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Quinta do Monte Xisto, vinho de poucas palavras… aliás, muitas

Texto João Barbosa

Quando se escreve acerca de famílias como a Nicolau de Almeida o que se pode fazer? Redigir um texto como as do ensino básico, onde está tudo e certinho? Afirmar que «não há palavras»… e se não as há, não existe que se leia. Ou… ultrapassar a dimensão convencional? Nesta última, para comprimir, podem suprimir-se as vogais ou tirarem-se as consoantes.

Fora de brincadeira, porque o assunto é sério. A família Nicolau de Almeida é tradicional do Douro e do Porto. António Nicolau de Almeida foi o primeiro presidente do Futebol Clube do Porto (Foot-Ball Club do Porto), em 1893, quando o desporto era praticado por sportmen, como na época se dizia. Cavalheiros e operários jogavam em pé de igualdade, verdadeiro desportivismo.

O pai de João Nicolau de Almeida foi o criador do Barca Velha. É uma família ligada à firma Ramos Pinto, que cedo apostou em publicidade, recorrendo aos mais consagrados artistas gráficos do seu tempo, como René Vincent.

Mais recentemente, na década de 70, José Pinto Rosas, com o sobrinho João Nicolau de Almeida, procurou uma propriedade com características especiais e encontrou a Ervamoira. Os dois fizeram também um estudo acerca das melhores castas da região.

Feito o enquadramento, o que se pode dizer do Monte Xisto? O tempo avança e João Nicolau de Almeida reformou-se da Ramos Pinto, que é hoje pertença à Roederer. Procurou uma terra óptima para cultivar a vinha.

Em 1993 encontrou o sítio, no Douro Superior. Um monte sem nada, mas com vários donos. Foi comprando a colina e tomou-a toda. Será perfeita? Um cerro tem vantagens: diferentes altitudes, diversas exposições solares, várias climatologias, dando espaço ao plantio de castas diferentes – ajudas preciosas para a produção de vinhos complexos.

Que nome dar ao domínio? Monte Xisto – xisto a pedra do Douro, parte fundamental do carácter, e monte, porque é um monte. A solução mais simples tende a ser a melhor.

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Quinta do Monte Xisto tinto 2013

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Maria Sottomayor – Quinta Monte Xisto

Toda a família está envolvida e na enologia há três técnicos reconhecidos: o patriarca e os filhos João e Mateus. Recentemente juntou-se a nora Maria Sottomayor, artista plástica e que trabalhou «às cegas», tendo apenas o vinho pela frente, na ilustração do material da empresa.

Veio agora o Quinta do Monte Xisto 2013, feito com uvas de touriga nacional (60%), touriga francesa (touriga franca – 35%) e sousão (5%), colhidas no início de Setembro e que juntas somam 14 graus de álcool – perigosíssimos, porque a natureza deu a acidez que os refresca.

O cultivo é em modo biológico e as leveduras são autóctones, que trabalharam durante seis dias. Fruta pisada a pé em lagares, como manda a tradição. O vinho estagiou 18 meses em barricas de carvalho francês, de 600 litros.

Qual o resultado? Um vinho para poucas palavras ou para muitas. Aroma guloso, complexo, que cresce e evolui com o tempo. Taninos com raça e sem agressividade, volume de boca de aplaudir, longo, fundo… «escuro», fresco e quente. Totalmente Douro, sem margem para equívoco.

O Monte Xisto nasceu grande em 2011, ano para celebrar. Confirmou a qualidade do sítio e a competência da família. Como no poker: arrisco tudo, fico na cave. É já uma grande referência do Douro.

Caves São João – Porta dos Cavaleiros, o perfil de uma região

Texto João Pedro de Carvalho

A história das Caves São João é longa e rica em detalhes, tudo começou com o nome Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, fundada em 1920 por três irmãos viticultores da Bairrada: José, Manuel e Albano Ferreira da Costa. Durante largos anos prosperou a venda a granel, tendo sido apenas a partir de 1950 quando se juntou Caves São João à denominação da firma. Mas apenas em 1959, já com os descendentes de um dos fundadores, Alberto e Luís Costa nos comandos das Caves, iriam surgir as marcas que lançaram as Caves São João para o estrelato – o Frei João (Bairrada) e o Porta dos Cavaleiros (Dão). Alberto e Luís Costa eram exímios negociantes de vinho, sabiam como poucos escolher e comprar os melhores lotes, direi mesmo que souberam como poucos criar e educar grandes vinhos que ainda hoje perduram e mostram com galhardia toda a potencialidade das duas regiões que abraçaram, o Dão e a Bairrada.

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Sem possuírem qualquer vinha no Dão, eram escolhidos e comprados os melhores lotes e na colheita de 1963 surgiram  os primeiros Porta dos Cavaleiros, tanto o Colheita como o Reserva Seleccionada. Uma marca que tal como a sua congénere na Bairrada, teve o dom de quase “criar” um perfil a que hoje associamos de Clássico a cada uma das regiões. De notar que os Reserva Seleccionada mostram mais frescura que os Colheita, devido a que as uvas dos Reserva eram provenientes dos contrafortes da Serra da Estrela num perfil mais fresco a que se poderá apelidar de “Dão Serrano”, enquanto os Colheita as uvas eram provenientes de zonas mais baixas e porventura mais quentes. Sobre os Reserva Seleccionada sabe-se que o vinho passava quatro anos nos enormes depósitos de cimento e posteriormente mais um ano em garrafa. Vinhos sabiamente educados e de traçada clássica, sérios com toque acetinado tão característico que nos mostram aquilo que a região pode e deve fazer.

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Visitar as Caves São João e ter o prazer de contemplar mais de um milhão de garrafas que resistiram à passagem do tempo é uma rara oportunidade para os apreciadores. Esta foi uma prova que ficou na memória, em tudo especial até pelo facto de alguns vinhos não se encontrarem já disponíveis para venda face ao reduzido número de garrafas existentes. O primeiro vinho foi o Porta dos Cavaleiros 1964, este branco com 51 anos é arrebatador em todos os sentidos. Notável a evolução no copo, claramente a precisar de decantação. Inicialmente algo preso e contido, a mostrar alguma rezina, desenvolvendo uma complexidade notável com destaque para a fantástica acidez que envolve e segura todo o conjunto. Profundo, floral com nota de cera, untuosidade com fruto seco e ainda alguma fruta madura de caroço. Boca com muita frescura, mostra garra e nervo, grande presença e profundidade, sério, educado, a untuosidade que mostra ter combina em grande com a frescura que refresca o palato terminado longo e persistente.

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Porta dos Cavaleiros 1964 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros 1979 branco – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva branco 1984 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Dando entrada nos anos 70 onde curiosamente são poucos os vinhos das Caves São João que me têm ficado na memória, salvo erro o branco Reserva de 1973 em Magnum e o tinto também Reserva 1975. Este Porta dos Cavaleiros branco 1979 não fugiu à regra, cordial a mostrar-se com vida, fruta já em passa, mineralidade com alguma secura de final de boca. Nos brancos da década de 80 o melhor de todos é o Reserva 1985, este Porta dos Cavaleiros Reserva branco 1984 é um grande branco em idade adulta, mas se comparado peca pela falta de garra tanto na boca como no nariz onde mostra menos frescura e acutilância ou limpeza de aromas. De resto goza de uma belíssima harmonia de conjunto, conjugando a sensação de untuosidade com acidez e presença da fruta ainda vivaça e madura.

No campo dos tintos a entrada não poderia ser melhor, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 é a meu ver o melhor de todos, afirmando-se como um dos melhores vinhos de sempre da região. Pura classe num vinho de compêndio, cheio de caruma e pinhal, muito bosque, frutos silvestres, cerejas, folha de tabaco, eucalipto, couro. Puro veludo num tom que combina austeridade com a gulodice de um vinho cheio de vida e frescura, longo e com final persistente. De passagem pelos anos 70 foi provado o Porta dos Cavaleiros Reserva 1974, novamente o que menos brilhou entre os tintos, com a região bem evidenciada no perfil e a dar uma prova de muito bom nível. Perdeu em poder de afirmação mostrando-se mais delgado e espaçado tanto em complexidade aromática como em presença de boca.

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1974 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1985 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Termino com o segundo melhor tinto, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1985, que é um dos que mais prazer me tem dado nas últimas vezes que o tenho tido no copo. Literalmente é daqueles vinhos que está num momento muito alto da sua vida, conjuga toda a frescura da fruta com a complexidade que apenas o tempo consegue oferecer. Por entre os aromas a pinhal e bosque, cogumelos, terroso ligeiro, abre para fruta madura e suculenta, tudo embalado em enorme frescura, limpo com caixa de charutos, especiarias variadas. Na boca é acetinado e ao mesmo tempo vigoroso, com a fruta a explodir de sabor, muita personalidade com ampla presença, profundo e final persistente. Um grande vinho do Dão e do Mundo.

Contactos
S. João da Azenha, Ap-1, Anadia
3781-901, Avelãs de Caminho
Frei João
Porta dos Cavaleiros
Tel: (+351) 234 743 118
Fax: (+351) 234 743 000
E-mail: geral@cavessaojoao.com
Website: www.cavessaojoao.com

Quinta de Cabriz celebra 25 anos da sua história

Texto João Pedro de Carvalho

Os vinhos Cabriz estão a celebrar os 25 anos da sua história, relembro que a Quinta de Cabriz é o berço da Global Wines/Dão Sul, em Carregal do Sal (Viseu), entre as serras da Estrela e do Caramulo e entre o Dão e o Mondego. A propriedade tem 38 hectares e ali são produzidas uvas tintas e brancas, das quais resulta um portefólio alargado, onde se incluem espumantes e aguardentes, além de vinhos brancos e tintos. A Quinta de Cabriz aposta também no enoturismo e possibilita visitas à sua adega, disponibilizando um restaurante de cozinha regional, winebar, wineshop, provas e cursos de vinhos, e salas para eventos. Até Setembro do próximo ano, a principal marca do grupo Global Wines/Dão Sul põe todo o País a celebrar o lema “Dão é Cabriz”. Nova imagem, novos rótulos, acções nos pontos de venda, publicidade com forte impacto, passatempos e oferta de prémios (tablets de última geração, produtos regionais do Dão, fins-de-semana gastronómicos e turísticos no Dão e viagens ao estrangeiro) aos consumidores vão ajudar a contar a história desta marca do Dão bem conhecida pelos consumidores.

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Wine Cellar in www.daosul.com

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Cabriz Colheita Seleccionada 2013 & Cabriz Colheita Seleccionada 2013 – Photo by João Pedro de Carvalho | All Rights Reserved

A relação qualidade/preço sempre foi um dos trunfos dos vinhos Cabriz e os vinhos que aqui se destacam são disso o maior exemplo. E com a cara lavada, ou direi com uma nova imagem surgem no copo o Cabriz Colheita Seleccionada 2013 bem conhecido dos consumidores. Um vinho muito directo e de fácil abordagem, cantos arredondados e de perfil muito fácil de se gostar com fruta a surgir madura e de apontamento morno e ligeiramente adocicado, com ligeiro cacau, travo vegetal de fundo. A produção total são 2.500.000 garrafas de um vinho redondinho, com ligeira frescura e muito correcto face ao patamar de qualidade em que se situa. O outro vinho mostra um salto na qualidade, o Cabriz Reserva 2012 onde a fruta surge mais fresca, limpa e com maior frescura. Deixa de lado aquele tom morno e doce e mostra um pouco mais de carácter associado à região onde nasce. De resto é um vinho moderno, onde a fruta surge ligeiramente escondida pela barrica, cacau, apontamento balsâmico com toque de especiarias em fundo. Ligeiro vigor no palato, fruta muito presente, boa amplitude com final a mostrar ligeira secura.

Contactos
Dão Sul – Sociedade Vitivinícola S.A.
Apartado 28, 3430-909
Carregal do Sal, Portugal
Tel: (+351) 232 960 140
Fax: (+351) 232 961 203
E-mail: daosul@daosul.com
Website: www.daosul.com

Herdade das Servas 2013 com os amigos

Texto João Barbosa

Três belos vinhos alentejanos numa conversa entre um iconoclasta e uns amigos. Alentejanos no carácter e seus aromas e paladares. Valentes para a comida forte desta província. Mas, outra coisa…

O termo iconoclasta é uma hipérbole. Não sou um talibã destruidor das regras sagradas e inquestionáveis e não tomo um ícone por um ídolo. Aliás, acho mais interessante a selvajaria (a fealdade poética), porque resultado da ignorância, do que o facciosismo esclarecido. Falta o vocábulo «de-vez-em-quando-desalinhado-só-porque-sim-e-para-manter-um-bom-nível-de-sanidade-mental».

Porquê este introito? Para que não me tomem nem por tolo nem por arrogante. O tema é o vinho ser gastronómico. O vinho deve ser «gastronómico»? É isso uma vantagem? Um bom vinho é aquele que deve ser bebido com comida?

Nem é vantagem nem desvantagem. Penso que alinhar com comida ou sem ela é igualmente válido. Indo directamente ao ponto-G… dá prazer? O prazer deve ser o fim único. O vinho é importante, a comida é importante e… quem está connosco ou «sem nosco» é-o tanto ou mais.

Os portugueses repetem o elogio de que os seus vinhos são «muito gastronómicos». Este louvor vem na sequência do aplauso à pertença ao mundo mediterrânico, com culto e liturgia alimentar.

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Herdade das Servas – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

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Herdade das Servas – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

Claro que quero que o vinho seja o adequado à comida. Não quero dizer que despreze a adequação do vinho, comida e utensílios, mas a mesa dá-me prazer é com os amigos – é a amizade que se celebra no convívio.

Tenho um costado alentejano, facto que me leva, na brincadeira, a afirmar-me como alentejano. Donde? Do Campo Grande, em Lisboa. O «meu» Alentejo não tem vinho. Não há vinha na lavoura da minha família.

Não tomo outro Alentejo por empréstimo. Mas há um Alentejo vínico que é meu, que me sabe ou lembra os serões à lareira… os homens calados, ouvindo pacientemente, e as senhoras enumerando parentelas, espólios e vidas.

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Colheita – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

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Herdade das Servas wines – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

Foram-me dados a conhecer três vinhos: Herdade das Servas Tinto Colheita Seleccionada 2013, Herdade das Servas Alicante Bouschet 2013 e Herdade das Servas Touriga Nacional 2013. Chegaram-me numa refeição feita apenas com pratos da tradição alentejana, no restaurante O Galito, em Lisboa. O casamento perfeito, como devia ser sempre.

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Talhas – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

Os vinhos que trazem esta conversa são belíssimos exemplares do Alentejo. A Herdade das Servas tem vindo a afirmar-se, vindima após vindima, como uma boa aposta. Todos com boa estrutura, taninos firmes, com gostosura, com longevidade de boca. Não vou usar descritores, mas obviamente são diferentes… dois são monovarietais e o outro é um lote de touriga nacional (40%), alicante bouschet (30%), aragonês (20%) e trincadeira (10%).

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Adega – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

Entro no ponto liminar do «gosto»: o alicante bouschet amarrou-me mais. Não sou muito apreciador da touriga nacional alentejana, contudo na Herdade das Servas consegue fazer parte «desse Alentejo» que reconheço faltar-me… aliás, estes três vinhos.

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Sala de Distribuição – Foto Cedida por Herdade das Servas | Todos os Direitos Reservados

Bebê-los com quê?! A resposta clássica para todos. Interessam-me mais, sobretudo os monovarietais, as conversas com gente boa. E não quero saber se me levantarei direito, pois não tenciono conduzir.

Pode ler mais sobre a Herdade das Servas aqui and aqui.

Contactos
Serrano Mira SA
Herdade das Servas, Apartado 286
7101-909 Estremoz -Portugal
Tel: (+351) 268 322 949
Fax: (+351) 268 339 420
E-mail: info@herdadedasservas.com
Website: www.herdadedasservas.com

O Legado do Sr. Fernando Guedes

Texto José Silva

Fernando Guedes entrou para a Sogrape, fundada por seu pai Fernando Vanzeller Guedes, em 1952, foi subindo na empresa familiar e assumiu naturalmente a sua direcção, guindando a Sogrape ao topo das empresas produtoras de vinho em Portugal. Os seus três filhos, Salvador, Manuel e Fernando, entraram a seu tempo na empresa e foram recebendo as várias responsabilidades do pai. Então, há quinze anos atrás, com 70 anos de idade, Fernando Guedes, que é uma figura nacional, decidiu reformar-se e entregar a gestão da empresa aos três filhos, pois assim, como disse, “…ficaria em boas mãos, se calhar em melhores mãos!” E como filho de peixe sabe nadar, a Sogrape não parou mais de crescer.

Mas Fernando Guedes não abandonou a empresa, muito pelo contrário. Manteve-se activo, visitando a empresa todos os dias e continua a visitar as muitas vinhas da Sogrape, sobretudo no Douro, uma das suas grandes paixões. E foi numa das vinhas durienses que lhe surgiu a ideia de fazer um vinho único, diferente, que marcasse. Olhando para o portfolio da Sogrape, isso seria muito difícil. Fernando Guedes, um homem atento, astuto, perspicaz e muito sensível, foi insistindo com o Luís Sottomayor, director de enologia, para que fizesse um vinho a partir das uvas duma vinha centenária, que se desenvolve em patamares ainda mais velhos, cujas cepas retorcidas quase se confundem com a rudeza do xisto, na Quinta do Caêdo, ali em Ervedosa do Douro. Verdadeiramente apaixonado por esta vinha, Fernando Guedes, com o seu fino humor e boa disposição, foi insistindo com Luís Sottomayor, e finalmente, em 2007, conseguiu vencer a resistência do enólogo, que fez uma pequena quantidade de vinho a partir das (poucas) uvas da tal vinha centenária. O resultado foi surpreendente, premiando a teimosia de Fernando Guedes. Que propôs à família fazer um vinho de excepção, que seria o seu legado para as novas gerações. Seria como que uma mensagem, um conselho, uma indicação a dizer que é este o caminho, sempre em busca da excelência. E que melhor nome para este vinho do que simplesmente…Legado?! Assim, em 2008, era produzida a primeira edição deste néctar soberbo. Agora foi a vez de apresentar o mais recente Legado, da colheita de 2011 e que, mantendo uma enorme carga simbólica, teve lugar nas instalações do antigo Convento de Monchique, que foram as primeiras instalações da Sogrape no Porto.

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Num velho eléctrico do Porto – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

O trajecto para este espaço foi feito…num velho eléctrico do Porto, uma ideia deliciosa e desconcertante.

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Pedro Lemos and Fernando Van Zeller – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

Nas velhas instalações da Calçada de Monchique funciona hoje uma galeria de arte, local escolhido para a apresentação deste novo vinho, onde o chefe Pedro Lemos preparou uma fantástica refeição. Mas antes disso aconteceu uma prova vertical dos três Legado já editados – 2008, 2009 e 2010 – e o neófito de 2011, com a imagem de Fernando Van Zeller Guedes a pairar na sala.

Que permitiu verificar a evolução deste vinho fantástico, ao longo destas quatro colheitas em que a grande diferença está nos anos de colheita.

Na mesa de prova, lado a lado, avô e neta trocavam afectos, olhares carinhosos, numa relação cheia de cumplicidade. A prova começou com o Legado 2008, intenso mas elegante, com notas frescas de alguma mineralidade, de plantas silvestres, de fumo, ligeiramente balsâmico, com final imenso e delicioso…O Legado 2009 é um vinho diferente, intenso, levemente floral, com notas balsâmicas, alguma frescura e uma acidez deliciosa, taninos bem maduros e integrados, com um grande e longo final. O Legado 2010 tem nariz muito elegante, mineral, cheio de frescura, notas de esteva e alecrim, jovem e irrequieto, óptima acidez, taninos maduros muito elegantes, ainda a evoluir na garrafa mas que já se bebe muito bem.

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Legado 2011 – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

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Luis Sottomayor – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

Finalmente o Legado 2011, a grande novidade, de um ano excepcional, segundo o enólogo Luís Sottomayor o melhor de sempre. Ligeiramente vegetal, exótico, envolvente, notas de fumo, húmus, especiarias. Na boca tem frescura e uma acidez incrível, intenso, frutos vermelhos maduros, complexo mas cheio de finesse, um grande vinho que vai dar que falar.

Já na sala, ao sabor dum Mateus Rosé bem fresco, como é tradição da empresa, passaram arroz de marisco frito com camarão, batatas bravas, sapateira com guacamole e croquete de alheira.

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Santiago Ruiz Rías Bajas Branco 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Salmonete – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Na mesa, com a nova aquisição em Espanha, o branco Santiago Ruiz Rías Bajas Branco 2014, provou-se e aprovou-se um delicioso salmonete, choco e molho de assado.

A estrela da noite, o Legado 2011, acompanhou com galhardia o pombo, topinambur e cogumelos silvestres. Simples, elegante, requintado.

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O Pombo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No final, a sobremesa composta por pão de especiarias, maçãs e caramelo, foi harmonizada com o Porto Sandeman Vintage 1968.

Foi neste ano que a Sogrape saiu das instalações de Monchique, onde já não cabia…Mais um simbolismo.

O chefe Pedro Lemos veio à sala explicar um pouco as excelentes harmonizações escolhidas e os copos levantaram-se várias vezes em honra da casa, da família, da excelência dos vinhos.

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O legado está entregue… – Foto Cedida por Sogrape Vinhos SA | Todos os Direitos Reservados

O legado está entregue…

Contactos
Sogrape Vinhos, S.A.
Rua 5 de Outubro, 4527
4430-852 Avintes
Portugal
Tel: +351 227-838 104
Fax: +351 227-835 769
Email: info@sograpevinhos.com
Website: sograpevinhos.com

Soalheiro, Oppaco e Terramatter

Texto João Pedro de Carvalho

Nasceu em 1974 pelas mãos de João António Cerdeira a primeira parcela de apenas um hectare de uvas Alvarinho em Melgaço. o O tempo passou e hoje já sobre o olhar dos filhos Luís e Maria João Cerdeira, contam-se dez os hectares de vinha da casta Alvarinho. Durante mais de 25 anos esta marca tem sido presença à mesa, sendo de elogiar tanto a consistência como o potencial de guarda que este Alvarinho apresenta colheita após colheita. E na cavalgada dos anos as novidades foram sendo colocadas à disposição do consumidor, vinhos que quando saem para o mercado são quase sempre encarados com uma dose de experimentalismo/inovação, mas que pouco tempo depois se assumem como exemplos a seguir. Foi assim com o Primeiras Vinhas e também foi com o Reserva, ambos exemplares que elevam a casta Alvarinho para os patamares do que de melhor se faz em Portugal.

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Quinta de Soalheiro – Foto Cedida por Quinta de Soalheiro | Todos os Direitos Reservados

Na realidade são vinhos que precisam e até gostam de um tempinho de espera na garrafa, por exemplo o Alvarinho Soalheiro é exemplar que apenas o gosto de abrir com dois anos de estágio em garrafa mas as garantias a ver por colheitas como 2007 ou mesmo anteriores confirmam que nos podemos esquecer dele que não fica minimamente amuado. Neste caminho vai o Primeiras Vinhas e o Reserva, a mostrarem que há na adega do Soalheiro quem saiba educar os vinhos nesse sentido.

É já nas novas instalações que o processo criativo tem continuidade, as novidades fazem eco por entre os consumidores e acabam de chegar para já, dois novos vinhos ao mercado. O primeiro de nome Terramatter é da colheita 2014, um Alvarinho com uma vindima mais precoce, sem filtração e sujeito a depósito cujo envelhecimento é feito, essencialmente, em barricas de castanho (pipas tradicionais da região do Minho). A tonalidade é ligeiramente mais carregada que o normal na casa, nota-se algo fechado com a espectável precisão aromática que o produtor nos tem acostumado em todos os seus vinhos. Denso, bom volume de boca com muita elegância e frescura, sensação de ligeira untuosidade. Travo mineral vincado em fundo numa passagem plena de sabor e frescura. Está a meu ver ainda muito novo e será bastante interessante acompanhar a sua evolução, haja garrafas que o permitam.

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Terramater Alvarinho 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Oppaco Vinhão e Alvarinho tinto 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

A outra novidade é o primeiro Soalheiro tinto de nome Oppaco, colheita 2013, baseado nas castas Vinhão e Alvarinho. Novamente a palavra inovação em foco, uma vez que se trata do primeiro vinho tinto da região com lote de uvas tintas e uvas brancas. O resultado é um vinho que alia a rusticidade da casta Vinhão, domada pela frescura e elegância que a casta Alvarinho mostra nas mãos de Luís Cerdeira. Grande frescura de conjunto, aromas limpos e definidos, aquela rusticidade que se faz sentir num misto de fruta muito presente mas ao mesmo tempo a mostrar um conjunto muito novo e cheio de energia. Diferente e senhor do seu nariz, identidade própria a pedir comida regional por perto, desde Galo de cabidela a uns Rojões à moda do Minho.

Contactos
Alvaredo . Melgaço
4960-010 Alvaredo
Tel: (+351) 251 416 769
Fax: (+351) 251 416 771
Email: quinta@soalheiro.com
Website: www.soalheiro.com

Pôpa Fiction – três vinhos com sedução e crime, Quinta do Pôpa

Texto João Barbosa

Boa noite, bem-vindos a minha casa. Sentem-se, que já vos sirvo o vinho. Hoje jantamos na sala. Estou com groove.

– Estamos todos!

– Na sala?! O betinho emaluqueceu!

– Cala-te, Pedro. Deixa-me acabar. Estou com groove e…

– Estamos todos!

– Bem, se agora responderam em coro…  vou amuar e dançar até à cozinha para trazer uns aperitivos. Ainda bem que a boa-onda é geral.

[Regressado à sala]

– Ainda ninguém pôs música?! Querem que me zangue? Temos três vinhos para hoje…  e têm uma lógica. Vão numa sequência… Pim! Pam! Pum!

[Todos a dançar a música «You never can tell», de Chuck Berry… Pulp Fiction].

– Ena, ainda agora começou a festa e já o tapete está todo pingado de tinto… yuuuuupiiiiiii!

– O que estamos a beber?

– Hot Lips 2012. Deixa-me mudar a música… «Why don’t  you do right», pela Katherine Turner… [«Quem tramou Roger Rabbit»].

– Roger Rabbit! Mas conta mais do vinho…

– É tinto…

– Ya!

– Isso é óbvio.

– Diz!

– Douro.

– Conta lá!

– Duh!… Ainda não percebeste que temos de ser discretos… as paredes têm ouvidos. Podemos estar a ser escutados… as castas são secretas.

– Lol.

– Olha, a garrafa acabou. O que devo abrir agora?

– Essa… essa aí. Diz In The Flesh 2012.

– Cool!

– Ora põe aí a tocar «Slave to Love», do Bryan Ferry…

– Enapá! Do «Nove semanas e meia»… ui!

– Só de pensar na Kim Basinger…

– E eu no Mickey Rourke.

– Nunca percebi o que as mulheres vêem nele…

– Azaritos! Coisas de miúdas. Esquece, azaruncho!

– O que se passa com o vinho?

– O que se passa, como?!

– Está sempre a acabar…

– Agora abre essa…, já todos estão prontos? Vamos a isto!

– Uau! Está delicioso! É o quê?

– Não vais querer saber…

– Psicopata!

– Saca esse disco e põe este a tocar, se fazes o favor.

– É o quê?.. Boa escolha.

– O quê?… o quê?

– «Push it to the limit».

– Paul Engemann?!

– Ya!

– Scarface!…

– Yes!

– Acertei! Diz-me o que estamos a comer?

– Tens de descobrir. Este jantar é um policial.

A Quinta do Pôpa, além dos vinhos «formais», tem uma vertente conceptual e, até agora, com humor, designada de Pôpa Art Projects. Primeiro surgiram o Lolita e o Milf. Para este momento, o segundo episódio, a ideia brinda ao mundo da sedução, do crime e do cinema.

As garrafas desta trilogia (Pôpa Fiction) são de litro, uma pequena provocação… ou melhor, um certo agitar das ideias. Cada vinho tem um nome e rótulo próprio, cuja arte é de Mário Belém.

Hot Lips 2012 é um vinho guloso, descontraído e por isso perigoso. Recomendo para antes do primeiro jantar a dois. … É isso! Suave e sensual.

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Hot Lips 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

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In The Flesh 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

Já o segundo é o In The Flesh 2012, mais «substancial» na boca. Mais carnudo. «Um pedaço de mau caminho», dizem os irmãos Stéphene e Vanessa Ferreira, os vinhateiros. Pois… é que também escorrega, mas pede uns acepipes. Petiscos quentes, folhados, enchidos e alguns queijos.

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Stéphane and Vanessa Ferreira – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

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The Grape Escape 2012 – Foto Cedida por Quinta do Pôpa | Todos os Direitos Reservados

O terceiro vinho do gangue é o The Great Escape 2012. É uma espécie de Al Capone. Impõe respeito e exige comida com força e potência. Mais rústico e aconselhável com comida.

Bebe-los num só evento tem piada e lógica, porque há uma clara evolução do estilo dos vinhos, desde o mais fácil até ao que pede um desassossego na mesa.

Basta fantasiar um bocadinho e até se «escreve» – oralmente – um enredo policial, em que cada pessoa à mesa acrescenta um parágrafo. Depois de tudo e se ainda houver disposição, jogar o Cluedo – um dos jogos que melhor prazer dá quando se está ébrio.

Contactos
Quinta do Pôpa, Lda.
E.N. 222 – Adorigo
5120-011 Tabuaço
Portugal
Email: geral@quintadopopa.com
Telemóvel: (+351) 915 678 498
Site: www.quintadopopa.com

Azores Wine Company, raridades que nascem no meio do Atlântico

Texto João Pedro de Carvalho

Tenho seguido com a atenção que me é possível o trabalho do jovem enólogo António Maçanita. Não faz muito tempo que tinha ouvido falar que andava pelos Açores e que dali iriam começar a sair os seus primeiros vinhos, um projecto que com o tempo acabou por se transformar numa espécie de salva vidas de algumas das castas que moram no arquipélago que viu em 2004 a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico ser classificada como Património da Humanidade pela UNESCO. Nascia assim a Azores Wine Company, entre vinha alugada e terrenos comprados contam com 40 hectares de produção no Pico, em São Miguel e na Graciosa. É de enaltecer os esforços desenvolvidos para literalmente salvar do fatal esquecimento castas como o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico que segundo o último levantamento apenas existiriam menos de 100 plantas da variedade. Uma exclusividade aliada a uma raridade que se faz sentir em produções diminutas que mal chegam à mesa de todos os interessados em lhes deitar a mão.

Os vinhos produzidos são separados em duas gamas, a Rare Grapes Collection composta por vinho monocasta onde surge o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico e a Volcanic Series com o Rosé Vulcânico e o Tinto Vulcânico. Tive a sorte e até poderei dizer o privilégio de provar alguns destes vinhos já que por exemplo do Terrantez do Pico apenas foram engarrafadas 380 garrafas. Comum a todos eles a frescura proveniente da brisa marítima com uma inevitável e porque não o dizer, acidez que se faz sentido algo acentuada quem sabe fruto dos solos de origem vulcânica. Essa mesma acidez que acentua a mineralidade e salinidade comum a todos eles. São vinhos que merecem e devem ser provados e bebidos com alguma atenção, tendo sempre bem presente as condições onde nasceram.

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Azores – Foto Cedida por Azores Wine Company | Todos os Direitos Reservados

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Rosé Vulcânico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Melhor exemplo do que acabo de escrever é o Rosé Vulcânico 2014, parco na tonalidade e ligeiro na graduação, mostra aromas de fruta vermelha bem limpa com boa presença e de fundo algumas notas de mar com a inevitável nota de iodo e salinidade presente. É este factor que pode causar admiração e mesmo ditar o afastamento de alguns apreciadores, o toque salino que se faz sentir no palato. De resto mostra-se com a intensidade suficiente para fazer um brilharete com comida de inspiração oriental.

Com dois Arinto dos Açores em prova, em nada semelhante ao Arinto continental, colheita de 2014 com um deles a ter fermentado sobre as borras ganhando por isso o nome Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014. Na versão mais eléctrica, o Arinto dos Açores 2014 mostra uma invejável finesse, muito menos compacto apesar da acidez que tem acentuar as notas citrinas que se fundem com o travo mineral e novamente o travo salino a marcar aqui ligeiramente o final. No lado quase oposto o “Sur Lies” aposta em tudo aquilo que já foi escrito mas com tudo um pouco mais carregado e cheio, digamos que ganhou um pouquinho mais de músculo. Tudo o que for de concha fará no imediato uma belíssima harmonização com estes dois vinhos.

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Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Terrantez do Pico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Para o final deixo aquele que considero a estrela da companhia, o Terrantez do Pico 2014, que das 380 garrafas produzidas o transforma num vinho não de garagem mas de armário, e se for climatizado melhor porque tem pernas para andar muitos e longos anos. Delicada e refinada complexidade que encerra o conjunto, apresenta notas citrinas bem variadas, das mais maduras às mais amargas, nuances de ligeira tropicalidade. Pouco ou nada exuberante, parece precisar de tempo para se desenvolver, porque de momento está ainda fechado, dominado pela austeridade mineral e o travo de maresia.

Contactos
Rua dos Biscoitos, Nº3
São Mateus
9950-542 Madalena – Pico Açores
Website: www.azoreswinecompany.com

Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013

Texto João Barbosa

Durante a ditadura do Estado Novo (1926 a 1974) criaram-se arquétipos para identificar as províncias, entidade organizativa hoje inexistente. Havia uma redutora iconografia nacionalista, mas também regional. Valorizou-se muito o folclore, sendo aqui o fandango.

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Ribatejo

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Ribatejo

Para o Ribatejo desenharam-se toiros bravos, os nobres animais da actualmente polémica tourada, campinos e obviamente cachos de uvas. O vinho tinha uma importância crucial na economia e na alimentação, sendo que esta província produzia em grande quantidade.

A vontade de produzir muito levou a que as vinhas (generalizando) estivessem em solos ricos. Porém, a videira é masoquista. A reputação, até há poucos anos, não era das melhores. Porém, a comissão certificadora e vários produtores, em número crescente, encarregaram-se de mudar a imagem. O corolário foi a alteração da designação de Ribatejo para Tejo.

Uma das primeiras casas agrícolas a despertar para a nova realidade foi a Quinta da Lagoalva de Cima, situada junto a Alpiarça. É uma empresa que produz muito mais do que vinho, sendo o azeite outro produto identitário de qualidade. Ali lavra-se uma infinidade de bens alimentares. Em 2.500 hectares cabem muitas culturas e floresta.

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Quinta da Lagoalva – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Há quatro patamares de vinhos, com diferentes preços. Existe uma linha comum, com dois ramais: qualidade e «honestidade». Esta verdade traduz-se na regularidade e consistência do que é produzido e posto à venda – tendo que se ter em conta a especificidade da climatologia dos anos.

Recuso-me em entrar na obsessiva vontade de sentenciar (quase decreto) acerca da relação entre qualidade e preço. Cada pessoa tem o seu conceito e gosto, disponibilidade financeira e avaliação de até quanto sente ser aceitável um valor. Evito referir preços, pois não tenho dados para que possa assegurar um montante. Digo apenas que estes vinhos estão bem ao alcance duma algibeira da classe média, não custam um ordenado nem uma semana de trabalho.

Uma das primeiras referências que conheci foi o branco Lagoalva Talhão 1. Não gostei! Todavia, aproximou-se (aproximei-me) e é um vinho (referência abstracta) que bebo com agrado no Verão, como aperitivo e em convívio descontraído. A gama Lagoalva tem essa característica da descontração, sendo também competente para ir à mesa.

Os vinhos são muitos e acerca deles escrevi uma súmula, que penso ter traduzido o bom trabalho que se faz nesta firma. Vou ao motivo: Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013. As gamas são Monte da Lagoalva, Espírito Lagoalva, Quinta da Lagoalva de Cima e Quinta da Lagoalva.

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Lagoalva Barrel Selection Red 2013 – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Tal como os anteriores e os olvidados, é um vinho de fácil prazer – no melhor do sentido do adjectivo. Contudo, é uma «coisa» à parte. A própria designação indica que se está presente de algo especial: uma escolha de várias barricas, que geraram 4.000 garrafas.

Trata-se dum par de syrah e touriga nacional, com a mesma percentagem. Estagiou um ano em barricas novas de carvalho francês. A madeira sente-se, mas não esmaga. Não é para se beber em tragos volumosos, antes com vagar.

A demora dos repastos do final de Outono e do Inverno, quando a mesa é rica e substancial, e as comidas mais complexas e exigentes quanto a parceiro. Concordo com o produtor quando aconselha pratos de forno. Estou a pensar no Natal.

Contactos
Sociedade Agrícola da Quinta da Lagoalva de Cima, S.A.
Quinta da Lagoalva de Cima
2090-222 Alpiarça
Tel: (+351) 243 559 070
Email: geral@lagoalva.pt
Website: www.lagoalva.pt

Quinta do Cardo, a frescura dos tintos

Texto João Pedro de Carvalho

Para os mais distraídos mesmo apesar de já aqui ter escrito sobre duas das últimas novidades da Quinta do Cardo, inserida na Companhia das Quintas, um branco e um espumante. Recordo que é um produtor da Beira Interior, nas proximidades da vila de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, no Interior Norte de Portugal. As vinhas são em altitude, num total de 180 hectares, dos quais 69 são de vinhas cultivadas numa cota de 750 metros de altitude. Com a recente mudança de enologia mudou-se também a filosofia no que a viticultura diz respeito, hoje em dia os vinhos são apresentados como fruto de uma agricultura biológica/orgânica.

Desempoeirados e cheios de frescura até a nova roupagem parece surtir o efeito desejado, ou seja, os vinhos tornaram-se apelativos e dão a vontade de pegar neles para ver melhor o rótulo e o passo seguinte é levar para casa. A evolução que tem sido feita ao nível da apresentação tem sido notável e mora nos rótulos um certo “je ne sais quoi” que me faz recordar os rótulos do produtor italiano Vietti. Leia-se portanto muito bom gosto no que à escolha foi feita nesse aspecto, tanto é que há um upgrade no visual do vinho Colheita para o Reserva sempre com a flor do cardo presente.

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Quinta do Cardo Tinto 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cardo Touriga Nacional Reserva 2012 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Quanto aos vinhos em si, são dois tintos sobre os quais agora escrevo e que se apresentam como novidades no mercado. O Quinta do Cardo tinto 2014, feito a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, com estágio de 9 meses em barrica de carvalho francês. O vinho foi para mim uma surpresa pela forma desempoeirada e fresca como se mostrou, a fruta muito solta e bem delineada, saborosa, ligeiro floral num conjunto coeso e bem estruturado. A passagem por barrica complementa o aroma e arredonda-o ligeiramente no palato, sem perder todo o vigor da juventude, num vinho feito a pensar nos bons momentos à mesa e que se mostra ideal mesmo face ao preço para um consumo diário com qualidade bem acima da média.

Dando um claríssimo salto em frente no que à qualidade diz respeito, surge o vinho Quinta do Cardo Touriga Nacional Reserva 2012 com direito a 20 meses em barricas de carvalho francês. Ainda muito jovem, tudo ainda novo apesar de contar já com três anos de vida, bem focado na casta e nos seus principais descritores. Grande frescura e vigor de conjunto, austeridade mineral em fundo com ligeiro terroso, muita fruta misturada num vinho que de momento parece um novelo apertado e coeso a precisar de mais tempo para melhor se desenrolar na garrafa. Aberto nesta altura será companheiro de pratos de forte temperamento como uma feijoada de javali ou uma lebre com feijão branco.