Blend All About Wine

Wine Magazine
Vinhos dos Açores, Encontros Inesperados

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Gosto de viajar. Quem é que não gosta?! Mas não gosto de andar de avião e acho que perder tempo em aeroportos é desumano, porém, algo pelo qual todos passamos. Agora, chegar ao nosso destino, isso é mágico! Descobrir novas coisas é como combustível para mim. É o que torna interessante esta nossa estranha vida.

Blend-All-About-Wine-Azores-Airport

À espera do meu voo no Aeroporto de Frankfurt – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Azores-Wagram-Vines

Vinhas em Wagram, Áustria – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Viajei recentemente para a Áustria e descobri alguns dos melhores vinhos brancos do mundo; Riesling e Grüner Veltliner. O que não sabia é que também ia descobrir algo completamente diferente. Para minha surpresa, um amigo meu também estava na Áustria durante a minha estadia. O plano era visitar algumas regiões vitivinícolas austríacas, como Wagram que é conhecida pelos seus vinhos Grüner e Roter Veltiner mas também pelos seus solos de loess profundos.

Depois do primeiro dia encontramo-nos no hotel para desfrutar de alguns copos de vinho com o grupo. Foi aí que as coisas começaram a ficar interessantes. Apesar de uma, aliás, duas pizzas terríveis que pareciam feitas de urânio terem passado pela mesa, houve um vinho que transformou completamente a noite.

Blend-All-About-Wine-Açores-Verdelho-O-Original

Verdelho O Original by: António Maçanita 2014 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O meu amigo desencantou uma garrafa de vinho dos Açores, Verdelho O Original by: António Maçanita 2014. Denominado “Original” porque, aparentemente, as pessoas têm tendência a confundir Verdelho, Verdejo e Gouveio. E o Verdelho dos Açores é o original. O vinho? Muito fácil de beber. Acho que demorei 10s a terminar o primeiro copo. O Segundo copo foi ainda mais rápido. O vinho apresentava um estado de maturação particular mas com uma boa acidez a apoiar. Ligeiramente viscoso com toque salgado. Suspeito que tenha existido algum contacto com peles. De qualquer maneira tinha ombros. Fez-me ficar ainda mais interessado pelos Açores.

Este arquipélago está localizado a mais de 1000km a Oeste de Portugal Continental e, literalmente, no meio do nada. Um local tão isolado e ainda por descobrir pela maior parte das pessoas, que até o capitão Ahab diria “obrigado, obrigado mas não”. A verdade é que nem sequer sei a verdade. Infelizmente nunca fui aos Açores mas o rumor é que as ilhas deste arquipélago são fenomenais. Um paraíso raro. Não é <ainda> conhecido pelos seus vinhos ou qualquer palavra associada mas parece-me que se está ali a produzir algo que colocará os Açores no mapa vínico com um grande estrondo! Fico mesmo à espera e preciso de fazer da minha visita aos Açores, uma prioridade.

Herdade Paço do Conde, do Alentejo mais alentejano

Texto João Barbosa

Julgo que se chega a velho, não é a idoso, quando as memórias aparecem com frequência. Ai! Dizem-me as costas, o coração e os pulmões que já não tenho lugar no banco de suplentes duma equipa de futebol de escalão amador.

É a vida! Digo isto porque o produtor que apresento foi-me dado a conhecer num momento especial da minha vida. Isso não faz dum vinho, ou outra coisa, nem bom nem mau. No caso bom, mesmo. E porquê?

Porque os vinhos que mais me atraem têm um caracter diferenciador, que pode versar várias características. Como todos, com excepção quando a análise tem mesmo de ser às cegas e salas imaculadas, a afectividade ou a história pesa-me nas preferências. O que tem este?

A proveniência, até há pouco anos impensável. Baleizão fica no coração do Baixo Alentejo, que é quente, seco e ondulado. Pouco se sabe acerca desta aldeia e pouco se sabia… terra com vincado teor político, nomeadamente ao Partido Comunista. O resto da história não vem ao caso.

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-Vines

As vinhas onduladas da Herdade Paço do Conde – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

O que vem aqui é a planura. O Alentejo levemente ondulado, verde na Primavera e loiro do trigo maduro e da palha deixada depois da ceifa. É o Alentejo onde o calor é mais calor. Vinho? Bem, a viticultura, até à crise da filoxera, no século XIX, era cultivada em «todo» o lado, muito embora fosse residual em vários locais. Veio o pulgão e as vides não regressaram.

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde

Herdade Paço do Conde – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

A Herdade Paço do Conde fica nesse campo quente. Pensar em calor é normal, mas deduzir que o vinho sai dali em forma de sopa ou de compota não é verdade. A sabedoria técnica e o empenho permitem belos resultados em locais «surpreendentes».

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-The-olive-grove

O olival perto do Guadiana – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

Esta propriedade tem a vantagem da proximidade do Rio Guadiana, que lhe dá água e fornece frescura. Porém não se pode exigir que não transmitam a envolvência, o que até seria mau sinal, por contrariar a dádiva da natureza.

São 2.900 hectares, dos quais 150 têm vinha plantada. O olival ocupa 1.100 hectares, com as tradicionais cultivares da região e outras exóticas: arbequina, azeiteira, cobrançosa, frantoio, galega (é a Rainha em quase todo o país, com um carácter suave e doce) e picual.

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-Team

Equipa – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

À frente do trabalho enológico está Rui Reguinga, técnico que conhece muito bem o Alentejo e que tem capacidade imaginativa para fazer diferente de fórmulas. Ora, essas características fazem com que não sejam vinhos de enólogo, mas onde o «alquimista» assina ao deixar que o produtor e o seu vinho brilhem e falem por si.

Bebi vários vinhos deste produtor na apresentação que fez no restaurante Eleven, em Lisboa. Cartada certa! Ligação à comida para melhor se perceber o que está no copo. Para começar veio o Herdade Paço do Conde Branco 2014, acompanhado por carpaccio de polvo e vinagrete de laranja. Visto não comer pescados, não sei da ligação além do que me disseram. Se «resistiu» a uma vinagreta é porque tem fibra fresca. Como tenho uma «avaria» quando me põem antão vaz no copo, a opinião sai fora da norma. Não amei, mas a culpa é da minha antipatia. As restantes castas que fazem o lote são a arinto e a verdelho.

Blend-All-About-Wine-Herdade Paço do Conde-white

Herdade Paço do Conde branco 2014 – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-red-reserva

Herdade Paço do Conde Reserva tinto – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-winemakers-selection-2011

Herdade Paço do Conde Winemakers Selection tinto 2011 – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Herdade-Paço do Conde-Olive-Oil

Azeite da Herdade Paço do Conde – Foto Cedida por Herdade Paço do Conde | Todos os Direitos Reservados

O Herdade Paço do Conde Reserva 2014 é um «tintão», excelente para escoltar a comida mais forte e temperada do Alentejo.

O chefe do Eleven, Joachim Koerper, resolveu saltar barreiras com as sapatilhas atadas. E conseguiu! Leitão confitado com chutney de tomate e maracujá juntou o óbvio ao exótico. Dois vinhos e dois casamentos de memorizar: Herdade Paço do Conde Reserva Tinto 2011 e Herdade Paço do Conde Winemakers Selection 2011 (tinto). Ácidos, doces e gordura… tão diferentes quanto recomendáveis, as ligações.

A sobremesa foi uma variação de «floresta negra», em que provou que um tinto pode bem chegar para os finais dos repastos. No caso, Herdade Paço do Conde Colheita Seleccionada 2013.

Contactos
Monte Paço do Conde,
Apartado 25, 7801-901 Baleizão – Beja – Portugal
Tel: (+351) 284 924 416
Fax: (+351) 284 924 417
Email: geral@encostadoguadiana.com
Website: www.pacodoconde.com

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-Slider
Restaurante Narcissus Fernandesii

Texto José Silva

Um hotel de cinco estrelas em Vila Viçosa foi novidade há cerca de dois anos e tem-se revelado um sucesso. Pertencente a uma família com negócios no mármore, é com naturalidade que esta é a matéria prima nobre mais utilizada na sua decoração. Tudo ali tem um toque de mármore, de várias cores e várias origens, a dar a todo o espaço um glamour muito próprio. Quartos e suites requintados e plenos de conforto proporcionam estadia reconfortante e tranquila. A tranquilidade da beleza de Vila Viçosa chama para uma visita a pé, sem pressas, visitando o velho castelo e o Palácio dos Duques de Bragança, um museu fantástico que nos conta um pouco da história de Portugal. Depois, sempre que se regressa ao hotel, temos todo o conforto e os apoios para recuperar do passeio: piscinas exterior e interior e um spa extremamente bem equipado. Pessoal profissional, competente e simpático, acompanha-nos sempre que necessitemos. De manhã num fantástico pequeno almoço, à tarde ou ao começo da noite no bar e, claro, no restaurante, uma das atracções deste hotel, com o curioso nome de “Narcissus Fernandesii”. Espaço amplo, com duas salas distintas e uma esplanada com vista para a piscina.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-Main-Room

A sala principal – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-Huge-Table

Mesa de mármore – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na sala principal, ampla e requintada, sobressai uma enorme mesa cujo pé descomunal é uma pedra de mármore única, com enorme tampo de vidro. Ali estão expostos os artigos do pequeno almoço e podem ser servidas refeições para grupos. Refeições mais ligeiras ao almoço e um menu à carta para refeições mais completas à noite.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-Regional-Bread

Pão Regional – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-butter-preparations

Preparações de manteig – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Há sempre pão regional excelente e azeite alentejano, mas também algumas preparações de manteiga muito saborosas.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-codfish-morsels

Lascas de Bacalhau – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-farinheira-buns

Bolinhos de farinheira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para começar há alguns petiscos, sempre muito bem apresentados, como lascas de bacalhau numa açorda de poejos, bolinhos de farinheira, compota de cebola roxa e salada de rebentos ou empada de perdiz com frutos do bosque e salteado de cogumelos de época.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-partridge-pie

Empada de perdiz – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-pumpkin-cream

Creme de Mogango – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Não faltam as sopas com tradição, como o creme de mogango com ovo escalfado e crocantes de pão alentejano, sopa de abóbora com creme trufado servida numa chávena e uma deliciosa sopinha de beldroegas.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-pumpkin-soup

Sopa de abóbora – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesii Restaurant-purslane-soup

Sopa de beldroegas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ou um foie gras com emulsão de dióspiro, bombom de foie e tosta de bolota, incrível.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-Foie-Gras

Foie gras – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-Algarve-carabineiro

Carabineiro do Algarve – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O bacalhau está sempre presente, como o bacalhau  com crosta de azeitona galega sobre brás de batata e esparregado de algas e mesmo algum peixe e marisco frescos, como o carabineiro do Algarve com puré de couve-flor e coentros, endivia e emulsão de limão.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-steer-tornedó

Tornedó de novilho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-venison-smoked

Veado fumado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E a riqueza do tornedó de novilho com foie gras, salteado de legumes, batata assada e creme de espinafres, ou veado fumado em madeira de carvalho e rosmaninho, com redução de vinho da Madeira, favinhas e rebentos de coentros, creme de marmelo, couve flor panada e crocante de presunto de vaca.

Blend-All-About-Wine-Narcissus Fernandesi Restaurant-Vila-Vicosa-Oranges

Variações de laranja de Vila Viçosa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As sobremesas são fantásticas mas as variações de laranja de Vila Viçosa estavam soberbas.

Vila Viçosa continuava à nossa espera, na sua pacatez…

Contactos
Largo Gago Coutinho Nº11
7160-214 Vila Viçosa
Portugal
Tel: (+351)268 887 010
Email: reservas@alentejomarmoris.com
Website: www.alentejomarmoris.com

Da praia ao campo com um copo de vinho na mão

Texto João Pedro de Carvalho

Em pleno Agosto o momento é de pura descontracção, na realidade nesta altura e tal como na comida não gosto de complicar muito, procuro vinhos polivalentes e que toda a gente vai gostar. E com a chegada do Verão é tempo de fazer uma pequena selecção. Certo é que entre praia ou campo o destino quase sempre leva ao encontro das grelhas com marisco, peixe ou carne. Altura em que as comidas mais frescas e leves têm por direito lugar reservado à mesa e da mesma forma os vinhos também se querem frescos e com pouca ou nenhuma passagem por madeira.

De norte a sul de Portugal tive oportunidade de escolher alguns dos brancos que ao longo do ano mostraram a capacidade de me proporcionar momentos marcantes de boa disposição e amizade ao lado de familiares e amigos. Alguns desses exemplos são oriundos da região dos Vinhos Verdes onde se encontram os melhores exemplares de Alvarinho e Loureiro, marcas como Soalheiro ou Quinta do Ameal são sinónimo de satisfação garantida e certamente que mesmo que me esqueça de alguma garrafa há a garantia de se aguentarem por largos anos. As ligações que estes vinhos proporcionam com as mais diversas saladas ou pratos de cariz mais oriental justificam em pleno a sua escolha.

Blend-All-About-Wine-Country-City-Beach

Praia – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Um pouco mais abaixo por terras da Bairrada sem esquecer os brancos ali produzidos a minha aposta recaiu nos espumantes, com exemplares da Adega de Cantanhede e Caves São Domingos. Estes como outros espumantes são quase sempre os pontos de partida da refeição, os espumantes dão o ar festivo a uma refeição, animam os copos e a ligação com as mais diversas entradas é quase sempre muito bem conseguida.

Continuando perto do mar e já na região de Lisboa, procurei vinhos de grande frescura e com corpo suficientemente capaz de acompanhar desde os mariscos servidos ao natural até às cataplanas ou mesmo os mais variados pratos de arroz. Vinhos com menos aromas de cariz tropical, neste caso mais tensos com aquele pendor mineral e uma acidez que revigore ao mesmo tempo que limpa o palato. O leque de escolhas é amplo e diversificado, desde a versatilidade da casta Arinto que varia entre os ChocapalhaVale da Capucha ou até Bucelas com os Quinta da Murta. Ampliando o leque para a Malvazia de Colares com o Arenae da Adega de Colares ou o Malvazia do Casal de Santa Maria. Para finalizar o passeio por Lisboa fui buscar o Vale da Mata branco, um vinho que ano após ano consegue uma muito boa prestação à mesa ao lado de pratos com mais tempero como um peixe no forno.

Blend-All-About-Wine-Country-City-Pool

Campo – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Termino as minhas escolhas com alguns rosados de grande nível e que são inegavelmente do melhor que se cria em Portugal. Vinhos como o Dona Maria Rosé (Alentejo) ou o Covela Rosé (Vinhos Verdes), escolhidos para acompanhar o que vai saindo da grelha, servidos frescos são companheiros à altura dos mais atrevidos cortes de carne ou de peixes mais gordos. Como é óbvio as escolhas poderiam ter sido outras, mas este ano quer na praia ou na piscina estes foram os vinhos que escolhi para ter no copo.

Blend-All-About-Wine-Brasao-Restaurant-Slider
Brasão, um restaurante de sucesso em que se defende a tradição…

Texto José Silva

É perto de Felgueiras e há muitos anos que ali se pratica uma cozinha tradicional, mesmo depois da necessária modernização das instalações. Tudo isto liderado pelo sr. Carvalho, proprietário e chefe de cozinha, que tem uma indisfarçável paixão por aquilo que faz.

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant

Brasão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O Brasão é um espaço muito agradável, com duas salas separadas mas com o mesmo cuidado nas mesas e no serviço, atento e profissional.

Blend-All-About-Wine-Brasão-Two Rooms

Dois espaços separado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O nosso anfitrião anda sempre dum lado para o outro, embora seja a cozinha o seu poiso principal, mas nunca descura os clientes e vem cumprimentá-los e saber o que lhes apetece comer. Mais tarde há-de voltar às mesas, para saber da satisfação dos clientes, sempre com um sorriso na boca e com a sabedoria de muitos anos à volta dos produtos e da cozinha. E é precisamente na qualidade dos produtos que começa tudo, pois ali só entra material de primeira qualidade, desde o peixe fresco que vem do litoral, passando pelo bacalhau e terminando nas carnes, sejam de porco, de vaca ou de vitela e os cabritinhos do monte, de que nos prepara pratos incríveis. Mesmo nas sobremesas a busca constante da perfeição não dá descanso a este grande profissional. Outra das suas paixões é o vinho, de que tem garrafeira abastada, onde se encontram preciosidades fantásticas, com algum destaque para uma colecção de aguardentes incrível, de que o sr. Carvalho tem profundo conhecimento. Na última visita veio para a mesa pão e broa de milho, salpicão e presunto fininho, enquanto aguardávamos por um dos ex-libris da casa: a sopa de garoupa!!

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant-Tostinhas2

Tostinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant-sopa de garoupa

Sopa de Garoupa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É um verdadeiro hino à qualidade, peixe fresquíssimo em nacos generosos, alho, muita cebola, pimento verde e vermelho, coentros.

Umas tostinhas no prato, uma concha bem cheia por cima, um pouco mais de caldo a fumegar, um aroma inebriante e depois a volúpia, para comer de olhos fechados.

A seguir provou-se um soberbo rabo de boi estufado com grelos, que é muito difícil de descrever, tal a perfeição da confecção, a textura, o paladar, incrível! Veio então outro dos pratos muito apreciados, que normalmente é servido á quarta-feira (ou por encomenda): as costelas de boi assadas.

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant-Rabo-de-boi

Rabo de Boi – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Brasao-Restaurant-Roasted-Ox-Ribs

Costelas de Boi Assadas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O vão das costelas é temperado e assado inteiro e é trinchado à nossa frente, depois de lhe ser retirada a capa de gordura.

Blend-All-About-Wine-Brasao-Restaurant-Dish

O prato – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No prato vêm fatias de carne com aquela gordura saborosa, batata frita às rodelas estaladiça, feijão preto e um arroz de forno pecaminoso, que também acompanhou o rabo de boi. Estamos quase no céu!

Blend-All-About-Wine-Brasao-Restaurant-Carrot-Cake

Bolo de Cenoura – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Vem então a sobremesa, um conjunto de toucinho do céu e dum bolo de cenoura absolutamente fantástico, fofinho, polvilhado com açúcar e lâminas de amêndoa torrada, doce de abóbora e umas folhinhas de hortelã…estamos mesmo no céu!

Os vinhos estiveram também à altura: primeiro bebeu-se um branco da zona de Amarante, o Sem Igual, muito floral, com notas de citrinos e fruta branca, uma elegância na boca notável, belo vinho moderno. Para “combater” as carnes nada melhor que um espumante tinto, preparado a partir da casta Vinhão, o Afros Yakkos Grande Reserva 2006. Simplesmente fantástico, bolha muito fina, frutos vermelhos persistentes, notas de chocolate preto, taninos intensos mas ao mesmo tempo elegantes, com um final muito longo. Para acompanhar a sobremesa a opção foi uma aguardente velha – mesmo muito velha – clássica, a Adega Velha, neste caso com mais de quarenta anos, belíssima, ligeiramente refrescada, com aromas tostados, frutos secos, a fazer um belo contraste com o doce.

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant-The-Wines

Sem Igual, Afros Yakkos Grande Reserva 2006 & Aguardente Velha Adega Velha – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Brasão-Restaurant-Aguardente

Aguardente Velha Serradayres – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas havia ainda uma surpresa, mesmo ao jeito do sr. Carvalho: uma outra aguardente muito velha, que eu já não via há mais de 10 anos, uma Serradayres também com mais de quarenta anos, duma suavidade incrível, muito elegante, que foi um final perfeito para uma grande refeição.

No Brasão, a tradição ainda é o que era…

Contactos
Cimo de Vila – Refontoura
4610 Felgueiras
Tel: (+351) 255 336 118
E-mail: info@restaurante-brasao.pt
Website: www.restaurante-brasao.pt

Um Royal Flush da Vasques de Carvalho

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Mendes

Nunca antes o Poker partilhou um pensamento com vinho do Porto. Pelo menos na minha cabeça. Mas, Royal Flush, foi o que me veio à cabeça quando a Vasques de Carvalho me revelou a sua mão inicial – os seus Tawny Ports de 10, 20, 30 e 40 anos, brilhantemente acondicionados.

Blend-All-About-Wine-Vasques de Carvalho-Tawnies

Estilo com substância da Vasques de Carvalho – Foto Cedida por Vasques de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

É uma estreia arrojada, topo de gama, num sector onde são bastante patentes as dificuldades de entrada. Pensem nisto, fundar uma nova Casa de vinho do Porto requer um stock mínimo de 150.000 litros, isto se, como a maior parte das Casas, a produção não for exclusivamente proveniente de vinhas próprias. Além disso, a entitulada Lei do Terço determina que, os produtores de vinho do Porto têm de manter em stock 3 vezes mais do que a quantidade que colocam à venda. Assim, e com esta tensão sobre o capital, pode dizer-se que as Casas de vinho do Porto não nascem da noite para o dia.

Então como é que a Vasques de Carvalho conseguiu? A resposta está na parceria por trás da marca. Em 2012 António Vasques de Carvalho herdou as adegas, os 6 hectares de vinhas muito velhas (mais de 80 anos) em Baixo Corgo e aproximadamente 45.000 litros de Portos velhos da sua família(incluindo um lote raro de Porto Tawny de 1880 que o seu avô, José Vasques de Carvalho, guardou em separado). Luís Vale da Kurtpace SA (uma empresa de construção), um amigo de longa data de António, injectou o capital, permitindo assim à Vasques de Carvalho aumentar o seu stock para o requisito mínimo de 150.000 litros. Além disso, a dupla começou a reconstruir a adega e a cave de barricas na Régua (sobre a qual António dorme, uma vez que a cave está situada por baixo de sua casa). A empresa também adquiriu outra adega em Pinhão que já conta com 75.000 litros a envelhecer em pequenos balseiros e tonéis, e também com 4 tonéis com capacidade para 40.000 litros.

O enólogo Jaime Costa está encarregue do portfólio. Tendo trabalhado durante 16 anos na Burmester, o já galardoado Enólogo de Vinhos Fortificados do Ano em 2005 pela Revista de Vinhos, está bastante entusiasmado por ter mais uma vez à sua disposição tão finos e raros vinhos do Porto envelhecidos. Depois das muitas notícias referentes aos Portos Tawny muito velhos, e caros, significa que os Portos Tawny estão finalmente a ter os seus dias de glória.

Para além dos Portos Tawny – a jóia da coroa da Vasques de Carvalho – o portfólio incluí também um vinho do Porto branco velho, um Vintage Port 2013 e vinhos do Douro (Oxum, X Bardos, Velhos Bardos Reserva). No próximo ano a empresa irá lançar a Late Bottled Vintage Port 2012, 880 garrafas de vinho do Porto Tawny muito velho 1880 e a primeira Aguardente Vínica DOC Douro. Apesar dos tintos do Douro, Oxum e X Bardos (ambos de 2012), não me terem impressionado, os Portos Tawny (os únicos Portos da Vasques de Carvalho que provei) impressionaram, especialmente o de 40 anos. A sua fantástica concentração e complexidade é indubitavelmente atribuída ao toque conferido pela presença da Vintage 1880, da qual a empresa mantém um considerável stock  – 1 tonél de 6.000 litros e duas barricas de 400 litros (estes últimos serão provavelmente para lançamento do Very Old Tawny do próximo ano. Jaime Costa disse-me que os 4 Tawnies são 90% provenientes de stocks velhos da Vasques de Carvalho e 10% de outros vinhos que a empresa comprou entre 2012 e 2014.

Blend-All-About-Wine-Vasques de Carvalho-Tasting

Os Tawnies da Vasques de Carvalho em prova – da esquerda para a direita 10, 20, 30 & 40 anos – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Envelhecido no Douro (contrapondo com os climas mais frios e húmidos de Vila Nova de Gaia), o espectro de sabores dos Tawnies da Vasques de Carvalho é rico e escuro. Mas fiquei intrigada pelo seu requinte – um equilíbrio elegante, persistência (boa acidez) e integração suave e sedosa da aguardente vínica. Perguntei a Jaime Costa se isto seria, talvez, derivado da localizção da principal fonte de fruta (Baixo Corgo é relativamente frio e húmido). Concordou e respondeu “Acho que teve grande influência, porque as temperaturas para o envelhecimento não são tão altas como no alto Douro, e os vinhos ganham muito maior acidez, que será importante durante o envelhecimento e para equilibrar o nível de açúcar nos vinhos. Dessa maneira, obtém-se Tawnies consistentes que não causem enjoo enquanto bebemos vinhos do Porto velhos porque, como sabe, muitas vezes, os Tawnies velhos, por causa do açúcar, podem causar esse efeito.

Aqui estão as minhas notas de prova da gama de Tawnies da Vasques de Carvalho:

Vasques de Carvalho 10 Years Old Tawny Port – tom acastanhado e com ameixa seca e rica, figos, tâmaras secas caramelizadas e notas de frangipane no nariz, que persistem num palato sedoso e brilhantemente equilibrado com uma intensa ressonância nogada. Uma adorável frescura no final – não se sente que seja pesado apesar da riqueza do perfil de sabor. Um 10 anos com classe, concentrado, composto por vinhos entre os 7 e os 14 anos. 136g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 20 Years Old Tawny Port – um tom de Tawny carregado mas muito brilhante, bastante vermelho no núcleo, com uma penumbra mais para o amarelo. Com laranja caramelizada no nariz e palato cítrico, é também frutado e elegante com amêndoas tostadas, geléia de pêssego e camadas de baunilha bourbon. Mais uma vez muito sedoso, com casca de cassia e um palato amadeirado intenso. É composto por vinhos entre os 12 e os 25 anos. 138g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 30 Years Old Tawny Port – âmbar profundo, muito brilhante, com um nariz mais nogado do que o de 20 anos, não perdendo nada nos frutos secos – pêssego, figo seco, tâmaras, marmelada, bolo de mel, marzipan e notas de cravinho e casca de cassia. Na boca revela-se denso, camadas de um panforte concentrado com figo seco, nozes, especiarias e peles cítricas, bem como laranja de chocolate de leite e marmelada com pedaços. Notas de madeira atractivas (aquele carvalho apurado, aqui menos sabor a amêndoa e mais a noz) que estão bem integradas, tal como a sua aguardente vínica, que proporcionam um final longo, suave, intenso mas bem equilibrado. Composto por vinhos entre os 18 e os 40 anos. 131g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 40 Years Old Tawny Port – Composto por vinhos envelhecidos entre 25 a 135 anos, e como isso se nota! O “40 anos” é um âmbar profundo no núcleo com bordas de açafrão que se esbatem para o verde azeitona. Notas de pastelaria de grande classe são abundantes num nariz e palato super complexos, ricos em mel e madalenas amanteigadas ricas em gemas de ovos, financier de amêndoa e panforte mais denso. Iodo subtilmente atenuante e notas de vinagrinho conferem tensão e ritmo – uma energia adorável. Sem qualquer sinal de secar, o final é fantasticamente persistente, muito nogado e muito cítrico com marmelada, pele de laranja cristalizada, e até laranjas caramelizadas (um testamento à sua frescura). Um requintado final a conhaque persiste bastante tempo. Delicioso. 144g/l açúcar residual. 20%

Contactos
Vasques Carvalho
Av. Dr. Antão de Carvalho n. 43
5050-224 Peso da Régua
Douro, PORTUGAL
Mobile: (+351) 915 815 830
Tel: (+351) 254 324  263
Fax: (+351) 254 324 263
E-mail: vasquescarvalho43@gmail.com
Website: vasquesdecarvalho.com

Adega Mayor: Três Caiados, Monte Mayor e Solista

Texto João Barbosa

Escolher um nome tem muito do que se lhe diga. Hoje, uma minha bisavó não seria baptizada com 11 nomes para acabar por ser tratada por um diminutivo. No domínio das marcas a tarefa não é menos complicada.

Apresentar um produto tradicional com uma designação que evoque a região, seja facilmente memorizável, agradável ao ouvido e não atrapalhe a pronunciação noutros idiomas exige concentração.

A marca Caiado é certeira. Caiar significa pintar com cal, uma tinta simples e barata feita com calcário e água. A imagem do Alentejo e do Algarve brancos deve-se à aplicação do óxido de cálcio como revestimento das casas, protegendo-as dos elementos e amparando o calor. Por isso, Caiado não precisa de legenda explicativa.

Blend-All-About-Wine-Adega Mayor-2

Adega Mayor – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

O patrono destes vinhos é Manuel Rui Nabeiro, um homem do povo que fez fortuna com o negócio do café. Campo Maior é uma vila encostada a Espanha, nos tempos das fomes – problema endémico – saltava a fronteira e fazia pela vida, fugindo aos guardas. Hoje, tem a maior empresa de cafés do país, a Delta, que enfrentou e venceu a Nestlé, nas gamas comerciais. E a Delta Q que ganhou à Nespresso.

Blend-All-About-Wine-Adega Mayor

Adega Mayor – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

O vinho está no sangue dos portugueses e Manuel Rui Nabeiro não é excepção. Em 1997 foram plantadas as primeiras videiras na Herdade da Godinha e em 2000 na Herdade das Argamassas. A adega, inaugurada em 2007, tem o traço de Álvaro Siza Vieira, arquitecto portuense e vencedor do Prémio Pritzker, em 1992 – o «Nobel» da Arquitectura.

Vinte anos não é muito, mas podem fazer-se balanços. Desde o começo, a Adega Mayor tem reconhecimento da crítica e dos consumidores. Em traços gerais o que se pode dizer: vinhos marcadamente alentejanos, em aromas e paladares, com frescura e com uma pujança tranquila – força e não brutalidade.

Blend-All-About-Wine-Adega-Mayor-Caiado-White

Caiado branco – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Adega Mayor-Caiado-Rose

Caiado Rosé – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Adega Mayor-Caiado-Red

Caiado tinto – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

O Caiado Branco 2014 está talhado para os comeres do Verão, como a sardinha assada e a salada com pepino e pimento. É um lote de antão vaz (40%), arinto (30%) e verdelho (30%).

O Caiado Rosé 2014 é um lote de aragonês (40%), castelão (50%) e touriga nacional (10%). Embora possa ir para a mesa para fazer dueto com pratos com especiarias (penso que peixe e marisco serão um pouco frágeis), o ideal é sábado à tarde ou dia de férias. O sol a pôr-se e enquanto se não começa a jantar…

O Caiado Tinto 2014 tem a «bizarria» do cabernet sauvignon. Penso que a casta não das que melhor se mostrem em Portugal, apesar de alguns tintos icónicos. Aqui (20%) dá malícia ao aragonês (50%) e trincadeira (30%). Malícia, porque achei inesperado.

Blend-All-About-Wine-Adega-Mayor-Monte-Mayor-White

Monte Mayor branco – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Adega-Mayor-MOnte-Mayor-Reserva-Red

Monte Mayor Reserva tinto – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Adega Mayor-Solista-Verdelho

Solista Verdelho – Foto Cedida por Adega Mayor | Todos os Direitos Reservados

Monte Mayor Branco 2014 fez-se com antão vaz (30%), arinto (20%) e verdelho (50%). Tenho o problema de não gostar (há poucas excepções) da casta antão vaz. Põe-se a questão do «gostar» e do «ser bom», que são diferentes, conjugada com o dever de rigor e de verdade, para com quem lê. É um vinho que não tem defeito, mas por via desse aspecto pessoal tenho dificuldade em ficar empolgado. Em síntese: a antão vaz é provavelmente a variedade branca mais emblemática do Alentejo e este vinho tem todas as características para acompanhar as comidas mais leves que o Verão exige. Não fosse uma mais-valia, esta uva não faria parte dos lotes de «todos» os produtores alentejanos.

Monte Mayor Reserva Tinto 2013 exige comida com mais lume. É um vinho robusto, não é bruto. Os 14,5% de álcool aconselham prudência, até porque «engana» um bocadinho. Exceptuando a Lapónia, beberia este vinho no Outono noutra qualquer latitude. É um lote de alicante bouschet (30%), aragonês (40%) e touriga nacional (30%).

Guardei para último um «brinquedo», o Solista Verdelho 2014. Este é manganão, com os 14% de álcool e a surgir descontraído a assobiar… É felizmente fácil. É fruição. É Verão!

Contactos
Herdade da Argamassas, 7370-171
Campo Maior – Portugal
Tel: (+351) 268 699 440
Fax: (+351) 268 699 441
E-mail: geral@adegamayor.pt
Website: www.adegamayor.pt

Quinta de Santiago

Texto José Silva

Quinta de Santiago, mesmo à entrada de Monção, em plena sub-região de Monção e Melgaço, a terra de eleição do vinho Alvarinho.

Blend-All-About-Wine-Quinta de Santiago

Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uma propriedade muito antiga, pertencente à mesma família há várias gerações e onde se produzem uvas da casta Alvarinho. A filha dos actuais proprietários, advogada de profissão, é a responsável pela produção e distribuição dos vinhos desta quinta, uma paixão que nasceu inesperadamente mas que tem uma explicação bem interessante. Quando era tempo de férias a Joana e o seu irmão passavam esses três meses separadamente, ele em casa duns avós, a Joana em casa dos avós de Monção, ou seja, na Quinta de Santiago.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Alvarinho-Grapes

Vinhas de Alvarinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-2

Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E começou então o seu apego à terra, aprendeu a reconhecer os aromas, a colher frutas e legumes e, em chegando o tempo, assistir às vindimas e ver pisar as uvas, ajudar no que fosse preciso e preparar tudo para que o vinho dali resultante ficasse bem acondicionado.

Criou laços muito fortes com a avó, que naquele tempo vendia o vinho para cafés e mercearias locais, guardando uma pequena quantidade para consumo da casa.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-3

Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas quando apareceu a regulamentação, a avó passou a vender as uvas, mantendo alguma quantidade para fazer o vinho próprio. Apesar do pai da Joana acalentar o sonho de fazer vinho para entrar no mercado, foi a sua avó que, aos 86 anos de idade, desafiou o filho e a neta a elaborar um projecto em conjunto para produzir o seu vinho. Ambos lhe deram ouvidos e assim nasceu, em 2009, o projecto da Quinta de Santiago, sendo a sua primeira vinificação em 2011.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-4

Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Wine-Cellar

Adega Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Hoje a viver com o marido em Ovar, Joana Santiago divide a sua vida entre a advocacia e a produção de vinho em Monção, onde inaugurou recentemente a nova adega, projectada e construída pelo marido em tempo recorde.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Wine-Cellar-2

Adega Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Wine-Cellar-3

Adega Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 Moderna e muito funcional, bem equipada, é o novo “vício” da Joana, que ali passa os dias sempre que pode, acompanhando tudo o que se relaciona com a produção dos seus dois vinhos: o Alvarinho e o Reserva.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Old-Wine-Cellar

Antiga Adega Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Old-Wine-Cellar-2

Antiga Adega Quinta de Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas mantém a velha adega funcional, por baixo da casa de habitação, para provas de vinho e refeições de grupo. Feiras, festivais e concursos fazem hoje parte da sua vida, um pouco por todo o país e mesmo lá fora, onde o seu vinho tem vindo a merecer os maiores elogios, numa produção anual de cerca de 15.000 garrafas.

Os vinhos são um sucesso, muito apreciados, e hoje são também um negócio, em que a Joana é claramente a líder e a cara deste verdadeiro projecto de vida.

Blend-All-About-Wine-Quinta de Santiago-Alvarinho-2013

Quinta de Santiago Alvarinho 2013 in quintadesantiagoalvarinho.blogspot.pt

Blend-All-About-Wine-Quinta de Santiago-Reserva

Quinta de Santiago Reserva Segredo da Avó 2013 in quintadesantiagoalvarinho.blogspot.pt

O Quinta de Santiago Alvarinho de 2013 é um típico Alvarinho, que se apresenta cheio de mineralidade, com muita fruta tropical, típica destes vinhos, citrinos, pêssego, maracujá, notas de flores do monte. Na boca mantém a intensidade da fruta branca, tem frescura e uma acidez óptima, belo volume e sempre a mineralidade tão característica, tudo a fazer deste vinho um Alvarinho muito elegante.

O Quinta de Santiago Reserva “Segredo da Avó” 2013 é um vinho sério, cheio de complexidade no nariz, ainda com alguma fruta branca exótica, notas suaves de fumo, levemente tostado, a denotar o estágio em barricas. Na boca tem estrutura, é cheio mas ao mesmo tempo muito elegante, persistente, fresco, com acidez bem presente, ainda com fruta madura e notas ligeiras de especiarias e sempre aquela deliciosa mineralidade, num vinho muito gastronómico.

Blend-All-About-Wine-Quinta-de-Santiago-Joana-Santiago

Joana Santiago – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

São os “meninos” de Joana Santiago, uma “Alvarinholover” assumida…

Contactos
Quinta de Santiago
Rua D. Fernando, 128, Cortes – Monção
4950-542 Mazedo
Tel: (+351) 917557883
E-mail: wine@quintadesantiago.pt
Website: quintadesantiagoalvarinho.blogspot.pt

Quinta do Cardo, os vinhos biológicos

Texto João Pedro de Carvalho

A Beira Interior, localizada no interior centro de Portugal, tem um passado histórico vitivinícola que remonta à época romana. Com cerca de 16 000 hectares de vinha, a região apresenta uma grande variedade de castas, com destaque nas brancas para a Síria, Fonte Cal, Malvasia e Arinto e, nas Tintas, a Touriga Nacional, Touriga Franca e a Tinta Roriz. Os vinhos desta região são influenciados pela montanha cuja altitude com variações entre os 400 e os 750 metros, é dominada por solos de origem granítica na sua maioria, sendo os restantes essencialmente de origem xistosa.

A Quinta do Cardo pertence ao grupo Companhia das Quintas e fica situada nas proximidades da vila de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, no Interior Norte de Portugal. Desde a sua fundação, no inicio do Sec XX até 1988, a propriedade esteve nas mãos de uma família da região, de sobrenome Maia que se dedicavam maioritariamente ao cultivo de gado e à produção de queijos sendo o vinho um negócio secundário. O nome “Quinta do Cardo” advém das grandes extensões de cardos (leiteiros) existentes na propriedade que eram utilizados para a produção de queijos. Num total de 180 hectares, dos quais 69 são de vinhas cultivadas numa cota de 750 metros de altitude e os restantes acolhem uma extensa reserva de sobreiros e floresta espontânea.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Cardo-2

Quinta do Cardo Síria 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta-do-Cardo-1

Quinta do Cardo Bruto Touriga Nacional 2010 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

A colheita de 2014 marca o lançamento da gama de vinhos biológicos da Quinta do Cardo,cujos 69 ha de vinhas se encontram em modo de produção biológica. É desta colheita que sai o novo Quinta do Cardo Síria 2014, um vinho que de certa forma tem sido um estandarte dos brancos da região. A sua fama vem de longe muito por causa das características tão peculiares que costuma apresentar. Também o novo rótulo a fazer a diferença, diga-se que tanto o rótulo como o vinho encerram muitos e bonitos detalhes. Um vinho refrescante, mineral (pederneira), perfume floral, sente-se tenso e com nervo, limão, lima, maçã, boa frescura. Boca com ligeira untuosidade de início que se esbate numa saborosa passagem com final onde domina a austeridade mineral.

Por outro lado foco também atenções no primeiro espumante lançado pela Quinta do Cardo, Quinta do Cardo Bruto Touriga Nacional 2010, com direito a 36 meses de estágio em garrafa com o primeiro degorgement a ser feito em Junho de 2014. Aroma marcado pelos morangos, framboesas, floral ligeiro, biscoito numa delicada e bonita envolvente. Boca com bonita prestação, fruta a marcar o compasso com boa acidez presente, mostra uma boa secura no final persistente.

Um ávido desejo por lagostim

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Yep. Chegou outra vez aquela altura do ano. Todos os anos, a 21 de Julho, ao meio-dia, começa a época de apanha ao lagostim. E todos os anos fico tanto excitado como com um pouco de medo. Embora o lagostim seja delicioso traz com ele uma série de jantares associados em que a schnapps aquavit se bebe como se de água se tratasse, mas volto a este ponto mais a seguir.

A época do lagostim está aberta de 21 de Julho até ao final de Outubro. É único período do ano em que se pode legalmente apanhar lagostim. Podemos encontrar estas pequenas criaturas em alguns rios e lagos. Tal como com os cogumelos, os melhores locais para apanhar lagostins são geralmente segredos que as pessoas guardam para si próprias. Ainda sou um iniciado na apanha do lagostim mas já ando à procura dos melhores lugares no meu lago e se encontrar algum lugar espectacular não vou fazer grande alarido. Porquê? Penso que faz parte. Normalmente vou num pequeno barco a remos e coloco as armadilhas durante a tarde porque a actividade destes deliciosos crustáceos é, geralmente, à noite. Portanto, é uma boa prática verificar as armadilhas mesmo antes de nos deitarmos e de manhã cedo.

Blend-All-About-Wine-Craving-for-cray-fish-Dill

Endro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

A parte difícil é apanhar os lagostins, cozinhá-los é bastante fácil. É só limpá-los, cozê-los em água quente com um pouco de sal, açúcar, endro e um pouco de cerveja. Na verdade o endro domina mesa, não é apenas utilizado no caldo, as pessoas também o utilizam para decorar a mesa nas festas/jantares de lagostim. E, se por acaso, tiveres dores de cabeça no dia a seguir, a culpa é do endro e nunca da schnapps. As festas de lagostim começam, normalmente, com uma sopa. Neste caso foi um sopa cremosa de cogumelos chaterelle com fatias finas de rena, cebolinha e pimento preta no topo feita pela minha mulher. Simplesmente delicioso.

Blend-All-About-Wine-Craving-for-cray-fish-chanterellesoup

Sopa cremosa de cogumelos Chanterelle – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Para acompanhar a sopa bebemos o Dócil Riesling 2011 da Nieeport. Um vinho branco do Douro, tipo Mosel. Uma harmonização fabulosa, devo dizer! Apesar de o vinho ter mais corpo à volta da espinha do que os seus parentes germânicos, a qualidade de um Riesling do Douro fresco continua bastante elevada. Uma das razões para isto é a altitude das vinhas (800m). Produzir um vinho com tanta frescura e apenas 8% de teor alcoólico não é fácil mas a Nieeport conseguiu-o. Um vinho leve a acompanhar a sopa de entrada foi uma boa maneira de começar o jantar.

Blend-All-About-Wine-Craving-for-crayfish-Niepoort-Docil-Riesling-2011

Niepoort Dócil Riesling 2011 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se o lagostim. Uma bandeja de estes diabos vermelhos é uma consolo para os olhos. O preço do lagostim finlandês pode ser muito elevado e, por isso, apanhá-los nós próprios é, não só divertido, mas pode também prevenir a tua carteira de implodir. Comer estes espécimes exige arte, embora existam facas especiais para o lagostim a maior parte do trabalho é feito à mão. As pinças têm no interior um pouco do caldo delicioso e bem como alguma carne. Pode comer-se assim ou com pão e manteiga. Simples e saboroso.

Blend-All-About-Wine-Craving-for-cray-fish-platter

Bandeja de Lagostins – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois entra a schnapps. E pronto! O ditado popular diz “um schnapps por pinça”. Cada lagostim tem duas pinças e, em média, cada pessoa tem 10 lagostins à frente. Isso significa beber 20 shots de aquavit durante o jantar. O que vale é que nos dias de hoje isso não passa de um ditado. Ainda assim devo dizer que as pessoas bebem mesmo muito nos tradicionais jantares de lagostim. Também há muita cantoria, sendo Helan går! (“Tudo de uma vez”) a canção mais conhecida. A aquavit não tem a melhor das reputações na Finlândia mas não se enganem, existem muitas boas aquaviit por aí fora.

Blend-All-About-Wine-Craving-for-cray-fish-Linie-Double-Cask -Aquavit

Linie Double Cask Aquavit – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Uma das minhas favoritas é a Linie Double Cask Aquavit. Tal como os vinhos Madeira antigamente, esta aquavit norueguesa envelhece no mar. Faz duas viagens pelo Equador em cascos de xerez. Esta, em particular, viajou a bordo do M/V “Tamerlane”, de Oslo até Boston e, depois, até Sydney, Singapura, Yokohoma, Panamá e de volta a Oslo. Um aventura e tanto, eh? Depois, quando regressa à Noruega passa por um processo de envelhecimento extra em cascos de vinho do Porto. Tudo somado, 22 meses em casco. Definitivamente não é a maneira mais rentável de produção de bebidas alcoólicas. De qualquer forma é, não só uma das melhores aquavit no mercado, mas também uma das melhores bebidas brancas, ponto final.

Mais uma excelente festa de lagostim. Uma das alturas que anseio sempre todos os anos e que, por sua vez uma, desejo que acabe rapidamente. Aquele endro é letal!