Posts Categorized : Outros

Simplesmente Vinho 2014: O evento vínico holístico no Porto

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

Como escritora, particularmente como escritora de vinhos, parece-me impossível que eu não soubesse que há duas definições para a palavra wine, vinho em Inglês!?! De acordo com o Dicionário de Oxford “wine” não é só “uma bebida alcoólica feita a partir de sumo de uva fermentado” (o substantivo), mas é também um verbo: “uma dança com movimentos giratórios rítmicos da região pélvica”. Pensei imediatamente no Elvis, mas depois reparei que a etimologia é da Índia Ocidental!

Vinho 2014 Oportos holistic wine fair1

Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

A vida está cheia de surpresas. Tomemos como exemplo o evento Simplesmente Vinho , o ajuntamento de 22 rebeldes produtores de vinho portugueses onde o “wine” – o substantive e o verbo – colidem numa troca inebriante, holística e sinergética, entre produtores de vinho, artistas e músicos.

Eu visitei a 2ª edição da feira, que teve lugar no início deste ano, no – ou melhor por baixo do – escritório  Skrei na Baixa do Porto, um jovem atelier de arquitectos e artesãos dedicados à regeneração urbana. A seu cargo esteve a regeneração das caves, revestindo as paredes com garrafas de terras portuguesas, o meio de enraizamento dos vinhos e, com luz, a geradora de uvas e vinhos.

Vinho 2014 Oportos holistic wine fair2

Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Quanto aos músicos: Caixa de Pandora, Bitrigode Trio e os Thee Magnets, o fundador do Simplesmente Vinho, João Roseira (Quinta do Infantado) admite “Adoro música pelo que, estar num evento de vinho onde se pode encontrar boa música, é fantástico. Também queremos pôr o vinho na realidade das pessoas e fazer com que o vinho assente os pés na terra”.

 

O co-fundador e colega produtor de vinho do Douro, Mateus Nicolau de Almeida (Muxagat) não podia estar mais de acordo: “O Simplesmente Vinho não é pretensioso. Queremos desmistificar o vinho e os seus produtores porque os vinhos especiais podem ser simples e podem ser bebidos de forma simples. É por este motivo que nós, os produtores, não estamos atrás de mesas, para que os consumidores sintam que estamos com eles”. Roseira acrescenta que tendo em consideração que em Portugal 90% dos vinhos são comprados nos supermercados, é importante encontrar os consumidores nas feiras ou à porta das caves, e também apoiar os “cavistas” que vendem o vinho directamente, “porque desta forma as pessoas vão aprender sobre o vinho”.

Vinho 2014 Oportos holistic wine fair3

Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Esta abordagem inclusiva e centrada no consumidor também explica o modesto preço de 4€ por bilhete. Uma pechincha que dá acesso a provar vinhos de 22 quintas artesanais (incluindo muitas das minhas preferidas), juntamente com comida dos grandes chefs do Porto: Rui Paula of DOP/DOC, Luís Américo of O Mercado, e também Joana Vieira e André Antunes do Delicatum em Braga que tem nada menos do que 20 vinhos orgânicos.

Apesar de muitos dos produtores do Simplesmente Vinho trabalharem de forma orgânica, por vezes biodinâmica, Nicolau de Almeida diz que as suas filosofias e ideias sobre a agricultura e a produção de vinhos não são necessariamente as mesmas. No entanto, o traço comum nesta feira de vinhos “criada por produtores para produtores” é que todos “olham para o que a vinha, a região e as uvas dão e não para o que o mercado quer” quando criam os seus vinhos. Invariavelmente, também eles trabalham as vinhas, para além de fazer e vender os vinhos. Desta forma, observa ele, “as pessoas que vêm, sabem que tipo de produtores somos e o tipo de vinho que estamos a fazer”, o que se torna mais produtivo do que visitar uma das grandes feiras de vinho mais conhecidas, onde os pequenos produtores se perdem. Toda a gente – produtores e consumidores – tem mais contacto pessoal no Simplesmente Vinho.

Vinho 2014 Oportos holistic wine fair4

Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Na realidade, tendo obtido inspiração da Francesa Haut Les Vins, Simplesmente Vinho o Simplesmente Vinho é um salão off que acontece ao mesmo tempo que a Essência do Vinho, uma feira muito maior na qual cerca de 350 produtores mostraram as suas mercadorias este ano. O que não significa que o Simplesmente Vinho seja divisionista. Longe disso! Como Roseira entusiasticamente frisa, embora seja “muito difícil juntar pessoas em Portugal uma vez que não somos um povo muito colaborativo, a Essência do Vinho proporcionou a oportunidade a que aconteçam mais eventos de vinho, o que ajuda a elevar o perfil do Porto como a capital do vinho de Portugal”. Palavras estimulantes sobre a cidade que para Roseira “respira vinho” e à qual eu aconselho a visita durante o próximo mês de Fevereiro ou Março, quando o Simplesmente Vinho e a Essência do vinho voltarão a acontecer.

Este ano, estiveram no Simplesmente Vinho, os seguintes produtores:

Minho: Fernando Paiva – Quinta da Palmirinha | Tony Smith – Quinta de Covela | Vasco Croft – Aphros.

Douro: João Roseira – Quinta do Infantado | Joaquim Almeida – Quinta Vale de Pios | Mateus Nicolau de Almeida – Muxagat | Rita Marques – Conceito | Tiago Sampaio – Olho no Pé.

Dão: Álvaro e Maria Castro – Quinta da Pellada | António Madeira – António Madeira | João Tavares de Pina – Terras de Tavares | José Manuel e Carlos Ruivo – Lagar de Darei.

Bairrada: Dirk Niepoort – Quinta de Baixo (Niepoort Projectos) | Filipa Pato – Filipa Pato | Luís Pato – Luís Pato | Mário Sérgio Nuno – Quinta das Bágeiras.

Tejo e Lisboa: Paulo Saturnino Cunha – Pinhal da Torre | António Marques da Cruz – Quinta da Serradinha | Marta Soares – Casal Figueira.

Alentejo: Miguel Louro – Quinta do Mouro | Vitor Claro – Dominó.

Contactos

Simplesmente Vinho
vinhosimplesmente.2013@gmail.com
simplesmenteVinho

O Sector dos Vinhos em Portugal

Texto Patrícia Leite 

Para compreender melhor o vinho português, importa conhecer o sector: como nasceu, como se organiza, o que fazem as Entidades Certificadoras (Comissões Vitivinícolas Regionais e outras) e ainda o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P.. 

Um pouco de História

A cultura da vinha em Portugal é ancestral. Terá alegadamente nascido com os Tartessos, em 2 000 a.C., o povo que terá cultivado a vinha pela primeira vez na Península Ibérica. Já depois do nascimento da nacionalidade, em 1143, e após a desocupação muçulmana, os monarcas doavam terras na condição de se cultivar vinha com vista à fixação das populações.

Foto 1 Vinhas 2

Arcos de Valdevez | © Blend All About Wine, Lda.

As condições particularmente favoráveis de solo e clima e o predomínio em algumas regiões de castas de manifesta tipicidade fizerem com que a viticultura fosse ganhando progressiva relevância económica e potenciaram a importância do vinho como fonte de rendimento.

Por esse motivo, Portugal foi estruturando diversas regiões vitivinícolas para permitir a regulação adequada da produção e do comércio dos vinhos de qualidade. Este trabalho inovador de estruturação do sector começou, desde logo, em 1756 com a demarcação da região de produção dos vinhos no Douro, que viria a ser uma das primeiras regiões demarcadas do mundo.

Foto 2 Marquês do Pombal

The portrait of Marquis of Pombal by Louis-Michel Van Loo

De facto, o século XVIII foi marcado pelo crescimento da viticultura em Portugal. Um dos grandes contributos para isso foi o Tratado de Methuen em 1703, através do qual Inglaterra concedia um regime especial aos vinhos portugueses importados, que impeliu grande parte dos agricultores a passar a utilizar as suas terras para a produção de vinho.

Mais tarde, em 1907, no tempo da ditadura de João Franco, retomou-se a lógica da demarcação das regiões produtoras de vinho e iniciou-se a regulação global do sector vitivinícola: foram redefinidos os limites da região demarcada do Douro e foram então demarcadas e regulamentadas outras regiões vitícolas (Vinho Verde, Dão, Colares, Carcavelos, Bucelas, Moscatel de Setúbal e Madeira). Apenas em 1979 e 1980 foram demarcadas as regiões da Bairrada e do Algarve.

Foto 3 Carta Lei 1908 4

Law of 18th September 1908 | Source: www.vinhoverde.pt

Neste processo de criação do sector, foi sendo constituída para cada uma das regiões uma Comissão Vitivinícola Regional (CVR), de natureza associativa com funções públicas de regulação da produção e comércio dos produtos vitivinícolas. Numa fase inicial, as CVR estavam sujeitas a uma forte intervenção estatal, que levou a uma progressiva perda de autonomia destas entidades a partir da década de 30 e a alguma confusão quanto ao seu estatuto jurídico.

Com efeito, no âmbito do plano económico de organização corporativa, o Estado Novo (instituído em 1926) aplicou fortes políticas intervencionistas no sector vitivinícola por este representar uma fonte vital de divisas e um mercado de trabalho para largos milhares de pessoas.

Foto 4 Mapa Wines of Portgal

Wine Regions | Source: www.winesofportugal.info

Foi então criada em 1937 a Junta Nacional do Vinho, organismo de coordenação económica com funções de actuação na produção e no comércio dos produtos vínicos (promoção do consumo de vinho no país, controlo da oferta, estabilização dos preços e armazenamento dos excedentes de produção).

Seguiu-se, nos anos 50 e 60, a criação de uma rede de adegas cooperativas para responder a problemas do mercado em termos de volume de produção e de armazenagem da produção sem escoamento possível (apenas as adegas cooperativas podiam comprar as uvas aos produtores e vinificar, pelo que as empresas privadas apenas podiam comprar vinho já produzido).

Foto 5 Pipas

Ervedosa do Douro | © Blend All About Wine, Lda.

Na década de 80, a organização do sector vitivinícola português sofreu uma importante mudança, por força das medidas de pré-adesão à então CEE, que se concretizou em 1986, e para cumprir totalmente as regras da política agrícola europeia.

Tendo por base políticas de produção de vinhos de qualidade, a legislação comunitária obrigou na altura à criação do conceito de Denominação de Origem Controlada (DOC) e à classificação qualitativa dos vinhos através das categorias V.Q.P.R.D., Vinho Regional e Vinho de Mesa. Note-se que esta lógica já foi entretanto revista, tema este que abordaremos em pormenor num próximo artigo.

Foto 6 Copos e garrafas

© Blend All About Wine, Lda.

Assim, em 1985 foi efectuada uma revisão profunda do regime do sector pela lei-quadro das regiões demarcadas vitivinícolas (Lei nº8/85, de 4 de Junho), que veio estabelecer a auto-regulação dos interesses profissionais da Produção e do Comércio de vinho representados nas CVR, tendo vigorado no sector por quase 20 anos.

Esta revisão implicou uma clarificação da natureza das CVR à luz dos novos princípios constitucionais em matéria de direito de associação, sendo estas entidades reconhecidas como associações interprofissionais, regidas pelo direito privado. Essa natureza foi, no entanto, conjugada com a presença de um representante do Estado no seu órgão deliberativo, o Conselho Geral.

Foto 7 Douro Wines of Portugal

Douro | Souce: www.winesofportugal.info

Foi também criado em 1986 o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV), que veio suceder à Junta Nacional do Vinho, com o objectivo de adequar a organização do sector aos princípios e regras das normas comunitárias em face da recente adesão de Portugal à CEE.

Quase duas décadas depois, ocorreu em 2004 uma profunda reforma do sector (Decreto-Lei nº212/2004, de 23 de Agosto), em termos institucionais e também regulamentares, à luz da revisão das normas comunitárias entretanto efectuada. Esta lei veio regular as Denominações de origem (DO) e as Indicações Geográficas (IG) utilizadas nos produtos do sector vitivinícola, quanto ao seu reconhecimento, protecção, controlo e certificação.

Foto 8 212 2004

Decree-Law no. 212/2014

Orientada pela experiência adquirida, pela evolução do sector e pelo reconhecimento da capacidade das CVR de autogestão dos interesses profissionais, esta reforma definiu ainda um novo modelo de relacionamento das CRV com o Estado. É criada a figura das Entidades Certificadoras (EC) e são definidas as regras da sua natureza e estrutura orgânica, tendo sido suprimida a representação do Estado no Conselho Geral e reforçadas as competências de controlo e certificação.

As Entidades Certificadoras (EC) 

Uma EC é uma associação de direito privado, de carácter interprofissional, reconhecida pelo Ministro da Agricultura para exercer funções de controlo da produção e comércio e de certificação de produtos vitivinícolas com direito à respectiva Denominação de Origem (DO) e/ou Indicação Geográfica (IG).

Foto 9 Dão Wines of Portugal

Dão | Source: www.winesofportugal.info

Conforme as regras comunitárias, uma EC deve estar acreditada pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC), segundo a norma NP EN 45011 para o controlo e certificação dos produtos vitivinícolas com direito a DO ou IG, e o respectivo laboratório também deve estar acreditado pelo IPAC, segundo a NP EN ISO/IEC 17025 para os ensaios físico-químicos inerentes ao controlo e certificação.

Neste quadro, podem ser designadas EC as Comissões Vitivinícolas Regionais (CVR) ou outras entidades, desde que satisfaçam as condições e requisitos de carácter organizacional e de natureza técnica em respeito dos princípios de objectividade, imparcialidade e independência.

Foto 10 Vinhas

 

Provesende | © Blend All About Wine, Lda.

No caso da Região Demarcada do Douro e da Região Autónoma da Madeira, o papel das EC é desempenhado por institutos públicos (o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P. e o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P.) e não por associações de direito privado como as CVR.

As EC têm como atribuições principais promover e defender a respectiva DO e/ou IG, efectuar o controlo e a certificação dos produtos com essa DO e/ou IG, divulgar e promover os produtos que certificam, classificar as parcelas de vinha como aptas à produção e controlar as existências, a produção, a circulação e o comércio das uvas e dos produtos vitivinícolas.

Foto 11 Bairrada Wines of Portugal

Bairrada | Source: www.winesofportugal.info

Quanto à estrutura orgânica, as EC têm os seguintes órgãos:
– o Conselho Geral – órgão deliberativo que reúne os representantes da Produção e do Comércio dos produtos certificados;
– a Direcção – órgão executivo composto por um presidente e por dois vogais, um designado pela Produção e outro pelo Comércio;
– e o Conselho Fiscal – composto por um presidente e dois vogais – ou o Fiscal Único, com competências de fiscalização.

O papel do Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV)

O IVV é a entidade de tutela do sector vitivinícola, um instituto público sob a alçada do Ministério da Agricultura.

Com a reforma do sector 2004, foi redefinido o papel do IVV, que passou a centrar a sua actuação na coordenação e controlo da organização institucional do sector, na auditoria do sistema de certificação de qualidade, na supervisão e auditoria das EC, participando ainda na coordenação e supervisão da promoção dos produtos vitivinícolas. Enquanto entidade de contacto junto da União Europeia, o IVV efectua o acompanhamento da política comunitária e a preparação das regras para a sua aplicação.

Foto 12 IVV

Headquarters of the Instituto da Vinha e do Vinho, I.P
Source: www.facebook.com/IVV.PAGINA.OFICIAL

Em termos gerais, é assim que funciona o nosso sector dos vinhos. As EC actuam na defesa, certificação e controlo dos produtos com DO e/ou IG e o IVV na coordenação e controlo do sector.

Legenda:

Produtos vitivinícolas: vinhos, vinhos espumantes, vinhos frisantes, vinhos licorosos, vinagres de vinho, aguardentes de vinho e aguardentes bagaceiras;
Certificação de produtos vitivinícolas: processo de validação da conformidade do produto com os requisitos definidos pela Entidade Certificadora para a DO ou a IG, o qual é evidenciado, no caso dos produtos engarrafados, através do selo de garantia constante da garrafa.

Contacts

Comissões Vitivinícolas Regionais e Outras Entidades Certificadoras
www.ivv.min-agricultura.pt/np4/np4/212.html

Instituto da Vinha e do Vinho, I.P.
www.ivv.min-agricultura.pt

blend-all-about-wine-winemaker-filipa-pato-slider
Filipa Pato: Mais do que uma Enóloga, uma Produtora de Vinhos

Texto Sarah Ahmed | Tradução Patrícia Leite

Se há uma característica que admiro particularmente nos enólogos, na verdade, na vida em geral, é a mente aberta.

A vontade de aprender e crescer – uma humildade que, na minha (humilde) opinião, é absolutamente fundamental para a verdadeira busca da excelência.

É uma qualidade típica de uma nova geração de enólogos portugueses bem-viajados, mesmo que, como Filipa Pato, estejam agora firmemente enraizados no vernáculo regional. Nada é mais tradicional do que produzir Baga na Bairrada!

Embora tenha tido a oportunidade de estudar Enologia, Filipa diz-me: “Eu preferi aprender e praticar com bons enólogos, porque, quando se estuda muito, fica-se muito técnico e não se tem experiência prática suficiente”.

Interessada nas oportunidades de viagem que o vinho proporcionava (o seu pai é o maestro itinerante/viajante da Baga da Bairrada, Luís Pato), ela aproveitou os contactos do pai em Bordeaux (Bordéus), passando algum tempo no Château Cantenac Brown, Margaux. Mordida pelo bichinho das viagens, Filipa foi então para Leeuwin Estate em Margaret River, um dos produtores de Chardonnay mais elogiados da Austrália, seguindo depois para a Argentina, onde trabalhou na empresa Finca Flichman.

Qual o resultado desta “espionagem industrial”? Filipa diz que “é importante para provar vinhos de outros países para que possamos entender as diferenças em relação a nós, comparar preços e qualidade e ver muito bem a nossa posição no mercado. Onde os nossos vinhos se situam no cenário mundial”. Especialmente onde, acrescenta, os mercados de exportação são mais exigentes. É um processo que testemunhou em primeira mão na Leeuwin Estate, onde, relembra de olhos arregalados, a equipa de enologia ia todos os dias saborear os melhores Bourgognes (Borgonhas) – “Não os vinhos da aldeia, mas do Domaine Leflaive Batard-Montrachet Grand Cru”!

Filipa Pato_blend_allaboutwine_enologa

Filipa Pato – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

 

Embora esteja agora focada exclusivamente na produção de vinho para o seu rótulo homónimo de Bairrada, Filipa acredita que “é um óptimo exercício continuar a provar de outros vinhos, porque abre-me os horizontes e dá-me confiança no que estou a fazer e orgulho nas nossas próprias tradições”.

A Bourgogne (Borgonha), que visita todos os anos, tem um lugar especial no coração de Filipa. Os seus olhos brilham ao lembrar-se das conversas sobre uvas, colheitas e vinificação com eruditos de Bourgogne como Eric Rousseau (do Domaine Armand Rousseau).

Não apenas por causa de suas formidáveis capacidades , mas também, explica, “porque eles têm vindo a crescer no mesmo contexto que eu. Nasceram no meio do campo e a Bourgogne é muito semelhante à Bairrada com os seus solos [calcários argilosos], encostas e adegas no meio de aldeias, cada uma das quais produz vinhos de perfis diferentes”.

O sonho de Filipa é desenvolver para micro-climas da Bairrada um reconhecimento semelhante, para o que ela e o seu marido (o famoso Sommelier e empresário da restauração belga William Wouters) têm arrendado ou comprado todas as boas vinhas velhas que encontraram. Filipa até já começou a criar um mapa de seus melhores terroirs (na foto).

Mais importante ainda, explicando que “Não gosto de dizer que eu sou enóloga, sou uma produtora de vinho que produz uvas e faz vinho”, Filipa abraçou a cultura dos vignerons da Bourgogne (ou produtores de vinho). Estando eu impressionada com esta preocupação com vinhas velhas e grandes terroirs, Filipa diz “se for à Bourgogne, verá que os vignerons passam a maior parte do tempo na vinha”. É por isso que, quando as vinhas estão “a dormir” durante o inverno, Filipa viaja e, durante o período de produção (Março a Outubro), procura estar em casa, na Bairrada.

Filipa Pato_blend_allaboutwine_enologa2

Filipa Pato – Foto Cedida por Filipa Pato

 

Diz que “agora para mim é muito importante fazer vinho apenas numa região, para poder “respirar” a Bairrada todos os dias e trabalhar com as mesmas uvas e vinhas e, com experiência e foco, poder melhorar todos os anos”. E melhorar significa produzir vinhos que reflectem sua origem única ou, como dizem os seus rótulos “vinhos autênticos, sem maquilhagem”.

Embora diga que Portugal não teve de facto no passado essa cultura de produtores ou, pelo menos, não era bem vista, Filipa considera que “há um novo movimento de vignerons [bem vistos] em Portugal”. Acrescenta que o desenvolvimento é incalculável não apenas para o vinho, mas porque “precisamos de produtores de vinho e outros artesãos, ou não vamos manter nossas aldeias; estes lugares irão perder o seu encanto”. É por isso que Filipa e William estão a recuperar uma antiga adega no coração de Óis do Bairro, a aldeia onde ela cresceu. E, é claro, isso significa que ela poderá estar perto das vinhas.

Aqui estão as minhas notas sobre os últimos lançamentos de vinhos autênticos de Filipa Pato sem maquilhagem:

Filipa Pato 3B Blanc de Blancs 2013 (Vinho)
Pela primeira vez, Pato prensou este lote tradicional de Bical e Maria Gomes com engaço, lote este que, combinado com uvas de vinhas velhas provenientes de solos calcários argilosos, contribui para um vinho espumante excepcionalmente fresco e preciso. Pureza adorável e persistência de pera perfumada. Muito bom. 12,5% vol.

Filipa Pato Nossa Calcário Branco 2012 (Bairrada)
Este 100% Bical (vertido de uma magnum) é um dos meus brancos favoritos da região (e certamente de Portugal). Feito a partir de uvas provenientes da aldeia de Filipa, Óis do Bairro, este vinho complexo e com textura é envelhecido em barricas de carvalho francês de 500 litros, sobre as borras com bâtonnage. As frutas de caroço maduras e cremosas são habilmente equilibradas e despedaçadas num longo final pelo corte rápido e impulsivo da acidez mineral da toranja. Salgado, com nuances de fumo que falam de terroir Atlântico de argila calcária. Esplêndido. 13.5% vol.

Filipa Pato FP Baga 2012 (IGP Beira Atlântico)

Esta é a primeira vez o FP tinto de Filipa Pato (o tinto júnior) tem tudo de Baga (costumava ser usada uma percentagem significativa de Touriga Nacional para “suavizar” o sabor). Em 2012, a atractividade do vinho é agora alcançada por uma pitada de uvas brancas co-fermentadas (1% Bical e 1% Maria Gomes) e um “mergulho frio” nas películas, seguidos de uma maceração super-curta e suave de 2-3 dias. Além disso, o vinho não viu madeira (que aumentaria os taninos) e foi envelhecido em cubas de betão. É um vinho encantador, com algumas reminiscências de um Cabernet Franc do Loire (de que Filipa é fã), com as notas estaladiças e apimentadas de canela acabada de cortar, cereja, ameixa e bons taninos. Mais que bebível. 12% vol.

Filipa Pato Nossa Calcário Tinto 2010 (Bairrada)
Moderno na pureza e clássico na estrutura este 100% Baga (vertido de uma magnum) tem frutos vermelhos maduros, crocantes mas doces, uma mineralidade dura e fumada e excelente frescura e persistência. Intenso em vez de denso, uns reflexos ultra-finos dos taninos polvilham um final prolongado, seco mas interessante. Muito bom. 13% vol.

Filipa Pato Nossa Calcário Tinto 2011 (Bairrada)
A colheita 2011 revela frutas da floresta mais maduras (vermelhas e pretas), que são bem suportados por taninos mais doces e arredondados. No entanto, muito fiel às suas raízes, é um vinho bem estruturado e bem definido – longo e persistente com um final delicadamente trabalhado com nuances minerais controladas. Muito bom. 13% vol.

Filipa Pato Espírito de Baga Uma Saga (Vinho)
Pato recuperou uma tradição da Bairrada que foi perdida no final do século XVIII, como consequência de medidas destinadas a proteger a indústria do vinho do Porto. O que parece um bocado disparatado quando este vinho tinto fortificado tem poucas semelhanças com um Porto. Como seria de esperar dada a influência atlântica, é um vinho mais fresco e mais bem trabalhado. Verdadeiramente macio, sustentado e persistente com fruta preta carnuda, mas bem definida, notas de pimenta e um final longo de nuances minerais controladas. O segredo para a elegante integração do Espírito? Vem de uvas Baga da Bairrada. Único e excelente. 17% vol.

Contactos
F. Pato – Vinhos Unip Lda
Rua da Quinta Nova, s/n, 3780-017 Amoreira da Gândara.
Tel: (+351) 231596032
Email: filipa@filipapato.net
Site: www.filipapato.net

Blend-All-About-Wine-Penfolds-Grange-Slider
Barca Velha & Penfolds Grange

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

Linhas paralelas: Casa Ferreirinha Barca Velha & Penfolds Grange – A criação de dois ícones

A minha paixão pelos vinhos de Portugal e da Austrália (o foco do meu trabalho como Redactora de Vinhos) é muitas vezes motivo de espanto. As pessoas dizem que são vinhos tão diferentes, mas isso é precisamente um dos motivos do interesse!

No entanto, há também um paralelo muito marcante na evolução dos vinhos tranquilos e espumantes (vinhos de mesa) que “dividem as águas” na história da vinificação de cada país – O vinho Português Casa Ferreirinha Barca Velha e o vinho Australiano Penfolds Grange.

Casa Ferreirinha Barca Velha Red 1952_Packshot

Barca Velha 1952 – Foto cedida por Casa Ferreirinha | Todos os Direitos Reservados

Estes dois vinhos encorpados foram oficialmente lançados no mercado com o ano de colheita 1952. Produzidos por enólogos ousados e dotados (Fernando Nicolau de Almeida e Max Schubert), ambos entendidos na produção de vinhos fortificados, não beneficiaram nem da tecnologia nem dos equipamentos que os produtores de vinhos tranquilos e espumantes (vinhos de mesa) tomam hoje como garantidos. Estes dois homens inspiraram-se em Bordeaux (Bordéus), a capital dos vinhos “elegantes” de França (sem dúvida, do mundo), que cada um deles visitou em meados do século XX. Não é de admirar que o Barca Velha e o Grange têm sido apelidados como as “primeiras produções originais” de Portugal e da Austrália.

Ironicamente, nem o contacto inicial de Schubert com os Bordaleses nem o de Nicolau de Almeida centrou-se na produção de um vinho tinto super premium. Nicolau de Almeida conheceu o famoso professor da Universidade de Enologia de Bordéus, Émile Peynaud, quando este visitou a Casa Ferreirinha no final dos anos 40. Peynaud foi chamado para ajudar a encontrar uma solução para os elevados níveis de ácido málico do Vinho Verde tinto. Nicolau de Almeida agarrou esta oportunidade para mostrar a Peynaud os seus vinhos tintos experimentais do Douro. Diz o filho de Nicolau de Almeida, João Nicolau de Almeida (Director de Enologia da Ramos Pinto), que “quando Émile Peynaud provou os vinhos ficou surpreendido com a qualidade e aconselhou o meu pai a deixar os Vinhos Verdes e a dedicar o seu tempo aos vinhos do Douro”.

Pouco depois disso, Nicolau de Almeida visitou as principais regiões vitivinícolas de França (Bourgogne e Bordeaux), e também Rioja, em Espanha, para estudar as técnicas de fermentação desses vinhos tintos, que iriam a ajudá-lo a manter o aroma e a frescura (características que têm tendência a perder-se com o calor Douro). Mas havia um problema. Ao contrário de Bordeaux, Bourgogne e Rioja, no Douro não havia cubas de fermentação com controlo de temperatura porque muito poucas quintas tinham electricidade (os vinhos do Douro eram fermentados em lagares abertos, onde era impossível controlar a temperatura da fermentação). A solução engenhosa de Nicolau de Almeida foi construir uma cuba de madeira de paredes duplas cuja parede exterior poderia ser preenchida com gelo – tarefa nada fácil uma vez que o gelo tinha de ser transportado do Porto, a 12 horas de distância!

Blend-All-About-Wine-Penfolds-Grange

Fernando Moreira Paes Nicolau de Almeida

Usando uma página mais convencional do livro Bordalês, Nicolau de Almeida também decidiu utilizar uma bomba sobre o mosto em vez de pisar o vinho, o que foi totalmente novo no Douro. Outra inovação foi o envelhecimento do vinho em barricas de carvalho, que eram armazenas numa nova (fresca) adega subterrânea, especialmente construída na Quinta do Vale Meão.

Foi aqui instalada uma equipa para controlar a fermentação maloláctica nas barricas, sendo estas depois tapadas para manter a frescura que Nicolau de Almeida tanto se empenhou em conseguir. De facto, enquanto o Meão era a fonte original dos seus poderosos vinhos experimentais, Nicolau de Almeida decidiu produzir em 1952 um lote de uvas do Meão com uvas de uma vinha mais fria do Douro Superior em Mêda. Localizada a 600 metros de altitude, a “fruta” da Mêda melhorou a frescura e também o equilíbrio do vinho final.

Quanto a Schubert, a empresa Penfolds (que, como Casa Ferreirinha, era na altura principalmente focada na produção fortificado) enviou o jovem Director de Enologia para Europa em 1950 para investigar os avanços na produção de Jerez e Porto. Mas quando chegou a Bordeaux, Schubert foi colocado sob a protecção de Christian Cruse da empresa de comércio Cruse et Fils Frères.

Cruse apresentou-lhe as primeiras produções de Bordeaux (incluindo vinhos de 40 a 50 anos, que impressionaram Schubert por estarem “ainda em bom estado e terem um bouquet e sabor magníficos”). Durante as visitas às principais quintas de Bordeaux, ele tomou conhecimento das práticas que estão por trás destes vinhos de longa vida, mas refinados, designadamente a utilização de barricas de carvalho novas para completar a fermentação e a afinação dos taninos.

blend_all_about_wine_barca_velha3

Max Schubert of Penfolds – Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Ao voltar à Austrália, Schubert passou de imediato a utilizar estas práticas e produziu o primeiro protótipo do Grange em 1951. A sua filha Sandie Coff recorda: “o meu pai disse-me que idealizou o Grange durante a viagem de avião da Europa. Para ele, seria vinho seria um vinho verdadeiramente Australiano [que é feito a partir de Shiraz, às vezes com uns salpicos de Cabernet Sauvignon] mas capaz de competir com os magníficos vinhos Franceses [que eram sobretudo lotes de Carbernet Sauvignon e Merlot]”. Contudo, enquanto o lançamento do primeiro Barca Velha (um lote de uvas típicas do Douro) parece ter recebido aplausos imediatos, a primeira colheita do Penfolds Grange ficou muito aquém de convencer, tanto os críticos ou os consumidores, que rivalizava com melhores vinhos top de França. Numa apresentação que fez no primeiro Australian National Wine Symposium in 1979 (o qual está publicado no “Penfolds’ book, The Rewards of Patience” de Andrew Caillard MW), Schubert lembrou que a controvérsia inicial sobre o Grange “foi uma dor sem fim”.

As primeiras críticas incluíram comentários como “uma mistura de frutos silvestres e diversas bagas com sabor predominante a formigas esmagadas ” e “[um] porto seco muito bom, que ninguém no seu perfeito juízo irá comprar – muito menos beber”. Com receio do futuro, o Conselho de Administração da Penfold decidiu em 1957 terminar a produção do Grange. Felizmente, Schubert continuou em segredo até que em 1960 uma prova de exemplares das colheitas 1951 e 1955 ganhou finalmente o respeito da empresa e dos críticos. Basta dizer que, durante muitos anos, este potente vinho tem vindo a ser envelhecido durante cinco anos antes do lançamento.

Para João Nicolau de Almeida, foi fundamental para o sucesso inicial do vinho a recusa obstinada do seu pai em lançar o Barca Velha até que acreditasse que estava pronto, não obstante as “fortes demandas do Conselho de Administração e do mercado”. Na sequência deste precedente de Nicolau de Almeida, o Barca Velha é lançado apenas após um período mínimo de envelhecimento em garrafa de vários anos. Se vier a ter a sorte de participar numa prova vertical de Barca Velha ou de Grange, irá começar a apreciar verdadeiramente as recompensas de paciência.