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Adelaide Tributa…um Porto pré-filoxérico!

Texto Olga Cardoso

Se há vinhos que resistem ao tempo e se engrandecem com o passar dos anos e mesmo dos séculos, se há vinhos que sofrem metamorfoses absolutamente extraordinárias, se há vinhos que tocam a perfeição e conseguem deixar rendido o mais incauto dos enófilos…o Adelaide Tributa é seguramente um deles!

Este Porto apresenta uma cor âmbar intensa e um aroma magistralmente complexo. Frutos secos, como figos, amêndoas e avelãs, especiarias várias, com destaque para a noz moscada e o cravinho e muito, muito cacau, tudo é possível encontrar no seu nariz profusamente aromático e requintado.

Na boca mostra-se explosivo. Denso, untuoso, profundo, com uma acidez mordaz e acutilante e um final perfeitamente interminável.

O seu grau baumé de 13,7, indicia só por si, a sua já provecta idade. Segundo registos do produtor, estamos perante um vinho pré-filoxérico, que remonta a 1866 e provém de um lote original de cinco pipas.

Século e meio de evaporação e uma conservação em ambiente favorável, reduziram-no a apenas duas pipas e conferiram-lhe uma concentração veemente e colossal.

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D. Antónia Adelaide Ferreira – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

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Adelaide Tributa – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

 

Foi engarrafado numa série limitada de 1300 decanters originais de cristal, devidamente numerados e embalados numa caixa de madeira desenhada pelo Arquitecto Francisco Vieira de Campos. O seu preço, na ordem dos 3000 € a garrafa, fruto da sua qualidade e raridade, destina-o apenas a coleccionadores e apreciadores endinheirados.

Uma homenagem da Quinta do Vallado a D. Antónia Adelaide Ferreira, sua anterior proprietária e para sempre relembrada como a Ferreirinha, por alturas da comemoração do bicentenário sobre o seu nascimento.

Um vinho ímpar, aristocrático, tremendamente concentrado e complexo. Um Porto grandioso e sibilino, pleno de matizes e nuances, verdadeiro exemplar da excelência vínica que o Douro e o Porto poderão alcançar.

Contactos
Quinta do Vallado – Sociedade Agrícola, Lda.
Vilarinho dos Freires
5050-364 – Peso da Régua | Portugal
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Fax: (+351) 254 324 326
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Website: www.quintadovallado.com

A pintura de Goya é um “terroir”

Texto João Barbosa

O que tem a pintura de Goya a ver com vinho? Possivelmente nada, mas serve de ilustração para leitura distanciada.

Antigamente, poupavam-se os fotogramas, porque os rolos só tinham 24 ou 36. Custavam dinheiro e era necessário pagar a revelação e a ampliação, esperar. Uma chatice!

– Ai, que não fiquei nada bonito nesta foto…

– Que pena, está tremida.

Hoje temos telefones que fotografam, alguns com boa definição de imagem. Disparamos 50 vezes, «porque sim». Fotografamos a comida e um beijo em falso num centro comercial. Reinventamos os autorretratos, agora chamados de «selfies».

O talento para a fotografia não foi distribuído democraticamente. Nem a vaidade! No mínimo, é a vontade de «ficar bem» que nos leva a pedir que nos fotografem ou que façamos de modelos para nós mesmos.

Não dissertando sobre a história da fotografia, a primeira impressão terá sido conseguida por volta do primeiro quartel do século XIX. A tecnologia aperfeiçoou-se e esta arte permitiu democratizar o retrato e proporcionar mais momentos de vaidade a quem podia pagar – sim, foi um prazer para burgueses e aristocratas.

Antes disso, o retrato pintado levava (leva) semanas ou meses. A pose para o esboço, os acertos, a primeira camada de tinta, a espera para que o óleo seque, os ajustes, as vontades do retratado.

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Goya – A família de Carlos IV

A vaidade alimentou muita gente e realço a coragem da família de Carlos IV de Espanha em persistir em Francisco Goya como retratista real. Estes Bourbon eram muito feios! Veja-se como foram pintados por este génio espanhol e os salamaleques do quase obscuro Alonso de Mendoza.

Apaixonei-me tardiamente por Maria Carolina de Bourbon Duas-Sicílias, através do retrato de Thomas Lawrence. Ela tinha 27 anos… não era uma Lolita, embora as fidalgas parecessem jovens perto das plebeias, da mesma idade, com vida difícil.

É incrível como a duquesa de Berry envelheceu dum momento para o outro. Aos 29 anos, mantinha o olhar doce, ingénuo e ruborizado de menina da elite. Mas, a duquesa por quem me apaixonei é a mesma? Linda, mas notando a aproximação dos 30. Note-se que o termo «balzaquiana» se aplicava às trintonas! Benditos cremes e qualidade de vida, as balzaquianas têm mais de 55 anos.

E antes dos 27 anos, como era ela? Louise-Elisabeth Vigée-Lebrun retratou-a… Apesar do olhar cândido, o rosto tranquilo e a tez rosada, 26 anos. Terá a duquesa de Berry tido só aos 27 as suas asas de mariposa?

Onde está a verdade? Uvas excelentes darão bom vinho. E que vinho? O que um excelente enólogo cria, tirando partido das suas rugas e do olhar triste, mas verdadeiro. O que um excelente enólogo cria, escondendo precoces papadas e uma borbulhagem avermelhada.

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Vinhas © Blend All About Wine, Lda

Prefiro ver as rugas do temperamento e o sotaque do vinho, à perfeição redondinha e propositadamente gulosa. Cameron Diaz acorda estremunhada, despenteada, tem mau humor e leva horas a arranjar-se. É desse vinho que quero beber.

É disso que se fala quando se pronuncia a palavra “terroir”.

O Legado do Sr. Fernando Guedes

Texto José Silva

Fernando Guedes entrou para a Sogrape, fundada por seu pai Fernando Vanzeller Guedes, em 1952, foi subindo na empresa familiar e assumiu naturalmente a sua direcção, guindando a Sogrape ao topo das empresas produtoras de vinho em Portugal. Os seus três filhos, Salvador, Manuel e Fernando, entraram a seu tempo na empresa e foram recebendo as várias responsabilidades do pai. Então, há quinze anos atrás, com 70 anos de idade, Fernando Guedes, que é uma figura nacional, decidiu reformar-se e entregar a gestão da empresa aos três filhos, pois assim, como disse, “…ficaria em boas mãos, se calhar em melhores mãos!” E como filho de peixe sabe nadar, a Sogrape não parou mais de crescer.

Mas Fernando Guedes não abandonou a empresa, muito pelo contrário. Manteve-se activo, visitando a empresa todos os dias e continua a visitar as muitas vinhas da Sogrape, sobretudo no Douro, uma das suas grandes paixões. E foi numa das vinhas durienses que lhe surgiu a ideia de fazer um vinho único, diferente, que marcasse. Olhando para o portfolio da Sogrape, isso seria muito difícil. Fernando Guedes, um homem atento, astuto, perspicaz e muito sensível, foi insistindo com o Luís Sottomayor, director de enologia, para que fizesse um vinho a partir das uvas duma vinha centenária, que se desenvolve em patamares ainda mais velhos, cujas cepas retorcidas quase se confundem com a rudeza do xisto, na Quinta do Caêdo, ali em Ervedosa do Douro. Verdadeiramente apaixonado por esta vinha, Fernando Guedes, com o seu fino humor e boa disposição, foi insistindo com Luís Sottomayor, e finalmente, em 2007, conseguiu vencer a resistência do enólogo, que fez uma pequena quantidade de vinho a partir das (poucas) uvas da tal vinha centenária. O resultado foi surpreendente, premiando a teimosia de Fernando Guedes. Que propôs à família fazer um vinho de excepção, que seria o seu legado para as novas gerações. Seria como que uma mensagem, um conselho, uma indicação a dizer que é este o caminho, sempre em busca da excelência. E que melhor nome para este vinho do que simplesmente…Legado?! Assim, em 2008, era produzida a primeira edição deste néctar soberbo. Agora foi a vez de apresentar o mais recente Legado, da colheita de 2011 e que, mantendo uma enorme carga simbólica, teve lugar nas instalações do antigo Convento de Monchique, que foram as primeiras instalações da Sogrape no Porto.

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Num velho eléctrico do Porto – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

O trajecto para este espaço foi feito…num velho eléctrico do Porto, uma ideia deliciosa e desconcertante.

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Pedro Lemos and Fernando Van Zeller – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

Nas velhas instalações da Calçada de Monchique funciona hoje uma galeria de arte, local escolhido para a apresentação deste novo vinho, onde o chefe Pedro Lemos preparou uma fantástica refeição. Mas antes disso aconteceu uma prova vertical dos três Legado já editados – 2008, 2009 e 2010 – e o neófito de 2011, com a imagem de Fernando Van Zeller Guedes a pairar na sala.

Que permitiu verificar a evolução deste vinho fantástico, ao longo destas quatro colheitas em que a grande diferença está nos anos de colheita.

Na mesa de prova, lado a lado, avô e neta trocavam afectos, olhares carinhosos, numa relação cheia de cumplicidade. A prova começou com o Legado 2008, intenso mas elegante, com notas frescas de alguma mineralidade, de plantas silvestres, de fumo, ligeiramente balsâmico, com final imenso e delicioso…O Legado 2009 é um vinho diferente, intenso, levemente floral, com notas balsâmicas, alguma frescura e uma acidez deliciosa, taninos bem maduros e integrados, com um grande e longo final. O Legado 2010 tem nariz muito elegante, mineral, cheio de frescura, notas de esteva e alecrim, jovem e irrequieto, óptima acidez, taninos maduros muito elegantes, ainda a evoluir na garrafa mas que já se bebe muito bem.

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Legado 2011 – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

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Luis Sottomayor – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

Finalmente o Legado 2011, a grande novidade, de um ano excepcional, segundo o enólogo Luís Sottomayor o melhor de sempre. Ligeiramente vegetal, exótico, envolvente, notas de fumo, húmus, especiarias. Na boca tem frescura e uma acidez incrível, intenso, frutos vermelhos maduros, complexo mas cheio de finesse, um grande vinho que vai dar que falar.

Já na sala, ao sabor dum Mateus Rosé bem fresco, como é tradição da empresa, passaram arroz de marisco frito com camarão, batatas bravas, sapateira com guacamole e croquete de alheira.

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Santiago Ruiz Rías Bajas Branco 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Salmonete – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na mesa, com a nova aquisição em Espanha, o branco Santiago Ruiz Rías Bajas Branco 2014, provou-se e aprovou-se um delicioso salmonete, choco e molho de assado.

A estrela da noite, o Legado 2011, acompanhou com galhardia o pombo, topinambur e cogumelos silvestres. Simples, elegante, requintado.

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O Pombo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No final, a sobremesa composta por pão de especiarias, maçãs e caramelo, foi harmonizada com o Porto Sandeman Vintage 1968.

Foi neste ano que a Sogrape saiu das instalações de Monchique, onde já não cabia…Mais um simbolismo.

O chefe Pedro Lemos veio à sala explicar um pouco as excelentes harmonizações escolhidas e os copos levantaram-se várias vezes em honra da casa, da família, da excelência dos vinhos.

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O legado está entregue… – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

O legado está entregue…

Contactos
Sogrape Vinhos, S.A.
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4430-852 Avintes
Portugal
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Os vinhos de Colares

Texto João Barbosa

A Revolução Agrícola permitiu à espécie humana prosperar. Posteriormente, veio domesticação de animais e convidou o gato a juntar-se à família. Impulsionou a escrita e a matemática, pela necessidade de criar inventários.

Por previsível acaso, nasceu a «agricultura inteligente», aquela em que o homem é interveniente além do trabalho de campo. Terá sido primeiro o pão e depois é provável que se tenha criado a cerveja – há quem afirme que foi o vinho, mas não creio.

O homem provou e gostou do resultado duma mistura de água e sementes de cevada, esquecidas ou negligenciadas num recipiente. Desse cereal terá experimentado outros ingredientes. Certo é (!) que foi o efeito do álcool, como indutor de alteração do estado de consciência, o impulsionador da fabricação dessas bebidas.

Até aqui está tudo bem, resumido até ao osso. Os dilemas nascem na dificuldade, quando a resposta não é óbvia – embora uma evidência possa estar errada. Um grande mistério, para mim, é o vinho tinto de Colares.

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A transportar as uvas

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Adega de Colares

A região, situada na Área Metropolitana de Lisboa, tem registo antigo, mas ganhou nomeada no século XIX. Não é de estranhar, visto a praga da filoxera ter dizimado as vinhas europeias. O pulgão não sobrevive na areia e em Colares o chão é arenoso.

O vinho tinto de Colares é produzido à base da casta ramisco. Quando jovem é incrivelmente taninoso e há uns bons anos misturava-se-lhe, muitas vezes, vinho branco, sobretudo da casta malvasia de Colares.

A junção de tinto e branco tornaria tudo mais fácil. A modernidade «criou» a pressa. Os vinhos tinham um ciclo e todos o aceitavam. Bebiam-no jovem ou sabiam que tinham de aguardar para que alcançasse o zénite.

O escritor Eça de Queiroz era viajado e cosmopolita. O campo aborrecia-o tremendamente. Foi diplomata e conheceu a luz das cidades desenvolvidas europeias. Portugal era uma parvónia. A obra queirosiana está pejada de citações vínicas e os Colares são dos mais referidos – talvez os mais destacados.

Eça de Queiroz integrou um grupo de intelectuais, os «Vencidos da Vida», que introduziu luz na «aldeia» de Lisboa e o Realismo, como forma de arte e literatura. A «Geração do 70», outra designação do «clube», refeitava-se n’ «O Leão d’Ouro», junto à Estação do Rossio, em Lisboa. Ainda hoje existe. Nele, Columbano Bordalo Pinheiro pintou o mais famoso momento dessas tertúlias.

Cultivar as vinhas de Colares é doloroso, pois são rasteiras e obrigam a trabalho de cócoras ou ajoelhado… Isso não roubava o sono aos burgueses e aristocratas da Geração de 70 – o povo trabalhava duramente e lá estava, imóvel por gerações.

Mas importa este esforço. Vou fazer uma adição: ao trabalho doloroso nas vinhas somam-se (pelo menos) dez anos para que se comece a deixar beber… Só um resultado maravilhoso explica. Porém!…

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Vinho de Colares

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Eça de Queiroz

Quem se lembrou de guardar vinho de Colares? Um doido alucinado! Um envenenador compulsivo! Um louco por vingança! Explico com uma alegada afirmação de Eça de Queiroz:

– Este vinho ou está estragado ou é Colares novo.

Quem faz vinho conhece o ciclo de evolução por que passa até chegar o momento de ser revelado. Porém, só um tresloucado guardaria uma gota de vinho de Colares acabado de nascer. Um anjo lhe terá soprado ao ouvido para que guardasse, pois um dia haveria de se beber com grande prazer.

Sou incondicional apreciador de vinho de Colares e a mordacidade de Eça de Queiroz é sublime… só quando provei um vinho novo, acabadinho de nascer, é que percebi o alcance da alegada afirmação do escritor.

Felizmente, já bebi até à colheita de 1911… e…

Veja mais sobre Colares aqui e aqui.

Soalheiro, Oppaco e Terramatter

Texto João Pedro de Carvalho

Nasceu em 1974 pelas mãos de João António Cerdeira a primeira parcela de apenas um hectare de uvas Alvarinho em Melgaço. o O tempo passou e hoje já sobre o olhar dos filhos Luís e Maria João Cerdeira, contam-se dez os hectares de vinha da casta Alvarinho. Durante mais de 25 anos esta marca tem sido presença à mesa, sendo de elogiar tanto a consistência como o potencial de guarda que este Alvarinho apresenta colheita após colheita. E na cavalgada dos anos as novidades foram sendo colocadas à disposição do consumidor, vinhos que quando saem para o mercado são quase sempre encarados com uma dose de experimentalismo/inovação, mas que pouco tempo depois se assumem como exemplos a seguir. Foi assim com o Primeiras Vinhas e também foi com o Reserva, ambos exemplares que elevam a casta Alvarinho para os patamares do que de melhor se faz em Portugal.

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Quinta de Soalheiro – Foto Cedida por Quinta de Soalheiro | Todos os Direitos Reservados

Na realidade são vinhos que precisam e até gostam de um tempinho de espera na garrafa, por exemplo o Alvarinho Soalheiro é exemplar que apenas o gosto de abrir com dois anos de estágio em garrafa mas as garantias a ver por colheitas como 2007 ou mesmo anteriores confirmam que nos podemos esquecer dele que não fica minimamente amuado. Neste caminho vai o Primeiras Vinhas e o Reserva, a mostrarem que há na adega do Soalheiro quem saiba educar os vinhos nesse sentido.

É já nas novas instalações que o processo criativo tem continuidade, as novidades fazem eco por entre os consumidores e acabam de chegar para já, dois novos vinhos ao mercado. O primeiro de nome Terramatter é da colheita 2014, um Alvarinho com uma vindima mais precoce, sem filtração e sujeito a depósito cujo envelhecimento é feito, essencialmente, em barricas de castanho (pipas tradicionais da região do Minho). A tonalidade é ligeiramente mais carregada que o normal na casa, nota-se algo fechado com a espectável precisão aromática que o produtor nos tem acostumado em todos os seus vinhos. Denso, bom volume de boca com muita elegância e frescura, sensação de ligeira untuosidade. Travo mineral vincado em fundo numa passagem plena de sabor e frescura. Está a meu ver ainda muito novo e será bastante interessante acompanhar a sua evolução, haja garrafas que o permitam.

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Terramater Alvarinho 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Oppaco Vinhão e Alvarinho tinto 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

A outra novidade é o primeiro Soalheiro tinto de nome Oppaco, colheita 2013, baseado nas castas Vinhão e Alvarinho. Novamente a palavra inovação em foco, uma vez que se trata do primeiro vinho tinto da região com lote de uvas tintas e uvas brancas. O resultado é um vinho que alia a rusticidade da casta Vinhão, domada pela frescura e elegância que a casta Alvarinho mostra nas mãos de Luís Cerdeira. Grande frescura de conjunto, aromas limpos e definidos, aquela rusticidade que se faz sentir num misto de fruta muito presente mas ao mesmo tempo a mostrar um conjunto muito novo e cheio de energia. Diferente e senhor do seu nariz, identidade própria a pedir comida regional por perto, desde Galo de cabidela a uns Rojões à moda do Minho.

Contactos
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4960-010 Alvaredo
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Pôpa Fiction – três vinhos com sedução e crime, Quinta do Pôpa

Texto João Barbosa

Boa noite, bem-vindos a minha casa. Sentem-se, que já vos sirvo o vinho. Hoje jantamos na sala. Estou com groove.

– Estamos todos!

– Na sala?! O betinho emaluqueceu!

– Cala-te, Pedro. Deixa-me acabar. Estou com groove e…

– Estamos todos!

– Bem, se agora responderam em coro…  vou amuar e dançar até à cozinha para trazer uns aperitivos. Ainda bem que a boa-onda é geral.

[Regressado à sala]

– Ainda ninguém pôs música?! Querem que me zangue? Temos três vinhos para hoje…  e têm uma lógica. Vão numa sequência… Pim! Pam! Pum!

[Todos a dançar a música «You never can tell», de Chuck Berry… Pulp Fiction].

– Ena, ainda agora começou a festa e já o tapete está todo pingado de tinto… yuuuuupiiiiiii!

– O que estamos a beber?

– Hot Lips 2012. Deixa-me mudar a música… «Why don’t  you do right», pela Katherine Turner… [«Quem tramou Roger Rabbit»].

– Roger Rabbit! Mas conta mais do vinho…

– É tinto…

– Ya!

– Isso é óbvio.

– Diz!

– Douro.

– Conta lá!

– Duh!… Ainda não percebeste que temos de ser discretos… as paredes têm ouvidos. Podemos estar a ser escutados… as castas são secretas.

– Lol.

– Olha, a garrafa acabou. O que devo abrir agora?

– Essa… essa aí. Diz In The Flesh 2012.

– Cool!

– Ora põe aí a tocar «Slave to Love», do Bryan Ferry…

– Enapá! Do «Nove semanas e meia»… ui!

– Só de pensar na Kim Basinger…

– E eu no Mickey Rourke.

– Nunca percebi o que as mulheres vêem nele…

– Azaritos! Coisas de miúdas. Esquece, azaruncho!

– O que se passa com o vinho?

– O que se passa, como?!

– Está sempre a acabar…

– Agora abre essa…, já todos estão prontos? Vamos a isto!

– Uau! Está delicioso! É o quê?

– Não vais querer saber…

– Psicopata!

– Saca esse disco e põe este a tocar, se fazes o favor.

– É o quê?.. Boa escolha.

– O quê?… o quê?

– «Push it to the limit».

– Paul Engemann?!

– Ya!

– Scarface!…

– Yes!

– Acertei! Diz-me o que estamos a comer?

– Tens de descobrir. Este jantar é um policial.

A Quinta do Pôpa, além dos vinhos «formais», tem uma vertente conceptual e, até agora, com humor, designada de Pôpa Art Projects. Primeiro surgiram o Lolita e o Milf. Para este momento, o segundo episódio, a ideia brinda ao mundo da sedução, do crime e do cinema.

As garrafas desta trilogia (Pôpa Fiction) são de litro, uma pequena provocação… ou melhor, um certo agitar das ideias. Cada vinho tem um nome e rótulo próprio, cuja arte é de Mário Belém.

Hot Lips 2012 é um vinho guloso, descontraído e por isso perigoso. Recomendo para antes do primeiro jantar a dois. … É isso! Suave e sensual.

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Hot Lips 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

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In The Flesh 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

Já o segundo é o In The Flesh 2012, mais «substancial» na boca. Mais carnudo. «Um pedaço de mau caminho», dizem os irmãos Stéphene e Vanessa Ferreira, os vinhateiros. Pois… é que também escorrega, mas pede uns acepipes. Petiscos quentes, folhados, enchidos e alguns queijos.

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Stéphane and Vanessa Ferreira – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

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The Grape Escape 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

O terceiro vinho do gangue é o The Great Escape 2012. É uma espécie de Al Capone. Impõe respeito e exige comida com força e potência. Mais rústico e aconselhável com comida.

Bebe-los num só evento tem piada e lógica, porque há uma clara evolução do estilo dos vinhos, desde o mais fácil até ao que pede um desassossego na mesa.

Basta fantasiar um bocadinho e até se «escreve» – oralmente – um enredo policial, em que cada pessoa à mesa acrescenta um parágrafo. Depois de tudo e se ainda houver disposição, jogar o Cluedo – um dos jogos que melhor prazer dá quando se está ébrio.

Contactos
Quinta do Pôpa, Lda.
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5120-011 Tabuaço
Portugal
Email: geral@quintadopopa.com
Telemóvel: (+351) 915 678 498
Site: www.quintadopopa.com

Adega Matos, Uma Adega à Maneira Antiga

Texto José Silva

Lamego é uma cidade muito antiga, cheia de história, onde a gastronomia ocupa um lugar muito importante. São os enchidos, entre salpicões, chouriços e alheiras, é a excelência do presunto, são as típicas bolas, de massa estaladiça e baixinha, sejam de sardinha, de bacalhau, de presunto ou a mais popular, de carnes variadas. E estes produtos mantêm-se até hoje com o mesmo tipo de fabrico, uma grande tradição da cidade e da região. Mas também algumas casas de bem comer se têm mantido a servir óptima comida, baseada no receituário regional, utilizando muitos desses produtos.

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Adega Matos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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O balcão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ali por trás da Sé de Lamego, em rua estreita e empedrado de granito, encontramos com facilidade uma dessas casas, a Adega Matos. É um espaço muito simples, com pequena montra e um balcão logo à entrada.

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A sala do rés-do-chão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Painel de azulejos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A sala do rés-do-chão é pequena mas aconchegada e acolhedora, alguns painéis de azulejos nas paredes, e, ao fundo, a minúscula cozinha, muito bem organizada, onde a proprietária comanda tachos e panelas, com grande utilização do forno, como é típico lá por cima. Em cima, no primeiro piso, uma sala maior alberga um maior número de clientes. Mesas postas com simplicidade e serviço bastante personalizado a cargo do proprietário, que nos vai guiando pelas ofertas da casa.

O casal - Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O casal – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Este casal já explora a casa há mais de 35 anos, embora já existisse há mais anos, sendo uma das mais antigas da cidade. O aroma que paira na sala prepara-nos para as coisas boas que hão-de vir para a mesa.

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Pão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Bolinhos de bacalhau – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Vem logo pão e broa muito bons, e algumas entradas saborosas: bolinhos de bacalhau, presunto bem fatiado, bola de carne deliciosa e estaladiça, moelinhas, enguias, peixinhos do rio fritos o sardinhas de escabeche.

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Presunto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Bola de carne – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A sopa de legumes do dia não falta.

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Bacalhau à Brás – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Polvo à Lagareiro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois podemos optar por bacalhau à Brás húmido e apaladado, uma boa posta de bacalhau assada no forno ou um óptimo polvo à lagareiro.

Nas carnes a escolha é maior: há alheira assada na brasa, há febras de porco e bife de vitela também trabalhados na brasa.

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Cabritinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Batatas assadas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Como pratos mais completos podemos apreciar cabritinho ou vitela ambos assados no forno, que têm a companhia de óptima batatas assadas também no forno e um delicioso arroz de forno, que vem à mesa em tacho de ferro, irresistível.

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Arroz – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Arroz malandrinho de salpicão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Assim como é irresistível um suculento arroz malandrinho de salpicão, um prato bem típico desta região, que ali na Adega Matos é preparado com rigor, rodelas avantajadas de salpicão delicioso, o arroz malandrinho mas com goma, e feijão vermelho, uma maravilha. Há vinho de produtor particular e alguns vinhos da região que acompanham bem este tipo de comida.

Como aconteceu com o Colheita Tinto Três Raposas de 2010, estruturado, com volume de boca, potente, bem bom.

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Três Raposas Colheita 2010 Tinto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobremesas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já na sobremesa provaram-se algumas guloseimas como o leite creme com canela ou então queimado, mousse de chocolate muito bem feita e umas deliciosas filhoses, estaladiças, polvilhadas com açúcar e canela. Dois dedos de conversa com os proprietários levam-nos a tempos idos, á história da casa, à tradição da culinária que ali se pratica, à qualidade dos produtos utilizados e à enorme necessidade de manter este imenso património que faz parte da nossa cultura popular. Um passeio pelo ar fresco da cidade é obrigatório…

Contactos
Rua Trás da Sé, 52
5100 Lamego
Tel: (+351) 254 612 967
Telemóvel: (+351) 968 894 170
E-mail: restaurante_lamego1@sapo.pt
Website: adegamatos.no.sapo.pt

Azores Wine Company, raridades que nascem no meio do Atlântico

Texto João Pedro de Carvalho

Tenho seguido com a atenção que me é possível o trabalho do jovem enólogo António Maçanita. Não faz muito tempo que tinha ouvido falar que andava pelos Açores e que dali iriam começar a sair os seus primeiros vinhos, um projecto que com o tempo acabou por se transformar numa espécie de salva vidas de algumas das castas que moram no arquipélago que viu em 2004 a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico ser classificada como Património da Humanidade pela UNESCO. Nascia assim a Azores Wine Company, entre vinha alugada e terrenos comprados contam com 40 hectares de produção no Pico, em São Miguel e na Graciosa. É de enaltecer os esforços desenvolvidos para literalmente salvar do fatal esquecimento castas como o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico que segundo o último levantamento apenas existiriam menos de 100 plantas da variedade. Uma exclusividade aliada a uma raridade que se faz sentir em produções diminutas que mal chegam à mesa de todos os interessados em lhes deitar a mão.

Os vinhos produzidos são separados em duas gamas, a Rare Grapes Collection composta por vinho monocasta onde surge o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico e a Volcanic Series com o Rosé Vulcânico e o Tinto Vulcânico. Tive a sorte e até poderei dizer o privilégio de provar alguns destes vinhos já que por exemplo do Terrantez do Pico apenas foram engarrafadas 380 garrafas. Comum a todos eles a frescura proveniente da brisa marítima com uma inevitável e porque não o dizer, acidez que se faz sentido algo acentuada quem sabe fruto dos solos de origem vulcânica. Essa mesma acidez que acentua a mineralidade e salinidade comum a todos eles. São vinhos que merecem e devem ser provados e bebidos com alguma atenção, tendo sempre bem presente as condições onde nasceram.

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Azores – Foto Cedida por Azores Wine Company | Todos os Direitos Reservados

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Rosé Vulcânico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Melhor exemplo do que acabo de escrever é o Rosé Vulcânico 2014, parco na tonalidade e ligeiro na graduação, mostra aromas de fruta vermelha bem limpa com boa presença e de fundo algumas notas de mar com a inevitável nota de iodo e salinidade presente. É este factor que pode causar admiração e mesmo ditar o afastamento de alguns apreciadores, o toque salino que se faz sentir no palato. De resto mostra-se com a intensidade suficiente para fazer um brilharete com comida de inspiração oriental.

Com dois Arinto dos Açores em prova, em nada semelhante ao Arinto continental, colheita de 2014 com um deles a ter fermentado sobre as borras ganhando por isso o nome Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014. Na versão mais eléctrica, o Arinto dos Açores 2014 mostra uma invejável finesse, muito menos compacto apesar da acidez que tem acentuar as notas citrinas que se fundem com o travo mineral e novamente o travo salino a marcar aqui ligeiramente o final. No lado quase oposto o “Sur Lies” aposta em tudo aquilo que já foi escrito mas com tudo um pouco mais carregado e cheio, digamos que ganhou um pouquinho mais de músculo. Tudo o que for de concha fará no imediato uma belíssima harmonização com estes dois vinhos.

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Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Terrantez do Pico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Para o final deixo aquele que considero a estrela da companhia, o Terrantez do Pico 2014, que das 380 garrafas produzidas o transforma num vinho não de garagem mas de armário, e se for climatizado melhor porque tem pernas para andar muitos e longos anos. Delicada e refinada complexidade que encerra o conjunto, apresenta notas citrinas bem variadas, das mais maduras às mais amargas, nuances de ligeira tropicalidade. Pouco ou nada exuberante, parece precisar de tempo para se desenvolver, porque de momento está ainda fechado, dominado pela austeridade mineral e o travo de maresia.

Contactos
Rua dos Biscoitos, Nº3
São Mateus
9950-542 Madalena – Pico Açores
Website: www.azoreswinecompany.com

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Quinta da Alameda, uma Vinha Velha em Santar

Texto José Silva

Foi no restaurante “Antiqvvm”, no Porto, que Carlos Lucas e Luís Abrantes apresentaram o primeiro vinho da Quinta da Alameda, sua propriedade em Santar. Amigos de longa data, estes dois empresários, embora de áreas diferentes, decidiram há uns tempos comprar a Quinta da Alameda, uma propriedade bem conhecida em Santar, em pleno coração do Dão, com grande tradição e algumas vinhas muito velhas. A par do plantio de vinhas novas, estas vinhas velhas foram acarinhadas e trabalhadas para dali tentar retirar uvas muito boas e fazer vinhos de excelência. Parece que o objectivo foi atingido neste primeiro ano, embora com uma produção muito pequena, decorrente da idade das vinhas. Para mais tarde vai ficar a recuperação de algum património arquitectónico da quinta e a construção duma adega onde as uvas sejam trabalhadas, vinificadas e os vinhos guardados para estágio e engarrafamento. Um dos objectivos é evoluir para a produção em modo biológico, pensando também na defesa cada vez mais premente do ambiente.

Nesta apresentação, o enólogo Carlos Lucas juntou-se aos chefes do restaurante, Vítor Matos e Ricardo Cardoso, e com eles construiu as harmonizações que se mostraram mais adequadas, sempre com algo de surpreendente, como as equipas do Vítor Matos sempre nos habituaram.

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Rosa Teixeira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Ribeiro Santo Blanc de Noir – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Num espaço de grande beleza e elegância, requintado, onde a Rosa Teixeira não deixou que falhasse nada, fomos recebidos com o espumante Ribeiro Santo Blanc de Noir, já com provas prestadas. Apresentou-se amarelo com alguma evolução, muito elegante, com bolha finíssima e cordão suave. Seco, aromas de palha, tosta, alguns frutos secos, na boca tem volume, acidez muito equilibrada, muito envolvente e fez óptima companhia aos snacks Antiqvvm..

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Ribeiro Santo Encruzado 2014 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

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Salmão Marinado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já sentados à mesa, passamos ao vinho branco, o Ribeiro Santo Encruzado 2014, uma casta fantástica, um vinho de cor citrina, cristalino. Muito elegante e sedoso, alguma fruta branca intensa, levemente seco, fresco. Complexo, intenso mas aveludado, frescura e acidez equilibradas, alguma fruta de polpa branca com final sedoso e longo.

Fez companhia a um salmão marinado, coco, morangos, pêra abacate, coentros, capuchinha e ovas de truta e, à parte, um surpreendente tártaro de vieira com malagueta e citrinos, pérola de encruzado e salicórnia.

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Um surpreendente tártaro de vieira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Muita frescura, sabores intensos mas equilibrados, a mestria do Vítor Matos à nossa mesa. Mas ainda antes da estrela da noite, houve lugar a uma surpresa, um vinho ainda em barrica, apresentado em garrafa com rótulo provisório, o Jaen 2013. De um ano difícil, um vinho que já é muito interessante e que surpreendeu até mesmo o seu autor, como Carlos Lucas fez questão de dizer. Granada suave, muito limpo, belos aromas de frutos vermelhos, notas de fumo, sedoso. Bom volume na boca, muito, mas mesmo muito elegante, aveludado, notas de chocolate preto, excelente acidez, final longo, um grande Jaen.

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Vítor Matos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para fazer companhia à garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana, ravioli de tinta de choco e carabineiro, emulsão de morilles, tagliatelles de lulas e funcho.

Então sim, veio a estrela da noite, o Quinta da Alameda Reserva Especial Tinto 2012. Numa garrafa muito bem apresentada, rótulo sóbrio e elegante, tem cor rubi intensa, muito limpo. Floral, notas de frutos vermelhos, esteva, pinheiro. Grande acidez, fresco, intenso, muita fruta, notas balsâmicas, eucalipto, sedoso, taninos bem maduros, irreverentes, final muito longo, um vinho extraordinário, para se beber já ou guardar por muitos anos. Afinal foi a segunda surpresa da noite!!

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Quinta da Alameda Reserva Especial Red 2012 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

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Lombo de veado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E acompanhou mesmo bem o lombo de veado ligeiramente fumado com trompetas da morte e vinagre de boletus, balsâmico velho, cremoso de cherovia e espinafres, pão de pistáchios e molho de especiarias.

Um prato cheio de complexidade a dar luta a um vinho fantástico.

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Regar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fechou-se com um Porto Tawny Reserva da Quinta das Tecedeiras a fazer companhia a uma sobremesa desconcertante, abóbora com requeijão e pudim apresentados num vaso, que o Vítor Matos haveria de regar, estando no prato a torta de cenoura negra, amêndoas torradas, sorvete de tangerina, creme e espuma de beterraba, legumes com xarope de sabugueiro. Sem palavras…

O Dão continua a dar que falar!

Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013

Texto João Barbosa

Durante a ditadura do Estado Novo (1926 a 1974) criaram-se arquétipos para identificar as províncias, entidade organizativa hoje inexistente. Havia uma redutora iconografia nacionalista, mas também regional. Valorizou-se muito o folclore, sendo aqui o fandango.

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Ribatejo

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Ribatejo

Para o Ribatejo desenharam-se toiros bravos, os nobres animais da actualmente polémica tourada, campinos e obviamente cachos de uvas. O vinho tinha uma importância crucial na economia e na alimentação, sendo que esta província produzia em grande quantidade.

A vontade de produzir muito levou a que as vinhas (generalizando) estivessem em solos ricos. Porém, a videira é masoquista. A reputação, até há poucos anos, não era das melhores. Porém, a comissão certificadora e vários produtores, em número crescente, encarregaram-se de mudar a imagem. O corolário foi a alteração da designação de Ribatejo para Tejo.

Uma das primeiras casas agrícolas a despertar para a nova realidade foi a Quinta da Lagoalva de Cima, situada junto a Alpiarça. É uma empresa que produz muito mais do que vinho, sendo o azeite outro produto identitário de qualidade. Ali lavra-se uma infinidade de bens alimentares. Em 2.500 hectares cabem muitas culturas e floresta.

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Quinta da Lagoalva – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Há quatro patamares de vinhos, com diferentes preços. Existe uma linha comum, com dois ramais: qualidade e «honestidade». Esta verdade traduz-se na regularidade e consistência do que é produzido e posto à venda – tendo que se ter em conta a especificidade da climatologia dos anos.

Recuso-me em entrar na obsessiva vontade de sentenciar (quase decreto) acerca da relação entre qualidade e preço. Cada pessoa tem o seu conceito e gosto, disponibilidade financeira e avaliação de até quanto sente ser aceitável um valor. Evito referir preços, pois não tenho dados para que possa assegurar um montante. Digo apenas que estes vinhos estão bem ao alcance duma algibeira da classe média, não custam um ordenado nem uma semana de trabalho.

Uma das primeiras referências que conheci foi o branco Lagoalva Talhão 1. Não gostei! Todavia, aproximou-se (aproximei-me) e é um vinho (referência abstracta) que bebo com agrado no Verão, como aperitivo e em convívio descontraído. A gama Lagoalva tem essa característica da descontração, sendo também competente para ir à mesa.

Os vinhos são muitos e acerca deles escrevi uma súmula, que penso ter traduzido o bom trabalho que se faz nesta firma. Vou ao motivo: Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013. As gamas são Monte da Lagoalva, Espírito Lagoalva, Quinta da Lagoalva de Cima e Quinta da Lagoalva.

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Lagoalva Barrel Selection Red 2013 – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Tal como os anteriores e os olvidados, é um vinho de fácil prazer – no melhor do sentido do adjectivo. Contudo, é uma «coisa» à parte. A própria designação indica que se está presente de algo especial: uma escolha de várias barricas, que geraram 4.000 garrafas.

Trata-se dum par de syrah e touriga nacional, com a mesma percentagem. Estagiou um ano em barricas novas de carvalho francês. A madeira sente-se, mas não esmaga. Não é para se beber em tragos volumosos, antes com vagar.

A demora dos repastos do final de Outono e do Inverno, quando a mesa é rica e substancial, e as comidas mais complexas e exigentes quanto a parceiro. Concordo com o produtor quando aconselha pratos de forno. Estou a pensar no Natal.

Contactos
Sociedade Agrícola da Quinta da Lagoalva de Cima, S.A.
Quinta da Lagoalva de Cima
2090-222 Alpiarça
Tel: (+351) 243 559 070
Email: geral@lagoalva.pt
Website: www.lagoalva.pt