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Druida tinto 2012

Texto João Pedro Carvalho

Na minha vida nunca procurei, nem sequer me agradou, tudo o que seja produto produzido em larga escala, salvo as raras e necessárias exceções à regra, em tudo o resto sempre procurei os pequenos produtores nas mais variadas áreas. Durante anos fui praticante de XC (Cross Country) e como tal fazia parte de um mundo onde se procuram produtos/materiais com alta taxa de rendimento/duração aliando o peso reduzido e preço ajustado, o que na última situação raramente acontece. Transportando para o mundo dos vinhos, o que procuro continua dentro dos mesmos parâmetros de qualidade/satisfação onde o preço de produto de pouca tiragem por vezes se paga caro mas onde na quase totalidade dos casos o investimento a longo prazo é positivo.

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Druida tinto 2012 – Foto de João Pedro Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Os pequenos “ateliers” ou direi adegas de autor que têm surgido em Portugal nos últimos anos têm feito a diferença e delícia de um nicho de consumidores ansiosos por vinhos de identidade bem vincada com tiragem reduzida. A sensação de exclusividade em ter na mão uma garrafa de vinho de qualidade cuja tiragem do vinho se limitou a 96 ou 200 garrafas é mais um dos motivos de alegria para muitos. Não é pois de estranhar que em quase todos estes projetos o destaque natural centra-se no terreno, mais propriamente na vinha quase sempre de área reduzida, com os vinhos a expressarem de forma clara a terra/local que os viu nascer.

É este o caso do Druida tinto 2012, a mais recente criação da dupla: Nuno do Ó e João Corrêa, após o sucesso que foi o Druida Reserva branco. Há acasos que vêm em boa altura, e a forma como surge este tinto é um desses exemplos. Aconteceu no dia em que se passava o mosto de Encruzado para barricas e se reparou que tinham sobrado duas barricas. O pensamento imediato do que fazer teve como resposta, um tinto. E foi exatamente da parcela vizinha à da de Encruzado na Quinta da Turquide, composta por Jaén, Touriga Nacional, com algum Alfrocheiro e Tinta Pinheira. O resultado foram 2 barricas de 228 litros que repousaram durante 20 meses na adega, resultando cerca de 500 garrafas de um tinto cheio de garra e frescura. Tal como no branco notamos que precisa de tempo para que tudo se arrume e a prova nos proporcione mais prazer do que já dá, apesar da ligeira austeridade com que ainda se apresenta. Conjunto fresco, novelo de complexidade ainda muito apertado mas de grande qualidade, profundo com bonitas notas de pinheiro, violetas, especiaria, fruta limpa de grande qualidade com destaque para a cereja vermelha bem gorda e sumarenta. E no trio de elegância/frescura/estrutura mostra-se um belíssimo exemplar do Dão, de criação minimalista que não se paga caro, um prazer garantido a consumir agora a acompanhar um borrego/cabrito assado em forno de lenha ou daqui por uma boa dezena de anos.

Bolhas Tintas a Testar os Limites

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

O vinho espumante tem um lugar particular na nossa sociedade. É tratado, falado e consumido de maneira bastante diferente de qualquer outra bebida. A campanha de marketing do champanhe ao longo dos séculos deixou um permanente estigma festivo que afecta a maneira de bebermos vinho espumante. É tudo sobre festejo. Felizmente hoje em dia parece haver uma tendência para uma abordagem mais casual às bolhas. Pessoas a abrirem garrafas a meio da semana sem nenhuma razão importante para festejar. Está a tornar-se cada vez mais num vinho do dia-a-dia em vez de uma indicação para enfatizar o facto de que “estamos a ter uma festa”.

Apesar da contínua evolução do mundo do vinho, o vinho espumante continua praticamente inalterado. Parece que ninguém se atreve a desfazer o casamento do vinho com as bolhas, e, talvez, criar algo diferente. Fazer isso é considerado quase um sacrilégio. Mas de vez em quando deparamo-nos com vinhos espumantes que nos fazem despertar deste estranho estado de dormência vínica.

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Red Bubbles – Photo by Ilkka Sirén | All Rights Reserved

Um desses vinhos foi o Aphros Vinhão Super-Reserva Bruto. Fui a uma prova de vinhos aqui em Helsínquia e deparei-me com uma garrafa dessas bolhas tintas. Algo que não acontece com muita frequência. Primeiro pensei “ah, Lambrusco”, mas para minha surpresa veio de Portugal, e, de todos os lugares, da Região dos Vinhos Verdes. Apesar da Região dos Vinhos Verdes ser bem conhecida pelos seus vinhos brancos frescos, também há alguns fantásticos tintos que lá são produzidos. Um dos clássicos é um tinto de cor carregada da casta Vinhão. Dá lugar a vinhos tão intensamente vermelhos que depois de um copo mais parecemos uma personagem saída do Twilight. Além disso, os vinhos são normalmente acídicos e muito tânicos o que os torna não muito indicados para os iniciantes. Para o ser ainda mais bizarro, é tradicionalmente apreciado em malgas e com produtos do mar como peixe grelhado ou lampreia, com a aparência sinistra. O resultado final, delicioso.

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Aphros Vinhão Super-Reserva Bruto – Photo by Ilkka Sirén | All Rights Reserved

O vinho em si era opaco com tonalidades vermelhas e roxas. No nariz mostrou-se cheio de frutos vermelhos e especiarias. Uma explosão de aromas, tanto familiares como exóticos. A sensação na boa foi qualquer coisa. Nada o pode preparar para essa sensação se ainda não provou este tipo de vinhos antes. A “mousse” era rica e mais texturada do que o vinho espumante normal. Bastante intenso mas surpreendentemente fresco ao mesmo tempo. Muitos sabores temperados e terrosos com uns agradáveis taninos firmes no fim. O final teve um amargo toque refrescante similar ao de uma cerveja lupulada IPA (Indian Pale Ale). Um pouco herbáceo e vegetal mas não no sentido de não estar maduro.

Apesar de não ser exactamente um vinho mainstream, estou a vê-lo a ser a apreciado por muitas pessoas. Poderá requerer um certo estado de espírito ao bebê-lo e talvez uma boa comida para acompanhar, mas acho que muitas pessoas iriam apreciar a singularidade deste vinho. Na minha vida apenas provei um punhado de vinhos que se aproximam daquilo que este vinho tem para oferecer. Desfiante? Sim. Viável? Quem sabe. Saboroso? Sem dúvida nenhuma.

Contactos
Quinta Casal do Paço
Padreiro (S. Salvador)
Arcos de Valdevez 4970-500 Portugal
Tel: (+351) 914 206 772
Email: info@afros-wine.com
Site: www.aphros-wine.com

O Rufo do Vale D. Maria

Texto João Pedro de Carvalho

Quinta Vale Dona Maria é uma antiquíssima propriedade no coração da Região Demarcada do Douro. Embora o tinto tenha nascido com a colheita de 1997 o primeiro branco surgiu recentemente. Tudo começou num jantar após se debater como adequar as práticas agrícolas de modo a obter melhores condições ambientais para o crescimento da população da Alectoris rufa (nome científico da perdiz-vermelha) no Vale D.Maria. Na divagação da conversa entendeu-se que Rufo (vermelho em Latim) seria bom nome para uma marca de vinho tinto do Douro, significando também o toque do tambor, que anuncia e estabelece o ritmo da entrada de gama dos vinhos Vale D.Maria. Mais recentemente esse Rufo teria a sua versão de branco no mercado.

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Rufo do Vale D. Maria 2013 branco- Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

 

Aqui a enologia está a cargo de Cristiano van Zeller, Sandra Tavares da Silva e Joana Pinhão, diga-se que todos os vinhos merecem natural destaque, apetecendo desta vez centrar todas as atenções no único branco, até agora, produzido com a chancela da Quinta Vale D.Maria.

As uvas para este Rufo branco da colheita de 2013 vêm da zona de Sobreda e Candedo (Murça), onde as vinhas se encontram a grande altitude (600 m) para conferir aos vinhos acidez e frescura. A escolha recai num blend de 50% Códega de Larinho e 50% de Rabigato. Enquanto a primeira casta (Códega do Larinho) confere uma certa tropicalidade, a segunda casta (Rabigato) proporciona a acidez natural tão necessária, num conjunto que estagiou cerca de 9 meses em inox até ser lançado para o mercado.

Um branco que nos recebe de braços abertos com bonitos aromas frutados a lembrar citrinos, frutos de polpa branca, algum tropical mas pouco pronunciado num conjunto bastante agradável com toque de mineralidade no fundo. Na boca mostra-se elegante e fresco, com boa intensidade e um toque vegetal aliado à natural doçura da fruta que o embalam para um final de prova com alguma secura, tornando ideal para canapés, saladas, entradas variadas à base de carnes frias ou salmão fumado.

Contactos
Quinta Vale D. Maria
Sarzedinho
5130-113 S. João da Pesqueira
PORTUGAL
Tel: (+351) 223 744 320
Fax: (+351) 223 744 322
E-mail: francisca@vanzellersandco.com , cvanzeller@mail.telepac.pt , joanavanzeller@vanzellersandco.com
Site: www.quintavaledonamaria.com

O Pequeno Mundo das Uvas

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

A diversidade varietal é sem dúvida um dos pontos fortes de Portugal. É como uma grande arca de tesouros com infindáveis possibilidades. Embora algumas sejam quase impossíveis de pronunciar, são o que torna o cenário vínico português tão único.

E, mesmo com todas estas excelentes castas, também há possibilidades ilimitadas para plantação de castas internacionais. Eu sei que este é um assunto discutido por muitas pessoas do mundo do vinho; devemos plantar castas internacionais ou cingir-nos às nativas? As nativas parecem estar na moda neste momento, e também acho que isso é algo que todos os enólogos devem apreciar. “Quem é que precisa de outra Cabernet?”. Bem, eu preciso. Se for boa. Por certo que existem muitos factores que levam alguns enólogos a utilizar certas e determinadas castas, mas, feitas as contas, o que interessa é fazer bom vinho. Se não obtivermos sucesso com a primeira casta tentamos outra. Já sei, é mais fácil falar do que fazer.

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Desarrolhado – Foto de Ilkka Síren | Todos os Direitos Reservados

Porém, não há volta a dar. O mundo em que vivemos é muito mais pequeno do que era dantes. A informação é difundida rápidamente, mas tudo o resto também. Ainda no outro dia encomendei um presunto ibérico inteiro, de Barcelona, e, num par de dias estava à porta de minha casa, aqui em Helsínquia. Quer dizer, dantes precisava de dois dias só para me ligar à internet, com aqueles modems antigos que faziam aquele barulho terrível de discagem. Lembram-se? Bem, aparentemente as castas também gostam de viajar, porque hoje em dia podemos encontrar coisas bem curiosas em sítios inesperados. Coisa que eu acho muito porreira.

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Quinta de Sant’Ana Riesling 2013 – Foto de Ilkka Síren | Todos os Direitos Reservados

É o caso deste vinho, Quinta de Sant’Ana Riesling. Riesling de Lisboa… Ahhh?? Devo dizer que sou um pouco louco por riesling. Nada que se compare a esses jihadistas rieslingistas que às vezes se encontra, mas definitivamente um fã. Este vinho vem de Mafra, mesmo a norte de Lisboa. Um lugar invulgar para encontrar a riesling, mas no entanto, eu tinha uma garrafa de Vinho Regional Lisboa Riesling na mão. Neste momento, qualquer fundamentalista do rieslingismo teria atirado a garrafa para longe com horror, lavado as mãos e sacrificado uma cabra aos Deuses Riesling. Eu não. Eu estava ansioso por o provar.

No nariz apresentou-se um pouco floral e tinha mais notas de fruta madura do que o típico riesling. Mas ainda assim agradavelmente aromático com pêssego e notas de ervas. No palato estava surpreendentemente fresco e fino, não tão maduro quanto o nariz sugeria. Algo invulgar mas, no geral, uma saborosa interpretação da Riesling. Lisboa nunca será Mosel, e isso é uma coisa boa. Potencia possibilidades de criar algo único.

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Quinta de Sant’Ana Sauvignon Blanc 2013 – Foto de Ilkka Síren | Todos os Direitos Reservados

O branco que se seguiu também era de uma casta estrangeira, Sauvignon Blanc. Uma casta com a qual normalmente me debato. Quando no seu melhor pode ser saborosa e gastronomicamente harmoniosa como mais nenhuma. Mas a maior parte dos Sauvignon Blanc são razoáveizinhos e normalmente desinteressantes. Cheirar este vinho foi como ficar preso dentro de uma máquina de lavar roupa. Voltas e mais voltas. Por um lado tinha este elemento relvado de clima fresco de Sauvignon Blanc. Mas por outro lado,  tinha muito néctar e pêra madura, o que mais me fazia lembrar Chenin Blanc. Deu-me vontade de comer caranguejo grelhado. Não é um vinho arrebatador mas, se a sua onda é Sauvignon Blanc então provavelmente irá encontar uma nova face desta contundente casta.

Contactos
Quinta de Sant’Ana
2665-113 Gradil
Rua Direita 3, Mafra, Portugal.
Tel: (+351) 261 963 550
E-mail: geral@quintadesantana.com
Site: www.quintadesantana.com

Escola velha, vinho novo…Ripanço Private Selection 2013

Texto João Pedro de Carvalho

Voltamos à afamada Casa Agrícola José de Sousa (Reguengos de Monsaraz), propriedade da José Maria da Fonseca, de onde nos chega este novo lançamento chamado Ripanço Private Selection 2013. Este vinho é o resultado da união entre a tradição e história com a moderna tecnologia, o resultado é uma mistura entre o antigo e o moderno onde o que faz toda a diferença neste caso é a ter-se utilizado uma técnica (ripanço) que remonta à era dos Romanos. Assim, a chamada técnica do ripanço consiste no desengaçamento das uvas à mão com auxílio de uma mesa de ripanço, que é constituída por várias ripas de madeira. O movimento das mãos dos trabalhadores pressionando ligeiramente os cachos faz com que os bagos de soltem e fiquem separados do engaço, como se pode constatar no vídeo aqui colocado. Esta terá sido a primeira maneira de desengaçar a uva, evitando assim a presença dos taninos duros do engaço que podem originar um excessivo e indesejado amargor no vinho.

Vídeo cedido por José Maria da Fonseca

O vinho foi elaborado a partir do blend das castas Syrah (48%), Aragonês (32%) e Alicante Bouschet (20%) que tiveram direito a estagiar durante 6 meses em barricas de madeira nova de carvalho francês e americano. O que se destaca no imediato é o seu aroma com muita fruta madura, muitas notas de groselha preta e ameixa, com algum tempo no copo evolui e ganha alguma complexidade com ervas de cheiro, café expresso num fundo onde a baunilha derivada da barrica aparece bem instalada. O conjunto é fresco e solto, com ligeiro nervo que lhe dá alguma garra para conseguir acompanhar pratos mais temperados, como por exemplo uma Lasagne Bolognese. De resto nada complicado neste tinto com boa presença de boca, sempre cheio de frescura, fruta que explode de sabor e se prolonga até ao final, onde a compota e a especiaria se despendem de nós.

Contactos
QUINTA DA BASSAQUEIRA – ESTRADA NACIONAL 10,
2925-542 VILA NOGUEIRA DE AZEITÃO, SETUBAL, PORTUGAL
Tel: (+351) 212 197 500
E-mail: INFO@JMF.PT
Site: www.jmf.pt

Bruno Prats na Fruta Mágica do Douro e Uma Vertical de Chryseia

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Ultimamente, o negócio tem sido rápido a atrair talentos bordaleses para o Douro. Poças Júnior anunciou recentemente que Hubert de Boüard e Philipe Nunes da Château Angélus têm estado a trabalhar com eles desde a vindima de 2014. No ano anterior, Lima & Smith causou uma agitação quando contratou Jean-Claude Berrouet, ex-enólogo na Château Pétrus, para ser consultor na Quinta da Boavista.

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Bruno Prats com uma Vertical of Chryseia – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Enquanto os resultados destas recentes colaborações ainda estão para ser vistos, outra parceria Bordéus/Douro faz as manchetes, Prats & Symington com o décimo lançamento “Grand Vin”, Prats & Symington Chryseia 2011. Este que é até à presente data a minha colheita favorita do Prats & Symington Chryseia, figurou no Top 100 de vinhos do ano 2014 cobiçados pela Wine Spectator.

No início deste mês participei numa prova vertical de Chryseia, apresentado pela metade bordalesa deste casamento franco-português, Bruno Prats, antigo dono do Château Cos d’Estournel. A família Symington foi representada pela quinta geração, Charlotte Symington, a primeira mulher desta bem conhecida família de Porto a figurar na folha de pagamento (é embaixadora da marca Porto na importadora britânica Fells, que é também propriedade da Symington).

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Quinta de Roriz – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Prats ainda há pouco tempo tinha vendido Cos d’Estournel e já se aventurava na parceria 50/50 com os Symingtons. Diz-me que o projecto arrancou mais rápido que estava à espera. Depois de apenas de um ano de experiências, foi feito o primeiro Chryseia, colheita de 2000. Desde então, a selecção das uvas mudou dramaticamente, primeiro a parceria adquiriu a Quinta de Perdiz em 2004, seguindo-se em 2009 a compra da Quinta Roriz, a qual tem uma adega apenas para a Prats & Symington. (Aliás, outra mudança dramática desde 2000 é o preço dos melhores Bordeaux, o que, diz Prats sorrindo, significa que os melhores tintos do Douro se comparam muito favoravelmente aos Bourdeax da mesma gama de preços).

Prats pode até denominar o Chryseia de “Grand Vin”, mas disse-nos “o nosso objectivo sempre foi produzir vinhos elegantes, gastronómicos e equilibrados, focados no requinte e não na potência”. Os seus comentários relembraram-me uma conversa de há dez anos com o bordelense Baron Eric de Rothschild. Em resposta à minha observação de que os vinhos de Domaine Baron de Rothschild (Lafite) da Argentina, Chile, Portugal, Estados Unidos e Sul de França partilhavam uma incomum restrição, disparou “podem tirar um homem de Bordéus, mas não podem tirar Bordéus de um homem”.

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Luis Coelho, Enólogo Assistente da Prats & Symington com vinhas Touriga Nacional na Quinta De Roriz -Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Ainda assim, tenho a certeza que é apenas coincidência o facto de Prats apenas se ter focado em duas castas do Douro. Enquanto Bordéus tem a sua dicotomia Cabarnet Sauvignon/Merlot, Prats afirma que apenas acha “interessantes” as castas Touriga Nacional e Touriga Franca. Este foco varietal draconiano é uma das razões pelas quais ele dá primazia às parcelas (de casta única) de vinha recentemente plantadas em vez das tradicionais parcelas de multiplicidade varietal do Douro. Como é que sabemos quando colher as vinhas velhas, pergunta retoricamente, para mais tarde afirmar “Estou convencido que devemos trabalhar com parcelas de plantação em que teremos a certeza de estar a colhê-las na altura certa”. O que parece estranho, já que a maior parte dos melhores produtores da região lidam bem com isso, e utilizam até parcelas de vinhas velhas multivarietais de maneira fabulosa – Niepoort e Quinta do Crasto vêm-me à mente. Além do mais, o foco da Niepoort na elegância e digestibilidade confirma que estas duas qualidades não são exclusivas de vinhas monovarietais (ainda menos de duas castas).

Dito isto, penso que Prats tem razão quando diz “é fácil obter potência no Douro, e é por isso que é importante concentrarmo-nos na elegância”. Embora tenhamos de discordar que as parcelas de plantação e as duas castas (reconhecidamente de classe mundial) sejam a chave para a elegância, há poucas dúvidas em relação ao impacto positivo de longas mas gentis macerações e de um relativamente curto período em carvalho quando comparado com outros topos-de-gama do Douro (e até de Bordéus). Como seria de esperar de um reconhecido enólogo bordalês, a gestão de taninos na Prats & Symington tem sido sempre exemplar.

Segundo Prats, ao contrário da Cabarnet Sauvignon, nem a Touriga Nacional nem a Touriga Franca “podem receber um nível elevado de carvalho”. Também explica o porquê da preferência de barris de 400 litros ao invés das barricas de 225 litros de Bordéus. Para Prats “o que é mágico no vinho do Douro é a fruta; temos de preservar a fruta”.

Sou completamente a favor da fruta, especialmente quando exprimida tão brilhantemente quanto no 2011 e 2012, mas o que mais me cativa nestas colheitas do Chryseia é a sua mineralidade patente. A qualidade, posso adiantar que está presente em ambos, embora Prats descreva um (o 2011) como “um estilo mais duriense” e o outro (2012) como “um estilo mais bordalês”.

A mim parece-me que esta mineralidade é um cunho da Quinta de Roriz (e da sua vizinha, a Quinta da Gricha de Churchill). Prats faz uma observação, o xisto na Roriz é particularmente mineralmente rico (muito friável em comparação com o xisto mais duro e espesso da Perdiz). Aparentemente, existia, há quarenta anos, uma mina de estanho na propriedade, mas quanto à razão pela qual isso se transmite no copo, Prats diz “estou contente por isso ainda ser um mistério” – podemos dizer que é mais da magia do Douro.

Abaixo irão encontrar as minhas notas sobre os últimos lançamentos bem como da prova vertical do Chryseia. O Chryseia tem sido produzido todos os anos salvo 2002 e 2010. Desde 2002, e adoptando um discurso bordalês, um “segundo vinho”, o Post Scriptum, tem sido produzido anualmente. É feito dos barris que não atingem a qualidade “Grand Vin”. (Pode ler mais sobre a história e evolução da Prats & Symington na minha reportagem duma visita à Quinta de Roriz.)

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Uma Vertical de Chryseia, colheitas mais jovens – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Prats & Symington Prazo de Roriz 2011 (Douro)

Provenientes da Quinta de Roriz (70%)  e da Perdiz (30%), Prats diz que as uvas de classe A vão para o Post Scriptum e para o Chryseia. O equilíbrio deste vinho que incorpora uma gama muito mais ampla de castas do Douro. Como era de esperar neste colheita de topo, o Prazo de Roriz 2011 tem uma boa concentração de ameixas e suculentas cerejas pretas/frutos silvestres. A Tinta Barroca, a casta com mais peso (39%) é facilmente identificável com o seu palato mais suave e doce. Porém, e em linha com a filosofia de elegância, partilha do final fresco e limpo e dos taninos finos do Post Scriptum e do Chryseia 2011. É um tinto iniciático conseguido. 14.3%

Prats & Symington Post Scriptum 2011 (Douro)

Um lote com 56% de Touriga Nacional, 30% de Touriga Franca, 7% Tinta Barroca, 7% Tinta Roriz que estagiou durante 13 meses em barris de 400 litros de carvalho francês com um ano. Tonalidade profunda e muito mais estruturado que o Prazo de Roriz, com amoras e cerejas mais reluzentes e mais bem definidas. Taninos finos, minerais, enfumaçados e de tacto gentil. O final é preciso e muito persistente. Muito bom. 13.9%

Prats & Symington Post Scriptum 2012 (Douro)

Este lote com 53% de Touriga Franca, 45% Touriga Nacional e 2% de outras variedades estagiou por 13 meses em barris de 400 litros de carvalho francês com um ano. Um Verão mais ameno (com baixa produção, devido à seca) produziu um vinho mais delicado, com fruta vermelha em vez de negra, taninos furtivos e acidez fresca e persistente. Uma palato marcadamente de meio-peso revela ameixa e ameixa-de-damasco doce e abaunilhada, grafite e especiaria de fruta (não de carvalho). Embora não tão carismático como o 2011, 0 2012 tem um elegante e já visível charme. 13.3%

Prats & Symington Chryseia 2012 (Douro)

Colheita: O aspecto mais notável do ano vinícola de 2011/2012 foi a falta de água. Um Inverno frio incomum, o mais frio da última década, foi seguido por Primavera errática, que com condições meteorológicas imprevisíveis levou a um fraco conjunto de fruta, e uma colheita muito mais pequena. Temperaturas mais baixas do que o normal durante o Verão mitigaram os efeitos da seca, e porque haviam menos cachos nas videiras, o processo de amadurecimento das uvas decorreu de maneira muito satisfatória, permitindo-nos produzir alguns bons vinhos. As uvas para o Chryseia foram colhidas na Quinta de Roriz entre 12 de Setembro e 8 de Outubro e na Quinta da Perdiz entre 27 de Setembro e 9 de Outubro.

Um lote com 72% de Touriga Nacional e 28% de Touriga Franca, provenientes da Quinta de Roriz, Quinta da Perdiz e da Quinta da Vila Velha. Estagiou por 15 meses em barris de 400 litros de carvalho francês 100% novos (Tonnellerie du Sud-Ouest, Boutes, François Frères). Outra vez ênfase nas frutas vermelhas, aqui mais concentradas e com um muito sedutor brilho de carvalho perfumado (chocolate, canela e cedro). Bergamota e notas leves de tabaco de cachimbo conferem uma adicional camada e toque a este vinho com um núcleo doce de framboesa, cereja preta e frutos silvestres. Acidez fresca a proporcionar um final muito equilibrado, persistente e brotar xisto; a sua fluidez é sublinhada pelos seus taninos ultra-finos. Muito elegante. 13.7%

Prats & Symington Chryseia 2011 (Douro)

Colheita:O ano de 2011 foi muito seco, tendo sido de extremo valor, a precipitação caída entre Outubro e Dezembro de 2010. O Douro e os seus solos apresentam uma aptidão enorme para armazenarem água. A videira, pela sua perfeita adaptação a climas agrestes, consegue ir buscar água a vários metros de profundidade, graças ao seu sistema radicular bem adaptado, daí a importância crucial das reservas constituídas pela água da chuva caída na estação fria. O fantástico terroir de Roriz sempre prevalece, este ano com a ajuda acrescida das chuvas de Agosto e início de Setembro. A colheita das uvas para o Chryseia 2011 teve inicio a 16 de Setembro com a Touriga Nacional da Quinta de Roriz, tendo a Touriga Franca dado entrada na adega no dia 30 de Setembro. Toda a vindima decorreu com condições metereológicas perfeitas, o que contribuiu para que 2011 seja, sem qualquer dúvida, uma das melhores colheitas de Chryseia.

Um lote com 65% de Touriga Nacional e 35% de Touriga Franca, estagiou por 15 meses em barris de 400 litros de carvalho francês 100% novos (Tonnellerie du Sud-Ouest, Taransaud, Boutes, François Frères). Este, um dos meus Top 10 Novos Douro de 2011 provados em Dezembro de 2013, tem desfrutado de um sucesso de vendas, um pouco também por ter figurado no Top 100 da Wine Spectator. É uma colheita fabulosa do Chryseia, o primeiro a realmente deixar uma marca em mim. Penso que é porque, como Prats diz, é mais um Douro que um Bordeaux. Porquê? Porque tem bem patente a mineralidade xistosa, salgada e enfumaçada do seu terroir – um cunho da Quinta de Roriz, e também da vizinha Quinta da Gricha de Churchill. E esta mineralidade está muito mais à superfície no 2011 apesar das suas imponentes mas muito equilibradas frutas pretas. Muito vivo, muito longo e focado, o seu enquadramento desmente a concentração e intensidade deste vinho; um exercício excelente em potência e contenção. 14%

Prats & Symington Chryseia 2009 (Douro)

Colheita: A magnífica vinha de Roriz, uma das mais belas quintas do vale do Douro, com uma longa e rica história como produtor independente de grandes vinhos, foi adquirida pela Prats & Symington na Primavera de 2009. O Chryseia de 2009 foi assim o primeiro a ser vinificado na moderna adega de vinhos tranquilos da propriedade. Trabalhar as vinhas de montanha do Douro apresenta muitos e variados desafios, todos os anos quase sem excepção e 2009 não foi diferente. Foi o terceiro ano consecutivamente seco e para agravar a situação de seca, o calor intenso que se fez sentir, particularmente em Agosto e Setembro, aportou uma significativa redução no tamanho da colheita (uma das mais pequenas dos últimos 15 anos no Douro). Apesar das condições adversas, o terroir de Roriz fez-se valer; a exposição norte atenuou a ferocidade do calor e as duas castas que compõem o Chryseia (a Touriga Nacional e a Touriga Franca) são das melhores que resistem ao calor, um facot que jogou a nosso favor. Aliás a Touriga Franca é de maturação tardia, e beneficiou das condições quentes e secas registadas durante o mês de Setembro. Quer a Touriga Nacional, quer a Touriga Franca completaram de modo muito satisfatório os seus ciclos de maturação, assegurando elevada qualidade.

Um lote de 70% de Touriga Nacional e 30% de Touriga Franca, estagiou por 13 meses em barris de 400 litros de carvalho francês 100% novos (Tonnellerie du Sud-Ouest, Taransaud, Boutes, Radoux, François Frères, Saury). Esta foi a primeira colheita proveniente de e vinificada na Quinta de Roriz. Não é a minha colheita favorita do Douro – a seca e o calor deram origem a vinhos bastante corpulentos. Ainda assim, para aqueles que procuram elegância de expressão, este é um vinho bem construído; foi interessante ouvir Prats a especular que provavelmente poderiam ter feito um vinho melhor se conhecessem melhor as vinhas. Musculado e opulento com taninos maduros e aveludados, o Chryseia 2009 tem uma borda púrpura no seu interior rico de framboesa e ameixa. O achocolatado carvalho novo incrementa ainda mais a doçura, portanto, tudo somado, o 2009 carece da contenção e finesse dos vinhos anteriores. O que não quer dizer que não seja bom; se gostar vinhos largos e encorpados, isto será mais a sua praia. 14.4%

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Uma Vertical de Chryseia, colheitas mais velhas – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Prats & Symington Chryseia 2004 (Douro)

Colheita: A um outono chuvoso em 2003, seguiu-se um inverno muito seco, com uma notória ausência de chuva durante uma fase crucial. O tempo ameno e seco em Maio de 2004, encorajou um desenvolvimento rápido e um vingamento ligeiramente abaixo da média. No final de Julho as vinhas estavam em excelentes condições, mas a persistente falta de chuva suscitou alguma preocupação devido à possibilidade de ‘stress’ hídrico. Depois aconteceu o inesperado: fortes chuvadas em Agosto – os 77mm registados entre os dias 9 e 17 foram os valores mais elevados no Douro em 104 anos. Seguiram-se 25 dias ininterruptos de sol em Setembro que conduziram a um amadurecimento perfeito do fruto e propiciaram condições de vindima ideais. A vindima teve início mais tarde do que é habitual, no dia 23 de Setembro e ficou concluída mesmo antes do regresso da chuva em 9 de Outubro. O que poderia ter sido um ano muito difícil, revelou-se afinal um ano muito bom, com uma conjugação favorável de produções baixas, excelente teor de açúcar nas uvas, originando um vinho com uma estrutura possante e cor profunda.

Os detalhes das percentagens varietais e tempo de estágio não foram disponibilizados, mas a fruta proveio das Quintas Vesuvio, Bomfim, Vila Velha e, pela primeira vez, da então recentemente adquirida Quinta da Perdiz da Symington. Sou uma grande fã da colheita de 2004 e foi interessante voltar a provar esta colheita do stock de Londres da Fells. O vinho pareceu mais reluzente e fresco do que a garrafa que provei no Porto em Dezembro de 2013 quando avaliei alguns tintos Douro 2004. Tal como a garrafa que provei na altura, o Chryseia 2004 é particularmente picante e perfumado com notas de alcaçuz, esteva e caruma, e também um toque de bergamota. Que, juntamente com os seus concentrados e ainda vivos frutos silvestres, conferem a este vinho uma fantástica energia – um perfil mais “selvagem” do Douro (apesar dos seus taninos ultra-requintados). Um final envolvente com uma pitada salgada, e uma mineralidade xistosa a persistir bastante tempo; este é um vinho com muita potência e muito carácter. 14.2%

Prats & Symington Chryseia 2003 (Douro)

Colheita: O Outono foi bastante chuvoso bem como o mês de Janeiro. O mês de Março caracterizou-se por temperaturas acima da média. As condições climatéricas do mês de Maio forma bastante favoráveis para a floração e o vingamento, podendo desde logo adivinhar-se uma colheita abundante. O Verão foi quente e seco mas a qualidade da fruta foi substancialmente melhorada pela chuva dos dias 27 e 28 de Agosto. As uvas foram colhidas manualmente entre 18 de Setembro e 9 de Outubro e chegaram à adega com baumés ideais, tendo-se obtido um mosto com cor formidável.
Um lote de 60% Touriga Franca, 35% Touriga Nacional e 5% Tinta Cão, provenientes das Quintas Vesuvio, Bomfime Vila Velha. Estagiou por 12 meses em barris de 350 e 400 litros de carvalho francês 100% novos (Tonnellerie du Sud-Ouest, Taransaud). Este foi o vinho preferido de Prats de entre as colheitas mais antigas, que, observou, são caracterizadas por notas aportuadas. É um vinho muito polido, escuro, achocolatado com taninos suaves e fruta muito suave and brilhante. Sim, conseguido (menos aportuado do que outros 2003 que já provei) e muito bom de beber, mas, para mim, faltava-lhe algum sentido de lugar – o detalhe, interesse e energia que tanto gostei no 2004. 14%

Prats & Symington Chryseia 2001 (Douro)

Colheita: O Inverno de 2001 foi extremamente chuvoso e de temperaturas bastante amenas. A ocorrência de boas condições climatéricas durante o período da floração, permitiu prever à data um ano de grande produção no Douro. Contudo, um Verão muito quente e seco originou uma redução da produção geral, tornando 2001 num ano médio em termos de quantidade produzida. As uvas foram colhidas manualmente a partir de 13 de Setembro e terminou no dia 27 de Setembro.

Um lote de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Cão das Quintas Vesuvio, Vila Velha e Vale de Malhadas. Prats diz que foi um erro incluir a Tinta Roriz. Estagiou por 10 meses em barris de 350 e 400 litros de carvalho francês 100% novos (Tonnellerie du Sud-Ouest, Taransaud). Evoluiu com notas rústicas, bravas e de Bovril no seu nariz e palato aportuados e acidez desengonçada (volátil?). Desapontante. 13.8%

Contatctos
Prats & Symington
Quinta de Roriz
São João da Pesqueira
5130-113 ERVEDOSA DO DOURO
Portugal
Tel: +351-22-3776300
Fax: +351-22-3776301
E-mail: info@chryseia.com
Site: www.chryseia.com

O Grande Alicante Bouschet da Herdade do Rocim

Texto João Pedro de Carvalho

A Herdade do Rocim tem colheita após colheita, vindo a ganhar uma consistência notável nos seus vinhos, o detalhe e o bom gosto tomaram conta daquela Herdade situada bem perto da Vidigueira. Nota-se que em toda a gama de vinhos há um detalhe e um carinho que os envolve, até na maneira como são dados a conhecer, nada é deixado ao acaso, novamente um mundo de pequenos mimos dirigidos por uma mão feminina, a mão da produtora Catarina Vieira. E nesta caminhada vão sendo afinados e retocados colheita após colheita, aprendendo e mostrando que ali é possível serem criados grandes vinhos.

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Grande Rocim Reserva 2011 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

E por falar em grandes vinhos, o topo de gama da Herdade do Rocim dá pelo nome de Grande Rocim Reserva, com a nova colheita de 2011 sobre a qual escrevo e que foi recentemente colocada no mercado. Um vinho que tem na alma a essência da casta Alicante Bouschet, durante um ano e meio serenou em barrica com direito ainda a mais um ano de garrafa até ser colocado à disposição dos consumidores. É acima de tudo um vinho cheio de carácter, que enverga uma pesada armadura que o envolve e o torna majestoso, arrebatador e feito para perdurar no tempo. Apesar do peso que para alguns pode ser considerado de excessivo, alia o seu lado mais vigoroso com uma invejável elegância de movimentos.

Todo o tempo extra que continuar em garrafa só lhe fará bem, de momento está ainda muito novo, embora com grande frescura de nariz, início com fruta vermelha (bagas, amoras) muito sumarenta, toque herbáceo, cacau, conjunto coeso e profundo, lá no fundo uma ligeira nota de licor. Boca de grande impacto com enorme presença a mostrar um vinho poderoso, amplo, fresco, muito boa estrutura com fruta vermelha a explodir de sabor ao lado de algum bálsamo, quase que se mastiga, terminando longo com travo de especiaria. Tudo com grande detalhe, enorme estrutura num conjunto coeso, limpo e fresco com uma enorme vida pela frente, paga-se por tudo isto coisa de 50€ com a garantia que se leva para casa um dos melhores tintos feitos no Alentejo e em Portugal.

Contactos
Herdade do Rocim
Estrada Nacional 387 | Apartado 64
7940-909 Cuba | Alentejo
Tel: (+351) 284 415 180
Fax: (+351) 284 415 188
E-mail: pedro.ribeiro@herdadedorocim.com
Site: www.herdadedorocim.com

Anselmo Mendes, Produtor e Enólogo

Texto José Silva

Sendo de Monção, Anselmo Mendes acabou por se estabelecer em Melgaço, em 1997, onde comprou uma propriedade e onde, além duma pequena casa, acabou por construir uma adega. Que foi crescendo, crescendo, até ao limite possível. E assim, foi com naturalidade que lançou, em 1998,o seu primeiro vinho, o Muros de Melgaço.

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Anselmo Mendes – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Estudioso, pesquisador, aplica os ensinamentos da riquíssima história dos vinhos portugueses à produção dos seus próprios vinhos, juntando-lhes a modernidade apenas necessária. Gosta de estudar as vinhas, sendo hoje enólogo consultor em várias outras regiões do país e mesmo no Brasil. Também gosta de ensinar e dar formação a quem trabalha com ele e o acompanha, que também o ajudam a fazer experiências, muitas experiências, na vinha, mas sobretudo na adega, com que também se vai divertindo. Aliás Anselmo Mendes é uma pessoa divertida, de conversa fácil e muito interessante, que transpira a paixão e o conhecimento que tem deste mundo fascinante que é o vinho.

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New winery – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Quando a sua adega chegou ao seu limite físico, Anselmo Mendes resolveu construir uma adega de raíz, mais abaixo, moderna, bem equipada, mas com espaço adequado á quantidade de vinho que produz nos dias de hoje.

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Old facilities recuperated – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Mas aproveitou para recuperar as antigas instalações com muito bom gosto, transformando a adega das cubas numa zona de provas, que inclui uma confortável sala de estar e uma sala de provas muito bem equipada, com vista para o vale, que vai até ao rio Minho.

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Old Barrels’ room- Photo by José Silva | All Rights Reserved

A antiga sala de barricas, mantendo algumas das velhas barricas e equipamentos que já não se usam, é agora uma sala para as suas “experiências”, de que por vezes saem coisas deliciosas.

Numa visita recente, passamos pela adega para provar alguns vinhos das cubas, todos de 2014, com destaque para um Loureiro que nos deixou quase estarrecidos, tal a sua qualidade e potencial! E, claro, provaram-se os Alvarinhos que hão-de dar os vários vinhos deste produtor, bem conhecidos no mercado. No entanto Anselmo Mendes promete novidades para este ano…ficamos a aguardar.

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Bottling and labeling – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Saídos da adega, onde se engarrafavam e rotulavam já alguns vinhos, não passaram 5 minutos até estarmos nas “velhas” instalações, neste caso no conforto da sala de provas.

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Tastings’ room – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Mas não resistimos a passear um pouco pelas vinhas, nesta época do ano completamente nuas, após terem sido podadas, que daqui a um mês estarão a dar os primeiros rebentos.

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The vineyard – Photo by José Silva | All Rights Reserved

No frio da manhã o vale estava tranquilo, o fumo das lareiras aqui e ali, e os montículos das vides resultantes da poda a marcar também a paisagem, com um tanque de água corrente de permeio.

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Tank – Photo by José Silva | All Rights Reserved

E, a toda a volta, os imponentes muros de granito, a fazer algumas separações, entre o arvoredo e a vinha, e entre patamares de várias vinhas.

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Granite Walls – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Dizia o Anselmo: “Já não se fazem muros destes!” A diferença principal entre os vinhedos de Alvarinho de Monção e Melgaço (que constituem, em conjunto, a sub-região de Monção e Melgaço), é que em Monção os vinhedos estão principalmente num amplo vale, que vai estreitando para montante, apertado entre o rio Minho e a montanha, até que toma a forma de patamares, por ali acima, já em Melgaço. Estas vinhas do Anselmo são um bom exemplo disso.

Ainda passamos pela antiga adega de barricas, agora a aguardar novidades e novos processos, e ficou combinada nova visita em vindimas, lá para Setembro, para nos divertirmos um bocado. Mas era hora da prova principal, e sentamos-nos à mesa com o nosso anfitrião, para provar…18 vinhos!!

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18 wines’ tasting – Photo by José Silva | All Rights Reserved

A coisa prometia e lá fomos guiados pelo mestre, que foi explicando, aconselhando e por vezes justificando as suas escolhas. Mas será preciso justificação para provar estes vinhos?!

Começamos pelos Muros Antigos de 2014, 2012 e 2010. Mesmo o 2010 ainda muito fresco, com muito boa acidez, e o 2014 ainda cheio de fruta, algum tropical, sedoso, a prometer belas experiências lá para o verão. Seguiram-se os Muros Antigos Loureiro de 2014 e 2010. A outra casta que Anselmo Mendes trabalha intensamente, na perfeição, aqui a dar-nos duas perspectivas diferentes: 2014 muito floral, intenso, com óptima acidez na boca e um final muito fresco e persistente, e 2010 sensacional, evoluído mas ainda com bela acidez, alguma fruta branca madura, exótico, com final aveludado e elegante, a provar que também os brancos da região dos vinhos verdes envelhecem com galhardia.

Passamos então aos quatro Muros Antigos Alvarinho: 2014, 2012, 2010 e 2009. O primeiro, ainda muito jovem, quase um bebé, a precisar de tempo de garrafa, mas já a denotar alguma mineralidade a equilibrar a fruta, que está bem presente, com bom volume de boca, na linha dos seus irmãos mais velhos. 2012 é já um clássico deste patamar, a fruta mais moderada embora presente, uma mineralidade intensa, elegante mas robusto, muito boa acidez, num conjunto muito equilibrado ainda com alguma juventude. 2010 é um Alvarinho já com alguma evolução em que a fruta quase desapareceu, para dar lugar a notas secas, aromas químicos deliciosos ainda muito suaves, mas onde a mineralidade granítica se mantém e se afirma. Redondo na boca, persistente, volumoso, até ligeiramente austero, com muito boa acidez a dar-lhe prolongamento final. 2009 é já um Alvarinho evoluído, muito elegante, até mesmo exótico, cheio de complexidade, com aromas terciários inebriantes e difíceis de distinguir mas por isso mesmo tentadores e um final muito longo, sedoso, seguro.

Passando para outro estilo, provaram-se os Contacto de 2014, 2012 e 2010. Um Alvarinho mais aromático, este 2014 ainda cheio de fruta tropical, intenso, muito fresco, aveludado, um dos mais gastronómicos, pede comida. 2012 apresentou-se mais fechado, embora no copo fosse evoluindo, ainda alguma fruta, mas mais madura, fresco e elegante. 2010 a apresentar alguma evolução, mantendo o perfil de suavidade, agora quase sem fruta, mas com toque seco e notas tostadas, muito envolvente na boca, com acidez intensa a dominar um belo conjunto.

Veio então o Muros de Melgaço com a sua garrafa estranha mas que é já uma referência. O 2013 apresentou-se cheio de força, notas de fruta tropical bem madura, muito maracujá, elegante e intenso, muito redondo na boca, com óptimo volume, um dos grandes clássicos de Anselmo Mendes. O 2009 apresenta grande evolução, já muito pouca fruta, muito suave, notas intensas de evolução, ainda alguma frescura, complexo mas muito seguro, ainda vai evoluir muito, para nosso prazer. Finalmente passamos aos dois patamares superiores dos Alvarinhos de Anselmo Mendes.

Primeiro os Curtimenta 2013 e 2012. O 2013 está poderoso, ainda com muita fruta, com notas tropicais, mas com uma mineralidade intensa e muita frescura. Na boca é incrível, a mineralidade quase salina a traduzir os terrenos graníticos na sua plenitude, fresco, acidez intensa e um final imenso. O 2012 é semelhante ao anterior, apenas mais elegante, mantendo o volume na boca, intenso, mineral, ligeiramente mais sedoso, a revelar que a evolução no tempo vai ser fascinante.

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A fantastic tasting – Photo by José Silva | All Rights Reserved

E terminamos uma prova fantástica com dois Parcela Única: 2013 e 2012. Qual deles o melhor! 2013 ainda cheio de juventude, a fruta tropical muito elegante, aveludado, cheio de requinte no nariz, quase um perfume. Na boca é envolvente, apresenta-se muito equilibrado entre a frescura, a fruta e a acidez, tudo dominado por uma mineralidade que se vai sentindo ao longo da prova, precisa de estar algum tempo no copo e não pode ser servido muito fresco. Final muito elegante e longo, muito longo. O 2012 em relação ao anterior tem um perfil semelhante, ainda mais elegante, a fruta a ficar mais suave, o perfume mais envolvente, muito complexo, um vinho fantástico.

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On the way out – Photo by José Silva | All Rights Reserved

Deixamos Melgaço com a certeza que em breve teremos mais alguns excelentes vinhos no mercado. Em Setembro, lá estaremos nas vindimas.

Contactos
Zona Industrial de Penso, Lote 2
4960-310 Melgaço · Portugal
Tel/Fax: (+351) 227 128 541
E-mail: anselmo.mendes@netcabo.pt
Site: www.anselmomendes.pt

MAPA a nadar ribanceira acima como um Burbot

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

As estações potenciam oportunidades para beber diferentes tipos de vinho. Aqui na Finlândia podemos dizer que altura do ano é pelo que as pessoas estão a beber nesse momento. Durante a Páscoa bebe-se principalmente vinho tinto e, países como a Espanha e a Itália são bastante populares, especialmente os vinhos da Veneto, como o Valpolicella por exemplo. Se vir pessoas a consumir quantidades excessivas de espumantes baratos pelas ruas e parques de estacionamento, então provavelmente é dia 1 de Maio. No início do Verão os vinhos rosés começam a emergir como se fossem ursos que terminaram o seu período de hibernação.

Quando as pessoas começam a levar para as suas casas os vinhos bag-in-box, significa que o pleno Verão está a chegar. No final do Verão os rosés desaparecem tão rápido como apareceram e, quando os dias começam a encurtar as pessoas mudam a preferência para os tintos encorpados, provavelmente do Chile ou Argentina. Posso estar a exagerar um pouco, mas os finlandeses são bastante previsíveis no que toca a hábitos de beber. Em boa verdade acho que acontece o mesmo por todo o mundo.

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Ovas de Burbot – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tal como as quatro diferentes estações do ano mudam, também a comida e bebidas que consumimos mudam. Uma das iguarias desta altura do ano na Finlândia é o burbot. Provavelmente nunca ouviu falar dele, mas é um peixe. Não é de todo um dos peixes mais bonitos, parece um cruzamento de bacalhau com enguia, mas é sem dúvida um dos mais saborosos. A época do burbot é geralmente entre Janeiro e Fevereiro. Existem algumas maneiras de o cozinhar, mas a mais famosa é a sopa clássica de burbot. Certifique-se que retira as ovas antes de o deitar na panela. Normalmente comem-se em tostas ou blinis com cebola e natas. As ovas do burbot são de grão fino e extremamente saborosas. Normalmente a bebida de eleição para acompanhar seria uma cerveja e schnapps, mas eu optei por um vinho branco do Douro.

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MAPA Douro Branco 2013 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O Douro ainda é largamente visto como a terra do vinho do Porto. Se há 20 anos alguém dissesse que o Douro era capaz de produzir vinhos frescos não fortificados, a maior parte das pessoas apelidá-lo-ia de louco. Eu tenho a minha cota parte de altos e baixos na relação amorosa que tenho com o vale do Douro e os seus vinhos. Mas de vez em quando dou de caras com vinhos que me relembram a razão pela qual me apaixonei por ele. Foi esse o caso do MAPA Douro Branco 2013 que escolhi beber com as ovas do burbot. O MAPA vem de Muxagata, um local do Douro Superior. O vinho em si tinha menos aromas de frutos tropicais maduros do que eu estava à espera. Mais virado para citrinos frescos, brotos de abeto e um toque de pêra. O que realmente me impressionou foi a estrutura compacta do vinho que ainda assim ostentava uma certa ligeireza que conferia ao vinho um final longo e de deixar água na boca. Foi uma óptima harmonização com a comida e pareceu criar um burburinho positivo à mesa, o que é sempre bom.

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MAPA Vinha dos Pais 2013 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Com o prato principal, a sopa, bebemos o MAPA Vinha dos Pais 2013. É praticamente um lote típico do Douro com os suspeitos do costume, como a Rabigato, a Viosinho, a Arinto e a Gouveio. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho de 500 litros durante 12 meses. Ambos os vinhos eram de 2013, mas ao contrário do MAPA Branco este vinho pareceu-me demasiado jovem. Com a comida comportou-se bastante bem mas sem ela o vinho era um pouco estranho. O carvalho não estava realmente integrado, mas tinha uma mineralidade subjacente fantástica. Reconheço ainda que, após apenas mais um ano em garrafa poderá estar muito mais equilibrado. É uma daquelas coisas que é preciso esperar para ver. Após a pureza magnífica do primeiro vinho fiquei ligeiramente desapontado. Principalmente porque o carvalho parecia não encaixar e em vez de ter um perfil de sabor linear parecia algo desconectado. Posso apenas tê-lo encontrado numa fase estranha e irei definitivamente prová-lo de novo para ver a sua evolução.

No geral, o MAPA é realmente uma boa adição à fantástica categoria de vinhos do Douro Superior. Estou ansioso por beber mais dos seus vinhos e quem sabe, talvez, um dia visitá-los em Portugal, com ou sem o burbot.

Contactos
MAPA
Muxagata – Vila Nova de Foz Côa – Douro Superior
Urbanização Vila Campos, lote 40
5000-063 Vila Real
Tel: (+351) 259 374 155
Mobile: (+351) 938 537 914
E-mail: geral@mapavinhos.pt
Site: www.mapavinhos.pt

Cru: Os Vinhos de Luis Seabra

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Em 2012, Luís Seabra abandonou o seu prestigiado cargo de enólogo na Niepoort para se lançar a solo. Explica, “depois de tantos a fazer para outros aquilo que adoro, acho que chega uma altura em que pensamos, porque não fazermos para nós próprios”.

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Luis Seabra – Foto Cedida por Luis Seabra Vinhos | Todos os Direitos Reservados

A filosofia da Luis Seabra Vinhos está inserida no nome de marca Cru. O objectivo de Seabra é fazer vinhos “que realmente digam de onde vêm, vinhos de vinhas específicas, com intervenção mínima, vinhos verdadeiros e honestos, crus e puros…Regresso ao essencial.”.

“Regresso ao essencial” tem um tem um significado muito específico para nós britânicos. Foi o slogan de campanha que voltou para assombrar o ex-Primeiro Ministro Britânico John Major durante a década de 90 numa série de escândalos que abalaram o partido Tory. O que significará exactamente para Seabra?

Diz-me que “a única coisa utilizada nos vinhos é o enxofre (um agente antioxidante e antimicrobiano) ” e, mesmo assim, em quantidades baixas “apenas para manter os vinhos debaixo de olho.”. Acrescenta ainda “também prefiro ter mais oxigénio no sumo e nos vinhos jovens de modo a que se conseguiam estabilizar de todas as maneiras e possam envelhecer melhor na garrafa.”. O impacto desta abordagem de intervenção mínima é facilmente perceptível nos vinhos texturais, não forçados de Seabra e, em particular, nos seus vinhos brancos, que ao invés de um sabor frutado mostram um perfil mais terroso.

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Luis Seabra Cru Xisto Tinto 2013 old vineyard – Foto Cedida por Luis Seabra Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Em França, Cru também denota uma vinha especial ou área de vinhas. Embora de momento Seabra esteja a comprar parcelas de vinhas velhas a alguns viticultores que conhece há muito tempo ele diz, “no momento em que seja proprietário das vinhas poderei fazer CRU de um talhão específico”.

Sem dúvida que também vai adpotar uma abordagem de intervenção mínima no cultivo da uva. Por agora, admite, honestamente, “Tenho alguns conhecimentos sobre gestão de vinhas, mas estou a enganar-me a mim próprio. O que faço está lentamente a mudar a mentalidade dos viticultores… Se conseguir que um viticultor específico não utilize herbicidas num ano já será um grande feito para mim.

Além disso, na calha estão mais dois tintos da vindima de 2014 – um tinto do Douro e outro de “um projecto louco”, diz, com um produtor espanhol de Navarra, Laderas de Montejurra.

Abaixo estão as minhas notas dos seus primeiros lançamentos Cru 2013. Cada um carrega o nome do seu solo de origem – Xisto e Granito – cuja influência Seabra procura transmitir a nu para o copo. Poderão prova-los com Seabra no Simplesmente Vinho 2015 que será realizado na cidade Porto no fim deste mês.

Luis Seabra Vinhos Granito Cru Alvarinho 2013 (Monção-Melgaço,Vinho Verde)

Caption Luis Seabra Cru Xisto & Granito whites 2013 023

Luis Seabra Cru Xisto Branco 2013 & Granito Alvarinho 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Proveniente de quarto talhões em Melgaço. As uvas foram fermentadas e depois estagiaram 9 meses em borras, em tonéis de carvalho da Europa de Leste (um tonel novo de 2000 litros, e o outro, um experiente tonel de carvalho de 1000 litros). O vinho passou por uma fermentação maloláctica parcial. Citrinos picantes e frutas de caroço no nariz, seguido de um palato textural e terroso com borras suaves e almofadadas e um final melado. Um Alvarinho bem-feito e muito textural com uma subjacente acidez mineral, suave mas persistente. 12,5%

Luis Seabra Vinhos Xisto Cru Branco 2013 (Douro)

As uvas deste lote orientado a Rabigato são provenientes de três vinhas velhas em Meda (+80 anos), no Douro Superior, elevadas, entre 650 a 700m acima do nível médio das águas do mar. As outras castas (30% do lote) são Códega, Gouveio, Viosinho e Dozelinho Branco. Um vinho muito sugestivo com acidez dançante e mineral, que depois de algum tempo no copo, revela subtilmente camadas de fumo e noz no seu palato muito textural e vegetal a espargos brancos. Tal como o Alavarinho, demonstra borras muito distintas e almofadadas. 12%

Luis Seabra Vinhos Xisto Cru Tinto 2013 (Douro)

Luis Seabra Xisto Tinto 2013

Luis Seabra Cru Xisto Tinto 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este exemplar de barrica, um lote de Rufete, Touriga Franca, Tinta Carvalha, Alicante Bouchet, Donzelinho Tinto e Malvasia Negra entre outras, é proveniente de duas vinhas de Cima Côrgo com mais de oitenta anos, uma a 400m em Vale Covas, a outra a 570m em Ervedosa (o que é bastante alto para tintos). Ambas foram plantadas em solos de ardósia com predominância de xisto azul. As uvas foram fermentadas, sendo que 50% engaçadas, em barris de madeira abertos, de 3500 litros. O vinho estagiou depois em borras em barris de carvalho francês. É marcadamente um tinto fresco do Douro. Um mundo à parte de alguns dos estilos encorpados, ricos e robustos da região, mostra cereja vermelha crocante, cereja preta sumarenta e groselha e frutos silvestres e leve carvalho, permitindo que os seus taninos finos mas de carga firme e a mineralidade xistosa e enfumaçada tragam textura e interesse ao conjunto. Uma adorável intensidade de vinha, com caruma profundamente incorporada, e um perfume floral tintado que me traz à mente o Dão. Promissor e diferente, no bom sentido.

Contactos
Luís Seabra Vinhos Lda
Rua da Reboleira, Nº 19, 3º Traseiras
4050-492 Porto
E-Mail: lseabrawine@gmail.com