Posts Categorized : Vinho

Azores Wine Company, raridades que nascem no meio do Atlântico

Texto João Pedro de Carvalho

Tenho seguido com a atenção que me é possível o trabalho do jovem enólogo António Maçanita. Não faz muito tempo que tinha ouvido falar que andava pelos Açores e que dali iriam começar a sair os seus primeiros vinhos, um projecto que com o tempo acabou por se transformar numa espécie de salva vidas de algumas das castas que moram no arquipélago que viu em 2004 a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico ser classificada como Património da Humanidade pela UNESCO. Nascia assim a Azores Wine Company, entre vinha alugada e terrenos comprados contam com 40 hectares de produção no Pico, em São Miguel e na Graciosa. É de enaltecer os esforços desenvolvidos para literalmente salvar do fatal esquecimento castas como o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico que segundo o último levantamento apenas existiriam menos de 100 plantas da variedade. Uma exclusividade aliada a uma raridade que se faz sentir em produções diminutas que mal chegam à mesa de todos os interessados em lhes deitar a mão.

Os vinhos produzidos são separados em duas gamas, a Rare Grapes Collection composta por vinho monocasta onde surge o Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico e a Volcanic Series com o Rosé Vulcânico e o Tinto Vulcânico. Tive a sorte e até poderei dizer o privilégio de provar alguns destes vinhos já que por exemplo do Terrantez do Pico apenas foram engarrafadas 380 garrafas. Comum a todos eles a frescura proveniente da brisa marítima com uma inevitável e porque não o dizer, acidez que se faz sentido algo acentuada quem sabe fruto dos solos de origem vulcânica. Essa mesma acidez que acentua a mineralidade e salinidade comum a todos eles. São vinhos que merecem e devem ser provados e bebidos com alguma atenção, tendo sempre bem presente as condições onde nasceram.

Blend-All-About-wine-Azores Wine Company-Azores

Azores – Foto Cedida por Azores Wine Company | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-wine-Azores Wine Company-Rose

Rosé Vulcânico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Melhor exemplo do que acabo de escrever é o Rosé Vulcânico 2014, parco na tonalidade e ligeiro na graduação, mostra aromas de fruta vermelha bem limpa com boa presença e de fundo algumas notas de mar com a inevitável nota de iodo e salinidade presente. É este factor que pode causar admiração e mesmo ditar o afastamento de alguns apreciadores, o toque salino que se faz sentir no palato. De resto mostra-se com a intensidade suficiente para fazer um brilharete com comida de inspiração oriental.

Com dois Arinto dos Açores em prova, em nada semelhante ao Arinto continental, colheita de 2014 com um deles a ter fermentado sobre as borras ganhando por isso o nome Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014. Na versão mais eléctrica, o Arinto dos Açores 2014 mostra uma invejável finesse, muito menos compacto apesar da acidez que tem acentuar as notas citrinas que se fundem com o travo mineral e novamente o travo salino a marcar aqui ligeiramente o final. No lado quase oposto o “Sur Lies” aposta em tudo aquilo que já foi escrito mas com tudo um pouco mais carregado e cheio, digamos que ganhou um pouquinho mais de músculo. Tudo o que for de concha fará no imediato uma belíssima harmonização com estes dois vinhos.

Blend-All-About-wine-Azores Wine Company-Arinto

Arinto dos Açores “Sur Lies” 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-wine-Azores Wine Company-Terrantez

Terrantez do Pico 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Para o final deixo aquele que considero a estrela da companhia, o Terrantez do Pico 2014, que das 380 garrafas produzidas o transforma num vinho não de garagem mas de armário, e se for climatizado melhor porque tem pernas para andar muitos e longos anos. Delicada e refinada complexidade que encerra o conjunto, apresenta notas citrinas bem variadas, das mais maduras às mais amargas, nuances de ligeira tropicalidade. Pouco ou nada exuberante, parece precisar de tempo para se desenvolver, porque de momento está ainda fechado, dominado pela austeridade mineral e o travo de maresia.

Contactos
Rua dos Biscoitos, Nº3
São Mateus
9950-542 Madalena – Pico Açores
Website: www.azoreswinecompany.com

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Chefs
Quinta da Alameda, uma Vinha Velha em Santar

Texto José Silva

Foi no restaurante “Antiqvvm”, no Porto, que Carlos Lucas e Luís Abrantes apresentaram o primeiro vinho da Quinta da Alameda, sua propriedade em Santar. Amigos de longa data, estes dois empresários, embora de áreas diferentes, decidiram há uns tempos comprar a Quinta da Alameda, uma propriedade bem conhecida em Santar, em pleno coração do Dão, com grande tradição e algumas vinhas muito velhas. A par do plantio de vinhas novas, estas vinhas velhas foram acarinhadas e trabalhadas para dali tentar retirar uvas muito boas e fazer vinhos de excelência. Parece que o objectivo foi atingido neste primeiro ano, embora com uma produção muito pequena, decorrente da idade das vinhas. Para mais tarde vai ficar a recuperação de algum património arquitectónico da quinta e a construção duma adega onde as uvas sejam trabalhadas, vinificadas e os vinhos guardados para estágio e engarrafamento. Um dos objectivos é evoluir para a produção em modo biológico, pensando também na defesa cada vez mais premente do ambiente.

Nesta apresentação, o enólogo Carlos Lucas juntou-se aos chefes do restaurante, Vítor Matos e Ricardo Cardoso, e com eles construiu as harmonizações que se mostraram mais adequadas, sempre com algo de surpreendente, como as equipas do Vítor Matos sempre nos habituaram.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Rosa-Teixeira

Rosa Teixeira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Ribeiro Santo

Ribeiro Santo Blanc de Noir – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Num espaço de grande beleza e elegância, requintado, onde a Rosa Teixeira não deixou que falhasse nada, fomos recebidos com o espumante Ribeiro Santo Blanc de Noir, já com provas prestadas. Apresentou-se amarelo com alguma evolução, muito elegante, com bolha finíssima e cordão suave. Seco, aromas de palha, tosta, alguns frutos secos, na boca tem volume, acidez muito equilibrada, muito envolvente e fez óptima companhia aos snacks Antiqvvm..

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Encruzado 2013

Ribeiro Santo Encruzado 2014 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Salmon

Salmão Marinado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já sentados à mesa, passamos ao vinho branco, o Ribeiro Santo Encruzado 2014, uma casta fantástica, um vinho de cor citrina, cristalino. Muito elegante e sedoso, alguma fruta branca intensa, levemente seco, fresco. Complexo, intenso mas aveludado, frescura e acidez equilibradas, alguma fruta de polpa branca com final sedoso e longo.

Fez companhia a um salmão marinado, coco, morangos, pêra abacate, coentros, capuchinha e ovas de truta e, à parte, um surpreendente tártaro de vieira com malagueta e citrinos, pérola de encruzado e salicórnia.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Vieira

Um surpreendente tártaro de vieira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Muita frescura, sabores intensos mas equilibrados, a mestria do Vítor Matos à nossa mesa. Mas ainda antes da estrela da noite, houve lugar a uma surpresa, um vinho ainda em barrica, apresentado em garrafa com rótulo provisório, o Jaen 2013. De um ano difícil, um vinho que já é muito interessante e que surpreendeu até mesmo o seu autor, como Carlos Lucas fez questão de dizer. Granada suave, muito limpo, belos aromas de frutos vermelhos, notas de fumo, sedoso. Bom volume na boca, muito, mas mesmo muito elegante, aveludado, notas de chocolate preto, excelente acidez, final longo, um grande Jaen.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Vitor MAtos

Vítor Matos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Garoupa

Garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para fazer companhia à garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana, ravioli de tinta de choco e carabineiro, emulsão de morilles, tagliatelles de lulas e funcho.

Então sim, veio a estrela da noite, o Quinta da Alameda Reserva Especial Tinto 2012. Numa garrafa muito bem apresentada, rótulo sóbrio e elegante, tem cor rubi intensa, muito limpo. Floral, notas de frutos vermelhos, esteva, pinheiro. Grande acidez, fresco, intenso, muita fruta, notas balsâmicas, eucalipto, sedoso, taninos bem maduros, irreverentes, final muito longo, um vinho extraordinário, para se beber já ou guardar por muitos anos. Afinal foi a segunda surpresa da noite!!

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Reserva Especial Red

Quinta da Alameda Reserva Especial Red 2012 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Deer Loin

Lombo de veado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E acompanhou mesmo bem o lombo de veado ligeiramente fumado com trompetas da morte e vinagre de boletus, balsâmico velho, cremoso de cherovia e espinafres, pão de pistáchios e molho de especiarias.

Um prato cheio de complexidade a dar luta a um vinho fantástico.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-dessert

Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Watering

Regar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fechou-se com um Porto Tawny Reserva da Quinta das Tecedeiras a fazer companhia a uma sobremesa desconcertante, abóbora com requeijão e pudim apresentados num vaso, que o Vítor Matos haveria de regar, estando no prato a torta de cenoura negra, amêndoas torradas, sorvete de tangerina, creme e espuma de beterraba, legumes com xarope de sabugueiro. Sem palavras…

O Dão continua a dar que falar!

Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013

Texto João Barbosa

Durante a ditadura do Estado Novo (1926 a 1974) criaram-se arquétipos para identificar as províncias, entidade organizativa hoje inexistente. Havia uma redutora iconografia nacionalista, mas também regional. Valorizou-se muito o folclore, sendo aqui o fandango.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Lagoalva-Ribatejo

Ribatejo

Blend-All-About-Wine-Quinta da Lagoalva-Ribatejo-2

Ribatejo

Para o Ribatejo desenharam-se toiros bravos, os nobres animais da actualmente polémica tourada, campinos e obviamente cachos de uvas. O vinho tinha uma importância crucial na economia e na alimentação, sendo que esta província produzia em grande quantidade.

A vontade de produzir muito levou a que as vinhas (generalizando) estivessem em solos ricos. Porém, a videira é masoquista. A reputação, até há poucos anos, não era das melhores. Porém, a comissão certificadora e vários produtores, em número crescente, encarregaram-se de mudar a imagem. O corolário foi a alteração da designação de Ribatejo para Tejo.

Uma das primeiras casas agrícolas a despertar para a nova realidade foi a Quinta da Lagoalva de Cima, situada junto a Alpiarça. É uma empresa que produz muito mais do que vinho, sendo o azeite outro produto identitário de qualidade. Ali lavra-se uma infinidade de bens alimentares. Em 2.500 hectares cabem muitas culturas e floresta.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Lagoalva-Home

Quinta da Lagoalva – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Há quatro patamares de vinhos, com diferentes preços. Existe uma linha comum, com dois ramais: qualidade e «honestidade». Esta verdade traduz-se na regularidade e consistência do que é produzido e posto à venda – tendo que se ter em conta a especificidade da climatologia dos anos.

Recuso-me em entrar na obsessiva vontade de sentenciar (quase decreto) acerca da relação entre qualidade e preço. Cada pessoa tem o seu conceito e gosto, disponibilidade financeira e avaliação de até quanto sente ser aceitável um valor. Evito referir preços, pois não tenho dados para que possa assegurar um montante. Digo apenas que estes vinhos estão bem ao alcance duma algibeira da classe média, não custam um ordenado nem uma semana de trabalho.

Uma das primeiras referências que conheci foi o branco Lagoalva Talhão 1. Não gostei! Todavia, aproximou-se (aproximei-me) e é um vinho (referência abstracta) que bebo com agrado no Verão, como aperitivo e em convívio descontraído. A gama Lagoalva tem essa característica da descontração, sendo também competente para ir à mesa.

Os vinhos são muitos e acerca deles escrevi uma súmula, que penso ter traduzido o bom trabalho que se faz nesta firma. Vou ao motivo: Lagoalva Barrel Selection Tinto 2013. As gamas são Monte da Lagoalva, Espírito Lagoalva, Quinta da Lagoalva de Cima e Quinta da Lagoalva.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Lagoalva-Barrel Selection

Lagoalva Barrel Selection Red 2013 – Photo Provided by Quinta da Lagoalva | All Rights Reserved

Tal como os anteriores e os olvidados, é um vinho de fácil prazer – no melhor do sentido do adjectivo. Contudo, é uma «coisa» à parte. A própria designação indica que se está presente de algo especial: uma escolha de várias barricas, que geraram 4.000 garrafas.

Trata-se dum par de syrah e touriga nacional, com a mesma percentagem. Estagiou um ano em barricas novas de carvalho francês. A madeira sente-se, mas não esmaga. Não é para se beber em tragos volumosos, antes com vagar.

A demora dos repastos do final de Outono e do Inverno, quando a mesa é rica e substancial, e as comidas mais complexas e exigentes quanto a parceiro. Concordo com o produtor quando aconselha pratos de forno. Estou a pensar no Natal.

Contactos
Sociedade Agrícola da Quinta da Lagoalva de Cima, S.A.
Quinta da Lagoalva de Cima
2090-222 Alpiarça
Tel: (+351) 243 559 070
Email: geral@lagoalva.pt
Website: www.lagoalva.pt

Outono na Quinta da Casa Amarela

Texto José Silva

O pai Gil, a mãe Laura e o filho Gil – eles são a Casa Amarela e a Casa Amarela são eles!

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Gil-Laura-Gil

O pai Gil, a mãe Laura e o filho Gil – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Têm construído este projecto, uma vida dedicada ao Douro, à Quinta da Casa Amarela e aos seus vinhos. Vinhos feitos com paixão, uma grande paixão, que partilham com clientes e amigos, com simplicidade, sem salamaleques, mantendo sempre um nível de qualidade de que não abdicam.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-House

Quinta da Casa Amarela – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Yard

Quinta da Casa Amarela – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E fazem muito bem! Levam os seus vinhos por todo o país, mas também por alguns outros países. Um trabalho de persistência, de muitas horas ao volante ou dentro de aviões, muitas provas comentadas, mas muitos clientes satisfeitos. E as parcerias com colegas produtores de outras regiões: primeiro foi com o Paulo Laureano e os seus néctares alentejanos, depois o Paulo Rodrigues da Quinta do Regueiro e o Alvarinho de Melgaço, finalmente com Sir Cliff Richard e os seus vinhos algarvios. Tudo com a ajuda do enólogo Jean-Hugues Gros, o francês que também se apaixonou pelo Douro e por lá ficou, a fazer vinhos muito bons. Visitar esta quinta é sempre um prazer, somos recebidos como família, há já muitos anos.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-barricas

A nova sala de barricas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-House-2

A beleza da casa coberta de vinha virgem – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A beleza da casa coberta de vinha virgem, agora a pintar-se daquelas tonalidades outonais, a nova sala de barricas, em que pedra e madeira fazem um casamento perfeito e a velha sala dos tonéis, onde a música clássica de fundo dá aquele toque de magia e recato.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-olda-cask-room

A velha sala dos tonéis – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Que os vinhos certamente agradecem.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-The huge tree

Aquela árvore enorme – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Cá fora, aquela árvore enorme já se confunde com as paredes da casa, imponente e autoritária.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-the-vines

As vinhas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-the-vines-2

Aguardam pelo merecido descanso de inverno – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Lá mais acima, as vinhas repousam, aguardando pelo merecido descanso de inverno. Mas estávamos ali para provar os vinhos, sabendo que a Laura Regueiro não deixaria de nos presentear com uma refeição caseira, como só ela sabe apresentar.

Já no conforto da sala de estar, começamos pelo branco Casa Amarela Reserva 2014, cheio de frescura e acidez muito equilibradas, notas de fruta de polpa branca muito elegantes, persistente e a ligar muito bem com umas tostinhas com queijo gratinado e uma deliciosa compota de pimento.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Reserva-2014

Casa Amarela Reserva 2014 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Norte-Sul

Norte Sul 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se o Norte Sul 2013, também com frescura, exótico, jovial, muito agradável, simples mas com estrutura, uma boa surpresa. Agora já estávamos numas fatiazinhas de bola de carne, muito típica na região, fofinha a saborosa.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Bola-de-Carne

Bola de carne – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Terroir II

II Terroir XIV – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Terminamos os aperitivos com o outro branco de parceria, o II Terroir XIV, em que a mineralidade do Alvarinho casa muito bem com a elegância e frescura do branco do Douro. Intenso, muito elegante, com óptimo volume de boca, um vinho gastronómico.

Já sentados à mesa, deliciamo-nos com uma sopa de acelgas com crocante de cebola, muito apaladada e bem quente.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-swiss-chard-soup

Sopa de acelgas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Reserva-2013

Casa Amarela Reserva Tinto 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E já se abria o Casa Amarela Reserva Tinto 2013, que se apresentou pleno de aromas florais, com frutos vermelhos, intenso mas muito elegante, com notas de fumo, muito fresco, aveludado, com os taninos já bem casados e final saboroso.

Veio então para a mesa um soberbo joelho de porco assado no forno, muito bem temperado, a desfazer-se na boca, com batatas a murro e couves salteadas, mais uma rodelas de tomate bem maduro e cebola carnuda, bem temperados. Que bom!

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Main-dish

Joelho de porco assado no forno – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-PL-LR

PL-LR IX – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para os copos, o tinto PL-LR IX, uma ligação fantástica com tintos de duas regiões, tão distantes e tão próximas. Aromas complexos, aveludado, ligeiras notas de fumo e alguma fruta preta madura. Na boca tem óptimo volume, é carnudo, intenso, poderoso, com acidez muito equilibrada e final longo.

Ainda a saborear o prato de carne, apreciamos o tinto Casa Amarela Grande Reserva 2011, uma bonita homenagem ao avô Elísio. Dum ano incrível, é um vinho distinto, muito elegante, requintado, cheio de complexidade aromática, com muito boa acidez e uma boca cheia, com longo final. Ainda vai durar muito anos na garrafa…se lá chegar!

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Grande-Reserva-2011

Casa Amarela Grande Reserva red 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-apple crumble

Crumble de maçã – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Finalmente a sobremesa: primeiro o crumble de maçã que é obrigatório nesta casa, depois uma tira de queijo de meia cura na companhia de uvas brancas e tostinhas.

Primeiro abriu-se o Porto Tawny 10 Anos, com aromas de frutos secos intensos, notas de mel, de marmelo, excelente acidez e muita frescura.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Porto-Tawny-10-anos

Quinta da Casa Amarela Porto Tawny 10 Anos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Casa Amarela-Porto-vintage-2011

Quinta da Casa Amarela Porto Vintage 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para o queijo foi a vez do primeiro Vintage comercializado pela casa, e logo o 2011!! Com fruta preta muito madura, notas de chocolate, levemente balsâmico, gordo, cheio, poderoso mas ao mesmo tempo elegante, um belo representante do que de melhor se faz nos vinhos do Porto modernos. Uma bela refeição, como sempre, entre gente boa, na companhia de vinhos com carácter.

E o Douro agradece…

Contactos
Quinta da Casa Amarela
Riobom
5100-421 Lamego
Tel: (+351) 254 666 200
Fax: (+351) 254 665 209
Mobile: (+351) 962 621 661
E-mail: quinta@quinta-casa-amarela.com
Website: www.quinta-casa-amarela.com

Quinta do Cardo, a frescura dos tintos

Texto João Pedro de Carvalho

Para os mais distraídos mesmo apesar de já aqui ter escrito sobre duas das últimas novidades da Quinta do Cardo, inserida na Companhia das Quintas, um branco e um espumante. Recordo que é um produtor da Beira Interior, nas proximidades da vila de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda, no Interior Norte de Portugal. As vinhas são em altitude, num total de 180 hectares, dos quais 69 são de vinhas cultivadas numa cota de 750 metros de altitude. Com a recente mudança de enologia mudou-se também a filosofia no que a viticultura diz respeito, hoje em dia os vinhos são apresentados como fruto de uma agricultura biológica/orgânica.

Desempoeirados e cheios de frescura até a nova roupagem parece surtir o efeito desejado, ou seja, os vinhos tornaram-se apelativos e dão a vontade de pegar neles para ver melhor o rótulo e o passo seguinte é levar para casa. A evolução que tem sido feita ao nível da apresentação tem sido notável e mora nos rótulos um certo “je ne sais quoi” que me faz recordar os rótulos do produtor italiano Vietti. Leia-se portanto muito bom gosto no que à escolha foi feita nesse aspecto, tanto é que há um upgrade no visual do vinho Colheita para o Reserva sempre com a flor do cardo presente.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Cardo-Refreshing-Reds-1

Quinta do Cardo Tinto 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta do Cardo-Refreshing-Reds-Reserva

Quinta do Cardo Touriga Nacional Reserva 2012 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Quanto aos vinhos em si, são dois tintos sobre os quais agora escrevo e que se apresentam como novidades no mercado. O Quinta do Cardo tinto 2014, feito a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, com estágio de 9 meses em barrica de carvalho francês. O vinho foi para mim uma surpresa pela forma desempoeirada e fresca como se mostrou, a fruta muito solta e bem delineada, saborosa, ligeiro floral num conjunto coeso e bem estruturado. A passagem por barrica complementa o aroma e arredonda-o ligeiramente no palato, sem perder todo o vigor da juventude, num vinho feito a pensar nos bons momentos à mesa e que se mostra ideal mesmo face ao preço para um consumo diário com qualidade bem acima da média.

Dando um claríssimo salto em frente no que à qualidade diz respeito, surge o vinho Quinta do Cardo Touriga Nacional Reserva 2012 com direito a 20 meses em barricas de carvalho francês. Ainda muito jovem, tudo ainda novo apesar de contar já com três anos de vida, bem focado na casta e nos seus principais descritores. Grande frescura e vigor de conjunto, austeridade mineral em fundo com ligeiro terroso, muita fruta misturada num vinho que de momento parece um novelo apertado e coeso a precisar de mais tempo para melhor se desenrolar na garrafa. Aberto nesta altura será companheiro de pratos de forte temperamento como uma feijoada de javali ou uma lebre com feijão branco.

Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 – A coroa longe dos holofotes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Vallado significa “grande vale”. Qualquer pessoa que já tenha feito o tour até ao topo desta propriedade do Douro no Land Rover vintage da Quinta do Vallado pode confirmar, é vertiginoso; as vinhas sobem dos 80 aos 380m de altitude. Lá no topo é onde estão as vinhas mais velhas – field blends centenárias de 34 castas diferentes – que teimosamente permanecem enraizadas. Foi destas vinhas que – a coroa – proveio o novo e surpreendentemente diferente vinho tinto da Vallado, Vinha da Coroa – de uma parcela de dois hectares com o mesmo nome.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-Land-Rover

Descansar os punhos! O Land Rover chega ao topo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Ao explicar a origem deste vinho, Francisco Ferreira confessou que lhe causava confusão que, “todos os anos, duas parcelas de vinhas velhas adjacentes (e vinificadas da mesma forma) produzissem os melhores e os piores vinhos”. Agora espantem-se, estes “piores” vinhos provinham da Vinha da Coroa! Fazendo cara feia, como se tivesse acabado de mastigar uma graínha de uva, Francisco relembrou, “todos os anos que passavam a fruta Vinha da Coroa tinha um sabor mais verde e mais amargo”.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-Vinha da Coroa

Vinha da Coroa – vinhas velhas predominantemente viradas a norte – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Até ao lançamento do Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013, a fruta desta parcela tinha como destino o Vallado Tinto, um vinho de entrada com muito mais volume, uma boa maneira para disfarçar as características específicas desta fruta. Então porquê fazer um vinho produzido unicamente desta parcela? Para Francisco, resultou de um melhor conhecimento da Vinha da Coroa. Uma pista, até há pouco tempo, a parcela costumava chamar-se “Moscatel Velho” (já foi local de plantação desta casta branca de vinho branco). Um factor que, juntamente com os seus solos ricos, explicam por que é que a maturidade dos taninos era um problema para a Vinha da Coroa mas não para as outras parcelas de vinhas velhas da Vallado.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-Francisco-Ferreira

É tudo uma questão de prespectiva – Francisco Ferreira com vinhas velhas da Quinta do Vallado viradas a sudoeste – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Dado que a Vallado se situa na sub-região mais fria e húmida do Douro (Baixo Corgo), a maior parte das suas vinhas adoram o sol e estão viradas a sudoeste. Um aspecto que, diz Francisco, é o segredo para a qualidade dos taninos “muitos maduros e equilibrados” dos tintos de topo Quinta do Vallado Reserva Field BlendQuinta do Vallado Adelaide, já para não falar da poderosa fruta concentrada.

Assim que Francisco percebeu a diferença, percebeu que resolver o problema da Vinha da Coroa passava por adapatar a vinificação à sua localização mais fria, especificamete extraindo menos taninos e, para o equilíbrio, fruta mais delicada. Afinal de contas, como observa, “o mais importante [questão proeminente para a qualidade do vinho] é o equilíbrio… Não me importa que as uvas estejam muito maduras se mantiverem uma boa acidez e não houver excesso de alcoól e fruta demasiado madura; também não me importa que estejam um pouco menos maduras se o vinho não mostrar taninos verdes ou amargura”. Como demonstra eloquentemente o último e muito equilibrado lançamento da Vallado, com uma menor extracção, a Vinha da Coroa é um local favorável para vinhos com apelo inicial (fruta e taninos suaves), mas com complexidade de sabores de vinha velha. Ou como diz Francisco, “vinhos mais leves, talvez menos vistosos, mas mais apelativos do ponto de vista do consumidor”.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-easy-does-it

Da maneira fácil – sem fermentadoras robotizadas (à esquerda) para a Vinha da Coroa – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Na verdade, para o Vinha da Coroa, até escolheu previmente este local frio para demonstrar o seu perfil fresco – gostei muito das frutas vermelhas crocantes, toque apimentado e acidez fresca. Este estilo de vinhos mais leves mas sérios já está assente na Austrália, onde um produtor me disse recentemente “tem que haver vida além da vida e do homem e grande vinhos com peso, poder e força. A Austrália pode fazer isso mas também pode fazer outras coisas”. Tal como o Douro pode, tomando como exemplo, reconhece Francisco, a Nieeport que esteve na vanguarda desta abordagem com o Charme.

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-Vinha-da-Coroa-2013

Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 (Douro) – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Em busca de um estilo mais leve, Francisco não esmaga nenhuma das uvas e, 50% por cento são cachos inteiros. Enquanto que a máquina robotizada de pigeage esmaga as uvas do Reserva e do Adelaide umas quatro vezes ao dia, o Vinha da Coroa foi submetido a um “baixo nível de extracção” (e um pouco de maceração carbónica tipo-Beaujolais) durante os seus 14 dias de fermentação. Foi envelhecido durante 16 meses em barricas de carvalho francês, nenhuma delas nova. Marcadamente mais pálido que os outros tintos 2013 que degustei nesta prova, vivo, com a acidez fresca a trancar as frutas vermelhas crocantes. As notas terrosas e harmoniosas derivadas dos cachos conferem profundidade, enquanto que, as notas de pimenta branca e um toque de eucalipto elevam o final. Corpo médio, com boa longevidade e intensidade, confere uma interessante nota de contraste ao portefólio da Vallado. 14.5%

Blend-All-About-Wine-Quinta do Vallado-boutique-hotel

Casa do Rio, como um ninho de pássaros, o novo hotel boutique da Quinta do Vallado – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Um contraste que, tomem nota viajantes, está agora reflectido na sua sofisticada oferta de enoturismo desde que Francisco abiu a Casa do Rio no Douro Superior. Enquanto que os hóteis da Vallado estão situados bem perto da Régua e da agitação da cidade, a Casa do Rio fica nitidamente longe destes olhares. E, de facto, até fica à face de um caminho de terra batida e não perto de uma estrada. O caminho desce gentilmente pela vinha da Quinta do Orgal da Vallado, levando-nos até este pequeno hotel boutique (seis quartos) com vista para o Douro. Quase escondido por entre os patamares de vinhas como se de um ninho de pássaros se tratasse, e, embora os quartos beneficiassem com um melhor isolamento acústico, é um local espectacularmente tranquilo – um retiro natural. Recomendo.

Contactos
Quinta do Vallado – Sociedade Agrícola, Lda.
Vilarinho dos Freires
5050-364 – Peso da Régua | Portugal
Tel: (+351) 254 323 147
Fax: (+351) 254 324 326
Website: www.quintadovallado.com

Vinho engarrafado era para as festas

Texto João Barbosa

Há 50 anos, um registo «não se diluía no mar de marcas que actualmente existem e não estava tão sujeito “aos gostos dos mercados” e às classificações dos líderes de opinião. Permitia, por isso, fidelidade por parte do consumidor, que fortalecia as marcas, as empresas, o negócio e o estilo do vinho» – explica Virgílio Loureiro.

«O vinho engarrafado era para dia de festa e o mais procurado era o do Dão. A fama tinha sido conquistada mais pelo pioneirismo do engarrafamento do que pela qualidade. A marca era “colectiva”, associada à origem e sobrepunha-se quase sempre à marca da empresa. Havia também marcas individuais, algumas delas lendárias, fruto da qualidade do vinho e, principalmente, da genialidade com que era publicitado» – informa Virgílio Loureiro.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Grao Vasco-label

Rótulo Grão Vasco – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Grao Vasco-label 2

Rótulo Grão Vasco – Foto Cedida por Sogrape Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Um caso emblemático é o Grão-Vasco, surgido em 1958, após a visita de Fernando Guedes (Sogrape) ao Dão. A marca escolhida foi o nome pintor Vasco Fernandes (Grão-Vasco – séculos XV e XVI), natural de Viseu.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Buçaco branco

Buçaco Branco Reservado – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Buçaco tinto

Buçaco Tinto Reserva – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Entre o Dão e a Bairrada há o clássico Buçaco (branco e tinto), do Palace Hotel do Bussaco. Por burocracia, não tem data de colheita, mas o número do lote indica o ano da vindima. Alexandre Almeida, sobrinho do fundador, conta que tudo começou por ser o «vinho da casa» e a primeira garrafa data de 1917.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Bussaco 1

Palace Hotel do Bussaco – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Bussaco 2

Garrafas – Foto Cedida por Palace Hotel do Bussaco | Todos os Direitos Reservados

Na tradição, os vinhos são feitos com a junção de uvas da Bairrada e do Dão – eram vinhos tradicionais dos agricultores, não de enólogo. «Desde logo com a ideia de permitir ao viajante a descoberta da gastronomia local e dos seus vinhos, enquanto vivência duma genuína afirmação cultural». À mesa serviam-se pratos tradicionais, «a par da cozinha, então moderna, de Escoffier».

No ano de 1964 surgiu o Adega Cooperativa de Borba Reserva, conhecido simplesmente por «rótulo de cortiça», pelo seu uso em vez de papel.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Adega de Borba cork Label

Adega Cooperativa de Borba Tinto Reserva – Foto cedida por Adega de Borba | Todos os Direitos Reservados

Alguns vinhos mudaram de nome: o Tinto Velho (1878) hoje é José de Sousa. O Conde d’Ervideira Reserva (cerca de 1880) existe, mas acima dele existe Conde d’Ervideira Private Selection. É um vinho ressuscitado, a produção foi abandonada em 1954 e retomada em 1991.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Jose de Sousa 1

José de Sousa Tinto Velho 1996 – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Jose de Sousa 2

José de Sousa – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

O Gaeiras Branco, feito com a casta vital, viveu grande prestígio nas décadas de 60 e 70 – mas começou a receber prémios a partir de 1876.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Gaeiras Reserva

Casa das Gaeiras Reserva Vinhas Velhas – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Gaeiras tinto

Casa das Gaeiras tinto – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

Morreu durante uns anos, ressurgindo com a colheita de 2013 – o herdeiro é o Casa das Gaeiras Vinhas Velhas.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Gaeiras

Casa das Gaeiras – Foto Cedida por Casa das Gaeiras | Todos os Direitos Reservados

O lugar de Peramanca deu o nome a um dos mais reputados vinhos do Alentejo. Registado, no século XIX, por José António Soares, foi valorizado, mas acabou. Em 1987, a marca Pêra Manca foi doada à Fundação Eugénio de Almeida, na condição de surgir apenas em anos excepcionais. O primeiro branco é de 1990 e o tinto de 1991. O rótulo original tem por base uma aguarela de Alfredo Roque Gameiro (1864 – 1935), mas em 2003 foi redesenhado e simplificado.

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Pera Manca tinto

Pera-Manca Tinto 1998 – Foto Cedida por Cartuxa | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Bottled-Wine-Was for parties-Pera Manca branco

Pera-Manca Branco 1996 – Foto Cedida por Cartuxa | Todos os Direitos Reservados

John Reynolds, neto de Thomas Reynolds que comprou a Herdade do Mouchão, decidiu plantar uma vinha da casta alicante bouschet – pela primeira vez em Portugal. O Mouchão também ressuscitou, em 1985. A adega foi erguida em 1901 e a produção decorreu até à ocupação da Reforma Agrária (marxista).

Ao contrário do que pensei originalmente, encontrei mais marcas do que esperei. É impossível lembrar todas. Enumero mais algumas: Caves do Solar de São Domingos, Colares Chitas, Viúva Gomes, Lagoa Reserva, Messias Santola, Messias Vinho Verde, Messias Rosé, Frei João, Porta de Cavaleiros, Montes Claros, Pasmados…

Os 25 anos do vinho Duas Quintas

Texto José Silva

Foram dois dias a comemorar uma data de grande importância para o Douro e para a Ramos Pinto: os 25 anos dos vinhos Duas Quintas. (João Pedro de Carvalho também escreveu um artigo sobre este tópico, leia aqui)

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Cake

O Bolo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A que se juntaram outras duas datas que também mereceram celebração: o fim das vindimas na Ramos Pinto e a jubilação de João Nicolau e Almeida, quer como director de enologia, quer como administrador delegado da empresa, depois de 40 anos de trabalho intenso e dedicado.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-wines

Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-wines-2

Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Nas instalações da Ramos Pinto em Gaia, depois da chegada dos convidados nacionais e estrangeiros, teve lugar uma prova muito bem organizada de 23 brancos Duas Quintas, entre clássicos e reservas. Os vinhos apresentaram-se em grande forma, a revelar uma evolução extraordinária em garrafa. O mais antigo, de 1994, apresentava um amarelo intenso, muito limpo, com nariz suave e aveludado e  deliciosas notas de evolução. Grande complexidade, boa estrutura, com uma acidez incrível, fino e muito elegante, um belo vinho. O mais recente, de 2014, apresentou uma cor citrina muito clara e é uma explosão de aromas de fruta no nariz, ligeiramente floral, muito jovem. Fresco, acidez intensa, cheio de fruta madura, seco, exótico, a pedir comida. O 2014 Reserva também é amarelo citrino, muito elegante. Aromas intensos de fruta madura, ligeiras notas vegetais, com uma complexidade deliciosa. Intenso, grande equilíbrio entre a fruta e as notas vegetais, exótico, seco e com grande acidez, a prometer grande evolução. Um reserva moderno.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Painting

Quadro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Painting-2

Quadro – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois foi a visita divertida ao museu da Ramos Pinto, que ajuda a entender a filosofia do seu fundador, cujo espírito se mantém em toda a empresa até ao presente.

Seguiu-se um óptimo almoço, na companhia de alguns dos vinhos provados e lá fomos até ao Douro, em passeio tranquilo.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Lunch

Almoço – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-dance

A dançar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Chegados à quinta do Bom Retiro, foi a surpresa da festa das vindimas, com direito a petiscos, o vinho a escorrer pelos copos e até um grupo de música a tocar num palco bem montado. A coisa prometia!

E veio outra surpresa, esta para João Nicolau de Almeida: um palanque com a representação da garrafa do Duas Quintas alusiva aos 25 anos e os cantares populares com versos dedicados à historia da empresa e ao homem, colega, companheiro e amigo que agora se vai retirar. O João fartou-se de agradecer, muito emocionado. Não faltaram os seus filhos e até os netos.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Nicolau

Palanque – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Foot Treading

Lagarada – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Enquanto a festa continuava cá fora, apreciamos um óptimo jantar e de seguida acompanhamos a última lagarada, com os pisadores a trabalharem os mostos em dois lagares de granito, para vinho do Porto.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Rain

A casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

No dia seguinte uma chuva ligeira fez-nos companhia, mas não retirou o ânimo de todos para uma prova épica de 23 tintos, entre clássicos e reservas.

Os vinhos estavam ali, decantados, e nós servíamo-nos à vontade, orientando a prova como entendêssemos, com tempo para apreciar.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-wines-3

Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-wines-4

Os vinhos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O mais antigo, de 1990, dum rubi claro, já não vai evoluir mais, mas ainda assim apresentou um nariz fantástico, elegante, sedoso, perfumado. Na boca está muito equilibrado, suave, taninos muito maduros, um senhor idoso mas com muita classe. O mais recente, de 2013, é granada muito escuro, carregado. Aromas florais, violetas, urze e notas de framboesa. Na boca é intenso, ainda austero, com notas florais, taninos poderosos e óptima acidez. Apesar disso já tem o perfil de elegância que lhes é característico. O mais velho dos reservas, de 1992, é um vinho extraordinário, duma cor rubi intensa, muito limpo. Nariz cheio de souplesse e elegância, com notas suaves de madeira e fumo. Na boca é muito fino, com taninos muito maduros, notas de tabaco, final sedoso muito longo. Grande vinho!

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-lunch-2

Almoço – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-caldo verde

Caldo Verde – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se um almoço volante, servido no alpendre da casa, com muitas vinhas ao fundo e a morfologia do Douro por companhia.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-Ramos Pinto

Vinhos do Porto Ramos Pinto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-opening the cake

Parabéns – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Quem quis voltou aos brancos e no final bebeu-se vinho do Porto e cantaram-se os parabéns. Acabara de se virar uma página na longa história dos vinhos do Douro.

Blend-All-About-Wine-The-25-years-of the Duas Quintas wine-The-End

No alpendre – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

De regresso a casa, passaram-me pela memória algumas das histórias divertidas do João Nicolau de Almeida, com o seu sorriso franco e contagiante.

Assim adormeci no autocarro…

Contactos
Av. Ramos Pinto, 380
4400-266 Vila Nova de Gaia
Portugal
Tel: (+351) 223 707 000
Fax: (+351) 223 775 099
E-mail: ramospinto@ramospinto.pt
Site: www.ramospinto.pt

Porto Blackett 30 Anos, marcado pelo poder do tempo

Texto João Pedro de Carvalho

Uma vez mais continuo na incansável procura pela novidade, encaro isto como uma boa desculpa para continuar a fazer algo que adoro, provar vinhos. E muito recentemente no meio de mesas atafulhadas de garrafas alguém me perguntou se conhecia a marca Blackett e os seus respectivos Portos. Esbocei um sorriso e disse que desconhecia, sorriso esse que aumentou quando à minha frente foi colocada uma garrafa de Porto Blackett 30 Anos. E é nestas alturas que nos sentimos qual criança com um brinquedo novo nas mãos, neste caso trata-se de um senhor tawny.

Blend-All-About-Wine-Porto-Blacket-30-anos

Porto Blackett 30 anos – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Antes de me alongar a falar sobre o vinho, convém centrar um pouco na pessoa que foi  George Blackett, nasceu em Leeds e estabeleceu-se na cidade do Porto no século XIX como comerciante de Vinhos do Porto. O seu posicionamento dentro do sector permitiu-lhe uma progressão assinalável figurando no Top five dos maiores comerciantes desse século. A actividade seria alargada pelos seus filhos nos primórdios do século XX com a associação ao transporte marítimo dando lugar à companhia Blackett e Magalhães. Com a passada do tempo a empresa que se dedicava ao comércio de Vinho do Porto foi mudando de nome, passou por Blackett e Companhia, mais tarde Blackett Sucessores até ser integrada numa grande companhia após a segunda guerra mundial, mais propriamente em 1949. Um nome perdido na História que foi resgatado pela Alchemy Wines, Port Wines & Vineyards, Lda e mostra neste caso um vinho marcado pelo poder do tempo, capaz de sobreviver e crescer ao longo de sucessivas gerações, tal como o propósito desta nova empresa. Este Blackett 30 Anos é proveniente de vinhas cuja idade varia entre os 40 e 60 anos, localizadas no Douro Superior e resulta de lotação de vinhos de superior qualidade envelhecidos em cascos, cuja idade média é de 30 anos.

Blend-All-About-Wine-Porto-Blacket-cellar

Adega – Foto Cedida por Alchemy Wines | Todos os Direitos Reservados

Nunca em tempo algum irei colocar em causa o majestoso Porto Vintage, mas aquilo que mais me encanta e facilmente me conquista é um copo de Porto Tawny, quanto mais velho melhor. É no estilo Tawny que reside, a meu ver, a alma e essência daquilo que é o Vinho do Porto. O lote é uma arte dominada pela figura do master blender que na sua genialidade trata por tu todas as velhas pipas que repousam nas imensas caves. É essa figura que quase sempre passa despercebida aos olhos do consumidor e que sabendo escolher por entre centenas de barricas as que considera melhores, como quem monta um puzzle, consegue criar verdadeiras obras de arte. Neste caso um Tawny 30 Anos com uma belíssima complexidade, muito fresco com uma limpeza de aromas fantástica, tabaco, noz, alperce cristalizado, caramelo de leite, ligeira laca, sensação de untuosidade num conjunto amplo e profundo, com final de boca guloso. Tudo muito preciso na forma como conjuga a juventude e vigor dos vinhos mais novos com a complexidade e educação dos vinhos com mais idade que lhe complementam o lote. Vinhos destes são a recompensa ideal para nos acompanhar no final de um dia de trabalho.

Contactos
Alchemy Wines
Port Wine & Vineyards
Avenida da Boavista, nº2121 – 4º Sala 405
4100-130 Porto
Portugal
Website: www.alchemywines.pt

Vinho de todo o lado – e a começar no Douro

Texto João Barbosa

Durante o período da Guerra Colonial, o Exército era abastecido com vinho engarrafado. «Nessa altura era proibido vender vinho a copo, porque o Estado desconfiava que era oportunidade para adulterar o vinho». Em 1965 rebentou o escândalo do «vinho a martelo», uma bebida «obtida por fermentação de açúcar e junção de água e corantes» – conta Vasco d’Avillez.

Branco ou tinto? Cheio! «A maioria das pessoas não fazia ideia do que era um vinho bom e bebia aquilo a que estava habituada, quer fosse tinto deslavado quer fosse branco oxidado e pesadão» – explica Vasco d’Avillez.

O enólogo Virgílio Loureiro conta que, «até à década de 60, o vinho em Portugal pouco mais era do que sempre foi ao longo dos últimos 250 anos. O local de culto do seu consumo e de compra era a taberna, onde era quase invariavelmente vendido a granel. A exigência dos clientes não era muita, pois o copo era servido cheio – não dando azo a que se pudesse apreciar o seu aroma – e geralmente bebido de um trago».

As tabernas de Lisboa e Porto, embora com preferências de origem (não regiões demarcadas) vendiam vinho de diferentes locais. O vinho provinha sobretudo da terra de origem do taberneiro.

A demarcação da região do Douro data de 1756, a empresa que a instituiu ainda existe – conhecida por Real Companhia Velha. Durante séculos, o Vinho do Porto era o negócio, os vinhos tranquilos não tinham relevo.

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-Grandjó

Real Companhia Velha Grandjó – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-Grandjó-2

Real Companhia Velha Grandjó – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Esta firma detém marcas icónicas do Douro. Em 1912 foi criada a Grandjó, específica para vinhos de colheita tardia. Só na década de 60 surgiram os primeiros vinhos sem Botrytis Cinerea, para responder à procura de vinhos mais leves.

Em 1913 nasceu o Evel – «leve» escrito ao contrário. «O objectivo foi criar um vinho elegante, macio e leve», explica Pedro Silva Reis que preside à Real Companhia Velha. «Os primeiros vinhos, tais como hoje, correspondiam às características descritas: elegantes, macios e, de certo modo, leves. Naquela época existiam poucas marcas e apenas uma pequena parte do vinho consumido era engarrafado e rotulado. A marca notabilizou-se a partir dos anos 30 e 40, pelo que será de supor que terá demorado alguns anos até se considerar um verdadeiro sucesso». Nas duas décadas seguintes, o Evel chegou à mesa do chefe do Estado, passando os rótulos a ostentar a designação de «Fornecedora da Presidência da República».

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-RCV-Cellar

Real Companhia Velha Cellar – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-Pedro Silva Reis

Pedro Silva Reis – Photo Provided by Real Companhia Velha | All Rights Reserved

Real Companhia Velha tem também o oposto do Evel. O Porca de Murça, criado em 1928, homenageando um monumento pré-histórico. «Vinhos tintos potentes e encorpados. A produção dos brancos só aconteceu anos mais tarde. A marca atingiu altos níveis de fama entre as décadas de 40 e 60. Recentemente, a marca voltou a viver momentos de glória ao tornar-se a marca do Douro mais vendida no mundo» – afirma Pedro Silva Reis.

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-Barca Velha 1952

Barca Velha 1952 – Photo Provided by Sogrape Vinhos | All Rights Reserved

Blend-All-About-Wine-Wine-from-everywhere-starting-with-Douro-Casa-Ferreirinha-Reserva-Especial 1960

Casa Ferreirinha Colheita Seleccionada 1960 Reserva Especial – Photo Provided by Sogrape Vinhos | All Rights Reserved

Quando se fala no Douro, há dois vinhos obrigatórios, considerados, por muitos, como os dois melhores de Portugal: Barca Velha (1952) e Ferreirinha Reserva Especial (1960). A Sogrape estabeleceu que os vinhos com maior potencialidade de guarda se designem por Barca Velha e os que previsivelmente terão longevidade inferior se chamem Ferreirinha Reserva Especial.

O espírito e o estilo nunca mudam. Até ao presente saíram 17 Barca Velha e 16 Ferreirinha Reserva Especial (entre 1989 e 1987, a legislação não permitiu o uso do adjectivo «especial».