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Esotérico Não Erótico: Os vinhos Explicit da Jorge Rosa Santos e Filhos

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Já lá vai o tempo em que tive aulas de Latim. E não tenho memória de alguma vez ter feito um enólogo corar, mas Jorge Rosa Santos (júnior) corou enquanto explicava que a marca da sua família, “Explicit”, deriva da expressão latina explicare.

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EXPLICIT tinto, à base de solos xistosos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Significa “revelar-se” e, portanto, também tornar visível. Neste caso, o terroir muito particular das vinhas íngremes e cobertas de xisto da sua família, nas encostas da Serra d’Ossa perto de Estremoz, no Alentejo. Portanto e desde já, vamos deixar isso claro, não é uma referência erótica, antes esotérica. E é uma alcunha adequada para os vinhos da Jorge Rosa Santos e Filhos, extremamente sérios e impulsionados pelo terroir.

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Irmãos e enólogos – Foto cedida por EXPLICIT | Todos os Direitos Reservados

Quando comprou um retiro de fim-de-semana no Alentejo, o cirurgião Jorge Rosa Santos não partiu com a intenção de fazer vinho. Foi antes uma consequência inevitável, já que a casa tem oito hectares e três dos seus filhos são enólogos – Frederico (Terras d’Alter), Vasco (Monte da Ravasqueira) e Jorge júnior (Casal Santa Maria). O quarto, Ricardo, é arquitecto, tal como a sua mãe.

Quando me encontrei com Jorge júnior, disse-me que o ponto forte deste projecto de família é que “fazemos aquilo que queremos e aquilo em que acreditamos…não estaríamos a fazer vinho desta maneira se estivéssemos a trabalhar para outra pessoa”. Por exemplo, em 2004, a família ignorou os avisos de que eram “loucos” por estarem a cultivar os seus primeiros dois hectares de Syrah em solos virgens e, no ano seguinte, mais dois hectares de Alicante Bouschet e Aragnoes (Tinta da Pais, clone pequeno e de pele fina da Ribero del Duero). Loucura, como apelidaram, porque em solos rochosos de xisto (20-30cm de profundidade) e com um gradiente de 30%, as vinhas nunca seriam economicamente viáveis.

A vinificação também é pouco convencional. O “Explicit” tinto é deixado em volume livre, sem sulfuração, durante 3 meses. Permitir o oxigénio infiltrar-se nesse volume livre explica a sua rusticidade, e às vezes o toque de acidez volátil típica dos Portos (demasiada em 2008). Aos olhos de Jorge, estas qualidades (juntamente com a concentração intensa, elevado grau de álcool e a formidável estrutura naturalmente conferida pelas vinhas) “dão-nos a nossa própria identidade”. Altamente necessária, reconhece, já que o Alentejo tem muitos projectos a produzir vinho de qualidade mas projectos específicos, como o “Explicit” estavam a faltar, projectos que “capturam a essência da vinha dentro da garrafa”.

Dez anos após terem sido apelidados de loucos, o projecto da família Rosa Santos está a prosperar. Uma prova vertical do “Explicit” tinto destacou a poderosa assinatura salgada de taninos “ósseos” deste tinto impulsionado pelo terroir, qualidades minerais de grande efeito; a progressiva redução de Syrah, melhores condições na adega e a adição da Aragones parece ter dado frutos, originando um vinho mais brilhante e compacto (menos parecido com o Porto). Além disso, o “Explicit” tinto tem desde aí a companhia do “Explicit” branco e do mais acessível “Implicit” (tinto e branco), todos produzidos com uvas compradas.

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A provar a gama – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

Aqui estão as minhas notas sobre as últimas novidades da gama da família e as minhas escolhas da prova vertical Explicit Red (2008-2012):

IMPLICIT branco 2013 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote não envelhecido em carvalho com 50% Alvarinho, 25% Viognier, 12,5% Rousanne e 12.5% Moscatel. As uvas foram obtidas de vinhas relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. Um branco aromático, picante, frutado (mas em nada tutti-frutti), com boa profundidade e equilíbrio, e um salgado e atractivo gosto picante. 13%

EXPLICIT branco 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Proveniente de um hectare de mistura de vinhas velhas, em Portalegre, 540 metros acima do nível médio das águas do mar. Em relação ao estilo, é completamente diferente do Implicit – como Jorge diz, muito mais ao estilo do Mundo Velho porque a fruta, embora presente, não é evidente. Ao invés, a impressão mais notória é de minerais salgados e borras cremosas e finas com sabor a noz. Fermentado e envelhecido em barris de carvalho até ao início da Primavera, apresenta o carvalho muito suavemente. Apesar de lhe faltar um pouco de acidez, este vinho vasto e texturado é bastante interessante. Gostei muito da sua particularidade não forçada. 14%

IMPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote com 50% de Touriga Nacional, 40% de Syrah e 10% Alicante Bouschet. As uvas foram obtidas de vinhas xistosas, relativamente elevadas (+ 300 metros acima do nível médio das águas do mar) ao longo do norte do Alentejo. A Touriga confere um bom toque floral – rosa damascena – ao nariz e palato, e a cereja preta também – fresca e cozida. Taninos texturados e maduros mas também salgados, uma mineralidade enferrujada e uma acidez fresca emprestam estrutura e equilíbrio. Muito bom – um rótulo jovem e sério do qual 6546 garrafas foram produzidas.

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Vertical de EXPLICIT tinto – Foto de Sarah Ahemd | Todos os Direitos Reservados

EXPLICIT tinto 2010 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah e Alicante Bouschet das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido 17 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Tal como os que o precederam, o 2010 é um vinho escuro e salgado, com a ameixa ponteada a chocolate amargo a despontar a sua essência firme de taninos calcários e “ósseos”. Notas de garrigue (erva mediterrânea) e minerais esfumaçados conferem uma rusticidade selvagem e muito atraente a este tinto encorpado, que é ainda mais imponente pelo seu chassis extraordinariamente longo de taninos maduros mas muito presentes (este vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Esta estrutura de taninos, juntamente com uma acidez (própria) muito equilibrada, permite a este vinho ter 15.5% sem qualquer esforço. Pode-se abrir mas ainda está em desenvolvimento; recomenda-se guardar por mais 5 anos. 5962 garrafas/20 barricas produzidas.

EXPLICIT tinto 2012 (Vinho Regional Alentejano)

Um lote de Syrah, Alicante Bouschet e Aragones das vinhas da família, em Serra d’Ossa, 352 metros acima do nível médio das águas do mar, e que foi envelhecido durante 24 meses em barris de carvalho franceses e americanos. Embora o carvalho e o álcool sobressaiam no primeiro dia, no segundo dia este vinho é inundado por uma excelente mineralidade poeirenta. Amora doce e carnuda controlada pela sua abundante película e essência de taninos (também esta vinho foi submetido a 15 dias de contacto com pele pós-fermentação). Um vinho muito visceral, quase cru, com o seu esqueleto, não a carne, em primeiro plano. Eu guardaria este vinho pelo menos durante 2/3 anos antes de o abrir e é conservável por mais alguns anos. 11247 garrafas/40 barricas produzidas.

Casa da Passarella – Uma história escrita com vinho

Texto João Pedro de Carvalho

Nascida em 1908, a Região Demarcada do Dão é a região de vinhos tranquilos mais antiga de Portugal. Historicamente o berço de grandes vinhos, viu nascer duas décadas antes a Casa da Passarella, produtor emblemático por onde passaram nomes lendários da enologia portuguesa, como os saudosos Dr. Mário Pato e Eng. Alberto Vilhena, entre muitos outros. Atualmente a Casa da Passarella tem cerca de 100 hectares, dos quais 45 hectares são de vinha, divididos em sete parcelas distintas com características únicas e diferenciadoras quer pela diversidade de castas quer pelas diferentes exposições e solos. Desses apenas 4,4 hectares correspondem a vinhas velhas, às quais se juntam quatro parcelas centenárias exteriores à propriedade e de reduzida produção.

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Vinhas Velhas Casa da Passarella – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro registo data de 1893 com a marca Villa Oliveira, pelo meio contou com períodos de maior e menor saudade, mas todo este novo renascer da Casa da Passarella deu-se recentemente com a colheita 2008. Hoje passados 6 anos já se pode falar de uma notável consistência dos vinhos deste “novo” produtor sendo altura ideal para tomar pulso aos novos lançamentos. Aos grandes nomes da enologia que passaram por esta Casa junta-se agora a assinatura do enólogo Paulo Nunes, grande comunicador tanto pela maneira apaixonada como explica os seus vinhos quer pela forma como guia de forma efetiva a identidade da vinha para dentro da garrafa.

Tendo boa matéria-prima e quem a saiba interpretar, o resultado só pode ser uma gama que assenta numa matriz muito bem delineada em pura simbiose com um traço identificativo dos fiéis exemplares da região do Dão, mais propriamente na sub-região da Serra da Estrela. Assistimos portanto a uma combinação entre modernidade com o procurar manter a tradição, o resultado são vinhos bastante apetecíveis. Na gama Casa da Passarella tudo começa com “A Descoberta”, os vinhos mais diretos onde a fruta ganha destaque pela maneira airosa e fresca com que se mostra, aos quais se junta o “Abanico” em modo tinto Reserva, o mais robusto e tenso da gama, com predomínio da Touriga Nacional num conjunto que mostra alguma austeridade e claramente feito para durar.

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“OEnólogo” | “OEnólogo” Vinhas Velhas tinto – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

De seguida a gama “OEnólogo” onde o branco de 2013 com a juventude à flor da pele mostra a casta Encruzado num perfil ainda tenso e mineral. O tinto “OEnólogo” Vinhas Velhas com um conjunto demasiado tentador pela maneira como a fruta/frescura/madeira se combinam em grande harmonia num conjunto de puro prazer à mesa.
[Veja o nosso artigo sobre o ano anterior desta gama]

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Villa Oliveira Encruzado 2012 | Villa Oliveira Touriga Nacional 2010 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

É dessas vinhas velhas que saem os dois topos de gama, os Villa Oliveira. O Villa Oliveira Encruzado 2012 tem vindo a acomodar-se na garrafa, mais adulto e mais sério desde a última prova no início deste ano. Algo marcado pela tosta e pela baunilha da madeira onde estagiou, tem a fruta debaixo bem suculenta e fresca, conjunto amplo e complexo, muito prazer durante toda a prova a pedir carnes brancas com molho cremoso. O Villa Oliveira Touriga Nacional 2010 segue o caminho do Reserva, tenso, musculado com austeridade e frescura, muita fruta suculenta em nariz e boca, num conjunto ainda por desprender as amarras, coisas que apenas o tempo irá permitir.

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Casa da Passarela “Enxertia” 2011 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

Como novidade surge pela primeira vez o Casa da Passarella“Enxertia” 2011, uma nova marca que irá mostrar o melhor varietal de cada colheita cabendo a 2011 o Alfrocheiro. Atrativo de aroma com muita fruta negra (amora, framboesa, bagas), muita vivacidade e harmonia com caruma de pinheiro, ligeiro balsâmico com especiarias em fundo. Conjunto complexo e fresco, num dos melhores exemplares desta casta.

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O Fugitivo Garrafeira branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho |Todos os Direitos Reservados

Para terminar foram apresentados dois novos vinhos, a lançar para o próximo ano, que se inserem na gama “O Fugitivo”, vinhos que acontecem, visões mais intimistas do enólogo em quantidades muito limitadas como seria de esperar, neste caso o O Fugitivo Garrafeira branco 2013, onde a Encruzado se mistura com vinhedo velho resultando em apenas 2500 garrafas a entrar no mercado daqui por um ano, feito a pensar na guarda e no crescimento em garrafa. Menos marcado pela madeira que o Villa Oliveira, muito tenso, cheio de nervo, coeso e profundo, fruta fresca presente e madura com acidez a marcar a prova, mineralidade acentuada no final de boca. É um branco de respeito que tem tudo para brilhar muito alto.

O Fugitivo Vinhas Centenárias red 2011 nasce de quatro parcelas de vinhedo com mais de 100 anos, castas tintas com algumas castas brancas misturadas. O resultado é um vinho arrebatador, desafiante e que sai claramente fora do atual contexto. Conjunto muito perfumado, frescura na ribalta com balsâmico, bergamota, envolvente e complexo, no fundo suave nota do engaço maduro. Muita energia, boca com austeridade, fruta vermelha suculenta e a harmonia a começar a surgir, pede desde já pratos de forte tempero, num grande vinho à imagem do Dão.

Contactos
Rua Santo Amaro, 3, Passarela
6290-093 Lagarinhos
Tel: (+351) 238 486 312
Fax: (+351) 238 486 218
E-mail: info@casadapassarella.pt
Site: www.casadapassarella.pt

Madeira, uma Paixão

Texto João Pedro de Carvalho

No constante fervilhar de novidades, eis que a Madeira se começa a destacar com os seus vinhos de mesa, onde brilham essencialmente os Verdelho, carregados de frescura e mineralidade com um atrevido toque salino.

Neste caso o destaque vai para a Paixão do Vinho gerida por Filipe Santos cujos vinhos Primeira Paixão se têm destacado nos últimos anos pela qualidade e diferença, sendo o Verdelho o mais conhecido. Foi durante a última passagem pela ilha da Madeira que Filipe Santos deu a conhecer os seus mais recentes vinhos já disponíveis no mercado, o Primeira Paixão Rosé 2013 e o tinto Primeira Paixão Merlot 2012.

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Primeira Paixão Rosé 2013 © Blend All About Wine, Lda.

Primeira Paixão Rosé 2013
Feito à base de Touriga Nacional, Merlot, Syrah, Tinta Roriz e Complexa, com uvas provenientes da zona do Seixal. Enologia a cargo de João Pedro Machado na Adega de São Vicente. Aroma de boa intensidade com destaque para frutos vermelhos bem maduros, leve vegetal a marcar com fundo a lembrar pederneira. Boca cheia de fruta bem viva e sumarenta, estrutura bem composta com boa frescura num conjunto bastante apetecível.

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Primeira Paixão Merlot 2012 © Blend All About Wine, Lda.

Primeira Paixão Merlot 2012
Uvas provenientes de uma encosta perto do mar na zona do Caniçal, Merlot com um toque de Touriga Nacional, enologia de Francisco Albuquerque. Passou cerca de seis meses em barricas, num conjunto marcado pelo vegetal fresco num ligeiro balsâmico com a fruta madura (ameixa, framboesa) de segundo plano, frescura de conjunto, tabaco, pimenta. Perfil fresco com vida pela frente em final longo e persistente.

Contactos
Paixão do Vinho
Via Rápida Cota 200 posto Repsol Norte Jardim Botanico
9060-056 Santa Maria Maior – Funchal
Tel: (+351) 291 010 110
Site: www.paixaodovinho.com

Os Bio-adoráveis vinhos da Quinta da Serradinha

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Carácter acima de tudo. Vinhos exclusivos com muita personalidade, certo? Não é suficiente fazer vinhos tecnicamente sólidos, é preciso algo que os distinga. E não estou apenas a falar do terroir. Quer dizer, pode ter o melhor terroir do mundo, como o fantástico Romanée-Conti, mas se isso não passar para os seus vinhos mais vale plantar as vinhas em cima de uma grande pilha de lixo tóxico. Basicamente ninguém quer saber se o resultado final é um vinho com botox e demasiado polido, mesmo que seja “razoável”.

Os bons vinhos são aborrecidos e os grandes vinhos nunca são perfeitos. Pelo menos não para mim. O que faz um grande vinho verdadeiramente grande é o factor-x, aquela ligeira singularidade que te vai fazer uivar como um lobo para a lua cheia. Grandes vinhos não são necessariamente fáceis ou sequer muito saborosos ao início. Na verdade, eles podem ser verdadeiramente desagradáveis. Porém, quando chegam àquele momento perfeito e libertam todo o seu potencial, é mágico.

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Vinhas Solarengas na Quinta da Serradinha – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Situada no coração da Mãe Natureza, a cerca de uma hora do norte de Lisboa, na D.O. Encostas d’Aire e perto da cidade de Leiria encontra-se a Quinta da Serradinha. Desde cedo que a quinta abraçou a agricultura biológica. O actual enólogo e capo António Marques da Cruz, disse que as pessoas estavam um pouco cépticas no dia em que o seu pai começou a tornar a propriedade biológica. Mas agora que o orgânico, biológico ou o que lhe quiserem chamar está na moda, podemos afirmar com segurança que a Quinta da Serradinha não era um bando de hippies a correr com flores no cabelo, mas sim os pioneiros de um movimento que, desde então se tornou amplamente praticado.

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Uvas quase prontas para colheita – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Provei pela primeira vez os vinhos da Quinta da Serradinha num evento de vinho no Porto. Embora os vinhos fossem bastante interessantes não me diziam muita coisa neste tipo de degustação. Senti que fui apressado e não tive o tempo necessário para me envolver com os vinhos. Porém, ficaram na minha cabeça e estava curioso para os provar novamente, mas viver na Finlândia faz com que provar vinhos portugueses seja difícil. Felizmente tive a oportunidade de finalmente visitar a propriedade.

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A Adega – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

No caminho para a adega vi algo curioso e não conseguia acreditar no que os meus olhos estavam a ver. Algo bastante primitivo, mas sofisticado. Atrás de uma grande cerca de arame farpado havia um vinhedo. Um vinhedo dentro de uma prisão! Estava pasmado. Isso nunca aconteceria na Finlândia, e não apenas porque é climaticamente desafiante. Aparentemente, em Portugal levam muito a sério o cultivo de uvas. Quase me fez querer roubar um banco.

De qualquer forma, ao chegar à Quinta da Serradinha passamos por muitas vinhas bonitas e espessas. A adega em si parece bastante, hmm, “com-os-pés-no-chão”. Não há piscinas intermináveis ou fontes elegantes na entrada. Apenas o essencial, rústico. A adega é a própria simplicidade, sem aqueles disparates todos e engenhocas inúteis. Poucos tonéis, barris, um par de ânforas e acho que vi também uma bomba num canto qualquer. Podemos rapidamente sentir de que esta é definitivamente uma quinta de intervenção mínima, uma adega pragmática. As vinhas falam por si.

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Amostra de barril – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Sentamo-nos na adega e degustação dos vinhos começou. Amostras de barril, brancos feitos de variedades como Arinto, Fernão Pires e Encruzado, vinhos rosé feitos em ânforas, algo que não se vê muitas vezes. Os vinhos apresentavam toneladas de personalidade. Alguns um pouco “funky”, alguns muito puros e elegantes, mas nenhum deles aborrecido. Houve uma consistência de exclusividade nos vinhos que achei muito atraente. Um certo charme que me fez querer provar e aprender mais sobre estes vinhos. No entanto, como sempre houve um par de vinhos que realmente se destacou.

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Normalmente garrafa vazia significa um bom vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quinta da Serradinha “poupa” 1999
O pássaro no rótulo não é apenas um pombo de vinha qualquer, é um pássaro de poupa também conhecido como poupa em Portugal. Este companheiro especial é fantástico porque protege as vinhas ao comer alguns dos insetos indesejáveis e assim diminuindo a pressão na utilização de pesticidas. Lindo passarinho.

Consistindo principalmente por Baga (75%), este vinho não mostra qualquer tipo de crise de meia-idade. Aromas desenvolvidos, mas ainda com algumas agradáveis frutas vibrantes de fundo. Muitas especiarias e alguns tons de terra com notas de aneto. É surpreendentemente delicado, mas com um taninos firmes sugerindo certamente encontraria o seu lugar ao lado de uma boa refeição. Atrevo-me a dizer que este deve ser um dos melhores vinhos Baga fora da Bairrada. Muito bom.

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António a decantar uma garrafa – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quinta da Serradinha Vinho Tinto 1989
Estamos sempre um bocadinho alerta quando degustamos tintos portugueses pré-90. Embora alguns possam envelhecer durante décadas, alguns tendem a ter um curto período de vida. Não significa necessariamente que sejam maus vinhos, apenas significa que atingem o pico mais cedo tornando-os mais “amigo” do consumidor.

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Joaninha, o mascote da Quinta da Serradinha – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Tenho que dizer porém, que este vinho me surpreendeu. Mesmo estando bem amadurecido tem alguns belos aromas perfumados de mirtilos e ervas. Adorável textura ainda com alguma frescura da Serra d’Aire. Alguns podem dizer que este vinho já passou o seu tempo, mas é uma questão de gosto. Eu acho que estes vinhos ainda são bons de beber mas estão a chegar ao ponto de “ou se bebe agora, ou nunca”.

Contactos
Quinta da Serradinha
Barreira Apart. 4040
2411-901 Leiria
PORTUGAL
Tel.: (+351) 244 831 683
Telemóvel: (+351) 919 338 097
E-mail: amc@quintadaserradinha.com
Site: www.quintadaserradinha.com

As talhas do senhor José

Texto João Pedro de Carvalho

O fascínio por estes vinhos vem dos meus tempos de criança, relembro as conversas que se tinham à mesa nos jantares de família, um desses nomes era um tal de Tinto Velho que tanto Natal acompanhou. Ora esse mesmo Tinto Velho é proveniente da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes (Reguengos de Monsaraz), onde o prestígio e a história se aliam a tradicionais técnicas de vinificação, desde os lagares, passando pelos tonéis, às tradicionais talhas de barro.

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Detalhe de data em tonel – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

É nas imponentes talhas que reside toda a magia e encanto destes vinhos, é daquelas porosas paredes que se transmitem anos de saber a todos os vinhos que por lá passam. Pelo meio ficou esquecida toda uma arte de fabrico que dificilmente irá voltar, resta pois venerar e contemplar todo o património que reside na Adega dos Potes e saborear os vinhos que ali são criados. Os rótulos contam que por ali já se faz vinho pelo menos desde 1878, os registos são parcos e apenas a glória dos vinhos que perduraram no tempo nos conta a história de tão gloriosa casa, como o épico o Tinto Velho 1961 ou aquele que é um dos mais emblemáticos do historial vínico de Portugal, o Tinto Velho 1940.

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Old Vineyard of Herdade do Monte da Ribeira – Foto cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Tudo começa na Herdade do Monte da Ribeira, onde se encontram os 72 hectares de vinha, em solos de origem granítica, que foi plantada ao longo dos anos tendo o próprio José de Sousa plantado ali vinha no princípio dos anos 50. Castas como Trincadeira, Aragonês, Grand Noir… fazem parte dos encepamentos e são nos dias de hoje a base dos vinhos José de Sousa.

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Adega de Potes – Foto cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Estas últimas referências fazem parte do portfolio do produtor José Maria da Fonseca que em 1980 começou a engarrafar os vinhos da Casa Agrícola José de Sousa Rosado Fernandes e após a aquisição em 1986 concretiza o sonho de poder produzir vinho no Alentejo. Foi nessa altura que viria a ser descoberto debaixo de um monte de sacas de carvão um lote de garrafas do Tinto Velho 1940, um vinho cuja qualidade e longevidade iria servir de meta a alcançar na elaboração dos “novos” José de Sousa.

Assim em 1990 a marca ganhou novo rumo, dividiu-se em duas e por um lado ficou-se com um pequeno José de Sousa, por outro com um pura raça Alentejano de nome José de Sousa Mayor (Garrafeira). O mais pequeno é a continuidade com retoques da nova enologia, mais apelativo e satisfaz plateia alargada, o Mayor é a tentativa de ir ao encontro dos grandes vinhos da antiga Casa Agrícola, mais recente surge o J de José de Sousa o novo topo. Os três têm no coração a bondade da Talha, do barro do Alentejo, da tradição e dos tempos que dificilmente vão voltar.

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José de Sousa – Foto cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

José de Sousa 2011
O “Zé” mudou de camisa, adaptou-se aos tempos modernos e veio morar para a cidade. Este alentejano de gema tem vindo a adaptar-se aos tempos que correm, continua no entanto fiel às origens. Sempre o conheci com um saquinho de figos secos e uma onça de tabaco de enrolar no bolso, botas marcadas pelo barro da Herdade onde nasceu, o “Zé” é um tipo porreiro, sem grandes complexos e sempre bem disposto, grande amigo da petisqueira. Por mais anos que passem por ele, por mais que mude de camisa não perde o sotaque bem vincado, nem vira cara às suas origens (nasceu em Reguengos de Monsaraz). Afinal de contas são estes amigos que gostamos de ter como companheiros de mesa, nunca nos deixam ficar mal vistos e proporcionam bons momentos de convívio. Da última vez que nos encontrámos em 2011, falou-me da Grand Noir, da Trincadeira e da Aragonês, sempre bem disposto a conversa durou toda a refeição. Se o virem por aí não hesitem em dar-lhe uma palavrinha…

José de Sousa Mayor 2011
Continua Mayor o tinto José de Sousa (Reguengos de Monsaraz) de fina estirpe Alentejana e cuja fatiota se tem vindo a adaptar aos tempos modernos. Um tinto mais opulento, cheio de genica e mais pronto a beber, com mais gorduras e sem ser tão tenso ou rijo como me recordo dos tempos da juventude de um 1994 ou 1997. Continua no entanto a ser um belo tinto da planície, onde predomina a casta Grand Noir, num todo que conjuga fruta escura e gulosa com folha de tabaco, café, especiarias (cravinho), barro, tudo embrulhado numa barrica que não chateia. Ainda novo com tudo para se desenvolver, fruta bem presente na prova de boca, alguns taninos em fundo embora todo ele a mostrar elegância, aptidão para guarda prolongada, sendo desde já companheiro de um bom Ensopado de Borrego.

J de José de Sousa 2011
Um dos grandes vinhos do Alentejo, pontifica a Grand Noir com Touriga Nacional e Touriga Francesa. Bastante charmoso e cheio de finesse, a mostrar desde o princípio toda a sua classe num conjunto de alto gabarito. Perfeita a simbiose entre lagares/barro/madeira, que resulta num vinho que mostra o melhor do Alentejo, a frescura da fruta bem carnuda envolta por uma boa estrutura que lhe garante longevidade. Tudo com grande complexidade, chocolate, balsâmico, floral, a fruta muito fresca e bem delineada como todo o conjunto a mostrar muita classe e elegância. Pelo meio o travo terroso e fresco do barro muito subtil, envolve os sentidos com bastante prazer, boca com estrutura firme, amplo e aveludado, profundo num final de boca longo e especiado. Memorável com umas perdizes estufadas.

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José de Sousa Rosado Fernandes 1940 – Foto cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

José de Sousa Rosado Fernandes 1940
São 74 anos de vida de um verdadeiro ícone da enologia em Portugal, a todos os níveis memorável e a mostrar uma saúde invejável, com bastante frescura que lhe ampara todo o conjunto. Escuro e glicérico, rebordo acastanhado a mostrar que o tempo já passou por ele, muito complexo com terciários luxuosos, notas de ameixa e alguma compota, chocolate de leite, flores, notas de barro. E de repente o tempo para e damos conta que estamos perdidos no meio do copo por entre um mar de aromas. Fantástico.

Contactos
QUINTA DA BASSAQUEIRA – ESTRADA NACIONAL 10,
2925-542 VILA NOGUEIRA DE AZEITÃO, SETUBAL, PORTUGAL
Tel.: (+351) 212 197 500
Email: info@jmf.pt
Site: www.jmf.pt

Colares – A Mais “Ridícula” Região de Vinho do Mundo

Texto Ilkka Sirén | Tradução Teresa Calisto

Ou seja, ridiculamente espectacular! Tenho andado curioso sobre esta pequena região de vinho em Lisboa, desde que provei uma garrafa durante a vindima no Douro em 2008. Num jantar recheado de vinho, provei o meu primeiro golo de Colares. Foi fantástico. Não me lembrava qual o produtor, nem o ano exacto. Só me lembro que era velho. Até que encontrei uma foto, há muito perdida, de mim a segurar essa mesma garrafa na mão. Não se assustem essa foto foi tirada há 6 anos e 20 quilos atrás, mas garanto-vos que sou eu na fotografia. Mas já voltaremos a esse vinho.

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Bebendo Colares em 2008 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

A região tem uma longa história e é a segunda região demarcada mais antiga de Portugal, datando de 1908. Mas a história da produção de vinho em Colares vem de muito, muito antes, desde os dias do Império Romano. Mas foi o Rei Afonso III de Portugal quem na realidade ordenou que se cultivassem vinhas lá. Consigo imaginá-lo como uma figura do estilo “Game of Thrones”, bêbado, a gritar “MAIS VINHO!” enquanto brandia a sua espada, como o Tyrion Lannister.

Portanto, o vinho tem sido importante para a região de Colares desde há muito tempo. Nos finais do século XIX, o insecto do vinho filoxera destruiu praticamente todas as vinhas na Europa, excepto Colares. As vinhas dessa área estavam cultivadas em dunas de areia, muito perto do mar e a filoxera, esse sacaninha manhoso, não gosta das praias, e as vinhas de Colares sobreviveram a esta catástrofe vinosa.

Enquanto o resto da Europa perdia a cabeça, enxertando e enterrando sapos debaixo das vinhas porque achavam que isso ajudaria a salvar o pouco que tinha sobrado, Colares estava a dar-se bem. Quer dizer, as pessoas andavam a combater estes insectos microscópicos com sepulturas vinícolas de anfíbios! Tempos desesperados pedem medidas desesperadas, acho eu. Mas para Colares, isto foi como ganhar a lotaria. O mundo sofria de uma escassez de vinho extrema e Colares tinha o bilhete dourado. Oferta e procura – BOOOM!! Tenho a certeza que deve ter havido um momento em que Colares estava numa boa trajectória para se tornar numa das maiores regiões de vinho no mundo. Mas isso não lhe estava destinado.

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Dunas de Areia Protegem as Vinhas dos Ventos Fortes – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

A região passou de ser quase o centro do mundo do vinho, para estar à beira da extinção, onde se encontra actualmente. Foi apenas quando tive a oportunidade de visitar Colares que compreendi porque é que nunca poderia ter sido uma região de imenso sucesso. Com certeza que a região merece muito mais atenção, mas nunca será um “vinho mainstream”. É demasiado difícil cultivar vinhas ali. É um trabalho muito intensivo.

Eu visitei uma série de vinhas durante estas vindimas que não estavam a mais de 300 metros do oceano Atlântico. Os vinhedos estão rodeados de paredes de palha e as vinhas estão plantadas em trincheiras de areia, que fazem com que pareçam uma cena do filme Dune de David Lynch. As vinhas alastram-se à vontade no chão e quando as uvas se começam a formar, elas serão levantadas com umas canas para prevenir que as uvas apodreçam.

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Canas Seguram as Vinhas Acima do Chão – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Quando a vindima finalmente chega, apenas podemos imaginar o quão árduo será apanhar aquelas uvas. Podem esquecer a mecanização, a não ser que arranjem forma de prender uns apanhadores de uvas às traseiras de um buggy das dunas, e os arrastem pelo vinhedo sem os magoar.

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As Uvas de Colares não são as Mais Fáceis de Apanhar – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Porquê complicar as coisas então? Bem, os vinhos feitos para a DOC Colares têm que vir de solos arenosos perto da praia e não podem ser enxertadas. No entanto, se quiserem algum subsídio da UE, as vinhas têm que ser enxertadas. Esta Escolha de Sofia vinícola não torna as coisas mais fáceis.

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A Carregar o Tractor – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois de visitar as vinhas estava na altura de provar estes vinhos. Fui a uma das caves à moda antiga: a Adega Viúva Gomes para beber um ou dois copos. Eles existem desde 1808 e os seus vinhos são procurados pelos fãs de Colares por todo o mundo.

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A Adega Viúva Gomes – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Na linda cave da Viúva Gomes, provamos um conjunto de vinhos de diferentes produtores locais. As garrafas variavam em estilo e idade, mas houve uma que realmente captou a minha atenção.

Viuva Gomes “Collares” Tinto 1934
Deixem-me começar por dizer que este não é um vinho fortificado, repito, este não é um vinho fortificado. O que torna o seu ano ainda mais surpreendente. Este é um vinho tinto, feito de Ramisco, a uva rei de Colares. Uma casta bastante desinteressante fora da região, mas que em Colares produz vinhos com grande personalidade e uma longevidade notável. O ano 1934 foi o ano em que Adolf Hitler começou o seu reinado e foi também o ano em que Bonnie e Clyde foram mortos a tiro, no meio das florestas de pinheiros do Luisiana, só para vos dar um bocadinho de contexto. É velho.

A partir do momento em que pousam os olhos neste vinho, saberão que ele não é propriamente desta década, nem deste século. O tom castanho claro promete algo amadurecido, algo que sobreviveu ao teste do tempo. No nariz tem uns bonitos aromas terrosos, com insinuações de cereja, pedra esmagada e um toque deste caracter volátil mentolado. Este é um vinho a que eu gosto de chamar um “Vinho Houdini”. Está constantemente a evoluir e a mudar no seu copo. Sempre que levar o nariz ao copo, é um pouco diferente. Quando prova o vinho, compreende porque algumas pessoas são verdadeiros fanáticos destes vinhos. Apenas pura estrutura! Acidez potente com camadas sobre camadas sobre camadas de sabor. Há também este lindo efeito salivante. Um pouco daquele chuto como sal marinho, que faz ficar de água na boca. Um vinho verdadeiramente surpreendente, que é uma grande prova do imenso potencial dos vinhos de Colares.

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Garrafa de Viúva Gomes From 1934 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Então, de volta ao vinho que deu início a tudo isto. O vinho de Colares que provei em 2008 quando estive no Douro. Enquanto escrevia este artigo, ressurgiu uma antiga fotografia daquela noite e depois de aumentar e realçar a foto, descobri que o vinho que provei em 2008, era na realidade o mesmo Viúva Gomes Tinto de 1934. O mesmo vinho que despertou o meu interesse pelos vinhos de Colares e que reafirmou a minha crença de que os vinhos Portugueses conseguem envelhecer como os melhores.

Agora, não sei o que irá acontecer a esta regiãozinha peculiar de vinho no futuro. Não pode ficar muito mais pequena do que está sem desaparecer por completo da face da terra, e eu não acho que o fará. Parece haver um recém-descoberto entusiasmo pela produção de vinhos de Colares. Há jovens como Hélder Cunha com os seus vinhos Monte Cascas, que estão a produzir coisas bem saborosas e a trazer sangue novo para a região, por assim dizer. Enquanto houver produtores de vinho talentosos, como ele e todos os outros que estão actualmente a fazer vinho em Colares e a preservar o que só pode ser descrito como uma das mais ridículas e no entanto absolutamente fascinantes regiões de vinho no mundo, ainda há esperança.

Contactos
Largo Comendador Gomes da Silva,
2 e 3, Almoçageme
2705-041 COLARES
Tel.: (+351) 219 290 903
Email: chaodeareialda@gmail.com
Site: www.adegaviuvagomes.com

Quinta do Convento Nª Sª Visitação – Vinhas com Vista para o Mar

Texto José Silva

Pertence à região de Lisboa esta propriedade que fica situada lá no alto da serra de Montejunto, não longe do mar. E é desse mar que a sub-região de Óbidos recebe uma influência directa, ventos fortes, frescos, salgados, a par duma óptima exposição solar.

Falo da Quinta do Convento de Nossa Senhora da Visitação, que associa uma unidade de turismo de habitação e serviços, a uma produção de vinho com alguma importância na região.

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Quinta do Convento da Nª Sª da Visitação – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

As construções antigas foram muito bem recuperadas quer para as salas onde se servem refeições para grupos e eventos, quer para uma unidade hoteleira com grande nível embora de pequena dimensão, de que faz parte uma capela muito antiga muito bem recuperada e um lago a dar um ar bucólico ao espaço exterior.

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Capela Antiga – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Lago – – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Onde se destacam várias árvores de grande porte, que resistem estoicamente à ventania frequente, por vezes de grande violência.

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Árvores de grande Porte – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Um desse edifícios foi transformado em adega, onde funcionam equipamentos modernos abrigados pela antiguidade das grossas paredes.

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Equipamentos Modernos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Em baixo da adega, na sala de barricas, descansam os vinhos que vão envelhecer ainda mais algum tempo.
Mesmo no topo da quinta, num velho moinho, foi criada uma suite muito confortável com uma vista soberba sobre a serra e a planície, lá em baixo, e o oceano lá ao longe. Em dias muito limpos dali se avista o arquipélago das Berlengas.

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Moinho – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas estávamos ali também para provar alguns dos vinhos da casa, num local tranquilo junto à adega.

Desde logo a curiosidade dum vinho branco feito a partir das castas Sauvignon Blanc e Fernão Pires, do ano de 2012, um interessante casamento entre duas castas tão diferentes, uma portuguesa e a outra de origem francesa. Apresentou-se num amarelo claro, citrino, cristalino, cheio de frescura no nariz, notas exóticas de fruta branca e um toque vegetal muito ligeiro. Na boca tem uma boa estrutura, mantém a frescura e apresenta acidez equilibrada, tem personalidade e um óptimo final.

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Sauvignon Blanc Fernão Pires 2012 | Semillion 2012 © Blend All About Wine, Lda

Seguiu-se outro vinho branco, agora apenas da casta Semillon, também da colheita de 2012. Apresentou-se com cor amarela média, cristalino. A casta a proporcionar um nariz intenso e elegante, com alguma complexidade, aromas de frutos brancos, alperce, pêra, ligeiro toque de mel e algum fumado. Mantém-se essa complexidade na boca, com bom volume, acidez bem presente mas equilibrada, alguma fruta madura, redondo e intenso, com belo final.

Passamos então aos tintos com o regional Lisboa 2007. Duma cor rubi intensa, muito limpo, apresentou-se com aromas intensos de frutos vermelhos, alguma frescura, notas de fumo. Na boca é um vinho simples, com notas de frutos vermelhos, bem estruturado, a curiosidade de ser feito a partir das castas Tinta Roriz, Tinta Barroca, Pinot Noir e Caladoc, esta última menos vulgar, notas de chocolate e algum fumo e final longo e saboroso.

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Regional Lisboa 2007 | Premium 2007 © Blend All About Wine, Lda

Continuando nos tintos provamos o Premium 2007, resultado da conjugação das castas Pinot Noir, Tinta Roriz e Caladoc, a dar uma cor rubi intensa, muito limpo. No nariz a intensidade dos aromas dos frutos pretos, algum fumo e um toque interessante de eucalipto. Na boca mantém as notas de fruta preta bem madura, acidez bem presente, taninos domados, muito elegantes, alguma frescura, redondo e persistente, com final longo e seguro.

Depois foi a vez do tinto só de Pinot Noir do ano de 2007. A mesma cor rubi intensa, muito limpo, nariz com aromas intensos de frutos vermelhos, notas ligeiras de fumo, elegante, fino. Na boca é austero, elegante, alguma fruta vermelha, taninos suaves e redondos, óptima acidez e alguma frescura a dar um final médio e intenso.

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Syrah 2008 | red Pinot Noir 2007 © Blend All About Wine, Lda

Ainda de uma só casta fez-se o Syrah de 2008, também de cor rubi intensa, muito limpo. Aqui os aromas muito diferentes, notas de fruta vermelha, chocolate preto, especiarias intensas e algum fumado. Na boca é intenso, autoritário, taninos possantes mas domados, notas de fruta preta, bela acidez, toque de chocolate preto, final longo e persistente num vinho com raça.

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Reserva 2007 © Blend All About Wine, Lda

Finalmente provamos o Reserva 2007, feito a partir das castas Touriga Nacional e Syrah. Mantém-se a cor rubi, muito limpo. Um nariz extraordinário, fino, muito complexo, notas de frutos pretos muito maduros e algum fumado. Na boca é intenso, os frutos pretos bem presentes, algum chocolate preto, acidez equilibrada e taninos já domados a dar-lhe alguma austeridade, um vinho com bastante complexidade mas muito elegante, com grande final.

Lá ao longe ainda podemos ver o mar…

Contactos
Rua Convento
2580-442 Vila Verde dos Francos
Tel: (+351) 210 330 780
Email: geral@quintadoconvento.pt
Site: www.quintadoconvento.pt

Vale da Capucha: Vinhos Orgânicos com um Excitante Goût de Terroir

Texto Sarah Ahmed | Tradução Teresa Calisto

A história de Pedro Marques é conhecida entre os jovens enólogos portugueses. Apesar de ser a quinta geração da sua família a fazer vinho, o jovem de 34 anos é o primeiro a ter estudado enologia. É também o primeiro a quebrar com a tradição da região, de focar mais na quantidade do que na qualidade. Nos dias de hoje, os vinhos que vêm exclusivamente da propriedade de 13 hectares da sua família, Quinta de S. José em Carvalhal, Torres Vedras, Lisboa, são rotulados Vale da Capucha. Marques fez os seus primeiros vinhos Vale da Capucha em 2009.

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Pedro Marques do Vale da Capucha, na cave de vinhos com o seu pai, Afonso Fernandes Marques – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Então, como fez ele a mudança da quantidade para a qualidade? Este cândido enólogo será o primeiro a dizer que este é um trabalho em evolução, no qual ele “cortou com o passado e começou de novo”, plantando novas castas, que vai conhecendo cada vez melhor com cada colheita. Mas, com razão, ele está claramente agradado com a sua decisão de se focar mais nos vinhos brancos, mais adequados ao clima húmido e marítimo da quinta, do que os tintos. Vinhos feitos maioritariamente de vinhas não locais de alta qualidade: o Viosinho e Gouveio do Douro, Antão Vaz do Alentejo, Alvarinho do Vinho Verde e até Viognier da França (apesar de ele admitir que esta última foi um erro).

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As encostas com as vinhas na Quinta de S. José – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas muito mais importante que as uvas (que ele descreve como “bastante neutras”) é o terroir. Marques está determinado em expressar um sentido de lugar nos seus vinhos: transmitir a frescura e salinidade, que vem do elevado conteúdo calcário das encostas cobertas de fosseis das vinhas da família, localizadas apenas a 8 km da costa Atlântica. Isto instruiu a sua decisão de cultivar a vinha de forma orgânica (foi certificada orgânica em 2012) apesar de ter dificultado a colheita neste ano fresco e molhado, com 30 a 35% da apanha – de acordo com a sua estimativa – a ser perdida devido à pressão da doença.

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Fosseis das vinhas na Quinta de S. José – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Instruiu também a sua decisão de fazer os seus vinhos naturalmente, sem adição de fermentos ou enzimas. Pelo contrário, o sumo das uvas colhidas à mão para o Vale da Capucha, repousa e fermenta naturalmente (com fermentos selvagens) nas borras a temperaturas relativamente quentes (cerca de 18 graus centígrados). Porquê? Porque Marques valoriza a textura e o corpo acima dos aromas, especialmente os caracteres liderados pelo éster, derivados do próprio processo de fermentação. É, acredita ele, uma forma “de distinguir os vinhos”. Além disso, ele pode permitir-se construir corpo e textura porque, como indica, ele tem o problema oposto à maioria em Portugal: a elevada acidez que mantém os vinhos Vale da Capucha tão animados.

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As caves velhas na Quinta de S. José – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Apesar de feitos a partir de vinhas relativamente novas, plantadas de castas que são novas à região, os vinhos de Marques mostram grande carácter e promessa. Se gosta de vinhos brancos texturados, liderados pelo terroir, a quinta deste produtor pensativo é uma a ter em atenção.

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Um enólogo pensativo, Pedro Marques do Vale da Capucha – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Vale da Capucha Pynga Viosinho 2010 (VR Lisboa)
Um pouco oleoso ou terpénico no nariz e no palato, o que irá dividir os provadores. É um pouco como o Retsina com esteróides, mas no bom sentido: cheio de carácter, com bom corpo/sensação de boca, combinado com a típica frescura no final: marca da quinta.

Vale da Capucha Pynga Selection 2010 (VR Lisboa)
Eu gosto deste blend salgado e apimentado de Gouveio, Arinto e Antão Vaz. Ligeiramente “alimonado”, com um carácter subtil vegetal de arbusto salgado ou funcho, tem uma boa e ácida espinha dorsal, para comprimento e estrutura.

Vale da Capucha Alvarinho 2012 (VR Lisboa)
Marques mostrou-nos três colheitas do seu Alvarinho. Foi interessante contrastar a firme estrutura ácida deste vinho, com a acidez mais sumarenta do Alvarinho dos solos graníticos do Vinho Verde. Nesta colheita, um pouco mais de idade das vinhas (que foram plantadas em 2007), dá um pouco mais de concentração à sua cúspide de ananás maduro, o que ajuda a equilibrar melhor a acidez. É um Alvarinho enérgico, fresco, com uma acidez mineral e calcária.

Vale da Capucha Gouveio 2013 (VR Lisboa)
Marques gosta particularmente desta uva pelo seu carácter subtil, quase neutro, mesmo durante a fermentação, diz ele. E eu consigo ver a atracção: coloca a ênfase na mineralidade de salmoura salgada da quinta, fazendo-me lembrar de comer perceves. Mais uma vez, o ácido é firme. Está longe de ser frutado, mas tem um toque de groselha e pêssego ao finalizar.

Vale da Capucha Arinto 2013 (VR Lisboa)
O Arinto é célebre pela sua alta acidez natural, por isso conseguem imaginar que, nesta quinta, vai estar no extremo elevado do contínuo. Na realidade, Marques planeia deixá-lo na garrafa durante pelo menos, um ano. Eu tenho que admitir que sou um pouco fanática por ácido, por isso sim, é novo, mas eu gostei imenso do look deste vinho firme, austero, calcário, mineral e cítrico. Mais uma vez, parece muito genuíno da quinta.

Vale da Capucha White 2012 (VR Lisboa)
Este blend 85/15 de Viosinho e Arinto lembra-me um pouco a uva austríaca Gruner Veltliner com o seu palato delineado, levemente especiado, de aromas vegetais. Um hábil corte de acidez cítrica, torna-o num vinho persistente. Muito bom.

Vale da Capucha Pygna Selection White 2012 (VR Lisboa)
Um blend 70/20/10 de Viognier, Arinto e Fernão Pires. Como seria de esperar, o Viognier domina o palato, com gengibre fresco e damasco. As especiarias são ampliadas pelo Fernão Pires. O único problema é ser um pouco curto: talvez seja preciso mais Arinto para persistência?

Vale da Capucha Fossil 2012 (VR Lisboa)
Eu e os meus colegas jornalistas do Reino Unido, temos imenso tempo para este vinho de nível de entrada. Abundantes caracteres trazem imenso retorno pelo investimento. Um palato carnudo e cremoso, deslindado pela acidez cítrica, revela pêssego branco e, uma vez que o provei o ano passado, espargo branco mais evoluído (atraente). Uma mineralidade implícita no final, leva-nos de volta à vinha. Muito bom: no ponto.

Vale da Capucha Reserva 2011 (VR Lisboa)
De forma semelhante, este blend de 53% Viosinho, 31% Arinto e 16% Antão Vaz está a evoluir bem, com bom peso e camadas para o palato e insinuações de espargo branco, num final longo e persistente. Grita por peixe ou frango e um molho cremoso. Adorável.

Vale da Capucha Tinto 2011 (VR Lisboa)
Este blend 55/45 de Touriga Nacional e Tinta Roriz foi pisado a pé, em lagares e envelhecido usando barricas. A Touriga dá uma elevação floral – violetas – ao nariz, que se mantêm num palato “ameixoado”, bem emoldurado por taninos maduros mas presentes e acidez fresca. Carvalho apetitoso dá uma nota fumada, de charcutaria, ao final. Para um vinho que se sente não forçado e tão definido, surpreendeu-me descobrir que pesa 15.3%! Marques explicou que teve que esperar que os taninos amadurecessem, daí o elevado nível de álcool, que ele habilmente mantém sob controlo, ao servi-lo a cerca de 14 graus centígrados.

Vale da Capucha Late Harvest 2013 (VR Lisboa)
Marques mostrou-nos três colheitas deste docinho, das quais eu gostei deste, a colheita mais tardia, a melhor. Ao contrário dos outros, tem um toque de Viognier na sua fruta de Viosinho e Arinto, o que parece completar o vinho: mais carnudo e mais longo, com acidez bem integrada, na sua saborosa fruta de maçã assada amanteigada.

Contactos
Vale da Capucha
Agricultura e Turismo Rural, Lda
Largo Eng.António Batalha Reis, 2
Carvalhal | 2565-781 Turcifal
Torres Vedras | Portugal
Telemóvel: (+351) 912 302 289/87  | (+351) 912 302 291
Site: www.valedacapucha.com

O Senhor da Adraga

Texto João Pedro de Carvalho

Ali bem perto do Cabo da Roca, onde a terra acaba e o mar começa, situada numa encosta da Serra de Sintra fica a Quinta do Casal de Santa Maria (Adraga). A casa principal foi construída em 1720 tendo sobrevivido ao grande terramoto de Lisboa em 1755, ali a vinha e o vinho faziam parte da tradição da propriedade até 1906, depois veio o declínio e o abandono total do património.

Em 1960 ganhou nova vida sendo adquirida e reconstruida pelo actual proprietário, o Barão Bodo Von Bruemmer. A sua história tem tanto de fascinante como o Casal Sta. Maria e os seus vinhos.

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Vinhas Quinta do Casal Santa Maria © Blend All About Wine, Lda.

Bodo Von Bruemmer nasceu na Prússia em 1911, escapou da revolução bolchevique, viveu em vários países da Europa, formou-se em Direito, foi banqueiro e em 1962 chegou a Portugal onde compra a Quinta do Casal de Santa Maria, ali criou a maior Coudelaria de Cavalos Árabes em Portugal. Aos 95 anos de idade após ter sido submetido a uma delicada cirurgia à vista, assim que acordou da anestesia decidiu que tinha de plantar uma vinha.

Em 2006 nascia a exploração vitivinícola mais ocidental da Europa, com a plantação de 7,5ha de vinha retomando a tradição daquele lugar que ganhou nova vida tal como o Barão Von Bruemmer que aos seus 103 anos abraça uma nova faceta da sua vida, ser produtor de vinho.

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Baron Bodo Von Bruemmer © Blend All About Wine, Lda.

Para melhor entender os vinhos nada melhor do que visitar as vinhas abraçadas por uma paisagem fantástica com o oceano em pano de fundo. Passear no meio das vinhas e jardins cheios de rosas ou ir até à vinha perto da Praia da Adraga e reparar naquele clima muito especial fruto de toda a influência da orla costeira, noites frias, manhãs com nevoeiro e uma quase constante briza marítima, que permite aos vinhos ganharem uma identidade muito própria naquele que é um terroir único.

Os enólogos são Jorge Rosa Santos e António Figueiredo, uma jovem dupla responsável pela qualidade dos vinhos ali produzidos, com alguns tintos de fino recorte como é exemplo o Pinot Noir cheio de notas fumadas, bacon, fruta vermelha com muita frescura ou o Ramisco DOC de recorte mais moderno onde combina todo o vigor característico da casta com as boas madeiras que lhe serenam o espírito. No entanto o meu destaque recai nos brancos:

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Casal Santa Maria Malvasia 2013 © Blend All About Wine, Lda.

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Casal Santa Maria Sauvignon Blanc 2013 © Blend All About Wine, Lda.

Casal Santa Maria Malvasia 2013
Muito mineral e fresco, aroma delicado e preciso com flores a marcar presença, toque de pimenta no final. Muito bem balanceado na boca, grande secura final que será grande companheira de um bom peixe grelhado.

Casal Santa Maria Sauvignon Blanc 2013
Notas de espargos e pimento verde com acentuada mineralidade, num perfil que se mostra muito mais vegetal e seco, com bastante frescura, notas de citrinos e relva fresca. Passagem saborosa na boca, sensação de ligeira untuosidade num perfil fresco, firme e de final prolongado.

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Casal Santa Maria Reserva 2010 © Blend All About Wine, Lda.

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Casal Santa Maria Malvasia DOC Colares 2011 © Blend All About Wine, Lda.

Casal Santa Maria Reserva 2010
Mostra uma muito boa evolução após quatro anos de vida, suave baunilha a envolver fruta madura (pêssego, citrinos) e muitas flores, sensação de untuosidade com frescura de fundo. A acidez toma conta da prova, bom corpo com passagem saborosa e envolvente onde tudo se complementa com a prova de nariz. Um vinho numa fase muito boa de consumo.

Casal Sta. Maria Malvasia DOC Colares 2011
Uma abordagem mais moderna, barrica um pouquinho mais presente, bem integrada, nada que incomode e até aconchega a belíssima acidez e mineralidade reinante. Um vinho elegante, puré de maçã, muito citrino com tisana, resina, lápis de cera e mineralidade. Na boca complementa-se com a prova de nariz, saboroso, secura em pano de fundo, equilibrado e amplo, apontamento de fruto seco e salgado em fundo com uma boa persistência final.

Contactos
Rua Principal Casas Novas, nº 18/20
2705-177 Colares-Portugal
Tel.: (+351) 219 292 117
Email: geral@casalsantamaria.pt
Site: www.casalstamaria.pt

Quinta de S. Sebastião

Texto José Silva

A região de Arruda dos Vinhos sempre foi conhecida pela sua produção vinícola, com os vinhedos espalhados pela orografia ligeiramente montanhosa, vizinha de outras pequenas regiões também com muitas vinhas como Sobral de Monte Agraço e Bucelas.

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Orografia Ligeiramente Montanhosa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Nos últimos anos a produção evoluiu no sentido duma maior qualidade e foram aparecendo novos produtores, e alguns dos que apenas produziam uvas e as vendiam, passaram a produzir os seus próprios vinhos.

Mas outros sempre produziram vinhos de qualidade e mais não fizeram do que modernizar as vinhas e adquirir novos equipamentos que permitem um maior controle quer da produção das uvas quer depois, na adega, o controle da evolução dos vinhos quer em cubas e barricas, quer em garrafa. É o que acontece na Quinta de S. Sebastião, mesmo em Arruda, hoje um produtor moderno, com vinhos muito interessantes, entre brancos e tintos.

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Picadeiro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Armazém – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mantendo também a tradição familiar, uma casa antiga muito bonita, um picadeiro onde se treina os cavalos da casa, utilizados para passeios pela região e uma sala onde se preservam algumas colecções e de vinhos antigos, um pouco da história vitícola da casa, para raras viagens a outros tempos, outros costumes.

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Vinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta S. Sebastião – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais atrás, os vinhedos que sobem encosta acima, hoje com a companhia quixotesca dos também modernos moinhos de produção de energia, que moldam a paisagem e identificam a modernidade.

E foi neste ambiente descontraído que nos sentamos numa simpática sala de provas, para apreciar os vinhos modernos desta casa, tranquilamente.

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Quinta de S. Sebastião Branco 2013 © Blend All About Wine, Lda.

Começamos pelo Quinta de S. Sebastião Branco 2013. Apresentou uma cor amarela pálida cristalina e um nariz elegante e misterioso, fresco, ligeiramente seco. Na boca é intenso, tem bom volume, apresentando notas minerais muito frescas, muito boa acidez, um vinho equilibrado com belo final.

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Quinta de S. Sebastião Branco Cercial 2012 © Blend All About Wine, Lda.

Seguiu-se o Quinta de S. Sebastião branco cercial de 2012, com uma cor amarela média, cristalino. No nariz é seco e fresco, com notas ligeiras de mel, intenso, algo exótico. Na boca é ainda bastante fresco, com acidez intensa a dar-lhe equilíbrio, notas de fruta branca e algum citrino. Madeira muito bem integrada, a dar-lhe elegância e um final longo, num vinho branco gastronómico.

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Quinta de S. Sebastião Colheita 2012 © Blend All About Wine, Lda.

Passamos então aos tintos com o Quinta de S. Sebastião colheita 2012, que apresentou uma cor vermelha granada, muito escuro e fechado, muito suave e elegante no nariz, com boas notas de frutos vermelhos, algum fumo e especiarias. Na boca tem muito boa acidez, bem presente, é seco, profundo, com apontamentos de frutos pretos muito elegantes, ligeiras notas de chocolate preto e um final médio mas persistente.

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Quinta de S. Sebastião Reserva 2012 © Blend All About Wine, Lda.

Seguiu-se então o Quinta de S. Sebastião Reserva 2012, com uma cor granada escura, opaco, intenso. Austero e elegantemente sóbrio no nariz, com apontamentos de chocolate e frutos pretos. Na boca apresenta uma excelente acidez, tem volume, tem frescura, tem profundidade, tem uma permanente descoberta de paladares, com taninos poderosos mas ao mesmo tempo muito elegantes, altivos, um final muito longo num belo vinho.

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Quinta de S. Sebastião Touriga Nacional 2012 © Blend All About Wine, Lda.

Finalmente apresentou-se em prova o Quinta de S. Sebastião Touriga Nacional 2012, um monovarietal muito interessante, a provar que esta casta eclética te, m grande poder de adaptação a outros terrenos e climas, dando muito boa conta de si. Duma cor vermelha violácea, intenso, opaco, tem belo floral no nariz, fino e elegante, com algumas notas de chocolate e um ligeiro apimentado.

Na boca apresenta-se redondo, tem óptimo volume e grande acidez, com os taninos bem presentes, ainda por domar, notas de frutos pretos bem maduros, até mesmo algum chocolate e chá preto, um vinho irrequieto que terminou com grande final.

Uma boa surpresa a consistência destes vinhos, num produtor que promete manter esta qualidade, tendo potencial para ir ainda mais além.
Em Arruda dos Vinhos…

Contactos
Quinta de São Sebastião
Rua de S. Sebastião, nº 9
2630-180 Arruda dos Vinhos
Tel: (+351) 263 978 549
Telemóvel: (+3351)914 222 465
Email: geral@quintassebastiao.com
Site: www.quintassebastiao.com