser um bom amigo ou uma má companhia. É amigo, não resolve. Para resolver há a água e o psicólogo.

Viva a Crise!

Texto João Barbosa

A quem andam os bons produtores a vender o seu vinho? Ponto prévio: o que é isso de ser um bom produtor? Englobo neste universo aqueles que têm esmero, empenho e brio. Que têm um enólogo, residente ou não, consultor, ou não, que controla a produção, que tem equipamentos necessários.

Neste universo cabe muita gente, que faz vinho em todas as regiões, com diferentes estilos, com diversos preços. Oiço dizer, inúmeras vezes, que hoje não há vinho mau em Portugal… é mentira!

Se 95% do vinho vendido em Portugal custa abaixo de cinco euros, só por acaso inexplicável pode ter qualidade. Preço não traduz falta de qualidade, mas também não o seu oposto. O dilema com as médias é o dos frangos: comi um frango e tu não comeste. Entre os dois, comemos meio galináceo cada.

Os vinhos de um euro e picos desequilibram a média. É impossível ter rentabilidade com um produto feito com preceitos e vendê-lo a cêntimos – o euro e picos custa nas lojas. O país está carregado de gente, desde produtores individuais, empresas e cooperativas que fazem zurrapas. Algum desse vinho vai para destilação, não é chamado para as contas, outro é exportado para mercados da saudade e onde o padrão de exigência é baixo.

Coloco, exagerando, o limiar da qualidade nos três euros. Peço ao leitor enófilo que não vá a uma garrafeira, mas que dê uma volta pelas mercearias de bairro, por supermercados como o Minipreço, Pingo Doce ou Lidl e veja o que por lá se vende. Há muita oferta e, se perguntar ao um funcionário acerca de quantidade vendida e rotação, verá um mundo que pensa não existir.

Os portugueses não gostam de gastar dinheiro em vinho. É um produto menor, alimento dispensável… é como as mães: os miúdos gostam sempre mais do cão do que da mãe! Porquê? Porque a mãe está garantida. Tantas e tantas vezes só lhe damos valor quando é muito velhinha ou se libertou do corpo.

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Vinho © Blend All About Wine, Lda.

O enófilo questione os amigos, aqueles que bebem do vinho que leva para os convívios, quanto estão dispostos a gastar por uma garrafa. Refiro-me ao universo português e não ao grupo restrito de enófilos, beneficiários de enófilos e de quem tem euros disponíveis.

Mau vinho é o que há mais por aí. Infelizmente, o bag in box transformou-se no bad in box. A imagem não descola e quem se atrever a encher um saco com vinho razoável pode ter a certeza que dá cabo da reputação. As caixas vieram substituir o garrafão.

O enófilo que passeie não se fique pelas casas com enoturismo ou loja catita e minimamente cuidada. Procure o «vinho do produtor», aquele «purinho», talvez intoxicado com fitofármacos. Compre e beba! Faz bem, é educativo «calibrar o gosto».

Exemplos? O Vinho do Porto do Minipreço custa três euros e picos… acredita que é bom? Porém foi aprovado – uma vergonha absoluta. Ou marcas brancas do Lidl ou do Pingo Doce. À parte, o Continente tem vinho sem cadastro criminal.

Muitas zurrapas são fabricadas por produtores sérios. Porém, um contrato de muitos milhares e a cêntimos só se pode traduzir em sobras de sobras, refugo que poderia ir para queimar. Não se pode ter tudo! Se a cadeia de distribuição quer baratezas não pode esperar qualidade.

Num país que não valoriza o seu vinho – apesar de um vox pop concluir que temos o melhor do mundo – e não está disposto a pagar com justiça, a porta da rua é serventia da casa. Afirmo, categoricamente, que o melhor que aconteceu aos bons produtores foi a crise.

Se por cá, quem produz bem (muitíssimos) andava aos caídos, a roubar clientela em carrossel – levas-me o negócio e eu apanho o do outro –, a ser vigarizado por quem não paga, desde distribuidores a donos de restaurantes, a crise foi um Joker da Santa Casa, para alguns foi a taluda.

Pagam mais e pagam. Dá mais trabalho, tira horas de sono, mas há reconhecimento e gente disposta a pagar, e com justiça.

Quinta da Pacheca – A Essência do Enoturismo

Texto José Silva

É uma quinta cheia de história, que faz parte da história do vinho, pertencente à família Serpa Pimentel durante 4 gerações.

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The Quinta – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Os vinhos da quinta evoluíram imenso em meados do século passado, graças ao trabalho intenso do sr. eng. Eduardo Serpa Pimentel, avô da actual geração, com quem tive o prazer de provar várias vezes. Era um homem conhecedor, de mente aberta e fazia várias experiências nas vinhas durienses, de que recolhia ensinamentos que partilhava com quem o quisesse ouvir. Lembro alguns brancos que fez com castas como Rieseling e Gewurstraminer, coisas diferentes num Douro então ainda muito conservador. Os vinhos, esses, continuaram a fazer-se e chegaram à actualidade de boa saúde e recomendam-se. Estão mais modernos, mais acessíveis, diria mesmo mais apetecíveis e voltaram em força à prateleiras comerciais e à restauração, com imagem renovada, mais moderna, mas mantendo a classe dum nome bem conhecido. Graças também a novos investimentos que têm vindo a ser feito pelos novos proprietários – Maria do Céu Gonçalves e Paulo Pereira – empresários portugueses radicados em França, que compraram a maioria do capital da empresa e que agora a gerem juntamente com a família Serpa Pimentel.

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Tourism industry, the restaurant and hotel – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Na vertente turística o restaurante e o hotel são já uma referência no Baixo Corgo e mesmo em todo o Douro, tal a qualidade da oferta.

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Interior – Photo by José Silva | All Rights Reserved

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Interior – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Uma unidade muito bem integrada na velha arquitectura da quinta, com 15 quartos onde a beleza e o conforto são uma constante, com um serviço cuidado, impecável, também por isso mantendo uma taxa de ocupação elevada ao longo de todo o ano.

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The restaurant – Photo by José Silva | All Rights Reserved

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The restaurant – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Numa sala de grande beleza, cheia de luz, funciona o restaurante onde, para além de deliciosos pequenos almoços, são servidas refeições com muita qualidade, preparadas com produtos portugueses e mesmo regionais, quando possível, em confecções simples e saborosas.

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Alheira and Asparagus Pasty – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Na última visita apreciamos de entrada um folhado de alheira e espargos sobre cama de repolgas salteadas em azeite da Pacheca muito saboroso.

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Piece of Veel – Photo by José Silva | All Rights Reserved

A que se seguiu um naco de novilho com cogumelo portobelo e risotto de salpicão de Vinhais, carne muito tenra e saborosa, cogumelo a saber a terra, carnudo e um risotto bem conseguido, com um produto muito português, o salpicão.

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Sweet made of Cheese and Coffee – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Para sobremesa uma delícia de café e queijo, com macarron de pistáchio, na companhia de panacota de frutos vermelhos, muito bem apresentado.

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The Wines – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Estes paladares foram acompanhados pelo Pacheca Branco Colheita já de 2014, cheio de frescura e muito elegante, uma acidez intensa num lote de castas muito equilibrado, um belo vinho. Depois foi o tinto, também colheita mas de 2012, com boa fruta no nariz, equilibrado, bom volume de boca e óptima estrutura, a pedir comida. Para a sobremesa foi o Porto Vintage de 2012, ainda cheio de fruta no nariz, muito vivo, fresco, notas intensas de frutos pretos bem maduros, chocolate e tabaco, com uma bela complexidade, a augurar grande futuro.

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New Tawny – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Acabamos a noite com um Tawny novo, muito agradável, com aromas de frutos secos, boa estrutura, sedoso, intenso e com óptima acidez. Claro que ambos os Portos estavam refrescados…

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Winery – Photo by José Silva | All Rights Reserved

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Photo by José Silva | All Rights Reserved

De manhã foi um passeio pela adega com as suas grossas paredes de granito, mas sobretudo pela quinta e tudo o que está à volta, com o Douro logo ali adiante.

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The vineyards still bare – Photo by José Silva | All Rights Reserved

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One of a kind Beauty – Photo by José Silva | All Rights Reserved

As vinhas, ainda nuas, à espera das temperaturas primaveris para abrolhar, têm uma beleza muito própria que não me canso de apreciar, estendem-se à beira do rio, e vão pela encosta acima.

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Many Houses – Photo by José Silva | All Rights Reserved

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Many Houses – Photo by José Silva | All Rights Reserved

As várias casas da quinta, que respiram antiguidade, continuam a receber-nos com dignidade.

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Terraces and Paths – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Os largos e as alamedas da quinta sugerem passeios retemperantes para apreciar toda aquela beleza, num vale que se estende até ao rio Douro.
Os vinhos, esses, repousam na adega até serem consumidos…

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Quinta da Pacheca
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Mais generosos do que os outros

Texto João Barbosa

Confesso que não entendo a diferenciação de vinhos em generosos e licorosos, quando são basicamente o mesmo. A diferença nem é subtil, pois os termos diferenciam a nobreza da plebe. Os generosos produzem-se em regiões demarcadas e os licorosos têm direito a Indicação de Proveniência Regulamentada ou apenas de mesa.

Nem é bem assim! Generosos são os Porto, Madeira, Setúbal e Carcavelos. Obviamente, há simples licorosos melhores que alguns generosos.

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Vinho da Península de Setúbal

Ignorando a questão semântica – e «generoso» é «todo» o vinho – importa notar a capacidade dos portugueses para fazerem estes néctares. O processo é «simples», por isso há múltiplas imitações – quase todas com dolo – mas não é como cozer ovos. O Vinho do Porto é a vítima óbvia. Uma sina que só lhe reforça a importância.

Há quem classifique os vinhos de colheita tardia – exemplos máximos são os Tokaji (Tokay, na antiga nomenclatura) e os Sauternes – como generoso. Penso que erradamente, pois os métodos são distintos. Não sou nem académico nem enólogo, pelo que nessa discussão abstenho-me e até reconheço que é uma niquice.

Cada boca, sua sentença! Nariz, idem. No mundo maravilhoso do vinho cabem castas e regiões, às vezes quase a mesma coisa. Do branco deslavado ao retinto, há néctares que preferimos.

De todos, fascinam-me os generosos (licorosos incluídos), são capazes de tudo. Do aperitivo à sobremesa, passando por entrada ou companhia de conversa. Neste rectângulo de continente e nos dois arquipélagos autónomos há uma multiplicidade de géneros.

As personalidades vêm das uvas, dos locais, das práticas do homem. Alguém escreveu, no século XIX, que há tantas variedades de Vinho do Porto como fitas num retroseiro. O próprio sítio na internet do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto não referencia todas as variantes… já quanto ao Madeira, penso que o seu estudo é como uma licenciatura.

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Vinho Madeira

Tenho um carinho especial pelo Vinho de Carcavelos, um monumento que a cidade de Lisboa – na sua dimensão metropolitana – tratou de corroer, deixando pouco para se fazer. A demarcação abrange partes do Concelho de Oeiras e do Concelho de Cascais. Haverá cinco quintas com vinhas aptas a fazer este vinho de perto do mar. Uma está a cargo de poderes públicos – Câmara Municipal de Oeiras e Ministério da Agricultura – e as outras vivem numa obscuridade muda.

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Vinho de Carcavelos

Disse-me o enólogo do município que, quando se avançou com a ideia de fabricar Carcavelos, não se conseguiu encontrar um fio condutor. Provadas muitas garrafas, cada produtor tinha o seu estilo.

Por um lado é bom, porque abre a janela à fantasia: «o que terá sido? Que bom seria se… Ah! Se eu pudesse…». Por outro deprime, porque é um espólio impossível de recuperar. Cinco ou seis quintas não desenham o retrato.

O Vinho de Carcavelos é uma espécie de lince ibérico ou de urso pardo. Só o poder político, através de acções de entidades públicas, pode intervir na sua preservação. O Ministério da Agricultura cede a terra e o Município de Oeiras faz o trabalho.

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Vinho do Porto

Não há um «melhor vinho do mundo»… mas em modos genéricos, temos dois dos maiores vinhos do mundo: Porto e Madeira. Lamentavelmente desconhecidos pela generalidade dos portugueses. Uma das muitas idiossincrasias…

Londres, Meca do vinho

Texto José Silva

Das muitas capitais da velha Europa, é certamente Londres que se destaca como o local por onde passam os grandes vinhos do mundo, onde funciona uma espécie de “bolsa” dos vinhos que ali desaguam vindos um pouco de todos os cantos do planeta.

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Londres – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E que são passados a pente fino, provados, testados, avaliados e finalmente carimbados por uma classe de provadores de que fazem parte algumas elites, que incluem “Masters of Wine” e “Masters Sommeliers”, que por ali abundam. Depois é a procura mais ou menos intensa por parte de garrafeiras, lojas gourmet, restaurantes e wine bars e mesmo das grandes cadeias de supermercados, num mercado bastante aberto e em que a vontade de provar coisas diferentes e novas é cada vez mais evidente.

Os vinhos portugueses não fogem à regra, bem conhecidos e apreciados entre estes provadores e críticos, e que fazem parte de várias mostras e provas que vão tendo lugar ao longo do ano na capital britânica. Por isso mesmo é pena que tudo isso não se traduza em vendas mais significativas dos nossos vinhos no mercado do Reino Unido. Falta aquele “click” que leve os vinhos portugueses de qualidade ao grande público britânico e faça melhorar as vendas significativamente, num mercado que tem tanto de exigente como de fascinante.

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Prova – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Recentemente aconteceu mais uma prova de vinhos portugueses, bastante bem organizada pela ViniPortugal e com a presença de mais de 120 produtores, com muitas provas organizadas pelos muitos distribuidores que importam vinhos lusos, e onde os produtores aproveitaram para mostrar novos vinhos ou pelo menos novas colheitas, tentando melhorar a sua divulgação e, consequentemente, as vendas, acertando novos contractos ou confirmando os já existentes.

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Quinta de Cottas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Como aconteceu com um produtor português do Douro, a Quinta de Cottas, que conseguiu renovar o contracto que já tinha com a companhia aérea British Airways, para que, depois de ter tido o seu vinho tinto colheita de 2010 servido a bordo dos aviões da companhia inglesa, seja agora o mesmo vinho tinto, mas da colheita de 2011, a ser servido nos aviões desta companhia aérea. É mais uma achega para a boa aceitação dos vinhos portugueses no difícil mercado britânico. Também na restauração alguns portugueses têm tentado a sua sorte em Londres, seja porque para ali foram em busca duma oportunidade, seja porque já lá viviam e quiseram tentar este mercado onde, apesar de tudo, não há grande oferta de qualidade.

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Restaurante em Covent Garden – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entre muitas outras ofertas na velha Albion, há um pequeno restaurante e wine bar em Covent Garden, de seu nome “Canela”, a servir vinhos portugueses e petiscos da nossa terra, que está a ter algum sucesso.

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Vinhos Portugueses – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma oferta de vinhos portugueses com alguma variedade e muitos petiscos que estão a ser muito bem aceites pela clientela do espaço. Ali nos encontramos com Jamie Goode, para um almoço divertido.

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Jamie Goode – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Quando quis beber uma cerveja “Guiness”, para começar, fui informado que só têm cerveja “Sagres” e “Superbock”, assim mesmo!

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Vadio 2013 white – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Jamie Goode escolheu um branco “Vadio”, da colheita de 2013, que esteve muito bem, cheio de frescura, simples e saboroso.

Pela mesa foram passando presunto e alguns queijos, na companhia de pão saboroso.

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Pataniscas de Bacalhau – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Chouriço e Pão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foram as pataniscas de bacalhau e um chouriço grelhado atrevido, que já pedia um tinto.

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Lagar de Darei 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi ainda o Jamie Goode que escolheu um tinto “Lagar de Darei” de 2011, sóbrio, apelativo, bem interessante.

Plan B 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De Bortoli 2008 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ao fim da tarde, numa conversa com Sarah Ahmed, à volta dumas garrafas de vinho branco australiano, fizemos a comparação entre estes dois mundos: os vinhos australianos estão por todo o lado!!

Mas em Londres há também alguns locais emblemáticos a servir e vender vinhos de todo o mundo, onde, apesar de haver vinhos portugueses, a sua oferta é diminuta, por vezes mesmo apagada. E onde urge colocar mais vinhos portugueses a serem provados e comprados por um público cada vez mais interessado.

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The Sampler – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um desses locais é o “The Sampler”, em South Kensington, que tem uma oferta de 1.500 vinhos de todo o mundo, uma boa parte deles de pequenos produtores, que podem ali ser provados e comprados, com alguns bons vinhos portugueses disponíveis.

Hedonism Wines – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Elegante e Requintada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Noutra zona da cidade, em Mayfair, é a vez de uma loja de vinhos absolutamente fantástica, a Hedonism Wines. Elegante, requintada, muito bem climatizada, enorme, extraordinariamente bem organizada e onde podemos encontrar tudo, mesmo tudo, de todo o mundo.

Garrafas desde €8 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A €15.000 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

Desde vinhos a €8 a garrafa, até raridades a €15.000 a garrafa. Leu bem, €15.000 a garrafa!!

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Vinhos Portugueses – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E também ali estão alguns bons vinhos portugueses.

Em restaurantes, bares, wine bars e lojas gourmet, podemos encontrar vinhos portugueses, embora em ofertas muito limitadas, o que não corresponde à fama e à qualidade sempre crescente que têm vindo a assumir junto da crítica internacional. Está por isso na hora de dar o salto, de dar mais visibilidade aos nossos vinhos e de colocá-los nos locais mais emblemáticos da capital britânica. E mesmo que sejam produtores já com tradição, porque não fazê-lo duma maneira divertida…

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Porque não fazê-lo de uma maneira divertida? – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Aqui na Blend continuaremos a lutar por isso e disponíveis para apoiar todo o tipo de acções que possam ajudar.
Afinal Londres é já ali, a duas horas de viagem…
Cheers!

É tão sensual – Taça vs Flute

Texto João Barbosa

Vinho é festa! Seja com o néctar mais plebeu ao estratosférico, no Ocidente costumamos festejar e brindar com vinho. Nem toda a gente gosta, nem todos têm um gosto sofisticado, instruído, esclarecido. Muitos não têm dinheiro para cumprir o desejo.

Além do vinho, da sua qualidade e preço, há a questão dos copos; um problema no universo dos meus amigos, pois nem todos têm uma relação tão profunda com o vinho, desconhecendo a importância que têm os vasos. Há os renitentes, por teimosia ou incredulidade ou por ignorância ou inexperiência, mas quem bebeu vinho por bons copos…

É um bocado como os talheres. Até muito tarde, os europeus comeram à mão. Um espeto com lâmina era comum nas mesas, fazendo as vezes de garfo e de faca. Apesar de o garfo ser um instrumento muito antigo, de muito antes do nascimento de Cristo.

Hoje, o garfo é tão comum e tão logicamente útil que pode parecer estranho como andaram os europeus a comer à mão até ao século XVI… XIX… XX. Consta que terá entrada na mesa do Rei de França através de Catarina de Medicis, casada com Henrique II.

O garfo substituiu o espeto de lâmina, mas não se lhe juntou a faca. Documentação fiável não há, não lhe deram importância à época, mas reza a lenda que foi no restaurante parisiense La Tour d’Argent que o par se fez.

A data da fundação não é certa, mas esta casa – ainda hoje existe, apesar da mudança de local – é tida como estabelecida em 1582. Terá sido aí que Henrique IV, consorte de França e Rei de Navarra, aprendeu a usar os talheres, o primeiro monarca a utilizá-los.

Luís XIV, seu neto, frequentava o La Tour d’Argent e já seria comum o uso dos talheres na corte. Porém, os faqueiros só começaram a surgir, nas casas abastadas, a partir de meados do século XIX.

Diz-se que o Rei Sol disse do Champanhe que era o «Rei dos Vinhos e o vinho dos Reis», um néctar nascido, em 1670, pela mão de Dom Pérignon. Este espumante não mais saiu de ao pé dos monarcas, que o bebiam por copos indiferenciados e obviamente disfuncionais.

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Taça de Champanhe

 

Há duas versões para o nascimento do primeiro copo lhe dedicado. A primeira taça de Champanhe terá sido moldada num seio da Rainha Maria Antonieta ou de Josefina de Beauharnais, mulher de Napoleão Bonaparte.

A ciência e o engenho provaram que a taça é inadequada para um vinho espumante. Como qualquer instrumento, a função é mais importante que a forma. Assim se criou a flute, flauta.

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Flauta de Champanhe

 

Se a flauta, com o seu timbre cristalino, combina com a delicadeza dos espumantes e mantém viva a alma do vinho… a taça, nascida na intimidade da realeza, é muito mais bela.

Com snobismo – assumida provocação, sem vontade de ofender – a flauta é burguesa, tem de se mostrar. A taça é fidalga, o ouro-velho da nobreza, discreto e recatado.

Se não convenci, volto aos talheres. A prata – com seu odor característico, requerendo cuidado no preparo para a mesa – nunca será derrotada pelo christofle, um material que ganhou o nome do joalheiro que o criou.

Uma taça é muito mais sensual do que uma flauta… e quem consegue manter num copo, por largo tempo, um delicado vinho espumante?

Sangue na Adega

Texto João Barbosa

Alguém disse – um famoso… político, escritor ou militar… – que um homem sem inimigos não tem préstimo, mais coisa menos coisa. Que saiba, não tenho inimigos, pelo que vou tentar arranjar alguns com esta crónica. O mote tem a cor do sangue!

O Vinho Verde tinto é um «produto» – detesto o termo aplicado a coisas bonitas como o vinho, pelo que aqui é mero recurso e não ofensa – vínico que muitos apreciam, muitos julgam que apreciam (provavelmente não beberam), outros afirmam gostar para serem simpáticos e outros abominam.

Estou no grupo dos que abominam o Vinho Verde tinto!

Atenção a este aspecto: a tradição merece-me todo o respeito, tal como a vertente étnica, verdade regional e carácter. O Vinho Verde tinto consegue todos estes pontos.Carácter é coisa que não falta a este vinho do Entre Douro e Minho. Enquanto enófilo, espero que perdure por muitos e longos anos, guardando as características que os seus amantes apreciam. Mas dispenso-o.

O pior que poderia acontecer – a este «produto» como a qualquer outro com autenticidade – é a perda de identidade, para se moldar ao gosto da moda ou da multidão. Peço aos vitivinicultores que deixem o Vinho Verde tinto continuar como até aqui, não cedendo nessa virtude que é a «verdade».

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Uvas de Vinho Verde na Vinha – Foto de Feliciano Guimarães | Todos os Direitos Reservados

 

Tenho 45 anos e faço parte duma geração, talvez na última urbana, que teve vinho à mesa: o copo ao almoço (durante a semana de trabalho e no fim-de-semana), o copo ao jantar, nas festas… Em criança não bebia, obviamente. Porém, as pândegas faziam-se com vinho e não com shots ou destilados – que apenas se bebiam nas discotecas.

Alexandre Dumas (Pai) foi, além de romancista de excepção, um gastrónomo de renome, com trabalho publicado, e ainda hoje o deve ser lido por quem gosta dos assuntos da comida, e defendeu que a comida dum local deve ser acompanhada com vinho da mesma proveniência.

A gastronomia é cultura, como as artes ou como os hábitos de trabalho ou os trajes. Para mim faz todo o sentido. Por isso, compreendo que alguns pratos do Entre Douro e Minho devam ser acertados com o seu vinho.

Outra coisa é gostar ou considerar como bom. Mesmo o «bom» é às vezes discutível. O Vinho Verde tinto tem uma grande acidez, é pujante e marca a boca. Este é um daqueles casos em que «bom» se traduz numa grande personalidade, que leva a paralaxes de entendimento. Heterodoxia não é só virtude nem só defeito. Não é consensual: há apaixonados, quem aprecie como acompanhamento preciso e lógico da comida da sua região de origem, e quem não lhe dê afecto, como é o meu caso… não gosto da casta vinhão e mesmo no Douro, onde lhe chamam sousão, a sua presença não me é simpática. Porém, defendo que se mantenha como é, porque autêntico. Bebe quem gosta e/ou percebe, dispensa quem sente comichões.

A tradição é o que é e também as características do que a natureza dá. Um dia queixei-me, a um amigo gastrónomo, dum café célebre que se serve numa, não menos famosa, «cafetaria» de Lisboa. Fui repreendido, porque aquele é «o melhor» café de montanha que há. Ora, ora… de que me serve ser «o melhor» se é desagradável?

O que é isso de «o melhor»? O que diz a «academia» ou o saber ancestral do povo ou o gosto pessoal? É tudo relativo. O meu amigo tem razão, num determinado ponto de vista: é preciso saber o que é para se poder compreender.

O Vinho da Madeira sofre todos os castigos que se podem infligir a um vinho. Quem o prova, desportivamente ou num concurso, deve saber que é um Madeira, pois o padrão tem de ser esse. Não se lhe pode exigir o que não é!

Um carro de Fórmula 1 é melhor do que um de WRC ou doutro que corre o Dakar? Cada um é melhor na sua categoria, são incomparáveis. Porém, há bons e maus Fórmula 1, WRC ou Dakar. Como no vinho. Há bons vinhos jovens e cheios de garra, como o Vinho Verde Tinto.

Nos últimos tempos, têm surgido vitivinicultores de referência a dedicarem-se à produção de Vinho Verde tinto. No entanto, mantenho o «desgosto». Nada a fazer! Serei sempre um herege, para os apreciadores.

As afirmações peremptórias – sempre, nunca, tudo, nada, etc. – são perigosas para quem as profere, pois há-de surgir uma, duas ou 20 excepções só para chatear a sentença. Pode ser o caso.