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Wine Magazine
Quinta de La Rosa – vinhos concentrados e elegantes

Texto João Barbosa

A família Bergvist chegou a Portugal para produzir pasta de papel, a partir da madeira de pinheiro, instando-se em Albergaria da Serra, junto Rio Caima, perto de Constância, banhada pelo Tejo. Mais tarde passaria a utilizar o eucalipto.

O engenheiro sueco D. E. Bergqvist depressa aprendeu onde fica a cidade do Porto, vindo a casar-se com Claire Feueheerd, proveniente duma família no negócio do Vinho do Porto desde 1815. A Quinta de La Rosa, junto ao Pinhão, foi dada presente pelo técnico à sua apaixonada.

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Quinta de La Rosa – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

A data de 1815 é importante, pois foi é a data da Batalha de Waterloo e do fim do império de Napoleão. O antepassado Feueheerd veio para a cidade Porto, uma vez que precisava de reconstruir a vida, visto ter estado do lado do imperador francês enquanto político da cidade livre hanseática de Bremen. Curiosamente chegou a um país que lutou contra França e instalou-se numa cidade com forte presença inglesa nos negócios.

A propriedade chamava-se Quinta dos Bateiros e do outro lado fica a Quinta das Bateiras e um presente deve ser único, nomeadamente no nome. Porquê La Rosa? Sim, uma propriedade no Douro com um nome castelhano? Para mais com as diferentes origens da família… É que o pai de Sophia Bergqvist – que hoje dirige o negócio – tinha uma marca de Xerez chamada La Rosa. Ainda assim devo sublinhar que o artigo «La» foi usado durante séculos em português, como a famosa nau «Flor de La Mar» que se afundou com um enorme tesouro, em 1512.

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Sophia e Tim Bergqvist – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

É um passado distante, que daria para horas. A história recente da Quinta de La Rosa tem um marco no ano de 1988, quando produziu o seu primeiro vinho. Até essa data, os Bergqvist vendiam as uvas à Sandeman, um negócio iniciado em 1938. Apenas em 1985 é que o Vinho do Porto passou a poder estagiar no Douro, deixando de ser obrigatório fazê-lo em Gaia. Mas «o primeiro vinho a sério foi em 1991», diz Sophia Bergqvist.

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As vinhas íngremes – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

A Quinta de La Rosa é muito íngreme e com diferentes exposições solares. A conjugação dos factores luz, temperatura e altitude contribuem para a complexidade dos seus vinhos. Jorge Moreira, o enólogo, garante que ali os vinhos só podem sair muito concentrados, pois é a natureza que o impõe.

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Jorge Moreira – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

Penso que os tintos saem beneficiados, embora os brancos não deixem de ser de grande qualidade. O Quinta de La Rosa Branco 2014 traduz-se em mineralidade e notas de casca de limão verde e de pêra pouco madura. É um lote de gouveio, rabigato, malvasia, viosinho e códega de larinho.

O Quinta de La Rosa Branco Reserva 2014 é mais potente e exige comida na mesa. É bem seco e fresco, dominando os aromas de limão e tangerina, com notas abaunilhadas. Aqui, o carácter mineral é menos evidente. As castas são as mesmas do anterior.

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Quinta de La Rosa branco – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa branco Reserva – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa Rosé – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

O Quinta de La Rosa Rosé 2014 ficou aquém do que esperava. A soma das uvas de touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz não transmitiram o Douro. Não sendo pesado, os 13,5% de álcool tornam-no contra-indicado para o almoço.

Os primeiros vinhos que conheci da Quinta de La Rosa foram os tintos e logo me apaixonei. Penso que estão uns socalcos acima dos brancos e bem acima do rosado. O douROSA Tinto 2013 é um retrato do Douro que mais gosto, com a terra de xisto e as ervas bravias secas. É seco sem ser austero e fez-se com touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz.

O Quinta de La Rosa Tinto 2012 partilha esses traços identitários com o anterior e acrescenta alfarroba, menta, pimenta branca. É longo na boca. Um belíssimo vinho.

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douROSA tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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La Rosa Reserva tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa Vintage Port – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

Um grande vinho – mesmo grande – é o La Rosa Reserva Tinto 2012. Tem tudo o que se pode esperar da região, desde a mineralidade do xisto, às cerejas, framboesas, geleia de morango, gomas pretas e chocolatinhos After Eight. Taninos muito agradáveis, vai como veludo. É fresco… e são 14,5% de álcool. Quase todo de touriga nacional, com uma parte de touriga franca.

O Quinta de La Rosa Port Vintage 2012 ainda está fechado, vai revelando alfarroba, cereja e um ramalhete de notas florais ainda pouco nítidas. É untuoso e vai longo. Dêem-lhe uns anos.

Contactos
Quinta de la Rosa
5085-215 Pinhão
Portugal
Tel: (+351) 254 732 254
Fax: (+351) 254 732 346
E-mail:holidays@quintadelarosa.com
Website: www.quintadelarosa.com

Quinta do Cume, com Provesende a seus pés…

Texto José Silva

Jorge Tenreiro e Cláudia Cudell são os donos da Quinta do Cume, em Provesende.

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Jorge Tenreiro e Cláudia Cudell – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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A casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ele é cirurgião vascular, ela pintava quadros belíssimos. Ele continua de bisturi na mão diariamente, mas descobriu a tesoura de poda e outros instrumentos com que trata “cirurgicamente” as suas vinhas; ela quase já não pinta, pois dedicou-se de alma e coração à comercialização dos vinhos que ambos adoram fazer, com a sabedoria do enólogo e amigo Jean-Hugues Gros, um francês que já é mais duriense que muitos durienses. Foi apenas em 1998 que Jorge Tenreiro comprou os terrenos onde, sempre com a mulher ao lado, haveria de construir uma casa magnífica e começar a plantar vinha, sobretudo de uvas brancas.

Até que, em 2006, começaram a produzir vinho branco e um pouco de rosé.

Em 2009 começaram também a fazer tinto, tendo comprado vinhas velhas na parte de baixo da aldeia e  fazem tintos que hoje são já bastante apreciados.

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Vinhas Velhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá em cima, as vinhas de uvas brancas dominam a paisagem.

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As vinhas de uvas brancas dominam a paisagem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E são sobretudo de Malvasia-Fina, com um pouco de Rabigato e Viosinho. Os mais de 600 metros de altitude dão-lhes a frescura e a elegância, os terrenos xistosos e pobres dão-lhes a mineralidade. Entretanto a produção foi evoluindo, e passaram a produzir um vinho branco Reserva todos os anos, um tinto Selection e um tinto Reserva, e o tinto Flor do Cume, este só para exportação. Naquele ano fabuloso que foi 2011, fizeram um tinto muito especial, o Grande Reserva, até hoje a única colheita, numa edição limitada a 1540 garrafas e 90 magnum. Actualmente a produção total da Quinta do Cume é de cerca de 40.000 garrafas.

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A Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entretanto construíram uma adega, pequena mas moderna, que chega para as encomendas. O que não chegava era a localização do engarrafamento, que provocava verdadeiros “engarrafamentos” na adega, e por isso estão a construir um armazém para produto acabado, engarrafamento e rotulagem. Seguidamente vai ser uma fantástica sala de provas, que vai nascer do meio duma vinha, com o bom gosto habitual deste casal. E que, uma vez mais me recebeu com simplicidade para um almoço que teve tanto de simples como de delicioso.

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Salmão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para abrir o apetite um salmão fumado com gotinhas de limão soberbo.

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Alheira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Ovos estrelados – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois umas alheiras ali da aldeia tostadinhas e estaladiças, na companhia de ovos estrelados, batata cozida e couve salteada, estas bem regadas de azeite, tudo acompanhado de pão da aldeia, cozido em forno de lenha.

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Batatas cozidas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Pêssego – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para sobremesa, uma deliciosa salada de pêssegos da quinta, não foi preciso mais nada.

Começamos com o Reserva branco 2014 em comparação com o 2013, e que bem lhe faz um ano de garrafa: elegante, fragrâncias de fruta branca e flores do monte, na boca tem acidez acentuada, frescura, notas de citrinos e alguma baunilha, tudo muito suave e bem casado. O 2014 está pleno de juventude, frutado, intenso, vai ser um belo vinho.

Para “atacar” as alheiras provou-se o Selection tinto 2013 e o Reserva tinto 2012. O Selection é um vinho moderno, com um leque vasto de harmonizações, suave mas persistente, muita fruta madura, fresco e apetecível, a pedir comida.

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Quinta do Cume Reserva branco 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Selection tinto 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Reserva tinto 2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Grande Reserva 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O tinto Reserva tem aromas mais intensos, frutos vermelhos, notas de madeira, fumo e especiarias. Mas ao mesmo tempo tem frescura e muito boa acidez, é aveludado e muito elegante.

Ainda demos um salto ao Grande Reserva 2011, um tinto sério, concentrado, austero, com aromas exóticos. Na boca tem óptimo volume, notas de fruta preta, ligeiro toque de chocolate preto, bela acidez e final muito longo. Para guardar uns bons anos. Quando chegou a salada de pêssego, voltamos ao branco 2013, que se tinha mantido em gelo, e o casamento foi perfeito.

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Provesende – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá em baixo, continuava a pacatez da aldeia de Provesende…

Contactos
Quinta do Cume
5060-261 Provezende
Portugal
Tel: (+351) 91 445 7550
E-mail: quintadocume@netcabo.pt
Website: www.quintadocume.pt

Ramos Pinto – Duas Quintas 25 anos de História

Texto João Pedro de Carvalho

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto ao qual se juntou o seu irmão António. Numa casa onde a inovação e a mentalidade empreendedora sempre andaram de mãos dadas, destaca-se para o caso o nome de José Ramos Pinto Rosa que executou em conjunto com o seu sobrinho João Nicolau de Almeida o importante projecto da selecção das cinco castas recomendadas para o Douro, tanto para Vinho do Porto como para vinho de mesa. Inspirado no seu pai, Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, João Nicolau de Almeida cedo entendeu que parte do segredo seria juntar uvas de altitude (mais acidez) com uvas de maior maturação, provenientes de cotas mais baixas. Desta forma juntaram-se as uvas da Ervamoira (150m de altitude) com Bons Ares (600m de altitude), o nome pois claro seria Duas Quintas e após alguns ensaios seria lançado pela primeira vez com a colheita de 1990.

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Casa Ramos Pinto – Foto de Ramos Pinto | Todos os Direitos Reservados

O Duas Quintas foi à época uma inovação e um desafio que uniu às mais modernas técnicas de vinificação os tradicionais lagares, num projecto pensado de raiz e mais uma vez pioneiro na região e catalisador do surgimento de um “novo Douro”. Em 1991 iria surgir o Duas Quintas Reserva e em 1992 o Duas Quintas branco. Ao longo de 12 vinhos fomos tomando pulso aos 25 anos de História que a mestria de João Nicolau de Almeida nos ia traduzindo em vinhos e palavras.

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Vinhas de Ervamoira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Num breve apanhado pelos vinhos que mais me marcaram a prova começou com um magnífico Duas Quintas branco 2000 apresentado numa bela e esguia garrafa renana, decantado e servido o vinho no imediato deixou todos literalmente boquiabertos. Uma combinação entre frescura e toques de lápis de cera, com tisana e flores onde a fruta combina alternadamente entre a frescura e os toques mais untuosos da geleia. É daqueles vinhos que apetece beber e ter em casa mais umas quantas garrafas guardadas. Ao seu lado foi apresentado o Duas Quintas branco 2014 que mostrou toda a genica da sua juventude, quiçá irreverente onde dá para antever que o seu futuro também será de grande categoria.

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Deanter Branco – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Deanter Tinto – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Demos entrada nos tintos, com o primeiro de todos, aquele que foi o início, o Duas Quintas 1990. Um vinho muito bonito, cheio de vida e onde a fruta parece rejubilar de alegria com tanto morango e framboesa fresca, muita energia com aromas terciários de muito bom-tom, cantos bem arredondados mas cheio de finesse e com uma presença de boca de fazer inveja. Um clássico em toda a linha tal como o eloquente Duas Quintas Reserva 1991 que foi o primeiro Reserva e teve a capacidade de elevar o patamar da qualidade muitos furos acima do que existia para a época na região.

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Duas Quintas 1990 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Da colheita de excepcional qualidade, 1994, surgiram em prova os dois tintos. Comparando o Duas Quintas 1994 com o 1990, mostrou-se a meu ver melhor e com mais presença da fruta, algum vegetal num todo muito equilibrado. Já o Duas Quintas Reserva 1994 num perfil clássico de um grande tinto do Douro, nobre e cheio de carácter, muito complexo a combinar a frescura da fruta com um toque de caramelo de leite, uma delícia.

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Os vinhos em prova – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O final da prova seria com os vinhos do novo milénio, tal como o branco também o Duas Quintas Reserva 2000 se mostrou um colosso a caminho do estrelato, denso, coeso e com muita frescura, tudo em grande onde só o tempo o poderá domar. O último vinho, Duas Quintas 2013 é bastante tentador, amplo de aromas com bonito perfume, tudo muito novo e cheio de energia, dentro do carácter e perfil que os vai guiando nesta fantástica viagem que começou em 1990.

Contactos
Av. Ramos Pinto, 380
4400-266 Vila Nova de Gaia
Portugal
Telefone: (+351) 223 707 000
Fax: (+351) 223 775 099
Email: ramospinto@ramospinto.pt
Website: www.ramospinto.pt

Vinhos Tiago Cabaço – tão jovem e já…

Texto João Barbosa

Entre as várias diferenças entre as mulheres e os homens, a estética dos corpos é das mais divertidas, porque opostas. As senhoras vivem aterrorizadas com a linha, podem ser magras, mas os espelhos dizem-lhe que estão mais volumosas. Os homens podem até estar balofos que o reflexo é sempre o Tarzan representado por John Weissmuller.

Uma outra diferença, ainda no mesmo âmbito, é a da idade: as senhoras tendem a ter a noção do passar dos anos, adoptam as suas estratégias para se sentirem confortáveis. Os cavalheiros, não fossem as «repentinas», «invulgares, «inexplicáveis» e «singulares» dores de burro, pensam terem sempre dez anos e aptos a jogar futebol – obviamente que Cristiano Ronaldo apenas dá uns toques quando comparado com o Homo Sapiens sapiens masculino.

Não sou excepção. Quando conheci Tiago Cabaço achei-o jovem. Até aí, tudo ok. O problema é que trouxe-me à memória uma refeição espantosa no restaurante da sua mãe, o São Rosas, em Estremoz. Agora a memória tem um lapso: estive lá no primeiro ou no segundo dia de aberto… em 1994!

– Meu Deus! Estou velho!

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Tiago Cabaço Wines © Blend All About Wine, Lda

O Tiago Cabaço tem 33 anos, portanto quando lá fui deveria estar a dar chutos numa bola de futebol, provavelmente sonhando em ser o Luís Figo – quanto a mim, o melhor jogador português de sempre, com o devido respeito ao Senhor Dom Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra.

Conta que os amigos mais próximos viviam a 3,5 quilómetros de distância, pelo que a infância viveu-a com os trabalhadores da casa que, muitas vezes, depois dum dia cansativo, jogavam futebol com ele. É claro, Tiago Cabaço tem hoje mais uns dez centímetros de altura do que eu… Bem, vamos ao vinho.

Começou a «trabalhar», a enfardar palha, com seis anos, ganhava 2.000 escudos por dia (dez euros, correspondentes a 27,5 euros, após actualização com base coeficiente de desvalorização de moeda, cálculo oficial fornecido pelo Ministério das Finanças). Aos 14 anos tornou-se piloto de motas, tendo ganho campeonatos, vindo a abandonar em 2003.

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Tonéis © Blend All About Wine, Lda

Entrou no negócio do vinho em 2000, distribuindo a produção da família, o Monte dos Cabaços, feitos na Herdade de Trocaleite. Por considerar que faltavam referências na oferta, decidiu avançar como vitivinicultor. A primeira obra em 2006, referente à vindima de 2004. Foram 50.000 garrafas, hoje são 500.000, devendo este ano alcançar as 600.000 – a capacidade máxima da adega.

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Barricas © Blend All About Wine, Lda

«Os vinhos fazem-se no campo» – defende Tiago Cabaço, que quer intervenções mínimas na adega. O objectivo é sempre o cume, uvas para fazer os Blog. Será depois Susana Estebán, a enóloga, decidido o que fazer com o quê. «Nunca foi usado ácido para corrigir um vinho» – garante.

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Vinhas © Blend All About Wine, Lda

Conta que cresceu numa propriedade sem electricidade, gás nem água canalizada, onde estava já plantada vinha. Dos primeiros três hectares de alicante bouschet, em 2006, passou para 82 hectares, de alvarinho, antão vaz, arinto, encruzado, gouveio, marsanne, roupeiro, sauvignon blanc, verdelho (da Madeira), verdejo (de Rueda) e viosinho, nas brancas e as tintas, alicante bouschet, aragonês, cabernet sauvignon, petit syrah, petit verdot, syrah touriga nacional e trincadeira. Faz 17 referências, incluindo uma marca branca para a cadeia de supermercados Pingo Doce. Em breve haverá uma novidade fora do vinho… pediu segredo! Mais tarde contarei.

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© Blend All About Wine, Lda

Os solos da propriedade são franco-argilosos e xistosos (30%). As uvas brancas vão sobretudo para o chão de xisto. A rega abrange 60% da plantação, mas não acontece mais do que duas vezes no ano. No tempo do pintor – quando as uvas passam de verdes a amarelas ou roxas – é fornecida alguma água, momento que se de faz uma monda de cachos, pois «se for mais cedo, o bago fica maior» – esclarece o produtor. Uma ligeira rega poderá ser realizada no final da mudança de coloração.

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Mesa de Prova © Blend All About Wine, Lda

As marcas mais emblemáticas ligam-se a designações da internet: blog, .Com e .Beb. Vamos então a eles.

O .Com Branco 2014 foi feito com as castas antão vaz, verdelho (da Madeira) e viognier. É um vinho descontraído. Por força de não ser apreciador da casta antão vaz – raramente tiro algum prazer de néctares em que faz parte – não lhe vejo grande interesse. Mas esse é um problema meu. A verdade é que a generalidade dos consumidores aprecia, ou não fosse tão plantada no Alentejo.

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Tiago Cabaço Wines © Blend All About Wine, Lda

Tiago Cabaço Encruzado 2013 foi a estreia da assinatura. O produtor disse ser muito reticente em dar o seu nome a um vinho, mas a pressão, criada com a notoriedade, levaram-no a ceder. Um vinho com esta casta branca do Dão é uma homenagem ao pai, que a plantou pela primeira vez no Alentejo – garante o vitivinicultor. É um vinho curioso, diferente dos que se fazem na sua região de origem, mas que mantém o carácter fresco e transmissão da mineralidade do solo.

Tiago Cabaço Vinhas Velhas 2013 é um lote de antão vaz, arinto e roupeiro. Muito fresco, em que o uso de estágio em madeira não danifica a natureza, nomeadamente a tangerina. É uma dança de doce e amargo bastante agradável, termina com secura suave.

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Tiago Cabaço Wines © Blend All About Wine, Lda

O .Com Premium Rosé 2014 é filho de uvas de touriga nacional e uma boa aposta para quem aprecia rosados. Mostra-se no olfacto frutado e floral: líchias (fruta de aroma floral), limão (casca), amoras pouco maduras e violetas – aroma típico da casta cultivada no Dão e que nem sempre manifesta noutras paragens). Na boca é mineral, seco e que pede comida delicada, mas pode ir só para participar nas conversas de amigos.

O .Com Premium 2013 tem o aroma da casta no Alentejo; mais próximo de doce de amora ou groselha. É suave, fácil – muito fácil – de se gostar. Resulta da junção de uvas de alicante bouschet, aragonês, touriga nacional e trincadeira. Não o aconselho para o tempo do calor.

Tiago Cabaço Vinhas Velhas Tinto 2013 é muito alentejano. Como definir um vinho alentejano? Dizendo que é alentejano! Belo!

O Blog Alicante Bouschet + Syrah 2011 é macio e escorregadio, pela frescura. Não é delicado, é fidalgo. Podia mandar servi-lo num restaurante com finesse, quando fosse pedir a namorada em casamento. E promete vida longa, como se deseja no amor.

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Blog ’12 by Tigo Cabaço © Blend All About Wine, Lda

Já o Blog Alicante Bouschet + Syrah 2012 é mais complexo, necessita de mais tempo para ver a luz do dia (ou da noite). É duro, com fibra… Este oferecia-o ao médico que me operou durante 12 horas… Não fui operado.

De todos que provei, o Tiago Cabaço alicante bouschet 2011 foi o que me agarrou e não deixou fugir. É complicado defini-lo em termos aromáticos, tem fruta, chocolate, minério, vegetal e especiarias… não uma de cada… ficava aqui até amanhã a debitar descritores. A boca é igualmente complexa… Sou uma pessoa das artes e a imaginação leva-me, muitas vezes, para… levava-o para uma reunião secreta, numa sala em penumbra, chamando fantasmas. Um espaço feito de pedra, móveis pesados de excelentes madeiras das antigas colónias ultramarinas, pesadas tapeçarias renascentistas e quadros da Escola Framenga do século XVII. Não é pesado, é «simbólico e ritualístico». Viverá até usar bengala. É polido, seco… Uma grande descoberta!

Contactos
Tiago Cabaço Wines
Fonte do Alqueive, Mártires
Apartado 123
7100-148 Estremoz
Tel: (+351) 268 323 233
Email: geral@tiagocabacowines.com
Website: www.tiagocabacowines.com

Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Blend é um nome brilhante para uma revista de vinhos portuguesa. Porquê? Porque os portugueses são exímios em blending – seja com diferentes castas ou diferentes colheitas. Ter mais de 250 castas nativas também ajuda. Estes artistas vínicos têm à sua disposição uma rica palete de aromas, sabores e texturas.

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O Menu do Evento – Foto de Sip & Savour | Todos os Direitos Reservados

O terroir é, obviamente, outra variável. Um tópico que gostei de analisar em minúcia na prova de vinhos da Sip & Savour, no início deste mês, focada nas regiões Douro e Vinho Verde. Quando pensamos no típico Vinho Verde – fresco, branco, leve e de baixo teor alcoólico – é incrível pensar que a região vizinha, o Douro, produz um dos mais famosos vinhos fortificados do mundo – Portos ricos, tintos e robustos. Como pegar fogo à água do Vinho Verde.

Diverti-me ao contrastar seis exemplares de referência destas regiões nortenhas. Como seria de esperar, os Vinho Verde eram brancos e o duo do Douro tintos (ou assim esperava) – até aqui nenhuma surpresa. Mas também joguei um bocadinho com as percepções, uma vez que não destaquei apenas a frescura, mas também a intensidade dos Verdes de topo e a elegância dos tintos do Douro, ainda que estes últimos fossem originários do Douro Superior, teoricamente a mais quente e seca sub-região. As surpresas continuaram com o vinho escolhido para a sobremesa, um Moscatel do Douro, que provou que o Douro também pode fazer fortificados elegantes.

Voltando à minha analogia fogo e água, a água é uma excelente pista para a grande diferença entre estas duas regiões vizinhas. Situada ao longo do Atlântico e recortada por rios que transportam esta influência até ao interior, a região Vinho Verde é mais húmida e fresca do que a do Douro, rodeada por terra. Saindo do Porto é necessário viajar 100km para se alcançar a região do Douro, que se estende por outros 100km para o interior, em serpenteado, rio Douro acima, até à fronteira com Espanha.

Enquanto que a região vitivinícola Vinho Verde tem um clima maritimamente influenciado (especialmente as partes mais junto à costa), o Douro está abrigado, pela cadeia montanhosa do Marão, do impacto das condições climatéricas do Atlântico. O Marão está situado entre as duas regiões e eleva-se até aos 1415m de altitude (acima do nível médio das águas do mar). A pura verticalidade e massa que apresenta têm um efeito arco-sombra e ajudam o Douro a manter as tempestades atlânticas afastadas.

O facto de o Douro estar localizado no interior também resulta num clima continental, caracterizado por temperaturas extremas. Como um enólogo vivamente apontou, o Douro tem “nove meses de inverno e três meses de inferno”. De volta ao fogo, mas não ao inferno, fogo e perdição! As temperaturas durante o Outono podem chegar acima dos 40ºC (o que é perfeito para vinificação de Porto e tintos), mas as boas notícias são que essas temperaturas não ocorrem por estação mas sim numa constante diária. Durante o Outono, mesmo estando 40ºC durante o dia, a temperatura desce drasticamente à noite.

Além disso, a elevação também tem um papel. Relembro que subimos o Marão até ao Douro – alguns dizem que subimos ao céu e não ao inferno! E, sendo o Douro, ele próprio, montanhoso, as uvas são cultivadas a altitudes, entre 100m-900m, e em todas as direcções – Norte, Sul, Este e Oeste. Uma vez que as temperaturas podem descer até 1ºC por cada 100m que se suba, e, além do facto de que a forma influencia a exposição ao sol e vento, que por sua vez causam impacto no processo de amadurecimento, o Douro pode produzir brancos e tintos elegantes tanto como tintos e Portos robustos. Foi elegância que procurei para esta prova Sip & Savour em pleno Verão.

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Sixtyone Restaurant – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Naturalmente, a escritora gastronómica da Sip & Savour, Amber Dalton, surgiu com uma excelente sugestão, o Sixtyone Restaurant. O Chefe Arnaud Stevens tempera sabores arrojados com o seu toque elegante. Disse-nos que na preparação do menu desta prova estava bem informado para harmonizar com a acidez – frescura – dos vinhos portugueses.

O que me traz ao nosso primeiro exemplar, o aperitivo, refrescante e intensamente mineral Quinta do Ameal Loureiro 2013. Escolhi deliberadamente um Vinho Verde monovarietal e sub-regional para descartar de imediato os estereótipos de que os Vinhos Verdes são demasiados diluídos e acídicos. Localizada em Nogueira, o coração da sub-região Lima, local onde a casta Loureiro prospera, a Quinta do Ameal há muito que produz exemplares de referência.

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Quinta do Ameal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

O segredo para o sucesso da Quinta do Ameal? Aparte de estar localizada no sítio certo (em Lima, nas encostas viradas a sul), a sua incessante ambição também ajuda. Pedro Araújo, o proprietário, é descendente de Adriano Ramos Pinto, famoso no mundo do vinho do Porto, e trouxe para a Quinta do Ameal o toque mágico do seu bisavô. Por isso, no que toca a matéria prima, Pedro reduziu o rendimento das colheitas de modo a garantir que as suas uvas orgânicas sejam saudáveis e concentradas em aroma e sabor. Para a adega contratou nada mais nada menos que Anselmo Mendes, o guru do Vinho Verde, para garantir a preservação dos aromas e sabores a limão e aipo salgado, bem como da mineralidade fresca, das suas uvas no copo. Bem recebido, foi o tónico perfeito num dia tão quente e húmido em Londres.

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Carpaccio de Polvo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para a harmonização com Vinho Verde que apreciamos com um fenomenal carpaccio de polvo, pimentão vermelho, azedinha e sésamo, procurei por ainda mais intensidade e concentração. Assim sendo, fazia sentido apresentar a mais seca e quente sub-região do Vinho Verde, Monção e Melgaço, o epicentro da emblemática casta Alvarinho. E ainda por cima dois dos seus expoentes máximos, Quinta do Soalheiro e Anselmo Mendes.

Apesar de ser expectável que seja um lugar mais fresco do que Lima a sul, a sua localização no interior, onde as terras começam a subir e a topografia ajuda a proteger as vinhas das influências Atlânticas, conferem-lhe um clima mais continental, o que ajuda a explicar o porquê de as uvas atingirem um nível tão bom de maturidade (dias mais quentes) e manterem, no entanto, tão boa acidez (as noites são significativamente mais frias). Dá lugar aos vinhos da região com mais fruta, porém frescos, e com mais longevidade; o meu público ficou impressionado com relativa delicadeza e mineralidade do Loureiro em comparação aos dois Alvarinhos.

Quanto à harmonização que mais gostaram – nos eventos da Sip & Savour perguntamos sempre que vinho é que as pessoas mais gostaram sozinho e qual é que gostaram mais com a comida – neste caso a resposta foi a mesma. O Quinta do Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 bateu o Anselmo Mendes Contacto Alvarinho 2014 em ambas as situações. Feito com uvas das vinhas mais velhas da propriedade de cultivo orgânico da família Cerdeira (plantadas em 1974, foram as primeiras de Melgaço) e com uma componente de fermentação em barril (15%), o Quinta do Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 mostrou uma maior complexidade. As suas subtis nuances salgadas combinaram excelentemente com o vinagre Sherry, o óleo de sésamo e pinhões presentes no polvo marinado. Mas a diferença foi muito pouca. Também adorei o perfume de madressilva e a abundância de pêssego e damasco do mais arrojado Contacto, proveniente de vinhas mais baixas, perto do rio Minho, em Monção (Curiosamente, o nome deste vinho é derivado do facto de as suas uvas, depois de esmagadas, se manterem em contacto com as peles durante um curto período de tempo antes da fermentação. Porquê? Porque as peles contêm a maior parte dos compostos dos aromas e dos sabores, e também podem conferir um toque de textura extra ao vinho).

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Galinha d’Angola assada – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para o prato principal, que foi Galinha-d’angola assada com sementes de cacau, tomates, ervilhas, azeitonas pretas e lima, escolhi dois tintos do Douro, o Casa Ferreirinha Vinha Grande Tinto e o Conceito Contraste Vinho Tinto. Ambos da elegante colheita 2012 e feitos por enólogos que colocam grande ênfase na frescura e no equilíbrio.

Na Casa Ferreirinha (que produz o icónico tinto do Douro, Barca Velha), Luís Sottomayor segue uma tradição de selecção de uvas de diferentes altitudes para obter um equilíbrio mais elegante. O facto de a Sogrape (proprietária da Casa Ferreirinha) ter duas propriedades no Douro Superior  – a Quinta da Leda a 150-400m de altitude e a Quinta do Sairrão que chega até aos 600m de altitude – também ajuda. Quanto a Rita Ferreira Marques, alega que a frescura dos seus vinhos Conceito é derivada do vale da Teja, o local mais frio do vale do Douro. Não só pela elevação (as suas vinhas estão situadas a 300-450m de altitude), mas também pela distância que o vale da Teja apresenta em relação ao rio Douro. Uma qualidade (frescura) que pude demonstrar com mais ênfase do que estava à espera quando recebi a informação de que o seu importador tinha enviado o Contraste branco em vez do tinto!

A inesperada harmonização do prato principal com um vinho branco e um tinto trouxe-me à memória as sábias palavras de João Pires sobre guiar-se pela cor do prato. Não é por acaso que é um Master Sommelier! Como muitos vinhos brancos portugueses, o Conceito Contraste Branco não é demasiado frutado e, com as suas notas vegetais, proporcionou uma harmonia com as notas de tomilho, alecrim e tomate, bem como com a proteína; a sua acidez também cortou com o molho cremoso. A maior parte preferiu-o com a Galinha-d’angola. Por outro lado, devido à sua excelente fruta primária, os votos foram para o Casa Ferreirinha Vinha Grande Tinto quando bebido sozinho. A fruta era um pouco intensa para os sabores delicados e texturas cremosas do prato.

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A sobremesa – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Só de olhar para esta sobremesa já dá para ganhar peso! Basta dizer que seria difícil encontrar um vinho que se conseguisse sobrepor a esta torta de chocolate e caramelo salgado com marshmallow de caramelo e gelado de caramelo salgado. O desafio era encontrar um vinho que lhe conseguisse fazer frente e, portanto, um fortificado fazia todo o sentido. Mas para a sobremesa e o vinho de sobremesa serem pronunciados como uma harmonização perfeita (como foram), o vinho tinha de ter suficiente frescura para cortar a riqueza do prato e limpar o palato depois de cada (divinal) colherada. Eis o Moscatel do Douro, o vinho fortificado menos conhecido do Douro, já para não dizer o Moscatel fortificado menos conhecido de Portugal (o Moscatel de Setúbal é o mais conhecido).

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Quinta do Portal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Os Moscatéis do Douro são feitos com Moscatel Galego, a.k.a. Muscat à Petits Grains, uma variação diferente e mais delicada da Moscatel de Setúbal. O vinho escolhido, Quinta do Portal Moscatel do Douro Reserva 2004, é proveniente de vinhas muito altas (600m), frias e que preservam a acidez, da família Mansilha Branco, em Favaios, no topo norte do vale do Pinhão. Não só teve a frescura necessária para conferir equilíbrio ao conjunto (especialmente quando servido frio) mas, tendo sido envelhecido por vários anos em madeira (nenhuma nova), também teve a profundidade de sabor e complexidade para casar com a tarte de chocolate e todos os seus intrínsecos e texturais acompanhamentos. Tão bom que o restaurante mergulhou num silêncio reverencial durante vários minutos! Um final perfeito.

Os tintos da Herdade da Farizoa

Texto João Barbosa

A Companhia das Quintas, não sendo um gigante do negócio em Portugal, tem um leque de propriedades espalhadas por diferentes regiões. De cima para baixo: Quinta da Fronteira (Douro), Quinta do Cardo (Beira Interior), Quinta de Pancas (Lisboa) e Herdade da Farizoa (Alentejo).

Possivelmente, o território no Alentejano seja o menos conhecido. A Quinta de Pancas tem já uma longa vida como referência no panorama português, a Quinta do Cardo é um caso raro de reconhecimento de vinhos da sua região, a Quinta de Fronteira está no mediático Douro e a Herdade da Farizoa, embora na região portuguesa de maior sucesso de vendas, tem mais competidores de dimensão.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A Herdade da Farizoa foi comprada em 2000 e a adega construída no ano seguinte. Uma característica não muito comum: não se fazem brancos. O pomar de videiras é composto por alicante bouschet (oito hectares), alfrocheiro (quatro hectares), aragonês (15 hectares), cabernet sauvignon (6,5 hectares), syrah (5,5 hectares), touriga franca (menos de um hectare), touriga nacional (6,5 hectares) e trincadeira (dez hectares). Havia dois hectares com tinta caiada, que foram arrancados. Encontram-se em pousio para virem a ser cultivados com alicante bouschet.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A vinha ocupa uma pequena parte da propriedade – pequena para o padrão alentejano, com 156 hectares. O espaço está arrendado e é dominado por montados, de sobro e azinho, e pastagens. Existem um olival de quatro hectares. O solo é uma mistura de argila, mármore e xisto. Situa-se no concelho de Elvas e dentro da demarcação de Borba.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A empresa tem vindo a realizar uma reestruturação, inicialmente apenas de actividades administrativas e comerciais. A saída dos enólogos Nuno do Ó, que abraçou negócio por sua conta, e de João Corrêa, por doença, levou à contratação de Frederico Vilar Gomes para dirigir as operações de campo e enologia. É jovem e já confirmado como um dos melhores técnicos do país.

Sangue novo que trouxe inovação, alguma com um certo risco. Há liberdade para experiências. Frederico Vilar Gomes atribui responsabilidade e liberdade aos enólogos residentes em cada propriedade, pois são eles, melhor do que ninguém, a conhecer o terreno, o ambiente e as uvas. Visitei uma outra propriedade e provei uma amostra… as opiniões dividiram-se, mas se o técnico da quinta acredita, então que se faça o ensaio.

Na Herdade da Farizoa é Joaquim Mendes quem manda. Ali fazem-se os Portas da Herdade, Herdade da Farizoa, Herdade da Farizoa Reserva e Herdade da Farizoa Grande Reserva (anteriormente designado por Grande Escolha).

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Portas da Herdade – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Grande Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

O Portas da Herdade 2014 é uma aposta segura para os dias ao ar livre, acompanhando bem carnes greladas. É macio e escorregadio. É um lote de alicante bouschet (5%), aragonês (40%) sirah (15%) e trincadeira (15%).

O Herdade da Farizoa também alinha pela juventude e fruta, mais guloso que o anterior. Aragonês (50%), syrah (30%) e touriga nacional (20%) mostram-se bem casadas. Vai bem com os grelhados, mas massas também resultam.

O Herdade da Farizoa Reserva 2010 é um alentejano feito com touriga nacional (67%) e syrah (33%). É mais uma prova da plasticidade da casta portuguesa e da boa adaptabilidade da francesa. Ponho-o na mesa no Outono, com comidas mais fortes, mas madrugadoras face ao Inverno.

O Herdade da Farizoa Grande Escolha 2009 é um vinho que me surpreendeu. Sendo o Alentejo uma região quente e embora esta propriedade empreste frescura, a vivacidade ultrapassou as minhas expectativas. Sem marca de oxidação, com aromas de menta, restolho de trigo, pimenta branca e rosas secas. Chega com doçura e finaliza seco.

O Herdade da Farizoa Grande Reserva 2012 traz feições do mano mais velho, como a menta e o restolho do trigo. Para quem tem sangue alentejano, como eu, o perfume da lenha de azinho dá grande conforto. Somem-se-lhe pitadas de noz-moscada e erva-doce. Na boca mostra amoras e mirtilos, terra seca, cacau. Tem estrutura e fibra, mas sem bruteza. Não vem tão doce quanto o anterior e termina seco. Este é um lote de syrah (75%) e touriga nacional (25%).

Contactos
Herdade da Farizoa
7350-491 Terrugem
Tel: (+351) 268 657 552 | (+351) 93 80 90 518
Fax: (+351) 268 107 190

Quinta de Lemos, um Projecto de Vida…

Texto José Silva

Celso de Lemos é um beirão que ainda novo emigrou para a Bélgica, onde se formou em engenharia química. Foi construindo ao longo da vida um verdadeiro império no mundo das roupas de cama e de casa de banho de qualidade superior. De tal forma que hoje a sua marca está um pouco por todo o mundo, equipando hotéis de luxo e casas de gente bem conhecida do mundo do espectáculo e do desporto. Mas este português de sucesso nunca perdeu a sua simplicidade e bom humor, sendo uma pessoa muito acessível e de bom trato. E nunca perdeu também o amor pela sua terra natal, situada bem no centro da região vinícola do Dão.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi pois com naturalidade que Celso de Lemos comprou uma quinta de 50 hectares na pequena localidade de Passos de Silgueiros, não longe de Viseu.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já com a ajuda dos três filhos, ali mandou plantar 25 hectares de vinha, um enorme olival e desenvolveu uma colmeia, para produzir três dos grandes produtos tradicionais da região: vinho, azeite e mel.

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Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Equipamentos com a melhor tecnologia – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Construiu uma adega, onde, para além dos equipamentos com a melhor tecnologia, se podem apreciar obras de arte da sua vasta colecção, que é uma outra paixão. Por vezes organiza na adega exposições de arte, com artistas convidados de todo o mundo. Mas a grande obra de arte que sai daquela adega é o vinho do Dão. Com as mais nobres castas da região – touriga nacional, alfrocheiro, jaen e tinta roriz – foi desenvolvendo vinhos extraordinários, hoje premiados um pouco por todo o mundo e exportados para vários países.

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O restaurante – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas que também podem ser provados na adega e no restaurante de topo que mandou construir ali mesmo na propriedade, o “Mesa de Lemos”, onde o chefe Diogo Rocha, também ele da região, prepara ementas fantásticas, para já apenas à sexta e sábado ou por encomenda.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O restaurante está inserido num pequeno hotel, apenas com três quartos, mas que não está aberto a público, servindo para receber clientes, importadores e amigos, que assim podem partilhar este sonho maravilhoso que é a Quinta de Lemos.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa última prova passaram à nossa frente alguns dos vinhos da quinta, todos revelando enorme qualidade e uma óptima imagem, apelativa e muito cuidada. O Touriga Nacional de 2009 apresentou-se num granada carregado muito elegante, com aromas de frutos silvestres, um floral sedoso, levemente fumado, ligeiramente mentolado, com notas de resina muito suaves. Na boca tem enorme estrutura, uma bela acidez e alguma frescura, notas de frutos vermelhos maduros, e um ligeiro abaunilhado que lhe dá grande elegância e um final longo e persistente. Também de 2009 foi o Alfrocheiro, este de cor rubi intensa. Nariz cheio de elegância, notas de frutos vermelhos, algumas flores silvestres, muito suave. Na boca tem bom volume, notas delicadas de frutos vermelhos, macio e envolvente, bela conjugação entre acidez e frescura, dando um vinho sedoso e elegante.

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Quinta de Lemos Touriga Nacional 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Alfrocheiro 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Jaen 2007 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Donna Louise 2005 in celsodelemos.com

A casta Jaen é uma das melhores do Dão e quando bem trabalhada, dá vinhos impressionantes, como é o caso deste da Quinta de Lemos de 2007. Duma cor granada intensa, fechada, tem um nariz intenso, com muitos frutos vermelhos, a cereja muito madura, notas de baunilha e algumas especiarias. Na boca é poderoso, com óptimo volume, uma acidez fantástica, frutos vermelhos e algum fumo, sedoso e elegante, com imenso final. Finalmente, e ainda de 2005, provamos o Dona Louise, um tinto feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen. Dum granada intenso e elegante, apresenta um nariz cheio de frutos vermelhos maduros, esteva, urze e ligeiras notas de pinheiro. Na boca é muito sedoso, tem frescura e uma acidez muito equilibrada, com apontamentos ligeiros de frutos vermelhos, aveludado e ligeiramente austero, com final longo e delicado. Belo vinho a terminar uma prova em que o Dão revelou todo o seu potencial.

Contactos
Quinta de Lemos
Passos do Silgueiros
Silgueiros 3500-541, Portugal
Tel: (+351) 232 951 748
Fax: (+351) 232 951 495
E-mail: info@quintadelemos.com
Website: quintadelemos.com

As refrescantes novidades da Quinta do Portal

Texto João Pedro de Carvalho

O projecto da Quinta do Portal nasce no Douro no início dos anos 90 do séc. XX tendo como base uma propriedade centenária da família do seu proprietário, João Branco. A produção que ali sempre foi de Vinho do Porto, viu estender o conceito de todo o projecto para uma “Boutique Winery” onde é o enólogo Paulo Coutinho desde 1994 o máximo responsável pelos vinhos ali produzidos. Para além da produção de Vinhos do Porto, nascem também vinhos DOC Douro e Moscatel, alicerçados nas quatro Quintas (Portal, Confradeiro, Muros e Abelheira) todas situadas no Cima-Corgo que perfazem um total de 100 hectares de vinha com variações entre os 200 e 550 metros de altitude.

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Adega – Foto de Nélson Garrido | Todos os Direitos Reservados

Na Quinta do Portal não são apenas os seus vinhos que se destacam, a juntar a tudo isto temos também a fantástica adega desenhada pelo prestigiado arquitecto Siza Vieira, naquela que será das primeiras adegas de autor a nascer em Portugal. Para a complementar nasceu a Casa das Pipas, um enoturismo de excelência amplamente galardoado dentro e fora de portas.

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Casa das Pipas – Foto Cedida por Quinta do Portal | Todos os Direitos Reservados

Voltando aos vinhos e à mais recente apresentação que Paulo Coutinho nos proporcionou, o meu destaque desta vez vai para os vinhos de aromas mais frescos, mais atrevidos e digamos até mais apetecíveis para esta época do ano. A prova foi conduzida de forma muito descontraída, para surpresa ainda foram colocados em prova alguns vinhos de colheitas anteriores para tomar o pulso à capacidade de envelhecimento das criações de Paulo Coutinho. Diga-se de passagem que em todos os casos a evolução era notável, mesmo num surpreendente momento de forma do Mural branco 2004 que certamente na altura em que andou pelas prateleiras passou por baixo do radar de todos nós.

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Mural branco 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro branco a entrar em cena foi o Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 que nasce das parcelas experimentais da Quinta da Abelheira. Encantou com os seus aromas frescos e frutados, numa combinação bastante airosa entre as duas castas. O resultado é um branco muito perfumado, com aromas limpos onde o destaque vai para a fruta (citrinos, tropical, frutos pomar) que combina com vegetal fresco e uma ligeira sensação de pederneira. Na boca mostra uma bela frescura que se sente no palato, rico, marcante e a entrar com fruta bem sumarenta terminando seco e prolongado.

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Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Enquanto isso já o Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 esperava no copo, exuberante o suficiente para chamar a atenção. Em primeiro plano o apontamento floral a lembrar rosas seguido da fruta madura, aqui com bastante laranja. Muita frescura a embrulhar todo o conjunto, algo linear mas que cumpriu sem falhas a acompanhar um alargado leque de entradas que iam aparecendo à mesa.

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Quinta do Portal Rosé 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último o Quinta do Portal Rosé 2014, um blend entre Tinta Roriz, Touriga e Touriga Nacional onde predominam os frutos silvestres e as notas de romã. Pelo meio ligeira nota de hortelã num conjunto a mostrar uma bela frescura que se sente também na boca onde ganha maior expressividade, até mais que no nariz. Gosto da secura final com um travo de morango e amora que perdura no palato, num vinho feito a pensar na mesa e nos amigos.

Contactos
EN 323 Celeirós – 5060-909 Sabrosa
(Estrada Pinhão-Sabrosa)
Tel: (+351) 259 937 000
Telemóvel: (+351) 969 519 021
E-mail: reservas@quintadoportal.pt
Website: www.quintadoportal.com

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Há Qualquer Coisa em Aveiro

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Já perdi a conta a quantas vezes visitei Portugal. Mas, uma vez que a maior parte das minhas viagens são direccionadas ao mundo do vinho tenho uma visão muito diferente do país. Acho que apenas fui uma vez à praia em Portugal, o que é um pouco estranho, especialmente para alguém que vem do frio do norte da Europa. As pessoas falavam-me das fabulosas praias de Portugal e eu apenas podia imaginar. Até ter visitado Aveiro.

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Palmeiras e Casas Bonitas – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Estava de visita à Bairrada, uma região vitivinícola famosa pela casta Baga e pelos seus spas termais. Foquei-me principalmente na primeira. Depois de me empanturrar com um delicioso leitão e de visitar um par de adegas, a enóloga local, Filipa Pato (veja aqui o artigo de Sarah Ahmed sobre Filipa Pato), sugeriu que eu visitasse Aveiro. Nunca tinha ouvido falar desta cidade mas fiquei curioso. Então saímos da Bairrada e fomos em direcção à praia.

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Uma Praia Perto de Aveiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Aveiro é conhecida por algumas coisas em particular. As praias estão definitavamente na lista de coisas a conhecer para quem visita este lugar. Aveiro é apelidada de “Veneza de Portugal” por causa dos seus canais e barcos tipo gôndola. Mas digo-vos já, não é Veneza e não são gôndolas. Para começar, os barcos, ou moliceiros, são muito coloridos e muito bonitos. Mas quando olhamos mais de perto e com mais atenção vemos que a decoração é hummm… digamos que bastante particular.

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Moliceiros – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Localizada à beira mar, o peixe e o marisco são espectaculares aqui. A abundância de peixe, caranguejo e todo o tipo de petiscos do mar é incrível. Nunca sei o que pedir e por isso peço sempre um pouco de tudo. Arroz de marisco, camarões, talvez algumas ameijoas e o peixe do dia, seja ele qual for. Não esqueçamos o vinho. Uma vez que estávamos em Aveiro a Bairrada seria uma boa escolha para começar, geograficamente falando.

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I <3 Aveiro – – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Bebi um Quinta das Bageiras Bruto natural Rosé 2011. Um vinho espumante fresco e apetitoso de um dos melhores produtores de vinho da Bairrada. 100% Baga, 100% espectacular. Uma inexplicável boa harmonização com todo o tipo de peixe e marisco. Claro que, estando em Aveiro, para sobremesa se tem que experimentar os Ovos Moles. Um doce local que é feito de gemas de ovos e açúcar. Se gostas de coisas muito doces,então esta é a sobremesa certa para ti.

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Almoço – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

As praias magníficas e a proximidade a algumas das mais entusiasmantes regiões vitivinícolas do mundo, fazem desta cidade um excelente destino para surfistas e apreciadores de comida. Se quiseres apanhar uma onda ou passar um fim de tarde a beber vinhos deliciosos e a comer marisco de classe mundial, então Aveiro é o lugar para ti.

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Pôr do Sol em Aveiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Monte da Ravasqueira e vinhos fora da norma

Texto João Barbosa

A história vitivinícola do Monte da Ravasqueira é recente. Os trabalhos na vinha datam de 1998. O primeiro plantio ocorreu em 2000 e a primeira vindima a ir para o mercado foi a de 2002, posta à venda em 2003, com o Fonte Serrana. Porém, esta propriedade, situada no concelho de Arraiolos, tem uma existência longa, além da família dos seus actuais proprietários estar intimamente ligada à história contemporânea portuguesa.

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Monte da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A propriedade pertenceu a Dom Nuno Álvares Pereira, condestável de Portugal e estratego que conduziu à vitória o partido de Dom João (futuro João I de Portugal) na guerra de sucessão, entre 1383 e 1385, contra Dom João I Rei de Castela e Leão. A posse da terra foi junta ao título de conde de Arraiolos, de que hoje é (25º) titular Dom Duarte Pio de Bragança, 24º duque de Bragança e herdeiro da Coroa de Portugal.

Mas com o tempo, a Herdade da Ravasqueira mudou de donos e de dimensão. Para o caso, interessa saber a partir de 1943, quando entrou na posse da família Mello, que à época era detentora dum empório empresarial, criado por Alfredo da Silva, com Companhia União Fabril.

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Herdade da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Revolução de 25 de Abril de 1974 causou naturalmente convulsões. A política focou-se à esquerda, sobretudo ao Partido Comunista Português, e a família Mello partiu para o exílio e os seus bens foram nacionalizados, sendo a Herdade da Ravasqueira sido ocupada por trabalhadores, no processo conhecido por Reforma Agrária.

A estabilização política e o enquadramento de Portugal na família das democracias da Europa ocidental conduziram ao regresso da família Mello, que voltou a ocupar um lugar na liderança empresarial do país, e à entrega desta propriedade alentejana aos seus antigos donos, em 1980, mas praticamente decrépita por abandono e negligência.

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Cattle – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Herdade da Ravasqueira tem cerca de 3.000 hectares, perto de 1.500 ocupados com florestal. A criação de bovinos, cruzados de mertolengo e limusine, ascende a 500 cabeças, e o olival também tem uma pequena parcela. A actividade maior é a do vinho, estando plantados 45 hectares de vinhas, divididos por 29 talhões.

Este domínio alentejano é formado em declive, o que permite, através das diferentes altitudes, nuances diferenciadoras. Ao mesmo tempo, o solo é muito variável, existindo dez formações diferentes, sendo dominantes os argilo-calcários, estando a vinha em zonas com afloramentos de granito e de xisto.

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The Vines – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O teor de argila varia entre os 20% a 30%, refere Pedro Pereira Gonçalves, director de viticultura e enologia. A constituição do chão permite retenção de água em profundidade, causando algum stress hídrico e obrigando a planta a esforçar-se. Em caso de necessidade, existe sistema de rega gota-a-gota. «Mais vale ser ela [videira] a pedir água do que lhe dar-mos» – explica o técnico.

Desde 2012 que Pedro Pereira Gonçalves está neste produtor. Embora jovem, tem já currículo e reputação. A aposta tem sido na frescura, apanhando a fruta mais cedo do que acontece na generalidade do Alentejo. Assim, conseguem-se néctares com graduações alcoólicas hoje raras – embora a tendência vá nesse sentido.

«A Ravasqueira tem muitas massas de água e fica num vale, por isso consegue-se maior frescura», assinala Pedro Pereira Gonçalves. Pois, o teor alcoólico dos brancos foi atirado para uns surpreendentes 11,5%, indo até aos 12,5%. Nos tintos, o intervalo situa-se entre os 13% e os 13,5%.

Uma das decisões do jovem enólogo foi – coisa ainda rara em Portugal – mandar fotografar a propriedade, por avião, em diferentes bandas de espectro. «Permitiu que a apanha, que era feita ao talhão, passasse a ser feita à zona» – explica o técnico.

Com estas informações adicionais tem sido possível acertar os vinhos aos perfis pretendidos. A agricultura de precisão «permite fazer o vinho na vinha». Com a chegada de Pedro Pereira Gonçalves aumentou o número das propostas de maior patamar de gama, nomeadamente reservas e monovarietais. A diversidade permite a produção de sete vinhos monovarietais: alvarinho, nero d’avola, petit verdot, sangiovese, sauvignon blanc, touriga franca e viognier. No próximo ano será lançado um espumante.

A casta alvarinho é originária do Noroeste de Portugal, com clima mais fresco. Se os descuidos, na região dos Vinhos Verdes, podem resultar em laranjadas (felizmente não é a regra), no quente Alentejo podem tornar-se rebuçados, um pouco pesados e, por conseguinte, enjoativos. Nada mais diferente do que se apresenta na Ravasqueira, onde a variedade foi plantada numa zona mais arejada e fresca.

O Monte da Ravasqueira Alvarinho 2013 é um vinho com notas de tangerina, mineral e elegante, mostrando potencial de evolução em garrafa. Se fecharmos os olhos, e sonharmos um bocadinho, até nos segreda a palavra Chablis… atenção, é uma sugestão suave.

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Monte da Ravasqueira Alvarinho – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Reserva Branco 2013 fez-se com alvarinho (40%) e viognier (60%) é escorregadio… portanto: cuidado. É um vinho com textura na boca e com aromas a lima, e pêssego.

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Monte da Ravasqueira Reserva White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Branco é um vinho de homenagem ao pai da actual geração que dirige o Grupo Mello, José Manuel de Mello. É um vinho que o enólogo afirma não ser consensual, «mas que não é para ser». É um repositório de todas as castas favoritas do homenageado: alvarinho, arinto, marsanne, semillon e viognier. Na edição de 2013, Pedro Pereira Gonçalves optou por uma abordagem neozelandesa: fechar o vinho dentro das barricas durante um ano. Nasceram notas de baunilha, de bolacha maria, chocolate branco e ameixa. Muito elegante e, mais uma vez, escorregadio.

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MR Premium White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Monte da Ravasqueira Rosé 2014 é filho de uvas touriga nacional, colhidas precocemente nos diferentes talhões onde está plantada. É fresco e, em vez das violetas de a cultivar oferece no Dão, surge com um ramalhete de rosas. É um vinho falsamente doce. Um rosado muito interessante.

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Monte da Ravasqueira Rosé – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs é, como se percebe pela designação, produto duma só localização, onde pontuam as castas syrah e touriga nacional. Na edição de 2012, a variedade francesa forneceu 70% das uvas. É um vinho bem seco, sem ser austero. Promete vida em garrafa.

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Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Tinto 2012, em virtude da variedade de cultivares, é muito rico e complexo de aromas, que se vão sucedendo, casando, separando e regressando, simples ou acompanhados com o mesmo ou diferente par. Tem um notório traço da natureza alentejana – que muito aprecio – que é o de lenha de azinho. Na boca é também um falso doce. Tem a aceleração e garra de um roadster. Penso que também poderá evoluir bem em garrafa.

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MR Premium Red 2012 – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Touriga Franca 2012 é para um fanático da casta – eu – uma comichão. Por capricho, proibia que fosse plantada fora do Douro. Considero que das viagens poucas conseguem alcançar o carisma daquela região do Nordeste português. Isto não significa que a qualidade não exista, apenas uma irritação intelectual.

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Monte da Ravasqueira Touriga Franca – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A touriga franca revelou-se em 2012, na Ravasqueira, como alentejana, com os aromas dos restolhos e dos montados de sobro e de azinho. É seco de nariz e na boca mostra mineralidade, com evocação de giz. Tem uns taninos fantásticos, é racing e elegante, digamos o temperamento dum nobre na sua propriedade rural. Agora precisa de ser decantado com alguma violência ou aberto com antecedência. E vai aguentar-se anos. Reconheço que é uma bela touriga franca!

O Monte da Ravasqueira Syrah e Vignier (2012), em que a casta branca representa 3% do lote, é um vinho com frescura e vivacidade, que evolui bem no copo e interessante. Provei-o depois do vinho anterior. É belíssimo, mas é um menino ao pé do latagão. Definiria com a idiomática: «azar dos Távoras».

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Monte da Ravasqueira Syrah and Viognier – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Ponto de ordem e conclusão: frescura, desalinho dos perfis face à norma, falsas doçuras (bom!), complexidade e promessa de longevidade.

Contactos
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
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E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
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