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Vinho engarrafado era para as festas

Texto João Barbosa

Há 50 anos, um registo «não se diluía no mar de marcas que actualmente existem e não estava tão sujeito “aos gostos dos mercados” e às classificações dos líderes de opinião. Permitia, por isso, fidelidade por parte do consumidor, que fortalecia as marcas, as empresas, o negócio e o estilo do vinho» – explica Virgílio Loureiro.

«O vinho engarrafado era para dia de festa e o mais procurado era o do Dão. A fama tinha sido conquistada mais pelo pioneirismo do engarrafamento do que pela qualidade. A marca era “colectiva”, associada à origem e sobrepunha-se quase sempre à marca da empresa. Havia também marcas individuais, algumas delas lendárias, fruto da qualidade do vinho e, principalmente, da genialidade com que era publicitado» – informa Virgílio Loureiro.

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Rótulo Grão Vasco – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Rótulo Grão Vasco – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Um caso emblemático é o Grão-Vasco, surgido em 1958, após a visita de Fernando Guedes (Sogrape) ao Dão. A marca escolhida foi o nome pintor Vasco Fernandes (Grão-Vasco – séculos XV e XVI), natural de Viseu.

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Buçaco Branco Reservado – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

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Buçaco Tinto Reserva – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Entre o Dão e a Bairrada há o clássico Buçaco (branco e tinto), do Palace Hotel do Bussaco. Por burocracia, não tem data de colheita, mas o número do lote indica o ano da vindima. Alexandre Almeida, sobrinho do fundador, conta que tudo começou por ser o «vinho da casa» e a primeira garrafa data de 1917.

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Palace Hotel do Bussaco – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

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Garrafas – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Na tradição, os vinhos são feitos com a junção de uvas da Bairrada e do Dão – eram vinhos tradicionais dos agricultores, não de enólogo. «Desde logo com a ideia de permitir ao viajante a descoberta da gastronomia local e dos seus vinhos, enquanto vivência duma genuína afirmação cultural». À mesa serviam-se pratos tradicionais, «a par da cozinha, então moderna, de Escoffier».

No ano de 1964 surgiu o Adega Cooperativa de Borba Reserva, conhecido simplesmente por «rótulo de cortiça», pelo seu uso em vez de papel.

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Adega Cooperativa de Borba Tinto Reserva – Foto cedida por Adega de Borba | Todos os Direitos Reservados

Alguns vinhos mudaram de nome: o Tinto Velho (1878) hoje é José de Sousa. O Conde d’Ervideira Reserva (cerca de 1880) existe, mas acima dele existe Conde d’Ervideira Private Selection. É um vinho ressuscitado, a produção foi abandonada em 1954 e retomada em 1991.

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José de Sousa Tinto Velho 1996 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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José de Sousa – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

O Gaeiras Branco, feito com a casta vital, viveu grande prestígio nas décadas de 60 e 70 – mas começou a receber prémios a partir de 1876.

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Casa das Gaeiras Reserva Vinhas Velhas – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

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Casa das Gaeiras tinto – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

Morreu durante uns anos, ressurgindo com a colheita de 2013 – o herdeiro é o Casa das Gaeiras Vinhas Velhas.

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Casa das Gaeiras – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

O lugar de Peramanca deu o nome a um dos mais reputados vinhos do Alentejo. Registado, no século XIX, por José António Soares, foi valorizado, mas acabou. Em 1987, a marca Pêra Manca foi doada à Fundação Eugénio de Almeida, na condição de surgir apenas em anos excepcionais. O primeiro branco é de 1990 e o tinto de 1991. O rótulo original tem por base uma aguarela de Alfredo Roque Gameiro (1864 – 1935), mas em 2003 foi redesenhado e simplificado.

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Pera-Manca Tinto 1998 – Foto Cedida por Cartuxa | Todos os Direitos Reservados

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Pera-Manca Branco 1996 – Foto Cedida por Cartuxa | Todos os Direitos Reservados

John Reynolds, neto de Thomas Reynolds que comprou a Herdade do Mouchão, decidiu plantar uma vinha da casta alicante bouschet – pela primeira vez em Portugal. O Mouchão também ressuscitou, em 1985. A adega foi erguida em 1901 e a produção decorreu até à ocupação da Reforma Agrária (marxista).

Ao contrário do que pensei originalmente, encontrei mais marcas do que esperei. É impossível lembrar todas. Enumero mais algumas: Caves do Solar de São Domingos, Colares Chitas, Viúva Gomes, Lagoa Reserva, Messias Santola, Messias Vinho Verde, Messias Rosé, Frei João, Porta de Cavaleiros, Montes Claros, Pasmados…

Os 25 anos do vinho Duas Quintas

Texto José Silva

Foram dois dias a comemorar uma data de grande importância para o Douro e para a Ramos Pinto: os 25 anos dos vinhos Duas Quintas. (João Pedro de Carvalho também escreveu um artigo sobre este tópico, leia aqui)

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O Bolo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A que se juntaram outras duas datas que também mereceram celebração: o fim das vindimas na Ramos Pinto e a jubilação de João Nicolau e Almeida, quer como director de enologia, quer como administrador delegado da empresa, depois de 40 anos de trabalho intenso e dedicado.

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Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Nas instalações da Ramos Pinto em Gaia, depois da chegada dos convidados nacionais e estrangeiros, teve lugar uma prova muito bem organizada de 23 brancos Duas Quintas, entre clássicos e reservas. Os vinhos apresentaram-se em grande forma, a revelar uma evolução extraordinária em garrafa. O mais antigo, de 1994, apresentava um amarelo intenso, muito limpo, com nariz suave e aveludado e  deliciosas notas de evolução. Grande complexidade, boa estrutura, com uma acidez incrível, fino e muito elegante, um belo vinho. O mais recente, de 2014, apresentou uma cor citrina muito clara e é uma explosão de aromas de fruta no nariz, ligeiramente floral, muito jovem. Fresco, acidez intensa, cheio de fruta madura, seco, exótico, a pedir comida. O 2014 Reserva também é amarelo citrino, muito elegante. Aromas intensos de fruta madura, ligeiras notas vegetais, com uma complexidade deliciosa. Intenso, grande equilíbrio entre a fruta e as notas vegetais, exótico, seco e com grande acidez, a prometer grande evolução. Um reserva moderno.

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Quadro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quadro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foi a visita divertida ao museu da Ramos Pinto, que ajuda a entender a filosofia do seu fundador, cujo espírito se mantém em toda a empresa até ao presente.

Seguiu-se um óptimo almoço, na companhia de alguns dos vinhos provados e lá fomos até ao Douro, em passeio tranquilo.

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Almoço – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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A dançar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Chegados à quinta do Bom Retiro, foi a surpresa da festa das vindimas, com direito a petiscos, o vinho a escorrer pelos copos e até um grupo de música a tocar num palco bem montado. A coisa prometia!

E veio outra surpresa, esta para João Nicolau de Almeida: um palanque com a representação da garrafa do Duas Quintas alusiva aos 25 anos e os cantares populares com versos dedicados à historia da empresa e ao homem, colega, companheiro e amigo que agora se vai retirar. O João fartou-se de agradecer, muito emocionado. Não faltaram os seus filhos e até os netos.

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Palanque – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Lagarada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Enquanto a festa continuava cá fora, apreciamos um óptimo jantar e de seguida acompanhamos a última lagarada, com os pisadores a trabalharem os mostos em dois lagares de granito, para vinho do Porto.

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A casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No dia seguinte uma chuva ligeira fez-nos companhia, mas não retirou o ânimo de todos para uma prova épica de 23 tintos, entre clássicos e reservas.

Os vinhos estavam ali, decantados, e nós servíamo-nos à vontade, orientando a prova como entendêssemos, com tempo para apreciar.

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Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O mais antigo, de 1990, dum rubi claro, já não vai evoluir mais, mas ainda assim apresentou um nariz fantástico, elegante, sedoso, perfumado. Na boca está muito equilibrado, suave, taninos muito maduros, um senhor idoso mas com muita classe. O mais recente, de 2013, é granada muito escuro, carregado. Aromas florais, violetas, urze e notas de framboesa. Na boca é intenso, ainda austero, com notas florais, taninos poderosos e óptima acidez. Apesar disso já tem o perfil de elegância que lhes é característico. O mais velho dos reservas, de 1992, é um vinho extraordinário, duma cor rubi intensa, muito limpo. Nariz cheio de souplesse e elegância, com notas suaves de madeira e fumo. Na boca é muito fino, com taninos muito maduros, notas de tabaco, final sedoso muito longo. Grande vinho!

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Almoço – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Caldo Verde – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se um almoço volante, servido no alpendre da casa, com muitas vinhas ao fundo e a morfologia do Douro por companhia.

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Vinhos do Porto Ramos Pinto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Parabéns – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Quem quis voltou aos brancos e no final bebeu-se vinho do Porto e cantaram-se os parabéns. Acabara de se virar uma página na longa história dos vinhos do Douro.

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No alpendre – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De regresso a casa, passaram-me pela memória algumas das histórias divertidas do João Nicolau de Almeida, com o seu sorriso franco e contagiante.

Assim adormeci no autocarro…

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Porto Blackett 30 Anos, marcado pelo poder do tempo

Texto João Pedro de Carvalho

Uma vez mais continuo na incansável procura pela novidade, encaro isto como uma boa desculpa para continuar a fazer algo que adoro, provar vinhos. E muito recentemente no meio de mesas atafulhadas de garrafas alguém me perguntou se conhecia a marca Blackett e os seus respectivos Portos. Esbocei um sorriso e disse que desconhecia, sorriso esse que aumentou quando à minha frente foi colocada uma garrafa de Porto Blackett 30 Anos. E é nestas alturas que nos sentimos qual criança com um brinquedo novo nas mãos, neste caso trata-se de um senhor tawny.

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Porto Blackett 30 anos – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Antes de me alongar a falar sobre o vinho, convém centrar um pouco na pessoa que foi  George Blackett, nasceu em Leeds e estabeleceu-se na cidade do Porto no século XIX como comerciante de Vinhos do Porto. O seu posicionamento dentro do sector permitiu-lhe uma progressão assinalável figurando no Top five dos maiores comerciantes desse século. A actividade seria alargada pelos seus filhos nos primórdios do século XX com a associação ao transporte marítimo dando lugar à companhia Blackett e Magalhães. Com a passada do tempo a empresa que se dedicava ao comércio de Vinho do Porto foi mudando de nome, passou por Blackett e Companhia, mais tarde Blackett Sucessores até ser integrada numa grande companhia após a segunda guerra mundial, mais propriamente em 1949. Um nome perdido na História que foi resgatado pela Alchemy Wines, Port Wines & Vineyards, Lda e mostra neste caso um vinho marcado pelo poder do tempo, capaz de sobreviver e crescer ao longo de sucessivas gerações, tal como o propósito desta nova empresa. Este Blackett 30 Anos é proveniente de vinhas cuja idade varia entre os 40 e 60 anos, localizadas no Douro Superior e resulta de lotação de vinhos de superior qualidade envelhecidos em cascos, cuja idade média é de 30 anos.

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Adega – Foto Cedida por Alchemy Wines | Todos os Direitos Reservados

Nunca em tempo algum irei colocar em causa o majestoso Porto Vintage, mas aquilo que mais me encanta e facilmente me conquista é um copo de Porto Tawny, quanto mais velho melhor. É no estilo Tawny que reside, a meu ver, a alma e essência daquilo que é o Vinho do Porto. O lote é uma arte dominada pela figura do master blender que na sua genialidade trata por tu todas as velhas pipas que repousam nas imensas caves. É essa figura que quase sempre passa despercebida aos olhos do consumidor e que sabendo escolher por entre centenas de barricas as que considera melhores, como quem monta um puzzle, consegue criar verdadeiras obras de arte. Neste caso um Tawny 30 Anos com uma belíssima complexidade, muito fresco com uma limpeza de aromas fantástica, tabaco, noz, alperce cristalizado, caramelo de leite, ligeira laca, sensação de untuosidade num conjunto amplo e profundo, com final de boca guloso. Tudo muito preciso na forma como conjuga a juventude e vigor dos vinhos mais novos com a complexidade e educação dos vinhos com mais idade que lhe complementam o lote. Vinhos destes são a recompensa ideal para nos acompanhar no final de um dia de trabalho.

Contactos
Alchemy Wines
Port Wine & Vineyards
Avenida da Boavista, nº2121 – 4º Sala 405
4100-130 Porto
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Vinho de todo o lado – e a começar no Douro

Texto João Barbosa

Durante o período da Guerra Colonial, o Exército era abastecido com vinho engarrafado. «Nessa altura era proibido vender vinho a copo, porque o Estado desconfiava que era oportunidade para adulterar o vinho». Em 1965 rebentou o escândalo do «vinho a martelo», uma bebida «obtida por fermentação de açúcar e junção de água e corantes» – conta Vasco d’Avillez.

Branco ou tinto? Cheio! «A maioria das pessoas não fazia ideia do que era um vinho bom e bebia aquilo a que estava habituada, quer fosse tinto deslavado quer fosse branco oxidado e pesadão» – explica Vasco d’Avillez.

O enólogo Virgílio Loureiro conta que, «até à década de 60, o vinho em Portugal pouco mais era do que sempre foi ao longo dos últimos 250 anos. O local de culto do seu consumo e de compra era a taberna, onde era quase invariavelmente vendido a granel. A exigência dos clientes não era muita, pois o copo era servido cheio – não dando azo a que se pudesse apreciar o seu aroma – e geralmente bebido de um trago».

As tabernas de Lisboa e Porto, embora com preferências de origem (não regiões demarcadas) vendiam vinho de diferentes locais. O vinho provinha sobretudo da terra de origem do taberneiro.

A demarcação da região do Douro data de 1756, a empresa que a instituiu ainda existe – conhecida por Real Companhia Velha. Durante séculos, o Vinho do Porto era o negócio, os vinhos tranquilos não tinham relevo.

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Real Companhia Velha Grandjó – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

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Real Companhia Velha Grandjó – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Esta firma detém marcas icónicas do Douro. Em 1912 foi criada a Grandjó, específica para vinhos de colheita tardia. Só na década de 60 surgiram os primeiros vinhos sem Botrytis Cinerea, para responder à procura de vinhos mais leves.

Em 1913 nasceu o Evel – «leve» escrito ao contrário. «O objectivo foi criar um vinho elegante, macio e leve», explica Pedro Silva Reis que preside à Real Companhia Velha. «Os primeiros vinhos, tais como hoje, correspondiam às características descritas: elegantes, macios e, de certo modo, leves. Naquela época existiam poucas marcas e apenas uma pequena parte do vinho consumido era engarrafado e rotulado. A marca notabilizou-se a partir dos anos 30 e 40, pelo que será de supor que terá demorado alguns anos até se considerar um verdadeiro sucesso». Nas duas décadas seguintes, o Evel chegou à mesa do chefe do Estado, passando os rótulos a ostentar a designação de «Fornecedora da Presidência da República».

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Real Companhia Velha Cellar – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

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Pedro Silva Reis – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Real Companhia Velha tem também o oposto do Evel. O Porca de Murça, criado em 1928, homenageando um monumento pré-histórico. «Vinhos tintos potentes e encorpados. A produção dos brancos só aconteceu anos mais tarde. A marca atingiu altos níveis de fama entre as décadas de 40 e 60. Recentemente, a marca voltou a viver momentos de glória ao tornar-se a marca do Douro mais vendida no mundo» – afirma Pedro Silva Reis.

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Barca Velha 1952 – Photo Provided by Sogrape Vinhos | All Rights Reserved

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Casa Ferreirinha Colheita Seleccionada 1960 Reserva Especial – Photo Provided by Sogrape Vinhos | All Rights Reserved

Quando se fala no Douro, há dois vinhos obrigatórios, considerados, por muitos, como os dois melhores de Portugal: Barca Velha (1952) e Ferreirinha Reserva Especial (1960). A Sogrape estabeleceu que os vinhos com maior potencialidade de guarda se designem por Barca Velha e os que previsivelmente terão longevidade inferior se chamem Ferreirinha Reserva Especial.

O espírito e o estilo nunca mudam. Até ao presente saíram 17 Barca Velha e 16 Ferreirinha Reserva Especial (entre 1989 e 1987, a legislação não permitiu o uso do adjectivo «especial».

Três grandes marcas: Casal Garcia, Lancers e Mateus

Texto João Barbosa

Para quem é formado em história, escrever uma crónica longa sobre vinhos, em fascículos, é doce de macã para se dar a bebés. A civilização Egípcia durou quase 3.200 anos e cabe num livro… mais ou menos. Coloquei o marco nas marcas com 50 anos e escolhi as sobreviventes – vendia-se muito vinho a granel e em garrafas de litros, famosas pelas seis estrelas em relevo.

Vasco d’Avillez, hoje presidente ca Comissão Vitivinícola de Lisboa, recorda que, por essa altura, as exportações de vinho «subiam a um ritmo muito grande e em que os produtores se começaram a apetrechar com materiais de muito boa qualidade».

A seguir à Segunda Guerra Mundial, dois cidadãos norte-americanos tiveram uma influência gigantesca no negócio em Portugal. Deduziram que as tropas quando regressassem levariam recordações europeias, e o vinho estaria no topo das escolhas. Todavia, se não houvesse dois homens de visão nada teria acontecido: António Porto Soares Franco (José Maria da Fonseca) e Fernando Guedes (Sogrape).

O Conde de Vila Real, com casa na localidade de Mateus, recebeu a visita dum americano que, ao provar um vinho da casta alvarelhão, afirmou que daria um bom rosé. A Sogrape, fundada em 1942, aproveitou a dica e seguiu o conselho dado ao titular.

O pequeno palácio barroco deu o nome ao vinho e a Sogrape contratualizou com o Conde de Vila Real o uso da imagem do edifício. Porém, não há qualquer ligação entre o solar de Mateus e o vinho.

A Sul, em Azeitão, a José Maria da Fonseca produzia já um rosé. O Faísca era um sucesso comercial, com promoções, eventos, patrocínios… Em 1944, Henry Behar, que tinha uma distribuidora nos Estados Unidos, quis levá-lo, mas havia um grave problema! Faísca lembra fiasco. Lembrou-se do quadro de Diego Velázquez «A Rendição de Breda», também conhecido por «Las Lanzas» ou «Lancers».

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Lancers – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Vasco d’Avillez  sublinha que cedo se produziram milhões de litros. Em 1975, o Mateus chegou aos 36 milhões de garrafas e o Lancers às 18 milhões. Outro campeão de vendas é o Casal Garcia, a marca mais antiga de Vinho Verde.

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As primeiras garrafas de Mateus – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Casal Garcia – Foto Cedida por Quinta da Aveleda | Todos os Direitos Reservados

Em 1938, o enólogo francês Eugène Hélisse «aterrou» por acaso na Quinta da Aveleda – o episódio é vasto. Embora relutante, Roberto Guedes aceitou a autocandidatura. Fizeram-se incipientes testes de consumidor, entre familiares e amigos, que ditaram o perfil vinho. Onde o pôr? Uma garrafa azul seduzia e o rótulo reproduz um lenço da senhora da casa. A Aveleda depressa apostou forte na promoção. Dos muitos aforismos de incentivo à compra, um lema ficou para a posteridade… até hoje: «Haja alegria. Haja Casal Garcia».

As duas marcas de rosés tornaram-se globais e apostaram muito na promoção, ao ponto de surgirem falsificações. A popularidade levou a que activistas políticos, em vários países, apelassem ao boicote à compra destes dois vinhos, devido ao regime político vigente em Portugal e às guerras em África.

Toca da Raposa, um refúgio no Douro…

Texto José Silva

Ao longo dos últimos anos têm surgido no Douro alguns espaços que se dedicam a servir boa comida, com qualidade e produtos genuínos e que se têm consolidado, sendo hoje procurados quer por portugueses quer mesmo por estrangeiros, muito graças também á divulgação através das redes sociais, cada vez mais um instrumento valorativo e de rápido acesso.

Em Ervedosa do Douro, uma pequena povoação na estrada que sobe desde o leito do rio Douro até S. João da Pesqueira, abriu há alguns anos um desses espaços a que deram o nome de “Toca da Raposa”. Mesmo à face da estrada, mas com amplo parqueamento logo à frente, recebe-nos um espaço muito confortável e acolhedor, bem decorado, sóbrio, de muito bom gosto.

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Toca da Raposa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Algumas mesas logo à entrada, depois um amplo balcão e mais algumas mesas a seguir, soalho em madeira, algumas paredes em madeira e outras em xisto, muitas prateleiras repletas de garrafas de vinho, que ali também é muito bem trabalhado.

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Toca da Raposa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Toca da Raposa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A mãe a dirigir a cozinha com mestria, as suas mãos a fazerem por vezes verdadeira magia, a filha a dirigir a sala com sabedoria e bom gosto, apresentando os pratos e fazendo propostas de acompanhamento com vinhos de grande qualidade, em que o Douro, naturalmente, está representado em esmagadora maioria. O resultado é sempre magnífico, proporcionando ao visitante refeições intensas, com variedade, bem apresentadas, desde as entradas até aos pratos principais mais elaborados, com temperos equilibrados, cozinhados no ponto, dando sempre realce á qualidade dos produtos utilizados. Depois, quando passamos à escolha do vinho ou vinhos, teremos sempre o acompanhamento da filha, que mostra que os vinhos que podemos apreciar nas prateleiras e na vasta carta, não estão ali por acaso nem ao acaso. Nota-se que é pessoa conhecedora, esclarecida, conhece os vinhos, as suas proveniências, as suas características e as harmonizações que se podem conseguir com os pratos variados da ementa. A isto não será alheio o facto de por ali passarem muitos dos produtores da região do Douro e em especial daquela zona. S. João da Pesqueira é o concelho da região onde há o maior número de produtores de vinhos do Douro. Na última visita, depois de sentados confortavelmente á mesa, trincamos umas amêndoas torradas que fizeram companhia a um Porto Branco 10 Anos da Andresen, à temperatura certa. Muito bom.

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Míscaros Grelhados – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Filetes de Polvo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Logo de seguida, um delicioso pão regional fez companhia a algumas entradas muito bem confeccionadas: míscaros grelhados com azeite muito saborosos e filetes de polvo fritos com polme fofinho.

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Peixinhos do rio – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Alheira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De seguida uns peixinhos do rio fritos de escabeche deliciosos, alheira tostada, muito saborosa, com aquele toque levemente azedo e pele crocante, com uns grelos salteados carnudos.

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Para fechar as entradas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E para fechar as entradas os sabores da azenha – pão regional torrado com azeite, presunto e queijo em azeite. Excelente! Até aqui tínhamos bebido o branco Gambozinos Reserva de 2013, que esteve sempre à altura, e então passamos para um tinto, o Beira Douro Colheita de 2012, ambos servidos a copo.

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Arroz de míscaros – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Cachaço de porco Bízaro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O tinto fez boa companhia a um arroz de míscaros preparado no ponto, cremoso e apaladado, com febrinhas de cachaço de porco bízaro grelhadas.

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Cabrito grelhado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas ainda veio o cabrito grelhado com batata refugada e couve salteada, comida de aldeia muito bem confeccionada.

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já em esforço, mas com o Porto LBV da Noval 2008 no copo, atacamos a torta de amêndoa e o pudim de ovos, e um queijo da serra com marmelada e nozes que nos deixaram prostrados…mas muito satisfeitos.

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O Douro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois descemos para o Pinhão, ao encontro do rio Douro, sempre ele…

Herdade da Malhadinha Nova, no reino da família Soares

Texto João Pedro de Carvalho

A Herdade da Malhadinha Nova é o perfeito exemplo de um sonho que se tornou realidade. Um sonho que pertencia à família Soares: João, Paulo, Rita e Margarete Soares. A Herdade com os seus actuais 400 hectares foi comprada em 1998 e salva da total ruína em que se encontrava. Localizada em Albernoa (Beja), é hoje um exemplo de sucesso dentro e fora de portas. Ali tudo é feito com paixão e muito empenho. O bom gosto e a produção de produto de alta qualidade sempre fez parte da chancela deste projecto que viu em 2001 serem plantados os primeiros 20 hectares de vinha, hoje já são 35. A tudo isto tem-se juntado no passar do tempo, a plantação de olival com a respectiva produção de azeite tal como a criação de animais de raça autóctones com denominação de origem protegida (DOP) e com destaque para o Porco de Raça Alentejana mais conhecido como Porco Preto.

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Monte da Peceguina Branco 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Se a nível da oferta vínica podemos contar com belíssimos vinhos, o projecto de enoturismo cedo se iria fazer notar pela excelência da oferta a todos os níveis, com as mais variadíssimas actividades a serem colocadas à disposição do visitante. Como imagem de marca foram “buscar” a simpática vaquinha Malhadinha desenhada pela filha Matilde. Um desenho entre outros tantos criados pela nova geração da família Soares e que vão acompanhando a cada colheita os vinhos e os novos projectos que vão nascendo à medida que a família aumenta, exemplo disso são vinhos como o Menino António, Pequeno João, Marias da Malhadinha ou em breve o Mateus Maria. Imbuídos neste clima familiar somos embalados sempre por um sorriso, que desde 2003 tem sabido acompanhar as gentes da Malhadinha.

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Monte da Peceguina Rosé 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

O meu primeiro contacto com este produtor foi com um Monte da Peceguina rosé 2003, seria naquela altura e naquele momento um rosé diferente, causador de impacto e conquistador de palatos e consumidores. Aquela fruta gorda e gulosa embalada em ligeira frescura com ponta adocicada fazia as delícias de muitos, estava então lançada a marca para o sucesso e logo na colheita seguinte iriam surgir os topos de gama onde simpática vaquinha Malhadinha iria fazer a sua primeira aparição. Até aos dias de hoje, os vinhos têm vindo a afinar o seu perfil. A prova que realizei com algumas novidades mostram vinhos que souberam encontrar o caminho certo e são hoje exemplo de consistência colheita após colheita.

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Antão Vaz da Peceguina 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Decidi escolher apenas seis vinhos, escolhi aqueles cuja prova mais me cativou, cujos aromas e sabores mais me sorriram. Dois de entrada de gama, dois de gama média e dois de gama alta. A gama de entrada, com nome do Monte da Peceguina, aqui em prova na sua versão branco e rosé, ambos da colheita de 2014. O branco com aromas frescos e bem definidos, feito de Antão Vaz, Verdelho, Roupeiro e Arinto, coeso e com notas florais, muita fruta de caroço (pêssego e alperce) e citrinos bem maduros. Boca com boa presença e passagem fresca e saborosa, fruta presente num final com ligeira secura. O Monte da Peceguina Rosé 2014 mostra-se agora completamente diferente do que foi quando conheci a sua primeira edição, o único traço em comum é a fruta bem fresca e sumarenta, framboesas e morangos. De resto mostra tudo num plano de harmonia e finesse, boa passagem de boca sem quebras em final apimentado.

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Aragonez da Peceguina 2013 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Um passo em frente e ficamos a conhecer a gama de monocastas que nos são colocados à disposição conforme o ano em questão. Por entre brancos e tintos escolhi um branco e um tinto que espelham bem um patamar qualitativo bem acima da gama anterior. São eles os Monocastas da Peceguina com a escolha a recair no Antão Vaz 2014. Um branco com boa exuberância carregado de fruta madura bastante fresca, diga-se que todos os vinhos se mostram bastante frescos com a fruta bem delineada, neste caso os tons mais tropicais conjugam-se com os aromas citrinos (tangerina). Enche o palato de sabor, bem encorpado e a pedir pratos de peixe no forno, com a fruta a marcar num final de travo ligeiramente mineral e seco.

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Malhadinha branco 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Fiquei rendido aos encantos deste Aragonês da Peceguina 2013, um belíssimo exemplar da casta com aromas a frutos vermelhos (framboesa, groselhas) maduros, presentes de forma limpa e fresca, aliando elegância com robustez. O estágio de 12 meses em barrica que mal se faz notar, alimentou a sua complexidade com notas de chocolate de leite e alguma especiaria. No seu todo é um vinho com muita energia que dá já bastante prazer à mesa.

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Menino António Alicante Bouschet 2012 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

No que aos topos de gama diz respeito, o Malhadinha branco 2014 é um dos grandes exemplares de vinho branco do Alentejo e mostra-se ainda jovem, muito coeso, complexo e fresco, sente-se a envolvência da barrica com notas de citrinos e algum floral, sensação de cremosidade com bastante elegância. Boca com grande presença da fruta bem sumarenta, notas de ligeiro amanteigado que lhe dão sensação de untuosidade mas sempre com bastante firmeza e frescura, em final longo e persistente. A cereja no topo do bolo será o Menino António Alicante Bouschet 2012, um vinho que me encheu as medidas, um verdadeiro colosso ainda cheio de vida pela frente mas que mostra já sinais de elegância. De momento enche o copo com aromas de frutos silvestres com destaque para groselhas e amoras, alguma ameixa embrulhada por um toque ligeiro de chocolate preto e especiarias. A barrica onde passou 18 meses confere ligeira tosta, aquele fumado também se faz notar mas a frescura toma as rédeas do conjunto coeso e cheio de energia. Bastante estruturado na boca, fresco e muito firme com taninos a fazerem-se notar, fruta madura a escorrer de sabor a ser embalada pela madeira e por um conjunto com muita vida pela frente.

Contactos
Herdade da Malhadinha Nova
7800-601 Albernoa. Beja – Portugal
Tel: (+351) 284 965 210 / 211
E-mail: geral@malhadinhanova.pt
Website: www.malhadinhanova.pt

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Terra e Mar

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Mendes

Não é segredo que a maior parte das regiões vitivinícolas portuguesas ainda são desconhecidas para a maior parte das pessoas. Até para pessoas do meio. Portugal ganhou alguma fama nos últimos anos como um país de vinhos de vinhos de boa qualidade que não destrói a carteira. Com isto dito, Portugal tem todas as oportunidades de produzir vinhos dessa estatura que provavelmente iriam destruir a nossa carteira. Isso é tudo que sabemos. Ainda assim, como romântico incurável, estou um pouco assustado com a hipótese de o país vínico pelo qual me apaixonei um dia se tornar cada vez mais e mais mainstream. É o fardo de de um genuíno hipster vínico, acho.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

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Chouriço – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Mas não me preciso de preocupar. Portugal, com as suas inúmeras castas irá manter afastadas do dia a dia do cidadão comum castas com nomes confusos como a Touriga Nacional e a Tinta Pinheira, para mencionar apenas algumas. Muitos dos meus amigos que viajaram para Portugal desconhecendo completamente os vinhos portugueses mas vieram embora como grandes fãs. Tal como eu.

Pessoalmente gosto de utilizar vinho quando cozinho. Não necessariamente na comida mas como fonte de inspiração. Quando comecei a fatiar o chouriço para a massa que estava a fazer fiquei, repentinamente, mas não surpreendentemente, com sede. Uma das mais valias de Portugal é definitivamente a boa relação qualidade/preço dos vinhos, o que por vezes pode ser tanto uma bênção como uma maldição. Vinhos fáceis de beber e acessíveis, de diferentes estilos, passam pelos copos com relativa facilidade.

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Massa “Terra e Mar” – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Enquanto preparava uma massa picante de camarão e chouriço “Terra e Mar” a minha mente voou até à Bairrada. Um pequeno e atrevido blend da Bagalândia era tudo o que precisava. Deitei mãos a um Torre de Coimbra 2012. Um blend de Baga, Touriga Nacional e Tinta Pinheira produzido pela LusoVini. De certeza, um vinho de exportação, porque, em todas as minhas viagens a Portugal nunca vi um vinho com uma rolha de rosca. De certeza que há alguns mas, não é comum num país que tem os sobreiros quase como sagrados. Nós, aqui no norte frio, não distinguiríamos um sobreiro de uma palmeira e é por isso que as rolhas de rosca são a escolha mais comum.

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Torre de Coimbra 2012 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O vinho em si apresentou-se.. humm.. qual é o termo científico…”razoável”. Bem, considerando que custou menos de €10 na loja de monopólio daqui, foi bem bom. Um vinho simples, frutado e com um toque de madeira. Podem achar uma surpresa mas, encontrar uma garrafa de vinho razoável na Finlândia por menos de €10, é mais fácil de dizer do que de fazer. Temos aqui bastantes vinhos trabalhados e tecnológicos, que são tudo menos interessantes. Este vinho da Bairrada aproxima-se de um vinho em condições portanto é um vinho em condições. Não é um vinho que me tire o sono mas é definitivamente um vinho que me vejo a beber novamente. Nem que seja para inspiração culinária.

Contactos
Lusovini Distribuição, SA
Avenida da Liberdade nº 15, Areal
3520-061 Nelas, Portugal
Tel: +351 232 942 153
Fax: +351 232 945 243
Email: info@lusovini.com
Website: www.lusovini.com

Dois magnatas

Texto João Barbosa

Abel Pereira da Fonseca foi um próspero negociante de vinhos. Em 1906 abriu um entreposto no Poço do Bispo – fica fora dos percursos turísticos, mas o edifício é interessante de ver para quem tenha mais tempo. A avenida não existia e os barcos acostavam para descarregar o vinho vindo da margem Sul do Tejo.

À época, as tabernas costumavam ter associado o negócio do carvão. Este empresário criou a rede Val do Rio, onde se podia beber um bom vinho e em ambiente asseado. Em 1928 eram cerca de 50 estabelecimentos e em 1937 já chegavam à centena. A classe média lisboeta podia beber o seu vinho sem ter de se juntar à malta suja e pobre.

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Abel Pereira da Fonseca, Lda no Poço do Bispo – Foto Cedida por Companhia Agrícola do Sanguinhal | Todos os Direitos Reservados

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Abel Pereira da Fonseca – Foto Cedida por Companhia Agrícola do Sanguinhal | Todos os Direitos Reservados

Fernando Pessoa, um génio mundial da poesia, era uma pessoa estranha, a quem poucos conheciam amigos. A meio da tarde, levantava-se da cadeira do escritório, onde se aborrecia com a realidade, e dizia:

– Vou ter com o meu amigo Abel.

O amigo Abel era o copo na taberna Val do Rio, da firma Abel Pereira da Fonseca. Uma vez fotografado, assinou o retrato: «Apanhado em flagrante delitro».

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Fernando Pessoa “em flagrante delitro.” – Foto Cedida por Companhia Agrícola do Sanguinhal | Todos os Direitos Reservados

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A assinatura de Fernando Pessoa “em flagrante delitro” – Foto Cedida por Companhia Agrícola do Sanguinhal | Todos os Direitos Reservados

Nesse ano de 1937, Abel Pereira da Fonseca deixou o negócio – a marca ficou com outros, coisa de negócios que não vêm ao caso – e fixou-se na Quinta das Cerejeiras, no Concelho de Bombarral. Aí criou uma marca emblemática que resiste.

O Quinta das Cerejeiras tornou-se numa referência de qualidade, expostas nas cartas de vinhos dos melhores restaurantes. O gosto e o padrão de consumo mudou. Os dez anos de estágio em garrafa foram muito reduzidos. Ainda assim, os Quinta das Cerejeiras Reserva são uma referência da região de Lisboa e obrigatória para quem se interessar pelos néctares nacionais.

Outro magnata de renome foi João Camillo Alves, barbeiro na vila suburbana de Bucelas, que se pôs como intermediário entre os produtores da vila e os burgueses lisboetas que ali iam veranear. Daí a vender na capital fui num instantinho.

A empresa Caves Camillo Alves faz hoje parte do grupo Enoport, que agrupa outras grandes firmas de outrora, como as Caves Velhas ou as Caves Dom Teodósio – Teodósio Barbosa, outro magnata do vinho de há cem anos.

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Romeira Vinho Tinto – Foto Cedida por Enoport | Todos os Direitos Reservados

Obviamente que esta firma detém marcas que cruzam gerações. A mais emblemática talvez seja a Romeira. Trata-se de vinho tinto nascido numa região onde apenas as uvas brancas são elegíveis para vinho com denominação de origem.

A constituição da Quinta da Romeira, em Bucelas, remonta ao século XVII, e desde então tem conhecido diferentes proprietários, tendo há cerca de um ano voltado a ser transaccionada. A marca Romeira, pertencente às Caves Velhas, foi criada em 1912. Na década de 70, do século XX, o enólogo Manuel Viera fazia um lote com uvas da Península de Setúbal. Posteriormente passou a ser todo ele produzido em Palmela e hoje faz-se no Alentejo.

Quando se fala em vinho de Bucelas tem de se referir o Bucellas, criado pelas Caves Velhas em 1939. O consumidor tem sempre razão, conforme dita o aforismo? Não! E infelizmente, negócio é negócio e as empresas não são para dar prejuízo. Os vinhos de Bucelas viviam longos anos, excelentes. Os Bucellas Garrafeira eram «o» Bucelas. O último foi o de 1998 e bebi-o este ano. Colossal!

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Serradayres Colheita 1986 – Foto Cedida por Enoport | Todos os Direitos Reservados

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Serradayres Reserva 2013 – Foto Cedida por Enoport | Todos os Direitos Reservados

Muito antigo é o tinto Serradayres (Enoport), comercializado pela primeira vez em 1896, pelo Conde de Castro Guimarães, no Ribatejo – hoje região do Tejo. Já agora, a residência condal situa-se em Cascais e é um espaço museológico a ver.

Ainda dentro da mesma casa, o Lagosta (Enoport) é uma referência antiga, datada de 1902. Vinho leve e descomplexado, mas sem o peso histórico de outras marcas.

E eu que pensava que arrumava o assunto em poucas linhas… esperem, que já sirvo mais uma rodada.

Vinhos portugueses apoiam obra social no Brasil

Texto José Silva

Cada vez mais os vinhos portugueses reforçam a sua presença no mercado brasileiro, não só pelo excelente trabalho que muitos produtores, de várias dimensões, têm feito, com o apoio fundamental da Viniportugal, mas também pelo trabalho por vezes apaixonado de muitos profissionais brasileiros, com destaque para os escanções.

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Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Adriane Wiest é uma dessas profissionais, que se dedicou ao trabalho de vinhos, seja como escanção em restaurantes, seja a organizar eventos vínicos ou a dar formação. E que há muito se apaixonou pelos vinhos portugueses, de que tem um grande conhecimento, deslocando-se a Portugal sempre que pode, contactando produtores e participando em festivais e concursos, muitas vezes como júri. Adri fez a sua formação no Centro Europeu de Estudos em chef de cuisine e sommelier e criou a sua própria empresa, “Adri Wiest Wine Education Consulting”. Vive em Joinville, a maior cidade do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Recentemente organizou um evento solidário a que chamou: “Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses”, a favor dos doentes renais da associação Pró-Rim.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

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Rosé Vidigal – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Numa sala com óptimas condições e com todos os apetrechos necessários, Adri conduziu cerca de 80 pessoas através dos aromas e sabores dos vinhos portugueses, num jantar muito agradável em que foi servida gastronomia típica de Santa Catarina e que fizeram óptimas harmonizações.

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Os vinhos – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Os vinhos portugueses foram oferecidos pelos produtores e seus importadores no Brasil, com o apoio da Viniportugal, a cargo da Sónia Vieira e do Nuno Vale. Para ajudar no evento, Adri convidou o seu colega escanção Eduardo Silva, do restaurante Ostradamus, de Florianópolis, que também conhece bem os nossos vinhos. O lucro obtido com a venda das entradas para o evento foi integralmente oferecido para a compra de cestas básicas para os pacientes renais em situação de carência social, através da associação Pró-Rim.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Eram cerca de 70 os pacientes nesta situação. E para que os participantes no evento que estivessem interessados pudessem comprar os vinhos em prova, foi obtido o apoio da melhor garrafeira da cidade de Joinville, a Rubicon Wine & Emporium, que além de comprar os vinhos para serem vendidos no local do evento e na enoteca, também ofereceu o lucro de cada 2 garrafas vendidas, para a compra das cestas básicas para os pacientes renais. Mesmo nestas acçõs de solidariedade, Adri dá prioridade aos vinhos portugueses, que tão bem conhece.

Os vinhos apresentados foram os seguintes:

-Covela Avesso Edição Nacional; Casa de Mouraz Dão Branco; Quinta Nova Pomares Douro Branco; Ilógico, de António Saramago; Rosé, Vidigal Wines; Porta 6, Vidigal Wines; Quinta do Convento Syrah, Vidigal Wines; Moscatel Roxo de Setúbal, de José Maria da Fonseca;

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Adriane Wiest e os vinhos – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Adri e o seu colega Eduardo conduziram a prova dos oito vinhos, explicando a sua origem, quem os produz, as suas características, como devem ser apreciados e a que temperaturas. E como ligavam bem com a rica cozinha Catarinense.

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O brinde – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

O evento teve enorme sucesso, os participantes brindaram efusivamente e compraram vinhos duma forma também solidária e pediram para a Adri organizar novo evento.

Parabéns à Adri Wiest e fazemos votos para que continue com este seu trabalho de qualidade e rigor.

Os vinhos portugueses agradecem e serão sempre solidários…