Blend All About Wine

Wine Magazine
Esotérico Não Erótico: Os vinhos Explicit da Jorge Rosa Santos e Filhos

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Já lá vai o tempo em que tive aulas de Latim. E não tenho memória de alguma vez ter feito um enólogo corar, mas Jorge Rosa Santos (júnior) corou enquanto explicava que a marca da sua família, “Explicit”, deriva da expressão latina explicare.

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EXPLICIT tinto, à base de solos xistosos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Significa “revelar-se” e, portanto, também tornar visível. Neste caso, o terroir muito particular das vinhas íngremes e cobertas de xisto da sua família, nas encostas da Serra d’Ossa perto de Estremoz, no Alentejo. Portanto e desde já, vamos deixar isso claro, não é uma referência erótica, antes esotérica. E é uma alcunha adequada para os vinhos da Jorge Rosa Santos e Filhos, extremamente sérios e impulsionados pelo terroir.

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Irmãos e enólogos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Quando comprou um retiro de fim-de-semana no Alentejo, o cirurgião Jorge Rosa Santos não partiu com a intenção de fazer vinho. Foi antes uma consequência inevitável, já que a casa tem oito hectares e três dos seus filhos são enólogos – Frederico (Terras d’Alter), Vasco (Monte da Ravasqueira) e Jorge júnior (Casal Santa Maria). O quarto, Ricardo, é arquitecto, tal como a sua mãe.

Quando me encontrei com Jorge júnior, disse-me que o ponto forte deste projecto de família é que “fazemos aquilo que queremos e aquilo em que acreditamos…não estaríamos a fazer vinho desta maneira se estivéssemos a trabalhar para outra pessoa”. Por exemplo, em 2004, a família ignorou os avisos de que eram “loucos” por estarem a cultivar os seus primeiros dois hectares de Syrah em solos virgens e, no ano seguinte, mais dois hectares de Alicante Bouschet e Aragnoes (Tinta da Pais, clone pequeno e de pele fina da Ribero del Duero). Loucura, como apelidaram, porque em solos rochosos de xisto (20-30cm de profundidade) e com um gradiente de 30%, as vinhas nunca seriam economicamente viáveis.

A vinificação também é pouco convencional. O “Explicit” tinto é deixado em volume livre, sem sulfuração, durante 3 meses. Permitir o oxigénio infiltrar-se nesse volume livre explica a sua rusticidade, e às vezes o toque de acidez volátil típica dos Portos (demasiada em 2008). Aos olhos de Jorge, estas qualidades (juntamente com a concentração intensa, elevado grau de álcool e a formidável estrutura naturalmente conferida pelas vinhas) “dão-nos a nossa própria identidade”. Altamente necessária, reconhece, já que o Alentejo tem muitos projectos a produzir vinho de qualidade mas projectos específicos, como o “Explicit” estavam a faltar, projectos que “capturam a essência da vinha dentro da garrafa”.

Dez anos após terem sido apelidados de loucos, o projecto da família Rosa Santos está a prosperar. Uma prova vertical do “Explicit” tinto destacou a poderosa assinatura salgada de taninos “ósseos” deste tinto impulsionado pelo terroir, qualidades minerais de grande efeito; a progressiva redução de Syrah, melhores condições na adega e a adição da Aragones parece ter dado frutos, originando um vinho mais brilhante e compacto (menos parecido com o Porto). Além disso, o “Explicit” tinto tem desde aí a companhia do “Explicit” branco e do mais acessível “Implicit” (tinto e branco), todos produzidos com uvas compradas.

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A provar a gama – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

Aqui estão as minhas notas sobre as últimas novidades da gama da família e as minhas escolhas da prova vertical Explicit Red (2008-2012):

IMPLICIT branco 2013 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote não envelhecido em carvalho com 50% Alvarinho, 25% Viognier, 12,5% Rousanne e 12.5% Moscatel. As uvas foram obtidas de vinhas relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. Um branco aromático, picante, frutado (mas em nada tutti-frutti), com boa profundidade e equilíbrio, e um salgado e atractivo gosto picante. 13%

EXPLICIT branco 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Proveniente de um hectare de mistura de vinhas velhas, em Portalegre, 540 metros acima do nível médio das águas do mar. Em relação ao estilo, é completamente diferente do Implicit – como Jorge diz, muito mais ao estilo do Mundo Velho porque a fruta, embora presente, não é evidente. Ao invés, a impressão mais notória é de minerais salgados e borras cremosas e finas com sabor a noz. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho até ao início da Primavera, apresenta o carvalho muito suavemente. Apesar de lhe faltar um pouco de acidez, este vinho vasto e texturado é bastante interessante. Gostei muito da sua particularidade não forçada. 14%

IMPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote com 50% de Touriga Nacional, 40% de Syrah e 10% Alicante Bouschet. As uvas foram obtidas de vinhas xistosas, relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. A Touriga confere um bom toque floral – rosa damascena – ao nariz e palato, e a cereja preta também – fresca e cozida. Taninos texturados e maduros mas também salgados, uma mineralidade enferrujada e uma acidez fresca emprestam estrutura e equilíbrio. Muito bom – um rótulo jovem e sério do qual 6546 garrafas foram produzidas.

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Vertical de EXPLICIT tinto – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

EXPLICIT tinto 2010 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah e Alicante Bouschet das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido 17 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Tal como os que o precederam, o 2010 é um vinho escuro e salgado, com a ameixa ponteada a chocolate amargo a despontar a sua essência firme de taninos calcários e “ósseos”. Notas de garrigue (erva mediterrânea) e minerais esfumaçados conferem uma rusticidade selvagem e muito atraente a este tinto encorpado, que é ainda mais imponente pelo seu chassis extraordinariamente longo de taninos maduros mas muito presentes (este vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Esta estrutura de taninos, juntamente com uma acidez (própria) muito equilibrada, permite a este vinho ter 15.5% sem qualquer esforço. Pode-se abrir mas ainda está em desenvolvimento; recomenda-se guardar por mais 5 anos. 5962 garrafas/20 barricas produzidas.

EXPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah, Alicante Bouschet e Aragones das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido durante 24 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Embora o carvalho e o álcool sobressaiam no primeiro dia, no segundo dia este vinho é inundado por uma excelente mineralidade poeirenta. Amora doce e carnuda controlada pela sua abundante película e essência de taninos (também esta vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Um vinho muito visceral, quase cru, com o seu esqueleto, não a carne, em primeiro plano. Eu guardaria este vinho pelo menos durante 2/3 anos antes de o abrir e é conservável por mais alguns anos. 11247 garrafas/40 barricas produzidas.

Hotel Quinta da Serra

Texto José Silva

Mesmo lá no alto do Jardim da Serra, numa zona muito montanhosa, de estradas sinuosas, mas onde a paisagem ganha outra beleza, outra amplitude, é um passeio fascinante, que pode passar pela grandiosidade do Cabo Girão.

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Paisagem a partir do Jardim da Serra – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ali temos uma perspectiva incrível da costa sul da ilha da Madeira, com escarpas a pique sobre o mar, umas centenas de metros lá abaixo, onde as fajãs amenizam a descida até à água.

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Patamares – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas onde, em cada minúsculo patamar, se podem ver plantações diversas, fruto de trabalho manual em condições extremas. E muitas dessas plantações são vinhas muito velhas, onde os viticultores colhem todos os anos pequenas quantidades de uvas, que vão integrar lotes do famoso vinho licoroso da ilha. Lá mais acima, no Jardim da Serra, a mais de 800 metros de altitude, num hotel de cinco estrelas cheio de requinte, implantado num enorme jardim e na floresta adjacente, de grande beleza, funciona um restaurante igualmente requintado, liderado por um chefe francês há muitos anos radicado na ilha. Ocupa um espaço enorme num dos edifícios do complexo hoteleiro, ligeiramente elevado, completamente envidraçado de um dos lados, com vista soberba pela serra abaixo.

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Sala Ampla – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É uma sala ampla, espaçosa mas acolhedora, cheia de luz, decorada com requinte em tons mornos, onde predominam o castanho e o cinzento, com um belíssimo soalho de madeira e uma lareira aconchegante num dos topos. Mesas muito bem-postas, cheias de elegância, com todos os pertences em cima, incluindo óptimo serviço de copos. O serviço, a cargo de pessoal jovem, é muito competente, atencioso e simpático, muito bem dirigido. Uma ementa eclética, onde entram muitos produtos de produção biológica da própria quinta, que estão em fase de certificação, apresenta peixe e carne frescos da própria ilha, confeccionados com requinte e extremamente bem apresentados. Na nossa visita, fomos recebidos pelo próprio chefe que, num português quase fluente, nos deu as boas vindas e explicou um pouco a filosofia da sua cozinha.

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Manteiga, Azeite e flôr de sal – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Passados à mesa, apresentaram-nos vários tipos de pão, para barrar com manteiga simples e outra com ervas, ou molhar no azeite e dar-lhe um toque de flor de sal.

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Vieira Corada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A oferta do chefe foi uma vieira corada, com creme de abóbora e crocante, com toque de pimenta rosa. Simples mas delicioso.

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Creme de maçarocas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se um requintadíssimo creme de maçarocas da quinta, atrevido, cremoso, muito apaladado, soube muito bem, bem quente.

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Rosé Primeira Paixão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Por essa altura já apreciávamos o Rosé Primeira Paixão, que ligou muito bem, quer com a vieira, quer com o creme de maçarocas. Veio então o peixe espada fumado preparado em tempura, ligeiramente crocante, saboroso, consistente, e um chutney de frutas de Cornus Kousa da própria propriedade a fazer uma óptima ligação.

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Peixe-Espada fumado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O vinho era já o bairradino Entre II Santos branco, a ligar muito bem, na temperatura certa. Passamos ao prato de carne, que foi um borrego orgânico recheado com acelgas, assado, que foi servido com puré de batata e castanhas. Paladares cruzados que se completaram muito bem, mais uma vez produtos locais mas confeccionados com grande requinte.

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Borrego – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O vinho tinto também da Bairrada, Entre II Santos esteve sempre à altura. A refeição iria terminar com a mesma qualidade com que começara, uma tarte tatin de maçã domingo, gelado de chocolate e erva caninha, simples mas cheia de requinte, sabores suaves que se completaram muito bem.

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No nosso caso foi jantar, mas quem vá almoçar, é aconselhável dar um passeio pela beleza dos jardins e da floresta e dar uma olhadela à horta biológica, de onde vêm muitas das ervas aromáticas e legumes que depois podemos apreciar à mesa.

Contactos
Quinta da Serra
Estrada do Chote Nº 4/6 – Jardim da Serra
9325 – 140 Camara de Lobos Madeira
Portugal
Tel: (+351) 291 640 120
E-mail: info@hotelquintadaserra.com
Site: www.hotelquintadaserra.com

Chalet Vicente

Texto José Silva

A estrada Monumental faz a ligação do centro do Funchal à zona do Lido, onde se encontram boa parte dos grandes hotéis de cinco estrelas e mesmo alguns “resorts” dos mais procurados, que confinam com o mar, numa marginal rochosa que proporciona belos passeios a pé e de onde se podem ver algumas das piscinas de água do mar locais. E de onde se pode mesmo ter acesso privilegiado ao mar, para uns mergulhos refrescantes, durante quase todo o ano.

É também uma zona moderna com alguns centros comerciais e uma grande variedade de restaurantes, quer os que pertencem aos complexos hoteleiros, quer os que funcionam por si só, a par de muitos bares, a maioria dos quais funcionam sobretudo pela noite dentro. Há grandes profissionais da restauração e de bar na Madeira, muitos deles hoje ligados a esses espaços, que gerem com eficácia e bom gosto.

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Chalet Vicente – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um desses profissionais montou há alguns anos um espaço que rapidamente se transformou num ícone da gastronomia madeirense, localizado mesmo em plena Estrada Monumental, o “Chalet Vicente”.

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Chalet Vicente – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Resulta da recuperação cuidada dum palacete muito bem adaptado à restauração, em que as várias divisões têm funções bem específicas, algumas delas são mesmo salas de refeições belíssimas. Todo o espaço é muito bem decorado, em tons mornos, com mobiliário tradicional e mesas muito bem-postas, cuidadas, com todos os pertences em cima.

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Esplanada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Há uma enorme esplanada, muito acolhedora, onde também se pode apreciar uma boa refeição. Na parte de serviço, além de muitas centenas de garrafas de vinho bem expostas, há um balcão que deixa apreciar o grelhador com as brasas sempre acesas, por onde passam belas peças de carne de qualidade. Logo em frente, um outro balcão onde funciona diariamente, ao almoço, um simpático buffet. O serviço é impecável, a cargo de bons profissionais, muito bem dirigidos.

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Bolo Caco, Saladinha de polvo e Barbeito Madeira 5 anos Rainwater Reserva – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A ementa é extensa, mas nesta visita da Blend começamos com o tradicional bolo de caco com muita manteiga e alho, ainda bem quente, delicioso, na companhia duma saladinha de polvo tenrinho e apaladado. A que um “Madeira 5 anos Rainwater Reserva” fez uma óptima companhia.

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Uma das saladas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Que continuou com dois tipos de saladas frescas, muito bem conseguidas: uma com bróculo, cenoura, milho e courgete, tudo cozido, a outra com uma base de rúcula e alface, encimada com banana, papaia, manga e ananás, na companhia duma maionese simples.

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Atum – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um dos peixes mais tradicionais na Madeira é o atum, que nos foi servido nuns nacos generosos, atum fresquíssimo, estufados num molho espesso e saboroso, na companhia de batata doce salteada com mel de cana e cubos de milho frito, um conjunto delicioso.

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Batatas à Murro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois vieram dois pratos de carne que já são tradicionais no “Chalet Vicente”: o coelho estufado e o cabrito estufado, ambos muito tenros, de molho puxado e bem temperado, com batatas a murro deliciosas e a alternativa dum arrozinho branco soltinho.

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Cabrito Estufado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ambos são servidos em tachinhos de ferro que vêm à mesa, mantendo a comida bem quente, uma tradição que se tem vindo a recuperar com grande sucesso.

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Terras do Avô – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Bebeu-se um tinto “Terras do Avô”, muito equilibrado, seguro, com óptima estrutura, esteve muito bem.
Para sobremesa veio uma trilogia de algumas das guloseimas da casa, o chocolate à colhererada, uma deliciosa mousse de maracujá, e requeijão do Santo com abóbora e nozes, para todos os gostos.

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De seguida um tradicional e muito bem confeccionado leite-creme, tostadinho por fora. Num restaurante onde a divulgação dos vinhos da Madeira é uma constante, não podíamos terminar esta refeição sem apreciar mais um desses néctares, neste caso um “10 Anos Meio Doce” da casa D´Oliveiras, uma das casas com mais tradição na produção de vinhos da Madeira.

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D´Oliveiras 10 Anos Meio Doce – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Refrescado, servido com rigor, foi um final com grande tradição.

Contactos
Restaurante Chalet Vicente
Estrada Monumental, 238
9000-100 Funchal
Madeira, Portugal
Portugal
Tel: (+351) 291 765 818
Telemóvel: (+351) 967 793 903
E-mail: chaletvicente@sapo.pt

Domini Plus 2011

Texto João Pedro de Carvalho

Em 2000, a José Maria da Fonseca (Azeitão) fez uma parceria com um grande nome do Douro, Cristiano van Zeller, de onde nasceu a gama Domini e Domini Plus. A parceria acaba em 2005, no entanto, a empresa de Azeitão adquiriu a Quinta de Mós (Douro Superior) num total de 15 hectares de vinha e hoje é Domingos Soares Franco quem assume a total responsabilidade enológica dos vinhos.

O vinho em causa é o mais recente lançamento correspondente à colheita 2011, onde brilham as castas Touriga Francesa, Tinta Roriz e Touriga Nacional.

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Domini Plus 2011 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro vinho, direi o mais acessível e de algum modo também o mais simples, é o Domini, um vinho bem-educado nos modos como se apresenta, com todas as qualidades muito simplificadas, sem grande complexidade muito focado na fruta e sem desvios do perfil da região.

O topo de gama, o Domini Plus, segue as pisadas dos Super Premium da empresa pela destacada qualidade da fruta assente numa complexidade e visão muito própria de cada região de onde são oriundos. A qualidade aqui é bastante alta, um vinho com fruta madura, muito limpa e rechonchuda (amora, mirtilo, framboesa), a mostrar-se muito pronto a beber embora com uma estrutura a prometer boa longevidade na garrafa, madeira bem integrada, toque balsâmico, especiaria, uma complexidade cativante e aconchegante, fresco e com boa intensidade. Palato com fruta bem presente, saboroso numa passagem prazenteira, grande harmonia num conjunto complexo, especiaria, esteva, num vinho de grande qualidade.

Contactos
José Maria da Fonseca
Quinta da Bassaqueira – Estrada Nacional 10
2925-542 Vila Nogueira de Azeitão
Setúbal, Portugal
Tel: (+351) 212 197 500
E-mail: info@jmf.pt
Site: www.jmf.pt

Taberna da Esquina

Texto José Silva

A Madeira em geral e a cidade do Funchal em particular, sempre tiveram fama de boas práticas culinárias, sobretudo com a utilização de legumes, peixe, marisco, carne e frutos locais, muitos deles claramente tropicais. Influência da proximidade da costa africana, este clima quente, ameno e húmido é também fundamental na evolução dos vinhos da Madeira. Por outro lado, os vinhos da Madeira evoluíram de forma extraordinária, quer os tradicionais vinhos fortificados, hoje mais acessíveis, mais elegantes, que se podem beber mais cedo e que começam a ser apreciados por um público mais jovem, quer os vinhos de mesa, sobretudo os brancos, já a ombrear com os seus congéneres do continente, e mesmo alguns tintos que começam a despontar e a dar-nos algum prazer.

Hoje os vinhos madeirenses não são só para turistas, embora estes cada vez mais provem, apreciem e comprem vinhos da Madeira. Mas hoje os vinhos da Madeira já são apreciados pelos madeirenses e pelos continentais, que descobrem cada vez mais este produto de excelência que, apesar da sua enorme tradição e de quanto mais velho melhor, já tem aptidão para ser consumido ainda jovem – um Madeira com 5 anos e mesmo com 3 anos é hoje um vinho licoroso perfeitamente acessível e mesmo bastante agradável, que pode fazer parte de óptimos cocktails, frescos, jovens, saborosos. E modernos.

E, apesar de continuarem a funcionar muitos restaurantes que são referência há muitos anos, têm vindo a abrir muitos novos espaços, alguns modernos, outros mantendo a traça rústica de velhos edifícios, mas em geral apresentando comida de muito boa qualidade.

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Taberna da Esquina – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa das ruas com maior concentração de restaurantes do Funchal, na sua zona histórica, bem perto do mercado municipal, visitamos um dos restaurantes mais conhecidos e falados do Funchal, a servir comida de grande qualidade, baseada em produtos regionais muito bem confeccionados.

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Taberna da Esquina – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

É um espaço rústico, com várias salas incluindo uma, nas traseiras, que também é esplanada, e uma esplanada na frente do restaurante, na rua.

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Esplanada nas traseiras – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Paredes de Pedra Escura – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As paredes em pedra escura, de belo efeito, muito bem decoradas, a proporcionar um ambiente rústico mas muito acolhedor. Mesas muito bem-postas e serviço impecável e muito atencioso, a cargo de pessoal bem formado e dirigido.

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Escaparte – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

À entrada há um escaparate de peixe e marisco frescos, renovado diariamente, que nos pode ser trazido à mesa, para escolher o que vamos comer. Na visita da Blend foi preparado um menu que incluiu alguns vinhos madeirenses a fazerem boas harmonias.

Bolo Caco – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Madeira Sercial 5 Anos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Começou-se com o bolo de caco, o pão tradicional madeirense, com manteiga de alho, quentinho, muito saboroso, sendo servido o “Madeira Sercial 5 Anos”, até vir um misto de escabeche de lapas, carpaccio de polvo em azeite virgem e flor de sal, bacalhau em escabeche e filetes de chicharro também em escabeche, numa variedade de sabores do mar muito bem conseguida.

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Escabeche de lapas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Primeira Paixão Rosé – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O vinho proposto foi o “Primeira Paixão Rosé”, que se portou à altura, cheio de fruta, seco e elegante. Como prato de peixe provou-se uma mini ventresca de atum juntamente com um mini peixe-espada grill com molho “ajada”, qualquer um deles muito bom, muito bem acompanhados pelo vinho branco “Primeiras e Voltas”, fresco, com óptima acidez, cheio de elegância.

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Prato de Peixe – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Palmeira e Voltas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um sorbet de limão serviu para limpar o palato e ligar com o prato de carne, que foi também um dueto: uma mini espetada de vaca em pau de loureiro e uma carne de vinho e alhos bem apaladada.

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Sorbet de Limão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Prato de Carne – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

Estas carnes tiveram a companhia do vinho “Primeira Paixão Tinto”, a provar que também na Madeira já se fazem vinhos tintos de mesa a ter em conta.

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Primeira Paixão Tinto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fechou-se esta bela refeição com a sobremesa, ainda um duo, neste caso a cassata de maracujá e a mousse de pitanga, harmonizados com um “Madeira Boal de 5 Anos”, um final elegante e muito saboroso, que mereceu um brinde à Madeira, aos seus vinhos e à excelência da comida regional.

Contactos
TABERNA DA ESQUINA
Rua de Santa Maria, 119 – 9060-291 – Funchal
Tel: (+351) 291 231 720
E-Mail: info@tabesquina.com
Site: www.tabesquina.com

O melhor de 2014

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Foi um ano e tanto. Era suposto ter sido razoavelmente relaxado mas provou ser um dos mais agitados. Fui a Portugal sete vezes durante este último ano. Pode não parecer muito, mas viajar de Helsínquia até Portugal é praticamente a viagem mais longa que se pode fazer dentro da Europa Continental. Ainda assim tenho sempre prazer em lá ir e o meu entusiasmo em relação a Portugal e aos seus vinhos cresce a cada visita.

Aqui estão alguns dos meus momentos favoritos passados em Portugal neste último ano:

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Vinho Verde – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Lindo, Vinho Verde. A Primavera na região vitivinícola do Vinho Verde  is spectacular. Like the name suggests it’s really really green. People are burning leaves and branches on their yards creating this unique scent that fills the air. Belly full of delicious alheira sausage and a glass full of Alvarinho. Doesn’t get much better than that.

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Essência do Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grandes Madeiras. A degustação de vinhos Madeira realizada por Rui Falcão no evento Essência do Vinho no Porto, foi nada menos que fantástica. O alinhamento contou com Barbeito Sercial 1898, Blandy’s Verdelho 1887, d’Oliveira Verdelho 1850, Justino’s Boal 1934 e Henriques & Henriques Malvasia Solera 1900. Simplesmente, wow! É disto que os sonhos são feitos.

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João Nicolau de Almeida – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Grande J.! Conhecer João Nicolau de Almeida da Ramos Pinto foi como aquilo que sempre imaginei que as pessoas sentem ao conhecem o Jay-Z. Não gritei nem lhe pedi para assinar o meu decote, mas não andei muito longe disso. É um enólogo visionário e um pioneiro no vale do Douro. Beber com ele foi definitivamente um momento vínico a recordar.

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Camaleão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Camaleão. Na passagem pela degustação da Young Winemakers of Portugal, em Lisboa, deparei-me com o Camaleão. O rótulo do Camaleão é impresso com uma espécie de tinta térmica que reage à temperatura. Verde – demasiado quente, azul – pronto a servir. Uma ideia brilhante e que me faz perguntar porque nunca vi isto noutro lugar antes. O vinho também era bom.

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Tomates – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tomates arrebatadores. “Corações de boi”, estas relíquias que comi na adega da Vale da Capucha…meu Deus. Provavelmente os melhores tomates do mundo. Pareciam bifes, só que saudáveis. Regue-os com um pouco de azeite, uma pitada de sal e prepare-se para experiência incrível.

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Liguem os vossos motores – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

batmobile vínico. Estava de visita às vinhas da região vitivinícola de Colares, perto de Lisboa, quando vi este homem. Era tempo de vindima e este encantador senhor estava a transportar caixas carregadas de uvas para a adega. Este senhor conduzia um veículo da velha guarda e quando ligou o motor quase parecia uma cena saída de uma banda desenhada do Donald Duck. Deixou-me até conduzir por um bocado.

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Jantar – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Vamos comer. O jantar na Cervejaria Ramiro em Lisboa, com Eduarda e Luís da Vadio e com o redactor Jamie Goode foi fantástico. Algumas das coisas que tento comer sempre que estou em Portugal são camarões, perceves, e claro, muita cerveja. Para terminar, o tradicional prego e estamos arrumados. Delicioso.

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O Barão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O Barão. Outra grande pessoa que conheci neste ano que passou foi Bodo von Bruemmer. Este jovem de 103 anos começou a produzir vinho quando já tinha mais de 95 anos. O quê?! Se isso não é suficiente para te fazer acreditar que nunca é tarde demais, nada fará.

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Noval – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quinta do Noval. Juntamente com as suas vinhas Nacional, a Quinta do Noval é uma das propriedades mais icónicas não só em Portugal mas no mundo. Conhecer esta quinta há muito que está na minha lista de coisas-a-fazer e finalmente consegui. Agora desejo lá voltar para apreciar alguns Portos épicos.

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Madeira – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Pérola do Atlântico. Estive de visita à ilha da Madeira algumas vezes este ano e não me sai da cabeça quão bonita é. É pura e simplesmente majestosa. Adorei o tempo que lá passei e estou ansioso por lá voltar. Digno de peregrinação vínica e, quando lá estiverem, aproveitem também para beber uns copos de Poncha.

Votos de um delicioso 2015 a todos os leitores!

O terroir e o ambiente

Texto João Barbosa

A palavra terroir é uma coisa esquisita que, provavelmente, apenas conhecida pelo povo do vinho. Tenho ouvido acrescentos e tesouradas quanto ao significado desta palavra francesa sem tradução para outra língua – afirmação carente de estudo exaustivo da minha parte.

Terroir tem uma dimensão quase mágica, antropológica e amorosa. Quanto a mim, é solo, subsolo (ou até onde chegam as raízes), ecossistema de proximidade, envolvente natural (vida e não vida) transportada pelo vento, factores climatológicos, casta adequada, conhecimento agrícola e intervenção humana no campo. Tudo bonito e que se pode estragar por trabalhos «violentos» na adega.

região de Borgonha

Região Vitivinícola da Borgonha in en.wikipedia.org

Nenhum vitivinicultor diz mal do seu vinho e há «milhares» que dizem que a sua quinta tem um terroir próprio. Mudar «uma vírgula» não muda propriamente um texto. A minudência do terroir vem por empréstimo da Borgonha, onde existem micro regiões. La Tâche tem pouco mais de seis hectares, um exemplo. Dos seis aos 540 hectares, há terroirs para todos os conceitos. Até aqui está quase tudo bem. A complicação surge quanto ao modo de amanhar a terra.

La Tâche

La Tâche in en.wikipedia.org

Primeiro ponto: um território onde a vinha é regada é parte do terroir? Quem molha as videiras diz que sim, quem não lhes dá água afirma que não, porque prova que a trepadeira não está instalada num local confortável – não é dali.

Segundo ponto: vinhas tratadas com herbicidas, fungicidas e pesticidas de síntese têm o direito de serem parte dum terroir? Porém a adição de calda bordalesa, por mais natural que seja, também não passeia naturalmente na terra e o cobre é tóxico.

sulfato de cobre

Sulfato de Cobre in www.ebah.com.br

Terceiro ponto: aparar as ervas é consentâneo com a natureza? O plantio – ancestral e hoje reconhecido –, nas entrelinhas, de plantas que fixam azoto é consentâneo?

Aparador

Aparador de ervas

Quarto ponto: se o vinho é um produto de «agricultura inteligente» negar ou reduzir ao mínimo a intervenção humana não contraria a essência da lavoura?

O Domaine de La Romanné-Conti, na Borgonha, adoptou há anos a prática de agricultura biológica, depois de biodinâmica e hoje o amanho é feito com tracção animal. Exagero ou marketing?

A biodinâmica é um modelo radical de agricultura biológica – assumo o adjectivo como substantivo – que defende uma intervenção mínima, certificada por um organismo privado e pouco flexível: a Demeter. O movimento foi criado, na Alemanha, por Rudolf Steiner, que a apresentou em 1924. Não sei por que carga de água os nazis foram implicar com a filosofia.

Rudolf Steiner - em 1905

Rudolf Steiner in en.wikipedia.org

A biodinâmica recolhe contributos ancestrais, como os ciclos lunares ou a astrologia zodiacal, de 12 signos. Para mim, é misticismo, porque na realidade são 13. Porém, 12 é um número mágico, formado por outros algarismos transcendentes, como o três e o quatro.

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Zodiaco e ciclos lunares in commons.wikimedia.org

Para se ter uma noção do radicalismo: uma herdade com cerca de 500 hectares ia sendo chumbada, porque um buraco no caminho fora tapado com bocados de tijolo. Foi complicado fazer crer que o tijolo é feito de barro. Só cultiva biodinâmico quem quer, e mal não faz.

Para remate conto o que ouvi acerca dum produtor da Borgonha. Diz que a casta só se manifesta nos primeiros anos. Depois da maturidade, a planta expressa o terroir.

Rega, não rega? Casta específica, ou não? Cultivo nas entrelinhas, ou não? Aparar as ervas bravias, ou não? Usar tracção animal, ou não? Usar produtos de síntese, ou não? Cada um tem o seu conceito de terroir e de boa prática de lavoura.

Céptico ou discordante de alguns factores enunciados, o que sei é que há vinhos fantásticos onde não se pratica agricultura biológica nem biodinâmica e onde a rega é praticada.

Bárbaro é o Rei dos Ostrogodos

Texto João Barbosa

Há uns anos percebi, através dum artigo numa revista portuguesa vínica, que o Antigo Regime – sistema que vigorou na Europa desde finais do século XVI até à Revolução Francesa – afinal subsiste.

Se fosse um cronista político, essa Excelência seria arrasado da Esquerda até à Direita, incluindo monárquicos (julgo que defensores do Absolutismo devem ser três). Esse fidalgo da Casa Real do Vinho, espanhol de nascimento, defendeu que há uma nobreza entre os apreciadores.

Essa nobreza é formada por pessoas que, embora seduzidas pelo efeito do álcool, não se deixam embriagar; coisa de bárbaros, de ignorantes, selvagens… não estou a exagerar, os termos foram basicamente estes.

O arauto do Rei do Vinho é, para mim, o bobo da Corte. Porque não sabe História nem de Antropologia, nem pensa no que escreve. Além dos bárbaros, o escrevinhador ainda acrescentou um patamar de enófilos não conscientes. Há povo, burguesia e nobreza. O clero ficou de parte, ou então o bobo é também cardeal.

Totila rei dos Ostrogosdos

Totila, Rei dos Ostrogodos, reinou de 541 a 552. Pintura do século XVI, de Francesco de’ Rossi. (moderno)

Não estou a defender que se beba desregradamente ou de forma que possa criar sarilhos. Durante séculos, aliás milénios, o álcool foi mais do que prazer. O vinho foi fonte de calorias, de bebida saudável (beber água, sobretudo nas cidades, era um risco para a saúde, devido à poluição de imundices de toda a espécie) e fonte de prazer.

Obviamente que o tempo mudou, felizmente. Num documentário, realizado pelo sociólogo António Barreto, mostra-se que em 1979 havia crianças, na Fonte da Telha – nos arredores de Almada e Sesimbra – cuja dieta incluía sopas-de-cavalo-cansado. Este facto gravíssimo revela o estado de miséria que se viveu até à instauração da Democracia, mas também o modo como era visto o vinho no dia-a-dia.

O alcoolismo, com base no vinho ou outro produto, não é desejável em qualquer aspecto. Porém, há uma diferença entre alcoolismo, intoxicação e bebedeira numa farra. Se o vinho – o álcool – chegou aos nossos dias é, em grande parte, devido ao seu uso «mágico», indutor dum estado alterado de consciência.

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Teodorico, o Grande, Rei dos Ostrogodos, reinou de 475 a 526. Pintura medieval

Depois, à parte do alcoolismo, da intoxicação ou do beber até cair (binge drinking), há o civismo, substantivo que tem tanto de ébrio quanto de sóbrio. Quem quer festejar sem limite tem todo o direito de o fazer, critico se for manobrar máquinas, pondo em risco a sua vida e a dos outros, criando momentos de perigo.

Aliás, os povos do álcool – os que o têm na cultura – sabem, mais ou menos, lidar com a situação, o que não significa ausência de problemas. O National Geographic Channel transmitiu uma série de documentários acerca dos vícios e dos locais onde os tóxicos criam calamidade de saúde pública. Entre, as situações (repetidas) de crack, heroína, cocaína, analgésicos para cavalo (!!!) também apareceu o álcool – numa única situação.

palácio de Teodorico - rei dos Ostrogodos - em Ravena

Palácio de Teodorico, em Ravena – onde grandes farras, por certo, aconteceram.

Nem todas as sociedades ameríndias (possivelmente a grande maioria) conheciam o álcool a quando da chegada dos europeus. As suas defesas são ainda hoje frágeis, em algumas regiões. Em algumas zonas remotas do Alasca, o consumo de álcool (destilado) equipara-se ao flagelo da heroína, como o verificado em Portugal na década de 90 do século XX. Uma garrafa de whisky em Anchorage vale mais de dez vezes nas zonas isoladas.

A moderação deve ser obrigatória. O civismo e a consciência no seu consumo deve inibir episódios de risco. Um grão-na-asa de vez em quando não é grave. Os «beatos» do vinho têm, certamente, as mesmas hipocrisias dos «beatos» doutras moralidades.

Bacalhôa Moscatel de Setúbal Superior 2001

Texto João Pedro de Carvalho

A história da Bacalhôa Vinhos de Portugal começou em 1922 com a fundação da João Pires & Filhos, Lda., mas apenas nos anos setenta com a entrada de António d’ Avillez para o comando a empresa começaria a engarrafar as suas próprias marcas, corria o ano de 1982 e a enologia estava a cargo da ainda hoje enóloga da casa, Filipa Tomaz da Costa. Foi nessa altura que surgiram marcas de renome como o Quinta da Bacalhoa, Má Partilha, Catarina e Cova da Ursa. Os moscatéis dariam em 1983 o pontapé de saída e desde cedo ganharam fama face à qualidade e acima de tudo a consistência apresentada colheita após colheita sempre com um preço demasiado aliciante.

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Bacalhôa Moscatel de Setúbal Superior 2001 & Fritos de Natal – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Um desses exemplos mais recentes é este excelente Bacalhoa Moscatel de Setúbal Superior 2001, um vinho que passou oito anos em barricas usadas no envelhecimento de whisky de malte. O designativo Superior é atribuído a vinhos com um mínimo de cinco anos de idade e que tenham obtido na câmara de provadores a classificação de qualidade destacada. Relembro que este vinho se encontra em grande superfície comercial com preço a rondar os 15€, uma verdadeira tentação face à qualidade.

No primeiro impacto destaca-se a frescura do conjunto, muito bem delineado e apelativo, rico e complexo, com a flor de laranjeira e a sua geleia laranja amarga, muita fruta em passa com figo, damasco, frutos secos, ligeiro ranço, tudo numa bonita complexidade que o envolve. Boca harmoniosa, sente-se de imediato o toque de laranja, ranço, muita frescura com corpo envolvente, untuoso com nozes caramelizadas e geleia de laranja amarga em fundo persistente e bastante saboroso. Companheiro perfeito para sobremesa de chocolate com laranja.

Contactos
Bacalhôa Vinhos de Portugal
Estrada Nacional 10
Vila Nogueira de Azeitão
2925-901 Azeitão
Portugal
Tel: (+351) 21 219 80 60
Fax: (+351) 21 219 80 66
Email: info@bacalhoa.pt
Site: www.bacalhoa.com

Pereira d’Oliveira, Madeira – Do armazenamento à venda ao balcão da adega

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Não devem existir muitos lugares no mundo onde se possa comprar ao balcão e directamente ao produtor, uma garrafa de vinho do século 19. Correcção, oito vinhos do século 19 ao balcão.

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira wine list

Lista de vinhos da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pois bem, na adega da Pereira d’Oliveira no Funchal, podemos. E que tesouro escondido é, repleto de garrafas e barris, digno de um coleccionador. Como é que a Pereira d’Oliveira tem tal fantástica e abundante colecção?! Tão abundante que torna a escolha difícil.

Parte da explicação reside no facto de a Pereira d’Oliveira ser uma amalgamação de seis empresas da Madeira: João Pereira d’Oliveira, João Joaquim Camacho & Sons, Júlio Augusto Cunha & Sons, Vasco Luís Pereira & Sons, Adegas do Torreão e, muito recentemente, Barros e Sousa.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe & Luis Pereira d'Oliveira

Filipe & Luis Pereira d’Oliveira, 6ª e 5ª geração de produtores Madeira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas essa não é a principal razão. Luís Pereira d’Oliveira, juntamente com o seu irmão Aníbal, representam a quinta geração da família à frente do negócio que em 1850 foi fundado por João Pereira d’Oliveira. Sendo o responsável pelas vendas, conta-me a história, uma história que me parece familiar (estou a falar da Caves São João’s million bottle cellar in Bairrada). Revela-me que a empresa apenas começou a exportar há 30 anos porque a terceira e quarta geração – o seu pai, tio e avô – não tinham qualquer interesse em fazê-lo. Os três preferiam vender os vinhos exclusivamente na Madeira e em Portugal Continental, o que explica o porquê de a Pereira d’Oliveira ter 1.600.000 litros de vinho Madeira com mais de 20-30 anos. Uau!

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira deformed Moscatel bottles

Garrafas de Moscatel deformadas da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Apesar de hoje em dia a empresa exportar vinho Madeira para 16 países, velhos hábitos demoram a morrer. Quando pergunto a Pereira d’Oliveira (Luís) sobre a compra da Barros e Sousa, diz-me que apenas aconteceu por uma razão – para ampliar a porta da adega/instalações de 600 metros quadrados (que já é uma das três instalações da Pereira d’Oliveira no Funchal). Com 1030 metros quadrados, a vizinha Barros e Sousa vai ajudar a aliviar a pressão do espaço e permitir à Pereira d’Oliveira manter uma longa tradição de engarrafamento on demand (não existem planos para pôr de parte novos vinhos para perpetuar a marca Barros e Sousa).

Esta prática (engarrafamento on demand) engloba uma concentração tipo elixir e intensiade por que é conhecida esta empresa da Madeira. Por exemplo o Bastardo 1927, engarrafado pela primeira vez em 2007, 60 anos depois dos 20 mínimos exigidos para um Madeira Frasqueira de topo.

Com o seu toque acelerado a “vinagrinho”, o super-complexo estilo da casa é também conhecido por outra tradição de longa duração. O Madeira da Pereira d’Oliveira é envelhecido em barris de madeira muito antigos (a maior parte com mais de 60 anos, alguns até com mais de 100). Um processo que, quando executado devidamente e durante um longo período de tempo, confere uma subtil interacção do vinho, da madeira, do calor e do oxigénio, que lentamente realça as inúmeras camadas.

O mundo moderno venera a rapidez mas aqui não há lugar para isso. Ou como Pereira d’Oliveira o diz, “Não gostamos de andar rápido porque isso pode originar algo desinteressante”. Apesar do contexto desta afirmação ser o de continuar um pequeno e independente negócio de família, espelha profundamente a filosofia de vinificação que aqui se pratica. Uma filosofia que permace intacta desde que o enólogo Filipe da sexta geração se juntou ao seu pai, Aníbal.

Photo Credit Sarah Ahmed Filipe Pereira d'Oliveira behind the counter

Filipe Pereira d’Oliveira ao balcão – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A política de “manter o rumo sem mudanças bruscas” é também uma benção para os turistas, especialmente para aqueles que frequentemente saem dos cruzeiros e visitam a ilha sem terem carro à disposição. A Pereira d’Olivereira é absolutamente firme no que toca a estar no coração do Funchal e, situada no número 107, na rua dos Ferreiros, esta adega com atmosfera do século 17 (originalmente uma escola) está a um passo do porto, a norte da catedral da cidade..

Embora a selecção de Madeiras para prova impressione, torna-se quase insignificante quando comparado com o que se pode comprar do outro lado do balcão. Com 56 Madeiras single vintage (Colheita e Frasqueria) à venda, pode-se festejar quase qualquer aniversário que nos venha à cabeça. Mas tomem nota, devem contactar o Livro de Recordes do Guinness se o vosso ano de nascimento está compreendido entre 1850 e 1895.

Aqui estão as notas de prova do meu top 7 deste número 107 (preços de adega)

Photo Credit Sarah Ahmed A fine selection of Pereira d'Oliveira Frasqueira madeira

Uma excelente escolha de vinhos Frasqueira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Sercial 1971 (Madeira)
Mogno com reflexos vermelhos. Fantástico perfil da variedade com a sua acidez de toranja, notas doces de tangerina e goiaba. Muito enfumaçado, longo e agradável. Concentração com linha e longevidade. €94/garrafa

Pereira d’Oliveira Terrantez 1971 (Madeira)
Âmbar profundo, com um nariz e palato complexos. Mais rico que o Sercial, com uma acidez a laranja (não a toranja), mais madura e arredondada. No entanto mais seco, mais saboroso com um delicioso suporte de tabaco, cedro e especiarias secas. Muito persistente com um fundo mineral/iodo num final longo. €110/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Bastardo 1927

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Bastardo 1927 (Madeira)
Esta garrafa em particular foi retirada do barril em 2014; o 1927 é o único Bastardo da Pereira d’Oliveira, e portanto, extremamente raro. A tonalidade carregada relembra-nos que a Bastardo é uma uva tinta e não branca. É mais robusto, mais doce e com mais fruta no seu palato doce-picante e tâmara amarga. A acidez sumarenta  está bem integrada, misturando-se e extendendo a fruta até um final longo com especiarias escuras, suaves sementes pretas de cardomomo e leve cigarrilha de café crème. O final é um pouco poeirento mas a fruta é generosa o suficiente para manter à distância qualquer adstringência da madeira. €300/garrafa

Pereira d’Oliveira Verdelho 1912 (Madeira)
Esta casa é conhecida pelo Verdelho. Filipe Pereira d’Oliveira diz-me que é um fã do seu estilo meio-seco (e tal como eu, um firme fã do Terrantez). Este tem um um palato avivado fora do comum para um vinho de 102 anos. Não se deixem enganar pela sua tonalidade de mogno maduro – as aparências iludem. Revela goiaba fresca, jovial e picante, chutney de tâmaras carnudas com tamarindo amargo e um toque de pele de toranja. Uma maravilha. Espero ser assim tão cheia de energia se chegar aos 102 anos!! Juntamente com o Terrantez 1880, a minha escolha da prova. €330/garrafa

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira Moscatel cask

Barril de Moscatel da Pereira d’Oliveira – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Moscatel 1875 (Madeira)
Já antes tinha tido a sorte de provar um Moscatel muito velho, fino e raro – o 1928 Morris Muscat de Rutherglen e o José Maria Fonseca Apoteca Moscatel de Setubal 1902. Ambos eram intensamente viscosos. Ainda não tinha encontrado nenhum Moscatel na Madeira, mas a imagem de marca da ilha realmente transporta e distingue este Moscatel – diria que é o melhor de entre estes exemplares muito velhos que provei. Por isso, embora tenha uma cor mogno muito escuro, com uma correspondente concentração super intensa de açucar Demerara, escuro, ligeiramente amargo, com especiarias poeirentas(cardamomo preto, tamaraindo), café do campo e melado, é muito nivelado e a acidez bem integrada oferece uma certa precisão já para não falar da impressionante longevidade. Não é viscoso o que confere a este vinho uma fantástica energia e brilho. €760/garrafa

 

Photo Credit Sarah Ahmed Pereira d'Oliveira - the oldest madeiras tasted

Pereira d’Oliveira madeira – os vinhos mais velhos que provei – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Pereira d’Oliveira Terrantez 1880 (Madeira)
Relativamente pálido, naquilo que parece ser um traço dos Terrantez. Muito interessante, mas acima de tudo, uma incrível elegância, longevidade e integração para a idade que tem. Uma boa base de especiarias delicadas e tabaco conferem-lhe linha e entusiasmo. Brilhante equilíbrio e serenidade. Juntamente com o Verdelho 1912, a minha escolha da prova. €780/garrafa

Pereira d’Oliveira Sercial 1875 (Madeira)
É difícil acreditar que este Sercial tem quase mais 100 que o primeiro (também ele um Sercial) dos sete magníficos vinhos que escolhi. A semelhança com a família estão bem patentes,  em termos varietais e estilo da casa. Goiaba, pele de toranja e até umas notas de maça acabada de cortar cantam por entre o véu de fumo e minerais. O seu distinto aroma vulcânico, iodo e algas servem de lebrete palpável do muito peculiar terroir montanhoso, oceânico e vulcânico da ilha. Incrível longevidade, persistência e delicadeza. Acho até que pode ser outro dos meus favoritos… €760/garrafa

Contactos
Rua Ferreiros 107
9000-082 FUNCHAL
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Tel: (+351) 291 220 784
Fax: (+351) 291 229 081
Site: perolivinhos.pai.pt