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Wine Magazine
Sandeman – 226 anos a fazer história

Texto Bruno Mendes

A história da Sandeman Sandeman começou há 226 anos atrás, em 1790, quando Geroge Sandeman pediu um empréstimo de 300£ ao seu pai para começar o seu negócio de vinho do Porto e vinho Sherry em Londres. Fundou o negócio tendo em vista criar uma pequena fortuna para se poder reformar no final do século, mas acabou por criar uma das maiores empresas do mundo do vinho.

A Sandeman foi a primeira empresa de vinho do Porto a colocar marca no barril, em 1805. Todas as pipas eram então marcadas com o nome George Sandeman & Co de modo a assegurar a qualidade. No entanto esta marca só seria registada em 1877, o ano seguinte ao primeiro ao qual se pôde finalmente registar marcas formalmente.

No vídeo abaixo encontrará mais detalhes sobre esta empresa bem como os vinhos comemorativos dos 225 anos de existência.

Natureza-morta ou Ainda-vivo

Texto João Barbosa

O título pode parecer estranho para alguns leitores, mas são dois conceitos bem definidos, sedimentados e antigos da pintura. Nas línguas latinas o termo usado é natureza-morta, enquanto em inglês e alemão é ainda-vivo (still life – stilleben), e aplica-se a obras onde se apresentam alimentos, elementos naturais e, por vezes, animais. Contudo, outros objectos podem ser acrescentados.

Um outro conceito é a vanitas, muitas vezes ligado às naturezas-mortas, e aborda a insignificância ou perenidade da vida, do que de nós resta após a morte, a vaidade (vanitas) derrotada…

Ontem, após o jantar, descansava com um copo de vinho e olhava para uma natureza-morta do meu pai (Manuel Jorge – 1924 a 2015), de que não tenho fotografia, e mergulhei em Paul Cézanne – que tanto apreciava. Com o passamento do meu pai próximo (Fevereiro do ano passado) ocorreram-me as vanitas – que saiba não criou nenhuma – e a razão de existirem enquanto motivo artístico.

A vanitas é mais óbvia. Já as naturezas-mortas me parecem mais complexas, não podendo deixar de notar as duas formas de as nomear: morta ou ainda viva. Os alimentos que nos mantém vivos, o vinho que nos dá brilho e a sensação de algo que ficou por fazer – levantar a mesa, terminar de descascar a peça de fruto, terminar o copo de vinho, objectos tombados por alguma pressa súbita.

Note-se que os alimentos surgem frescos e apetitosos, não apresentando sinais de degradação. Se, colhidos e caçados ou pescados, estarão mortos. A frescura, transmita pelos brilhos, desmente a morte. Portanto, a verdade estará entre os dois conceitos, o latino e o germânico.

Estas obras são uma janela para os prazeres da mesa de outrora e do autor. Note-se, que durante séculos, passou-se muita fome, que alimentou revoltas, doenças, morte precoce ou esperança de vida que nos espantará – milénios em que chegar aos 40 anos eram um feito, em que a taxa de mortalidade à nascença e na infância era imensa.

Por isso, estas obras reflectem o prazer deslumbrante da comida e da festa, mas também da solidão e melancolia. Olhando com atenção pode entender-se que a gula de outrora não é muito diferente da actual.

O açúcar, produto tão acessível, era para os ricos. Para se ter um exemplo, numa escavação arqueológica dum enterramento podem distinguir-se facilmente os ricos dos pobres. Uns têm cáries, porque podiam pagar o doce, e outros os molares mais gastos, por comerem pão de farinhas piores, com mais resíduos da pedra da mó.

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Josefa de Óbidos pintou várias naturezas-mortas com bolos

Por isso, o doce surge abundantemente como fruta. Uvas, limões e laranjas são, provavelmente, as mais citadas… talvez ainda a romã. Contudo, a pastelaria foi igualmente pintada.

Josefa de Óbidos pintou várias naturezas-mortas com bolos. Lubin Baugin «retratou» um despojado quadro, com garrafa e copo de vinho e rolos de bolacha, conhecidos como língua-da-sogra. O pão foi imensamente mostrado, ou não fosse a base alimentar dos séculos passados no Ocidente.

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Lubin Baugin «retratou» um despojado quadro, com garrafa e copo de vinho e rolos de bolacha

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Paul Cézanne retratou cebolas

Nos prazeres encontram-se ostras, lagosta, sapateira, peixes, carnes… e vinho! Porém, há uma natureza-morta «deliciosa», de Juan Sánchez Cotán, de couve, abóbora, pepino e marmelo (?)… devia estar de dieta. Paul Cézanne retratou cebolas. O mestre Abel Manta escolheu um safio luzidio que, só de ver, transmite a sensação olfactiva da trimetazidina – o nitrato responsável pelos cheiros dos pescados e que me revolve as entranhas e faz vomitar… deixe-vos sem mais intimidades. Mas o bicho é lindo!

Como não podia deixar de ser, o vinho corre abundantemente, indicando o deleite que ainda hoje nos sacia a alma. Note-se que o vinho era uma fonte acessível de calorias, que os pobres podiam beber – tantas vezes alimentou os camponeses e operários portugueses e até há bem pouco tempo.

No entanto, o vinho mostrado não era para a garganta do trabalhador braçal. Apresenta-se acompanhado por uma garrafa (luxo) e em copos finos, do caro cristal, certamente – até o vidro era caro. Outras vezes, os cálices são de metal trabalhado. Faço uma nota, a cerveja foi também muito escolhida.

Se hoje os consumidores preferem os tintos (confesso que não consegui dados actualizados), o vinho branco foi, aparentemente, na pouco fiável memória, mais escolhido pelos pintores. Há muitos claretes, tão distante dos retintos que hoje agradam a tantas pessoas.

Disse bastarem as intimidades, mas esta tem fundamento. O meu pai era apreciador de vinho. No entanto, as duas naturezas-mortas, que tenho dele, têm flores, fruta, pão e… água!

Roquevale, uma vertical do Tinto da Talha Grande Escolha

Texto João Pedro de Carvalho

Desta vez rumo à vila de Redondo, mais propriamente à Roquevale que fica na estrada para Estremoz entre Redondo e a Serra D´Ossa. A empresa possui duas herdades num total de 185 hectares, a Herdade da Madeira Nova de Cima vocacionada para a produção de tintos onde despontam os solos de xisto e a Herdade do Monte Branco com solos de origem granítica mais vocacionada para a produção de brancos, onde está sediada a adega. A empresa que hoje se assume como a segunda maior empresa privada do Alentejo, a produção ronda os 3 milhões de litros por ano e é liderada pela enóloga Joana Roque do Vale.

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A adega e os vinhos – Foto Cedida por Roquevale | Todos os Direitos Reservados

O mundo do vinho e Joana Roque do Vale sempre andaram de mão dada, desde a infância em Torres Vedras onde os seus bisavôs eram produtores. Após a revolução de Abril o pai de Joana, Carlos Roque do Vale decide mudar-se para a vila de Redondo para tomar conta das duas herdades do sogro (que em 1970 já tinha iniciado a plantação de vinha na zona de Redondo). A Roquevale iria nascer em 1983 de uma sociedade entre Carlos Roque do Vale e o seu sogro. O caminho de Joana estava traçado, o mundo do vinho era a sua segunda casa, daí até fazer o seu estágio curricular na Herdade do Esporão foi um ápice. Aprendeu com os melhores, como coordenador de estágio teve o engenheiro Francisco Colaço do Rosário e o enólogo Luís Duarte que já na altura era também consultor da Roquevale. Terminado o curso começou a trabalhar na empresa da família onde iria assumir pouco tempo depois a enologia da empresa.

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Talhas – Foto Cedida por Roquevale | Todos os Direitos Reservados

Um produtor com marcas bem conhecidas dos consumidores onde se destacam nomes como Terras de Xisto, Tinto da Talha ou Redondo. O vinho agora em destaque foi durante largos anos considerado como o topo de gama da empresa, o Tinto da Talha Grande Escolha que nos mostra as duas melhores castas de cada colheita. A prova em formato vertical começou com o 2003 e foi até ao 2010, mostrando em todas as colheitas um vinho que encarou com naturalidade a passagem do tempo, sem sinais de desgaste ou velhice acentuada. Sempre com direito a passagem por barricas novas, durante as primeiras colheitas destaca-se a assídua presença da Touriga Nacional que ia intercalando com Aragones ou Syrah, daria lugar depois à Alicante Bouschet que combina com Syrah ou Aragones sendo 2009 o único que junta Touriga Nacional com Alicante Bouschet.

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A vertical – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O que mais gostei foi o 2010 Aragonês/Touriga Nacional que mostra uma dupla em perfeita harmonia num conjunto cheio de vida com muita fruta madura, algum vegetal presente, tudo em perfeita harmonia. Amplo, guloso, exuberante com ponta de rusticidade, num bom registo fiel à região e a pedir comida por perto. Muito bom está o Aragonês/Alicante Bouschet 2008 que mostra um conjunto cheio e guloso, cacau, fruta sumarenta com pingo de doçura, tudo balanceado e fresco, bálsamo de segundo plano com muito sabor no palato, equilibrado e com taninos a marcarem ligeiramente o final. Seguido bem de perto pelo 2003 junta Touriga Nacional/Aragonês que sendo a primeira colheita mostrou-se em muito boa forma a juntar a uma fruta vermelha ainda madura uma bonita frescura de conjunto com bálsamo fino, couro, especiarias, tudo em corpo médio ainda com energia e final longo. O Tinto da Talha Grande Escolha 2009 junta Touriga Nacional/Alicante Bouschet, inicio com vegetal fresco e fruta madura e de apontamento mais doce, de início algum químico, tudo muito novo cheio de garra e bastante sabor, boa frescura mas final um pouco mais curto do que se esperava.

O Aragonês/Syrah 2007 é de todos aquele que menos conversa, cerrado com aroma químico de início, cacau, pimenta, fruta envolta em geleia, frescura a envolver tudo com boca saborosa, rebuçado de morango em fundo com balsâmico num conjunto bem estruturado com bom suporte e persistência. Um vinho com muito ainda para dar e que certamente está em fase de arrumações. Da colheita 2004 Syrah com Touriga Nacional saiu um tinto com fruta vigorosa, muita pimenta com chocolate de leite, arredondado e coeso, ligeiro vegetal de fundo. Mostra a fruta bem limpa e saborosa, cereja ácida, amora, bom de se gostar. Para o fim ficaram as colheitas 2005 Touriga Nacional/Aragonês que se mostrou de todos o vinho mais aberto e espaçado, tímido mas a mostrar o cunho Roquevale bem patente. Muito melhor na prova de boca, que se fosse de igual gabarito no nariz, seria um caso muito sério. Por fim o que menos gostei, o Syrah/Touriga Nacional 2006 que despejou no copo aromas químicos com vegetal acentuado, num conjunto agreste, muita nota fumada, rusticidade a fazer-se sentir. Ligeira frescura na boca com alguma fruta em corpo mediano e sem ter a mesma prestação que os outros irmãos de armas.

Contactos
Roquevale, S.A.
Herdade do Monte Branco, Apartado 87
7170-999 Redondo
E-mail : geral@roquevale.pt
Website: www.roquevale.pt

Herdade de Vale Barqueiros

Texto Bruno Mendes

A poucos quilómetros de Alter do Chão encontramos a Herdade de Vale Barqueiros. Com uma área a rondar os 800 ha foi fundada em 1853 e pertence à família do Comendador Vasco Faria. Neste momento conta com 368 ha de Olival e 122 ha de vinha onde estão maioritariamente plantadas castas portuguesas como Arinto, Fernão Pires e Antão Vaz nas brancas e Aragonês, Trincadeira e Touriga Nacional nas tintas. No entanto também aqui se aposta em castas internacionais como a Alicante Bouschet, a Syrah e a Cabarnet Sauvignon.

Esta herdade alberga ainda 140ha de sobreiros e pinheiro manso, 2 barragens, 3 lagoas, couto de caça associativa, clube de pesca desportiva, dispondo também de adega própria onde o vinh é produzido recorrendo às mais mais modernas tecnologias sem nunca descurar a tradição e os conhecimentos adquiridos durante os mais de 25 anos de produção de vinhos “Vale Barqueiros”. O responsável pela enologia é, desde 2010, Joachim Roque, que procura juntamente com a sua equipa, criar vinhos personalizados com qualidade acima da média e que transmitam o “terroir” desta herdade.

Para saber mais pormenores sobre esta propriedade veja o vídeo abaixo:

Hexagon Tinto 2009 e Hexagon Branco 2013 (Seis é número de saber) – Colecção Privada Domingos Soares Franco Touriga Francesa 2013

Texto João Barbosa

Ao contrário do sete, para quem é supersticioso, o seis não é um algarismo mágico. Para os chineses, o oito é fantástico, de excelente augúrio. Por isso o seis é quase… mas há seis e «seis».

Escrita a graçola numerológica, os vinhos Hexagon (branco e tinto) são a prova de que o «seis» é de sabedoria e não de acaso. Seis porque se fazem com esse número de castas, provenientes de parcelas diferentes.

A primeira colheita apresentou-se em 2006, referente à vindima de 2000, apenas tinto. Lembro-me de o ter levado para um jantar com amigos e da reacção de contentamento dos festejantes. O Alexandre, um regular involuntário reactivo, ficou, literalmente de boca aberta e a proferir palavrões, no sentido elogioso: F***-**, GANDA VINHO! Cum c******!

Felizmente, os Hexagon são sempre diferentes. Para quem gosta da expressão da natureza, é uma mais-valia – muito embora implique que uns sejam melhores que outros. Para quem prefere uma fórmula que dê uniformidade, colheita após colheita, não os beba. Não critico, para mim são escolhas igualmente defensáveis e legítimas.

Tendo-os todos num elevado patamar de qualidade, é-me difícil não expressar algum gosto pessoal. Provavelmente serei um pouco «infantil»: o primeiro e o último são os melhores. A memória pode trair, evidentemente.

O mais recente tinto é referente a 2009 e fez-se com touriga nacional (35%), touriga francesa (touriga franca – Domingos Soares Franco, o enólogo-mor, prefere a denominação antiga – 17%), syrah (15%), trincadeira (13%), tinto cão (10%) e tannat (10%).

Desta formulação, a descrição aromática torna-se extensa – é que não levou «betume» que descaracteriza a expressão dos bagos. Extensa, complexa e maçadora. Aliás, os cheiros evoluem, substituem-se e regressam. Os enófilos que se entretenham numa brincadeira.

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Hexago tinto 2009 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Hexagon branco 2013 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

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Colecção Privada Domingos Soares Franco Touriga Francesa 2013 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

O exame oral obedece sensivelmente as mesmas características organolépticas. Acrescente-se elegância, enchimento da boca, fundura e longo final.

Também gosto muito do quatro. O Hexagon Branco 2013 é, na verdade, um quadrado. Tal como o oito, gosto muito do quatro. Do que não gosto é da casta antão vaz. Repito o que digo sempre: uma coisa é gosto e outra é qualidade. Por isso, não se veja na afirmação uma sentença de castigo.

O Hexagon Branco 2013 é um lote de viosinho (34%), verdelho (30,5%), antão vaz (20%) e alvarinho (15,5%). É igualmente um grande vinho, de complexidade olfactiva e excelente comportamento na boca.

Assinalando, para memória futura, a minha avaliação do «meu gosto»: Desgostou-me o antão vaz e o alvarinho. Se a primeira variedade é um golpe no barbear, a segunda é apenas um levantar de sobrancelha … a forma como esta casta do Norte da região dos Vinho Verde se manifesta no Sul não…

A touriga francesa é a grande alma da região do Douro, assim chamada (creio) por ter surgido na época em que em França se andava a fazer híbridas. Penso que o autor permanece anónimo, mas sabe-se que é filha de touriga, que à época não precisava de ser designada por «nacional», e de mourisco. A primeira porta-se bem na adega, mas é complicada no campo, e a segunda é o oposto.

Podia ter nascido com os maus genes de ambas, mas saiu uma planta extraordinária – para mim a melhor casta tinta portuguesa. Porém, são raríssimos os casos em que se mostra com a alma do Douro. Além de ser uva que gosta de ter amigos na garrafa.

Nesses casos raros, de cabeça, só me lembro de dois produtores que sabem conduzi-la como se fosse um Lamborghini – desculpem, mas é a única marca de super-automóveis desportivos de que gosto. São eles José Mota Capitão (Herdade do Portocarro) e Domingos Soares Franco.

Foi com a certeza que o enólogo-mor da José Maria da Fonseca tem «dedinhos» para conduzir o Miura e a excitação infantil – é a segunda vez neste texto que me acuso de ser criança, talvez seja grave – do brinquedo novo que abri a garrafa.

Bem, da qualidade já se sabe, nos Colecção Privada e no que referi acerca dos Hexagon é aqui também verdade. Por isso, quase não consigo fugir à classificação do «meu gosto».

Não é a touriga franca do Douro, mal seria, mas também uma excelência. Quando o provei, assaltou-me um espanto: umas notas florais, nada excessivas, de laranjeira. Comentei que nunca experimentara nada que se parecesse – até mesmo em tintos de castas diferentes.

Quando espreitei a ficha técnica percebi que «houve batota»… ou melhor, que Domingos Soares Franco estava a conduzir o Lamborghini num autódromo, com combustível preparado para competição.

A batota: touriga francesa (95%) e moscatel roxo (5%). Malandro! Grande Domingos!

Quinta do Francês, o médico que sonhou ser enólogo

Texto João Pedro de Carvalho

Rumamos novamente ao Algarve, uma região que num espaço de uma década tem vindo a fazer um esforço para se voltar a colocar no mapa da produção de vinho de qualidade. O contributo dos produtores que acreditaram naquela região tem sido fundamental, entre eles está Patrick Agostini o responsável pela Quinta do Francês. Nascido em França e descendente de uma família italiana do Piemonte com tradições vinícolas, Patrick formou-se como médico de anatomia patológica em França, mas também com formação em viticultura e enologia.

Acabaria por mudar-se para Portugal e aqui constituir família, encontrou uma propriedade que achou a ideal para cumprir o seu sonho, produzir vinho. Teve de começar praticamente do nada, uma vez que no início, a propriedade era apenas constituída por encostas com vegetação selvagem, mas após um ano e meio de preparação dos solos, drenagens e correcção de acidez a vinha foi implantada em 2002.

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Endtrada da Quinta do Francês in facebook.com/QuintaDoFrancesWinery

Hoje conta com 8 hectares de vinha situada nos vales de Silves, a meio caminho da Serra de Monchique, ali bem perto da ribeira de Odelouca. As vinhas distribuem-se por dois tipos de solos com os solos xistosos a totalizarem 6,5 hectares com a casta branca Viognier e as tintas Aragonês, Cabernet Sauvignon, Syrah e Trincadeira. Nos restantes 1,5 hectares e já em solo de aluvião muito perto da ribeira de Odelouca, ficou apenas instalada a Cabernet Sauvignon. Os seus vinhos têm vindo a ganhar notoriedade e a ganhar merecidamente o seu espaço junto dos consumidores. A qualidade sempre presente em vinhos onde a qualidade acima da média é hoje uma realidade não só na região de vinhos do Algarve mas também na Quinta do Francês.

Em prova coloco dois dos vinhos produzidos que a meu ver são o que de melhor o produtor tem para nos oferecer. O Quinta do Francês branco 2014 é um 100% Viognier com passagem por barricas de carvalho francês. Um branco com boa complexidade, fresco e de aromas delicados e limpos, descritores a invocar a casta (pêssego, maçã, pêra, ligeiro floral) baunilha da barrica com tudo em grande harmonia. Saboroso com a fruta a fazer-se sentir acompanhada de toque apimentado, algum fruto seco (avelã), frescura e a envolvente da madeira a arredondar os cantos em final de boa persistência.

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Quinta do Francês branco 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Francês tinto 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Do outro lado da mesa o Quinta do Francês 2013, um blend de Cabernet Sauvignon, Syrah e Aragonês com estágio em barrica por mais de um ano até ao engarrafamento. Mostra-se sério e com boa complexidade, frescura ligeira austeridade no aroma, grafite, tudo sem excessos com a fruta (frutos do bosque) a dar sinais de ligeira doçura, notas de bagas de pimenta preta, ligeiro floral num conjunto com a madeira bem integrada. Boca a dar indicação de um vinho sério e coeso, saboroso e com raça onde a fruta surge com notas de baunilha e especiarias em final de boa persistência.

Contactos
Quinta do Francês Estate Family
Sítio da Dobra Odelouca
Cx P 862H
8300-037 Silves – Portugal
Tel: (+351) 282 106 303
E-mail: quintadofrances@gmail.com
Website: www.quintadofrances.com

Quinta do Vallado

Texto Bruno Mendes

É uma das Quintas mais antigas e famosas do Vale do Douro. Foi propriedade de Dona Antónia Adelaide Ferreira, construída em 1716, e permanece até aos dias de hoje na família. Estamos a falar da Quinta do Vallado, próxima do Peso da Régua, nas margens do Rio Corgo.

Em 1993, numa altura em que a direcção já estava a cargo de Guilherme Álvares Ribeiro e da sua mulher Maria Antónia Ferreira, a empresa decidiu ampliar a sua área de actividade fazendo assim produção, engarrafamento e comercialização com a sua própria marca. Até então e durante 200 anos, a Quinta do Vallado tinha como principal actividade a produção de vinhos do Porto que eram depois comercializados sobe o nome Casa Ferreira, também pertencente à família.

Hoje em dia a Quinta do Vallado conta com 70 hectares de vinha plantada, 20 dos quais com vinhas com mais de 80 anos e, os restantes 50 com vinhas de idades compreendidas entre os 11 e os 18 anos. As castas aqui plantadas mais predominantes são a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Barroca, Tinta Amarela e Sousão nas tintas e a Viosinho, Rabigato, Moscatel, Verdelho (Gouveio) e Arinto nas brancas.

Concluídas em 2009 as novas adega e cave contam com a mais avançada tecnologia e uma arquitectura de qualidade, tornando a Quinta num espaço fantástico e num dos lugares a visitar no vale do Douro (Baixo Corgo).

Mais recentemente, a Quinta do Vallado abriu as portas de uma outra propriedade, situada no Douro Superior (Foz Côa). A Quinta do Orgal (Casa do Rio) com magnificas instalações e vistas sobre o rio – veja aqui do que falamos.

Para uma visão mais detalhada confira o vídeo abaixo e o artigo da Sarah Ahmed sobre esta Quinta aqui.

Grão Vasco Prova Mestra 2013

Texto João Barbosa

A região vitivinícola do Dão foi, durante muitos anos, um referencial de qualidade e onde nasceram marcas que garantiam qualidade, quando o país bebia sobretudo vinhos indiferenciados, a granel nas tabernas, do que vinha da aldeia quando o migrante interno lá ia matar saudades do berço.

O Dão não fugia à regra, mas puxando um bocadinho pela memória ocorrem-me alguns: Aliança, Caves Velhas, Constantino, Dão Pipas, Grão Vasco, Porta de Cavaleiros, São Domingos, Terras Altas, UDACA…

Em Nelas situa-se o Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, na Quinta da Cale. A designação, só por si pode parecer vazia de significado, mas é uma casa importante, instituída em 1946. Trata-se dum organismo dependente do Ministério da Agricultura, criado durante a ditadura do Estado Novo que muito promoveu o consumo de vinho. Ficou célebre a frase publicitária: Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses.

O ditador António Oliveira Salazar, como homem de origens rurais, visitava a sua aldeia de Vimieiro, no Concelho de Santa Comba Dão. Gostava do vinho da sua terra e há imagens em que o serve a camponeses – apesar de tudo, penso que nisso era genuíno e não pose para as fotografias de propaganda.

O país era pobre – foi-o de facto até ao final da ditadura, em 1974 – e o vinho era uma fácil e acessível fonte de calorias. A agricultura tinha um peso enorme nas contas públicas e, dentro dela, o trigo e o vinho.

Quanto à pobreza, por vezes relativizada ou menorizada, cito que, em 1979, na Fonte da Telha – terra partilhada por Almada e Sesimbra, na Área Metropolitana de Lisboa – muitas crianças eram alimentadas a sopas-de-cavalo-cansado… vinho e pão. Não é mito, está documentado, incluindo em filme. Muito antes, possivelmente até talvez após o final da Segunda Guerra Mundial, era enorme o número de crianças descalças. E até adultos.

Assim se pode enquadrar a importância que o sector tinha no Dão neste departamento público. Quem teve oportunidade de provar e/ou beber vinho do Centro de Estudo de Nelas comprovou a excelência destes néctares, com uma notável capacidade de envelhecimento, tanto tintos como brancos.

Andando para a frente, a região do Dão decaiu muito nas preferências dos consumidores. O ressurgimento tem sido progressivo e, durante anos, motorizado pela Dão Sul (Global Wines). Hoje, ninguém nega a qualidade dos vinhos desta demarcação e têm surgido novos vitivinicultores.

A marca Grão Vasco é icónica e a Sogrape tem vindo a promove-la. Julgo que com bom resultado. Recentemente foi apresentado o Grão Vasco Prova Mestra 2013, um tinto feito com uvas da Quinta dos Carvalhais (mais de 50%), com 105 hectares, dos quais 50 são de vinha, sendo a parte restante comprada.

Grão Vasco Prova Mestra 2013 é um lote touriga nacional (36%), tinta roriz (31%) e alfrocheiro (33%). A fruta foi prensada em cubas de inox, onde ocorreu a fermentação alcoólica. Fez a fermentação maloláctica em barricas de carvalho francês, tendo estagiado durante 12 meses. Antes de sair para venda, estagiou três meses em garrafa. Foi aprovado como «Reserva», mas essa indicação não faz parte da marca, embora venha a indicação num selo à parte.

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Grão Vasco Prova Mestra 2013 – Foto Cedida por Sogrape SA | All Rights Reserved

É um vinho fácil, onde as violetas – típicas da touriga nacional neste que é o seu berço – e as amoras e framboesas se «juntam». Menos óbvias, notas de mentol e de caruma de pinheiro. Na boca é suave, com taninos domesticados e com final não muito longo.

Já que escrevo acerca do Dão, não posso esquecer dois factos importantes. Um, mais conhecido do público, é o Queijo da Serra – o mais afamado cincho português. A outra referência é a obra do pintor Grão Vasco.

Portugal, pela sua situação periférica, as artes chegaram com atraso. Quando a Europa construía catedrais góticas, por cá ainda se erguiam igrejas em românico ou num género híbrido. Contudo, o caso de Vasco Fernandes, conhecido por Grão Vasco e que muitas vezes assinava como Velasco, é diferente.

Nasceu provavelmente em 1475, talvez em Viseu, e faleceu em 1542. Foi discípulo de Francisco Henriques, pintor flamengo, oriundo de Bruges. O facto de, à época, se traduzirem os nomes, ficou o registo dado nesse tempo.

A pintura de Vasco Fernandes pode ser considerada ainda como gótica, mas num período muito tardio, em que os avanços técnicos e «o gosto» do Renascentismo já se mostram.

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Retábulo de São Pedro in wikipédia

Quem se passeie pelo Dão não perca uma visita ao Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu, onde está um magnífico retábulo de São Pedro, originalmente colocado na Sé. Em Coimbra existe uma obra acerca do Pentecostes, no Mosteiro de Santa Cruz – onde está também o túmulo do primeiro Rei de Portugal, Dom Afonso Henriques. Em Lisboa, há que ver no Museu Nacional de Arte Antiga.

Blend-All-About-Wine-Grão Vasco Prova Mestra 2013-Pentecostes

Obra acerca do Pentacostes, no Mosteiro de Santa Cruz in wikipédia

Quanto ao vinho, causa primária do texto, é uma aposta segura para quem aprecia o Dão. Não é estratosférico, mas também não é meramente mediano. A mediania cansa-me, mas este deu-me um prazer superior a esse patamar.

Da cozinha para a vinha, os vinhos de Margarida Cabaço

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes as decisões acertadas que tomamos na vida abrem os caminhos do sucesso, esta como muitas outras é uma história de sucesso. Tudo começou quando a jovem Margarida chegou a Estremoz, quis o destino que fosse ali encontrar o seu amor, Joaquim Cabaço, descendente da família Cabaço. Joaquim desde cedo aprendeu as artes do campo e da vinha, foi ele o responsável por plantar as actuais vinhas com a sua mulher Margarida em 1992. Na altura sem produção ou adega própria, toda a produção de uva era vendida a produtores da região, por outro lado era a paixão pela cozinha que iria levar a que em 1994 Margarida Cabaço inaugurasse um dos templos da cozinha Alentejana, o Restaurante São Rosas.

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Margarida Cabaço à porta do seu restaurante, São Rosas

Apesar de toda a arte e mestria que Margarida coloca na sua cozinha, sentiu em determinado momento a necessidade de a complementar com algo mais, com algo que tivesse também o seu cunho, a sua mão. Nascia com a colheita de 2001 o projecto Monte dos Cabaços e as uvas que antes eram vendidas agora davam origem ao primeiro vinho do casal, curiosamente um Syrah produzido a partir de uma vinha com três anos. De um total de 130 hectares de vinha, entre uva branca e tinta, 55 ficaram para o projecto Monte dos Cabaços com os restantes a irem para o seu filho Tiago Cabaço. Hoje em dia a gama de vinhos cresceu e está mais composta, a enologia está a cargo da enóloga Susana Estéban mas cabe sempre a Margarida Cabaço a última palavra.

O processo de escolha começa na vinha tal como o faz aos produtos que coloca no São Rosas, critério de qualidade sempre presente. Os melhores lotes têm direito a passar por barrica e quando se mostram de patamar superior vão para o Monte dos Cabaços Reserva. Quanto à gama de vinhos especiais de nome Margarida, os quais não irei abordar por agora, são vinhos elaborados com a melhor casta de cada colheita, da qual uma parte ajuda a complementar os lotes dos restantes vinhos. O primeiro branco nasceu em 2005, agora temos o Monte dos Cabaços Colheita Seleccionada branco 2013 em prova que junta as castas Antão Vaz, Arinto e Roupeiro, apenas com passagem por inox. A mostrar-se com fruta (citrinos, maçã) vigorosa e muito madura, folha verde de limoeiro e flores brancas num conjunto directo e franco mas onde se nota algum nervo. Na boca mostra-se algo tenso, equilíbrio entre a fruta madura e suculenta e a secura, todo ele fresco e com bom final.

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Monte dos Cabaços Colheita Seleccionada Branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Monte dos Cabaços Colheita Seleccionada Red 2009 and Monte dos Cabaços Reserva Red 2008 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Nos tintos, o Monte dos Cabaços Colheita Seleccionada 2009 mostra-se muito centrado na fruta madura, muita baga e frutos do bosque, alguma ameixa, notas de chocolate preto, tabaco, pimenta preta, tudo fresco e com boa intensidade. Conjunto bem estruturado, passagem saborosa com frescura em final longo. Para último fica o Monte dos Cabaços Reserva 2008 feito de Touriga Nacional e Alicante Bouschet, com estágio em barrica. Um vinho atractivo e sério, com fruta preta muito madura envolvida em frescura e alguma geleia, boa harmonia de conjunto com notas de especiarias e uma muito boa concentração onde a barrica aparece muito bem integrada. Muito envolvente ao mesmo tempo que mostra nervo e garra, até alguma austeridade que se faz sentir em pano de fundo. Na boca é um festival de sensações que nos agarra ao copo com a fruta muito limpa a explodir de sabor, muita garra e frescura com estrutura firme que lhe garante longevidade e uma fantástica prestação à mesa.

Herdade das Servas – Tradição na criação de vinho

Texto Bruno Mendes

A criação de vinhos está no sangue da família Serrano Mira. O bisavô materno dos irmãos Mira que actualmente gerem a Herdade das Servas foi um dos fundadores da Adega Cooperativa de Borba CRL e o avô paterno fundou uma das primeiras empresas particulares de produção vínica do Alentejo.

Situada em Estremoz, esta propriedade alentejana tem 220 hectares de vinha plantada, divididos em quatro vinhas: Azinhal , Judia, Clérigo e Servas . Aqui estão plantadas 13 castas tintas e 9 brancas.

Os vinhos estagiam em madeira de carvalho francês e americano, provenientes das melhores tanoarias mundiais. Dispondo de um restaurante com capacidade para 80 pessoas, onde podem ter lugar reuniões empresariais, convívios turísticos, etc, a Herdade das Servas é também um local dedicado ao enoturismo. Sendo uma das mais antigas famílias produtoras de vinho do Alentejo abre as portas para partilhar a tradição e a experiência dos processos de criação dos seus vinhos com uma visita guiada à adega, cave, vinhas e jardins da Herdade.

Para ficar a conhecer mais sobre esta Herdade veja o vídeo abaixo e leia o texto de João Barbosa previamente publicado aqui.