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Os tintos da Herdade da Farizoa

Texto João Barbosa

A Companhia das Quintas, não sendo um gigante do negócio em Portugal, tem um leque de propriedades espalhadas por diferentes regiões. De cima para baixo: Quinta da Fronteira (Douro), Quinta do Cardo (Beira Interior), Quinta de Pancas (Lisboa) e Herdade da Farizoa (Alentejo).

Possivelmente, o território no Alentejano seja o menos conhecido. A Quinta de Pancas tem já uma longa vida como referência no panorama português, a Quinta do Cardo é um caso raro de reconhecimento de vinhos da sua região, a Quinta de Fronteira está no mediático Douro e a Herdade da Farizoa, embora na região portuguesa de maior sucesso de vendas, tem mais competidores de dimensão.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A Herdade da Farizoa foi comprada em 2000 e a adega construída no ano seguinte. Uma característica não muito comum: não se fazem brancos. O pomar de videiras é composto por alicante bouschet (oito hectares), alfrocheiro (quatro hectares), aragonês (15 hectares), cabernet sauvignon (6,5 hectares), syrah (5,5 hectares), touriga franca (menos de um hectare), touriga nacional (6,5 hectares) e trincadeira (dez hectares). Havia dois hectares com tinta caiada, que foram arrancados. Encontram-se em pousio para virem a ser cultivados com alicante bouschet.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A vinha ocupa uma pequena parte da propriedade – pequena para o padrão alentejano, com 156 hectares. O espaço está arrendado e é dominado por montados, de sobro e azinho, e pastagens. Existem um olival de quatro hectares. O solo é uma mistura de argila, mármore e xisto. Situa-se no concelho de Elvas e dentro da demarcação de Borba.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A empresa tem vindo a realizar uma reestruturação, inicialmente apenas de actividades administrativas e comerciais. A saída dos enólogos Nuno do Ó, que abraçou negócio por sua conta, e de João Corrêa, por doença, levou à contratação de Frederico Vilar Gomes para dirigir as operações de campo e enologia. É jovem e já confirmado como um dos melhores técnicos do país.

Sangue novo que trouxe inovação, alguma com um certo risco. Há liberdade para experiências. Frederico Vilar Gomes atribui responsabilidade e liberdade aos enólogos residentes em cada propriedade, pois são eles, melhor do que ninguém, a conhecer o terreno, o ambiente e as uvas. Visitei uma outra propriedade e provei uma amostra… as opiniões dividiram-se, mas se o técnico da quinta acredita, então que se faça o ensaio.

Na Herdade da Farizoa é Joaquim Mendes quem manda. Ali fazem-se os Portas da Herdade, Herdade da Farizoa, Herdade da Farizoa Reserva e Herdade da Farizoa Grande Reserva (anteriormente designado por Grande Escolha).

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Portas da Herdade – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Grande Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

O Portas da Herdade 2014 é uma aposta segura para os dias ao ar livre, acompanhando bem carnes greladas. É macio e escorregadio. É um lote de alicante bouschet (5%), aragonês (40%) sirah (15%) e trincadeira (15%).

O Herdade da Farizoa também alinha pela juventude e fruta, mais guloso que o anterior. Aragonês (50%), syrah (30%) e touriga nacional (20%) mostram-se bem casadas. Vai bem com os grelhados, mas massas também resultam.

O Herdade da Farizoa Reserva 2010 é um alentejano feito com touriga nacional (67%) e syrah (33%). É mais uma prova da plasticidade da casta portuguesa e da boa adaptabilidade da francesa. Ponho-o na mesa no Outono, com comidas mais fortes, mas madrugadoras face ao Inverno.

O Herdade da Farizoa Grande Escolha 2009 é um vinho que me surpreendeu. Sendo o Alentejo uma região quente e embora esta propriedade empreste frescura, a vivacidade ultrapassou as minhas expectativas. Sem marca de oxidação, com aromas de menta, restolho de trigo, pimenta branca e rosas secas. Chega com doçura e finaliza seco.

O Herdade da Farizoa Grande Reserva 2012 traz feições do mano mais velho, como a menta e o restolho do trigo. Para quem tem sangue alentejano, como eu, o perfume da lenha de azinho dá grande conforto. Somem-se-lhe pitadas de noz-moscada e erva-doce. Na boca mostra amoras e mirtilos, terra seca, cacau. Tem estrutura e fibra, mas sem bruteza. Não vem tão doce quanto o anterior e termina seco. Este é um lote de syrah (75%) e touriga nacional (25%).

Contactos
Herdade da Farizoa
7350-491 Terrugem
Tel: (+351) 268 657 552 | (+351) 93 80 90 518
Fax: (+351) 268 107 190

Quinta de Lemos, um Projecto de Vida…

Texto José Silva

Celso de Lemos é um beirão que ainda novo emigrou para a Bélgica, onde se formou em engenharia química. Foi construindo ao longo da vida um verdadeiro império no mundo das roupas de cama e de casa de banho de qualidade superior. De tal forma que hoje a sua marca está um pouco por todo o mundo, equipando hotéis de luxo e casas de gente bem conhecida do mundo do espectáculo e do desporto. Mas este português de sucesso nunca perdeu a sua simplicidade e bom humor, sendo uma pessoa muito acessível e de bom trato. E nunca perdeu também o amor pela sua terra natal, situada bem no centro da região vinícola do Dão.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi pois com naturalidade que Celso de Lemos comprou uma quinta de 50 hectares na pequena localidade de Passos de Silgueiros, não longe de Viseu.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já com a ajuda dos três filhos, ali mandou plantar 25 hectares de vinha, um enorme olival e desenvolveu uma colmeia, para produzir três dos grandes produtos tradicionais da região: vinho, azeite e mel.

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Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Equipamentos com a melhor tecnologia – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Construiu uma adega, onde, para além dos equipamentos com a melhor tecnologia, se podem apreciar obras de arte da sua vasta colecção, que é uma outra paixão. Por vezes organiza na adega exposições de arte, com artistas convidados de todo o mundo. Mas a grande obra de arte que sai daquela adega é o vinho do Dão. Com as mais nobres castas da região – touriga nacional, alfrocheiro, jaen e tinta roriz – foi desenvolvendo vinhos extraordinários, hoje premiados um pouco por todo o mundo e exportados para vários países.

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O restaurante – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas que também podem ser provados na adega e no restaurante de topo que mandou construir ali mesmo na propriedade, o “Mesa de Lemos”, onde o chefe Diogo Rocha, também ele da região, prepara ementas fantásticas, para já apenas à sexta e sábado ou por encomenda.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O restaurante está inserido num pequeno hotel, apenas com três quartos, mas que não está aberto a público, servindo para receber clientes, importadores e amigos, que assim podem partilhar este sonho maravilhoso que é a Quinta de Lemos.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa última prova passaram à nossa frente alguns dos vinhos da quinta, todos revelando enorme qualidade e uma óptima imagem, apelativa e muito cuidada. O Touriga Nacional de 2009 apresentou-se num granada carregado muito elegante, com aromas de frutos silvestres, um floral sedoso, levemente fumado, ligeiramente mentolado, com notas de resina muito suaves. Na boca tem enorme estrutura, uma bela acidez e alguma frescura, notas de frutos vermelhos maduros, e um ligeiro abaunilhado que lhe dá grande elegância e um final longo e persistente. Também de 2009 foi o Alfrocheiro, este de cor rubi intensa. Nariz cheio de elegância, notas de frutos vermelhos, algumas flores silvestres, muito suave. Na boca tem bom volume, notas delicadas de frutos vermelhos, macio e envolvente, bela conjugação entre acidez e frescura, dando um vinho sedoso e elegante.

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Quinta de Lemos Touriga Nacional 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Alfrocheiro 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Jaen 2007 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Donna Louise 2005 in celsodelemos.com

A casta Jaen é uma das melhores do Dão e quando bem trabalhada, dá vinhos impressionantes, como é o caso deste da Quinta de Lemos de 2007. Duma cor granada intensa, fechada, tem um nariz intenso, com muitos frutos vermelhos, a cereja muito madura, notas de baunilha e algumas especiarias. Na boca é poderoso, com óptimo volume, uma acidez fantástica, frutos vermelhos e algum fumo, sedoso e elegante, com imenso final. Finalmente, e ainda de 2005, provamos o Dona Louise, um tinto feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen. Dum granada intenso e elegante, apresenta um nariz cheio de frutos vermelhos maduros, esteva, urze e ligeiras notas de pinheiro. Na boca é muito sedoso, tem frescura e uma acidez muito equilibrada, com apontamentos ligeiros de frutos vermelhos, aveludado e ligeiramente austero, com final longo e delicado. Belo vinho a terminar uma prova em que o Dão revelou todo o seu potencial.

Contactos
Quinta de Lemos
Passos do Silgueiros
Silgueiros 3500-541, Portugal
Tel: (+351) 232 951 748
Fax: (+351) 232 951 495
E-mail: info@quintadelemos.com
Website: quintadelemos.com

As refrescantes novidades da Quinta do Portal

Texto João Pedro de Carvalho

O projecto da Quinta do Portal nasce no Douro no início dos anos 90 do séc. XX tendo como base uma propriedade centenária da família do seu proprietário, João Branco. A produção que ali sempre foi de Vinho do Porto, viu estender o conceito de todo o projecto para uma “Boutique Winery” onde é o enólogo Paulo Coutinho desde 1994 o máximo responsável pelos vinhos ali produzidos. Para além da produção de Vinhos do Porto, nascem também vinhos DOC Douro e Moscatel, alicerçados nas quatro Quintas (Portal, Confradeiro, Muros e Abelheira) todas situadas no Cima-Corgo que perfazem um total de 100 hectares de vinha com variações entre os 200 e 550 metros de altitude.

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Adega – Foto de Nélson Garrido | Todos os Direitos Reservados

Na Quinta do Portal não são apenas os seus vinhos que se destacam, a juntar a tudo isto temos também a fantástica adega desenhada pelo prestigiado arquitecto Siza Vieira, naquela que será das primeiras adegas de autor a nascer em Portugal. Para a complementar nasceu a Casa das Pipas, um enoturismo de excelência amplamente galardoado dentro e fora de portas.

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Casa das Pipas – Foto Cedida por Quinta do Portal | Todos os Direitos Reservados

Voltando aos vinhos e à mais recente apresentação que Paulo Coutinho nos proporcionou, o meu destaque desta vez vai para os vinhos de aromas mais frescos, mais atrevidos e digamos até mais apetecíveis para esta época do ano. A prova foi conduzida de forma muito descontraída, para surpresa ainda foram colocados em prova alguns vinhos de colheitas anteriores para tomar o pulso à capacidade de envelhecimento das criações de Paulo Coutinho. Diga-se de passagem que em todos os casos a evolução era notável, mesmo num surpreendente momento de forma do Mural branco 2004 que certamente na altura em que andou pelas prateleiras passou por baixo do radar de todos nós.

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Mural branco 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro branco a entrar em cena foi o Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 que nasce das parcelas experimentais da Quinta da Abelheira. Encantou com os seus aromas frescos e frutados, numa combinação bastante airosa entre as duas castas. O resultado é um branco muito perfumado, com aromas limpos onde o destaque vai para a fruta (citrinos, tropical, frutos pomar) que combina com vegetal fresco e uma ligeira sensação de pederneira. Na boca mostra uma bela frescura que se sente no palato, rico, marcante e a entrar com fruta bem sumarenta terminando seco e prolongado.

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Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Enquanto isso já o Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 esperava no copo, exuberante o suficiente para chamar a atenção. Em primeiro plano o apontamento floral a lembrar rosas seguido da fruta madura, aqui com bastante laranja. Muita frescura a embrulhar todo o conjunto, algo linear mas que cumpriu sem falhas a acompanhar um alargado leque de entradas que iam aparecendo à mesa.

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Quinta do Portal Rosé 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último o Quinta do Portal Rosé 2014, um blend entre Tinta Roriz, Touriga e Touriga Nacional onde predominam os frutos silvestres e as notas de romã. Pelo meio ligeira nota de hortelã num conjunto a mostrar uma bela frescura que se sente também na boca onde ganha maior expressividade, até mais que no nariz. Gosto da secura final com um travo de morango e amora que perdura no palato, num vinho feito a pensar na mesa e nos amigos.

Contactos
EN 323 Celeirós – 5060-909 Sabrosa
(Estrada Pinhão-Sabrosa)
Tel: (+351) 259 937 000
Telemóvel: (+351) 969 519 021
E-mail: reservas@quintadoportal.pt
Website: www.quintadoportal.com

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Há Qualquer Coisa em Aveiro

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Já perdi a conta a quantas vezes visitei Portugal. Mas, uma vez que a maior parte das minhas viagens são direccionadas ao mundo do vinho tenho uma visão muito diferente do país. Acho que apenas fui uma vez à praia em Portugal, o que é um pouco estranho, especialmente para alguém que vem do frio do norte da Europa. As pessoas falavam-me das fabulosas praias de Portugal e eu apenas podia imaginar. Até ter visitado Aveiro.

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Palmeiras e Casas Bonitas – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Estava de visita à Bairrada, uma região vitivinícola famosa pela casta Baga e pelos seus spas termais. Foquei-me principalmente na primeira. Depois de me empanturrar com um delicioso leitão e de visitar um par de adegas, a enóloga local, Filipa Pato (veja aqui o artigo de Sarah Ahmed sobre Filipa Pato), sugeriu que eu visitasse Aveiro. Nunca tinha ouvido falar desta cidade mas fiquei curioso. Então saímos da Bairrada e fomos em direcção à praia.

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Uma Praia Perto de Aveiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Aveiro é conhecida por algumas coisas em particular. As praias estão definitavamente na lista de coisas a conhecer para quem visita este lugar. Aveiro é apelidada de “Veneza de Portugal” por causa dos seus canais e barcos tipo gôndola. Mas digo-vos já, não é Veneza e não são gôndolas. Para começar, os barcos, ou moliceiros, são muito coloridos e muito bonitos. Mas quando olhamos mais de perto e com mais atenção vemos que a decoração é hummm… digamos que bastante particular.

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Moliceiros – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Localizada à beira mar, o peixe e o marisco são espectaculares aqui. A abundância de peixe, caranguejo e todo o tipo de petiscos do mar é incrível. Nunca sei o que pedir e por isso peço sempre um pouco de tudo. Arroz de marisco, camarões, talvez algumas ameijoas e o peixe do dia, seja ele qual for. Não esqueçamos o vinho. Uma vez que estávamos em Aveiro a Bairrada seria uma boa escolha para começar, geograficamente falando.

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I <3 Aveiro – – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Bebi um Quinta das Bageiras Bruto natural Rosé 2011. Um vinho espumante fresco e apetitoso de um dos melhores produtores de vinho da Bairrada. 100% Baga, 100% espectacular. Uma inexplicável boa harmonização com todo o tipo de peixe e marisco. Claro que, estando em Aveiro, para sobremesa se tem que experimentar os Ovos Moles. Um doce local que é feito de gemas de ovos e açúcar. Se gostas de coisas muito doces,então esta é a sobremesa certa para ti.

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Almoço – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

As praias magníficas e a proximidade a algumas das mais entusiasmantes regiões vitivinícolas do mundo, fazem desta cidade um excelente destino para surfistas e apreciadores de comida. Se quiseres apanhar uma onda ou passar um fim de tarde a beber vinhos deliciosos e a comer marisco de classe mundial, então Aveiro é o lugar para ti.

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Pôr do Sol em Aveiro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Monte da Ravasqueira e vinhos fora da norma

Texto João Barbosa

A história vitivinícola do Monte da Ravasqueira é recente. Os trabalhos na vinha datam de 1998. O primeiro plantio ocorreu em 2000 e a primeira vindima a ir para o mercado foi a de 2002, posta à venda em 2003, com o Fonte Serrana. Porém, esta propriedade, situada no concelho de Arraiolos, tem uma existência longa, além da família dos seus actuais proprietários estar intimamente ligada à história contemporânea portuguesa.

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Monte da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A propriedade pertenceu a Dom Nuno Álvares Pereira, condestável de Portugal e estratego que conduziu à vitória o partido de Dom João (futuro João I de Portugal) na guerra de sucessão, entre 1383 e 1385, contra Dom João I Rei de Castela e Leão. A posse da terra foi junta ao título de conde de Arraiolos, de que hoje é (25º) titular Dom Duarte Pio de Bragança, 24º duque de Bragança e herdeiro da Coroa de Portugal.

Mas com o tempo, a Herdade da Ravasqueira mudou de donos e de dimensão. Para o caso, interessa saber a partir de 1943, quando entrou na posse da família Mello, que à época era detentora dum empório empresarial, criado por Alfredo da Silva, com Companhia União Fabril.

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Herdade da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Revolução de 25 de Abril de 1974 causou naturalmente convulsões. A política focou-se à esquerda, sobretudo ao Partido Comunista Português, e a família Mello partiu para o exílio e os seus bens foram nacionalizados, sendo a Herdade da Ravasqueira sido ocupada por trabalhadores, no processo conhecido por Reforma Agrária.

A estabilização política e o enquadramento de Portugal na família das democracias da Europa ocidental conduziram ao regresso da família Mello, que voltou a ocupar um lugar na liderança empresarial do país, e à entrega desta propriedade alentejana aos seus antigos donos, em 1980, mas praticamente decrépita por abandono e negligência.

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Cattle – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Herdade da Ravasqueira tem cerca de 3.000 hectares, perto de 1.500 ocupados com florestal. A criação de bovinos, cruzados de mertolengo e limusine, ascende a 500 cabeças, e o olival também tem uma pequena parcela. A actividade maior é a do vinho, estando plantados 45 hectares de vinhas, divididos por 29 talhões.

Este domínio alentejano é formado em declive, o que permite, através das diferentes altitudes, nuances diferenciadoras. Ao mesmo tempo, o solo é muito variável, existindo dez formações diferentes, sendo dominantes os argilo-calcários, estando a vinha em zonas com afloramentos de granito e de xisto.

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The Vines – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O teor de argila varia entre os 20% a 30%, refere Pedro Pereira Gonçalves, director de viticultura e enologia. A constituição do chão permite retenção de água em profundidade, causando algum stress hídrico e obrigando a planta a esforçar-se. Em caso de necessidade, existe sistema de rega gota-a-gota. «Mais vale ser ela [videira] a pedir água do que lhe dar-mos» – explica o técnico.

Desde 2012 que Pedro Pereira Gonçalves está neste produtor. Embora jovem, tem já currículo e reputação. A aposta tem sido na frescura, apanhando a fruta mais cedo do que acontece na generalidade do Alentejo. Assim, conseguem-se néctares com graduações alcoólicas hoje raras – embora a tendência vá nesse sentido.

«A Ravasqueira tem muitas massas de água e fica num vale, por isso consegue-se maior frescura», assinala Pedro Pereira Gonçalves. Pois, o teor alcoólico dos brancos foi atirado para uns surpreendentes 11,5%, indo até aos 12,5%. Nos tintos, o intervalo situa-se entre os 13% e os 13,5%.

Uma das decisões do jovem enólogo foi – coisa ainda rara em Portugal – mandar fotografar a propriedade, por avião, em diferentes bandas de espectro. «Permitiu que a apanha, que era feita ao talhão, passasse a ser feita à zona» – explica o técnico.

Com estas informações adicionais tem sido possível acertar os vinhos aos perfis pretendidos. A agricultura de precisão «permite fazer o vinho na vinha». Com a chegada de Pedro Pereira Gonçalves aumentou o número das propostas de maior patamar de gama, nomeadamente reservas e monovarietais. A diversidade permite a produção de sete vinhos monovarietais: alvarinho, nero d’avola, petit verdot, sangiovese, sauvignon blanc, touriga franca e viognier. No próximo ano será lançado um espumante.

A casta alvarinho é originária do Noroeste de Portugal, com clima mais fresco. Se os descuidos, na região dos Vinhos Verdes, podem resultar em laranjadas (felizmente não é a regra), no quente Alentejo podem tornar-se rebuçados, um pouco pesados e, por conseguinte, enjoativos. Nada mais diferente do que se apresenta na Ravasqueira, onde a variedade foi plantada numa zona mais arejada e fresca.

O Monte da Ravasqueira Alvarinho 2013 é um vinho com notas de tangerina, mineral e elegante, mostrando potencial de evolução em garrafa. Se fecharmos os olhos, e sonharmos um bocadinho, até nos segreda a palavra Chablis… atenção, é uma sugestão suave.

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Monte da Ravasqueira Alvarinho – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Reserva Branco 2013 fez-se com alvarinho (40%) e viognier (60%) é escorregadio… portanto: cuidado. É um vinho com textura na boca e com aromas a lima, e pêssego.

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Monte da Ravasqueira Reserva White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Branco é um vinho de homenagem ao pai da actual geração que dirige o Grupo Mello, José Manuel de Mello. É um vinho que o enólogo afirma não ser consensual, «mas que não é para ser». É um repositório de todas as castas favoritas do homenageado: alvarinho, arinto, marsanne, semillon e viognier. Na edição de 2013, Pedro Pereira Gonçalves optou por uma abordagem neozelandesa: fechar o vinho dentro das barricas durante um ano. Nasceram notas de baunilha, de bolacha maria, chocolate branco e ameixa. Muito elegante e, mais uma vez, escorregadio.

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MR Premium White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Monte da Ravasqueira Rosé 2014 é filho de uvas touriga nacional, colhidas precocemente nos diferentes talhões onde está plantada. É fresco e, em vez das violetas de a cultivar oferece no Dão, surge com um ramalhete de rosas. É um vinho falsamente doce. Um rosado muito interessante.

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Monte da Ravasqueira Rosé – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs é, como se percebe pela designação, produto duma só localização, onde pontuam as castas syrah e touriga nacional. Na edição de 2012, a variedade francesa forneceu 70% das uvas. É um vinho bem seco, sem ser austero. Promete vida em garrafa.

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Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Tinto 2012, em virtude da variedade de cultivares, é muito rico e complexo de aromas, que se vão sucedendo, casando, separando e regressando, simples ou acompanhados com o mesmo ou diferente par. Tem um notório traço da natureza alentejana – que muito aprecio – que é o de lenha de azinho. Na boca é também um falso doce. Tem a aceleração e garra de um roadster. Penso que também poderá evoluir bem em garrafa.

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MR Premium Red 2012 – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Touriga Franca 2012 é para um fanático da casta – eu – uma comichão. Por capricho, proibia que fosse plantada fora do Douro. Considero que das viagens poucas conseguem alcançar o carisma daquela região do Nordeste português. Isto não significa que a qualidade não exista, apenas uma irritação intelectual.

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Monte da Ravasqueira Touriga Franca – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A touriga franca revelou-se em 2012, na Ravasqueira, como alentejana, com os aromas dos restolhos e dos montados de sobro e de azinho. É seco de nariz e na boca mostra mineralidade, com evocação de giz. Tem uns taninos fantásticos, é racing e elegante, digamos o temperamento dum nobre na sua propriedade rural. Agora precisa de ser decantado com alguma violência ou aberto com antecedência. E vai aguentar-se anos. Reconheço que é uma bela touriga franca!

O Monte da Ravasqueira Syrah e Vignier (2012), em que a casta branca representa 3% do lote, é um vinho com frescura e vivacidade, que evolui bem no copo e interessante. Provei-o depois do vinho anterior. É belíssimo, mas é um menino ao pé do latagão. Definiria com a idiomática: «azar dos Távoras».

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Monte da Ravasqueira Syrah and Viognier – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Ponto de ordem e conclusão: frescura, desalinho dos perfis face à norma, falsas doçuras (bom!), complexidade e promessa de longevidade.

Contactos
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Website: www.ravasqueira.com

Vinho Verde Wine Fest…não há outra festa assim!

Texto José Silva

Foi a segunda edição dum festival que veio literalmente para ficar. Relativamente ao primeiro, que se realizou em 2014, foram feitas algumas rectificações e o festival mudou para a ala nascente exterior da Alfandega do Porto, disponibilizando o dobro do espaço e um parque de estacionamento para os expositores. E com uma melhor dispersão das áreas de restauração, cujo número também aumentou, beneficiando duma praça central, com muitas mesas e cadeiras.

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Rio Douro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com o rio Douro sempre ali bem presente, a marcar uma paisagem única onde até o tempo ajudou, mesmo à noite, com temperaturas muito amenas, a prolongar o prazer da conversa com um copo de vinho verde na mão.

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30 Produtores – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Mais de 200 vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foram quatro dias muito intensos, em que os 30 produtores presentes deram a provar mais de 200 vinhos e onde, no balcão dos cocktails, se preparavam propostas muito interessantes, como por exemplo um cocktail com verde tinto de vinhão, que se revelou sensacional.

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4 dias intensos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Cocktail Bar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O que por vezes fazia com que a fila fosse enorme!! Para completar tudo isto os cinco restaurantes e as quatro tasquinhas presentes, chegaram para todas as solicitações, desde o sushi às sandes de leitão, passando por petiscos tradicionais, comida de autor, pregos, hamburgueres e bifanas, presunto e até pão de ló. Entretanto e logo a seguir à abertura das portas, começavam as provas comentadas, divididas por duas salas, sempre esgotadas, tal o interesse dum público cada vez mais informado, até porque tem ali oportunidade de provar algumas novidades, apresentadas e comentadas pelos próprios enólogos, permitindo um diálogo directo com quem faz os vinhos e tem sempre muito a partilhar.

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Luís Lopes – – Foto Cedida por Vinho Verde | Todos os Direitos Reservados

Também houve provas comentadas por jornalistas do sector, e desta vez tivemos a presença de dois prestigiados jornalistas da Revista de Vinhos: Nuno Garcia e o próprio director desta revista, Luís Lopes. Do outro lado do recinto estava a sala dedicada em exclusivo aos showcookings. E foram 20 showcookings durante os quatro dias! Eu tive o privilégio de os acompanhar a todos, propondo para cada um dois vinhos que pudessem harmonizar com aquilo que os chefes iam propondo.

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Emília Jackson – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Também aqui houve uma novidade, a presença, logo no primeiro dia, de Emilia Jackson, a já célebre chefe que ficou em terceiro lugar no Masterchef australiano, uma simpática australiana a viver em Londres, que teve a ajudá-la uma não menos simpática Joana, também terceira classificada, mas no Masterchef português.

Claro que o público aderiu em massa, colocando alguns problemas à organização para explicar que não havia mais lugares.

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Ambiente de Festa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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RFM – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A dar um excelente ambiente a isto tudo, música muito bem escolhida, que à noite subia de tom e punha os corpos a mexer, num verdadeiro ambiente de festa, pois era mesmo disso que se tratava, da festa do vinho verde.

A RFM, sempre presente, ia fazendo entrevistas e dando informações, muitas delas em directo, fazendo também com que muito mais gente rumasse ao festival.

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Pessoas de todas as idades – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Por ali passaram pessoas de muitas idades, mas foi muito interessante ver gente jovem a apreciar os muitos vinhos verdes, comer um petisco e acima de tudo divertir-se e dar um toque salutar de juventude ao evento.

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Uma equipa vasta e jovem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Jovem era também a vasta equipa de produção do evento, da empresa Offe, incansáveis e a colocar no terreno toda uma experiência e sabedoria que faz toda a diferença. No sábado, o dia mais longo do festival, passava já das 3:30 da madrugada quando os últimos visitantes abandonaram o recinto…

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O parque de estacionamento foi “invadido” por 120 automóveis antigos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No último dia, domingo, o parque de estacionamento foi “invadido” por 120 automóveis antigos, num ambiente de grande beleza, que também atraiu muita gente. As portas fecharam à 20:00, mas eram já quase 22:00 quando a festa acabou mesmo!!

Está de parabéns a Comissão dos Vinhos Verdes, o seu presidente e toda a sua equipa de profissionais, sempre presentes, acompanhando a par e passo o evento.

Blend-All-About-VV-Wine-Fest-The promise of next year's edition was broadly advertised

Com a garantia amplamente divulgada de que para o ano há mais – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com a garantia amplamente divulgada de que para o ano há mais.

O Vinho Verde Wine Fest 2015 foi mesmo isso, uma grande festa do vinho verde…

Antonio Madeira Branco, agora como dantes

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes o voltar às origens torna-se essencial para fazer perdurar algo que tem ficado esquecido no tempo, neste caso o voltar atrás no tempo à procura de métodos e ideias que por motivos da suposta inovação foram ficando esquecidos. Corremos o risco nos dias de hoje, sufocados pelo reboliço da civilização moderna, em afirmar que a inovação não é mais do que uma volta ao passado. Sinais dos tempos e dos que a seu tempo, enveredaram por esses caminhos mostrando a todos que sim é possível e que sim vale a pena.

E o produtor António Madeira, lusodescendente que tem no Dão para além das suas raízes familiares uma paixão. E foi no Dão que se dedicou de corpo e alma a criar os seus vinhos, que são tal como já disse, um regressar ao antigamente, uma vontade de resgatar o Dão de um passado que teve com glória e que pouco ou nada tem a ver com a realidade actual. Para isso António teve de meter as mãos nas vinhas, foi entendendo as variações entre vinhedo e os solos onde moram, foi acima de tudo aprendendo com a região. Da mesma forma que António foi aprendendo, também foi ensinando e mostrando na saudável teimosia de quem acredita naquilo que faz e quer, conseguir resgatar do esquecimento o que outros já não queriam saber. As vinhas centenárias que salvou são hoje a sua maior riqueza, são também na sua essência a maior riqueza que o Dão tem para nos oferecer.

Blend-All-About-Wine-António Madeira Branco as good as ever

António Madeira Branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Nessas vinhas que soube ensinar a tornar a viver, mora a essência do lote onde surgem castas de nomes estranhos e engolidos pelo tempo. São em forma e conteúdo, as vinhas que davam origem aos vinhos que hoje apelidamos de clássicos e que construíram toda uma imagem de uma região. E como nestas coisas não faz quem quer mas apenas quem sabe, não será de estranhar o virtuosismo do António que com apenas três vinhos no mercado conquistou no imediato todas as atenções. Os seus vinhos falam por si, mas acima de tudo falam pela região do Dão e por aquele cantinho tão especial que escolheu encostado à Serra da Estrela.

No total controla 5 vinhas velhas com idades entre os 50 a 120 anos que entre os 500 e 600 metros de altitude moram em solos graníticos. Nesse field blend moram mais de 20 castas autóctones onde por vezes as brancas se misturam com as tintas, algumas em vias de extinção, onde neste caso a base é 75% Síria, Fernão Pires e Bical. Aqui não deixa de ser curioso que a existência da casta agora rainha de nome Encruzado, faz apenas parte do blend como sempre fez e onde no passado a sua existência a solo mais não era do que um mero exercício experimental. É pois este o seu primeiro branco, da colheita 2013, que resultou em pouco mais do que 600 garrafas fruto do trabalho de precisão e da vetusta idade das cepas cuja produção é bastante reduzida. António chama-lhe vinho de terroir, obviamente não poderia estar mais de acordo pois o vinho mostra um carácter tão diferenciador que apenas de aquele local poderia nascer um vinho assim. O António Madeira branco 2013 tem de delicado tem de profundo, denso e com uma bonita austeridade mineral que lhe domina os fundos. A fruta mostra-se limpa, pura, arrebitada e bonita, cheirosa com alguns ramalhetes de flores das giestas ali do campo. É daqueles vinhos que precisa de atenção, até de uma decantação prévia para que se mostre em condições, tal como no palato vincado pela força e austeridade do granito, muito boa acidez com a fruta a aconchegar. Sente-se alma e nervo, sente-se que temos aqui vinho para muitos anos, temos aqui um grande vinho do Dão. Perfeito a acompanhar peixes nobres de carne delicada ou simplesmente para apreciar em companhia de grandes amigos. Obrigado António Madeira.

Contactos
António Madeira
Tel: (+33) 680633420
Email: ajbmadeira@gmail.com
blog “A palheira do Ti Zé Bicadas

Blend associa-se a Evento com Vinhos Portugueses em Londres

Texto Bruno Mendes

A Blend – All About Wine tem como objectivo primordial e princípio orientador, contribuir para a promoção e divulgação dos vinhos portugueses em todo o mundo.

Foi com esse intuito que se associou à Sip & Savour para, em parceria, levarem a cabo um evento que terá lugar na próxima segunda-feira, 3 Agosto, em Londres.

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A Sip & Savour “realiza eventos de harmonizações enogastronómicas, nos melhores restaurantes de Londres e do Reino Unido, apresentados por jornalistas de vinhos e produtores premiados”.

Sarah Ahmed – The Wine Detective -, uma reconhecida especialista em vinhos portugueses (Presidente do painel de Portugal no Decanter World Wine Awards), vai apresentar, em nome da Blend, seis vinhos por si escolhidos e provenientes de seis dos melhores produtores portugueses das DOC Vinho Verde e Douro, a saber: Quinta do Ameal, Quinta de Soalheiro, Anselmo Mendes, Conceito Vinhos, Sogrape e Quinta do Portal.

Os vinhos escolhidos foram:

Quinta do Ameal Loureiro 2013Alvarinho Contacto 2014Alvarinho Primeiras Vinhas 2013Contraste Tinto 2012Vinha Grande Tinto 2012Quinta do Portal Moscatel do Douro Reserva 2004;

Blend-All-About-Wine-Blend-Teams-Up-London-Quinta-do-Ameal-Loureiro-2 Vinhos Portugueses

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Blend-All-About-Wine-Blend-Teams-Up-London-Casa-Ferreirinha-Vinha-Grande

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O espaço escolhido para a realização deste evento foi o Sixtyone Restaurant, um restaurante no sul de Maylebone, Londres, que em Setembro de 2014 recebeu três rosetas AA e é dirigido pelo Chefe anglo-francês Arnaud Stevens.

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Sixtyone Restaurant in sixtyonerestaurant.co.uk

Para este almoço Stevens criou um menu especialmente concebido para complementar os vinhos escolhidos por Sarah Ahmed.

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Chef Arnaud Stevens in sixtyonerestaurant.co.uk

Para uma visão mais detalhada e completa não perca o próximo artigo de Sarah Ahmed, aqui, na Blend – The Online Wine Magazine, a 13 de Agosto, que abordará o evento na integra.

Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Foi emocionante apresentar uma prova em nome da Comissão dos Vinhos do Alentejo num dos melhores novos restaurantes de Londres, a Taberna do Mercado. E o que é ainda mais emocionante é que, além do Chefe ser português, a comida e os vinhos também são. O que pode parecer uma coisa estranha de se dizer mas, até agora, o nome de Nuno Mendes esteve associado aos pratos inovadores e ecléticos do seu anterior restaurante estrela Michelin, o Viajante, e agora com o menu de sotaque americano no Chiltern Firehouse (onde é o Chefe principal).

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Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Numa entrevista com Nuno Mendes,há um par de anos atrás, deixou fugir a ideia de que tencionava abrir em Londres um restaurante “muito casual, divertido e moderno mas ao mesmo tempo rústico”. Mas havia um problema. Explicou que, apesar da “abundância de produtos únicos e de qualidade” em Portugal, era difícil de obtê-los. Porquê? A resposta foi que “a produção é muito limitada em termos de quantidade e também porque muito poucos produtores artesanais vêem potencial além do mercado local para expandir o seu projecto”.

Completamente à espera que Nuno Mendes tivesse ultrapassado estes desafios, perguntei-lhe o que tinha mudado desde a nossa última conversa. Perguntou-me “prefere a reposta simpática ou a resposta verdadeira?”. Naturalmente que respondi que queria a verdade! Admitindo “isto entristece-me”, Mendes demonstra continuar visivelmente frustrado pelo facto de, no Reino Unido, continuar a ser quase impossível obter os melhores produtos portugueses dos quais se pode sentir “super -orgulhoso”. Salientou que os importadores portugueses no Reino Unido “se destinam maioritariamente a abastecer a comunidade expatriada (em vez dos restaurantes topo de gama com clientes exigentes e viciados em comida). Fez-me lembrar de um ponto que Mendes tinha salientado quando nos conhecemos pela primeira vez, o quão importante era “estar ciente do que está a acontecer no mundo do vinho e da gastronomia de modo a conseguirmos encaixar na realidade das outras pessoas”. É por isso que, acrescenta, “tive que me afastar” de Portugal quando o Viajante abriu – a gama de produtos não se encaixava com a realidade estrela Michelin do restaurante. Não era “nada de espectacular”, e não podia contar com a consistência do fornecimento.

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Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

As boas notícias? Vendo a Taberna do Mercado como “um portal para chegar aos bons recursos de Portugal” diz-me que, “não vou desistir”. Mendes pode ter um discurso suave e um comportamento modesto, mas há uma determinação de aço nos seus olhos de quando revela a solução. Salientando que, “tenho muitos mais contactos que os importadores aqui sediados” (já para não mencionar a meticulosidade inerente a um Chefe Michelin em busca apenas do melhor), tenciona abrir o seu próprio negócio de importação/exportação. Afinal, a sua reputação depende disso. E está muito em jogo, ao mesmo tempo que diz que é prematuro, dados os problemas de fornecimento, apontar a comida portuguesa como a próxima grande novidade assim como sugeriu recentemente o The Daily Telegraph. É por isso que afirma que, “agora é que entra a parte da pesquisa… não podemos relaxar, temos de nos esforçar e trazer o melhor…temos de evoluir”. Não há espaço para a complacência.

Pouco depois da prova, parei para reflectir sobre os comentários de Mendes em relação ao vinho português quando um jornalista me perguntou porque é que ainda não atingiu o topo. Tenho o prazer de informar que o Reino Unido tem estado bem melhor servido em relação a importadores de vinho, em particular especialistas em vinho português, como a Raymond Reynolds e a Oakley Wine Agencies que têm ajudado os produtores seus clientes a navegar com calma no exigente mercado do Reino Unido. Mas se, como Mendes, tiver que ser uma amiga crítica de Portugal, a verdade é que ainda muitos produtores portugueses têm de encontrar maneira de encaixar nas realidades do mercado do Reino Unido, que é largamente reconhecido como o mais competitivo do mundo. Além disso, o ‘cellar palate’ (ficar demasiado habituado aos nossos próprios vinhos, incluindo as falhas) pode ser um problema. É por isso que os produtores de vinho com mais sucesso continuam a visitar o Reino Unido, para compreenderem onde os seus vinhos se encaixam melhor (e para compará-los com a concorrência). Também ajuda a certificar que continuam a ser vistos e ouvidos no nosso concorrido e barulhento mercado. Foi um desafio ao qual me predispus com gosto.

Felizmente, os oito produtores de vinhos que apresentei na minha masterclass na Taberna do Mercado estão representados no Reino Unido. Mas ainda há trabalho a ser feito já que o Alentejo construiu a sua reputação no Reino Unido numa base de tintos de grande valor, fáceis de abordar e frutados. O próximo passo é aumentar a visibilidade e valorização dos seus tintos e brancos premium, baseados no terroir, por entre os amantes de vinho de qualidade (os vinhos brancos representam agora 20% dos vinhos do Alentejo).

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Eu e Nuno Mendes a falar sobre o vinho e a gastronomia do Alentejo – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

A minha escolha de vinhos foi acompanhada pela opinião contemporânea de Mendes sobre os petiscos (como inseri-los na realidade do mercado do Reino Unido) e seguida de uma excelente prova de azeites do Alentejo conduzida por Teresa Zacarias da Casa do Azeite. Aqui estão as minhas notas relativamente aos vinhos, juntamente com algumas informações sobre o que individualiza esta escolha diversa em termos de terroir e vinificação. Como irá reparar, o Alentejo não é tão plano e ininterruptamente quente como estereótipos regionais nos fazem acreditar. Além disso, todas as uvas foram apanhadas à mão.

Herdade do Rocim Olho de Mocho Reserva Branco 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este monovarietal Antão Vaz vem da Vidigueira, uma das oito sub-regiões da DOC Alentejo. Apesar de ser a que fica mais a sul, tem uma longa tradição de produção de vinhos brancos. Porquê? Porque tem tudo a ver com a disposição da terra, especificamente, a falha da Vidigueira, uma escarpa de 50Km virada a oeste conhecida como a Serra do Mendro que marca a fronteira entre o Alto e Baixo Alentejo. Subindo até aos 420m de altura aprisiona os frios e húmidos ventos atlânticos que arrefecem a região com nevoeiros nocturnos. O ar frio também desce pela Serra do Mendro durante a noite. Além disso, quando os ventos do sul trazem nuvens, a escarpa causa um aguaceiro. Para a enóloga Catarina Vieira, estas são as razões pelas quais “os vinhos muito minerais, elegantes e frescos da Vidigueira envelhecem muito bem”. Acredita que os solos arenosos também melhoram a mineralidade da sua Antão Vaz, proveniente das suas melhores, cultivadas a seco (apenas água da chuva) e de baixa produção, vinhas velhas (24 anos).

Vinificação: Uvas colhidas à mão e cedo (a 3 e 4 de Setembro) de modo a preservar a frescura (sem acidificação necessária), o vinho fermentou em barris novos de Carvalho Francês de 300 litros, aproximadamente durante vinte dias. De seguida foram retiradas as borras e estagiou em barril por cinco meses. Durante esse processo, as borras foram envelhecidas durante dois meses em barris de 2ª mão com batonnage diária, aproximadamente durante um mês, e depois foram readicionadas ao vinho. Para Catarina, “este trabalho com as borras é muito importante no que toca a mineralidade, frescura e potencial de envelhecimento deste vinho”.

Notas de Prova: Graças ao trabalho com as borras, demonstra, no nariz, notas de fósforo ao ser acesso, e palato alimonado, com notas de azeitona verde, ananás verde e, ao abrir-se, pêra seca. Um final longo, firme e mineral com uma acidez atoranjada e atrevida que fez durar a minha garrafa de amostra até ao 3º dia. 13.5%

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Conservas da Casa ao estilo de Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Cartuxa Pêra Manca Branco 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: Este blend de 62% Antão Vaz e 38% Arinto vem de Évora, outra sub-região da DOC Alentejo. Desta vez do Alto Alentejo. A fruta foi seleccionada de três parcelas das vinhas mais antigas da Cartuxa, situadas em encostas que se elevam até 300 metros acima do nível médio das águas do mar. Plantadas em 1980 em solos graníticos castanhos, as vinhas foram cultivadas a seco.

Vinificação: Para este branco mais encorpado e tradicional, a fruta foi colhida à mão mais tarde e em três fases, para obter mais complexidade (12, 18 e 19 de Setembro). A seguir ao desengace e ao esmagamento, uma parte das uvas foi deixada em contacto com as peles antes da fermentação. Sessenta e sete por cento do vinho foi fermentado e envelhecido em borras durante 12 meses em barris (60% novos) de carvalho francês com batonnage, para potenciar o corpo, a complexidade e o potencial de envelhecimento. O equilíbrio foi envelhecido em aço inox (para melhorar a fruta) com muita batonnage (para o corpo). Não houve qualquer acidificação.

Notas de Prova: Nariz rico e a cera de abelha, com frutos de caroço, especialmente alperce perto do núcleo, cujas notas se prolongam no palato com um nogado pronunciado (marzipan/calisson fresco) e carvalho abaunilhado. Apesar de apresentar um pouco de volume, tem um esqueleto maduro mas picante, de acidez cítrica que confere equilíbrio e provoca um final longo, saboroso e a borras, com nuances de casca de limão e laranja. Um vinho poderoso, que frequentemente me recorda um Hermitage no Norte de Rhône, França. 13.5%

Monte da Ravasqueira MR Premium Rosé 2013(VR Alentejano)

Terroir: Este Rosé, 100% Touriga Nacional, é de Arraiolos, Évora, Alto Alentejo. Para o enólogo Pedro Pereira, a chave da frescura da gama Monte da Ravasqueira reside na variação muito patente da temperatura diurna da propriedade. Mesmo nos meses mais quentes, Julho e Agosto, em que as temperaturas podem atingir os 40ºC, à noite podem descer abaixo dos 10ºC. As noites frias ajudam as uvas a reter a acidez de uma melhor maneira; também é bom para os aromas e para a estrutura. Gonçalves atribui esta forte variação de temperatura à natureza topográfica, tipo anfiteatro, da vinha (os 45 hectares estão plantados em encostas que chegam até aos 270m), bem como à floresta adjacente e às barragens. Apesar de ser necessária uma irrigação suplementar, os solos argilo-calcários têm uma boa retenção de humidade e as mais exteriores, de solo granítico, parecem melhorar a mineralidade/frescura, tal como no Dão.

Vinificação: Uma vez que o estilo de Gonçalves gira à volta de “frescura + complexidade (uma matriz de sabores) + natureza varietal + intensidade + concentração”, seleccionou a fruta a partir de cinco parcelas diferentes (por linha de orientação-exposição, tipo de solo e gestão da vinha). Fruta colhida à mão em diferentes dias, compreendidos entre 8 e 27 de Setembro. As uvas foram mantidas em contentores frigoríficos entre 2 a 20 dias, a 2ºC, para a concentração e para melhorar o potencial aromático e a fruta. Duas parcelas foram prensadas directamente para barris novos de carvalho francês e fermentadas naturalmente com batonnage em sólidos. As outras três foram primeiramente repousadas e inoculadas com levedura, antes de serem transferidas para barris novos de carvalho francês no segundo dia de fermentação. As cinco parcelas foram então envelhecidas em borras durante seis meses, com batonnage suave durante os primeiros 2 meses.

Notas de prova: A Touriga Nacional parece encaixar bem nos vinhos rosés e este é um exemplo incomum. Salgado mas frutado, encorpado mas fresco. É absolutamente delicioso com borras cremosas e salgadas, delicados morangos silvestres, bolinhos de morango e chá de pêssego refrescante. Acidez mineral confere frescura e persistência num final duradouro.

Susana Esteban Aventura Tinto 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este primeiro tinto é do Alto Alentejo mas é um blend das sub-regiões DOC. Esteban selecciona a Aragonês e a Touriga Nacional (40% e 20% da blend respectivamente) de um vinhedo com 15 anos, em Évora, a 300m de altura em solos argilo-calcários. O equilíbrio vem da mistura de um field blend em Portalegre, a sub-região mais a norte do Alto Alentejo, com 30 anos. Não é só a localização a norte que faz com que Portalegre seja a área mais fria e húmida do Alentejo. A Serra de São Mamede – a mais de 1000m de altitude, o ponto mais alto do Sul de Portugal – confere uma considerável elevação (até 800m) e solos graníticos pobres. Uma vez que o objectivo de Esteban é “produzir um vinho fresco, com carácter mas ao mesmo tempo apelativo”, vai a Portalegre buscar a frescura e a austeridade, ao passo que Évora providencia o calor que a enóloga pensa ser necessário para que a Touriga Nacional e a Aragonês precisam para demonstrar o seu potencial (Salientando que “tenho em atenção para escolher apenas com 13% a 13.5% de álcool”).

Vinificação: as uvas são colhidas à mão e fermentadas naturalmente (sem nenhuma acidificação) em pequenos lagares de inox a temperatura controlada. Aprecio bastante o facto de Susana se ter focado apenas na fruta e na frescura – este vinho é unoaked.

Notas de prova: fantástica textura e vibração (pensem em veludo esmagado) de frutas silvestres em puré (assim parece), puras e acabadas de colher. Taninos suaves e uma jovem acidez reforçam o imediatismo encantador deste tinto jovial. Adorável. 13.5%

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Casa do Porco Preto, Alentejo na Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Herdade de São  Miguel Reserva 2012 (VR Alentejano)

Terroir: A Herdade de São Miguel está situada na sub-região (DOC) Redondo do Alto Alentejo. Para Alexandre Relvas júnior, a Serra d’Ossa (que sobe até 650m) abriga as vinhas de Redondo dos ventos que sopram de norte e de este, e providencia invernos secos e frios, em contraste com os verões quentes e ensolarados. A vinha está localizada a 400m de altitude em solos de argila/xisto de baixo rendimento que produzem bagas pequenas e concentradas. Este vinho é um blend composto por 80% de Alicante Bouschet, 15% Aragonez e 5% Cabarnet Sauvignon proveniente de vinhas com 13 anos de idade.

Vinificação: fruta colhida à mão é totalmente desengaçada e sujeita a 48h de absorção antes da fermentação em lagares de inox abertos com pigeurs automáticos para uma extracção mais suave. Também é sujeito a uma pequena oxidação natural para “ajudar a corrigir logo à partida a cor e os taninos”, diz Relvas. Foi envelhecido durante 12 meses em barris de carvalho francês de 400 litros (50% novos).

Notas de Prova: nariz intenso a groselha e amora com toque de madeira abaunilhada e nuances de xisto empoeirado, que seguem durante o suculento palato com uma frescura adorável. Apesar de representar apenas 5% do blend, a Cabarnet Sauvignon é bastante evidente no perfil de sabor (groselha com notas de menta) e taninos finos, minerais e de cascalho. Não tem a concentração ou complexidade dos vinhos (mais caros) que se seguiram, mas é equilibrado e persistente. Muito bem feito, suporta bem os seus 15% de volume.

Quinta do Mouro Touriga Nacional 2010 (VR Alentejano)

Terroir: Este monovarietal de Touriga Nacional é de Estremoz, na sub-região Borba (DOC) do Alto Alentejo. Fica a norte de Redondo e da Serra d’Ossa, o que confere um pouco de protecção dos ventos quentes a sul. Uma vez que a Quinta do Mouro está situada a 420m de altitude, a elevação também tempera o clima, da mesma maneira que as descidas bruscas de temperatura durante a noite, as quais, segundo o enólogo Luís Louro, podem ser 20 graus abaixo da temperatura durante o dia, “especialmente nas últimas fases de amadurecimento, e os nevoeiros são comuns”. Solos xistados e vinhas cultivadas a seco também contribuem para o estilo muito estruturado, característico e de bom envelhecimento dos tintos da Quinta do Mouro. Proveniente de uma vinha do Douro “muito boa” de 1998, a Touriga Nacional foi enxertada em vinhas de Castelão que tinham sido plantadas em 1989.

Vinificação: uvas colhidas à mão e parcialmente desengaçadas, deixando cerca de 10% do cacho para obter um pouco mais de estrutura e sabores mais frescos. As uvas foram pisadas a pé em lagares e foram sujeitas a dois dias de absorção a frio antes da fermentação. Terminaram a fermentação em tanques inox de temperatura controlada e, após a prensa, foi envelhecido durante 12 meses em barris novos de carvalho francês de 300 litros.

Nota de prova: cor de ameixa, opaca e profunda, com perfume exótico de bergamota que eleva o concentrado palato a framboesa, ameixa e baunilha, juntamente com notas vivas e apimentadas, sálvia seca e hortelã. Taninos com uma textura acamurçada clivam os sabores no palato, ampliando a sua intensidade e a ressonância do palato. Poderoso, um pouco selvagem, mas equilibrado. Um carismático monovarietal de Touriga. 14%

João Portugal Ramos Marquês de Borba Reserva 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: também de Estremoz, este blend compost por 30% Trincadeira, 30% Aragonês, 25% Alicante Bouschet e 15% Cabarnet Sauvignon vem da vinha original de João Portugal Ramos. As vinhas, plantadas em 1989, estão situadas à volta de sua casa e têm sido a fonte do seu vinho desde que foi feito pela primeira vez, em 1997. Localizadas a 350m em solos de xisto muito velhos.

Vinificação: As uvas foram colhidas à mão durante a noite e de manhã cedo. Parcialmente desengaçadas (50%) e início de fermentação (natural) em lagares de mármore com pisa a pé. Para Ramos, as vantagens dos lagares incluem, uma maior área de contacto entre o líquido e a parte sólida do mosto, homogeneização suave do mosto (porque é formada uma camada mais fina em comparação com os tanques normais) e a estética do mármore local (que, por acaso Nuno Mendes também utiliza nos tampos das mesas na Taberna do Mercado). O último terço da fermentação é feito em tonéis de inox, beneficiando de temperatura controlada. A maceração pós-fermentação dura, normalmente, duas semanas. O vinho estagia depois durante 18 meses em barris de carvalho francês de 225 litros (dois terços dos quais são novos).

Notas de prova: um tinto muito polido, com tabaco e caixa de charutos no nariz e no palato. Frutos vermelhos a dominar o ataque, enquanto a Cabarnet se torna mais assertiva com o desenrolar, conferindo groselha bem definida e um revestimento pulverizado de taninos finos mas em pó que ganham vida na boca. Seco, firme, focado e muito fino com uma excelente frescura a equilibrar. O mais fechado dos tintos, com um grande potencial de envelhecimento. 14.5%

Herdade do Mouchão 2010 (VR Alentejano)

Terroir: este blend com cerca de 70% Alicante Bouschet e 30% Trincadeira é de um dos produtores mais estabelecidos da região, a Herdade do Mouchão, que pertence à mesma família desde 1874. Mouchão foi a primeira vinha de Alicante Bouschet a ser plantada e os vinhos actuais denotam a sua origem genética do século 19. Mouchão fica em Sousel, a norte de Borba, no Alto Alentejo. A Alicante Bouschet é seleccionada de várias parcelas perto da adega, a cerca de 230m de altitude, com idades entre os 10 e os 30 anos. Situada num triângulo entre dois pequenos rios, os solos arenosos superiores são bem drenados mas o barro das profundezas retém a humidade que permite um amadurecimento equilibrado e confere frescura e boa acidez. A imagem de marca do Mouchão é o grande potencial de envelhecimento. A Trincadeira de peles finas beneficia por ter sido plantada mais alta, em solos bem drenados a cerca de 400m de altitude.

Vinificação: este vinho, o mais tradicional, teve as suas uvas apanhadas à mão e fermentadas nos lagares de pedra originais da adega com 100% de engace. Depois é envelhecido em grandes e velhos toneis de 5000 litros durante dois ou três anos. Estagia ainda mais dois a três anos em garrafa antes de ser lançado no mercado.

Notas de prova: uma cor muita profunda com um palato e nariz muito complexos – é quase uma refeição – mas equilibrados. O Mouchão 2010 tem camadas de figo maduro seco, azeitona preta e pele incipiente com um floral tintado, tabaco, whisky berber (chã de menta estufado) e notas de eucalipto. Robusto, picante, taninos orientados à uva ganham vida na boca, mas no entanto está tudo bem integrado – nem um pouco agressivo. Um final muito longo e envolvente com um travo do calor da terra desta propriedade. 14%

Herdade do Sobroso, vinhos alentejanos com temperamento especial

Texto João Barbosa

A memória não é o que foi e ainda assim lembro-me, de há uns anos, ter visitado a Herdade do Sobroso, estava tudo muito no começo. O fundamental já lá estava: a vinha, o território florestal e a simpatia.

Herdade do Sobroso – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Agora, retornado com mais tempo, apercebi-me do empreendimento já constituído, na vertente vínica e no enoturismo – que alia o Alentejo, nas cores do seu calor, e à cidade pelo modo contemporâneo e sem a tão comum frieza. Um bom gosto a que não é alheio o traço do arquitecto Ginestal Machado, uma referência na reconhecida Escola do Porto, que já deu a Portugal dois prémios The Pritzker Architecture Prize – o «Nobel» da arquitectura.

Quando Ginestal Machado comprou estes 1.600 hectares, em 2000, estava tudo por fazer, resultado do pouco empenho de anteriores proprietários. Muito já se fez e a natureza não pára. Este domínio é também uma coutada de caça – o que não admira a variedade e quantidade de bicheza avistada, quando dei uma volta de todo-o-terreno com Filipe Teixeira Pinto, operacional da casa e enólogo residente.

Senti-me em reportagem para a National Geographic Magazine: veados, muflões, coelhos, lebres, perdizes, codornizes, javalis, patos bravos… Consta que os Sus scrofa (oink oink) costumam ser grandes e pesados e que um dia foi caçado um com mais do que o dobro do peso média registada na Herdade do Sobroso.

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Piscina – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Vinho não é tudo, mas é o tema da crónica – e vou longo em muita coisa. O Alentejo é uma região, a maior portuguesa – cerca de um terço de Portugal continental, com mais de 31.551 quilómetros quadrados –, mas nela cabem realidades diferentes. A Herdade do Sobroso situa-se na Vidigueira, zona com Denominação de Origem Controlada, e famosa pelos seus vinhos brancos. Este domínio, pela orografia e pela margem do Rio Guadiana, consegue uma frescura que, muitas vezes, está ausente em néctares alentejanos. Filipe Teixeira Pinto tem o apoio, como consultor, de Luís Duarte.

Dos 1.600 hectares, apenas 52 estão ocupados com vinha. O encepamento é formado por castas locais, nacionais e internacionais. As brancas são todas portuguesas: alvarinho, antão vaz, arinto, perrum e verdelho. As tintas são mais «viajadas»: alicante bouschet, alfrocheiro, aragonês, cabernet sauvignon, syrah e tinta grossa.

O primeiro vinho foi posto à venda em 2008, referente à vindima de 2006. A linha condutora é a da frescura, que traz elegância. Penso que, sabiamente, estão a travar o caminho da pujança alcoólica, característica quase inevitável nas regiões quentes. O rosado tem 12,5% de álcool e os brancos 13%, o que nos tempos que correm é quase raro.

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Sobro Rosé 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Pela graduação alcoólica já se percebeu que o rosado não é um subproduto dos tintos. As uvas são colhidas antes das brancas. O Sobro rosé 2014 consegue reunir dois desejos, pois vai bem (perigosamente) em conversas descontraídas e acompanha comidas delicadas. Foi todo feito com uvas de alicante bouschet.

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Anas branco 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Os muitos patos bravios que ali vivem inspiraram a marca de entrada de gama, Anas – a família desta ave palmípede é a Anatidae. O Anas branco 2014 é um diálogo entre as castas antão vaz, quente alentejana, e a arinto, nacional e muito fresca. Esta parelha resulta bem (vários produtores estão a recorrer a este casamento), até porque se deu travão à autóctone, sob pena de pesar como chumbo, sendo colhida «precocemente» (no tempo correcto). É guloso e pede cadeira diante duma vista agradável.

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Sobro branco 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Sobro branco 2014 é mais indicado para acompanhar comida. Mais uma vez, a equipa técnica evitou que as uvas de antão vaz esborrachassem o vinho. A elas se somaram as de perrum e arinto.

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Sobro tinto 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Sobro tinto 2014 fez-se com uvas de aragonês, alicante bouschet, cabernet sauvignon e syrah. Aqui a minha nota vai para o belo cabernet sauvignon, que lhe confere virtudes. Infelizmente, em Portugal nem sempre se sabe trabalhar bem com esta casta – ou não será suposto por inadaptação. Aqui não se trata de pimentão.

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Herdade do Sobroso tinto 2013 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

No Herdade do Sobroso tinto 2013 encontrei o Alentejo. Os outros têm-no, mas este «nasceu lá e vive lá». O lote tem o sotaque cantado, pelas uvas de aragonês, alicante bouschet e alfrocheiro. Cuidado, que os frutos vermelhos e o chocolate são como duendes que distraem a atenção… 14% de álcool. É para ir para a mesa e o que me ocorre é «carne do alguidar», uma iguaria típica alentejana, que consiste em entrecosto temperado com massa de pimentão e muito alho, acompanhado por migas.

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Herdade do Sobroso Cellar Selection tinto 2013 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Herdade do Sobroso Cellar Selection 2013 (tinto) é uma coisa à parte, que representa o gosto dos proprietários, um vinho com assinatura. O casamento entre o alicante bouschet e o syrah é de estremecer e, novamente, a frescura torna-o perigoso, aqui são 14,5% de álcool. É um grande vinho. Em termos de gosto pessoal, é este que escolho.

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Herdade do Sobroso Reserva tinto 2012 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Por fim, o cume. O Herdade do Sobroso Reserva 2012 (tinto) é também um vinho de excelência, com elegância, vontade de comida e conversa prolongada num serão sem horas para terminar. O lote fez-se com uvas de aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon. Aqui, mais notória, a francesa dá-lhe «um piquinho», especiarias e verdura, a temperar o chocolate de cozinha, cerejas maduras e baunilha. Novamente, rédea curta, que são 14,5% de álcool.

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