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Quinta de La Rosa – vinhos concentrados e elegantes

Texto João Barbosa

A família Bergvist chegou a Portugal para produzir pasta de papel, a partir da madeira de pinheiro, instando-se em Albergaria da Serra, junto Rio Caima, perto de Constância, banhada pelo Tejo. Mais tarde passaria a utilizar o eucalipto.

O engenheiro sueco D. E. Bergqvist depressa aprendeu onde fica a cidade do Porto, vindo a casar-se com Claire Feueheerd, proveniente duma família no negócio do Vinho do Porto desde 1815. A Quinta de La Rosa, junto ao Pinhão, foi dada presente pelo técnico à sua apaixonada.

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Quinta de La Rosa – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

A data de 1815 é importante, pois foi é a data da Batalha de Waterloo e do fim do império de Napoleão. O antepassado Feueheerd veio para a cidade Porto, uma vez que precisava de reconstruir a vida, visto ter estado do lado do imperador francês enquanto político da cidade livre hanseática de Bremen. Curiosamente chegou a um país que lutou contra França e instalou-se numa cidade com forte presença inglesa nos negócios.

A propriedade chamava-se Quinta dos Bateiros e do outro lado fica a Quinta das Bateiras e um presente deve ser único, nomeadamente no nome. Porquê La Rosa? Sim, uma propriedade no Douro com um nome castelhano? Para mais com as diferentes origens da família… É que o pai de Sophia Bergqvist – que hoje dirige o negócio – tinha uma marca de Xerez chamada La Rosa. Ainda assim devo sublinhar que o artigo «La» foi usado durante séculos em português, como a famosa nau «Flor de La Mar» que se afundou com um enorme tesouro, em 1512.

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Sophia e Tim Bergqvist – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

É um passado distante, que daria para horas. A história recente da Quinta de La Rosa tem um marco no ano de 1988, quando produziu o seu primeiro vinho. Até essa data, os Bergqvist vendiam as uvas à Sandeman, um negócio iniciado em 1938. Apenas em 1985 é que o Vinho do Porto passou a poder estagiar no Douro, deixando de ser obrigatório fazê-lo em Gaia. Mas «o primeiro vinho a sério foi em 1991», diz Sophia Bergqvist.

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As vinhas íngremes – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

A Quinta de La Rosa é muito íngreme e com diferentes exposições solares. A conjugação dos factores luz, temperatura e altitude contribuem para a complexidade dos seus vinhos. Jorge Moreira, o enólogo, garante que ali os vinhos só podem sair muito concentrados, pois é a natureza que o impõe.

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Jorge Moreira – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

Penso que os tintos saem beneficiados, embora os brancos não deixem de ser de grande qualidade. O Quinta de La Rosa Branco 2014 traduz-se em mineralidade e notas de casca de limão verde e de pêra pouco madura. É um lote de gouveio, rabigato, malvasia, viosinho e códega de larinho.

O Quinta de La Rosa Branco Reserva 2014 é mais potente e exige comida na mesa. É bem seco e fresco, dominando os aromas de limão e tangerina, com notas abaunilhadas. Aqui, o carácter mineral é menos evidente. As castas são as mesmas do anterior.

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Quinta de La Rosa branco – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa branco Reserva – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa Rosé – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

O Quinta de La Rosa Rosé 2014 ficou aquém do que esperava. A soma das uvas de touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz não transmitiram o Douro. Não sendo pesado, os 13,5% de álcool tornam-no contra-indicado para o almoço.

Os primeiros vinhos que conheci da Quinta de La Rosa foram os tintos e logo me apaixonei. Penso que estão uns socalcos acima dos brancos e bem acima do rosado. O douROSA Tinto 2013 é um retrato do Douro que mais gosto, com a terra de xisto e as ervas bravias secas. É seco sem ser austero e fez-se com touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz.

O Quinta de La Rosa Tinto 2012 partilha esses traços identitários com o anterior e acrescenta alfarroba, menta, pimenta branca. É longo na boca. Um belíssimo vinho.

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douROSA tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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La Rosa Reserva tinto – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

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Quinta de La Rosa Vintage Port – Foto Cedida por Quinta de La Rosa | Todos os Direitos Reservados

Um grande vinho – mesmo grande – é o La Rosa Reserva Tinto 2012. Tem tudo o que se pode esperar da região, desde a mineralidade do xisto, às cerejas, framboesas, geleia de morango, gomas pretas e chocolatinhos After Eight. Taninos muito agradáveis, vai como veludo. É fresco… e são 14,5% de álcool. Quase todo de touriga nacional, com uma parte de touriga franca.

O Quinta de La Rosa Port Vintage 2012 ainda está fechado, vai revelando alfarroba, cereja e um ramalhete de notas florais ainda pouco nítidas. É untuoso e vai longo. Dêem-lhe uns anos.

Contactos
Quinta de la Rosa
5085-215 Pinhão
Portugal
Tel: (+351) 254 732 254
Fax: (+351) 254 732 346
E-mail:holidays@quintadelarosa.com
Website: www.quintadelarosa.com

Quinta do Cume, com Provesende a seus pés…

Texto José Silva

Jorge Tenreiro e Cláudia Cudell são os donos da Quinta do Cume, em Provesende.

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Jorge Tenreiro e Cláudia Cudell – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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A casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Ele é cirurgião vascular, ela pintava quadros belíssimos. Ele continua de bisturi na mão diariamente, mas descobriu a tesoura de poda e outros instrumentos com que trata “cirurgicamente” as suas vinhas; ela quase já não pinta, pois dedicou-se de alma e coração à comercialização dos vinhos que ambos adoram fazer, com a sabedoria do enólogo e amigo Jean-Hugues Gros, um francês que já é mais duriense que muitos durienses. Foi apenas em 1998 que Jorge Tenreiro comprou os terrenos onde, sempre com a mulher ao lado, haveria de construir uma casa magnífica e começar a plantar vinha, sobretudo de uvas brancas.

Até que, em 2006, começaram a produzir vinho branco e um pouco de rosé.

Em 2009 começaram também a fazer tinto, tendo comprado vinhas velhas na parte de baixo da aldeia e  fazem tintos que hoje são já bastante apreciados.

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Vinhas Velhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá em cima, as vinhas de uvas brancas dominam a paisagem.

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As vinhas de uvas brancas dominam a paisagem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E são sobretudo de Malvasia-Fina, com um pouco de Rabigato e Viosinho. Os mais de 600 metros de altitude dão-lhes a frescura e a elegância, os terrenos xistosos e pobres dão-lhes a mineralidade. Entretanto a produção foi evoluindo, e passaram a produzir um vinho branco Reserva todos os anos, um tinto Selection e um tinto Reserva, e o tinto Flor do Cume, este só para exportação. Naquele ano fabuloso que foi 2011, fizeram um tinto muito especial, o Grande Reserva, até hoje a única colheita, numa edição limitada a 1540 garrafas e 90 magnum. Actualmente a produção total da Quinta do Cume é de cerca de 40.000 garrafas.

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A Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Entretanto construíram uma adega, pequena mas moderna, que chega para as encomendas. O que não chegava era a localização do engarrafamento, que provocava verdadeiros “engarrafamentos” na adega, e por isso estão a construir um armazém para produto acabado, engarrafamento e rotulagem. Seguidamente vai ser uma fantástica sala de provas, que vai nascer do meio duma vinha, com o bom gosto habitual deste casal. E que, uma vez mais me recebeu com simplicidade para um almoço que teve tanto de simples como de delicioso.

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Salmão – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para abrir o apetite um salmão fumado com gotinhas de limão soberbo.

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Alheira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Ovos estrelados – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois umas alheiras ali da aldeia tostadinhas e estaladiças, na companhia de ovos estrelados, batata cozida e couve salteada, estas bem regadas de azeite, tudo acompanhado de pão da aldeia, cozido em forno de lenha.

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Batatas cozidas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Pêssego – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para sobremesa, uma deliciosa salada de pêssegos da quinta, não foi preciso mais nada.

Começamos com o Reserva branco 2014 em comparação com o 2013, e que bem lhe faz um ano de garrafa: elegante, fragrâncias de fruta branca e flores do monte, na boca tem acidez acentuada, frescura, notas de citrinos e alguma baunilha, tudo muito suave e bem casado. O 2014 está pleno de juventude, frutado, intenso, vai ser um belo vinho.

Para “atacar” as alheiras provou-se o Selection tinto 2013 e o Reserva tinto 2012. O Selection é um vinho moderno, com um leque vasto de harmonizações, suave mas persistente, muita fruta madura, fresco e apetecível, a pedir comida.

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Quinta do Cume Reserva branco 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Selection tinto 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Reserva tinto 2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Cume Grande Reserva 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O tinto Reserva tem aromas mais intensos, frutos vermelhos, notas de madeira, fumo e especiarias. Mas ao mesmo tempo tem frescura e muito boa acidez, é aveludado e muito elegante.

Ainda demos um salto ao Grande Reserva 2011, um tinto sério, concentrado, austero, com aromas exóticos. Na boca tem óptimo volume, notas de fruta preta, ligeiro toque de chocolate preto, bela acidez e final muito longo. Para guardar uns bons anos. Quando chegou a salada de pêssego, voltamos ao branco 2013, que se tinha mantido em gelo, e o casamento foi perfeito.

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Provesende – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá em baixo, continuava a pacatez da aldeia de Provesende…

Contactos
Quinta do Cume
5060-261 Provezende
Portugal
Tel: (+351) 91 445 7550
E-mail: quintadocume@netcabo.pt
Website: www.quintadocume.pt

Ramos Pinto – Duas Quintas 25 anos de História

Texto João Pedro de Carvalho

A casa Ramos Pinto foi fundada em 1880 por Adriano Ramos Pinto ao qual se juntou o seu irmão António. Numa casa onde a inovação e a mentalidade empreendedora sempre andaram de mãos dadas, destaca-se para o caso o nome de José Ramos Pinto Rosa que executou em conjunto com o seu sobrinho João Nicolau de Almeida o importante projecto da selecção das cinco castas recomendadas para o Douro, tanto para Vinho do Porto como para vinho de mesa. Inspirado no seu pai, Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, João Nicolau de Almeida cedo entendeu que parte do segredo seria juntar uvas de altitude (mais acidez) com uvas de maior maturação, provenientes de cotas mais baixas. Desta forma juntaram-se as uvas da Ervamoira (150m de altitude) com Bons Ares (600m de altitude), o nome pois claro seria Duas Quintas e após alguns ensaios seria lançado pela primeira vez com a colheita de 1990.

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Casa Ramos Pinto – Foto de Ramos Pinto | Todos os Direitos Reservados

O Duas Quintas foi à época uma inovação e um desafio que uniu às mais modernas técnicas de vinificação os tradicionais lagares, num projecto pensado de raiz e mais uma vez pioneiro na região e catalisador do surgimento de um “novo Douro”. Em 1991 iria surgir o Duas Quintas Reserva e em 1992 o Duas Quintas branco. Ao longo de 12 vinhos fomos tomando pulso aos 25 anos de História que a mestria de João Nicolau de Almeida nos ia traduzindo em vinhos e palavras.

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Vinhas de Ervamoira – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Num breve apanhado pelos vinhos que mais me marcaram a prova começou com um magnífico Duas Quintas branco 2000 apresentado numa bela e esguia garrafa renana, decantado e servido o vinho no imediato deixou todos literalmente boquiabertos. Uma combinação entre frescura e toques de lápis de cera, com tisana e flores onde a fruta combina alternadamente entre a frescura e os toques mais untuosos da geleia. É daqueles vinhos que apetece beber e ter em casa mais umas quantas garrafas guardadas. Ao seu lado foi apresentado o Duas Quintas branco 2014 que mostrou toda a genica da sua juventude, quiçá irreverente onde dá para antever que o seu futuro também será de grande categoria.

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Deanter Branco – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Deanter Tinto – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Demos entrada nos tintos, com o primeiro de todos, aquele que foi o início, o Duas Quintas 1990. Um vinho muito bonito, cheio de vida e onde a fruta parece rejubilar de alegria com tanto morango e framboesa fresca, muita energia com aromas terciários de muito bom-tom, cantos bem arredondados mas cheio de finesse e com uma presença de boca de fazer inveja. Um clássico em toda a linha tal como o eloquente Duas Quintas Reserva 1991 que foi o primeiro Reserva e teve a capacidade de elevar o patamar da qualidade muitos furos acima do que existia para a época na região.

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Duas Quintas 1990 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Da colheita de excepcional qualidade, 1994, surgiram em prova os dois tintos. Comparando o Duas Quintas 1994 com o 1990, mostrou-se a meu ver melhor e com mais presença da fruta, algum vegetal num todo muito equilibrado. Já o Duas Quintas Reserva 1994 num perfil clássico de um grande tinto do Douro, nobre e cheio de carácter, muito complexo a combinar a frescura da fruta com um toque de caramelo de leite, uma delícia.

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Os vinhos em prova – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O final da prova seria com os vinhos do novo milénio, tal como o branco também o Duas Quintas Reserva 2000 se mostrou um colosso a caminho do estrelato, denso, coeso e com muita frescura, tudo em grande onde só o tempo o poderá domar. O último vinho, Duas Quintas 2013 é bastante tentador, amplo de aromas com bonito perfume, tudo muito novo e cheio de energia, dentro do carácter e perfil que os vai guiando nesta fantástica viagem que começou em 1990.

Contactos
Av. Ramos Pinto, 380
4400-266 Vila Nova de Gaia
Portugal
Telefone: (+351) 223 707 000
Fax: (+351) 223 775 099
Email: ramospinto@ramospinto.pt
Website: www.ramospinto.pt

Os tintos da Herdade da Farizoa

Texto João Barbosa

A Companhia das Quintas, não sendo um gigante do negócio em Portugal, tem um leque de propriedades espalhadas por diferentes regiões. De cima para baixo: Quinta da Fronteira (Douro), Quinta do Cardo (Beira Interior), Quinta de Pancas (Lisboa) e Herdade da Farizoa (Alentejo).

Possivelmente, o território no Alentejano seja o menos conhecido. A Quinta de Pancas tem já uma longa vida como referência no panorama português, a Quinta do Cardo é um caso raro de reconhecimento de vinhos da sua região, a Quinta de Fronteira está no mediático Douro e a Herdade da Farizoa, embora na região portuguesa de maior sucesso de vendas, tem mais competidores de dimensão.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A Herdade da Farizoa foi comprada em 2000 e a adega construída no ano seguinte. Uma característica não muito comum: não se fazem brancos. O pomar de videiras é composto por alicante bouschet (oito hectares), alfrocheiro (quatro hectares), aragonês (15 hectares), cabernet sauvignon (6,5 hectares), syrah (5,5 hectares), touriga franca (menos de um hectare), touriga nacional (6,5 hectares) e trincadeira (dez hectares). Havia dois hectares com tinta caiada, que foram arrancados. Encontram-se em pousio para virem a ser cultivados com alicante bouschet.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A vinha ocupa uma pequena parte da propriedade – pequena para o padrão alentejano, com 156 hectares. O espaço está arrendado e é dominado por montados, de sobro e azinho, e pastagens. Existem um olival de quatro hectares. O solo é uma mistura de argila, mármore e xisto. Situa-se no concelho de Elvas e dentro da demarcação de Borba.

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

A empresa tem vindo a realizar uma reestruturação, inicialmente apenas de actividades administrativas e comerciais. A saída dos enólogos Nuno do Ó, que abraçou negócio por sua conta, e de João Corrêa, por doença, levou à contratação de Frederico Vilar Gomes para dirigir as operações de campo e enologia. É jovem e já confirmado como um dos melhores técnicos do país.

Sangue novo que trouxe inovação, alguma com um certo risco. Há liberdade para experiências. Frederico Vilar Gomes atribui responsabilidade e liberdade aos enólogos residentes em cada propriedade, pois são eles, melhor do que ninguém, a conhecer o terreno, o ambiente e as uvas. Visitei uma outra propriedade e provei uma amostra… as opiniões dividiram-se, mas se o técnico da quinta acredita, então que se faça o ensaio.

Na Herdade da Farizoa é Joaquim Mendes quem manda. Ali fazem-se os Portas da Herdade, Herdade da Farizoa, Herdade da Farizoa Reserva e Herdade da Farizoa Grande Reserva (anteriormente designado por Grande Escolha).

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Portas da Herdade – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

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Heradade da Farizoa Grande Reserva – Foto Cedida por Herdade da Farizoa | Todos os Direitos Reservados

O Portas da Herdade 2014 é uma aposta segura para os dias ao ar livre, acompanhando bem carnes greladas. É macio e escorregadio. É um lote de alicante bouschet (5%), aragonês (40%) sirah (15%) e trincadeira (15%).

O Herdade da Farizoa também alinha pela juventude e fruta, mais guloso que o anterior. Aragonês (50%), syrah (30%) e touriga nacional (20%) mostram-se bem casadas. Vai bem com os grelhados, mas massas também resultam.

O Herdade da Farizoa Reserva 2010 é um alentejano feito com touriga nacional (67%) e syrah (33%). É mais uma prova da plasticidade da casta portuguesa e da boa adaptabilidade da francesa. Ponho-o na mesa no Outono, com comidas mais fortes, mas madrugadoras face ao Inverno.

O Herdade da Farizoa Grande Escolha 2009 é um vinho que me surpreendeu. Sendo o Alentejo uma região quente e embora esta propriedade empreste frescura, a vivacidade ultrapassou as minhas expectativas. Sem marca de oxidação, com aromas de menta, restolho de trigo, pimenta branca e rosas secas. Chega com doçura e finaliza seco.

O Herdade da Farizoa Grande Reserva 2012 traz feições do mano mais velho, como a menta e o restolho do trigo. Para quem tem sangue alentejano, como eu, o perfume da lenha de azinho dá grande conforto. Somem-se-lhe pitadas de noz-moscada e erva-doce. Na boca mostra amoras e mirtilos, terra seca, cacau. Tem estrutura e fibra, mas sem bruteza. Não vem tão doce quanto o anterior e termina seco. Este é um lote de syrah (75%) e touriga nacional (25%).

Contactos
Herdade da Farizoa
7350-491 Terrugem
Tel: (+351) 268 657 552 | (+351) 93 80 90 518
Fax: (+351) 268 107 190

Quinta de Lemos, um Projecto de Vida…

Texto José Silva

Celso de Lemos é um beirão que ainda novo emigrou para a Bélgica, onde se formou em engenharia química. Foi construindo ao longo da vida um verdadeiro império no mundo das roupas de cama e de casa de banho de qualidade superior. De tal forma que hoje a sua marca está um pouco por todo o mundo, equipando hotéis de luxo e casas de gente bem conhecida do mundo do espectáculo e do desporto. Mas este português de sucesso nunca perdeu a sua simplicidade e bom humor, sendo uma pessoa muito acessível e de bom trato. E nunca perdeu também o amor pela sua terra natal, situada bem no centro da região vinícola do Dão.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foi pois com naturalidade que Celso de Lemos comprou uma quinta de 50 hectares na pequena localidade de Passos de Silgueiros, não longe de Viseu.

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Quinta de Lemos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já com a ajuda dos três filhos, ali mandou plantar 25 hectares de vinha, um enorme olival e desenvolveu uma colmeia, para produzir três dos grandes produtos tradicionais da região: vinho, azeite e mel.

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Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Equipamentos com a melhor tecnologia – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Construiu uma adega, onde, para além dos equipamentos com a melhor tecnologia, se podem apreciar obras de arte da sua vasta colecção, que é uma outra paixão. Por vezes organiza na adega exposições de arte, com artistas convidados de todo o mundo. Mas a grande obra de arte que sai daquela adega é o vinho do Dão. Com as mais nobres castas da região – touriga nacional, alfrocheiro, jaen e tinta roriz – foi desenvolvendo vinhos extraordinários, hoje premiados um pouco por todo o mundo e exportados para vários países.

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O restaurante – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas que também podem ser provados na adega e no restaurante de topo que mandou construir ali mesmo na propriedade, o “Mesa de Lemos”, onde o chefe Diogo Rocha, também ele da região, prepara ementas fantásticas, para já apenas à sexta e sábado ou por encomenda.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O restaurante está inserido num pequeno hotel, apenas com três quartos, mas que não está aberto a público, servindo para receber clientes, importadores e amigos, que assim podem partilhar este sonho maravilhoso que é a Quinta de Lemos.

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Hotel – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Numa última prova passaram à nossa frente alguns dos vinhos da quinta, todos revelando enorme qualidade e uma óptima imagem, apelativa e muito cuidada. O Touriga Nacional de 2009 apresentou-se num granada carregado muito elegante, com aromas de frutos silvestres, um floral sedoso, levemente fumado, ligeiramente mentolado, com notas de resina muito suaves. Na boca tem enorme estrutura, uma bela acidez e alguma frescura, notas de frutos vermelhos maduros, e um ligeiro abaunilhado que lhe dá grande elegância e um final longo e persistente. Também de 2009 foi o Alfrocheiro, este de cor rubi intensa. Nariz cheio de elegância, notas de frutos vermelhos, algumas flores silvestres, muito suave. Na boca tem bom volume, notas delicadas de frutos vermelhos, macio e envolvente, bela conjugação entre acidez e frescura, dando um vinho sedoso e elegante.

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Quinta de Lemos Touriga Nacional 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Alfrocheiro 2009 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Jaen 2007 in celsodelemos.com

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Quinta de Lemos Donna Louise 2005 in celsodelemos.com

A casta Jaen é uma das melhores do Dão e quando bem trabalhada, dá vinhos impressionantes, como é o caso deste da Quinta de Lemos de 2007. Duma cor granada intensa, fechada, tem um nariz intenso, com muitos frutos vermelhos, a cereja muito madura, notas de baunilha e algumas especiarias. Na boca é poderoso, com óptimo volume, uma acidez fantástica, frutos vermelhos e algum fumo, sedoso e elegante, com imenso final. Finalmente, e ainda de 2005, provamos o Dona Louise, um tinto feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Jaen. Dum granada intenso e elegante, apresenta um nariz cheio de frutos vermelhos maduros, esteva, urze e ligeiras notas de pinheiro. Na boca é muito sedoso, tem frescura e uma acidez muito equilibrada, com apontamentos ligeiros de frutos vermelhos, aveludado e ligeiramente austero, com final longo e delicado. Belo vinho a terminar uma prova em que o Dão revelou todo o seu potencial.

Contactos
Quinta de Lemos
Passos do Silgueiros
Silgueiros 3500-541, Portugal
Tel: (+351) 232 951 748
Fax: (+351) 232 951 495
E-mail: info@quintadelemos.com
Website: quintadelemos.com

As refrescantes novidades da Quinta do Portal

Texto João Pedro de Carvalho

O projecto da Quinta do Portal nasce no Douro no início dos anos 90 do séc. XX tendo como base uma propriedade centenária da família do seu proprietário, João Branco. A produção que ali sempre foi de Vinho do Porto, viu estender o conceito de todo o projecto para uma “Boutique Winery” onde é o enólogo Paulo Coutinho desde 1994 o máximo responsável pelos vinhos ali produzidos. Para além da produção de Vinhos do Porto, nascem também vinhos DOC Douro e Moscatel, alicerçados nas quatro Quintas (Portal, Confradeiro, Muros e Abelheira) todas situadas no Cima-Corgo que perfazem um total de 100 hectares de vinha com variações entre os 200 e 550 metros de altitude.

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Adega – Foto de Nélson Garrido | Todos os Direitos Reservados

Na Quinta do Portal não são apenas os seus vinhos que se destacam, a juntar a tudo isto temos também a fantástica adega desenhada pelo prestigiado arquitecto Siza Vieira, naquela que será das primeiras adegas de autor a nascer em Portugal. Para a complementar nasceu a Casa das Pipas, um enoturismo de excelência amplamente galardoado dentro e fora de portas.

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Casa das Pipas – Foto Cedida por Quinta do Portal | Todos os Direitos Reservados

Voltando aos vinhos e à mais recente apresentação que Paulo Coutinho nos proporcionou, o meu destaque desta vez vai para os vinhos de aromas mais frescos, mais atrevidos e digamos até mais apetecíveis para esta época do ano. A prova foi conduzida de forma muito descontraída, para surpresa ainda foram colocados em prova alguns vinhos de colheitas anteriores para tomar o pulso à capacidade de envelhecimento das criações de Paulo Coutinho. Diga-se de passagem que em todos os casos a evolução era notável, mesmo num surpreendente momento de forma do Mural branco 2004 que certamente na altura em que andou pelas prateleiras passou por baixo do radar de todos nós.

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Mural branco 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro branco a entrar em cena foi o Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 que nasce das parcelas experimentais da Quinta da Abelheira. Encantou com os seus aromas frescos e frutados, numa combinação bastante airosa entre as duas castas. O resultado é um branco muito perfumado, com aromas limpos onde o destaque vai para a fruta (citrinos, tropical, frutos pomar) que combina com vegetal fresco e uma ligeira sensação de pederneira. Na boca mostra uma bela frescura que se sente no palato, rico, marcante e a entrar com fruta bem sumarenta terminando seco e prolongado.

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Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Enquanto isso já o Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 esperava no copo, exuberante o suficiente para chamar a atenção. Em primeiro plano o apontamento floral a lembrar rosas seguido da fruta madura, aqui com bastante laranja. Muita frescura a embrulhar todo o conjunto, algo linear mas que cumpriu sem falhas a acompanhar um alargado leque de entradas que iam aparecendo à mesa.

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Quinta do Portal Rosé 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último o Quinta do Portal Rosé 2014, um blend entre Tinta Roriz, Touriga e Touriga Nacional onde predominam os frutos silvestres e as notas de romã. Pelo meio ligeira nota de hortelã num conjunto a mostrar uma bela frescura que se sente também na boca onde ganha maior expressividade, até mais que no nariz. Gosto da secura final com um travo de morango e amora que perdura no palato, num vinho feito a pensar na mesa e nos amigos.

Contactos
EN 323 Celeirós – 5060-909 Sabrosa
(Estrada Pinhão-Sabrosa)
Tel: (+351) 259 937 000
Telemóvel: (+351) 969 519 021
E-mail: reservas@quintadoportal.pt
Website: www.quintadoportal.com

Monte da Ravasqueira e vinhos fora da norma

Texto João Barbosa

A história vitivinícola do Monte da Ravasqueira é recente. Os trabalhos na vinha datam de 1998. O primeiro plantio ocorreu em 2000 e a primeira vindima a ir para o mercado foi a de 2002, posta à venda em 2003, com o Fonte Serrana. Porém, esta propriedade, situada no concelho de Arraiolos, tem uma existência longa, além da família dos seus actuais proprietários estar intimamente ligada à história contemporânea portuguesa.

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Monte da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A propriedade pertenceu a Dom Nuno Álvares Pereira, condestável de Portugal e estratego que conduziu à vitória o partido de Dom João (futuro João I de Portugal) na guerra de sucessão, entre 1383 e 1385, contra Dom João I Rei de Castela e Leão. A posse da terra foi junta ao título de conde de Arraiolos, de que hoje é (25º) titular Dom Duarte Pio de Bragança, 24º duque de Bragança e herdeiro da Coroa de Portugal.

Mas com o tempo, a Herdade da Ravasqueira mudou de donos e de dimensão. Para o caso, interessa saber a partir de 1943, quando entrou na posse da família Mello, que à época era detentora dum empório empresarial, criado por Alfredo da Silva, com Companhia União Fabril.

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Herdade da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Revolução de 25 de Abril de 1974 causou naturalmente convulsões. A política focou-se à esquerda, sobretudo ao Partido Comunista Português, e a família Mello partiu para o exílio e os seus bens foram nacionalizados, sendo a Herdade da Ravasqueira sido ocupada por trabalhadores, no processo conhecido por Reforma Agrária.

A estabilização política e o enquadramento de Portugal na família das democracias da Europa ocidental conduziram ao regresso da família Mello, que voltou a ocupar um lugar na liderança empresarial do país, e à entrega desta propriedade alentejana aos seus antigos donos, em 1980, mas praticamente decrépita por abandono e negligência.

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Cattle – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Herdade da Ravasqueira tem cerca de 3.000 hectares, perto de 1.500 ocupados com florestal. A criação de bovinos, cruzados de mertolengo e limusine, ascende a 500 cabeças, e o olival também tem uma pequena parcela. A actividade maior é a do vinho, estando plantados 45 hectares de vinhas, divididos por 29 talhões.

Este domínio alentejano é formado em declive, o que permite, através das diferentes altitudes, nuances diferenciadoras. Ao mesmo tempo, o solo é muito variável, existindo dez formações diferentes, sendo dominantes os argilo-calcários, estando a vinha em zonas com afloramentos de granito e de xisto.

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The Vines – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O teor de argila varia entre os 20% a 30%, refere Pedro Pereira Gonçalves, director de viticultura e enologia. A constituição do chão permite retenção de água em profundidade, causando algum stress hídrico e obrigando a planta a esforçar-se. Em caso de necessidade, existe sistema de rega gota-a-gota. «Mais vale ser ela [videira] a pedir água do que lhe dar-mos» – explica o técnico.

Desde 2012 que Pedro Pereira Gonçalves está neste produtor. Embora jovem, tem já currículo e reputação. A aposta tem sido na frescura, apanhando a fruta mais cedo do que acontece na generalidade do Alentejo. Assim, conseguem-se néctares com graduações alcoólicas hoje raras – embora a tendência vá nesse sentido.

«A Ravasqueira tem muitas massas de água e fica num vale, por isso consegue-se maior frescura», assinala Pedro Pereira Gonçalves. Pois, o teor alcoólico dos brancos foi atirado para uns surpreendentes 11,5%, indo até aos 12,5%. Nos tintos, o intervalo situa-se entre os 13% e os 13,5%.

Uma das decisões do jovem enólogo foi – coisa ainda rara em Portugal – mandar fotografar a propriedade, por avião, em diferentes bandas de espectro. «Permitiu que a apanha, que era feita ao talhão, passasse a ser feita à zona» – explica o técnico.

Com estas informações adicionais tem sido possível acertar os vinhos aos perfis pretendidos. A agricultura de precisão «permite fazer o vinho na vinha». Com a chegada de Pedro Pereira Gonçalves aumentou o número das propostas de maior patamar de gama, nomeadamente reservas e monovarietais. A diversidade permite a produção de sete vinhos monovarietais: alvarinho, nero d’avola, petit verdot, sangiovese, sauvignon blanc, touriga franca e viognier. No próximo ano será lançado um espumante.

A casta alvarinho é originária do Noroeste de Portugal, com clima mais fresco. Se os descuidos, na região dos Vinhos Verdes, podem resultar em laranjadas (felizmente não é a regra), no quente Alentejo podem tornar-se rebuçados, um pouco pesados e, por conseguinte, enjoativos. Nada mais diferente do que se apresenta na Ravasqueira, onde a variedade foi plantada numa zona mais arejada e fresca.

O Monte da Ravasqueira Alvarinho 2013 é um vinho com notas de tangerina, mineral e elegante, mostrando potencial de evolução em garrafa. Se fecharmos os olhos, e sonharmos um bocadinho, até nos segreda a palavra Chablis… atenção, é uma sugestão suave.

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Monte da Ravasqueira Alvarinho – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Reserva Branco 2013 fez-se com alvarinho (40%) e viognier (60%) é escorregadio… portanto: cuidado. É um vinho com textura na boca e com aromas a lima, e pêssego.

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Monte da Ravasqueira Reserva White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Branco é um vinho de homenagem ao pai da actual geração que dirige o Grupo Mello, José Manuel de Mello. É um vinho que o enólogo afirma não ser consensual, «mas que não é para ser». É um repositório de todas as castas favoritas do homenageado: alvarinho, arinto, marsanne, semillon e viognier. Na edição de 2013, Pedro Pereira Gonçalves optou por uma abordagem neozelandesa: fechar o vinho dentro das barricas durante um ano. Nasceram notas de baunilha, de bolacha maria, chocolate branco e ameixa. Muito elegante e, mais uma vez, escorregadio.

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MR Premium White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Monte da Ravasqueira Rosé 2014 é filho de uvas touriga nacional, colhidas precocemente nos diferentes talhões onde está plantada. É fresco e, em vez das violetas de a cultivar oferece no Dão, surge com um ramalhete de rosas. É um vinho falsamente doce. Um rosado muito interessante.

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Monte da Ravasqueira Rosé – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs é, como se percebe pela designação, produto duma só localização, onde pontuam as castas syrah e touriga nacional. Na edição de 2012, a variedade francesa forneceu 70% das uvas. É um vinho bem seco, sem ser austero. Promete vida em garrafa.

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Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Tinto 2012, em virtude da variedade de cultivares, é muito rico e complexo de aromas, que se vão sucedendo, casando, separando e regressando, simples ou acompanhados com o mesmo ou diferente par. Tem um notório traço da natureza alentejana – que muito aprecio – que é o de lenha de azinho. Na boca é também um falso doce. Tem a aceleração e garra de um roadster. Penso que também poderá evoluir bem em garrafa.

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MR Premium Red 2012 – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Touriga Franca 2012 é para um fanático da casta – eu – uma comichão. Por capricho, proibia que fosse plantada fora do Douro. Considero que das viagens poucas conseguem alcançar o carisma daquela região do Nordeste português. Isto não significa que a qualidade não exista, apenas uma irritação intelectual.

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Monte da Ravasqueira Touriga Franca – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A touriga franca revelou-se em 2012, na Ravasqueira, como alentejana, com os aromas dos restolhos e dos montados de sobro e de azinho. É seco de nariz e na boca mostra mineralidade, com evocação de giz. Tem uns taninos fantásticos, é racing e elegante, digamos o temperamento dum nobre na sua propriedade rural. Agora precisa de ser decantado com alguma violência ou aberto com antecedência. E vai aguentar-se anos. Reconheço que é uma bela touriga franca!

O Monte da Ravasqueira Syrah e Vignier (2012), em que a casta branca representa 3% do lote, é um vinho com frescura e vivacidade, que evolui bem no copo e interessante. Provei-o depois do vinho anterior. É belíssimo, mas é um menino ao pé do latagão. Definiria com a idiomática: «azar dos Távoras».

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Monte da Ravasqueira Syrah and Viognier – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Ponto de ordem e conclusão: frescura, desalinho dos perfis face à norma, falsas doçuras (bom!), complexidade e promessa de longevidade.

Contactos
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Website: www.ravasqueira.com

Vinho Verde Wine Fest…não há outra festa assim!

Texto José Silva

Foi a segunda edição dum festival que veio literalmente para ficar. Relativamente ao primeiro, que se realizou em 2014, foram feitas algumas rectificações e o festival mudou para a ala nascente exterior da Alfandega do Porto, disponibilizando o dobro do espaço e um parque de estacionamento para os expositores. E com uma melhor dispersão das áreas de restauração, cujo número também aumentou, beneficiando duma praça central, com muitas mesas e cadeiras.

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Rio Douro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com o rio Douro sempre ali bem presente, a marcar uma paisagem única onde até o tempo ajudou, mesmo à noite, com temperaturas muito amenas, a prolongar o prazer da conversa com um copo de vinho verde na mão.

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30 Produtores – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Mais de 200 vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Foram quatro dias muito intensos, em que os 30 produtores presentes deram a provar mais de 200 vinhos e onde, no balcão dos cocktails, se preparavam propostas muito interessantes, como por exemplo um cocktail com verde tinto de vinhão, que se revelou sensacional.

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4 dias intensos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Cocktail Bar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O que por vezes fazia com que a fila fosse enorme!! Para completar tudo isto os cinco restaurantes e as quatro tasquinhas presentes, chegaram para todas as solicitações, desde o sushi às sandes de leitão, passando por petiscos tradicionais, comida de autor, pregos, hamburgueres e bifanas, presunto e até pão de ló. Entretanto e logo a seguir à abertura das portas, começavam as provas comentadas, divididas por duas salas, sempre esgotadas, tal o interesse dum público cada vez mais informado, até porque tem ali oportunidade de provar algumas novidades, apresentadas e comentadas pelos próprios enólogos, permitindo um diálogo directo com quem faz os vinhos e tem sempre muito a partilhar.

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Luís Lopes – – Foto Cedida por Vinho Verde | Todos os Direitos Reservados

Também houve provas comentadas por jornalistas do sector, e desta vez tivemos a presença de dois prestigiados jornalistas da Revista de Vinhos: Nuno Garcia e o próprio director desta revista, Luís Lopes. Do outro lado do recinto estava a sala dedicada em exclusivo aos showcookings. E foram 20 showcookings durante os quatro dias! Eu tive o privilégio de os acompanhar a todos, propondo para cada um dois vinhos que pudessem harmonizar com aquilo que os chefes iam propondo.

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Emília Jackson – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Também aqui houve uma novidade, a presença, logo no primeiro dia, de Emilia Jackson, a já célebre chefe que ficou em terceiro lugar no Masterchef australiano, uma simpática australiana a viver em Londres, que teve a ajudá-la uma não menos simpática Joana, também terceira classificada, mas no Masterchef português.

Claro que o público aderiu em massa, colocando alguns problemas à organização para explicar que não havia mais lugares.

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Ambiente de Festa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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RFM – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A dar um excelente ambiente a isto tudo, música muito bem escolhida, que à noite subia de tom e punha os corpos a mexer, num verdadeiro ambiente de festa, pois era mesmo disso que se tratava, da festa do vinho verde.

A RFM, sempre presente, ia fazendo entrevistas e dando informações, muitas delas em directo, fazendo também com que muito mais gente rumasse ao festival.

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Pessoas de todas as idades – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Por ali passaram pessoas de muitas idades, mas foi muito interessante ver gente jovem a apreciar os muitos vinhos verdes, comer um petisco e acima de tudo divertir-se e dar um toque salutar de juventude ao evento.

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Uma equipa vasta e jovem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Jovem era também a vasta equipa de produção do evento, da empresa Offe, incansáveis e a colocar no terreno toda uma experiência e sabedoria que faz toda a diferença. No sábado, o dia mais longo do festival, passava já das 3:30 da madrugada quando os últimos visitantes abandonaram o recinto…

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O parque de estacionamento foi “invadido” por 120 automóveis antigos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No último dia, domingo, o parque de estacionamento foi “invadido” por 120 automóveis antigos, num ambiente de grande beleza, que também atraiu muita gente. As portas fecharam à 20:00, mas eram já quase 22:00 quando a festa acabou mesmo!!

Está de parabéns a Comissão dos Vinhos Verdes, o seu presidente e toda a sua equipa de profissionais, sempre presentes, acompanhando a par e passo o evento.

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Com a garantia amplamente divulgada de que para o ano há mais – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Com a garantia amplamente divulgada de que para o ano há mais.

O Vinho Verde Wine Fest 2015 foi mesmo isso, uma grande festa do vinho verde…

Antonio Madeira Branco, agora como dantes

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes o voltar às origens torna-se essencial para fazer perdurar algo que tem ficado esquecido no tempo, neste caso o voltar atrás no tempo à procura de métodos e ideias que por motivos da suposta inovação foram ficando esquecidos. Corremos o risco nos dias de hoje, sufocados pelo reboliço da civilização moderna, em afirmar que a inovação não é mais do que uma volta ao passado. Sinais dos tempos e dos que a seu tempo, enveredaram por esses caminhos mostrando a todos que sim é possível e que sim vale a pena.

E o produtor António Madeira, lusodescendente que tem no Dão para além das suas raízes familiares uma paixão. E foi no Dão que se dedicou de corpo e alma a criar os seus vinhos, que são tal como já disse, um regressar ao antigamente, uma vontade de resgatar o Dão de um passado que teve com glória e que pouco ou nada tem a ver com a realidade actual. Para isso António teve de meter as mãos nas vinhas, foi entendendo as variações entre vinhedo e os solos onde moram, foi acima de tudo aprendendo com a região. Da mesma forma que António foi aprendendo, também foi ensinando e mostrando na saudável teimosia de quem acredita naquilo que faz e quer, conseguir resgatar do esquecimento o que outros já não queriam saber. As vinhas centenárias que salvou são hoje a sua maior riqueza, são também na sua essência a maior riqueza que o Dão tem para nos oferecer.

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António Madeira Branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Nessas vinhas que soube ensinar a tornar a viver, mora a essência do lote onde surgem castas de nomes estranhos e engolidos pelo tempo. São em forma e conteúdo, as vinhas que davam origem aos vinhos que hoje apelidamos de clássicos e que construíram toda uma imagem de uma região. E como nestas coisas não faz quem quer mas apenas quem sabe, não será de estranhar o virtuosismo do António que com apenas três vinhos no mercado conquistou no imediato todas as atenções. Os seus vinhos falam por si, mas acima de tudo falam pela região do Dão e por aquele cantinho tão especial que escolheu encostado à Serra da Estrela.

No total controla 5 vinhas velhas com idades entre os 50 a 120 anos que entre os 500 e 600 metros de altitude moram em solos graníticos. Nesse field blend moram mais de 20 castas autóctones onde por vezes as brancas se misturam com as tintas, algumas em vias de extinção, onde neste caso a base é 75% Síria, Fernão Pires e Bical. Aqui não deixa de ser curioso que a existência da casta agora rainha de nome Encruzado, faz apenas parte do blend como sempre fez e onde no passado a sua existência a solo mais não era do que um mero exercício experimental. É pois este o seu primeiro branco, da colheita 2013, que resultou em pouco mais do que 600 garrafas fruto do trabalho de precisão e da vetusta idade das cepas cuja produção é bastante reduzida. António chama-lhe vinho de terroir, obviamente não poderia estar mais de acordo pois o vinho mostra um carácter tão diferenciador que apenas de aquele local poderia nascer um vinho assim. O António Madeira branco 2013 tem de delicado tem de profundo, denso e com uma bonita austeridade mineral que lhe domina os fundos. A fruta mostra-se limpa, pura, arrebitada e bonita, cheirosa com alguns ramalhetes de flores das giestas ali do campo. É daqueles vinhos que precisa de atenção, até de uma decantação prévia para que se mostre em condições, tal como no palato vincado pela força e austeridade do granito, muito boa acidez com a fruta a aconchegar. Sente-se alma e nervo, sente-se que temos aqui vinho para muitos anos, temos aqui um grande vinho do Dão. Perfeito a acompanhar peixes nobres de carne delicada ou simplesmente para apreciar em companhia de grandes amigos. Obrigado António Madeira.

Contactos
António Madeira
Tel: (+33) 680633420
Email: ajbmadeira@gmail.com
blog “A palheira do Ti Zé Bicadas

Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Foi emocionante apresentar uma prova em nome da Comissão dos Vinhos do Alentejo num dos melhores novos restaurantes de Londres, a Taberna do Mercado. E o que é ainda mais emocionante é que, além do Chefe ser português, a comida e os vinhos também são. O que pode parecer uma coisa estranha de se dizer mas, até agora, o nome de Nuno Mendes esteve associado aos pratos inovadores e ecléticos do seu anterior restaurante estrela Michelin, o Viajante, e agora com o menu de sotaque americano no Chiltern Firehouse (onde é o Chefe principal).

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Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Numa entrevista com Nuno Mendes,há um par de anos atrás, deixou fugir a ideia de que tencionava abrir em Londres um restaurante “muito casual, divertido e moderno mas ao mesmo tempo rústico”. Mas havia um problema. Explicou que, apesar da “abundância de produtos únicos e de qualidade” em Portugal, era difícil de obtê-los. Porquê? A resposta foi que “a produção é muito limitada em termos de quantidade e também porque muito poucos produtores artesanais vêem potencial além do mercado local para expandir o seu projecto”.

Completamente à espera que Nuno Mendes tivesse ultrapassado estes desafios, perguntei-lhe o que tinha mudado desde a nossa última conversa. Perguntou-me “prefere a reposta simpática ou a resposta verdadeira?”. Naturalmente que respondi que queria a verdade! Admitindo “isto entristece-me”, Mendes demonstra continuar visivelmente frustrado pelo facto de, no Reino Unido, continuar a ser quase impossível obter os melhores produtos portugueses dos quais se pode sentir “super -orgulhoso”. Salientou que os importadores portugueses no Reino Unido “se destinam maioritariamente a abastecer a comunidade expatriada (em vez dos restaurantes topo de gama com clientes exigentes e viciados em comida). Fez-me lembrar de um ponto que Mendes tinha salientado quando nos conhecemos pela primeira vez, o quão importante era “estar ciente do que está a acontecer no mundo do vinho e da gastronomia de modo a conseguirmos encaixar na realidade das outras pessoas”. É por isso que, acrescenta, “tive que me afastar” de Portugal quando o Viajante abriu – a gama de produtos não se encaixava com a realidade estrela Michelin do restaurante. Não era “nada de espectacular”, e não podia contar com a consistência do fornecimento.

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Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

As boas notícias? Vendo a Taberna do Mercado como “um portal para chegar aos bons recursos de Portugal” diz-me que, “não vou desistir”. Mendes pode ter um discurso suave e um comportamento modesto, mas há uma determinação de aço nos seus olhos de quando revela a solução. Salientando que, “tenho muitos mais contactos que os importadores aqui sediados” (já para não mencionar a meticulosidade inerente a um Chefe Michelin em busca apenas do melhor), tenciona abrir o seu próprio negócio de importação/exportação. Afinal, a sua reputação depende disso. E está muito em jogo, ao mesmo tempo que diz que é prematuro, dados os problemas de fornecimento, apontar a comida portuguesa como a próxima grande novidade assim como sugeriu recentemente o The Daily Telegraph. É por isso que afirma que, “agora é que entra a parte da pesquisa… não podemos relaxar, temos de nos esforçar e trazer o melhor…temos de evoluir”. Não há espaço para a complacência.

Pouco depois da prova, parei para reflectir sobre os comentários de Mendes em relação ao vinho português quando um jornalista me perguntou porque é que ainda não atingiu o topo. Tenho o prazer de informar que o Reino Unido tem estado bem melhor servido em relação a importadores de vinho, em particular especialistas em vinho português, como a Raymond Reynolds e a Oakley Wine Agencies que têm ajudado os produtores seus clientes a navegar com calma no exigente mercado do Reino Unido. Mas se, como Mendes, tiver que ser uma amiga crítica de Portugal, a verdade é que ainda muitos produtores portugueses têm de encontrar maneira de encaixar nas realidades do mercado do Reino Unido, que é largamente reconhecido como o mais competitivo do mundo. Além disso, o ‘cellar palate’ (ficar demasiado habituado aos nossos próprios vinhos, incluindo as falhas) pode ser um problema. É por isso que os produtores de vinho com mais sucesso continuam a visitar o Reino Unido, para compreenderem onde os seus vinhos se encaixam melhor (e para compará-los com a concorrência). Também ajuda a certificar que continuam a ser vistos e ouvidos no nosso concorrido e barulhento mercado. Foi um desafio ao qual me predispus com gosto.

Felizmente, os oito produtores de vinhos que apresentei na minha masterclass na Taberna do Mercado estão representados no Reino Unido. Mas ainda há trabalho a ser feito já que o Alentejo construiu a sua reputação no Reino Unido numa base de tintos de grande valor, fáceis de abordar e frutados. O próximo passo é aumentar a visibilidade e valorização dos seus tintos e brancos premium, baseados no terroir, por entre os amantes de vinho de qualidade (os vinhos brancos representam agora 20% dos vinhos do Alentejo).

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Eu e Nuno Mendes a falar sobre o vinho e a gastronomia do Alentejo – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

A minha escolha de vinhos foi acompanhada pela opinião contemporânea de Mendes sobre os petiscos (como inseri-los na realidade do mercado do Reino Unido) e seguida de uma excelente prova de azeites do Alentejo conduzida por Teresa Zacarias da Casa do Azeite. Aqui estão as minhas notas relativamente aos vinhos, juntamente com algumas informações sobre o que individualiza esta escolha diversa em termos de terroir e vinificação. Como irá reparar, o Alentejo não é tão plano e ininterruptamente quente como estereótipos regionais nos fazem acreditar. Além disso, todas as uvas foram apanhadas à mão.

Herdade do Rocim Olho de Mocho Reserva Branco 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este monovarietal Antão Vaz vem da Vidigueira, uma das oito sub-regiões da DOC Alentejo. Apesar de ser a que fica mais a sul, tem uma longa tradição de produção de vinhos brancos. Porquê? Porque tem tudo a ver com a disposição da terra, especificamente, a falha da Vidigueira, uma escarpa de 50Km virada a oeste conhecida como a Serra do Mendro que marca a fronteira entre o Alto e Baixo Alentejo. Subindo até aos 420m de altura aprisiona os frios e húmidos ventos atlânticos que arrefecem a região com nevoeiros nocturnos. O ar frio também desce pela Serra do Mendro durante a noite. Além disso, quando os ventos do sul trazem nuvens, a escarpa causa um aguaceiro. Para a enóloga Catarina Vieira, estas são as razões pelas quais “os vinhos muito minerais, elegantes e frescos da Vidigueira envelhecem muito bem”. Acredita que os solos arenosos também melhoram a mineralidade da sua Antão Vaz, proveniente das suas melhores, cultivadas a seco (apenas água da chuva) e de baixa produção, vinhas velhas (24 anos).

Vinificação: Uvas colhidas à mão e cedo (a 3 e 4 de Setembro) de modo a preservar a frescura (sem acidificação necessária), o vinho fermentou em barris novos de Carvalho Francês de 300 litros, aproximadamente durante vinte dias. De seguida foram retiradas as borras e estagiou em barril por cinco meses. Durante esse processo, as borras foram envelhecidas durante dois meses em barris de 2ª mão com batonnage diária, aproximadamente durante um mês, e depois foram readicionadas ao vinho. Para Catarina, “este trabalho com as borras é muito importante no que toca a mineralidade, frescura e potencial de envelhecimento deste vinho”.

Notas de Prova: Graças ao trabalho com as borras, demonstra, no nariz, notas de fósforo ao ser acesso, e palato alimonado, com notas de azeitona verde, ananás verde e, ao abrir-se, pêra seca. Um final longo, firme e mineral com uma acidez atoranjada e atrevida que fez durar a minha garrafa de amostra até ao 3º dia. 13.5%

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Conservas da Casa ao estilo de Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Cartuxa Pêra Manca Branco 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: Este blend de 62% Antão Vaz e 38% Arinto vem de Évora, outra sub-região da DOC Alentejo. Desta vez do Alto Alentejo. A fruta foi seleccionada de três parcelas das vinhas mais antigas da Cartuxa, situadas em encostas que se elevam até 300 metros acima do nível médio das águas do mar. Plantadas em 1980 em solos graníticos castanhos, as vinhas foram cultivadas a seco.

Vinificação: Para este branco mais encorpado e tradicional, a fruta foi colhida à mão mais tarde e em três fases, para obter mais complexidade (12, 18 e 19 de Setembro). A seguir ao desengace e ao esmagamento, uma parte das uvas foi deixada em contacto com as peles antes da fermentação. Sessenta e sete por cento do vinho foi fermentado e envelhecido em borras durante 12 meses em barris (60% novos) de carvalho francês com batonnage, para potenciar o corpo, a complexidade e o potencial de envelhecimento. O equilíbrio foi envelhecido em aço inox (para melhorar a fruta) com muita batonnage (para o corpo). Não houve qualquer acidificação.

Notas de Prova: Nariz rico e a cera de abelha, com frutos de caroço, especialmente alperce perto do núcleo, cujas notas se prolongam no palato com um nogado pronunciado (marzipan/calisson fresco) e carvalho abaunilhado. Apesar de apresentar um pouco de volume, tem um esqueleto maduro mas picante, de acidez cítrica que confere equilíbrio e provoca um final longo, saboroso e a borras, com nuances de casca de limão e laranja. Um vinho poderoso, que frequentemente me recorda um Hermitage no Norte de Rhône, França. 13.5%

Monte da Ravasqueira MR Premium Rosé 2013(VR Alentejano)

Terroir: Este Rosé, 100% Touriga Nacional, é de Arraiolos, Évora, Alto Alentejo. Para o enólogo Pedro Pereira, a chave da frescura da gama Monte da Ravasqueira reside na variação muito patente da temperatura diurna da propriedade. Mesmo nos meses mais quentes, Julho e Agosto, em que as temperaturas podem atingir os 40ºC, à noite podem descer abaixo dos 10ºC. As noites frias ajudam as uvas a reter a acidez de uma melhor maneira; também é bom para os aromas e para a estrutura. Gonçalves atribui esta forte variação de temperatura à natureza topográfica, tipo anfiteatro, da vinha (os 45 hectares estão plantados em encostas que chegam até aos 270m), bem como à floresta adjacente e às barragens. Apesar de ser necessária uma irrigação suplementar, os solos argilo-calcários têm uma boa retenção de humidade e as mais exteriores, de solo granítico, parecem melhorar a mineralidade/frescura, tal como no Dão.

Vinificação: Uma vez que o estilo de Gonçalves gira à volta de “frescura + complexidade (uma matriz de sabores) + natureza varietal + intensidade + concentração”, seleccionou a fruta a partir de cinco parcelas diferentes (por linha de orientação-exposição, tipo de solo e gestão da vinha). Fruta colhida à mão em diferentes dias, compreendidos entre 8 e 27 de Setembro. As uvas foram mantidas em contentores frigoríficos entre 2 a 20 dias, a 2ºC, para a concentração e para melhorar o potencial aromático e a fruta. Duas parcelas foram prensadas directamente para barris novos de carvalho francês e fermentadas naturalmente com batonnage em sólidos. As outras três foram primeiramente repousadas e inoculadas com levedura, antes de serem transferidas para barris novos de carvalho francês no segundo dia de fermentação. As cinco parcelas foram então envelhecidas em borras durante seis meses, com batonnage suave durante os primeiros 2 meses.

Notas de prova: A Touriga Nacional parece encaixar bem nos vinhos rosés e este é um exemplo incomum. Salgado mas frutado, encorpado mas fresco. É absolutamente delicioso com borras cremosas e salgadas, delicados morangos silvestres, bolinhos de morango e chá de pêssego refrescante. Acidez mineral confere frescura e persistência num final duradouro.

Susana Esteban Aventura Tinto 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este primeiro tinto é do Alto Alentejo mas é um blend das sub-regiões DOC. Esteban selecciona a Aragonês e a Touriga Nacional (40% e 20% da blend respectivamente) de um vinhedo com 15 anos, em Évora, a 300m de altura em solos argilo-calcários. O equilíbrio vem da mistura de um field blend em Portalegre, a sub-região mais a norte do Alto Alentejo, com 30 anos. Não é só a localização a norte que faz com que Portalegre seja a área mais fria e húmida do Alentejo. A Serra de São Mamede – a mais de 1000m de altitude, o ponto mais alto do Sul de Portugal – confere uma considerável elevação (até 800m) e solos graníticos pobres. Uma vez que o objectivo de Esteban é “produzir um vinho fresco, com carácter mas ao mesmo tempo apelativo”, vai a Portalegre buscar a frescura e a austeridade, ao passo que Évora providencia o calor que a enóloga pensa ser necessário para que a Touriga Nacional e a Aragonês precisam para demonstrar o seu potencial (Salientando que “tenho em atenção para escolher apenas com 13% a 13.5% de álcool”).

Vinificação: as uvas são colhidas à mão e fermentadas naturalmente (sem nenhuma acidificação) em pequenos lagares de inox a temperatura controlada. Aprecio bastante o facto de Susana se ter focado apenas na fruta e na frescura – este vinho é unoaked.

Notas de prova: fantástica textura e vibração (pensem em veludo esmagado) de frutas silvestres em puré (assim parece), puras e acabadas de colher. Taninos suaves e uma jovem acidez reforçam o imediatismo encantador deste tinto jovial. Adorável. 13.5%

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Casa do Porco Preto, Alentejo na Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Herdade de São  Miguel Reserva 2012 (VR Alentejano)

Terroir: A Herdade de São Miguel está situada na sub-região (DOC) Redondo do Alto Alentejo. Para Alexandre Relvas júnior, a Serra d’Ossa (que sobe até 650m) abriga as vinhas de Redondo dos ventos que sopram de norte e de este, e providencia invernos secos e frios, em contraste com os verões quentes e ensolarados. A vinha está localizada a 400m de altitude em solos de argila/xisto de baixo rendimento que produzem bagas pequenas e concentradas. Este vinho é um blend composto por 80% de Alicante Bouschet, 15% Aragonez e 5% Cabarnet Sauvignon proveniente de vinhas com 13 anos de idade.

Vinificação: fruta colhida à mão é totalmente desengaçada e sujeita a 48h de absorção antes da fermentação em lagares de inox abertos com pigeurs automáticos para uma extracção mais suave. Também é sujeito a uma pequena oxidação natural para “ajudar a corrigir logo à partida a cor e os taninos”, diz Relvas. Foi envelhecido durante 12 meses em barris de carvalho francês de 400 litros (50% novos).

Notas de Prova: nariz intenso a groselha e amora com toque de madeira abaunilhada e nuances de xisto empoeirado, que seguem durante o suculento palato com uma frescura adorável. Apesar de representar apenas 5% do blend, a Cabarnet Sauvignon é bastante evidente no perfil de sabor (groselha com notas de menta) e taninos finos, minerais e de cascalho. Não tem a concentração ou complexidade dos vinhos (mais caros) que se seguiram, mas é equilibrado e persistente. Muito bem feito, suporta bem os seus 15% de volume.

Quinta do Mouro Touriga Nacional 2010 (VR Alentejano)

Terroir: Este monovarietal de Touriga Nacional é de Estremoz, na sub-região Borba (DOC) do Alto Alentejo. Fica a norte de Redondo e da Serra d’Ossa, o que confere um pouco de protecção dos ventos quentes a sul. Uma vez que a Quinta do Mouro está situada a 420m de altitude, a elevação também tempera o clima, da mesma maneira que as descidas bruscas de temperatura durante a noite, as quais, segundo o enólogo Luís Louro, podem ser 20 graus abaixo da temperatura durante o dia, “especialmente nas últimas fases de amadurecimento, e os nevoeiros são comuns”. Solos xistados e vinhas cultivadas a seco também contribuem para o estilo muito estruturado, característico e de bom envelhecimento dos tintos da Quinta do Mouro. Proveniente de uma vinha do Douro “muito boa” de 1998, a Touriga Nacional foi enxertada em vinhas de Castelão que tinham sido plantadas em 1989.

Vinificação: uvas colhidas à mão e parcialmente desengaçadas, deixando cerca de 10% do cacho para obter um pouco mais de estrutura e sabores mais frescos. As uvas foram pisadas a pé em lagares e foram sujeitas a dois dias de absorção a frio antes da fermentação. Terminaram a fermentação em tanques inox de temperatura controlada e, após a prensa, foi envelhecido durante 12 meses em barris novos de carvalho francês de 300 litros.

Nota de prova: cor de ameixa, opaca e profunda, com perfume exótico de bergamota que eleva o concentrado palato a framboesa, ameixa e baunilha, juntamente com notas vivas e apimentadas, sálvia seca e hortelã. Taninos com uma textura acamurçada clivam os sabores no palato, ampliando a sua intensidade e a ressonância do palato. Poderoso, um pouco selvagem, mas equilibrado. Um carismático monovarietal de Touriga. 14%

João Portugal Ramos Marquês de Borba Reserva 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: também de Estremoz, este blend compost por 30% Trincadeira, 30% Aragonês, 25% Alicante Bouschet e 15% Cabarnet Sauvignon vem da vinha original de João Portugal Ramos. As vinhas, plantadas em 1989, estão situadas à volta de sua casa e têm sido a fonte do seu vinho desde que foi feito pela primeira vez, em 1997. Localizadas a 350m em solos de xisto muito velhos.

Vinificação: As uvas foram colhidas à mão durante a noite e de manhã cedo. Parcialmente desengaçadas (50%) e início de fermentação (natural) em lagares de mármore com pisa a pé. Para Ramos, as vantagens dos lagares incluem, uma maior área de contacto entre o líquido e a parte sólida do mosto, homogeneização suave do mosto (porque é formada uma camada mais fina em comparação com os tanques normais) e a estética do mármore local (que, por acaso Nuno Mendes também utiliza nos tampos das mesas na Taberna do Mercado). O último terço da fermentação é feito em tonéis de inox, beneficiando de temperatura controlada. A maceração pós-fermentação dura, normalmente, duas semanas. O vinho estagia depois durante 18 meses em barris de carvalho francês de 225 litros (dois terços dos quais são novos).

Notas de prova: um tinto muito polido, com tabaco e caixa de charutos no nariz e no palato. Frutos vermelhos a dominar o ataque, enquanto a Cabarnet se torna mais assertiva com o desenrolar, conferindo groselha bem definida e um revestimento pulverizado de taninos finos mas em pó que ganham vida na boca. Seco, firme, focado e muito fino com uma excelente frescura a equilibrar. O mais fechado dos tintos, com um grande potencial de envelhecimento. 14.5%

Herdade do Mouchão 2010 (VR Alentejano)

Terroir: este blend com cerca de 70% Alicante Bouschet e 30% Trincadeira é de um dos produtores mais estabelecidos da região, a Herdade do Mouchão, que pertence à mesma família desde 1874. Mouchão foi a primeira vinha de Alicante Bouschet a ser plantada e os vinhos actuais denotam a sua origem genética do século 19. Mouchão fica em Sousel, a norte de Borba, no Alto Alentejo. A Alicante Bouschet é seleccionada de várias parcelas perto da adega, a cerca de 230m de altitude, com idades entre os 10 e os 30 anos. Situada num triângulo entre dois pequenos rios, os solos arenosos superiores são bem drenados mas o barro das profundezas retém a humidade que permite um amadurecimento equilibrado e confere frescura e boa acidez. A imagem de marca do Mouchão é o grande potencial de envelhecimento. A Trincadeira de peles finas beneficia por ter sido plantada mais alta, em solos bem drenados a cerca de 400m de altitude.

Vinificação: este vinho, o mais tradicional, teve as suas uvas apanhadas à mão e fermentadas nos lagares de pedra originais da adega com 100% de engace. Depois é envelhecido em grandes e velhos toneis de 5000 litros durante dois ou três anos. Estagia ainda mais dois a três anos em garrafa antes de ser lançado no mercado.

Notas de prova: uma cor muita profunda com um palato e nariz muito complexos – é quase uma refeição – mas equilibrados. O Mouchão 2010 tem camadas de figo maduro seco, azeitona preta e pele incipiente com um floral tintado, tabaco, whisky berber (chã de menta estufado) e notas de eucalipto. Robusto, picante, taninos orientados à uva ganham vida na boca, mas no entanto está tudo bem integrado – nem um pouco agressivo. Um final muito longo e envolvente com um travo do calor da terra desta propriedade. 14%