Posts Categorized : Vinhos Tranquilo (Vinhos de Mesa)

Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 – A coroa longe dos holofotes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Vallado significa “grande vale”. Qualquer pessoa que já tenha feito o tour até ao topo desta propriedade do Douro no Land Rover vintage da Quinta do Vallado pode confirmar, é vertiginoso; as vinhas sobem dos 80 aos 380m de altitude. Lá no topo é onde estão as vinhas mais velhas – field blends centenárias de 34 castas diferentes – que teimosamente permanecem enraizadas. Foi destas vinhas que – a coroa – proveio o novo e surpreendentemente diferente vinho tinto da Vallado, Vinha da Coroa – de uma parcela de dois hectares com o mesmo nome.

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Descansar os punhos! O Land Rover chega ao topo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Ao explicar a origem deste vinho, Francisco Ferreira confessou que lhe causava confusão que, “todos os anos, duas parcelas de vinhas velhas adjacentes (e vinificadas da mesma forma) produzissem os melhores e os piores vinhos”. Agora espantem-se, estes “piores” vinhos provinham da Vinha da Coroa! Fazendo cara feia, como se tivesse acabado de mastigar uma graínha de uva, Francisco relembrou, “todos os anos que passavam a fruta Vinha da Coroa tinha um sabor mais verde e mais amargo”.

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Vinha da Coroa – vinhas velhas predominantemente viradas a norte – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Até ao lançamento do Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013, a fruta desta parcela tinha como destino o Vallado Tinto, um vinho de entrada com muito mais volume, uma boa maneira para disfarçar as características específicas desta fruta. Então porquê fazer um vinho produzido unicamente desta parcela? Para Francisco, resultou de um melhor conhecimento da Vinha da Coroa. Uma pista, até há pouco tempo, a parcela costumava chamar-se “Moscatel Velho” (já foi local de plantação desta casta branca de vinho branco). Um factor que, juntamente com os seus solos ricos, explicam por que é que a maturidade dos taninos era um problema para a Vinha da Coroa mas não para as outras parcelas de vinhas velhas da Vallado.

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É tudo uma questão de prespectiva – Francisco Ferreira com vinhas velhas da Quinta do Vallado viradas a sudoeste – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Dado que a Vallado se situa na sub-região mais fria e húmida do Douro (Baixo Corgo), a maior parte das suas vinhas adoram o sol e estão viradas a sudoeste. Um aspecto que, diz Francisco, é o segredo para a qualidade dos taninos “muitos maduros e equilibrados” dos tintos de topo Quinta do Vallado Reserva Field BlendQuinta do Vallado Adelaide, já para não falar da poderosa fruta concentrada.

Assim que Francisco percebeu a diferença, percebeu que resolver o problema da Vinha da Coroa passava por adapatar a vinificação à sua localização mais fria, especificamete extraindo menos taninos e, para o equilíbrio, fruta mais delicada. Afinal de contas, como observa, “o mais importante [questão proeminente para a qualidade do vinho] é o equilíbrio… Não me importa que as uvas estejam muito maduras se mantiverem uma boa acidez e não houver excesso de alcoól e fruta demasiado madura; também não me importa que estejam um pouco menos maduras se o vinho não mostrar taninos verdes ou amargura”. Como demonstra eloquentemente o último e muito equilibrado lançamento da Vallado, com uma menor extracção, a Vinha da Coroa é um local favorável para vinhos com apelo inicial (fruta e taninos suaves), mas com complexidade de sabores de vinha velha. Ou como diz Francisco, “vinhos mais leves, talvez menos vistosos, mas mais apelativos do ponto de vista do consumidor”.

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Da maneira fácil – sem fermentadoras robotizadas (à esquerda) para a Vinha da Coroa – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Na verdade, para o Vinha da Coroa, até escolheu previmente este local frio para demonstrar o seu perfil fresco – gostei muito das frutas vermelhas crocantes, toque apimentado e acidez fresca. Este estilo de vinhos mais leves mas sérios já está assente na Austrália, onde um produtor me disse recentemente “tem que haver vida além da vida e do homem e grande vinhos com peso, poder e força. A Austrália pode fazer isso mas também pode fazer outras coisas”. Tal como o Douro pode, tomando como exemplo, reconhece Francisco, a Nieeport que esteve na vanguarda desta abordagem com o Charme.

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Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 (Douro) – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Em busca de um estilo mais leve, Francisco não esmaga nenhuma das uvas e, 50% por cento são cachos inteiros. Enquanto que a máquina robotizada de pigeage esmaga as uvas do Reserva e do Adelaide umas quatro vezes ao dia, o Vinha da Coroa foi submetido a um “baixo nível de extracção” (e um pouco de maceração carbónica tipo-Beaujolais) durante os seus 14 dias de fermentação. Foi envelhecido durante 16 meses em barricas de carvalho francês, nenhuma delas nova. Marcadamente mais pálido que os outros tintos 2013 que degustei nesta prova, vivo, com a acidez fresca a trancar as frutas vermelhas crocantes. As notas terrosas e harmoniosas derivadas dos cachos conferem profundidade, enquanto que, as notas de pimenta branca e um toque de eucalipto elevam o final. Corpo médio, com boa longevidade e intensidade, confere uma interessante nota de contraste ao portefólio da Vallado. 14.5%

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Casa do Rio, como um ninho de pássaros, o novo hotel boutique da Quinta do Vallado – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Um contraste que, tomem nota viajantes, está agora reflectido na sua sofisticada oferta de enoturismo desde que Francisco abiu a Casa do Rio no Douro Superior. Enquanto que os hóteis da Vallado estão situados bem perto da Régua e da agitação da cidade, a Casa do Rio fica nitidamente longe destes olhares. E, de facto, até fica à face de um caminho de terra batida e não perto de uma estrada. O caminho desce gentilmente pela vinha da Quinta do Orgal da Vallado, levando-nos até este pequeno hotel boutique (seis quartos) com vista para o Douro. Quase escondido por entre os patamares de vinhas como se de um ninho de pássaros se tratasse, e, embora os quartos beneficiassem com um melhor isolamento acústico, é um local espectacularmente tranquilo – um retiro natural. Recomendo.

Contactos
Quinta do Vallado – Sociedade Agrícola, Lda.
Vilarinho dos Freires
5050-364 – Peso da Régua | Portugal
Tel: (+351) 254 323 147
Fax: (+351) 254 324 326
Website: www.quintadovallado.com

Três grandes marcas: Casal Garcia, Lancers e Mateus

Texto João Barbosa

Para quem é formado em história, escrever uma crónica longa sobre vinhos, em fascículos, é doce de macã para se dar a bebés. A civilização Egípcia durou quase 3.200 anos e cabe num livro… mais ou menos. Coloquei o marco nas marcas com 50 anos e escolhi as sobreviventes – vendia-se muito vinho a granel e em garrafas de litros, famosas pelas seis estrelas em relevo.

Vasco d’Avillez, hoje presidente ca Comissão Vitivinícola de Lisboa, recorda que, por essa altura, as exportações de vinho «subiam a um ritmo muito grande e em que os produtores se começaram a apetrechar com materiais de muito boa qualidade».

A seguir à Segunda Guerra Mundial, dois cidadãos norte-americanos tiveram uma influência gigantesca no negócio em Portugal. Deduziram que as tropas quando regressassem levariam recordações europeias, e o vinho estaria no topo das escolhas. Todavia, se não houvesse dois homens de visão nada teria acontecido: António Porto Soares Franco (José Maria da Fonseca) e Fernando Guedes (Sogrape).

O Conde de Vila Real, com casa na localidade de Mateus, recebeu a visita dum americano que, ao provar um vinho da casta alvarelhão, afirmou que daria um bom rosé. A Sogrape, fundada em 1942, aproveitou a dica e seguiu o conselho dado ao titular.

O pequeno palácio barroco deu o nome ao vinho e a Sogrape contratualizou com o Conde de Vila Real o uso da imagem do edifício. Porém, não há qualquer ligação entre o solar de Mateus e o vinho.

A Sul, em Azeitão, a José Maria da Fonseca produzia já um rosé. O Faísca era um sucesso comercial, com promoções, eventos, patrocínios… Em 1944, Henry Behar, que tinha uma distribuidora nos Estados Unidos, quis levá-lo, mas havia um grave problema! Faísca lembra fiasco. Lembrou-se do quadro de Diego Velázquez «A Rendição de Breda», também conhecido por «Las Lanzas» ou «Lancers».

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Lancers – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Vasco d’Avillez  sublinha que cedo se produziram milhões de litros. Em 1975, o Mateus chegou aos 36 milhões de garrafas e o Lancers às 18 milhões. Outro campeão de vendas é o Casal Garcia, a marca mais antiga de Vinho Verde.

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As primeiras garrafas de Mateus – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Casal Garcia – Foto Cedida por Quinta da Aveleda | Todos os Direitos Reservados

Em 1938, o enólogo francês Eugène Hélisse «aterrou» por acaso na Quinta da Aveleda – o episódio é vasto. Embora relutante, Roberto Guedes aceitou a autocandidatura. Fizeram-se incipientes testes de consumidor, entre familiares e amigos, que ditaram o perfil vinho. Onde o pôr? Uma garrafa azul seduzia e o rótulo reproduz um lenço da senhora da casa. A Aveleda depressa apostou forte na promoção. Dos muitos aforismos de incentivo à compra, um lema ficou para a posteridade… até hoje: «Haja alegria. Haja Casal Garcia».

As duas marcas de rosés tornaram-se globais e apostaram muito na promoção, ao ponto de surgirem falsificações. A popularidade levou a que activistas políticos, em vários países, apelassem ao boicote à compra destes dois vinhos, devido ao regime político vigente em Portugal e às guerras em África.

Herdade da Malhadinha Nova, no reino da família Soares

Texto João Pedro de Carvalho

A Herdade da Malhadinha Nova é o perfeito exemplo de um sonho que se tornou realidade. Um sonho que pertencia à família Soares: João, Paulo, Rita e Margarete Soares. A Herdade com os seus actuais 400 hectares foi comprada em 1998 e salva da total ruína em que se encontrava. Localizada em Albernoa (Beja), é hoje um exemplo de sucesso dentro e fora de portas. Ali tudo é feito com paixão e muito empenho. O bom gosto e a produção de produto de alta qualidade sempre fez parte da chancela deste projecto que viu em 2001 serem plantados os primeiros 20 hectares de vinha, hoje já são 35. A tudo isto tem-se juntado no passar do tempo, a plantação de olival com a respectiva produção de azeite tal como a criação de animais de raça autóctones com denominação de origem protegida (DOP) e com destaque para o Porco de Raça Alentejana mais conhecido como Porco Preto.

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Monte da Peceguina Branco 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Se a nível da oferta vínica podemos contar com belíssimos vinhos, o projecto de enoturismo cedo se iria fazer notar pela excelência da oferta a todos os níveis, com as mais variadíssimas actividades a serem colocadas à disposição do visitante. Como imagem de marca foram “buscar” a simpática vaquinha Malhadinha desenhada pela filha Matilde. Um desenho entre outros tantos criados pela nova geração da família Soares e que vão acompanhando a cada colheita os vinhos e os novos projectos que vão nascendo à medida que a família aumenta, exemplo disso são vinhos como o Menino António, Pequeno João, Marias da Malhadinha ou em breve o Mateus Maria. Imbuídos neste clima familiar somos embalados sempre por um sorriso, que desde 2003 tem sabido acompanhar as gentes da Malhadinha.

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Monte da Peceguina Rosé 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

O meu primeiro contacto com este produtor foi com um Monte da Peceguina rosé 2003, seria naquela altura e naquele momento um rosé diferente, causador de impacto e conquistador de palatos e consumidores. Aquela fruta gorda e gulosa embalada em ligeira frescura com ponta adocicada fazia as delícias de muitos, estava então lançada a marca para o sucesso e logo na colheita seguinte iriam surgir os topos de gama onde simpática vaquinha Malhadinha iria fazer a sua primeira aparição. Até aos dias de hoje, os vinhos têm vindo a afinar o seu perfil. A prova que realizei com algumas novidades mostram vinhos que souberam encontrar o caminho certo e são hoje exemplo de consistência colheita após colheita.

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Antão Vaz da Peceguina 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Decidi escolher apenas seis vinhos, escolhi aqueles cuja prova mais me cativou, cujos aromas e sabores mais me sorriram. Dois de entrada de gama, dois de gama média e dois de gama alta. A gama de entrada, com nome do Monte da Peceguina, aqui em prova na sua versão branco e rosé, ambos da colheita de 2014. O branco com aromas frescos e bem definidos, feito de Antão Vaz, Verdelho, Roupeiro e Arinto, coeso e com notas florais, muita fruta de caroço (pêssego e alperce) e citrinos bem maduros. Boca com boa presença e passagem fresca e saborosa, fruta presente num final com ligeira secura. O Monte da Peceguina Rosé 2014 mostra-se agora completamente diferente do que foi quando conheci a sua primeira edição, o único traço em comum é a fruta bem fresca e sumarenta, framboesas e morangos. De resto mostra tudo num plano de harmonia e finesse, boa passagem de boca sem quebras em final apimentado.

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Aragonez da Peceguina 2013 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Um passo em frente e ficamos a conhecer a gama de monocastas que nos são colocados à disposição conforme o ano em questão. Por entre brancos e tintos escolhi um branco e um tinto que espelham bem um patamar qualitativo bem acima da gama anterior. São eles os Monocastas da Peceguina com a escolha a recair no Antão Vaz 2014. Um branco com boa exuberância carregado de fruta madura bastante fresca, diga-se que todos os vinhos se mostram bastante frescos com a fruta bem delineada, neste caso os tons mais tropicais conjugam-se com os aromas citrinos (tangerina). Enche o palato de sabor, bem encorpado e a pedir pratos de peixe no forno, com a fruta a marcar num final de travo ligeiramente mineral e seco.

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Malhadinha branco 2014 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

Fiquei rendido aos encantos deste Aragonês da Peceguina 2013, um belíssimo exemplar da casta com aromas a frutos vermelhos (framboesa, groselhas) maduros, presentes de forma limpa e fresca, aliando elegância com robustez. O estágio de 12 meses em barrica que mal se faz notar, alimentou a sua complexidade com notas de chocolate de leite e alguma especiaria. No seu todo é um vinho com muita energia que dá já bastante prazer à mesa.

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Menino António Alicante Bouschet 2012 – Foto Cedida por Herdade da Malhadinha Nova | Todos os Direitos Reservados

No que aos topos de gama diz respeito, o Malhadinha branco 2014 é um dos grandes exemplares de vinho branco do Alentejo e mostra-se ainda jovem, muito coeso, complexo e fresco, sente-se a envolvência da barrica com notas de citrinos e algum floral, sensação de cremosidade com bastante elegância. Boca com grande presença da fruta bem sumarenta, notas de ligeiro amanteigado que lhe dão sensação de untuosidade mas sempre com bastante firmeza e frescura, em final longo e persistente. A cereja no topo do bolo será o Menino António Alicante Bouschet 2012, um vinho que me encheu as medidas, um verdadeiro colosso ainda cheio de vida pela frente mas que mostra já sinais de elegância. De momento enche o copo com aromas de frutos silvestres com destaque para groselhas e amoras, alguma ameixa embrulhada por um toque ligeiro de chocolate preto e especiarias. A barrica onde passou 18 meses confere ligeira tosta, aquele fumado também se faz notar mas a frescura toma as rédeas do conjunto coeso e cheio de energia. Bastante estruturado na boca, fresco e muito firme com taninos a fazerem-se notar, fruta madura a escorrer de sabor a ser embalada pela madeira e por um conjunto com muita vida pela frente.

Contactos
Herdade da Malhadinha Nova
7800-601 Albernoa. Beja – Portugal
Tel: (+351) 284 965 210 / 211
E-mail: geral@malhadinhanova.pt
Website: www.malhadinhanova.pt

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Terra e Mar

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Mendes

Não é segredo que a maior parte das regiões vitivinícolas portuguesas ainda são desconhecidas para a maior parte das pessoas. Até para pessoas do meio. Portugal ganhou alguma fama nos últimos anos como um país de vinhos de vinhos de boa qualidade que não destrói a carteira. Com isto dito, Portugal tem todas as oportunidades de produzir vinhos dessa estatura que provavelmente iriam destruir a nossa carteira. Isso é tudo que sabemos. Ainda assim, como romântico incurável, estou um pouco assustado com a hipótese de o país vínico pelo qual me apaixonei um dia se tornar cada vez mais e mais mainstream. É o fardo de de um genuíno hipster vínico, acho.

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Copo de Vinho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

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Chouriço – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Mas não me preciso de preocupar. Portugal, com as suas inúmeras castas irá manter afastadas do dia a dia do cidadão comum castas com nomes confusos como a Touriga Nacional e a Tinta Pinheira, para mencionar apenas algumas. Muitos dos meus amigos que viajaram para Portugal desconhecendo completamente os vinhos portugueses mas vieram embora como grandes fãs. Tal como eu.

Pessoalmente gosto de utilizar vinho quando cozinho. Não necessariamente na comida mas como fonte de inspiração. Quando comecei a fatiar o chouriço para a massa que estava a fazer fiquei, repentinamente, mas não surpreendentemente, com sede. Uma das mais valias de Portugal é definitivamente a boa relação qualidade/preço dos vinhos, o que por vezes pode ser tanto uma bênção como uma maldição. Vinhos fáceis de beber e acessíveis, de diferentes estilos, passam pelos copos com relativa facilidade.

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Massa “Terra e Mar” – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Enquanto preparava uma massa picante de camarão e chouriço “Terra e Mar” a minha mente voou até à Bairrada. Um pequeno e atrevido blend da Bagalândia era tudo o que precisava. Deitei mãos a um Torre de Coimbra 2012. Um blend de Baga, Touriga Nacional e Tinta Pinheira produzido pela LusoVini. De certeza, um vinho de exportação, porque, em todas as minhas viagens a Portugal nunca vi um vinho com uma rolha de rosca. De certeza que há alguns mas, não é comum num país que tem os sobreiros quase como sagrados. Nós, aqui no norte frio, não distinguiríamos um sobreiro de uma palmeira e é por isso que as rolhas de rosca são a escolha mais comum.

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Torre de Coimbra 2012 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

O vinho em si apresentou-se.. humm.. qual é o termo científico…”razoável”. Bem, considerando que custou menos de €10 na loja de monopólio daqui, foi bem bom. Um vinho simples, frutado e com um toque de madeira. Podem achar uma surpresa mas, encontrar uma garrafa de vinho razoável na Finlândia por menos de €10, é mais fácil de dizer do que de fazer. Temos aqui bastantes vinhos trabalhados e tecnológicos, que são tudo menos interessantes. Este vinho da Bairrada aproxima-se de um vinho em condições portanto é um vinho em condições. Não é um vinho que me tire o sono mas é definitivamente um vinho que me vejo a beber novamente. Nem que seja para inspiração culinária.

Contactos
Lusovini Distribuição, SA
Avenida da Liberdade nº 15, Areal
3520-061 Nelas, Portugal
Tel: +351 232 942 153
Fax: +351 232 945 243
Email: info@lusovini.com
Website: www.lusovini.com

Vinhos portugueses apoiam obra social no Brasil

Texto José Silva

Cada vez mais os vinhos portugueses reforçam a sua presença no mercado brasileiro, não só pelo excelente trabalho que muitos produtores, de várias dimensões, têm feito, com o apoio fundamental da Viniportugal, mas também pelo trabalho por vezes apaixonado de muitos profissionais brasileiros, com destaque para os escanções.

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Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Adriane Wiest é uma dessas profissionais, que se dedicou ao trabalho de vinhos, seja como escanção em restaurantes, seja a organizar eventos vínicos ou a dar formação. E que há muito se apaixonou pelos vinhos portugueses, de que tem um grande conhecimento, deslocando-se a Portugal sempre que pode, contactando produtores e participando em festivais e concursos, muitas vezes como júri. Adri fez a sua formação no Centro Europeu de Estudos em chef de cuisine e sommelier e criou a sua própria empresa, “Adri Wiest Wine Education Consulting”. Vive em Joinville, a maior cidade do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Recentemente organizou um evento solidário a que chamou: “Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses”, a favor dos doentes renais da associação Pró-Rim.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

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Rosé Vidigal – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Numa sala com óptimas condições e com todos os apetrechos necessários, Adri conduziu cerca de 80 pessoas através dos aromas e sabores dos vinhos portugueses, num jantar muito agradável em que foi servida gastronomia típica de Santa Catarina e que fizeram óptimas harmonizações.

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Os vinhos – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Os vinhos portugueses foram oferecidos pelos produtores e seus importadores no Brasil, com o apoio da Viniportugal, a cargo da Sónia Vieira e do Nuno Vale. Para ajudar no evento, Adri convidou o seu colega escanção Eduardo Silva, do restaurante Ostradamus, de Florianópolis, que também conhece bem os nossos vinhos. O lucro obtido com a venda das entradas para o evento foi integralmente oferecido para a compra de cestas básicas para os pacientes renais em situação de carência social, através da associação Pró-Rim.

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Vinho Solidário – Degustação de Vinhos Portugueses com a sommelier Adriane Wiest – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Eram cerca de 70 os pacientes nesta situação. E para que os participantes no evento que estivessem interessados pudessem comprar os vinhos em prova, foi obtido o apoio da melhor garrafeira da cidade de Joinville, a Rubicon Wine & Emporium, que além de comprar os vinhos para serem vendidos no local do evento e na enoteca, também ofereceu o lucro de cada 2 garrafas vendidas, para a compra das cestas básicas para os pacientes renais. Mesmo nestas acçõs de solidariedade, Adri dá prioridade aos vinhos portugueses, que tão bem conhece.

Os vinhos apresentados foram os seguintes:

-Covela Avesso Edição Nacional; Casa de Mouraz Dão Branco; Quinta Nova Pomares Douro Branco; Ilógico, de António Saramago; Rosé, Vidigal Wines; Porta 6, Vidigal Wines; Quinta do Convento Syrah, Vidigal Wines; Moscatel Roxo de Setúbal, de José Maria da Fonseca;

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Adriane Wiest e os vinhos – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

Adri e o seu colega Eduardo conduziram a prova dos oito vinhos, explicando a sua origem, quem os produz, as suas características, como devem ser apreciados e a que temperaturas. E como ligavam bem com a rica cozinha Catarinense.

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O brinde – Foto Cedida por Adriane Wiest | Todos os Direitos Reservados

O evento teve enorme sucesso, os participantes brindaram efusivamente e compraram vinhos duma forma também solidária e pediram para a Adri organizar novo evento.

Parabéns à Adri Wiest e fazemos votos para que continue com este seu trabalho de qualidade e rigor.

Os vinhos portugueses agradecem e serão sempre solidários…

Esporão Verdelho 2004, da cave para a mesa

Texto João Pedro de Carvalho

Desde cedo que enquanto enófilo ganhei o gosto de guardar vinhos por longo período na minha cave. O objectivo sempre foi e continuará a ser a curiosidade por ver como evoluem uns e a necessidade expressa dessa mesma guarda por outros tantos vinhos que ali ficam esquecidos durante largos anos. Quem gosta de vinhos e gosta de os apreciar é curioso por natureza, faz parte de condição humana o ser curioso. É essa mesma curiosidade que nos leva a querer saber algo mais sobre a maneira como se vão comportar com a passagem do tempo, até que forma o tempo os consegue educar ou não. Certo e sabido que o risco é quase sempre um factor também a ter em conta, mais ainda quando os vinhos que guardamos não têm qualquer historial que nos garanta o sucesso da nossa operação. A ressalva será sempre feita para todos aqueles que estando demasiado jovens e com os taninos em pontas necessitam de um bom repouso. E depois lá vão ficando algumas dezenas, depois centenas de garrafas acumuladas por tipo e região, garanto que o mais difícil é começar todo este processo. As surpresas até hoje têm sido quase sempre positivas, aprende-se sempre um bocadinho com estas comparações entre o vinho que foi em novo e o vinho adulto que é hoje, outros surgem já cansados e com as rugas da idade mais ou menos vincadas.

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Garrafeira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Esporão Verdelho 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Muito recentemente e por motivo de um jantar de amigos aqui em casa, decidi resgatar um desses vinhos que tenho na cave, um Esporão Verdelho 2004. Um branco com 11 anos de idade, um atrevimento ou até loucura dirão alguns, mas a verdade é que este Verdelho conseguiu a proeza de atingir aquele momento wow destinado apenas aos grandes vinhos. Esse momento é quando a generalidade dos convivas esboça um sorriso após provar o vinho que tem no copo e diz a dita palavrinha… wow. Um vinho que provei vezes sem conta na altura do seu lançamento no mercado, gostava tanto na altura que resolvi guardar umas garrafas. Esta terá sido a última resistente deste Verdelho 2004 que mostrou ainda uma invejável frescura de boca e de nariz, toda a fruta que antes era fresca agora está envolta em calda e ligeiramente adocicada, toques vegetais com tisana, ramalhete de flores, tudo muito bem composto num vinho sério e adulto, com as ideias muito bem delineadas. Na boca frescura, ponta de untuosidade a enrolar a fruta no palato, mostra-se com consistência e muito boa presença, muito prazer a beber e a voltar a beber, sem cansar.

É este um dos motivos que me leva a guardar vinho, acima de tudo a curiosidade mas também a satisfação de posteriormente os poder partilhar com gente que lhes sabe dar o respectivo valor. O único senão é quando a garrafa fica vazia e nos questionamos por que razões na altura não se guardaram mais umas garrafas.

Contactos
Herdade do Esporão
Apartado 31, 7200-999
Reguengos de Monsaraz
Tel: (+351) 266 509280
Fax: (+351) 266 519753
E-mail: reservas@esporao.com
Website: esporao.com

Pormenor: O Diabo está nos detalhes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Pormenor significa detalhe. Sem dúvida que Pedro Coelho olhou aos detalhes e fez o trabalho de casa – os seus primeiros lançamentos de Pormenor 2013, Douro, já esgotaram. Nada mal para um enólogo de primeira geração que me disse “o meu avó era um produtor de carvalho, o meu pai produtor de cortiça, por isso… era preciso que houvesse alguém na família que produzisse e bebesse vinho… esse alguém sou eu!!!!”

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Rolhas Pormenor – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Portanto, além do entusiasmo juvenil de Pedro pelo projecto, qual é a atracção? A embalagem é simples – não exagera – mas tem classe com um toque contemporâneo que chama a atenção na prateleira. E quão contemporâneo é lançar dois Douros brancos e um tinto! O seu consultor enólogo é o ex-Niepoort Luis Seabra, mais um detalhe, a cuja própria gama de vinhos Cru escrevi estas páginas anteriormente este ano.

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Tal como Luis Seabra, o objectivo de Pedro é o mostrar o Douro “no seu estado mais natural… com o mínimo de intervenção, dando prioridade às principais carecterísticas do Vale do Douro: vinhas, uvas, solo e clima”. E tal como a gama Cru de Luis Seabra, estes brancos são vivos e muito texturais. De certa forma, não são muito diferentes dos rótulos – sem exagerar mas a insinuar – encontram a sua própria marca.

Na realidade os brancos são o ponto mais forte, achei o tinto um pouco rústico. Algo que é fascinante se considerarmos que os brancos provêm da sub-região Douro Superior, normalmente mais seca e quente , e o tinto da sub-região Cima Corgo. Cima-Corgo, bem no “coração do Douro”, é recorrentemente citada como fonte dos mais elegantes vinhos do Douro e vinhos do Porto, e os Pormenor brancos mantêm essa fasquia – o diabo está nos detalhes, especialmente na especificidade do local. É precisamente este factor que explica porque é que, contrariamente a sabedoria recebida, o Douro Superior é uma das fontes de alguns dos meus vinhos brancos Douro favoritos. Por exemplo, Conceito, Quinta de Maritávora, Ramos Pinto Duas Quintas, Muxagat (apesar de, infelizmente, Mateus Nicolau de Almeida já não estar envolvido no projecto) e Mapa.

Aqui estão as minhas notas relativamente a estes lançamentos de estreia:

Pormenor Branco 2013 (Douro DOC) – este pálido vinho amarelo provém de vinhas muito velhas sobre xisto no Douro Superior, situadas entre 400 a 500 metros de altitude em Carrezeda, Ansiães. As uvas foram apanhas no fim de Agosto a fim de preservar a acidez. Aparentemente a Rabigato e a Códega do Larinho predominam, ambas as castas têm boa fruta, mas a Rabigato é alta em acidez e a Códega do Larinho é mais usave, menor acidez. O vinho foi fermentado e envelhecido em tanques inox. É um amarelo pálido com um palato altamente individual impregenado de abacaxi grelhado com canela, damasco e marmelo mais firme – bastante frutado para o Douro. Uma complexidade de mel de acácia e um nogado cremoso remetem para um palato sedoso e redondo. Uma madura e perfeita, ininterrupta acidez permitem um longo final. Bebe-se já muito bem e sozinho, tem peso e potencial para funcionar bem com pratos condimentados de peixe branco. 12.63%

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Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Similarmente, o blend de vinhas velhas (com a Rabigato e a Códega do Larinho a predominarem) foi colhido precocemente de vinhas em Carrezeda, Ansiães. No entanto, a fruta veio de vinhas mais altas, entre 600 a 800m de altitude, portanto, o palato do Reserva (amarelo ligeiramente mais escuro), é, mais firme, mais concentrado, com mais fruta de uva e mineral, assim que ultrapassada a madeira – gostei bastante mais no segundo dia, quando a madeira não foi tão intrusiva e terminou longo, focado e mineral. O Reserva foi naturalmente fermentado e envelhecido durante nove meses em barris de carvalho francês da Borgonha sem controlo de temperatura nem batonnage. Deixa-lo-ia repousar durante mais ou menos um ano de forma a permitir a integração da madeira. 12.5%

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Pormenor Branco Colheita 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – este blend de médio corpo de algumas uvas clássicas do Douro (principalmente Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Amarela e Rufete) provém de vinhas velhas com mais de 50 anos, em Soutelo do Douro, Cima Corgo, plantadas entre 500 a 600 metros de altitude. Foi fermentado e macerado em cubas de inox com alguns cachos inteiros (engaço e uvas) durante 25 dias e envelhecido durante 14 meses em barris de carvalho francês. Como o Reserva Branco, este vinho precisava de ar. Desta vez por causa de “ruído branco” terroso no nariz que prejudicou a fruta (e que inicialmente pensei ser causado por deterioração bacteriana, brettanomyces). No entanto, a lucidez do palato (da mesma garrafa) ao terceiro dia, sugere que tenha sido um perfil “engaçado” derivado da fermentação com os cachos. Como estava o Pormenor Tinto ao terceiro dia? Apresentou-se com groselha vermelha fresca, cereja e ameixa, com um toque subtil de “floralidade”. Apesar de os taninos serem terrosos e rústicos, não se meteram no caminho dos aspectos mais agradáveis deste vinho – a fruta e a frescura (de facto permitiram aquele bonito toque floral aparecer). Enquanto que a rusticidade remete para a ideia de Pedro mostrar o Douro “da maneira mais natural”, na melhor das hipóteses, os engaços na fermentação de cacho inteiro podem produzir vinhos com especiarias e estrutra empolgantes. Pedro disse-me que este vinho foi colhido no início de Setembro de forma a “manter o alto nível de acidez” mas, embora saude a frescura do palato, pergunto-me se os engaços não teriam benificiado mais se estivessem um pouco mais maduros? Claro que 2013 foi um ano complicado – a partir de 27 de Setembro houve um período de chuvas intenso que incentivou a colheita precoce. Estou sim, interessada em provar as próximas colheitas deste vinho. 12.5%

Contactos
Tel: (+351) 919 679 393
Email: geral@pormenor-vinhos.com
Website: www.pormenor-vinhos.com

Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005

Texto João Barbosa

O peso do vidro chateia-me. Existe alguma probabilidade de ser o primeiro a começar uma crónica vinícola desta maneira. Tem alguma coisa a ver? Tem! Não empatando: pegada de carbono e/ou respeito pela natureza. Há uns anos era sabido que, para se ter sucesso, bastava rotular uns números grandes (com um gatafunho indicador da moeda) e pôr o vinho numa garrafa com tara de 1,7 quilogramas (verídico).

O vidro é nobre, mas não se bebe. Tive de escrever isto porque o que apresento tem muito «do mundo». É um bom vinho (!), está numa boa garrafa e não pesa uma tonelada. Vidro de qualidade é fundamental para guardar um néctar pelo qual se tem a garantia que vale a pena esperar. Só isso e nem mais um grama.

A outra «metade» do «mundo» é a natureza que se encontra nos vinhos da Quinta de Foz de Arouce. Se há vinhos que merecem ser «acusados» de demonstrar terroir, este é um deles. Quanto a mim, essas sete letras são um acrónimo poético de solo, subsolo, enquadramento geofísico, agricultura e/ou vegetação próxima, casta, fauna, clima, sabedoria agrícola e de adega e… já escrevo a última componente. Não há vinho sem o homem, por isso tem de estar na equação.

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Quinta de Foz de Arouce – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

Podem fazer-se maus vinhos tendo tudo para serem bons, mas o inverso é impossível. É também verdade que há territórios mágicos, onde nascem obras-primas, mas que o pintor compõe a «Gioconda», de Da Vinci, em vez do «Nascimento de Vénus», de Sandro Botticelli. Aí entra a última componente: o produtor – tem de exigir o seu retrato, a sua imagem e linhagem.

A Quinta de Foz de Arouce fica num não-lugar! Não fica na Bairrada, nem no Dão nem noutro sítio. Esta propriedade é única, pois se não fosse haveria, por ali, muitos vinhos desta dimensão.

Se ficasse na Borgonha, Foz de Arouce seria um «Grand Cru», um «Monopole». Aprendi na escola que se situa na Beira (Alta, Baixa e Litoral) – o não-lugar situa-se a 23 quilómetros de Coimbra.

Terei exagerado quando escrevi «Grand Cru»? Este é um vinho que não conheço irmão. Tem uma capacidade de envelhecimento notável. Estamos em 2015 e abri a de 2005. Em plena forma física, elegante, longo, fundo, complexo. Valerá a pena despejar descritores? Todo ele (o vinho) vai e vem, junta e afasta, como numa dança, com o passar do tempo no copo. Tem 14% de álcool e ninguém o diz até o ler no contrarrótulo.

A casa condal tem documentos, datados do século XVII, que referem a qualidade do vinho. Levaria tempo a contar, mas um Senhor de Foz de Arouce pregou uma partida a Filipe III de Portugal (Felipe IV de Espanha), tendo apostado barricas do seu já afamado néctar.

Este – o Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005 – é um monumento, e duma casta que ganhou má fama. Hoje já se começam a cantar laudes à baga. Tenha origem no Dão ou na Bairrada, não é um gatinho mimado. Tem garras afiadas e prontas a espetar.

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Quinta de Foz de Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria 2005 – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

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João Perry à esquerda e João Portugal Ramos à direita – Foto Cedida por Quinta de Foz de Arouce | Todos os Direitos Reservados

Em termos humanos, João Portugal Ramos – genro do actual conde de Foz de Arouce – é reconhecido como um dos melhores enólogos portugueses. Ali, naquela quinta coimbrã conta com João Perry Vidal, que trata aquelas videiras por tu e conhece o nome de todas as abelhas e joaninhas.

Originalmente só havia vinhas de casta baga. Há uns anos foram cultivadas vides de touriga nacional, criando uma diferenciação entre o Foz de Arouce «normal» e o «vinhas velhas». Nasceu também um vinho branco, da casta cerceal.

Todos bons, mas há o «único».

Contactos
Quinta de Foz de Arouce
3200-030 Foz de Arouce
Lousã, Portugal
Tel: (+351) 268 339 910
Fax: (+351) 268 339 918 / 268 339 916
Email: condefozarouce@jportugalramos.pt
Website: www.fozdearouce.com

Casa da Passarella, um dia nas vindimas

Texto João Pedro de Carvalho

Fomos visitar a histórica Casa da Passarella, no Dão, com a Serra da Estrela em pano de fundo e literalmente metemos as mãos nas vinhas mais velhas deste produtor. Em plena altura das vindimas o convite foi aceite para ir conhecer as fantásticas vinhas velhas que dão origem aos melhores vinhos desta Casa, num trabalho de campo com muita aprendizagem e um almoço bem descontraido onde brilharam dois novos lançamentos. No final ainda tivemos uma vertical do tinto Vinhas Velhas ao lado de duas novidades que em breve vão chegar ao mercado.

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Casa da Passarella – Foto Cedida por Casa da Passarella | Todos os Direitos Reservados

Foi chegar, pegar na tesoura e descer as ruas do pitoresco vilarejo da Passarela até chegar às vinhas. Um cenário fantástico com três pequenas parcelas de vinha cuja idade supera já os cem anos, dispersas em três pequenos patamares, assente em solo predominantemente granítico onde cepas de uvas brancas convivem lado a lado com cepas de uvas tintas. Castas com nomes que de tão estranhos correm o risco de ficar esquecidos no tempo e por mais que se queira apenas se consegue entender toda a magia e especificidade de uma vinha como esta estando no local e reparar na enorme variedade de castas que ali moram. Pena que durante largos anos as vinhas do Dão estiveram em decadência e com isso a qualidade dos vinhos a que davam origem. Foi preciso um forte investimento por parte dos produtores em plantar nova vinha, o que de certa maneira ajudou a um afastamento ou até mesmo o arranque do vinhedo mais velho.

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Uvas das vinhas centenárias – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Enxertia Jaén 2012 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O blend resultante destas vinhas velhas carrega a alma da região, o Dão tem nas suas vinhas mais velhas a sua maior riqueza e temos de agradecer a todos aqueles que com esforço e bastante dedicação, lutam para as preservar e conseguir vinhos que quando educados de forma correcta na adega, atingem patamares muito altos de qualidade. Portanto não é de estranhar a forma apaixonada como o enólogo Paulo Nunes fala destas suas “meninas” com quem, segundo palavras dele, tem aprendido muito. E com o que estas vinhas velhas lhe ensinam ele na sua parte de mestre criador tem conseguido interpretar de maneira tal que os resultados falam por si. Fora de modas, sabe criar e educar grandes vinhos, nota-se que à medida que as colheitas vão passando o seu estilo “Dão da Serra” afina num misto de tradição/modernidade com vinhos de fina exuberância, muita definição da fruta que combina raça, carácter, corpo e um natural aveludado que teima em dar sinais logo desde cedo.

Foi já à mesa servido por um tradicional prato de Rancho que me fiz acompanhar da mais recente novidade, o Enxertia Jaén 2012. Um vinho perigosamente apetecível que desapareceu do copo num ápice, a combinação entre estrutura/frescura/fruta sumarenta resulta num combo perfeito à mesa. Em momento de desfrute e amena cavaqueira, foi rei e senhor este Jaén que soube pela vida e marcou mais um belíssimo momento de convívio.

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Paulo Nunes, vertical de Vinhas Velhas – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Mas foi ainda com as vinhas velhas na memória que se realizou a vertical desde o primeiro exemplar Vinhas Velhas 2008 até ao mais recente 2012. Notou-se a evolução do perfil, com o 2008 a mostrar uma maior presença de baunilha e tosta ao lado de fruta muito gorda e sumarenta. O que mostrou menor prestação e mesmo mais deslocado de toda a prova foi o 2010 cujos apontamentos mais adocicados destoam por completo dos restantes. O mais calado de momento é o 2011 que se encontra na fase de arrumação e ainda pouco quer mostrar embora esteja um belíssimo vinho em perspectiva. Vencedores da prova se é que se podem considerar assim, tanto o 2009, arriscando a ser o melhor até à data com o 2012. Vinhos compactos e sedutores, bom equilíbrio com corpo médio e um pouco de maior arredondamento dado pela barrica, tudo isto sempre com uma acidez/frescura habitual dos vinhos da região.

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Os novos “O Fugitivo” – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último ficou a apresentação oficial dos novos vinhos que já tinham sido dados a conhecer ainda que de forma envergonhada e agora sim foram dados a provar com a roupagem definitiva. Inseridos na gama O Fugitivo, surgem o Garrafeira branco 2013 e o tinto Vinhas Centenárias 2012. A produção de qualquer um deles não supera as 2000 garrafas, são dois grandes vinhos que espelham a terra que os viu nascer. Enquanto o tinto vai buscar como foi dito lá atrás a raça, carácter e corpo com uma acidez e travo de ligeiro vegetal que lhe confere uma bonita energia no palato. Complexo, profundo e ao mesmo tempo ainda muito novo, muito no perfil do Vinhas Velhas 2012 embora todo ele com um pouco mais de tudo. Já o Garrafeira branco é um vinho de estrondo, nada fácil e fora de modas, cheira a Dão de outros tempos, cheio de garra com taninos a marcarem o final cheio de secura, o vinho grita por descanso em garrafa. Eléctrico, nervoso, tudo ainda muito novo tanto no nariz como na boca, do melhor que a região me colocou no copo nos últimos anos.

Contactos
Rua Santo Amaro, 3, Passarela
6290-093 Lagarinhos
Telefone: (+351) 238 486 312
Fax: (+351) 238 486 218
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Website: www.casadapassarella.pt

Três frescos Fiuza, cada qual com sua cor

Texto João Barbosa

Sou tradicionalista, mas não um talibã do passado. Há alterações que vêm por bem, e muitas resultam – o que, mesmo desgostando-me, me fazem engolir a prosápia. Esta coisa das tradições tem uma fragilidade: houve um dia em que se inventou e por muito tempo não foi essa herança.

Sentença sábia e desarmante coube ao meu enorme amigo Sérgio Carneiro: «As tradições são para serem quebradas». Acrescento: há obrigações para serem transgredidas – essa é outra «cumbersa».

A mudança das designações Estremadura e Ribatejo para Lisboa e Tejo são felizes e por várias razões que não vou enumerar, para não me desviar. Centro-me no Ribatejo, região que sofreu de má fama, devido à falta de qualidade de muitos dos seus vinhos.

A designação do maior rio da Península Ibérica facilita a leitura por parte dos estrangeiros e lava o antigo termo. Há talvez duas décadas que existem produtores de vinho de qualidade na região (ou reconhecidos), mas o número tem vindo a crescer. Dizer e escrever Tejo confere justiça a esses vitivinicultores.

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Fiuza Logo – Foto Cedida por Fiuza & Bright | Todos os Direitos Reservados

Uma casa antiga – sujeito deste texto – é a Fiuza & Bright, que possui cinco propriedades na região. São 25 referências, anichadas em sete famílias: Oceanus (branco, rosé e tinto), Campo dos Frades (branco, rosé e tinto); Native (branco, rosé e tinto); Três Castas (branco, tinto e espumante branco); Monocastas (e bivarietais – alvarinho, chardonnay, chardonnay e arinto, sauvignon blanc, cabernet sauvignon, merlot, merlot e touriga nacional, touriga nacional e rosé de cabernet sauvignon e touriga nacional); Premium (branco e tinto); e Ikon (branco e tinto).

Não bebi muitas vezes os Ikon, mas fiquei com boa impressão dos píncaros da Fiuza & Bright. Sou assíduo consumidor dos vinhos Fiuza em restaurantes, pois garantem qualidade, há variedade e preços «amigos», factor importante porque os comerciantes de restauração carregam nos preços. Esta opção acontece com outros vinhos da região, como os da Quinta da Lagoalva de Cima, que será tema um dia destes.

Quem me conhece, nem que seja pela escrita, sabe que me recuso a indicar vinhos com boa relação de qualidade e preço – depende da bolsa, da importância dada, do conhecimento enófilo e do momento – porém aqui arrisco. Contudo, como sei que existe uma barreira psicológica nos cinco euros, não posso deixar de referir que se trata de vinhos acima desse patamar, em preço de venda ao público.

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Fiuza Sauvignon Blanc – Foto Cedida por Fiuza & Bright | Todos os Direitos Reservados

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Fiuza Touriga Nacional – Foto Cedida por Fiuza & Bright | Todos os Direitos Reservados

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Fiuza Cabernet Sauvignon and Touriga Nacional Rosé – Foto Cedida por Fiuza & Bright | Todos os Direitos Reservados

Em apreciação estiveram três vinhos: Fiuza Sauvignon Blanc 2014, Fiuza Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional Rosé 2014 e Fiuza Touriga Nacional 2013. Três vinhos «modernos» – comparando com os tradicionais e de perfil fácil de agradar em toda a parte – com as castas bem expressas e muito fáceis de prazer.

O Fiuza Sauvignon Blanc 2014 tem a virtude do maracujá, toranja e alguma pêra rocha não muito madura. É refrescante e tem um tempo final com nota. Só acontece – mais uma vez demonstro o meu mau feitio – não sou apreciador de vinhos tropicais, especialmente de maracujá. É uma questão pessoal, não é defeito do vinho; até antes pelo contrário, mostra a variedade de uva.

Fiuza Touriga Nacional 2013 exibe a plasticidade da casta, que vai das violetas do Dão; às cerejas, amoras, framboesas, morango e suas geleias e compotas no Douro; aos morangos, salada de frutos do bosque e suas geleias e compotas no Alentejo; à «escuridão» das ameixas quase em passa, um toque de figo, «salada» de frutos do bosque neste vinho, que foi amenizado com estágio de seis meses em barricas de carvalhos americano e francês, conferindo um toque de noz-moscada, baunilha e uma finura distante de caramelo (aguentar no copo).

O favorito, o «engraçado» Fiuza Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional 2014. Duas grandes castas que não bulham, mas dançam. Fresco, com verdura de trincar, a evocação de pimento da casta francesa, violetas – é o que dá apanharem as uvas propositadamente para os rosados e ainda com o benefício de baixo teor alcoólico – amoras e morangos.

Contactos
Fiuza & Bright, Lda.
Travessa do Vareta, nº11
2080 – 184 ALMEIRIM
Portugal
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Fax: (+351) 243 579 247
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