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Uma boa escolha para do dia-a-dia

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes com a vontade de escrever sobre as novidades que entram no mercado ou sobre os inúmeros vinhos que fazem as nossas delícias, acabamos por esquecer e deixar de lado aqueles que no dia-a-dia nos fazem companhia à refeição. São os vinhos que bebemos em casa de forma completamente descomprometida, apenas porque nos apetece beber um simples copo à refeição, e que no caso dos brancos temos sempre uma garrafa pronta a abrir colocada no frio. São estes fiéis amigos que raramente têm um lugar de destaque perante tanta novidade e marca na ribalta. Um desses vinhos que me tem acompanhado ao longo da última década, ainda que com altos e baixos entre colheitas, tem sido o Adega de Pegões Colheita Selecionada branco.

Adega de Pegões Colheita Selecionada white Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

Adega de Pegões Colheita Selecionada branco
Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Comprei este branco de 2013 no supermercado com um preço bem aliciante uma vez que não chega aos 3€, o lote teve ajustes e viu a certa altura a Pinot Blanc ser substituída pela Verdelho, de resto continua o blend de Arinto, Chardonnay e Antão Vaz, dos solos de areia da região de Pegões onde a respectiva Adega Cooperativa está localizada. Fermenta em barrica de carvalho francês onde estagia durante quatro meses com direito a batonage. A relação entre aquilo que custa e a satisfação que proporciona é elevada, ficando por vezes a pensar quantos vinhos de custo muito superior me deixaram renitente ou até defraudado com o tanto que custaram e o tão pouco que mostraram.

Um branco que acompanha bem pratos de carnes brancas ou peixe, mostra notas de fruta bem fresca por entre o tropical e frutos de pomar, ligeiro vegetal também fresco num conjunto a mostrar boa harmonia entre madeira e fruta, muito certinho com toque de ligeira baunilha que o envolve. Estrutura mediana com frescura, bem afinado, sente-se a fruta madura embalada por sensação de alguma cremosidade a meio do palato, final médio.

Contactos
Cooperativa Agrícola Sto. Isidro de Pegões
Rua Pereira Caldas nº 1
2985-158 PEGÕES VELHOS
Tel: (+351) 265 898 860
Fax: (+351) 265 898 865
E-mail: geral@cooppegoes.pt
Site: www.cooppegoes.pt

Quinta do Pôpa Homenagem 2009 para beber e quadrar

Texto João Barbosa

Quando se olha para trás, aí uns 20 anos, para situar um momento após a entrada na então Comunidade Económica Europeia (1986), que muito alterou Portugal, o país não é o mesmo. Em tantas coisas, são dois países.

Há 25 anos não havia canais de televisão privada e nem «restaurantes» MacDonalds – lembro-me de, em 1991, mocinhas adolescentes se concentrarem, junto ao primeiro «Mac», entusiasmadíssimas com a colecção de objectos que de lá traziam, como palhinhas, copos, etc. As marcas de roupa, normais na Europa, davam algum status – hoje parece ridículo.

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Festival da Canção in aluzdomeucaminho.blogs.sapo.pt

O Festival da Canção, o Eurofestival da Canção e o Natal dos hospitais eram um acontecimento. Os dois primeiros, por serem emitidos à noite, reuniam «todo» o país e eram assunto de conversa nos dias seguintes. Já o outro programa, que durava horas infinitas, tinha como espectadores reformados e pacientes hospitalares.

O país era, talvez, ingénuo, com tanta modernidade para aprender. Ter-se-ão perdido coisas boas, mas também infelizes. Como tudo. Para mim, há 25 anos foi o começo do meu ofício, no Diário Económico, órgão onde talvez tenha sido o mais jovem redactor.

Bebia-se mais vinho e os «mais velhos» bebiam o «da casa». Havia pipos e tabernas. Nesse começo dos anos 90 um vinho duriense ganhou uma projecção enorme – julgo por causa dum prémio – e tornou-se apetecido, mais caro. Pelo pioneirismo ainda muitos o têm a marca como referência nos píncaros: o Cabeça de Burro, das Caves de Vale do Rodo. Não é o que foi, como se comprova pelos cerca de 7,5 euros com que é vendido ao público.

Passou-se do oito ao 8000. O número de agricultores diminuiu, mas aumentou o de produtores engarrafadores. Fixe! Mas são tantos, tantos, tantos, que é impossível conhecê-los todos e, mais ainda, provar todos os seus néctares. E continuam a brotar, a fonte parece inesgotável.

Por diversas razões, alguns produtores recentes ganham projecção. Uma das razões – a principal ou que deveria ser a mais importante – é a qualidade do produto que põem no mercado. Não basta. Há que ter cuidado com a designação da marca, com o aspecto do rótulo e perceber que se navega numa multidão. São cada vez mais os vitivinicultores que recorrem a profissionais de comunicação e, por isso, agências especializadas iluminam os seus clientes.

Todavia, tudo vai bater ao ponto inicial: a qualidade. Ainda jovem, a Quinta do Pôpa é uma mais-valia para os enófilos. Gente jovem e dinâmica está merecidamente a ganhar lugar nas notícias e artigos – e cá estou eu a juntar-me à festa. Todo o profissionalismo concentra-se no fundamental: qualidade e «honestidade».

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@ Quinta do Pôpa – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

Esta honestidade que refiro é a de transmitir a natureza ao produto final. Vinho verdadeiro, sem máscaras ou artifícios. A Quinta do Pôpa faz vinho Quinta do Pôpa. O cuidado e o rigor têm uma origem acrescida: o saber e arte de Luís Pato, um dos homens que ousam afirmar e fazer excelentes vinhos com a complicada casta baga, da Bairrada.

Francisco Ferreira, conhecido pela alcunha do «Zeca do Pôpa, fez pela vida e conseguiu amealhar para comprar uma quinta no Douro, em 2003. Situada em Adorigo, no Concelho de Tabuaço, a Quinta do Vidiedo, com 14 hectares, foi rebaptizada, em 2008, para Quinta do Pôpa. Os netos quiseram homenagear o avô e concretizar o seu sonho de fazer vinho.

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Vanessa Ferreira e Stéphane Ferreira – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

A primeira colheita foi em 2007. Este ano, Vanessa Ferreira e Stéphane Ferreira, netos do «Pôpa» lançaram o Quinta do Pôpa Homenagem 2009.

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Quinta do Pôpa Homenagem 2009 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

As uvas vieram de vinhas velhas (40%) e de talhões individuais de tinta roriz (35%) e touriga nacional (25%). Fermentações separadas em pequenos lagares de inox, macerações prolongadas, onde foram pisadas a pé. O vinho foi directamente para barricas de carvalho francês – 40% novas e 60% de segundo e terceiro anos.

Escrever acerca de evocações é-me doloroso, pelo receio de se ser deselegante ou desagradável. Remato com a sentença de que a homenagem calhou muito bem. Honra pela qualidade e respeito pela terra e suas uvas.

Contactos
Quinta do Pôpa, Lda.
E.N. 222 – Adorigo
5120-011 Tabuaço
Portugal
Email: geral@quintadopopa.com
Telemóvel: (+351) 915 678 498
Site: www.quintadopopa.com

D’Avillez Garrafeira 1995

Texto João Pedro de Carvalho

Em 1369 a família Avillez radicou-se em Portalegre, instituindo diversos morgadios. A partir de 1980, Jorge D’Avillez reestruturou as vinhas respeitando as castas tradicionais na região, e a vinificação passou a ser feita numa nova adega, na Quinta da Cabaça, de acordo com a moderna tecnologia. Em 1990 com a enologia da empresa José Maria da Fonseca, nascem as marcas D´Avillez e Morgado do Reguengo, os Garrafeira foram durante uma década símbolos do melhor que se produziu na região, tendo por direito próprio lugar entre os grandes vinhos criados em Portugal.

O último exemplar terá sido o Garrafeira 2000, já longe das performances dos seus antecessores, a estocada final foi dada com a venda da Quinta da Cabaça em 2005 para a Adega Cooperativa de Portalegre. A marca ficou no limbo, surgindo agora pelas mãos da Herdade dos Muachos, não tendo qualquer ligação com aquilo que foi no passado.

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D’Avillez Garrafeira 1995 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

 

Este D´Avillez Garrafeira 1995 é um verdadeiro monumento, um daqueles vinhos arrebatadores e que nos mostra de forma clara o motivo pelo qual Portalegre é considerado um região com condições únicas para a produção de grandes vinhos. Nos 1,3 ha de vinha situada em solo xistoso, nasceu de um lote composto por Trincadeira (50%), Aragonês (35%) e Tinta Francesa (15%). Nos primeiros anos após lançamento no mercado, o vinho era compacto e austero, duro, com tudo ainda muito fechado e escondido. O tempo que passou por ele foi sabiamente lapidando este diamante.

O que se destaca é a frescura que abraça todo o conjunto, tudo muito limpo e no mesmo patamar qualitativo, mostrando uma invejável harmonia de aromas e sabores. Fina e delicada complexidade, ervas aromáticas, fruta madura que quase se trinca (cereja, morango), leve ponta de licor com fundo terroso e especiado, Conquista a cada gole, puro deleite, profundo e delicado, um vinho adulto em plena forma, ombreando sem problema com o que de melhor se faz lá por fora.

Vins de Soif: Os Super-Sofisticados Vinhos Quotidianos de Portugal na Moda

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Os vinhos de Tiago Teles não poderiam encontrar maior contraste do que o EXPLICIT tinto, the subject of my last post.  Não foi surpresa nenhuma para mim que Teles tivesse sido influenciado pelas suas últimas viagens a Beaujolais e à Borgonha. Os vinhos tintos de 2013, Gilda e Maria da Graça, são tão perfumados e femininos quanto os EXPLICT tintos são musculados e masculinos. Os níveis de álcool são pólos opostos! O EXPLICIT 2012 com 15.5%, o Maria da Graça 2013 com 11%.

Qual dos estilos gosto mais? Na verdade, gosto dos dois. Como Dave Powell, fundador da Torbreck Wines (produtor de ousada alta octanagem, mas sempre equilibrada, belezas de Barossa) uma vez memoravelmente me disse. “não significa que queira comer bife todas as noites”.

Para mim, um dos aspectos mais excitantes do vinho é a diversidade de estilos. Com um número vertiginoso de variáveis associadas ao terroir, castas, vindimas e vinificação, apreciar o vinho é excitante, uma aventura interminável. Na verdade, agora que penso nisso, reconheço que os tintos de Teles são ambos estreias para mim. Acho que nunca tinha provado nem um lote de Merlot, Tinta Barroca e Tinta Cão, nem um lote de Alfrocheiro e Alicante Bouschet.

Contudo, como Teles realçou na entrevista do ano passado, as castas são menos importantes do que a origem e, sem dúvida, ambos os tintos, como ele diz “transmitem exactamente o perfil calcário e frio da Bairrada”. Quase se pode sentir o frio dos ventos do Noroeste Atlântico desta região costeira e o barro húmido sob os seus solos calcários.

Em Londres, a intervenção mínima de Teles, o estilo “vin de soif” (leve, fresco, de matar a sede, baixo teor alcoólico) é actualmente moda nos bares de vinhos e lojas independentes que surgiram na minha freguesia, em Hackney. Se este estilo lhe for apelativo, da próxima vez que for a Londres faça um percurso por estes sítios, Trangallán, Brawn, Sager & Wilde, Rawduck, Primeur, VerdenNoble Fine Liquor, Bottle Apostle e Borough Wines.

Aqui estão as minhas notas sobre os tintos 2013 de Teles:

Tiago Teles Gilda 2013 (Bairrada)

Este lote de Merlot, Tinta Barroca e Tinta Cão vem de solos argilosos e calcários. As uvas foram colhidas na segunda semana de Setembro. O tom pálido de carmesim/rubi revela o delicado estilo vin de soif. Nariz fresco e vivo, o palato revela jorros suculentos e brilhantes de ameixas e framboesas acabadas de apanhar – adorável pureza de frutas e animação. Ao abrir, notas de tabaco e especiarias aumentam o interesse. Taninos gentilmente agitados conferem textura e prolongam um equilibrado e sereno final. 12.5%

Tiago Teles Maria da Graça (Vinho do Portugal 2013)

A Alicante Bouschet tem polpa roxo escuro (a maior parte das uvas tintas tem polpa vermelha). Os seus pigmentos mancham as folhas das vinhas e conferem uma tremenda profundidade, escura como tinta, aos vinhos, e no entanto este lote de Alicante Bouschet e Alfrocheiro ainda é mais pálido do que o Gilda. Sem madeira, também é mais delicado, ao estilo Beaujolais com os seus suaves taninos sedosos (para acompanhar peixe), perfume floral de peónia e frutos silvestres e suculentos. Delicado e fresco é delicosamente digerível e tem apenas 11%.

Aqui estão os três mais vivos “vin de soif” tintos Portugueses que eu recomendaria:

Campolargo Alvarelhão 2012 (Bairrada)

Feito por Raquel Carvalho, que também fez os vinhos de Teles, esta rara uva tinta produz um tinto muito perfumado, frutado, fresco com pimenta branca, violetas e a caruma levam-no aos seus tons de cereja amarga subtilmente carnuda e salgada. Uma massagem de taninos de fruta empresta uma aderência muito suave e atractiva. 12.5% abv

Filipa Pato & William Wouters Post Quercus Baga 2013 (Bairrada)

Este pálido vinho rubi é feito a partir das mesmas uvas Baga de vinha velha que o Pato’s Nossa Calcario. Contudo, ao contrário do Nossa, que é envelhecido em carvalho (quercus), este vinho foi envelhecido subterraneamente em duas ânforas de 300 litros. Ânforas porque, primeiro são feitas de barro – o solo da região (que de facto dá o nome à região). Em segundo porque o barro permite uma micro-oxigenação suave que, juntamente com uma abordagem não interventiva, de extração vis a vis (simplesmente passa por uma longa fermentação com as películas), é responsável pelos seus taninos suavemente finos. A fruta sempre bonita e pura – cereja vermelha, caroço de cereja e ameixa suculenta e, embora delicada, brilha intensamente, perdurando no palato. Adorável – um tinto para um dia alegre de verão num piquenique. 11.5% abv

Anselmo Mendes Pardusco 2012 (Vinho Verde)

Após o desengace e esmagamento, este lote de 40% Alvarelhão, 30% Borraçal, 25% Pedral e 5% Vinhão foi fermentado a frio durante 12 horas e prensado após apenas 12 de fermentação com as películas. É fresco, viçoso, seco e persistente com baga vermelha e cereja e um toque floral no final. Muito arredondado nos taninos, acidez e fruta, bebe-se extremamente bem para um Vinho Verde tinto. 12.5%

Contacts
1350-316 LisboaS. Condestável
Portugal
Email: tiagoteles@outlook.pt
Site: www.tiago-teles.pt

Contra todas as expectativas

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Na Finlândia não é fácil encontrar uma boa garrafa de vinho português. Quando comecei a bradar por aqui sobre os vinhos de Portugal, a escolha era escassa. Hoje em dia a possibilidade de escolha é maior mas continua pequena. Nas “escolhas básicas” das lojas monopólio, há aproximadamente 22 tintos portugueses diferentes, 9 brancos, 2 espumantes e um rosé. Há mais alguns na selecção especial mas a maior parte das pessoas nunca a utiliza ou tão pouco conhece a sua existência. Não há muito por onde escolher. Fico contente por as pessoas se mostrarem interessadas e por alguns vinhos esgotarem mesmo, devido às boas críticas que receberam.

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Cabeça de Toiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Fui à loja monopólio mais próxima e peguei no primeiro vinho português que não que ainda não conhecesse. Foi o Caves Velhas Cabeça de Toiro Reserva 2010 do Tejo. A Caves Velhas pertence à Enoport United Wines que é um grupo de antigas adegas portuguesas tais como a Adega Camilo Alves, Caves Dom Teodósio, Caves Moura Basto e mais algumas. O vinho era um lote 50/50 de Touriga Nacional e Castelão. A garrafa veio numa caixa de cartão que estava coberta de fotografias de medalhas e outros feitos, que este vinho em particular recebeu. Não augurava ser algo bom.

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Rolha – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Ao provar o vinho achei que a Touriga Nacional combinava muito bem com a Castelão. A Castelão a suavizar o aroma floral da Touriga, sem no entanto perder um bocadinho que seja da sua intensidade. Tal como o rótulo sugere é um vinho robusto. Encorpado, com fruta madura e aromas de carvalho terroso. Estava à espera de algo mais pesado mas felizmente não era. Não deixa de ser um vinho com alguns “tomates” mas, talvez com comida se revelasse exactamente aquilo que o médico havia receitado.

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Tagliata picante e guacamole robusto à Ilkka – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Então, tive que fazer um grande bife para acompanhar. Normalmente consigo cozinhar um bom bife, mal passado é claro, mas desta vez deixei-o passar o ponto. Distraído pelo copo de vinho na minha mão, esqueci-me do bife e o resultado foi um bife bem passado. Raios! Ainda estava com fome portanto tinha de pensar em algo. Então surgiu-me a ideia de uma picante tagliata-esque de bife fatiado. Também fiz um puré de guacamole e voilá, o almoço estava pronto. E estava muito bom, sou eu que o digo. Mas a coisa mais surpreendente foi quão bem o vinho acompanhou este tipo de comida picante. É óbvio que acompanha bem um bife, mas um bife com pimenta, limão e coentros, quem diria… Ainda que eu tenha feito asneira a cozinhar, o vinho conseguiu salvar o dia.

O branco dos Druidas

Texto João Pedro de Carvalho

A figura do Druida, associada à mitologia Celta, detinha o saber das palavras e da escrita, tal como da cura, especialista nas práticas de magia, sacrifício e augúrio, baseado numa filosofia natural, procurava buscar o equilíbrio, ligando a vida pessoal à fonte espiritual presente na Natureza. Tendo como princípio esse mesmo respeito e ligação com a natureza e acima de tudo uma forte ligação à terra, surge este projeto de dois enólogos, Nuno do Ó e João Corrêa. Escolheram o Dão e a casta Encruzado com a vontade de criar um branco de topo, nascido de uma vinha com 40 anos de idade situada a 500 metros de altitude na Quinta da Turquide, ali bem perto da Serra da Estrela. Um projecto minimalista onde as produções são sempre muito limitadas como no exemplo do Druida tinto cuja produção se limitou a apenas 500 garrafas.

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Druida Encruzado Reserva 2012 branco – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

O Druida Reserva branco 2012 seguiu o seu percurso de forma natural, fermentando usando apenas leveduras autóctones e meditou em barricas de carvalho francês durante nove meses. Tal como a casta, o vinho é de caracter bem vincado, teimoso, envergonhado, diga-se de passagem que por vezes assume uma faceta de polimorfo tal e qual o Druida. A Encruzado é uma casta que precisa de tempo para se acomodar e poder então sim mostrar todo o seu esplendor, neste caso o vinho está ainda em crescimento precisando um pouco mais de paciência. A prova que dá neste momento coloca lado a lado uma complexidade ainda em fase de construção suportada por uma belíssima dose de frescura. A austeridade mineral ainda domina a fruta, tudo com uma madeira que surge com grande subtileza, num conjunto qual riacho pleno de frescura, com margens floridas, vai quebrando a pedra, lavando a fruta de pendor citrino, numa prova que nos transporta para o dito local com a Serra da Estrela em pano de fundo.

Contacts

A Vinha das Romãs

Texto João Pedro de Carvalho

No Monte da Ravasqueira (Arraiolos) decidiu-se em 2002 arrancar um conjunto de romãzeiras que ocupavam um área de cinco hectares para ali se plantar vinha, mais propriamente Syrah e Touriga Franca. Aquela vinha passou a chamar-se a Vinha das Romãs e cedo ganhou protagonismo pela qualidade destacada dos vinhos a que dá origem, revelando uma concentração e um nível de maturação único em toda a área de vinha do Monte da Ravasqueira.

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Vinha das Romãs 2011 & Carne de Porco à Portuguesa – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

É por isso mesmo um “single vineyard”, “monopole”, “vino de pago”, onde o terroir imprime características diferenciadoras e únicas. Aqui o que se procura é o equilíbrio perfeito entre as duas castas, isolando a cada colheita as melhores zonas de cada casta que melhor transmitem a singularidade do local.

Este 2011 é o melhor Vinha das Romãs até à data, conta com Syrah (70%) e Touriga Franca (30%) num perfil claramente Alentejano em que se conjuga frescura e uma qualidade da fruta bastante acima da média. Limpo, boa complexidade com a barrica onde passou vinte meses muito bem integrada num conjunto harmonioso, baunilha e muita fruta negra bem redonda e gulosa, regaliz, especiarias com uma frescura que tantos dizem não fazer parte dos vinhos do Alentejo, como andam enganados. Um belíssimo vinho do Alentejo, que sabe bem, que dá muito prazer ao ser bebido, corpo mediano com muita fruta a explodir de sabor, taninos a conferir algum nervo ao conjunto que se mostra muito envolvente, longo e prazenteiro.

Contacts
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Site: www.ravasqueira.com

Esotérico Não Erótico: Os vinhos Explicit da Jorge Rosa Santos e Filhos

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Já lá vai o tempo em que tive aulas de Latim. E não tenho memória de alguma vez ter feito um enólogo corar, mas Jorge Rosa Santos (júnior) corou enquanto explicava que a marca da sua família, “Explicit”, deriva da expressão latina explicare.

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EXPLICIT tinto, à base de solos xistosos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Significa “revelar-se” e, portanto, também tornar visível. Neste caso, o terroir muito particular das vinhas íngremes e cobertas de xisto da sua família, nas encostas da Serra d’Ossa perto de Estremoz, no Alentejo. Portanto e desde já, vamos deixar isso claro, não é uma referência erótica, antes esotérica. E é uma alcunha adequada para os vinhos da Jorge Rosa Santos e Filhos, extremamente sérios e impulsionados pelo terroir.

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Irmãos e enólogos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Quando comprou um retiro de fim-de-semana no Alentejo, o cirurgião Jorge Rosa Santos não partiu com a intenção de fazer vinho. Foi antes uma consequência inevitável, já que a casa tem oito hectares e três dos seus filhos são enólogos – Frederico (Terras d’Alter), Vasco (Monte da Ravasqueira) e Jorge júnior (Casal Santa Maria). O quarto, Ricardo, é arquitecto, tal como a sua mãe.

Quando me encontrei com Jorge júnior, disse-me que o ponto forte deste projecto de família é que “fazemos aquilo que queremos e aquilo em que acreditamos…não estaríamos a fazer vinho desta maneira se estivéssemos a trabalhar para outra pessoa”. Por exemplo, em 2004, a família ignorou os avisos de que eram “loucos” por estarem a cultivar os seus primeiros dois hectares de Syrah em solos virgens e, no ano seguinte, mais dois hectares de Alicante Bouschet e Aragnoes (Tinta da Pais, clone pequeno e de pele fina da Ribero del Duero). Loucura, como apelidaram, porque em solos rochosos de xisto (20-30cm de profundidade) e com um gradiente de 30%, as vinhas nunca seriam economicamente viáveis.

A vinificação também é pouco convencional. O “Explicit” tinto é deixado em volume livre, sem sulfuração, durante 3 meses. Permitir o oxigénio infiltrar-se nesse volume livre explica a sua rusticidade, e às vezes o toque de acidez volátil típica dos Portos (demasiada em 2008). Aos olhos de Jorge, estas qualidades (juntamente com a concentração intensa, elevado grau de álcool e a formidável estrutura naturalmente conferida pelas vinhas) “dão-nos a nossa própria identidade”. Altamente necessária, reconhece, já que o Alentejo tem muitos projectos a produzir vinho de qualidade mas projectos específicos, como o “Explicit” estavam a faltar, projectos que “capturam a essência da vinha dentro da garrafa”.

Dez anos após terem sido apelidados de loucos, o projecto da família Rosa Santos está a prosperar. Uma prova vertical do “Explicit” tinto destacou a poderosa assinatura salgada de taninos “ósseos” deste tinto impulsionado pelo terroir, qualidades minerais de grande efeito; a progressiva redução de Syrah, melhores condições na adega e a adição da Aragones parece ter dado frutos, originando um vinho mais brilhante e compacto (menos parecido com o Porto). Além disso, o “Explicit” tinto tem desde aí a companhia do “Explicit” branco e do mais acessível “Implicit” (tinto e branco), todos produzidos com uvas compradas.

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A provar a gama – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

Aqui estão as minhas notas sobre as últimas novidades da gama da família e as minhas escolhas da prova vertical Explicit Red (2008-2012):

IMPLICIT branco 2013 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote não envelhecido em carvalho com 50% Alvarinho, 25% Viognier, 12,5% Rousanne e 12.5% Moscatel. As uvas foram obtidas de vinhas relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. Um branco aromático, picante, frutado (mas em nada tutti-frutti), com boa profundidade e equilíbrio, e um salgado e atractivo gosto picante. 13%

EXPLICIT branco 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Proveniente de um hectare de mistura de vinhas velhas, em Portalegre, 540 metros acima do nível médio das águas do mar. Em relação ao estilo, é completamente diferente do Implicit – como Jorge diz, muito mais ao estilo do Mundo Velho porque a fruta, embora presente, não é evidente. Ao invés, a impressão mais notória é de minerais salgados e borras cremosas e finas com sabor a noz. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho até ao início da Primavera, apresenta o carvalho muito suavemente. Apesar de lhe faltar um pouco de acidez, este vinho vasto e texturado é bastante interessante. Gostei muito da sua particularidade não forçada. 14%

IMPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote com 50% de Touriga Nacional, 40% de Syrah e 10% Alicante Bouschet. As uvas foram obtidas de vinhas xistosas, relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. A Touriga confere um bom toque floral – rosa damascena – ao nariz e palato, e a cereja preta também – fresca e cozida. Taninos texturados e maduros mas também salgados, uma mineralidade enferrujada e uma acidez fresca emprestam estrutura e equilíbrio. Muito bom – um rótulo jovem e sério do qual 6546 garrafas foram produzidas.

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Vertical de EXPLICIT tinto – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

EXPLICIT tinto 2010 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah e Alicante Bouschet das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido 17 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Tal como os que o precederam, o 2010 é um vinho escuro e salgado, com a ameixa ponteada a chocolate amargo a despontar a sua essência firme de taninos calcários e “ósseos”. Notas de garrigue (erva mediterrânea) e minerais esfumaçados conferem uma rusticidade selvagem e muito atraente a este tinto encorpado, que é ainda mais imponente pelo seu chassis extraordinariamente longo de taninos maduros mas muito presentes (este vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Esta estrutura de taninos, juntamente com uma acidez (própria) muito equilibrada, permite a este vinho ter 15.5% sem qualquer esforço. Pode-se abrir mas ainda está em desenvolvimento; recomenda-se guardar por mais 5 anos. 5962 garrafas/20 barricas produzidas.

EXPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah, Alicante Bouschet e Aragones das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido durante 24 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Embora o carvalho e o álcool sobressaiam no primeiro dia, no segundo dia este vinho é inundado por uma excelente mineralidade poeirenta. Amora doce e carnuda controlada pela sua abundante película e essência de taninos (também esta vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Um vinho muito visceral, quase cru, com o seu esqueleto, não a carne, em primeiro plano. Eu guardaria este vinho pelo menos durante 2/3 anos antes de o abrir e é conservável por mais alguns anos. 11247 garrafas/40 barricas produzidas.

Pereira d’Oliveira, Madeira – Do armazenamento à venda ao balcão da adega

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Não devem existir muitos lugares no mundo onde se possa comprar ao balcão e directamente ao produtor, uma garrafa de vinho do século 19. Correcção, oito vinhos do século 19 ao balcão.

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira wine list

Lista de vinhos da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pois bem, na adega da Pereira d’Oliveira no Funchal, podemos. E que tesouro escondido é, repleto de garrafas e barris, digno de um coleccionador. Como é que a Pereira d’Oliveira tem tal fantástica e abundante colecção?! Tão abundante que torna a escolha difícil.

Parte da explicação reside no facto de a Pereira d’Oliveira ser uma amalgamação de seis empresas da Madeira: João Pereira d’Oliveira, João Joaquim Camacho & Sons, Júlio Augusto Cunha & Sons, Vasco Luís Pereira & Sons, Adegas do Torreão e, muito recentemente, Barros e Sousa.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe & Luis Pereira d'Oliveira

Filipe & Luis Pereira d’Oliveira, 6ª e 5ª geração de produtores Madeira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas essa não é a principal razão. Luís Pereira d’Oliveira, juntamente com o seu irmão Aníbal, representam a quinta geração da família à frente do negócio que em 1850 foi fundado por João Pereira d’Oliveira. Sendo o responsável pelas vendas, conta-me a história, uma história que me parece familiar (estou a falar da Caves São João’s million bottle cellar in Bairrada). Revela-me que a empresa apenas começou a exportar há 30 anos porque a terceira e quarta geração – o seu pai, tio e avô – não tinham qualquer interesse em fazê-lo. Os três preferiam vender os vinhos exclusivamente na Madeira e em Portugal Continental, o que explica o porquê de a Pereira d’Oliveira ter 1.600.000 litros de vinho Madeira com mais de 20-30 anos. Uau!

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira deformed Moscatel bottles

Garrafas de Moscatel deformadas da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Apesar de hoje em dia a empresa exportar vinho Madeira para 16 países, velhos hábitos demoram a morrer. Quando pergunto a Pereira d’Oliveira (Luís) sobre a compra da Barros e Sousa, diz-me que apenas aconteceu por uma razão – para ampliar a porta da adega/instalações de 600 metros quadrados (que já é uma das três instalações da Pereira d’Oliveira no Funchal). Com 1030 metros quadrados, a vizinha Barros e Sousa vai ajudar a aliviar a pressão do espaço e permitir à Pereira d’Oliveira manter uma longa tradição de engarrafamento on demand (não existem planos para pôr de parte novos vinhos para perpetuar a marca Barros e Sousa).

Esta prática (engarrafamento on demand) engloba uma concentração tipo elixir e intensiade por que é conhecida esta empresa da Madeira. Por exemplo o Bastardo 1927, engarrafado pela primeira vez em 2007, 60 anos depois dos 20 mínimos exigidos para um Madeira Frasqueira de topo.

Com o seu toque acelerado a “vinagrinho”, o super-complexo estilo da casa é também conhecido por outra tradição de longa duração. O Madeira da Pereira d’Oliveira é envelhecido em barris de madeira muito antigos (a maior parte com mais de 60 anos, alguns até com mais de 100). Um processo que, quando executado devidamente e durante um longo período de tempo, confere uma subtil interacção do vinho, da madeira, do calor e do oxigénio, que lentamente realça as inúmeras camadas.

O mundo moderno venera a rapidez mas aqui não há lugar para isso. Ou como Pereira d’Oliveira o diz, “Não gostamos de andar rápido porque isso pode originar algo desinteressante”. Apesar do contexto desta afirmação ser o de continuar um pequeno e independente negócio de família, espelha profundamente a filosofia de vinificação que aqui se pratica. Uma filosofia que permace intacta desde que o enólogo Filipe da sexta geração se juntou ao seu pai, Aníbal.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe Pereira d'Oliveira behind the counter

Filipe Pereira d’Oliveira ao balcão – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A política de “manter o rumo sem mudanças bruscas” é também uma benção para os turistas, especialmente para aqueles que frequentemente saem dos cruzeiros e visitam a ilha sem terem carro à disposição. A Pereira d’Olivereira é absolutamente firme no que toca a estar no coração do Funchal e, situada no número 107, na rua dos Ferreiros, esta adega com atmosfera do século 17 (originalmente uma escola) está a um passo do porto, a norte da catedral da cidade..

Embora a selecção de Madeiras para prova impressione, torna-se quase insignificante quando comparado com o que se pode comprar do outro lado do balcão. Com 56 Madeiras single vintage (Colheita e Frasqueria) à venda, pode-se festejar quase qualquer aniversário que nos venha à cabeça. Mas tomem nota, devem contactar o Livro de Recordes do Guinness se o vosso ano de nascimento está compreendido entre 1850 e 1895.

Aqui estão as notas de prova do meu top 7 deste número 107 (preços de adega)

Photo Credit Sarah Ahmed A fine selection of Pereira d'Oliveira Frasqueira madeira

Uma excelente escolha de vinhos Frasqueira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Sercial 1971 (Madeira)
Mogno com reflexos vermelhos. Fantástico perfil da variedade com a sua acidez de toranja, notas doces de tangerina e goiaba. Muito enfumaçado, longo e agradável. Concentração com linha e longevidade. €94/garrafa

Pereira d’Oliveira Terrantez 1971 (Madeira)
Âmbar profundo, com um nariz e palato complexos. Mais rico que o Sercial, com uma acidez a laranja (não a toranja), mais madura e arredondada. No entanto mais seco, mais saboroso com um delicioso suporte de tabaco, cedro e especiarias secas. Muito persistente com um fundo mineral/iodo num final longo. €110/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Bastardo 1927

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 (Madeira)
Esta garrafa em particular foi retirada do barril em 2014; o 1927 é o único Bastardo da Pereira d’Oliveira, e portanto, extremamente raro. A tonalidade carregada relembra-nos que a Bastardo é uma uva tinta e não branca. É mais robusto, mais doce e com mais fruta no seu palato doce-picante e tâmara amarga. A acidez sumarenta  está bem integrada, misturando-se e extendendo a fruta até um final longo com especiarias escuras, suaves sementes pretas de cardomomo e leve cigarrilha de café crème. O final é um pouco poeirento mas a fruta é generosa o suficiente para manter à distância qualquer adstringência da madeira. €300/garrafa

Pereira d’Oliveira Verdelho 1912 (Madeira)
Esta casa é conhecida pelo Verdelho. Filipe Pereira d’Oliveira diz-me que é um fã do seu estilo meio-seco (e tal como eu, um firme fã do Terrantez). Este tem um um palato avivado fora do comum para um vinho de 102 anos. Não se deixem enganar pela sua tonalidade de mogno maduro – as aparências iludem. Revela goiaba fresca, jovial e picante, chutney de tâmaras carnudas com tamarindo amargo e um toque de pele de toranja. Uma maravilha. Espero ser assim tão cheia de energia se chegar aos 102 anos!! Juntamente com o Terrantez 1880, a minha escolha da prova. €330/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Moscatel cask

Barril de Moscatel da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Moscatel 1875 (Madeira)
Já antes tinha tido a sorte de provar um Moscatel muito velho, fino e raro – o 1928 Morris Muscat de Rutherglen e o José Maria Fonseca Apoteca Moscatel de Setubal 1902. Ambos eram intensamente viscosos. Ainda não tinha encontrado nenhum Moscatel na Madeira, mas a imagem de marca da ilha realmente transporta e distingue este Moscatel – diria que é o melhor de entre estes exemplares muito velhos que provei. Por isso, embora tenha uma cor mogno muito escuro, com uma correspondente concentração super intensa de açucar Demerara, escuro, ligeiramente amargo, com especiarias poeirentas(cardamomo preto, tamaraindo), café do campo e melado, é muito nivelado e a acidez bem integrada oferece uma certa precisão já para não falar da impressionante longevidade. Não é viscoso o que confere a este vinho uma fantástica energia e brilho. €760/garrafa

 

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira - the oldest madeiras tasted

Pereira d’Oliveira madeira – os vinhos mais velhos que provei – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Terrantez 1880 (Madeira)
Relativamente pálido, naquilo que parece ser um traço dos Terrantez. Muito interessante, mas acima de tudo, uma incrível elegância, longevidade e integração para a idade que tem. Uma boa base de especiarias delicadas e tabaco conferem-lhe linha e entusiasmo. Brilhante equilíbrio e serenidade. Juntamente com o Verdelho 1912, a minha escolha da prova. €780/garrafa

Pereira d’Oliveira Sercial 1875 (Madeira)
É difícil acreditar que este Sercial tem quase mais 100 que o primeiro (também ele um Sercial) dos sete magníficos vinhos que escolhi. A semelhança com a família estão bem patentes,  em termos varietais e estilo da casa. Goiaba, pele de toranja e até umas notas de maça acabada de cortar cantam por entre o véu de fumo e minerais. O seu distinto aroma vulcânico, iodo e algas servem de lebrete palpável do muito peculiar terroir montanhoso, oceânico e vulcânico da ilha. Incrível longevidade, persistência e delicadeza. Acho até que pode ser outro dos meus favoritos… €760/garrafa

Contactos
Rua Ferreiros 107
9000-082 FUNCHAL
( )
Tel: (+351) 291 220 784
Fax: (+351) 291 229 081
Site: perolivinhos.pai.pt

J.Faria & Filhos, no reino da Tinta Negra

Texto João Pedro de Carvalho

De forte implementação no mercado regional da Madeira, a J. Faria & Filhos, Lda. apenas começou a comercializar Vinho Madeira em 1993, apesar de ter sido fundada em 1949 onde a principal actividade era o fabrico de licores tradicionais e concentrados de frutos. Com o crescimento do mercado regional a empresa alargou o leque de produtos passando a comercializar licores, Aguardente de Cana-de-açúcar (Rum da Madeira), Brandy, Vinhos da Madeira e Concentrados de frutos.

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J. Faria & Filhos, Lda. © Blend All About Wine, Lda.

A produção de Vinho Madeira na J. Faria & Filhos tem como base a casta Tinta Negra, que dá origem a uma alargada gama de vinhos com destaque para os 5 e 10 anos. Numa visão geral são vinhos feitos para agradar e que se encontram facilmente na grande distribuição. Um produtor que se pode dizer recente e sem toda a carga histórica a que estamos acostumados noutros lados, resta apenas indicar os dois vinhos que mais se destacaram em toda a prova.

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5 anos Meio Doce © Blend All About Wine, Lda.

5 anos Meio Doce
O mais equilibrado da gama dos 5 anos, com ligeiro crescimento no copo, consensual, muitas tâmaras e notas de bolo de mel, ligeira frescura em fundo a aguentar o conjunto. Na boca mantém a mesma prestação, simples e direto, ligeira complexidade num conjunto simples e descomplicado.

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10 anos Seco © Blend All About Wine, Lda.

10 anos Seco
Foi o vinho que mais gostei da prova, novamente os tons da Tinta Negra a marcarem presença embora o conjunto mostre um pouco mais de complexidade e uma maior frescura, com notas de fruto seco, ligeiramente salgado, num final médio.

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