Posts Categorized : Vinhos Tranquilo (Vinhos de Mesa)

O X marca o local para Hélder Cunha, o produtor-itinerante-salteador-de-uvas dos “Casca Wines”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

O produtor Hélder Cunha e o actor José Fidalgo atravessaram Portugal de mota para o programa de TV “Rotas do Vinho“. Rotas estas que, sem vinhas nem adega, Cunha passou a conhecer bem, já que ele faz parte da nova geração de produtores-itinerantes-salteadores-de-uvas de Portugal, cuja missão é muito simplesmente, procurar as melhores uvas, onde quer que elas estejam. Desde que as uvas sejam portuguesas, não interessa se a região está na moda ou não e, por este motivo, eu tiro o chapéu a Cunha.

No Casca Wines, que co-fundou com o produtor Frederico Gomes, os vinhos são feitos em parceria com agricultores e adegas locais em 10 regiões DOC.

Estou particularmente enamorada das gamas Monte Cascas Single Vineyard e Ícone, especialmente dos peculiares vinhos de Colares e do Tejo, cujas vinhas envelhecidas podem bem ser descritas como relíquias nacionais. Quando lamenta “Portugal deixou que a sua cultura vinícola escapasse por entre os dedos”, o objectivo de Cunha é preservá-la e renovar a tradição única Portuguesa de fazer vinho. Aqui fica o que ele teve a dizer sobre este importante tópico, após o qual encontrarão as minhas notas sobre as gamas Monte Cascas Single Vineyard e Ícone.

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Hélder Cunha – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

A entrevista

1. Os dias de glória de Portugal – a sua Época dos Descobrimentos – já desapareceram há muito. No entanto, apesar de não ter vinhas próprias, o Hélder está a injectar o espírito inquieto de Vasco da Gama no portfólio de várias origens do Monte Cascas. Diga-me porque é que adora fazer-se à estrada.

Voltar aos velhos tempos, redescobrir os tesouros do país. Eu acredito que Portugal ainda é um excelente produtor de vinhos. Temos uma riqueza de variedades e terroirs que é única no mundo dos vinhos. Antes de ter estabelecido o Casca Wines, tinha a ideia de que os vinhos Portugueses ofereciam uma experiência de prova rara. Senti que com uma abordagem moderna à produção tradicional, poderíamos oferecer um novo e requintado paladar ao mundo dos vinhos. Antes do estabelecimento das cooperativas há 60 anos, as vinhas eram plantadas para produzir qualidade e não apenas quantidade. Adoro fazer-me à estrada porque é possível descobrir vinhas anteriores a esses tempos.

2. O X marca o local: O quê são e onde estão, na sua opinião, as melhores uvas do país e porquê?
Há alguns anos atrás, eu acreditava que a qualidade vinha de uma determinada área/região. Hoje em dia, uma vez que estamos a produzi em 10 DOCs diferentes, eu acredito que a qualidade vem do amor que damos ao nosso trabalho, Os melhores produtores de uvas são aqueles que amam as suas vinhas e isso é fácil de ver e de sentir! O nosso desafio agora é atingir a grandeza em diferentes DOCs.
No entanto, é um facto que é mais fácil cultivar uvas perfeitas em terroirs que tenham um solo neutro ou básico, um clima fresco mas seco, com varietais que tenham mais acidez. Temos que nos lembrar que Portugal é um país quente e que a proximidade ao Atlântico e a altitude ajudam a atingir um maior equilíbrio nas uvas (e nos vinhos).

3. Um produtor Australiano descreveu recentemente, as suas vinhas mais antigas e mais pressionadas como “os velhotes escanzelados” porque, inicialmente, os seus vinhos são pouco encorpados e precisam de tempo em pipa para revelar a sua graça e equabilidade – uma qualidade pouco em voga na nossa sociedade de consumo imediato. O Hélder empenhou-se em procurar os velhotes escanzelados – qual é a atracção para um rapaz novo como você?
O equilíbrio que uma vinha mais velha pode trazer, ajuda a mostrar o melhor da sua região. Os “velhotes escanzelados” são como os nossos avós a quem a experiência trouxe equilíbrio. Concordo com o produtor Australiano, estes vinhos precisam de tempo para atingir a sua graça, pelo que a única forma de os mostrar nesta sociedade de rápido consumo é partilhando-os, abrindo uma garrafa e explicando a sua origem e o que se espera nos próximos anos. Um dos nossos primeiros clientes privados que valorizou o facto de estarmos a fazer algo especial, acabou de nos escrever a pedir-nos a nossa primeira colheita de Malvasia de Colares, porque ele tem três caixas, mas quer comprar mais para envelhecer.

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Hélder Cunha – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

4. Compensa trabalhar com os velhotes escanzelados? Veja o Fernão Pires, uma variedade laboriosa que normalmente faz grandes volumes de vinho barato. É difícil desafiar a percepção desta uva mesmo que advenha de vinhas centenárias?
Sim, muito difícil! Apesar disso, os nossos clientes de exportação que conhecem pouco Fernão Pires, simplesmente não se importaram que a uva fosse usada para vinhos baratos. Olharam apenas à qualidade. Isto ajudou a convencer o público Português e, hoje em dia, o nosso Fernão Pires é conhecido pelos “connoisseurs”.

5. É difícil procurar e usar uvas de vinhas tão antigas e veneráveis ou elas são descuidadas, negligenciadas e bastante disponíveis?
É mais difícil agora do que quando começamos. Estas vinhas são negligenciadas e os fundos da União Europeia para a reestruturação das vinhas, dizimaram muitos dos “tesouros” que existiam. Também o preço das uvas que os agricultores recebem não reflecte a qualidade que se pode obter a partir das vinhas velhas. Por isso um agricultor elimina-as e planta vinhas novas. Portalegre, sem dúvida uma das melhores áreas para produzir um verdadeiro vinho Alentejano, é um bom exemplo. Hoje em dia, é muito difícil encontrar uma vinha muito antiga com uma quantidade viável de uvas porque a maioria foi abandonada quando as cooperativas entraram em declínio.

6. Tem planos para assentar e comprar a sua própria vinha ou será sempre um rolling (terroirista) stone?
Sim, um dia terei as minhas próprias vinhas, mas isso não quer dizer que deixe de ser um terroirista rolante.

A prova

Casca Wines Monte Cascas Colares Malvasia 2011 (Colares)
Malvasia de Colares é exclusivo da região de Colares e não existe muito. As uvas para este vinho, 36 caixas no total, vieram de duas vinhas velhas com mais de 80 anos a dois passos de distância (um quilómetro) do Atlântico, plantadas em – surpresa das surpresas – solo arenoso (chamado Chão de Areia), por cima do mais duro Chão Rijo, composto por calcário acastanhado. É um vinho muito complexo, redondo e texturado, mas fresco, com toques de cogumelo e pântano salgado do bosque no seu palato intensamente pedregoso e mineral. Único. 11,5%

Monte Cascas Vinha da Padilha Fernão Pires 2010 (Tejo DOC)
Fernão Pires é plantada em abundância no Tejo onde, pode dizer-se, a familiaridade desta casta gera desprezo. Mas tal não acontece com este vinho. Provém de uma vinha bush vine excepcionalmente envelhecida (com mais de 100 anos) em Almeirim, localizada em solo de argila aluvial cinzenta. Colhida na quarta semana de Outubro quando as uvas estavam, sem dúvida, super maduras, o resultante vinho envelhecido e dourado é rico e meio seco, com 6.2gr/lt de açúcar residual. No entanto, mantém-se bem equilibrado com uma acidez suavemente ondulada e muito bem integrada com o travo de camomila e caroço de pêssego, marmelo, damasco encerado e pêra seca. Longo e cremosamente sedoso na boca, este é um vinho sensual sobre o qual nos devemos demorar. Foi fermentado em 100% carvalho Francês (barricas antigas) onde estagiou durante 12 meses. Foram produzidas 54 caixas. 12%

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Transporte de uvas Ramisco para o Monte Cascas Colares Tinto – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

Casca Wines Monte Cascas Colares Ramisco 2009 (Colares)
Ramisco também é exclusiva de Colares, cujos solos arenosos protegeram esta uva tinta da devastação da phylloxera. Atraiçoando as suas raízes de “velhote escanzelado” (provém das mesmas vinhas do Malvasia de Colares), este vinho abriu desde a última vez que o provei em 2012. Um nariz tentador traz-me à mente beterraba e rábano recém-ralado – picante e de fazer estalar os lábios. Mostra o crocante e vívido mirtilo e fruta vermelha – romã, cereja vermelha madura e perfumada e framboesa. Um final persistente revela conotações deliciosas de cogumelo/trufa. Apesar de mais esguio e firme, apelaria aos amantes de Pinot Noir. 11%

Monte Cascas Vinha da Carpanha 2010 (DOC Dão)
Proveniente de uma vinha de baixa produção (2t/ha), com 56 anos de idade, em Penalva do Castelo, a 526 metros em solos graníticos com ardósia e argila, este é um vinho de um roxo profundo e opaco, com 65% Touriga Nacional e 35% Jaen. Especiarias escuras – alcaçuz e cravo-da-Índia – e carvalho mocha ligam-se com bergamota doce, agulhas de pinheiro secas, amora bem definida e cereja. Apesar dos taninos serem finos e do conjunto ser muito elegante, este estilo bem estruturado, escuro e reflexivo precisa de tempo para desfiar e livrar-se do seu carvalho novo, demasiado entusiasta (passou 24 meses em carvalho novo Francês) e para mostrar o seu melhor. Cunha não discordou da minha opinião sobre o carvalho e acredita que para as subsequentes colheitas Dão e Douro mono vinhas, o carvalho está melhor equilibrado. 14.5%

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Uvas – Foto cedida por Casca Wines | Todos os Direitos Reservados

Monte Cascas Vinha do Vale 2009 (DOC Douro)
Proveniente de uma vinha com 94 anos, de baixa produção (1t/ha), plantada em socalco de pedra, condução tradicional “em taça”, com mais de 20 castas diferentes, a 110m no Vale Torto. As uvas são parcialmente desengaçadas (30%) e esmagadas directamente para um lagar, após a fermentação, o vinho estagiou durante 24 meses em barricas novas de carvalho Francês. Esta colheita quente e muito seca, tem um tom profundo de beringela com um nariz balsâmico bastante avançado com ameixa assada e frutos pretos. Na boca é mais fresco, com uma mineralidade atractiva, amora e groselhas bastante sumarentas, picantes, com notas de eucalipto, pelo que é menos quente no palato que no nariz. Ainda assim, mais avançado do que eu esperaria. 14.5%

Monte Cascas Vinha das Cardosas 2010 (DOC Bairrada)
De uma vinha de alta densidade e pouca produção (2t/ha), que foi plantada em 1914 nos solos calcários da Cordinhã. Com vinhas Baga de condução tradicional “em taça” e um punhado de Maria Gomes (3%) & Bical (1%), passou por uma fermentação adequadamente tradicional em lagares com 30% de desengace. Um nariz e palato firmes e enrolados, tem um travo de agulhas de pinheiro verde (30% desengace) na sua fruta de ameixa, altamente concentrada, precisa, mas sumarenta, o que significa que limpa o (não tão tradicional) carvalho Francês novo, no qual estagiou durante 24 meses, com facilidade. Um chassis de taninos finos e acidez muito persistente mas bem integrada, apoiam um final longo e tenso. A Baga jovem e austera faria-me aguardar pelo menos uns cinco anos antes de voltar a dar outra olhadela. Muito prometedor. 13%

Contactos
Casca Wines, Lda.
DNA Cascais – Ninho de Empresas.
Cruz da Popa
2645 – 449 Alcabideche – Cascais, Portugal
Tel.: (+351) 212 414 078
Email: info@cascawines.pt
Site: www.cascawines.pt
Facebook: www.facebook.com/pages/Casca-Wines
Facebook: www.facebook.com/monte.cascas

Vinhos da Quinta do Fojo

Texto José Silva

Num ambiente rural, em pleno vale do rio Pinhão, com vinhas por todo o lado, fez-se uma prova vertical dos vinhos da Quinta do Fojo. O acesso à quinta é difícil e o troço final fez-se a pé, apreciando melhor a beleza da propriedade e da casa rural. A casa foi construída para os proprietários acompanharem as vindimas, muito bem inserida na paisagem, com pormenores muito interessantes, que têm sido mantidos e preservados.

O arvoredo envolvente faz a ligação natural com as vinhas que circundam a casa, com um enorme terreiro de permeio, para usufruir refeições de verão, como foi o caso, ou para apreciar um copo de vinho ao final da tarde na contemplação do pôr do sol duriense.

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Quinta do Fojo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois do ligeiro passeio, tomamos assento à mesa para a primeira prova vertical dos vinhos da Quinta do Fojo. E desfilaram pelos nossos copos as colheitas até agora existentes:

Vinha do Fojo 1996
Num ano de grande produção, apareceram vinhos muito interessantes, como este. Granada claro muito limpo, nariz elegante e requintado, cheio de perfume, bela acidez, ainda alguns frutos vermelhos, seco, refinado.

Fojo 1996
embora do mesmo ano tem uma atitude diferente, cor granada com laivos acastanhados, mais fechado, embora elegante e perfumado. Cheio, com bela estrutura, volumoso, óptimos taninos, muita fruta vermelha madura, longo, muito bom.

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Vinhos Provados – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fojo 1998
num ano diferente, um vinho diferente. Granada claro, elegante, nariz fantástico, requintado, mesmo perfumado e com algumas especiarias, fascinante. Envolvente e com acidez vibrante, taninos saborosos e belos frutos vermelhos, ligeiramente seco. Final imenso…

Fojo 1999
num ano difícil, um vinho muito interessante. Granada com laivos acastanhados, nariz elegante embora algo fechado, mas cheio de requinte, com notas ligeiramente mentoladas. Acidez equilibrada, ligeiramente seco, taninos persistentes, complexo, carnudo, com final longo.

Fojo 2000
em ano de muito bons vinhos, é vermelho granada intenso, nariz ainda fechado, profundo, requintado, muito elegante. Redondo mas seco, taninos poderosos a dar-lhe estrutura, frutos vermelhos ainda cheios de frescura, excelente acidez, um vinho cheio de juventude, para durar mais uns anos.

Fojo 2001
o primeiro ano do milenium revela belos vinhos como este. Granada médio, elegante, nariz intenso, cheio, com muita fruta vermelha. Elegante e com bela estrutura na boca, taninos seguros, acidez fantástica, ainda muitos frutos vermelhos, carnudo, com grande final.

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Casa da Quinta do Fojo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O almoço que entretanto foi servido, teve a companhia de todos os seis vinhos em prova, o que permitiu fazer várias combinações e perceber a prestação de cada um, agora com companhia. Os vinhos são muito gastronómicos, estão cheios de saúde, ainda vão evoluir por muitos anos. Seguros, com perfil evidente, as diferenças apenas influenciadas pelos diferentes anos, e preparados com as uvas das vinhas velhas do Fojo, são belos investimentos como vinhos de guarda, e, felizmente, ainda estão disponíveis todas as colheitas.

O Douro em toda a sua plenitude.

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Margarida Serôdio Borges – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Rita Marques – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde o início do projecto destes vinhos da Quinta do Fojo, o acompanhamento foi liderado pelo enólogo e amigo da casa, David Baverstock. Apenas na colheita de 2001 já não acompanhou a elaboração do vinho.

Houve entretanto uma paragem na produção destes vinhos, por opção dos proprietários, mas adivinha-se o regresso para breve, agora com a colaboração da jovem enóloga Rita Marques, uma confessa fã dos vinhos do Fojo. Juntamente com a proprietária, Margarida Serôdio Borges. É uma nova dupla de mulheres a dar cartas na produção de vinhos do Douro de excelência.

As vinhas velhas lá vão continuar a dar uvas fantásticas para os vinhos do Fojo…

Douro ou não Douro – Porquê a questão?

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

Muitos produtores de vinho descreveram o Douro como um “parque de diversões”. Com as suas encostas multifacetadas, as suas vinhas localizadas entre os 100 e os 900 metros, a sua miscelânea de castas, as permutações estilísticas parecem intermináveis. Poderíamos dizer que há uma infinidade de escolhas…

E no entanto, para alguns, tome-se como exemplo a minha última descoberta fora de pista – o Quinta da Romaneira Petit Verdot 2011 – as 118 castas aprovadas da região DOC Douro não chegam! O que explica o motivo pelo qual este tinto de casta única de uma das maiores quintas históricas do Vale do Douro está rotulado como Vinho Regional Duriense e não como DOC Douro.

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Vinho Regional Duriense – Fotode Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Devo confessar que tenho uma reacção automática tendencialmente negativa ao uso de uvas não locais (especialmente uvas estrangeiras), quando Portugal é dotado de castas nativas tão ricas e únicas que são o paraíso para qualquer amante de vinho. Bom, podemos perguntar então, o que há de tão bom no Petit Verdot? Mas usando as palavras de Tiago Teles, talvez a questão correcta seja será que as uvas “conduzem o local”?

Tendo amadurecido tarde (ainda mais tarde que o Cabernet Sauvignon) e portanto com maior risco, em Bordéus (onde tem a sua origem), o Petit Verdot é participante do blend tinto da famosa região Francesa (o chamado “sal e pimenta”). Mas transplantem-no para climas mais quentes e secos, onde tem muito melhor hipótese de amadurecer completamente, e o Petit Verdot transforma-se numa poderosa variedade por si só. Na realidade, tendo em conta que as vinhas foram plantadas apenas em 2006, não pude senão ficar impressionada pela concentração e estrutura do Quinta da Romaneira Petit Verdot.

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Christian Seely na Quinta da Romaneira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Não que o Douro tenha falta de vinhos concentrados e estruturados. Então por que motivo terá Christian Seely, co-fundador da Romaneira e seu Director Executivo, plantado esta vinha quando supervisionou a renovação da quinta do século XVII, após a sua aquisição em 2004? Terá sido um capricho Francês, uma vez que Seely também é o Director Executivo da francesa AXA Millésimes, detentora das vinhas Château Pichon-Baron, Petit Village e Suduiraut em Bordéus?

Não sendo pessoa para medir as palavras, Seely diz simplesmente “deu-se incrivelmente bem”. Tão bem na realidade que ele enxertou vinhas na Quinta do Noval (que faz parte do portfolio da AXA Millésimes). É o teste de acidez que explica o motivo pelo qual tanto a Romaneira como a Noval também produzem um Syrah (tendo este último sido seleccionado como um dos meus 50 Grandes Vinhos Portugueses em 2010). Explica também a razão pela qual Seely deu pouca atenção à variedade icónica de Bordéus, o Cabernet Sauvignon. Apesar de ter sido plantado na vinha de Noval no Vale Roncão, Seely contou-me numa visita há uns anos atrás, de forma que não posso esquecer: enquanto o Syrah “se adaptava bem ao Douro, o Cabernet destacava-se como um vulgar turista.” Basta dizer que as vinhas Cabernet foram rapidamente substituídas pela casta autóctone Touriga Franca!

Aqui ficam as minhas notas sobre o Quinta da Romaneira Petit Verdot 2011, seguidas de seis outros vinhos Durienses a ter em atenção, quatro dos quais notarão que são feitos por produtores nativos do Douro! De facto, considero que a Real Companhia Velha e a Niepoort produzem a maior gama na região de variedades não-locais.

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Quinta da Romaneira Petit Verdot – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Quinta da Romaneira Petit Verdot (Vinho Regional Duriense)
Da colheita excepcional de 2011, este Petit Verdot tem uma tonalidade profunda, opaca e brilhante como pele de beringela. O nariz é poderoso e muito vinoso, com groselha rica, bolo de frutas picante e couro curado, todas estas notas acompanhadas por um palato amplo mas bem equilibrado, com taninos corroborantes, maduros e presentes. Gosto particularmente da forma como abraça o palato – há uma adorável intensidade e peso de fruta, para além de um toque de pó do Douro e de eucalipto, no final longo e ondulado. Ainda assim, duvido muito que conseguisse adivinhar a proveniência deste vinho se o provasse às cegas. Muito bom. Na realidade, o melhor Petit Verdot varietal que já provei (embora de uma amostra pequena). 14%

Outros vinhos Duriense a ter em atenção
Lavradores de Feitoria Tres Bagos Sauvignon Blanc
Real Companhia Velha Delaforce Alvarinho
Poeira Branco (Alvarinho)
Niepoort Pinot Noir
Quinta do Noval Labrador Syrah
Quinta do Noval Cedro

Contactos
Quinta da Romaneira
Cotas
5070 – 252  Alijó
Portugal
Tel: 259 957 000
Fax: 259 957 009
Email: info@quintadaromaneira.pt
Site: www.quintadaromaneira.pt

Dominó de Vítor Claro

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Quando as pessoas falam de vinhos “food friendly”, sempre achei que se trata de uma das mais incorrectas descrições de vinho que por aí andam, da mesma forma que terroir ou mineralidade. “Este é sem dúvida um vinho food friendly”. Ai sim? Que tipo de comida? É um bocado vago, não acha? Há vinhos que não sejam food friendly? Vinhos que, pura e simplesmente, não vão com nada? Eu sei que há vinhos que não precisam de ser acompanhados por comida para serem bastante agradáveis, mas nunca provei um vinho que não combine com nenhum tipo de comida. Também nunca conheci um produtor de vinhos que não faça vinhos food friendly, na sua opinião. Ainda assim, a expressão food friendly é muitas vezes usada pelos escritores de vinho e outros profissionais da área para descrever um determinado estilo de vinho. A razão pela qual sei isto, é que também eu o faço imensas vezes. É uma maneira preguiçosa de dizer que o vinho é bom.

Há com certeza vinhos, que precisam mesmo de comida para mostrar o seu melhor. Alguns vinhos conseguem ser bastante ásperos e de abordagem difícil, se não tivermos alguma comida que os acompanhe. As pessoas estão habituadas a vinhos que podem ser abertos um minuto depois de serem comprados, mas tradicionalmente, os vinhos que devem envelhecer, especialmente os tintos, têm uma estrutura que pode ser desagradável para a maioria daqueles que os prova. Não são necessariamente vinhos grandes e encorpados, mas antes bastante tânicos, com elevada acidez e são estas duas qualidades que as pessoas normalmente associam a vinhos que vão bem com comida.

Dito isto, há algo de mágico, algo que é impossível de medir, quando combinamos comida excelente com vinho excelente e eles se complementam perfeitamente.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os direitos reservados

Entra aqui Vitor Claro, restauranteur, Chef, produtor de vinhos. Este gastronauta Português gere o seu próprio restaurante “Claro!” em Paço de Arcos, perto de Lisboa. Trabalhou em restaurantes por todo o Portugal e Londres, mas em 2012 abriu o seu próprio espaço. Pelos vistos, apanhou o bichinho do vinho de Dirk Niepoort que é algo que acontece frequentemente com o Dirk. Passaram-se alguns anos a visitar produções de vinhos e a provar imenso vinho.

Começou então a surgir a ideia de fazer o seu próprio vinho. Encontrou duas parcelas de vinhas na região de Portalegre, Alentejo. Agora quando digo Alentejo, esqueçam. Porque estes não são os típicos vinhos Alentejanos. Este projecto relativamente novo é pequeno, apenas 800 garrafas de cada vez. É tão pequeno na realidade, que haverá quem se pergunte para quê o trabalho. No fim muito poucos serão os que terão a oportunidade de provar estes vinhos. Não por serem demasiado caros, mas por ser uma quantidade muito limitada. Tenho a certeza que a ideia não terá sido criar vinhos de sucesso massificado, mas fazer algo diferente que mostre a tipicidade da região, que não é muito bem conhecida, mesmo dentro de Portugal. Não obstante é uma prova. Uma prova da inegável qualidade a nível mundial dos vinhos Portugueses.

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Vítor Claro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os direitos reservados

Dominó Monte das Pratas 2011
Este vinho é feito de castas como Alicante Branco, Moscatel Nunes, Fernão Pires, Dorinto, Tamarez, Síria, Pérola e um monte de outras. Vinhas velhas com uma média de idades de 70 anos, localizadas 800 metros acima do nível do mar. 10 meses em barris de carvalho usados.

Um nariz muito único. Aromas de funcho e maçã verde com um agradável toque floral, provavelmente do Moscatel. Não tão aromático no paladar mas muita estrutura. Acidez igual a lamber uma vedação eléctrica. Muito bom. 

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Dominó – Foto de Ilkka Sirén | Todos os direitos reservados

Dominó Salão do Frio 2011
Blend tinto das castas Alicante Bouschet, Tinta Francesa, Moreto, Castelão, Trincadeira e outras. A idade média da vinha é de 50 anos, também localizada 800 metros acima do nível do mar. 20% sem desengace. 15 meses em barris usados.

Início forte em especiarias: imagine snifar uma linha de pimenta preta. Um fim aveludado de alcaçuz. Austero, aperto dos taninos, um exterior rude mas ainda delicado com alguma boa fruta de fundo. Desde o início que é óbvio que este vinho é demasiado jovem. Devia ter um sinal no gargalo da garrafa a dizer “beba-me mais tarde!” Este vinho não tenta agradar a todos. Em vez disso, detém uma surpresa para aqueles que tenham a paciência para esperar. Um dos vinhos tintos mais excitantes em Portugal no momento. Estelar.

Contactos
Av. Marginal, Curva dos Pinheiros, Hotel Solar Palmeiras
2780-749 Paço de Arcos
Telefone: 214 414 231
Site: www.restauranteclaro.com

Caves São João – Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1983 – 1985

Texto João Pedro de Carvalho

Não se pode falar da história do vinho do Dão, uma das mais antigas regiões vitivinícolas de Portugal, demarcada em 1908, sem mencionar as carismáticas Caves São João e os seus míticos Porta dos Cavaleiros dos anos 60 e 70.

Alguns deles fazem mesmo parte do lote dos melhores vinhos alguma vez feitos em Portugal. As Caves São João foram fundadas em 1920 pelos irmãos José, Manuel e Albano Ferreira da Costa, mas apenas em 1959, já com os descendentes dos fundadores, Alberto e Luís Costa, iriam surgir as marcas que lançaram as Caves São João para o estrelato – o Frei João (Bairrada) e o Porta dos Cavaleiros (Dão) cujo Reserva ostenta um bonito rótulo de cortiça, inovador para a altura.

Caves S. João – Foto de João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Sem produção própria ou sequer vinificação na região do Dão, limitavam-se a comprar vinhos nas adegas cooperativas e em algumas quintas da região para posterior estágio e loteamento na sua sede localizada na Bairrada.

Aqui foi decisivo o grande conhecimento que os irmãos Alberto e Luís Costa detinham sobre a região, facto que lhes permitiu adquirir/abastecer de forma continuada com alguns dos melhores vinhos de toda a região.

A mestria com que dominavam a arte do lote e tendo em conta a qualidade da matéria-prima disponível, permitiu criar vinhos de excelsa qualidade com um cunho muito próprio aliado a um perfil marcadamente clássico da região, vinhos que perduraram na sua grande totalidade até aos dias de hoje.

Com a evolução dos tempos e consequente evoluir da região do Dão, passou a DOC em 1990, no final dos anos 80 muitos dos que antes forneciam as Caves São João com os melhores vinhos enveredaram pela produção própria, desta maneira a qualidade dos lotes disponíveis como seria de esperar sofreu um rude golpe.

No silêncio das caves residem nos dias de hoje mais de um milhão de garrafas que resistiram imaculadas à passagem do tempo e cujos vinhos na maior parte dos casos mostram uma saúde invejável. É pois todo um privilégio e uma rara oportunidade para os apreciadores poderem entrar em contacto com toda a glória e esplendor de tempos que já não voltam.

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985 – Foto de João Pedro Carvalho | All Rights Reserved

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1983 (Dão) 

Mostra o aroma clássico que de imediato nos remete para a sua região de origem, o Dão.
Precisa de tempo no copo, complexo e profundo com muito mato, caruma, ervas de cheiro, fruta negra (cereja, framboesa) sumarenta bem limpa e fresca a ser acompanhada por notas de violeta, fumado, terroso e especiado (pimenta). Mais robusto que o 1985 com uma presença vegetal mais acentuada, pleno de harmonia na boca com muita fruta madura, cereja em destaque, pinheiro e especiaria, tudo com grande frescura, corpo médio numa passagem pelo palato sedosa e cheia de vivacidade, final longo e persistente.

Porta dos Cavaleiros Reserva Seleccionada 1985 (Dão)

Aroma clássico da região, quase que em forma de compêndio, mais fresco e definido que o 1983, embora de igual patamar de qualidade, aqui com a energia de uma fruta vermelha (bagas silvestres) muito viva, tabaco seco, fumo, ameixa seca, pinhal, cheio de finesse. Boca cheia de fruta viva e suculenta que apetece trincar, acetinado no palato, um autêntico prazer que apetece beber, fantástico equilíbrio e uma frescura invejável. Um hino ao que de melhor o Dão e Portugal têm para oferecer. Vinho de classe mundial? Porque não.

Contactos
Caves de São João
São João da Azenha, Anadia, Ap-1
3781-901 – Avelãs de Caminho, Portugal
Phone: + 351 234 743 118
Email: geral@cavessaojoao.com
Site: http://www.cavessaojoao.com/

Breves momentos com a Casa da Passarella

Texto Ilkka Sirén | Tradução Patrícia Leite

Eu gosto de vinho. Eu gosto de comida. Eu gosto de estar com boa gente. Gosto particularmente de todas estas coisas juntas. Sempre que possível, tento rodear-me de pessoas com quem gosto de passar uns bons momentos, a maioria das quais partilha o meu entusiasmo por tudo o que seja apetitoso. Nunca tive problemas em apreciar um ou dois copos sozinho, mas o vinho, como a comida, é uma coisa que é realmente melhor quando partilhado.

Acho que essa é uma das principais razões pelas quais eu adoro Portugal. Não é preciso muito para convencer um Português a desfrutar de um copo de vinho connosco, a partilhar um pouco de comida, a partilhar um breve momento nesta nossa vida errática. Por muito lamechas que soe, a vida é uma compilação desses breves momentos. Portanto, dentro deste espírito, eu convidei alguns amigos para provar uns vinhos da região do Dão.

Casa da Passarella é uma propriedade que tem uma daquelas histórias tipo “adega arruinada salva por milionário”. A propriedade data de 1892 e era um projecto muito ambicioso de um senhor chamado Amand d’Oliveira. Plantaram 200 hectares de vinhas, que imagino tenha sido uma tarefa árdua naquela altura. Algumas dessas vinhas ainda existem. Mas como acontece com tantas outras propriedades, tudo acabou em ruinas. Pelo menos até 2007, quando a propriedade foi adquirida por Ricardo Cabral. Uns anos e uns milhões de euros depois, bada-bing-bada-boom, a Casa da Passarella começa a dar cartas novamente.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Portanto, os meus amigos vieram cá a casa e eu abri uma garrafa de Casa da Passarella O Enólogo Encruzado 2012. O vinho começou tímido, mas passado um bocado começou a abrir. A maior parte dos encruzados que vejo aqui na Finlândia são muito relaxados e normalmente, bastante maduros mostrando toneladas de frutas tropicais. Podem ser bastante agradáveis, mas não é o estilo que normalmente escolho. Contrariamente, este vinho era menos frutado e mais contido, mostrando agradáveis citrinos e aromas de ervas verdes com um final longo, de deixar água na boca. Eu desafiei um bocado o vinho, ao emparelhá-lo com uma salsicha txistorra picante. Foi pura e simplesmente pecaminoso, e por pecaminoso quero dizer, pecaminosamente delicioso. A ligeira viscosidade do encruzado funcionou bem com as especiarias e a acidez cortou a gordura da salsicha, tornando a combinação deliciosa.

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Salsicha Chistorra & Casa da Passarella O Enólogo Encruzado 2012 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois veio a altura do tinto. Provamos o O Oenólogo Vinhas Velhas 2010 tinto, um vinho feito de vinhas velhas com uma mistura de castas locais como Baga, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Jaen, Tinta Carvalha etc. O nariz era especiado com boa fruta vermelha. O que eu gosto nestes vinhos do Dão que vêm de perto da Serra da Estrela é que são tendencialmente frescos. É sem dúvida uma região mais fresca, o que se consegue provar nos vinhos. Este vinho tinha uma boa estrutura, cheio de corpo e equilíbrio. Estava à espera de algo mais “rústico” mas, pelo contrário, revelou-se bastante polido. Cheio de corpo, taninos suaves, gosto persistente. Muito bebível agora mas dentro de 5 a 10 anos pode transformar-se num verdadeiro sedutor de deixar cair o queixo.

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Casa da Passarella O Oenólogo Vinhas Velhas 2010 Tinto – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Portanto, ali estávamos nós. A beber, a comer, a rir enquanto víamos o sol a pôr-se em Helsínquia. Só foi preciso um pouco de vinho, um bocadinho de comida e alguns amigos para me fazer, durante aquele breve momento, verdadeiramente feliz.

Contactos
Casa da Passarella
Rua Santo Amaro, 3, Passarella
6290-093 Lagarinhos
Telefone: 00 351 238 486 312
Email: info@casadapassarella.pt
Site: www.casadapassarella.pt

Roques & Maias – Os Novos Clássicos do Dão

Texto João Pedro de Carvalho

Se há produtores marcantes quer ao nível da Região quer ao nível dos vinhos que produz, o proprietário da Quinta dos Roques (Mangualde) e da Quinta das Maias (São Paio de Gouveia) é seguramente um desses casos, assumindo-se como um dos melhores produtores de Portugal e um dos pilares da Região do Dão.

A Quinta dos Roques fica situada a 450 metros de altitude, onde predominam os solos arenosos com presença de granito. Num total de 40 hectares divididos em 12 parcelas, viu em 1978 o seu vinhedo ser reconvertido para o que conhecemos hoje em dia. A Quinta das Maias fica situada no sopé da Serra da Estrela, em pleno Parque Natural a 600 metros de altitude, sendo a vinificação feita, desde 1992, na Quinta dos Roques.

A característica dominante desde que surgiram em 1990 é o fantástico equilíbrio que os seus vinhos conseguem mostrar entre elegância e potência, numa combinação perfeita entre o clássico e o moderno, aliada a uma tremenda vocação gastronómica. Neles encontramos um fio condutor que se soube manter através do tempo e ao longo da sua gama, tal como uma invejável consistência colheita após colheita, sempre alheados de modas ou das tentações mercantilistas do agrado fácil, mostram uma saudável austeridade que mesmo assim lhes permite um desfrute pleno enquanto novos.

FOTO 1 - ROQUES

Quinta das Maias (Jaen 1999) – Quinta dos Roques (Touriga Nacional 1999 | Alfrocheiro Preto 1999 | Reserva 1999) – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O grande responsável por tudo isto é Luís Lourenço, membro do grupo de produtores Independent Winegrowers Association e um dos pioneiros e principais responsáveis pelo ressurgimento do “novo” Dão, aquele que em parte hoje conhecemos e apreciamos. Mantendo-se leal no que toca à região, quebrou em parte com os tradicionais vinhos de lote e cedo decidiu vinificar a solo as castas de que dispunha. Daqui resultou um melhor entendimento das castas e dos seus locais, permitindo aprimorar o perfil dos vinhos produzidos, tanto nos Roques como nas Maias e entender qual o melhor contributo de cada uma para o lote final. O culminar desses seus estudos surge pela primeira vez no ano de 1996 com o lançamento dos seus primeiros monocasta a que chamou Colecção e cuja iniciativa se tem repetido até aos dias de hoje sempre que os anos tenham qualidade para tal. Durante os primeiros anos a enologia esteve a cargo do Prof. Virgílio Loureiro que deu lugar em 2002 a Rui Reguinga.

Início de prova com o branco Quinta dos Roques Encruzado, um vinho que precisa de descansar dois a três anos após ser colocado no mercado para ganha uma outra dimensão, a nível da complexidade de sabores e aromas. Neste caso é um 2004 que com dez anos se mostra na plenitude das suas capacidades. Nos tintos foi feita uma pequena retrospetiva do ano 1999 em que todos os vinhos em prova se apresentaram com 12,5%Vol., estando presente o Quinta das Maias Jaén, Quinta dos Roques Alfrocheiro Preto, Quinta dos Roques Touriga Nacional e Quinta dos Roques Reserva.

Quinta dos Roques Encruzado 2004 (DOC Dão): Espetacular envolvência de aromas, complexidade envolta numa onda fresca com toque melado. Fruta (Citrinos) madura, suculenta, resina, rebuçado de limão, profundo e cativante. Boca com boa frescura a envolver a fruta, untuoso, grande presença com muita harmonia, final longo e persistente.

FOTO 2 - ROQUES

Encruzado Quinta dos Roques 2004 – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Quinta das Maias Jaén 1999 (DOC Dão): É um miminho bom, cheio de fruta (amora, cereja, mirtilo) limpa, redonda e rechonchuda, envolta em frescura. Perfumado, sempre com um ligeiro toque rústico, bosque, flores, pinheiro. Delicada e refinada complexidade com palato de veludo tão característico do Dão, fresco e ainda com alguma garra a mostrar secura num prolongado e especiado final.

Quinta dos Roques Alfrocheiro Preto 1999 (DOC Dão): Mais escuro e fechado que o Jaén, fresco, fruta densa e mais gulosa com destaque para morango, bagas silvestres muito envolvente com rama de tomate e especiarias a complementar. Entra mais saboroso e domado na boca, mais acidez presente envolta por uma capa vegetal, muita e boa fruta pelo meio num conjunto de grande presença e envolvência, final longo.

Quinta dos Roques Touriga Nacional 1999 (DOC Dão): Sente-se a Touriga no nariz, violetas, bom perfume, evolução grande no copo com fruta resplandecente e muito madura (bagas, mirtilos, bergamota), baunilha, caruma, pinheiro, chocolate e tabaco num conjunto profundo e conversador. Boca com enorme vida e presença, muita classe com harmonia e sabor marcado pela fruta opulenta que se mastiga, folha seca de tabaco, final longo e persistente deste glorioso Touriga Nacional.

Quinta dos Roques Reserva 1999 (DOC Dão): Mostra a arte e mestria do lote, depois de provadas algumas das principais castas que lhe compõem o lote, faltou Tinta Roriz e Tinto Cão. Perfeito entendimento das castas num conjunto cheio de classe, terciários de grande qualidade, fina complexidade de um conjunto muito composto, fresco e apelativo. Boca com frescura, fruta viva e saborosa a marcar o palato, boa concentração em equilíbrio com acidez e corpo de média estrutura. Sem cansar, este vinho brilha à mesa com a mais variada gastronomia. Um prazer.

Contactos
Quinta dos Roques
Rua da Paz – Abrunhosa do Mato
3530-050 Cunha Baixa – Portugal
Phone: 00 351 232 614 511
Email: info@quintaroques.pt
Site: www.quintaroques.pt/

António Madeira, A Estrela em Ascensão do Dão Serrano

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Estive recentemente num encontro de um grupo de wine bloggers Finlandeses. De vez em quando, este grupo de geeks sedentos encontra-se para provar alguns vinhos, normalmente “às cegas”, e comer boa comida. E já me conhecem, não é preciso muito para me convencer a comer e a beber.

Inicialmente era suposto fazermos um picnic ao ar livre, mas o tempo não esteve do nosso lado, por isso refugiamo-nos numa adega, localizada na baixa de Helsínquia. Toda a gente trouxe algumas garrafas e servimo-las “às cegas”, uns aos outros. A noite teve um começo dramático quando um dos bloggers deixou cair ao chão, uma garrafa de champagne Pommery NV dos anos 70, que se partiu juntamente com uma garrafa de Blanc de Noir, um vinho branco tranquilo de já-não-me-recordo-de-onde. Passados 15 minutos a praguejar e a desdenhar silenciosamente, continuamos com a prova. Na realidade, os rapazes conseguiram salvar parte do champagne antigo e vertê-lo em alguns copos de vinho, usando um filtro de café. Estava altamente oxidado e já tinha passado o seu auge há bastante tempo, mas ainda era bastante interessante para aqueles que gostamos de, ocasionalmente nos entregar à necrofilia viníca.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Havia todo o tipo de vinhos a ser servidos, do neozelandês Grüner Veltliner ao Pinot Noir Catalão. Um dos vinhos que eu trouxe, foi um António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011. Esta foi muito provavelmente, a primeira vez que foi provado na Finlândia e eu estava curioso por ouvir o que as pessoas pensavam do vinho.

António Madeira é um tipo francês mas que tem as suas raízes em Portugal. Começou a procurar uma vinha na região de vinho do Dão em 2010 e encontrou um vinhedo de 50 anos, que tinha sido negligenciado, no sopé da Serra da Estrela. António assumiu a tarefa de a recuperar e em 2011 produziu o seu primeiro vinho desta vinha. Eu tinha visto algumas fotografias deste lugar, que parece uma mini versão de Mendoza com a Serra nevada de fundo. Não tão grande nem dramática como os Andes, mas ainda assim muito bonita.

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Queijo – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quando o servi aos meus amigos wine geeks na prova cega, eles tiveram muita dificuldade em localizar com precisão a sua origem. Não porque não tivesse um carácter distintivo, mas apenas porque os vinhos do Dão são quase completamente desconhecidos na Finlândia. Uma situação que espero que mude no futuro. A hipótese mais próxima foi a Galícia. Depois de cheirar e de provar, ou melhor, depois de o beber, a opinião geral parecia muito positiva. As pessoas reconheceram que ainda era um vinho muito jovem, mas que tinha sem dúvida potencial para envelhecer bem.

Então, o que achei do vinho? Eu já o tinha provado uma vez no evento Simplesmente Vinho, no Porto. Lembro-me de ter provado muitos vinhos nesse dia. Nestes eventos vínicos, mesmo um bom vinho, pode escapar ao nosso radar. Fiquei feliz pela oportunidade de o provar outra vez. O que me surpreendeu neste vinho foi o facto de António, que é um rapaz novo, não ter exagerado. Poderá questionar-se “porque é que isso é tão surpreendente?” mas, da minha experiência, muitas vezes quando estes jovens ases fazem o seu primeiro vinho, têm tendência a produzir vinhos para impressionar os outros ou para provar um ponto de vista. Demasiada extracção, demasiado carvalho, demasiado “natural” ou qualquer outra aldrabice. Deve manter-se o ego fora da equação e deixar que as vinhas falem por elas próprias e, neste caso, parece que António fez precisamente isso. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito sobre os vinhos Dão Serrano no futuro.

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António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

António Madeira Dão Vinhas Velhas 2011

Esta velha vinha tem uma mistura de castas tradicionais Portuguesas como Tinta Pinheira e Negro Mouro. O vinho tem um toque muito clássico. Fruta vermelha viva com o aroma a pinheiro verde que encontro com frequência nos vinhos do Dão. Boa estrutura e frescura que lhe dá uma boa apetência a ser bebido, já nesta idade. O que poderá explicar por que motivo a garrafa se esvaziou tão rapidamente. Um vinho bem equilibrado que nos faz questionar por que motivo os vinhos do Dão não são conhecidos mundialmente. Bom, que seja ouvido! Estes vinhos conseguem conquistar as mentes e os corações de qualquer entusiasta vinícola de Tóquio ao Rancho Cucamonga.

Contactos
António Madeira
Tel: + 33 680633420
Email: ajbmadeira@gmail.com
blog “A palheira do Ti Zé Bicadas”
vinhotibicadas.blogspot.fr

Vale dos Ares – Um novo Alvarinho de um novo Produtor!

Texto Olga Cardoso

“Vale dos Ares” é uma marca inspirada no nome do antigo concelho de Valadares = Vale dos Ares. “O antigo concelho de Valadares oficializou a sua existência no ano de 1317, ocupando à data a maior parte da área geográfica da sub-região de Monção e Melgaço. Devido à sua dimensão e capacidade de gerar riqueza, bem como alguma incapacidade dos Reis em controlar a irreverente população, a sua autonomia foi continuadamente adiada desde a fundação de Portugal. É esta vivacidade e entusiasmo da gente de Valadares que pretendemos assumir como os valores da marca “Vale dos Ares”.

Esta marca é titulada pela empresa MQ Vinhos, uma jovem empresa familiar que, nas palavras do produtor – Miguel Queimado – abraçou com toda a paixão o conceito de “boutique winery”, dedicando-se à produção de vinhos DOC. A MQ Vinhos está localizada na Quinta do Mato, precisamente a meio da sub-região de Monção e Melgaço e está na propriedade da família desde 1683.

A responsabilidade enológica está a cargo de uma mulher, Gabriela Albuquerque, sendo o objectivo primordial da equipa produzir um vinho único, feito com toda a atenção e cuidado, com controlo a par e passo de todos os momentos de produção, quer da uva, quer do próprio vinho.

Imbuídos de forte paixão, pretendem apresentar ao mercado um vinho que expresse, de forma perfeitamente clara e evidente, todas as características do seu terroir.

Efectivamente, parece ser este respeito pela singularidade da casta Alvarinho e pelo terroir que lhe serve de berço, que lhes permitiu produzir um vinho que não se limita a ser apenas mais um Alvarinho! Nasceu para ser uma boa referência da “latitude” Monção-Melgaço!

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Vale dos Ares Alvarinho 2013 © Blend All About Wine, Lda.

Só provei a colheita de 2013. Ainda assim, poderei afirmar que se trata de uma estreia do produtor, uma vez que este vinho saiu para o mercado com a colheita de 2012.

Com um perfil bastante aromático, mas sem máscaras ou excessivas exuberâncias, mostra-se muito fresco e com uma acidez bem controlada. Apesar dos seus toques tropicais, com o maracujá e o ananás em perfeita evidência, sobretudo no seu ataque inicial, a verdade é que com o decorrer da prova, são as suas notas cítricas e minerais que se fazem mais sentir.

Elegante, equilibrado e com notável estrutura de boca, afigura-se o companheiro ideal para mariscos e peixes grelhados. Termina de forma séria, focada e harmoniosa. Não existe historial para que lhe possamos aferir uma adequada longevidade, mas poderei vaticinar-lhe uma complexante evolução em garrafa entre os 3 e os 5 anos, desde que devidamente acondicionado para o efeito.

Um curioso Alvarinho, que nos deixa a curiosidade para o seguir bem de perto!

Contactos
MQ Vinhos, Unipessoal Lda
Quinta do Mato, sn, Lugar do Mato
4950-740 Sá-MNC
Tel: (+351) 251 531 775
Telemóvel: (+351) 934 459 171
Email: info@mqvinhos.pt
Site: mqvinhos

Conceito Branco – Um Grande Vinho do Douro Superior

Texto João Pedro de Carvalho

Em visita recente ao Douro Superior tive oportunidade de provar algumas colheitas daquele que é um dos melhores brancos feitos em Portugal, o Conceito da enóloga Rita Marques Ferreira. No total foram provadas quatro das seis colheitas já lançadas no mercado, relembro que a primeira colheita deste branco foi 2006, mas em prova apenas estiveram os 2008, 2009, 2010, 2011 aos quais se juntou à última da hora o 2012.

Este fantástico vinho branco nasce em terras de Cedovim (Douro Superior), na Quinta do Cabido, onde residem os 10 hectares de vinha exclusivamente destinados para castas brancas, num planalto localizado a 500 metros de altitude. A transição de solos faz com que por ali mande o granito, em parte responsável pela excepcional qualidade destes vinhos, a outra parte provém da mão da enóloga, influenciada pelo tempo que esteve em Bordéus, onde foi aluna e estagiária do “guru” dos brancos de Bordéus (Denis Dubourdieu).

Na visão muito própria que a enóloga tem pela região e pelos vinhos que cria, nascem brancos de Conceito muito particular, num perfil diferente, mais fresco, sem arestas e onde o detalhe e equilíbrio é palavra de ordem. Dominam as castas locais, Rabigato, Códega do Larinho e Gouveio provenientes de vinhas muito velhas. A passagem por madeira tem vindo a ser afinada e as barricas novas deram lugar a barricas usadas (madeira Francesa e do Cáucaso).

A boa notícia, ou confirmação daquilo que poucos pensavam no início, é que a evolução dos vinhos em causa tem sido fabulosa e não é obra do acaso. Aliás, o Conceito branco tem vindo a ser afinado ao longo das suas “curtas” seis colheitas de história, mostrando-se sempre predicados mais que suficientes para conquistar, por direito próprio lugar entre os grandes vinhos brancos de Portugal.

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Alto Douro Vinhateiro – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Resrvados

Conceito branco 2008 (DOC Douro)
Complexo, amplo com a sensação de pão torrado a mostrar uma barrica muito bem integrada num conjunto cheio de harmonia, que alia frescura com flores e fruta de qualidade (citrinos, pêra) envolta em leve calda. Nada beliscado pelo tempo, boca com muito sabor, frescura e finesse, corpo cheio de detalhe num fundo fresco e mineral. Final longo e persistente.

Conceito branco 2009 (DOC Douro)
Mais amplo e texturado que o 2008, muita frescura num blend com uma fruta (citrinos, pêssego) sólida, bem madura e limpa, nada tocada pelo tempo e com grande pureza de conjunto. Um pouco menos expressivo mas sempre com harmonia e classe, tão características, mostra notas fumadas de uma madeira plenamente integrada, que o arredonda e embala no palato, sem perder o travo fresco e mineral de fundo.

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Conceito White – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Resrvados

Conceito branco 2010 (DOC Douro)
A partir desta colheita a madeira nova perdeu presença, dando ainda mais lugar à fruta (toranja, lima, pêssego) que se apresenta desta forma com maior frescura e definição. O conjunto mantem-se de igual forma em grande nível, complexo e profundo, mais floral e mineral, embora muito mais rico em delicadeza. Mineralidade sentida num conjunto fresco, com vigor que mostra maior sensação de pureza durante toda a prova.

Conceito branco 2011 (DOC Douro)
Vem na boa linha do 2010, aqui muito fino de acidez e conjunto, muito mais delineado nos aromas e sabores. Conjunto complexo, com boa exuberância da fruta (citrinos, pêra). Madeira em grande harmonia, mostra-se afinado, com boca cheia de sabor e frescura, muita classe numa prova repleta de prazer e vivacidade.

Conceito branco 2012 (DOC Douro)
Somos dominados pelos citrinos e pela mineralidade, da madeira pouco ou nenhum sinal, apenas aquela nota de pão torrado que marca toda a linha. Depois quase que ficamos reféns de uma ligeira austeridade mineral que nos domina por instantes, quer o nariz quer o palato, num conjunto ainda tenso, cheio de nervo que se pode até confundir, por momentos, como algo duro no palato e fechado no nariz.

Contactos
Conceito – Vinhos
Tel: (+351) 939 000 350
Fax: (+351) 279 778 059
Email: conceito@conceito.com.pt
Site: www.conceito.com.pt