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Quinta da Leda Vintage 1990, o primeiro Quinta da Leda

Texto João Pedro de Carvalho

Em 1979 a antiga Casa Ferreirinha ou A. A. Ferreira prosseguindo a tradição da família Ferreira adquiriu um terreno inculto denominado Quinta da Leda na freguesia de Almendra. Foram plantados cerca de 25 ha de vinha com o objectivo de testar as qualidades dos vinhos produzidos na sub-região do Douro Superior. O encepamento consistia em Tinta Roriz 34% Touriga Francesa 33% Tinta Barroca 23% Touriga Nacional 8% e Tinto Cão 2%. Ao décimo ano surgiu o primeiro vinho ali produzido e também o primeiro Vintage obtido no Douro Superior pela Casa Ferreirinha, Quinta da Leda Vintage 1990, tendo direito a uma segunda edição apenas em 1999. Hoje em dia a Quinta da Leda conta com 75 hectares e nela se colhem as melhores uvas da empresa, destinadas a vinhos como Barca Velha e o próprio Quinta da Leda cujo primeiro tinto surge como varietal de Touriga Nacional em 1995.

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Quinta da Leda vista panorâmica – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta da Leda Port Vintage 1990 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Confesso uma e outra vez que não sou grande apreciador de Porto Vintage, nem eu mesmo chego a entender por vezes esta minha rejeição ou incapacidade de ficar em êxtase com o estilo Ruby. Tenho assumidamente uma clara preferência pelos Tawny, sempre fui apreciador de vinhos onde a oxidação é palavra de ordem e os vinhos têm de mostrar argumentos para saberem resistir com galhardia à passagem do tempo. É por isso bem possível que não me consiga recordar de muitos Vintages que me tenham marcado de forma categórica. Mas recentemente tive oportunidade de beber este Quinta da Leda, um Vintage com 25 anos de vida e que a meu ver está naquele ponto óptimo de consumo, nem mais para um lado nem para o outro. No instante do primeiro contacto, do primeiro sorvo, dei por mim a pensar em como teria sido este vinho na sua fase mais jovem, não terá sido certamente um portento de força e taninos rugosos a implorarem por cave e pelo contrário deverá ter sido sempre um vinho que em novo teria alguma ponta de austeridade necessária para desenvolver embora desde cedo mostrasse elegância e equilíbrio entre a opulência da fruta bem madura e sumarenta com a frescura. Uma fórmula que podemos aplicar aos vinhos Quinta da Leda desde que foram saindo para o mercado.

E enquanto beberico o que resta da garrafa em acto de pura gulodice acompanhei com uma mousse de chocolate com azeite e pimenta vermelha. Ligação fantástica que catapultou o vinho para outro patamar a nível sensorial, tendo acidez suficiente para limpar o palato a fruta vermelha bem fresca alia-se em plena harmonia com o chocolate 70% cacau. Muita qualidade a mostra-se bem complexo e rico em detalhe, com frutos do bosque a surgirem já macerados, tabaco, especiarias, chocolate negro, ligeiro terroso no fundo. Na boca replica tudo o aqui descrito, enorme frescura logo de inicio que acompanha toda a passagem pelo palato com um apontamento apimentado e seco no final. Certamente ainda vai durar mais alguns anos em garrafa mas para mim foi um Vintage que me deu muito prazer a beber.

Contactos
Sogrape Vinhos, S.A.
Rua 5 de Outubro, 4527
4430-852 Avintes
Portugal
Tel: (+351) 227-838 104
Fax: (+351) 227-835 769
E-Mail: info@sograpevinhos.com
Website: www.sograpevinhos.com

Esporão Verdelho 2004, da cave para a mesa

Texto João Pedro de Carvalho

Desde cedo que enquanto enófilo ganhei o gosto de guardar vinhos por longo período na minha cave. O objectivo sempre foi e continuará a ser a curiosidade por ver como evoluem uns e a necessidade expressa dessa mesma guarda por outros tantos vinhos que ali ficam esquecidos durante largos anos. Quem gosta de vinhos e gosta de os apreciar é curioso por natureza, faz parte de condição humana o ser curioso. É essa mesma curiosidade que nos leva a querer saber algo mais sobre a maneira como se vão comportar com a passagem do tempo, até que forma o tempo os consegue educar ou não. Certo e sabido que o risco é quase sempre um factor também a ter em conta, mais ainda quando os vinhos que guardamos não têm qualquer historial que nos garanta o sucesso da nossa operação. A ressalva será sempre feita para todos aqueles que estando demasiado jovens e com os taninos em pontas necessitam de um bom repouso. E depois lá vão ficando algumas dezenas, depois centenas de garrafas acumuladas por tipo e região, garanto que o mais difícil é começar todo este processo. As surpresas até hoje têm sido quase sempre positivas, aprende-se sempre um bocadinho com estas comparações entre o vinho que foi em novo e o vinho adulto que é hoje, outros surgem já cansados e com as rugas da idade mais ou menos vincadas.

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Garrafeira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Esporão Verdelho 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Muito recentemente e por motivo de um jantar de amigos aqui em casa, decidi resgatar um desses vinhos que tenho na cave, um Esporão Verdelho 2004. Um branco com 11 anos de idade, um atrevimento ou até loucura dirão alguns, mas a verdade é que este Verdelho conseguiu a proeza de atingir aquele momento wow destinado apenas aos grandes vinhos. Esse momento é quando a generalidade dos convivas esboça um sorriso após provar o vinho que tem no copo e diz a dita palavrinha… wow. Um vinho que provei vezes sem conta na altura do seu lançamento no mercado, gostava tanto na altura que resolvi guardar umas garrafas. Esta terá sido a última resistente deste Verdelho 2004 que mostrou ainda uma invejável frescura de boca e de nariz, toda a fruta que antes era fresca agora está envolta em calda e ligeiramente adocicada, toques vegetais com tisana, ramalhete de flores, tudo muito bem composto num vinho sério e adulto, com as ideias muito bem delineadas. Na boca frescura, ponta de untuosidade a enrolar a fruta no palato, mostra-se com consistência e muito boa presença, muito prazer a beber e a voltar a beber, sem cansar.

É este um dos motivos que me leva a guardar vinho, acima de tudo a curiosidade mas também a satisfação de posteriormente os poder partilhar com gente que lhes sabe dar o respectivo valor. O único senão é quando a garrafa fica vazia e nos questionamos por que razões na altura não se guardaram mais umas garrafas.

Contactos
Herdade do Esporão
Apartado 31, 7200-999
Reguengos de Monsaraz
Tel: (+351) 266 509280
Fax: (+351) 266 519753
E-mail: reservas@esporao.com
Website: esporao.com

Pormenor: O Diabo está nos detalhes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Pormenor significa detalhe. Sem dúvida que Pedro Coelho olhou aos detalhes e fez o trabalho de casa – os seus primeiros lançamentos de Pormenor 2013, Douro, já esgotaram. Nada mal para um enólogo de primeira geração que me disse “o meu avó era um produtor de carvalho, o meu pai produtor de cortiça, por isso… era preciso que houvesse alguém na família que produzisse e bebesse vinho… esse alguém sou eu!!!!”

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Rolhas Pormenor – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Portanto, além do entusiasmo juvenil de Pedro pelo projecto, qual é a atracção? A embalagem é simples – não exagera – mas tem classe com um toque contemporâneo que chama a atenção na prateleira. E quão contemporâneo é lançar dois Douros brancos e um tinto! O seu consultor enólogo é o ex-Niepoort Luis Seabra, mais um detalhe, a cuja própria gama de vinhos Cru escrevi estas páginas anteriormente este ano.

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Tal como Luis Seabra, o objectivo de Pedro é o mostrar o Douro “no seu estado mais natural… com o mínimo de intervenção, dando prioridade às principais carecterísticas do Vale do Douro: vinhas, uvas, solo e clima”. E tal como a gama Cru de Luis Seabra, estes brancos são vivos e muito texturais. De certa forma, não são muito diferentes dos rótulos – sem exagerar mas a insinuar – encontram a sua própria marca.

Na realidade os brancos são o ponto mais forte, achei o tinto um pouco rústico. Algo que é fascinante se considerarmos que os brancos provêm da sub-região Douro Superior, normalmente mais seca e quente , e o tinto da sub-região Cima Corgo. Cima-Corgo, bem no “coração do Douro”, é recorrentemente citada como fonte dos mais elegantes vinhos do Douro e vinhos do Porto, e os Pormenor brancos mantêm essa fasquia – o diabo está nos detalhes, especialmente na especificidade do local. É precisamente este factor que explica porque é que, contrariamente a sabedoria recebida, o Douro Superior é uma das fontes de alguns dos meus vinhos brancos Douro favoritos. Por exemplo, Conceito, Quinta de Maritávora, Ramos Pinto Duas Quintas, Muxagat (apesar de, infelizmente, Mateus Nicolau de Almeida já não estar envolvido no projecto) e Mapa.

Aqui estão as minhas notas relativamente a estes lançamentos de estreia:

Pormenor Branco 2013 (Douro DOC) – este pálido vinho amarelo provém de vinhas muito velhas sobre xisto no Douro Superior, situadas entre 400 a 500 metros de altitude em Carrezeda, Ansiães. As uvas foram apanhas no fim de Agosto a fim de preservar a acidez. Aparentemente a Rabigato e a Códega do Larinho predominam, ambas as castas têm boa fruta, mas a Rabigato é alta em acidez e a Códega do Larinho é mais usave, menor acidez. O vinho foi fermentado e envelhecido em tanques inox. É um amarelo pálido com um palato altamente individual impregenado de abacaxi grelhado com canela, damasco e marmelo mais firme – bastante frutado para o Douro. Uma complexidade de mel de acácia e um nogado cremoso remetem para um palato sedoso e redondo. Uma madura e perfeita, ininterrupta acidez permitem um longo final. Bebe-se já muito bem e sozinho, tem peso e potencial para funcionar bem com pratos condimentados de peixe branco. 12.63%

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Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Similarmente, o blend de vinhas velhas (com a Rabigato e a Códega do Larinho a predominarem) foi colhido precocemente de vinhas em Carrezeda, Ansiães. No entanto, a fruta veio de vinhas mais altas, entre 600 a 800m de altitude, portanto, o palato do Reserva (amarelo ligeiramente mais escuro), é, mais firme, mais concentrado, com mais fruta de uva e mineral, assim que ultrapassada a madeira – gostei bastante mais no segundo dia, quando a madeira não foi tão intrusiva e terminou longo, focado e mineral. O Reserva foi naturalmente fermentado e envelhecido durante nove meses em barris de carvalho francês da Borgonha sem controlo de temperatura nem batonnage. Deixa-lo-ia repousar durante mais ou menos um ano de forma a permitir a integração da madeira. 12.5%

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Pormenor Branco Colheita 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – este blend de médio corpo de algumas uvas clássicas do Douro (principalmente Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Amarela e Rufete) provém de vinhas velhas com mais de 50 anos, em Soutelo do Douro, Cima Corgo, plantadas entre 500 a 600 metros de altitude. Foi fermentado e macerado em cubas de inox com alguns cachos inteiros (engaço e uvas) durante 25 dias e envelhecido durante 14 meses em barris de carvalho francês. Como o Reserva Branco, este vinho precisava de ar. Desta vez por causa de “ruído branco” terroso no nariz que prejudicou a fruta (e que inicialmente pensei ser causado por deterioração bacteriana, brettanomyces). No entanto, a lucidez do palato (da mesma garrafa) ao terceiro dia, sugere que tenha sido um perfil “engaçado” derivado da fermentação com os cachos. Como estava o Pormenor Tinto ao terceiro dia? Apresentou-se com groselha vermelha fresca, cereja e ameixa, com um toque subtil de “floralidade”. Apesar de os taninos serem terrosos e rústicos, não se meteram no caminho dos aspectos mais agradáveis deste vinho – a fruta e a frescura (de facto permitiram aquele bonito toque floral aparecer). Enquanto que a rusticidade remete para a ideia de Pedro mostrar o Douro “da maneira mais natural”, na melhor das hipóteses, os engaços na fermentação de cacho inteiro podem produzir vinhos com especiarias e estrutra empolgantes. Pedro disse-me que este vinho foi colhido no início de Setembro de forma a “manter o alto nível de acidez” mas, embora saude a frescura do palato, pergunto-me se os engaços não teriam benificiado mais se estivessem um pouco mais maduros? Claro que 2013 foi um ano complicado – a partir de 27 de Setembro houve um período de chuvas intenso que incentivou a colheita precoce. Estou sim, interessada em provar as próximas colheitas deste vinho. 12.5%

Contactos
Tel: (+351) 919 679 393
Email: geral@pormenor-vinhos.com
Website: www.pormenor-vinhos.com

Quando (quase) não havia marcas de vinho em Portugal

Texto João Barbosa

Estou velho! É verdade! Por mais que diga que fulano é um chavalo, a verdade é que estou como o meu pai, que faleceu aos 90 anos, que se referia aos amigos como: «um rapaz da minha idade».

Esta afirmação de estar velho nem tem a ver com a idade, mas com um país que era outro. Não por ser adolescente, mas porque era outro. Em Portugal era raríssimo, até 1986, vestir roupa de marca… sapatilhas Adidas? Dizíamos: «Devem ser… Adidas da farmácia». Os discos desalinhados com o main stream vinham da Grã-Bretanha, por encomenda ou pedido a alguém que lá fosse. As estrelas da pop apareciam na Bravo, uma revista em alemão que quase ninguém sabia ler. Quem era a Nena?! Dois ou três anos depois soubemos, quando cá chegou o hit «ninety nine red ballons».

Ia-se a Espanha comprar sapatilhas, caramelos, torrão de Alicante. Lá, cheirava aos terríveis cigarros Ducados e o café era imbebível. Eles vinham cá na Páscoa, comer bacalhau, marisco ao Alentejo, mesmo que fosse de 150 quilómetros da costa do Atlântico, e comprar toalhas e colchas.

Nesse país a preto e branco, da década de 70, ou de cores esbatidas do decénio seguinte, o vinho não tinha marca. Em Lisboa ainda havia tabernas, com pipas imundas de sarros… vinho lá da «terrinha», «purinho do produtor»… Marcas? Uma ou duas; exceptuando as de Vinho do Porto e Vinho da Madeira.

Em 2014, havia 2.067 viticultores e 4.212 vitivinicultores. Portugal, como nos restantes países da União Europeia, urbanizou-se e o sector primário perdeu peso na economia. Há 30 anos haveria muitos mais produtores, mas muitíssimo menos vitivinicultores. As cooperativas tinham um peso importante no negócio.

Foi com duas ou três marcas que resolvi escrever este texto. Porém, reparei que essas «duas ou três» eram bastante mais. Ainda assim… O número acaba por ser irrelevante. O negócio e consumo de vinho de há 30 anos, ou 25 ou até 20 anos, para cá mudou muito. Fico-me com os resistentes e com os renascidos. Pensava que caberiam nas minhas duas mãos… precisei de mais três pessoas, se calhar ainda falho o algarismo certo.

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Publicidade do Periquita em autocarro – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Publicidade Vintage Periquita – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

O Alentejo era conhecido pelas searas de trigo e pelas florestas de sobreiros e azinheiras. No Douro fazia-se Vinho do Porto, ponto! Dão e Bairrada tinham um peso considerável. Porém, Portugal tem marcas antigas, que em alguns casos se podem comparar às reputadas de França.

O caso mais óbvio é o do Periquita, produzido na região da Península de Setúbal. A receita tem vindo a mudar, mas basicamente era feito com uvas da casta castelão – sucesso tão grande que se alastrou a toda a volta, tornando a marca em sinónimo de variedade de fruta. Hoje, é marca registada, após batalha legal vencida pela firma José Maria da Fonseca.

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Publicidade Periquita em 2000 para o 150º aniversário – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Publicidade Periquita em 2000 para o 150º aniversário – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Publicidade Periquita em 2000 para o 150º aniversário – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Quando se diz Periquita está a falar-se de 1880, embora se saiba que tenha sido transacionada uma garrafa da década anterior e indicações de 1850. Em 1886 ganhou um prémio internacional.

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Periquita 1880 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Garrafa antiga de Periquita – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Lilliput! Milhares, milhões de portugueses a fazerem o seu vinho. Poucas marcas. Duas casas se destacaram a de João Camillo Alves e de Abel Pereira da Fonseca. Colossos, à época. A diferença era tal que surgiu uma anedota, de gosto duvidoso: «No seu leito de morte, o senhor Fonseca terá dito aos seus descendentes que até de uvas se fazia vinho».

É piada (parva), porque Abel Pereira da Fonseca era homem honrado e já fora dos grandes negócios, como a firma José Maria da Fonseca, além de séria, só o fundador teve esse apelido. Seja como for, a anedota traduz a realidade.

Uma realidade que fica para a próxima crónica.

Contactos
Quinta da Bassaqueira – Estrada Nacional 10,
2925-542 Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, Portugal
Tel: (+351) 212 197 500
Email: info@jmf.pt
Website: www.jmf.pt

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O Gaveto, um restaurante e marisqueira de referência

Texto José Silva

Este “O Gaveto” começou por ser uma marisqueira, mais uma, em Matosinhos, quando Manuel Pinheiro a comprou, em 1984.

A partir daí continuou como marisqueira, mas passou a ser também um restaurante confortável, com boa comida tradicional portuguesa. Foi ganhando clientela, sempre com muito trabalho, fruto não só da simpatia e do profissionalismo que o proprietário sempre exigiu no serviço, mas também dos produtos de enorme qualidade utilizados nas variadíssimas confecções. E foi isso que foi transmitindo aos filhos que, apesar de terem feito os estudos que entenderam, desde cedo começaram a ajudar o pai no restaurante e na residencial que possui no Porto, hoje transformada num pequeno hotel de qualidade, agora gerido pela filha Cristina. No Gaveto, em Matosinhos, o filho mais velho, José Manuel, juntou-se ao pai mais cedo, até que, em 1995, foi a vez do outro filho, João Carlos, se lhes juntar.

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O Gaveto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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O Gaveto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Muito trabalho, dedicação, simplicidade e bom relacionamento quer com o pessoal, quer com a clientela, que foi sempre crescendo e em que uma parte significativa é hoje também amiga da casa e dos dois irmãos. O pai Manuel, já reformado, continua a passar por ali diariamente, dando uma ou outra opinião, mas sobretudo gozando o facto de poder ver o seu trabalho de muitos anos muito bem entregue aos seus filhos, com grande sucesso.

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Peixe fresco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Marisco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O marisco e o peixe fresco do dia são uma constante, com receituários extremamente simples, deixando brilhar a qualidade dos produtos.

Dois  viveiros enormes de marisco vivo, logo à entrada, são o garante da frescura do que vem do mar.

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Lagosta – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Marisco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A que se junta um enorme escaparate de algum marisco já cozido e dos vários tipos de peixe fresco, à vista de todos. O enorme aquário, normalmente ocupado pelas lagostas, vai albergar, a partir de Janeiro, as muitas lampreias, também elas vivas, que são uma das coroas da casa. Cozinhadas à bordalesa ou em arroz de lampreia, levam ali verdadeiras romarias de apreciadores que, até lá para o final de Abril, nunca saem defraudados. Nessa época, também o sável vai brilhar, cozinhado a preceito. E também o serviço de snack é bem sucedido, sejam os pequenos petiscos, a sopa de marisco saborosa, o churrasquinho no pão e, claro, a tradicional francesinha. Na companhia de cerveja a copo gelada muito bem tirada.

Mas ao longo dos últimos anos o serviço e a oferta de vinhos tem vindo a constituir uma verdadeira paixão, ao ponto de terem hoje uma carta de vinhos onde pontuam as grandes referências nacionais, e mesmo alguns vinhos estrangeiros de grande nível. Muitos produtores nacionais bem conhecidos passaram a ser clientes assíduos, alguns deles mesmo amigos pessoais dos dois irmãos, fazendo ali muitas provas e mesmo apresentações de novidades e algumas raridades. Que casam muito bem com muitos dos pratos que passaram a ser de escolha obrigatória para muitos deles.

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Selecção de vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Arroz de Tamboril – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para além das mariscadas que ligam bem com espumantes e vinhos brancos encorpados e frescos, a escolha vai-se refinando para o arroz de tamboril ou o soberbo arroz de lavagante, das melhores confecções que conheço. Ou mesmo um branco especial para acompanhar um linguado ou uma posta de garoupa grelhados na brasa.

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Arroz de lagosta – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Arroz de marisco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O arroz de marisco tem ali grande tradição, assim como umas carnudas e saborosas amêijoas à Bulhão Pato.

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Ameijoas à Bulhão Pato – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Bacalhau à Narcisa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Não faltam também as bacalhoadas, com o bacalhau à Narcisa a brilhar, posta alta frita no ponto, com cebolada farta e batata frita às rodelas.

Ou mesmo uma tradicional carne de porco à alentejana. Ao sábado, as tripas à moda do Porto têm seguidores dedicados.

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Carne de porco à alentejana – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sopa de marisco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na última visita começamos pela sopa de marisco, saborosa e com toque precioso de picante.

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Peixe galo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Redoma branco 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foi um simples filete de pescada fresca com salada russa deliciosa, para terminar com o peixe galo, em postas bem fritinhas, acompanhado por uma açorda gulosa com as ovas do peixe!

O Redoma Branco 2013 esteve sempre à altura…

Contactos
Restaurante O Gaveto
Rua Roberto Ivens, 826
4450-249 Matosinhos – Portugal
Tel: (+351) 229 378 796
Fax: (+351) 229 383 812
E-mail:geral@ogaveto.com
Website: www.ogaveto.com

Barão de Vilar LBV 2010

Texto João Pedro de Carvalho

Estamos já em pleno Outono, altura em que os dias ficam mais curtos e o tempo parece que demora a passar. Um contra senso talvez, uma vez que em pleno Verão os dias são maiores embora com mais tempo para nos distrairmos nem se dá pelo passar das horas. Por esta altura do ano entram em cena as nozes, as abóboras, as romãs ou as maçãs, é altura dos marmelos mas acima de tudo das castanhas. E falar de castanhas é um lembrar no imediato o cheiro das castanhas assadas a percorrer as ruas das nossas terras em dias de frio e neblina.

Foram tantas as vezes que fui comprar meia dúzia enrolada num cartuxo em papel de jornal, quase sempre das antigas páginas amarelas que nos deixava as mãos cheias de tinta, e corria para casa para as comer uma a uma bem ao lado da lareira. Hoje em dia ainda as compro na rua, mesmo a casa já seja em plena cidade onde desapareceu a lareira e por imposição das entidades competentes que acharam que o antigo papel de jornal nos ia deixar todos muito doentes, agora o papel passou a ser outro. Mas o que interessa é que o sabor e as memórias que recordo valem pelo instante, quase sempre acompanhado de um copo de Vinho do Porto. Quase sempre um LBV que costumo ter aberto em casa, calhou desta vez ser um Barão de Vilar LBV de 2010, com enologia de Álvaro van Zeller. É um quase antecipar a tradição de São Martinho, comemora-se a 11 de Novembro e diz que “come-se as castanhas e prova-se o vinho”, ou então que “no dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho”.

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Castanhas assadas

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Barão de Vilar LBV 2010 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Neste caso é um estilo de vinho que aprecio bastante nesta altura em que o frio se começa a instalar, a chuva começa a marcar presença e tal como este LBV é um vinho que já está muito pronto a beber, com frescura dos frutos vermelhos, com a ligeira austeridade que o Outono nos mostra e que na mistura de aromas e sabores tão característicos desta estação do ano nos consegue dar aquele momento de prazer que procuramos enquanto nos recostamos no sofá. Muito certinho, sem falhas nem grandes motivos de exaltação e é por isso que gosto dele, eficácia tremenda para aquilo a que se destina e isso nos dias que correm começa a ser raro encontrar vinhos que pela relação satisfação/qualidade/preço nos deixem tão satisfeitos e bem aconchegados.

Contactos
Núcleo de Acolhimento de Empresas de Sta. Comba da Vilariça, Lotes 10/11
5360-170 Santa Comba da Vilariça
Tel: (+351) 22 3773330
Fax: (+351) 22 3753735
Website: www.baraodevilar.com

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Restaurante Camelo, um clássico do Minho com comida regional a sério

Texto José Silva

Já lá vão mais de 25 anos desde que a família Camelo abriu esta casa de bem comer em Santa Marta de Portuzelo, ali a meia dúzia de quilómetros de Viana do castelo, na estrada N202. Desde então e até hoje a aposta foi sempre, sem qualquer dúvida, na cozinha regional, com base em muitos e bons produtos.

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Restaurante Camelo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O restaurante Camelo foi crescendo, cedo começou a fazer serviços, e hoje tem vários espaços que podem ir até às 1000 pessoas. Nos meses de verão o movimento é estonteante!

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Restaurante Camelo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Restaurante Camelo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas nada disto tirou discernimento à família Camelo, com a velha sala muito confortável, alguma cantaria nas paredes, serviço personalizado, mesas muito bem postas para apreciarmos uma grande refeição. Sobretudo ao fim-de-semana é aconselhável fazer reserva de mesa, pois enche normalmente, durante todo o ano. O sr. Camelo, sempre dum lado para o outro, cumprimenta-nos com a pergunta marota: “Já cumprimentou algum camelo hoje?”

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O Bar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

À entrada há uma pequena sala de espera, com sofás e o bar mesmo ao lado, se for necessário aguardar por mesa. Até porque para além de vários pratos emblemáticos da casa, há pratos em certas épocas que são muito procurados, vindo gente de muito longe para os apreciar. A época do sável e da lampreia é uma delas, que vai de Janeiro até Abril e as várias confecções de lampreia – à bordalesa, em arroz e assada no forno, entre outras – são extraordinárias, com lampreias ali do rio Lima de grande qualidade. O sável frito em postas fininhas, uma boa salada de alface e açorda com as suas ovas é incontornável. Ao segundo domingo de cada mês, é uma romaria para apreciar um portentoso cozido à portuguesa, que é difícil de descrever.

As entradas são muito variadas – bolinhos de bacalhau, pataniscas de bacalhau, chouriço, salpicão, orelheira, focinho e chouriça de cebola cozidos – e por vezes as curiosas “caralhas”, que são miúdos de novilho escalfados em vinho verde tinto de Perre, uma delícia.

As sopas são óptimas, desde a sopa de legumes da época, caldo verde, canja de galinha até às soberbas papas de sarrabulho, com muitos cominhos por cima!

A proximidade do mar traz algum marisco e peixe muito fresco – robalo, pescada, dourada, rodovalho, linguado – que é tratado com simplicidade na grelha, simplesmente cozido ou em algumas confecções, como a pescada à Camelo. O bacalhau está sempre presente com força, ou não estivéssemos no Minho. Para além das maneiras mais tradicionais, o bacalhau à Camelo é dos mais procurados, sempre de posta alta, demolhada no ponto e muito bem acompanhada. Mas são as carnes que se destacam na ementa deste restaurante tradicional, sejam de porco, de vaca ou de galináceos.

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Rojões à moda do Minho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Arroz de sarrabulho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Uns completos rojões à moda do Minho, que podem ser acompanhados pelo arroz de sarrabulho, a posta de carne barrosã saborosa e macia ou um imponente costeletão de novilho.

O cabritinho da Serra dArga assado no forno faz as delícias dos apreciadores e esse verdadeiro hino à cozinha portuguesa que é o galo com arroz de cabidela, que ali se chama “galo de pé descalço”, com o humor muito próprio dos minhotos. Aos galos criados na casa, juntam-se muitos bichos criados pelos lavradores das redondezas, da confiança pessoal da família Camelo.

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Arros de Cabidela – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Vinho verde tinto da casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Carne rijinha, saborosa, envolvida pelo arroz carolino cozido no ponto, que acaba de “abrir” no tachinho de ferro que vem à mesa, e o toque precioso de vinagre de vinho a espevitar o conjunto. Grande confecção!

O vinho verde tinto da casa, em malguinha, foi a companhia certa. Acabou o banquete?! Nada disso, faltam as sobremesas, num desfilar que parece não ter fim. O leite creme, o pudim e o arroz doce confirmam a tradição, excelentes.

A despedida é sempre um até á próxima…

Contactos
Rua de Santa Marta 119
Estrada Nacional 202 – Santa Marta de Portuzelo
Viana do Castelo, 4900-252
Portugal
Tel: (+351) 258 839 090
Website: www.camelorestaurantes.com

Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005

Texto João Barbosa

O peso do vidro chateia-me. Existe alguma probabilidade de ser o primeiro a começar uma crónica vinícola desta maneira. Tem alguma coisa a ver? Tem! Não empatando: pegada de carbono e/ou respeito pela natureza. Há uns anos era sabido que, para se ter sucesso, bastava rotular uns números grandes (com um gatafunho indicador da moeda) e pôr o vinho numa garrafa com tara de 1,7 quilogramas (verídico).

O vidro é nobre, mas não se bebe. Tive de escrever isto porque o que apresento tem muito «do mundo». É um bom vinho (!), está numa boa garrafa e não pesa uma tonelada. Vidro de qualidade é fundamental para guardar um néctar pelo qual se tem a garantia que vale a pena esperar. Só isso e nem mais um grama.

A outra «metade» do «mundo» é a natureza que se encontra nos vinhos da Quinta de Foz de Arouce. Se há vinhos que merecem ser «acusados» de demonstrar terroir, este é um deles. Quanto a mim, essas sete letras são um acrónimo poético de solo, subsolo, enquadramento geofísico, agricultura e/ou vegetação próxima, casta, fauna, clima, sabedoria agrícola e de adega e… já escrevo a última componente. Não há vinho sem o homem, por isso tem de estar na equação.

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Quinta de Foz de Arouce – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

Podem fazer-se maus vinhos tendo tudo para serem bons, mas o inverso é impossível. É também verdade que há territórios mágicos, onde nascem obras-primas, mas que o pintor compõe a «Gioconda», de Da Vinci, em vez do «Nascimento de Vénus», de Sandro Botticelli. Aí entra a última componente: o produtor – tem de exigir o seu retrato, a sua imagem e linhagem.

A Quinta de Foz de Arouce fica num não-lugar! Não fica na Bairrada, nem no Dão nem noutro sítio. Esta propriedade é única, pois se não fosse haveria, por ali, muitos vinhos desta dimensão.

Se ficasse na Borgonha, Foz de Arouce seria um «Grand Cru», um «Monopole». Aprendi na escola que se situa na Beira (Alta, Baixa e Litoral) – o não-lugar situa-se a 23 quilómetros de Coimbra.

Terei exagerado quando escrevi «Grand Cru»? Este é um vinho que não conheço irmão. Tem uma capacidade de envelhecimento notável. Estamos em 2015 e abri a de 2005. Em plena forma física, elegante, longo, fundo, complexo. Valerá a pena despejar descritores? Todo ele (o vinho) vai e vem, junta e afasta, como numa dança, com o passar do tempo no copo. Tem 14% de álcool e ninguém o diz até o ler no contrarrótulo.

A casa condal tem documentos, datados do século XVII, que referem a qualidade do vinho. Levaria tempo a contar, mas um Senhor de Foz de Arouce pregou uma partida a Filipe III de Portugal (Felipe IV de Espanha), tendo apostado barricas do seu já afamado néctar.

Este – o Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005 – é um monumento, e duma casta que ganhou má fama. Hoje já se começam a cantar laudes à baga. Tenha origem no Dão ou na Bairrada, não é um gatinho mimado. Tem garras afiadas e prontas a espetar.

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Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005 – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

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João Perry à esquerda e João Portugal Ramos à direita – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

Em termos humanos, João Portugal Ramos – genro do actual conde de Foz de Arouce – é reconhecido como um dos melhores enólogos portugueses. Ali, naquela quinta coimbrã conta com João Perry Vidal, que trata aquelas videiras por tu e conhece o nome de todas as abelhas e joaninhas.

Originalmente só havia vinhas de casta baga. Há uns anos foram cultivadas vides de touriga nacional, criando uma diferenciação entre o Foz de Arouce «normal» e o «vinhas velhas». Nasceu também um vinho branco, da casta cerceal.

Todos bons, mas há o «único».

Contactos
Quinta de Foz de Arouce
3200-030 Foz de Arouce
Lousã, Portugal
Tel: (+351) 268 339 910
Fax: (+351) 268 339 918 / 268 339 916
Email: condefozarouce@jportugalramos.pt
Website: www.fozdearouce.com

Uma aliança entre o vinho e a arte, no coração da Bairrada

Texto José Silva

Já há uns anos pertencente ao grupo Bacalhôa, a Aliança tem sabido manter e mesmo refinar uma entidade muito própria e, apesar de produzir vinhos noutras regiões vinícolas, é com a Bairrada que se identifica profundamente e é ali que continua sediada.

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Aliança Vinhos de Portugal – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

Se são os seus espumantes que lhe dão prestígio e reconhecimento no mercado, os seus vinhos bairradinos têm vindo a crescer paulatinamente, afirmando-se hoje como vinhos de excelência numa região que se libertou de algumas amarras e viaja hoje à vontade, a toda a bolina, sempre rumo à qualidade. As suas aguardentes lá continuam em repouso nas profundezas das caves, sem pressas, mantendo a extraordinária qualidade a que nos habituaram.

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Aliança Underground Museum – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

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Aliança Underground Museum – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

Em recente visita, fizemos um agradável passeio pelas caves e o seu revolucionário museu a que chamaram “Aliança Underground Museum”, onde estão alojadas centenas de peças fantásticas da vastíssima colecção do proprietário da empresa, que vale bem a pena conhecer. Essa viagem cultural é partilhada por muitos dos vinhos que ali se produzem e estão guardados nas caves.

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Aliança Underground Museum – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

E onde, obviamente, os espumantes são reis incontestados, até pela quantidade de garrafas em estágio. São corredores escuros e baixos, cheios de bolores que atestam a humidade constante que, aliada às temperaturas baixas com pouquíssima amplitude térmica, proporcionam condições ideais para o desenvolvimento destes vinhos com gás natural.

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Aliança Underground Museum – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

As aguardentes ocupam a parte mais profunda das caves, com uma quantidade incrível de cascos de madeira muito velhos, que as acariciam naquele ambiente surreal.

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Francisco Antunes – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

E foram vinhos e espumantes da casa que provamos, numa interessantíssima prova dirigida pelo Francisco Antunes, ditector de enologia da casa, grande conhecedor da região, muitos anos a produzir vinhos tranquilos e espumantes, viciado na caça e duma boa disposição contagiante.

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Aliança Branco Reserva 2014 – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

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Aliança Tinto Reserva 2012 – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

Começamos pelo Aliança Branco Reserva 2014, feito com Maria-Gomes, Bical e Arinto. Um vinho de combate. Amarelo citrino, cristalino, muita fruta branca no nariz, algo floral, muito elegante. Na boca é seco, muito fresco, citrino com volume médio, um vinho moderno. A €2,15 a garrafa é um excelente opção. Passamos ao Aliança Tinto Reserva 2012, feito com Baga, Touriga Nacional e Tinta Roriz. Muita fruta, muita frescura e juventude. Na boca é intenso, persistente, mantém bastantes notas de fruta madura, taninos já domados mas bem presentes, um vinho a pedir comida.

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Aliança Tinto Baga 2009 – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

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Aliança Rosé Baga-Bairrada Bruto – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

O Aliança Tinto Baga 2009 revelou toda a excelência aromática da casta Baga. Intenso, muita fruta, notas de compota. Redondo, bom volume de boca, frutos vermelhos muito maduros, taninos poderosos, bem vincados, excelente acidez e final longo. Belo vinho que já se bebe muito bem, mas que vai envelhecer muito bem por muitos anos. Passamos então aos vinhos com bolhinhas, começando pelo Aliança Rosé Baga-Bairrada Bruto, uma novidade no mercado. Duma cor salmão muito suave, com bolha muito fina, apresentou-se muito elegante no nariz, ligeiramente floral, com notas de frutos vermelhos. Na boca é seco, com óptima acidez, bela estrutura e muita elegância, um espumante moderno.

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Aliança Baga-Bairrada Bruto 2013 – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

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Aliança Bruto Vintage 2010 – Foto Cedida por Aliança Vinhos de Portugal | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se o Aliança Baga-Bairrada Bruto 2013, citrino, cristalino com bolha fina muito elegante. No nariz tem notas de maçã verde, alguns frutos secos, tosta. Na boca impressiona pela frescura e acidez vibrante, seco, intenso, notas ligeiramente tostadas e final longo e saboroso. Um óptimo bairradino. Terminamos a prova com um clássico, o Aliança Bruto Vintage 2010. Amarelo ligeiramente torrado, bolha finíssima e cordão persistente. Nariz exótico, com notas de frutos secos, nozes, tosta, noz moscada. Na boca é poderoso, seco, muita complexidade, acidez intensa, volumoso, cheio, cremoso, com final imenso, um espumante de excelência.

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Petingas e carapauzinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Bolinhos de bacalhau e rissóis de leitão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Passamos então à mesa, onde provamos alguns destes vinhos, para fazer companhia a um conjunto de petiscos – petingas e carapauzinhos, bolinhos de bacalhau e rissóis de leitão.

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Galo assado no forno com arroz de ervilhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Queijo, marmelada e pão-de-ló – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foi um galo assado no forno com arroz de ervilhas, para terminar queijo, marmelada e pão-de-ló. Os vinhos da Aliança continuavam a escorrer pelos copos.

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Vinhos da Aliança – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

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Até à próxima – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

Já cá fora, foi a despedida, até à próxima…

Contactos
Aliança – Vinhos de Portugal SA
Rua do Comércio, 444
Apartado 6
3781-908 Sangalhos
Portugal
Tel: (+351) 234 732 000
Fax: (+351) 234 732 005
E-mail: alianca@alianca.pt
Website: www.alianca.pt

Casa da Passarella, um dia nas vindimas

Texto João Pedro de Carvalho

Fomos visitar a histórica Casa da Passarella, no Dão, com a Serra da Estrela em pano de fundo e literalmente metemos as mãos nas vinhas mais velhas deste produtor. Em plena altura das vindimas o convite foi aceite para ir conhecer as fantásticas vinhas velhas que dão origem aos melhores vinhos desta Casa, num trabalho de campo com muita aprendizagem e um almoço bem descontraido onde brilharam dois novos lançamentos. No final ainda tivemos uma vertical do tinto Vinhas Velhas ao lado de duas novidades que em breve vão chegar ao mercado.

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Casa da Passarella – Foto Cedida por Casa da Passarella | Todos os Direitos Reservados

Foi chegar, pegar na tesoura e descer as ruas do pitoresco vilarejo da Passarela até chegar às vinhas. Um cenário fantástico com três pequenas parcelas de vinha cuja idade supera já os cem anos, dispersas em três pequenos patamares, assente em solo predominantemente granítico onde cepas de uvas brancas convivem lado a lado com cepas de uvas tintas. Castas com nomes que de tão estranhos correm o risco de ficar esquecidos no tempo e por mais que se queira apenas se consegue entender toda a magia e especificidade de uma vinha como esta estando no local e reparar na enorme variedade de castas que ali moram. Pena que durante largos anos as vinhas do Dão estiveram em decadência e com isso a qualidade dos vinhos a que davam origem. Foi preciso um forte investimento por parte dos produtores em plantar nova vinha, o que de certa maneira ajudou a um afastamento ou até mesmo o arranque do vinhedo mais velho.

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Uvas das vinhas centenárias – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Enxertia Jaén 2012 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O blend resultante destas vinhas velhas carrega a alma da região, o Dão tem nas suas vinhas mais velhas a sua maior riqueza e temos de agradecer a todos aqueles que com esforço e bastante dedicação, lutam para as preservar e conseguir vinhos que quando educados de forma correcta na adega, atingem patamares muito altos de qualidade. Portanto não é de estranhar a forma apaixonada como o enólogo Paulo Nunes fala destas suas “meninas” com quem, segundo palavras dele, tem aprendido muito. E com o que estas vinhas velhas lhe ensinam ele na sua parte de mestre criador tem conseguido interpretar de maneira tal que os resultados falam por si. Fora de modas, sabe criar e educar grandes vinhos, nota-se que à medida que as colheitas vão passando o seu estilo “Dão da Serra” afina num misto de tradição/modernidade com vinhos de fina exuberância, muita definição da fruta que combina raça, carácter, corpo e um natural aveludado que teima em dar sinais logo desde cedo.

Foi já à mesa servido por um tradicional prato de Rancho que me fiz acompanhar da mais recente novidade, o Enxertia Jaén 2012. Um vinho perigosamente apetecível que desapareceu do copo num ápice, a combinação entre estrutura/frescura/fruta sumarenta resulta num combo perfeito à mesa. Em momento de desfrute e amena cavaqueira, foi rei e senhor este Jaén que soube pela vida e marcou mais um belíssimo momento de convívio.

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Paulo Nunes, vertical de Vinhas Velhas – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Mas foi ainda com as vinhas velhas na memória que se realizou a vertical desde o primeiro exemplar Vinhas Velhas 2008 até ao mais recente 2012. Notou-se a evolução do perfil, com o 2008 a mostrar uma maior presença de baunilha e tosta ao lado de fruta muito gorda e sumarenta. O que mostrou menor prestação e mesmo mais deslocado de toda a prova foi o 2010 cujos apontamentos mais adocicados destoam por completo dos restantes. O mais calado de momento é o 2011 que se encontra na fase de arrumação e ainda pouco quer mostrar embora esteja um belíssimo vinho em perspectiva. Vencedores da prova se é que se podem considerar assim, tanto o 2009, arriscando a ser o melhor até à data com o 2012. Vinhos compactos e sedutores, bom equilíbrio com corpo médio e um pouco de maior arredondamento dado pela barrica, tudo isto sempre com uma acidez/frescura habitual dos vinhos da região.

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Os novos “O Fugitivo” – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último ficou a apresentação oficial dos novos vinhos que já tinham sido dados a conhecer ainda que de forma envergonhada e agora sim foram dados a provar com a roupagem definitiva. Inseridos na gama O Fugitivo, surgem o Garrafeira branco 2013 e o tinto Vinhas Centenárias 2012. A produção de qualquer um deles não supera as 2000 garrafas, são dois grandes vinhos que espelham a terra que os viu nascer. Enquanto o tinto vai buscar como foi dito lá atrás a raça, carácter e corpo com uma acidez e travo de ligeiro vegetal que lhe confere uma bonita energia no palato. Complexo, profundo e ao mesmo tempo ainda muito novo, muito no perfil do Vinhas Velhas 2012 embora todo ele com um pouco mais de tudo. Já o Garrafeira branco é um vinho de estrondo, nada fácil e fora de modas, cheira a Dão de outros tempos, cheio de garra com taninos a marcarem o final cheio de secura, o vinho grita por descanso em garrafa. Eléctrico, nervoso, tudo ainda muito novo tanto no nariz como na boca, do melhor que a região me colocou no copo nos últimos anos.

Contactos
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6290-093 Lagarinhos
Telefone: (+351) 238 486 312
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