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Justino’s – Prova de Vinhos Madeira

Texto José Silva

O vinho da Madeira ainda precisa de muita divulgação, ainda é um produto desconhecido para a maior parte dos apreciadores de bebidas alcoólicas, sobretudo de licorosos. E é pena, pois é um vinho de características únicas no mundo, um vinho com grande tradição, um vinho capaz de evoluir durante décadas, tornando-se mesmo num produto de colecção, uma peça rara e apetecível, só ao alcance de alguns.

Mas o vinho da Madeira também tem vindo a evoluir, a modernizar-se e os principais produtores tentam fazê-lo chegar aos mais jovens, que começam lentamente a descobrir este vinho de excelência, numa certa democratização dum produto que tem ajudado a dar a conhecer esta pequena ilha atlântica por esse mundo fora, principalmente em esferas da alta gastronomia e dos provadores de topo. Mas que pode ainda fazer muito mais por este minúsculo território onde o turismo de qualidade é cada vez mais uma realidade de todos os dias, todos os meses, todos os anos.

Uma visita à empresa Justino´s e à sua adega deu-nos uma pequena ideia dessa realidade vínica que é a produção de vinho da Madeira de qualidade. Visita que é sempre um prazer, são momentos de aprendizagem daquilo que se faz nos vinhos da Madeira de grande qualidade, com uma filosofia muito própria. E a prova disso são os vinhos que foram provados em óptimas condições, numa viagem guiada por 13 vinhos da Madeira da Justino´s que iriam ficar na memória.

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3 Years Fine Medium Dry & 5 Years Reserve Fine Dry © Blend All About Wine, Lda.

Começando num dos vinhos mais modernos e jovens, o 3 Years Fine Medium Dry, que se apresentou com nariz seco, intenso, muitos frutos secos, ligeiramente tostado mas ao mesmo tempo elegante. Na boca mostrou alguma doçura aliada, por contraste, a uma bela acidez, equilibrado, um vinho ainda jovem mas por isso mesmo fácil de beber, apreciar e entender.

Um Madeira para todos os dias, para ter sempre uma garrafa no frigorífico.

Seguiu-se o 5 Years Reserve Fine Dry, um vinho já com um toque clássico, apresentando uma bonita cor âmbar dourada, cristalino, muito fresco no nariz, aquele toque seco muito agradável, com boas notas de frutos secos, sobretudo nozes. Envolvente na boca, com grande acidez a dominar o conjunto, novamente notas de nozes e amêndoas, um vinho jovem mas já a atingir a adolescência, seguro e com final longo.

3 Years Fine Rich & 5 Years Reserve Fine Dry © Blend All About Wine, Lda.

3 Years Fine Rich & 5 Years Reserve Fine Dry © Blend All About Wine, Lda.

Voltamos depois aos 3 anos de idade, agora com o 3 Years Fine Rich, um vinho muito jovem ainda mas já muito agradável, para um público talvez mais feminino, com muitas notas de frutos secos no nariz, ligeiramente frutado, com um ligeiro toque seco. Na boca apresenta-se mais doce mas com muita elegância, alguns frutos secos e notas de caramelo, e uma excelente acidez a ligar este conjunto jovem e muito atraente.

Repetiu-se também a idade de 5 anos com o 5 Years Reserve Fine Rich, este com um nariz exuberante, complexo, com ligeira tosta, algum caramelo, frutado, muito envolvente. Na boca é doce mas tem bastante frescura, apresentando-se com óptima acidez, já com um volume de boca intenso e com final longo, um vinho Madeira ainda jovem mas já com as características dum clássico, com um preço ainda acessível, numa solução de compromisso muito interessante não só para os mais jovens e os principiantes, mas também para ter sempre à mão, para o dia a dia.

Depois entramos nos vinhos mais sérios, sérios no sentido clássico do termo, vinhos já dum outro patamar, ainda assim num nível de qualidade/preço muito interessante, os vinhos de dez anos, das castas mais conhecidas e apreciadas, e que apresentaram todos aquele tom âmbar que só variou na intensidade, entre um aloirado do Sercial, até ao castanho mais carregado do Malvasia.

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10 anos Malvasia, Boal, Verdelho e Sercial © Blend All About Wine, Lda.

O Sercial 10 anos foi talvez o mais equilibrado, muito elegante e fresco no nariz, ligeiramente seco e com notas de nozes muito suaves. Na boca é sedoso, envolvente, muito acessível e com bela acidez, muito fresco e mineral, revelando-se sedoso, a deixar um grande final.

O Verdelho 10 anos é muito elegante no nariz, ainda com aquele toque seco associado a alguns frutos secos e ligeiramente tostado. Na boca revela grande estrutura e envolvência, muito elegante e com uma acidez fantástica, intensa mas segura, mesmo dominante no conjunto, ainda alguns frutos secos e final longo, a deixar o palato completamente envolvido.

Veio então o Boal 10 anos, um clássico, talvez a casta mais equilibrada. Enorme elegância no nariz, exótico, complexo, extremamente agradável nos aromas. Na boca tem doçura evidente mas muito bem ligada com uma acidez intensa, que por vezes se sobrepõe à doçura e torna este vinho fascinante, com bom volume de boca, ligeiramente seco, um grande vinho!

Para terminar esta série de vinhos de 10 anos provou-se o Malvasia 10 anos, que se apresentou com um nariz suave e elegante, com notas de nozes, amêndoas e avelãs e alguma frescura. Apesar de ser o mais doce dos quatro, tem uma bela acidez, sendo a doçura elegante, com alguma complexidade, um vinho redondo, bem construído, um vinho mais acessível mas de muito belo efeito.

Chegou então a altura de passarmos a outro patamar, com três vinhos já com mais idade, ainda assim muito frescos e vivos, capazes de ser apreciados em ocasiões diversas e mesmo de fazer boas harmonizações com alguma comida, entre entradas e algumas sobremesas.

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Colheita 1995 e Colheita 1996 © Blend All About Wine, Lda.

 © Blend All About Wine, Lda.

O Colheita 1995 apresenta uma cor âmbar escura muito elegante, cristalino, límpido, muito apelativo. Nariz poderoso, intenso, muito envolvente, com a complexidade dos frutos secos bem presente, mas também ligeiras notas cítricas muito agradáveis. Redondo e intenso na boca, tem uma bela acidez, persistente, bem ligada com notas adocicadas, a dar ao conjunto vivacidade e estrutura, proporcionando um belo final.

Num registo semelhante esteve o Colheita 1996, com uma cor âmbar média muito elegante e agradável. Nariz bastante floral, intenso, os frutos secos bem evidentes a dar-lhe muita elegância. Na boca é ainda a elegância que sobressai, com notas doces envolventes, a acidez equilibrada mas sempre presente, ligeiramente tostado, um vinho muito agradável onde a nota predominante é mesmo a elegância.

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Terrantez Old Reserve © Blend All About Wine, Lda.

Nos grandes vinhos Madeira não pode faltar a casta Terrantez, muita rara e constantemente em perigo de desaparecer, apesar dos esforços louváveis dos principais produtores em tentar mantê-la, pois é um património da ilha sem igual. Provou-se o Terrantez Old Reserve, que apresentou uma cor âmbar clara, cristalina, muito limpo. Uma casta que produz os vinhos mais secos, aqui esteve no seu melhor, muito suave no nariz, limpo e exótico, mesmo inebriante. Excelente na boca, notável, seco, muito seco, com notas de nozes e amêndoa amarga, compota, muito suave, mas com óptima acidez e um grande final!

A prova chegava ao fim e entramos num patamar superior, com aqueles vinhos da Madeira a que um apreciador deseja sempre chegar, vinhos raros mas ainda cheios de força, ainda com muito para dar durante muitos anos.

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Sercial 1940 © Blend All About Wine, Lda.

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Malvasia 1933 © Blend All About Wine, Lda.

Primeiro veio o Sercial 1940 que apresentou uma cor âmbar escura, intensa, com laivos esverdeados, cristalino, muito elegante. Um nariz fantástico, cheio de requinte, mas ao mesmo tempo exuberante e ainda muito fresco. Na boca é soberbo, seco, com ligeiras notas de vinagrinho e uma acidez acutilante, intensa mas muito agradável, notas de nozes e toque citrino muito suave, um final muito longo, fantástico!

Terminamos esta prova de vinhos da casa Justino’s com o Malvasia 1933, já uma peça de colecção. Duma cor âmbar acastanhada, escuro, muito elegante. Grande nariz, cheio de frutos secos, complexo mas ainda fresco, cítrico, incrível. Enche a boca numa explosão de sensações, tostado, aveludado mas com uma acidez indescritível, poderosa, a liderar o conjunto, mas deixando que toda a diversidade de sabores esteja sempre presente, incluindo um delicioso e ligeiríssimo vinagrinho. Estrutura, corpo, intensidade, numa palavra…excelente!

Contactos
Justinos´s, Madeira Wines, S.A.
Parque Industrial da Cancela
9125-042 Caniço, MADEIRA
Tel: (+351) 291 934 257
Fax: (+351) 291 934 049
Email: justinos@justinosmadeira.com
Website www.justinosmadeira.com

O Sector dos Vinhos em Portugal

Texto Patrícia Leite 

Para compreender melhor o vinho português, importa conhecer o sector: como nasceu, como se organiza, o que fazem as Entidades Certificadoras (Comissões Vitivinícolas Regionais e outras) e ainda o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P.. 

Um pouco de História

A cultura da vinha em Portugal é ancestral. Terá alegadamente nascido com os Tartessos, em 2 000 a.C., o povo que terá cultivado a vinha pela primeira vez na Península Ibérica. Já depois do nascimento da nacionalidade, em 1143, e após a desocupação muçulmana, os monarcas doavam terras na condição de se cultivar vinha com vista à fixação das populações.

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Arcos de Valdevez | © Blend All About Wine, Lda.

As condições particularmente favoráveis de solo e clima e o predomínio em algumas regiões de castas de manifesta tipicidade fizerem com que a viticultura fosse ganhando progressiva relevância económica e potenciaram a importância do vinho como fonte de rendimento.

Por esse motivo, Portugal foi estruturando diversas regiões vitivinícolas para permitir a regulação adequada da produção e do comércio dos vinhos de qualidade. Este trabalho inovador de estruturação do sector começou, desde logo, em 1756 com a demarcação da região de produção dos vinhos no Douro, que viria a ser uma das primeiras regiões demarcadas do mundo.

Foto 2 Marquês do Pombal

The portrait of Marquis of Pombal by Louis-Michel Van Loo

De facto, o século XVIII foi marcado pelo crescimento da viticultura em Portugal. Um dos grandes contributos para isso foi o Tratado de Methuen em 1703, através do qual Inglaterra concedia um regime especial aos vinhos portugueses importados, que impeliu grande parte dos agricultores a passar a utilizar as suas terras para a produção de vinho.

Mais tarde, em 1907, no tempo da ditadura de João Franco, retomou-se a lógica da demarcação das regiões produtoras de vinho e iniciou-se a regulação global do sector vitivinícola: foram redefinidos os limites da região demarcada do Douro e foram então demarcadas e regulamentadas outras regiões vitícolas (Vinho Verde, Dão, Colares, Carcavelos, Bucelas, Moscatel de Setúbal e Madeira). Apenas em 1979 e 1980 foram demarcadas as regiões da Bairrada e do Algarve.

Foto 3 Carta Lei 1908 4

Law of 18th September 1908 | Source: www.vinhoverde.pt

Neste processo de criação do sector, foi sendo constituída para cada uma das regiões uma Comissão Vitivinícola Regional (CVR), de natureza associativa com funções públicas de regulação da produção e comércio dos produtos vitivinícolas. Numa fase inicial, as CVR estavam sujeitas a uma forte intervenção estatal, que levou a uma progressiva perda de autonomia destas entidades a partir da década de 30 e a alguma confusão quanto ao seu estatuto jurídico.

Com efeito, no âmbito do plano económico de organização corporativa, o Estado Novo (instituído em 1926) aplicou fortes políticas intervencionistas no sector vitivinícola por este representar uma fonte vital de divisas e um mercado de trabalho para largos milhares de pessoas.

Foto 4 Mapa Wines of Portgal

Wine Regions | Source: www.winesofportugal.info

Foi então criada em 1937 a Junta Nacional do Vinho, organismo de coordenação económica com funções de actuação na produção e no comércio dos produtos vínicos (promoção do consumo de vinho no país, controlo da oferta, estabilização dos preços e armazenamento dos excedentes de produção).

Seguiu-se, nos anos 50 e 60, a criação de uma rede de adegas cooperativas para responder a problemas do mercado em termos de volume de produção e de armazenagem da produção sem escoamento possível (apenas as adegas cooperativas podiam comprar as uvas aos produtores e vinificar, pelo que as empresas privadas apenas podiam comprar vinho já produzido).

Foto 5 Pipas

Ervedosa do Douro | © Blend All About Wine, Lda.

Na década de 80, a organização do sector vitivinícola português sofreu uma importante mudança, por força das medidas de pré-adesão à então CEE, que se concretizou em 1986, e para cumprir totalmente as regras da política agrícola europeia.

Tendo por base políticas de produção de vinhos de qualidade, a legislação comunitária obrigou na altura à criação do conceito de Denominação de Origem Controlada (DOC) e à classificação qualitativa dos vinhos através das categorias V.Q.P.R.D., Vinho Regional e Vinho de Mesa. Note-se que esta lógica já foi entretanto revista, tema este que abordaremos em pormenor num próximo artigo.

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© Blend All About Wine, Lda.

Assim, em 1985 foi efectuada uma revisão profunda do regime do sector pela lei-quadro das regiões demarcadas vitivinícolas (Lei nº8/85, de 4 de Junho), que veio estabelecer a auto-regulação dos interesses profissionais da Produção e do Comércio de vinho representados nas CVR, tendo vigorado no sector por quase 20 anos.

Esta revisão implicou uma clarificação da natureza das CVR à luz dos novos princípios constitucionais em matéria de direito de associação, sendo estas entidades reconhecidas como associações interprofissionais, regidas pelo direito privado. Essa natureza foi, no entanto, conjugada com a presença de um representante do Estado no seu órgão deliberativo, o Conselho Geral.

Foto 7 Douro Wines of Portugal

Douro | Souce: www.winesofportugal.info

Foi também criado em 1986 o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV), que veio suceder à Junta Nacional do Vinho, com o objectivo de adequar a organização do sector aos princípios e regras das normas comunitárias em face da recente adesão de Portugal à CEE.

Quase duas décadas depois, ocorreu em 2004 uma profunda reforma do sector (Decreto-Lei nº212/2004, de 23 de Agosto), em termos institucionais e também regulamentares, à luz da revisão das normas comunitárias entretanto efectuada. Esta lei veio regular as Denominações de origem (DO) e as Indicações Geográficas (IG) utilizadas nos produtos do sector vitivinícola, quanto ao seu reconhecimento, protecção, controlo e certificação.

Foto 8 212 2004

Decree-Law no. 212/2014

Orientada pela experiência adquirida, pela evolução do sector e pelo reconhecimento da capacidade das CVR de autogestão dos interesses profissionais, esta reforma definiu ainda um novo modelo de relacionamento das CRV com o Estado. É criada a figura das Entidades Certificadoras (EC) e são definidas as regras da sua natureza e estrutura orgânica, tendo sido suprimida a representação do Estado no Conselho Geral e reforçadas as competências de controlo e certificação.

As Entidades Certificadoras (EC) 

Uma EC é uma associação de direito privado, de carácter interprofissional, reconhecida pelo Ministro da Agricultura para exercer funções de controlo da produção e comércio e de certificação de produtos vitivinícolas com direito à respectiva Denominação de Origem (DO) e/ou Indicação Geográfica (IG).

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Dão | Source: www.winesofportugal.info

Conforme as regras comunitárias, uma EC deve estar acreditada pelo Instituto Português de Acreditação (IPAC), segundo a norma NP EN 45011 para o controlo e certificação dos produtos vitivinícolas com direito a DO ou IG, e o respectivo laboratório também deve estar acreditado pelo IPAC, segundo a NP EN ISO/IEC 17025 para os ensaios físico-químicos inerentes ao controlo e certificação.

Neste quadro, podem ser designadas EC as Comissões Vitivinícolas Regionais (CVR) ou outras entidades, desde que satisfaçam as condições e requisitos de carácter organizacional e de natureza técnica em respeito dos princípios de objectividade, imparcialidade e independência.

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Provesende | © Blend All About Wine, Lda.

No caso da Região Demarcada do Douro e da Região Autónoma da Madeira, o papel das EC é desempenhado por institutos públicos (o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, I. P. e o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, I.P.) e não por associações de direito privado como as CVR.

As EC têm como atribuições principais promover e defender a respectiva DO e/ou IG, efectuar o controlo e a certificação dos produtos com essa DO e/ou IG, divulgar e promover os produtos que certificam, classificar as parcelas de vinha como aptas à produção e controlar as existências, a produção, a circulação e o comércio das uvas e dos produtos vitivinícolas.

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Bairrada | Source: www.winesofportugal.info

Quanto à estrutura orgânica, as EC têm os seguintes órgãos:
– o Conselho Geral – órgão deliberativo que reúne os representantes da Produção e do Comércio dos produtos certificados;
– a Direcção – órgão executivo composto por um presidente e por dois vogais, um designado pela Produção e outro pelo Comércio;
– e o Conselho Fiscal – composto por um presidente e dois vogais – ou o Fiscal Único, com competências de fiscalização.

O papel do Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV)

O IVV é a entidade de tutela do sector vitivinícola, um instituto público sob a alçada do Ministério da Agricultura.

Com a reforma do sector 2004, foi redefinido o papel do IVV, que passou a centrar a sua actuação na coordenação e controlo da organização institucional do sector, na auditoria do sistema de certificação de qualidade, na supervisão e auditoria das EC, participando ainda na coordenação e supervisão da promoção dos produtos vitivinícolas. Enquanto entidade de contacto junto da União Europeia, o IVV efectua o acompanhamento da política comunitária e a preparação das regras para a sua aplicação.

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Headquarters of the Instituto da Vinha e do Vinho, I.P
Source: www.facebook.com/IVV.PAGINA.OFICIAL

Em termos gerais, é assim que funciona o nosso sector dos vinhos. As EC actuam na defesa, certificação e controlo dos produtos com DO e/ou IG e o IVV na coordenação e controlo do sector.

Legenda:

Produtos vitivinícolas: vinhos, vinhos espumantes, vinhos frisantes, vinhos licorosos, vinagres de vinho, aguardentes de vinho e aguardentes bagaceiras;
Certificação de produtos vitivinícolas: processo de validação da conformidade do produto com os requisitos definidos pela Entidade Certificadora para a DO ou a IG, o qual é evidenciado, no caso dos produtos engarrafados, através do selo de garantia constante da garrafa.

Contacts

Comissões Vitivinícolas Regionais e Outras Entidades Certificadoras
www.ivv.min-agricultura.pt/np4/np4/212.html

Instituto da Vinha e do Vinho, I.P.
www.ivv.min-agricultura.pt

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Jantar da Rota das Estrelas

Texto José Silva

Foi o primeiro de vários jantares inseridos na “Rota das Estrelas”, que este ano começou na ilha da Madeira, tendo como anfitriões o complexo turístico Cliff Bay, o seu restaurante “Il Gallo d´Oro” e o chefe Benoît Sinthon, detentor duma estrela Michelin. Mas nesta edição foi decidido inovar, o que é sempre muito interessante, sobretudo vindo de quem vem, pois normalmente são coisas com muita qualidade.

E foi assim que foi anunciado o primeiro jantar desta rota para as caves Blandy, servido no seu Lodge. Dia 19 de Março rumamos ao Convento de S. Francisco, o Lodge da Madeira Wine Company, para participar num evento fantástico.

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Foto de Henrique Seruca-PortoBay – Todos os Direitos Reservados

Na beleza das caves, aproveitando todos os recantos e salas, muito bem decoradas e iluminadas, espalhavam-se mesas e banquinhas, com camilhas e atoalhados, ocupadas pelos chefes residentes e convidados e as suas equipas, numa panóplia de cores e imagens de extrema elegância e beleza. O pessoal de sala fazia o acompanhamento, recolhendo pratos e copos e substituindo tudo de imediato. Em cada um dos locais as equipas, lideradas pelos chefes, preparavam ao vivo petiscos deliciosos, muitos deles mesmo servidos quentes, cujos aromas se espalhavam pelo ar, dando um ambiente de grande restaurante àquele local fantástico.

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Foto de Henrique Seruca-PortoBay – Todos os Direitos Reservados

E assim todos podiam passear à vontade, parando em cada banca para apreciar a comida que ia sendo servida, para trocar impressões com os chefes e tirar umas fotografias, num ambiente descontraído e informal, em que o mais importante era a comida. Mas também os vinhos, que neste evento serviram de suporte aos imensos petiscos e que tiveram a presença das “Portugal Wine Ladies”, um conjunto de mulheres ligadas à produção e comercialização de vinhos portugueses, que deram um toque feminino precioso para que as harmonias fossem bem conseguidas. O que foi completamente conseguido, um sucesso, e por isso também elas estão de parabéns. Os seus vinhos fizeram belas ligações com os petiscos de cada chefe e elas puderam explicar os vinhos e espalhar a sua simpatia por todo o lado.

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Foto de Henrique Seruca-PortoBay – Todos os Direitos Reservados

Os chefes presentes, alguns deles bem conhecidos e mesmo detentores das afamadas estrelas do guia Michelin, estiveram no seu melhor, preparando e explicando a quem quis os pratos e as suas confecções. Alguns dos chefes cozinharam mesmo ao vivo, fazendo as delícias dos participantes. O anfitrião Benoît Sinthon, foi acompanhado por Ricardo Costa, do “Yeatman”, Vitor Matos, do “Largo do Paço”, Vincent Farges, da “Fortaleza do Guincho”, Miguel Lafan, do “L´And”, Paulo Morais, do “Umai”, Olivier Barbarin, do “Châteux d’Audrieu”, Sebastien Broda e Pascal Picasse, do “Le Park 45”, Henrique Sá Pessoa, do “Alma”, Joe Barza, chefe consultor no Líbano, Adam Simmonds, do “Danesfield House”, Fernando Agrasar de “As Garzas”, José António Campoviejo, do “El Corral del Indianu” e José António González do “El Nuevo Molino”.

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Foto de Henrique Seruca-PortoBay – Todos os Direitos Reservados

Havia pratos de peixe e marisco confeccionados, ostras frescas com champanhe e caviar, havia sushi e sashimi, havia foie gras, havia carnes de borrego e de vitela, havia petiscos sofisticados de pequenas dimensões e pratos mais elaborados em quantidades maiores. E havia doçaria imensa, da mais tradicional à mais requintada. Havia uma mesa com muitas variedades de pão e havia uma enorme quantidade de queijos deliciosos. Junto aos chocolates estavam os vinhos Madeira, da Madeira Wine Company, que estiveram em muito boa companhia. E houve música tocada ao vivo, dando uma nota quase burlesca ao ambiente daquele espaço fantástico com mais de duzentos anos.

Naquela primeira noite da “Rota das Estrelas”, todos foram estrelas…

Madeira – Relatos de uma prova apaixonante na Henriques & Henriques!

Texto Olga Cardoso

Estive recentemente na ilha da Madeira para participar na 5ª edição do evento Rota das Estrelas, um festival gastronómico internacional de enorme qualidade – veja aqui  (www.rotadasestrelas.com).

Como não poderia deixar de ser, a deslocação à Madeira incluiu também a visita a alguns produtores de vinho daquela ilha. Muitos foram os vinhos provados … e grande parte deles deixaram agradáveis memórias.

Um desses produtores foi a Henriques & Henriques, uma empresa cuja história remonta a 1850 e que, ao contrário do que é habitual na Madeira, possui considerável percentagem de vinhas próprias.

Nesta empresa, hoje pertencente maioritariamente à Porto Cruz, tudo transpira organização, limpeza e cuidado. Aquilo que me deixou mais impressionada, para além dos vinhos naturalmente, foi a sua encantadora tanoaria. Sim, na Madeira os produtores possuem tanoarias próprias tal a sua relevância no processo de vinificação e estágio dos seus vinhos licorosos.

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Tanoaria © Blend All About Wine, Lda.

A prova foi magistralmente dirigida por Humberto Jardim, C.E.O da empresa e grande conhecedor de vinhos Madeira. Por entre diferentes perfis, colheitas e castas, conduziu-nos naquela que foi uma “viagem” através do tempo, do conhecimento e das emoções.

O portefólio deste produtor é bastante grande e poderá ser conhecido através do seu site (www.henriquesehenriques.pt), do qual constam imagens e notas de prova dos diversos vinhos que o compõem.

Neste artigo irei falar apenas de cinco dos vinhos provados, aqueles que mais me impressionaram e emocionaram.

Pois é mesmo assim… os grandes exemplares do Madeira são vinhos que fascinam, que entusiamam e nos deixam perplexos.
São vinhos que passam por vicissitudes enormes ao longo do seu percurso, designadamente por uma maturação a temperaturas muito elevadas, vinhos que sofrem extraordinárias metamorfoses que os transformam em algo verdadeiramente excepcional.

Marcados por uma acidez pungente, resistem ao passar dos anos, décadas e séculos como nenhum outro..

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Vinhas © Blend All About Wine, Lda.

Sercial 1971
Marcado por alguma adstringência que se traduz em aromas e sabores a caules e engaço, este vinho mostra-se brilhante e cristalino. Com evidentes notas de frutos secos e especiarias, apresenta-se complexo, com a secura e a acidez viperina típica da casta. Profundo e vibrante, termina longo e persistente. Memorável Sercial.

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Sercial 1971 © Blend All About Wine, Lda.

Verdelho Solera 1898
Se há exemplos de perfeição, este Madeira será um desses casos! Embora suspeita, atenta a minha paixão por esta casta, a verdade é que este vinho me deixou completamente rendida e fascinada. Tudo é ouro neste vinho. Desde a sua cor de um ouro envelhecido até à sua nobre e brilhante complexidade, tudo reluz, impressiona e subjuga! O nariz liberta aromas a frutos secos, mel e delicadas notas de madeira velha. A boca é intensa, volumosa e tremendamente cremosa. Um vinho de antologia!

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Verdelho Solera 1898 © Blend All About Wine, Lda.

Boal 1957
Com um grau de doçura devidamente alicerçado numa acidez acutilante, este Madeira é outro exemplo de charme e pedigree. Aromas de caramelo, pralinés e metais ferrosos, revela uma enorme diversidade olfativa, num nariz que contudo se apresenta limpo e sedutor. A boca é cheia e redonda. Com um perfeito equilibrio e harmonia, deixa um final interminável de que tão cedo não me irei esquecer. Um dos melhores Boal que alguma vez provei!

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Boal 1957 © Blend All About Wine, Lda.

Terrantez 1954
Proveniente de uma casta muito difícil, que por essa razão corresponde apenas a uma percentagem ínfima dos encepamentos na Madeira, este vinho parece-me até um pouco louco e desmedido. Sendo difícil e rara, esta casta dá lugar a vinhos verdadeiramente únicos e arrebatadores. Este 1954 é talvez uma das suas mais puras manifestações. O nariz é uma bomba de aromas a frutos secos, mel e madeira velha muito suave. Com uma textura e uma estrutura notáveis, revela uma complexidade e um profundidade que fazem dele quase desumano. Se não fosse feito por homens, diria que se tratava de uma criação divina!

Founders Solera 1894
Feito essencialmente de Malvasia, a mais doce das castas nobres do vinho Madeira, este solera possui fortes aromas a passas, casca de laranja, sendo também um pouco especiado. Engrandecido pelo passar dos anos, apresenta hoje uma enorme concentração e complexidade. A cor é escura e intensa e a sua boca de um volume impressionante. Cheio e untuoso, com uma textura extremamente macia, termina bastante longo. Um vinho para se mastigar, um vinho que o tempo soube engrandecer!

Contactos
Henriques & Henriques – Vinhos, S.A.
Sítio de Belém
9300-138
Câmara de Lobos
Madeira – Portugal
Tel: (+351) 291 941 551/2
Fax: (+351) 291 941 590
E-mail: HeH@henriquesehenriques.pt
Site: www.henriquesehenriques.pt

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Almoço nas Casas do Côro

Texto José Silva

A visitar vinhas, apreciar a paisagem arrebatadora do rio Douro e a provar vinhos pelo Douro Superior, era chegada a hora de repousar e de nos sentarmos à mesa. Foi o que fizemos na magnífica sala de jantar das Casas do Côro, depois duma interessante visita guiada ao complexo turístico. A sala está muito bem decorada, bom gosto por todo o lado, sóbria, muito acolhedora, até a luz é delicada, um local “cozy”. Mesa muito bem posta, com tudo o que é necessário para uma refeição tranquila e de qualidade.

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Casas do Côro Reserva © Blend All About Wine, Lda

E como as Casas do Côro também têm os seus próprios vinhos, foram eles que acompanharam toda a refeição. E fomos guiados pelos dois proprietários da casa: a Cármen foi descrevendo os pratos, o Paulo explicou-nos os vinhos. Tudo com um serviço de sala impecável, quer a servir a comida, quer a tratar e servir os vinhos. Vinhos que são elaborados por dois amigos da casa, Dirk Niepoort, que faz os vinhos Douro Rosado e Branco Reserva, e Rui Madeira que trata os vinhos Beira Interior Branco, Tinto e Tinto Reserva e vinhos Douro Tinto Grande Reserva. As Casas do Côro situam-se na linha de separação destas duas regiões.

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Casas do Côro © Blend All About Wine, Lda

E foi com um branco da Beira Interior que começamos, o Casas do Coro Branco, já de 2013, um vinho feito com castas menos conhecidas, ainda assim bem interessantes, sobretudo na frescura que transmitem ao vinho. Dum amarelo citrino muito claro, cristalino, apresenta aromas de flores do monte, muito suave e elegante. Na boca é bastante sedoso, com uma acidez muito equilibrada, alguma fruta branca, pêra, ameixa, notas de citrinos intensas e alguma mineralidade a deixar um belo final.

Entretanto o pão veio para a mesa, da região, saboroso, e apreciou-se uma deliciosa bola de azeitona com azeite virgem e orégãos, muito bem elaborada, crocante mas fofa por dentro, muito boa.

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Casas do Côro © Blend All About Wine, Lda

Do Douro veio um rosé da autoria de Dirk Niepoort, o Casas do Côro Rosado 2013, dum rosa pálido, com notas secas e elegantes no nariz, alguns frutos vermelhos, na boca apresentando uma boa acidez e muita elegância, volumoso, aveludado, envolvente e fresco.

Como entrada veio à mesa um rolo de bacalhau com puré tosco de verduras na cocote, muito quente, uma boa ligação entre o bacalhau e as verduras, um conjunto cremoso, e por cima um crocante delicioso a fazer o contraste, excelente. E não faltou a sopa, um creme de legumes da horta, olorosa e muito saborosa.

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Casas do Côro © Blend All About Wine, Lda

Provou-se ainda um outro vinho branco, este do Douro, o Casas do Côro Branco Reserva 2012, onde Dirk Niepoort deu largas ao seu reconhecido bom gosto, com toque precioso de madeira, muito bem casada, aromas ligeiramente florais e fragrância suave de baunilha, belo volume de boca, muito envolvente, um casamento perfeito entre acidez e frescura, um vinho algo exótico com final longo e sedoso.

O prato principal foi um delicioso cabrito de leite assado no forno, que se apresentou desossado, em lascas pequenas, na companhia de batatas assadas no forno, tostadinhas, e um rolo de verduras muito saboroso.

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Casas do Côro © Blend All About Wine, Lda

Provou-se então o tinto Casas do Côro Beira Interior Reserva 2011, um ano que está a dar grandes vinhos tintos. Boa fruta no nariz, algumas notas de barrica e um delicioso toque mineral a dar-lhe grande elegância. Na boca tem persistência, lembra frutos silvestres, algum chocolate preto, ligeiramente especiado e com notas de fumo a par de alguma frescura, num vinho muito equilibrado.

Enquanto se apreciava este vinho tinto veio à mesa alguma doçaria de confecção própria e o queijo curado com umas tostinhas crocantes a dar o final à refeição.

Depois, já era hora de partir, Douro abaixo…

Contactos
Marialvamed – Turismo Histórico e Lazer, Lda
Largo do Côro
6430-081 Marialva – Portugal
Tel: (+351) 917 552 020
Fax: (+351) 279 850 021
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Website: www.casasdocoro.pt

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Insaciável: Rita Ferreira Marques com sede de Conhecimento & A Busca da Excelência

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

O meu último artigo foi sobre Filipa Pato, representante de uma nova geração de enólogos portugueses bem-viajados (ou devo dizer produtores de vinho) que se têm destacado pelos seus vinhos entusiasmantes e orientados pelo terroir.

Em contraste com Filipa Pato (que agora estreitou o seu foco para a Bairrada), Rita Ferreira Marques, um dos elementos do grupo Young Winemakers of Portugal, lançou a sua rede de uma forma bem abrangente. E bem para além das Quintas da Veiga e do Chão do Pereiro no Douro Superior, as duas propriedades da família que têm sido a fonte da sua atractiva marca Conceito desde 2005. Pode-se acrescentar que isso acontece apesar destas quintas serem as maiores propriedades do Vale da Teja. Rita faz também um Sauvignon Blanc de Marlborough, na Nova Zelândia, um blend de Cabernet Sauvignon/Merlot de Breedekloof, na África do Sul e um Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço dos Vinhos Verdes, tudo sob o rótulo Conceito. No ano passado, participou no relançamento da Quinta do Fojo, a famosa quinta no Cima Corgo (Rita faz os vinhos com Margarida Serôdio Borges).

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Rita Ferreira Marques – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Questionei Rita Marques sobre seu desejo aparentemente insaciável de conhecimento e auto-melhoria. De onde vem? E como é que isso influenciou a sua abordagem à produção e ao Marketing dos seus vinhos?

Quais são as lições mais importantes que tem tirado dos seus estudos de enologia?

A importância da ciência e do desenvolvimento tecnológico. O desenvolvimento e o reforço da minha própria intuição e sentido crítico, tendo como base o conhecimento técnico para a compreensão e escolha de aceitar ou rejeitar práticas que vêm da tradição, da inovação, de pressões comerciais, etc. A importância decisiva das aprendizagens baseadas na prática que encontrei em Bordeaux, incluindo inúmeras provas de vinhos.

Quais são as lições mais importantes que tem tirado de suas viagens (visitas e trabalho no estrangeiro)?

Compreender a enologia em vários contextos, desde o quase industrial às pequenas adegas artesanais, onde tudo é feito à mão. Ser capaz de dar conta de todo o trabalho que surja num longo dia, tomando consciência que o vinho vem sempre em primeiro lugar e que justifica todos os sacrifícios. Perceber que algumas vinhas têm qualidades mágicas, seja a luz ou o solo, que as pessoas que fazem esses vinhos têm um enorme respeito pelas videiras e pelas uvas e sentir-me abençoada por ser capaz de utilizar esses factores e integrá-los num grande vinho.

Quais são as lições mais importantes que tem tirado de provar tantos vinhos (estrangeiros)?

Estudar e fazer os meus vinhos faz-me concentrar mais e mais no que posso melhorar em termos de viticultura e enologia. Provar muitos vinhos faz-me querer mais para os meus vinhos, faz-me olhar para fora e tentar perceber para onde quero ir. Provei alguns vinhos que me fizeram pensar “quando eu fizer um vinho assim ficarei satisfeita.”

Como é que essas lições afectaram a sua abordagem à viticultura, à produção e ao Marketing dos seus vinhos?

Todos os anos tento respeitar o que a natureza me oferece. Este respeito é demonstrado, desde logo, no facto de eu não usar pesticidas ou herbicidas na vinha. Faço sobretudo agricultura biológica, mas não me preocupo com certificações ou certificados. Acredito apenas que isso é melhor para os meus vinhos e acho mesmo que isso se vê. A outra lição é agendar a data de colheita, uma das decisões mais importantes que cabe a um enólogo.

Numa fase inicial, tentei fazer vinhos mais fáceis de beber, embora não pondo em risco a sua longevidade. Estou cada vez mais interessada em moderação e em ter meus vinhos cada vez mais bem-recebidos na mesa, preocupando-me cada vez mais com o equilíbrio, a frescura, a pureza, em vez do poder ou do corpo do vinho. Elegância é uma palavra forte para usar aqui, já que o Douro é um lugar quente, e não quero de maneira nenhuma lutar contra a maturação ou profundidade. Mas trabalho no sentido do equilíbrio e, todos as anos, tento adaptar a quantidade e qualidade das técnicas de extracção que uso para respeitar plenamente as uvas e o design dos vinhos que apresento.

A Rita estudou em Bordeaux e na Califórnia, bem como em Vila Real – como é que as abordagens ao Estudo do vinho em Portugal, Bordeaux e Califórnia diferem entre si? Como é que estudar em Bordeaux e na Califórnia a ajudou? Como é que esses estudos trouxeram valor à sua experiência em Vila Real?

Em Bordeaux, tive o prazer de estudar e trabalhar com Denis Dubourdieu, uma grande pessoa, um grande enólogo e um grande professor. Na Universidade de Bordeaux os cursos que fiz foram muito focados na prova e de alguns dos melhores vinhos do mundo. É engraçado que, infelizmente, em Vila Real também temos disponíveis alguns dos melhores vinhos do mundo, mas eles não chegam às salas de aula da Universidade. Os cursos básicos que tirei em Vila Real (e, antes, em Coimbra) tinham um nível adequado ao que aprendi posteriormente em Bordeaux e na Califórnia. Vila Real é mais teórica do que Bordeaux ou Califórnia, não tem a parte prática suficiente. Outra grande diferença é que em Bordeaux tudo tem a ver com o vinho e com a produção de vinho. Assim, os estudantes podem trabalhar em empresas vitivinícolas durante as vindimas, o que é impossível em Vila Real, já que o calendário académico não está adaptado à realidade da produção de vinho.

O site Young Winemakers of Portugal diz que “a nova geração de enólogos portugueses adaptou sua produção a uma nova era e está a criar vinhos que já não podem ser considerados fortes demais para o gosto internacional. A Rita sente que entende o que os consumidores querem nos diferentes mercados e adaptou de alguma maneira a forma de fazer ou apresentar os seus vinhos para que se ajustem a diferentes mercados?

Sim e não. Algumas coisas ainda são um enigma para mim, por exemplo, porque é que um estilo particular de vinho é um sucesso em alguns países e não o é de todo noutros países. Tento fazer vinhos que respeitam o que a natureza oferece em todos os sítios onde os produzo. Os vinhos de que gosto não são pesados ou enjoativos e por isso é natural que tente fazer esses vinhos em todos os locais em que trabalho. Mas sinto que a minha missão (para dizê-lo “em grande”) é oferecer parte daquele lugar (designadamente, e sempre o que penso em primeiro lugar, o Douro) na mesa das pessoas. Não é tanto dar-lhes um vinho que eles possam querer mais do que outro, mas que não iria respeitar esse sentido de origem.

Haverá alguns vinhos das suas viagens que tiveram uma influência fundamental no seu trabalho? Qual o impacto que tiveram?

José Luís Mateo, de Monterey, ou Didier Raveneau, em Chablis, fazem vinhos surpreendentes, cheios de limpidez, de luz, de frescura. Ricardo Freitas, da Madeira, faz vinhos que são uma lição de intuição em enologia para uma produtora de Porto como eu. Nesses casos, a terra oferece uvas perfeitas, eles têm uma obsessão com a acidez e a frescura das uvas e, acima de tudo, fazem as coisas de forma simples e franca.

Existem vinhos de Portugal que tiveram uma influência fundamental em seu trabalho? Qual o impacto que tiveram?

Sim, claro, tanto grandes vinhos como vinhos simples. Por exemplo, ao provar colheitas antigas do Fojo fiquei encantada com a pureza, o foco e a juventude desses vinhos. Mas também ao provar as primeiras colheitas de Duorum fiquei a pensar nas técnicas que permitiriam os meus vinhos serem mais acessíveis numa fase mais jovem e esforcei-me para fazer um trabalho mais preciso na extracção. Depois, os vinhos de Mário Sérgio Alves Nuno, na Bairrada, de Álvaro Castro, no Dão, ou de Miguel Louro, no Alentejo (para citar apenas alguns), também influenciaram a maneira como eu vejo o vinho.

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Rita Ferreira Marques – Foto de Cedida por Rita Marques | Todos os Direitos Reservados

Em Inglaterra há um ditado que diz que o que importa não é o que sabemos, mas quem nós conhecemos. Que vantagens teve por ser tão bem relacionada?

Cada professor ou chefe com que trabalhamos dá-nos parte do seu conhecimento, mais experiência, ajuda-nos a corrigir alguns erros e dá resposta a algumas das nossas perguntas. Mas um professor realmente bom também nos orienta para mais perguntas, faz-nos questionar o que aprendemos e leva-nos a querer aprender mais. Assim, vamos de um lugar para outro, às vezes com uma recomendação, outras vezes só porque ouvimos dizer que os nossos ídolos falaram sobre um dos seus ídolos (ou lugares, ou vinhos). Além disso, é mais fácil voltar a um sítio e começar aí a fazer alguma coisa quando já conhecemos alguém ou temos uma recomendação [Rita está aqui a referir-se ao facto de ter trabalhado em Villa Maria, na Nova Zelândia, e com Bruce Jack de Laje, na África do Sul]. O mundo é pequeno e o mundo do vinho é muito generoso com seus habitantes.

Das pessoas que você conheceu nas suas viagens ao exterior, há alguma em especial que a tenha inspirado ou ajudado?

Já mencionei alguns nomes, mas estou a ser injusta, porque são realmente inúmeras pessoas (todos os lugares onde eu trabalhei inspiraram-me e ajudaram-me a ser uma melhor enóloga) e não apenas os professores e colegas enólogos, mas também sommeliers, clientes, colegas de curso. Podemos todos os dias ser inspirados por alguém. Faço sempre questão de ouvir o que as pessoas têm a dizer, sejam eles famosos enólogos ou o provador de vinho mais inexperiente ou o cliente. Nunca sabemos de onde pode vir uma boa ideia, e muitas vezes conhecimentos bons e preciosos podem estar escondidos nalguma velha história, ou até mesmo alguma ideia errada sobre uma casta, as barricas, um lugar.

Das pessoas que conheceu em Portugal, há alguma em especial que a tenha inspirado ou ajudado?

Jorge Serôdio Borges foi o primeiro enólogo com quem trabalhei e que me inspirou com sua enorme dedicação. Dirk Niepoort com sua paixão pelo vinho. Como disse, é impossível falar de todos eles. Recentemente conheci um produtor, António Ribeiro, que sabe muito sobre castas antigas, o seu desempenho e papel no campo e na adega, e como tudo isso influencia o vinho do Porto que faz. Às vezes, tudo se resume a ter tempo para nos sentarmos, pegarmos num copo e permitirmo-nos passar o tempo numa boa conversa.

Disse que uma das vantagens de produzir vinhos varietais, por exemplo um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, é que se aprende a fazê-lo rapidamente. Acha que o potencial de Portugal tem demorado um pouco a concretizar-se porque existem tantas castas diferentes para trabalhar, o que faz com que seja difícil os enólogos entenderem como podem conseguir o melhor resultado possível das suas vinhas?

Sou uma grande fã de blends de vinhos e de vinhas. Na verdade, acabei de plantar uma parcela de várias castas com cerca de 15 variedades diferentes. Isso torna a aprendizagem mais lenta, mas é uma questão de utilizar o conhecimento que já existe nas pessoas, mesmo que não esteja estruturado em livros científicos, como acontece noutros países. Não podemos ter as duas coisas. A nossa gama de castas autóctones é um dom que recebemos do passado, um milagre da nossa cultura e da nossa agricultura. Se isso torna os nossos vinhos mais difíceis de entender, isso é um pequeno preço a pagar por trabalhar com tanta variedade e por oferecer diferença, complexidade e interesse aos vinhos, o que Portugal pode e está a fazer. Ao provar vinhos velhos de todas as regiões portuguesas descobrimos que o potencial não foi criado ontem, esteve sempre lá. Os olhos do mundo talvez não estivessem focados nos nossos vinhos, mas esse factor foi talvez decisivo para a preservação do carácter dos nossos vinhos.

Como é que a Rita consegue o equilíbrio certo entre ocupar muito tempo nas suas vinhas para conhecê-las e em viajar pelo mundo a vender o seu vinho e ainda a fazer o vinho no Cabo e na Nova Zelândia?

As estações do ano separam muito bem o hemisfério norte do sul, de modo que foi fácil. O resto também é fácil: só viajo para vender e promover meus vinhos se isso não entrar em conflito com a produção dos vinhos e com o necessário acompanhamento a esse trabalho. Dois acontecimentos recentes mudaram um pouco as minhas condições de trabalho. Fui mãe, por isso tenho menos tempo para estar longe de casa e até certo ponto menos vontade de estar longe de casa. Por outro lado, o enólogo Manuel Sapage começou a trabalhar connosco e isso dá-me uma maior confiança para viajar enquanto os vinhos estão a ser bem acompanhados.

Os site Young Winemakers of Portugal diz sobre o vosso grupo que “Todos eles produzem vinhos distintos e mostram uma nova forma de produzir vinhos diferenciada e desinibida. Aprender com a tradição e trazer novos métodos”. Como é que equilibra a tradição com novos métodos e qual é o seu exemplo mais bem sucedido disso?

Falando por mim, eu diria que o exemplo mais bem-sucedido teria de ser o meu vinho tinto feito exclusivamente de Bastardo. Isto é bastante inovador, já que quase ninguém fez e engarrafou um vinho seco de Bastardo no Douro, mas também porque o vinho é feito da forma mais tradicional possível, sendo as uvas pisadas em lagares de granito sem desengaço e com levedura autóctone.
Tendo em conta a sua experiência em mercados e vinhos internacionais de todo o mundo, quais acha que são os maiores pontos fortes e pontos fracos da indústria do vinho portuguesa.

Pontos fortes: a variedade das castas, os blends, os estilos, o que é surpreendente para um país tão pequeno. Além disso, o maior know-how e a ambição que uma nova geração de produtores de vinho está a demonstrar ter. E o prestígio internacional do vinho do Porto, um verdadeiro potencial que nunca foi plenamente explorado para comercializar os nossos outros vinhos.
Pontos fracos: o contexto económico está a impedir muitos desses jovens de produzir e vender os seus vinhos. Há muita pressão para baixar os preços e isso decorre das empresas, que estando financeiramente fracas, lutam para vender em vez de manter a calma e acreditar na qualidade de seus produtos, defendendo e aumentando o seu valor. Além disso, a promoção deveria ser melhor coordenada pelas entidades públicas, porque resolver os problemas apenas com dinheiro é algo que funciona muito raramente.

Como é que acha que Portugal pode utilizar melhor esses pontos fortes e ultrapassar esses pontos fracos?

Não faço ideia. Acho que apenas temos de continuar. Os dados mais recentes mostram que a tendência é de crescimento. Ainda há muito trabalho a fazer na educação do público dos nossos vinhos e isso inclui alguns dos profissionais que desempenham um papel-chave na indústria. Quanto mais pessoas souberem sobre vinho, mais fácil é vender um bom vinho, designadamente um bom vinho português.

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O Douro Verde

Texto Ilkka Sirén | Tradução Patrícia Leite

Primeiro deixem-me começar por dizer: Vinho Verde é uma região e não um estilo de vinho. Quando se fala sobre Vinho Verde ouve-se com demasiada frequência as pessoas dizerem “Vinho Verde? Aquele vinho carrascão gaseificado do Norte de Portugal?” – e isso dá-me logo vontade de lhes dar um soco. Claro, a região do Vinho Verde é conhecida por produzir este vinho gaseificado tipo Spritzer e isso parece ser bastante popular mesmo até aos dias de hoje. E para ser honesto, não me importo. Mas uma coisa que as pessoas devem saber sobre Vinho Verde é que é uma grande região vitivinícola. Na verdade, é uma das maiores da Europa. Esse facto associado à enorme variedade de castas autóctones torna a região num terreno fértil para novos projectos vitivinícolas, como a Quinta de Covela. A quinta e os seus vinhos não são novos, mas através de uma série de, digamos, “incidentes” estão agora a renascer.

Os vinhos captaram alguma atenção a nível nacional e internacional no dia em que Nuno Araújo comprou a quinta no final de 1980. Nuno foi um dos primeiros a iniciar em Portugal a implementação de viticultura orgânica e biodinâmica. Com os seus rótulos invulgarmente “modernos” e os seus interessantes blends de castas, os vinhos Covela tornaram-se conhecidos junto dos entusiastas do vinho Português. Em 2008, Quinta de Covela caiu nas mãos de um banco. Não me lembro o nome do banco, mas isso não importa porque todos nós sabemos o que acontece quando as coisas caem nas mãos de um banco. Tudo se destrói. Escusado será dizer que o banco não se preocupou em fazer o que quer que fosse com a quinta, que ficou completamente ao abandono. Tal aconteceu até 2011, quando Tony Smith e seu sócio Marcelo Lima recuperaram a exploração vitícola. E devo dizer que, desde então, a ascensão da Quinta de Covela foi bastante impressionante. Em poucos anos, passou do estado de quase completamente esquecida ao do produtor de vinho de que todos falam.

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Photo by Ilkka Sirén / All Rights Reserved

A Quinta de Covela produz Vinho Verde, sim, mas a quinta situa-se a 500 metros a apenas do rio Douro. O que acho bastante interessante e algo que se pode detectar nos vinhos. Têm o solo granítico do Vinho Verde, mas o clima de Douro. Primeiro pensei “óptimo, um Vinho Verde sem frescura”. Mas, como sempre, com o vinho não é tão simples assim. Isso dá aos vinhos um carácter único, mas em vez de serem muito maturados com toneladas de frutas tropicais e todos as espécies de tutti-frutti, diria que os vinhos são realmente um pouco contidos. É a magia inexplicável do terroir.

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Photo by Ilkka Sirén / All Rights Reserved

 

Acho que uma das coisas mais inteligentes que os novos proprietários fizeram foi contratar o Enólogo Rui Cunha. Rui, que também trabalha com Aphros (Vinho Verde) e Secret Spot (Douro), já tinha trabalhado na Covela durante muitos anos, pelo que conhece bem a quinta.

A adega é uma bela casa com pé direito alto, paredes cor-de-rosa e umas fantásticas cubas antigas de betão. Pequena, mas muito prática. Devido à falta de espaço sobrepuseram as barricas umas sobre as outras e ligaram ao seu fundo uma espécie de um dispositivo de válvula para a trasfega. Quando há vontade, há um caminho, certo? A quinta abrange 49 hectares, dos quais 18 hectares são plantados com vinha. Embora a Covela seja bem conhecida pelos seus vinhos brancos, também produz alguns vinhos tintos. Além da casta Touriga Nacional, plantaram muitas castas internacionais, como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. Não é bem um “Super Toscano”, mas talvez um Super Douro Verde?

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Photo by Ilkka Sirén / All Rights Reserved

Eis as minhas escolhas da degustação:

Covela Edição Nacional Avesso 2013 (Branco)
Não se pode falar de Covela sem falar sobre a casta Avesso. Esta casta difícil do Minho é raramente utilizada no seu próprio país, mas no lugar certo e nas mãos certas esta pequena casta pode dar um verdadeiro vinho delicioso. Edição Nacional Avesso: um balde cheio de água mineral, citrinos, fragmentos de rocha e algumas fatias de casca de laranja. Coisa boa.

Covela Escolha 2013 (White)

Um interessante blend de Avesso, Chardonnay, Viognier e um pouco de Gewürztraminer. Começa um pouco como aquele jogo de iPad, o Fruit Ninja. Fruta a voar por todo o lado; uma mistura de pêra, pêssego e limão. Mas, de repente, tudo é atacado por uma navalhada de acidez que corta a fruta como um cirurgião plástico remunerado em excesso. Sabores agradavelmente persistentes com um final seco e cortante. Tem definitivamente uma vertente gastronómica bem promissora.

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Photo by Ilkka Sirén / All Rights Reserved

Sobre os tintos… O Covela Escolha Tinto 2005 foi uma beleza. Vinho bem maturado com os aromas típicos de “galinheiro atacado por uma bola de couro”. Coisa saborosa! O Covela Reserva 2012, por outro lado, estava um pouco estranho. É óbvio que ainda é um bebé, mas com 18 meses de estágio em barricas 100% novas não sei se alguma vez será a minha “onda”. O Rui disse que a percentagem de madeira nova será menor no futuro. Não quis comprar barricas em segunda mão porque queria ter certezas sobre a qualidade. Fico à espera desse futuro, mas até lá continuarei alegremente a beber o tão delicioso Avesso.

Covela 5

Photo by Ilkka Sirén / All Rights Reserved

Contactos
Quinta de Covela
William Smith & Lima Lda.
S. Tomé de Covelas
4640-211 BAIÃO
+351 254 886 298
info@covela.pt
www.covela.pt

Um Sensato Recém-Chegado ao Douro: Mateus Nicolau de Almeida

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

Temo-nos correspondido por e-mail. Já provei os seus vinhos. Até já estive várias vezes com o seu pai e com a sua mulher. E, finalmente, conheci Mateus Nicolau de Almeida no “Simplesmente Vinho” no Porto no mês passado. Na semana seguinte eu já estava de volta, numa visita à quinta da família no Douro Superior, de onde Mateus obtém parte das uvas para sua marca Muxagat e de onde também faz o vinho Quinta de Monte Xisto, em conjunto com o seu pai e o seu irmão (João Nicolau de Almeida sénior e júnior), o qual é comercializado pela sua irmã Mafalda Nicolau de Almeida. Parece que esta família do vinho funciona muito bem, porque o blend é muito harmonioso!

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Photo by Sarah Ahmed / All Rights Reserved

João Nicolau de Almeida sénior tem o seu lugar na história do Douro como resultado do seu trabalho pioneiro na Quinta de Ervamoira da Ramos Pinto. Marcando o nascimento de uma nova era da viticultura no Douro, Ervamoira foi a primeira quinta do Douro a ser totalmente plantada com parcelas de castas únicas focadas no chamado “top cinco”, que o estudo-piloto de Nicolau de Almeida ajudou a identificar (as castas são Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão e Tinta Barroca). Foi também a primeira quinta a ser plantada de forma vertical (uma ruptura com a tradição de terraços de contornos horizontais).

Seguindo firmemente as pegadas do pai e do avô (o criador do Barca Velha, Fernando Nicolau de Almeida), Mateus está também a desbravar novos caminhos. Descrevendo-se como um “Douro Vigneron“, diz que a vida da cidade do Porto não é para ele. Vive efectivamente no Douro Superior, onde pode concentrar-se em tratar das suas vinhas e também fazer o vinho. Até mesmo o jardim da frente da casa onde vive com a mulher (Teresa Ameztoy, Enóloga da Ramos Pinto) é uma vinha! Diz que “não há uma cultura de vignerons no Douro – isso é muito recente. Posso contar pelos dedos de uma mão quantos enólogos vivem no Vale do Douro e não nas grandes cidades. Agora, está a começar a viver aqui uma nova geração”.

Mateus Nicolau de Almeida criou raízes no Douro Superior em 2003, no momento em que deu início ao projeto Muxagat. Adoptando a metodologia do avô para o Barca Velha (que o pai também tem usado com sucesso para a gama Duas Quintas da Ramos Pinto), Mateus obtém as uvas de vinhas velhas de várias castas situadas em altitudes mais elevadas, como Muxagata e Meda (entre 500-700 m), e ainda da Quinta do Monte Xisto que, a cerca de 300 m de altitude, é mais baixa e mais quente.

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Photo by Sarah Ahmed / All Rights Reserved

Nas áreas da Quinta do Monte Xisto que não tinham sido previamente cultivadas, Mateus e os seus irmãos plantaram a vinha de forma biológica com sucesso. A vinha foi plantada entre 2005 e 2006 e está agora certificada como Biológica. Mateus explica que “a terra era virgem, por isso, não quisemos adicionar produtos químicos”. Apesar das dúvidas do pai sobre uma abordagem não-intervencionista (“o seu background é a mecanização”), Mateus estava preparado para ter a mente aberta e tem ficado muito feliz com os resultados. O orgulho e a alegria de Mateus no projecto familiar manifestam-se num sorriso de orelha-a-orelha quando partilhei com ele o comentário do pai de que aprendeu muito a trabalhar com os filhos. Mateus acrescenta que “somos de gerações diferentes, temos ideias e perspectivas diferentes, mas chegamos sempre à mesma conclusão [grandes uvas e grande vinho], mesmo que seja de uma forma diferente”.
Então, por que é que esta abordagem não-intervencionista provou ser tão bem-sucedida? Mateus afirma, entre outras coisas, que “as vinhas são como crianças – têm de sofrer, caso contrário ficam mimadas”. Ele diz que teria sido tudo muito fácil se tivéssemos aplicado herbicida quando a relva crescia entre as vinhas, mas a concorrência tem sido boa para as vinhas. Salienta ainda a importância de viver na região “porque demora muito tempo a compreender uma vinha. Vê-se os resultados daquilo que se faz num ano apenas cinco anos depois… é preciso falar com a Natureza e estar aqui todos os dias para a sentir e conectar-se com ela”. É por isso que, embora tenha adoptado algumas práticas biodinâmicas (por exemplo, o cultivo da vinha de acordo com os ritmos planetários e a aplicação da preparação 500/composto estrume de vaca), Mateus não contratou um consultor de Biodinâmica e não anda no encalço da Certificação Biodinâmica.

Está, no entanto, convencido da importância da biodiversidade “porque com a biodiversidade podemos chegar a um momento em que já não é preciso tratar a vinha; já tratamos a vinha cada vez menos”. E quando aplicam tratamentos ou tisanas, incluem ingredientes locais naturais, como por exemplo o eucalipto (um anti-séptico) e cactos “que agem como o aloe vera na pele”, protegendo as uvas do sol. Tendo testado uvas cultivadas com e sem os cactos, Mateus verificou que esta utilização torna os vinhos mais frescos (com um pH mais baixo) e leves (com um álcool inferior).

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Em termos gerais, Mateus notou que, ao receber na adega as uvas das vinhas cuidadas por si pessoalmente, é como se já as conhecesse – “Eu sei o que vai acontecer”. É quase como se as próprias uvas fossem parte da família. Na verdade, eu diria que os vinhos são encantadores e provocantes, muitos parecidos com a família Nicola de Almeida. Aqui estão as minhas notas sobre os vinhos:

Muxagat MUX Branco 2012 (Douro)

Esta combinação de 80% Rabigato com outras castas (não especificadas das vinhas velhas) é muito mineral e tem uma frescura de estalar os lábios, com limões maduros, uma estrutura marcadamente cítrica e um toque de avelã esfumada no seu final longo e bem focado. Este vinho prensado pela gravidade é em parte envelhecido em cubas de betão subterrâneas e também em barricas de carvalho de 600 L. Muito bom – adoro a sua energia e o seu vigor.

Muxagat Os Xistos Altos Rabigato 2011 (Douro)

Este 100% Rabigato de uma vinha a 500 m de altitude teve dois anos de envelhecimento numa combinação de Foudres austríacos de 2000 L e fermentadores de betão em forma de ovo. É um vinho mais pedregoso, com mais textura e com uma ponta salgada num final longo e límpido. Menos directo e mais subtil do que o MUX, oferece-nos muito menos. Mas com mais estrutura terá tempo para desvendar os seus segredos. E eu acho que a espera vai valer a pena. Muito bom; decantar agora ou dar-lhe mais 6 meses a 1 ano.
Muxagat MUX Rosé 2012 (Douro)

Este é um rosé muito interessante – Estou tentada a dizer intelectual, mas se calhar isso é um exagero! Enfim, o que quero dizer é que ele tem poucas semelhanças com os vinhos rosados ​​mais doces, baratos e alegres, para poder ser encontrado em qualquer loja ou supermercado. O que tem toda a lógica dado que MUX provém de uma vinha muito alta, a 700 m, e, por outro lado, é influenciado pelo tipo de rosés secos e muito saborosos que os amigos de Nicolau de Almeida do Sul de França gostam de beber num dia de verão (estou a pensar em Provence, Bandol, Tavel). Um lote de Tinto Cão e Tinta Barroca, fermentado e envelhecido em parte no tanque e também em barricas velhas, este vinho bege-rosado é cremoso, mas seco e redondo, com boa acidez, notas florais e de especiarias secas e um toque de chocolate no seu final persistente. Muito mais agradável do que parece!

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Muxagat Tinta Barroca 2012 (Douro)

Para Mateus a chave deste Tinta Barroca surpreendentemente vivo (propenso a níveis elevados de açúcares / álcool) está baixos rendimentos e altitude. Como o Rosé, este vinho provém de uma vinha a 700 m. As uvas são desengaçadas e esmagadas e depois fermentadas em cubas de betão subterrâneas (fechadas), onde o vinho é envelhecido por 8 meses para maximizar os aromas e a expressão de fruta. É um trabalho bem feito, porque, embora seja um pouco fechado no nariz, este é um vin de soif vibrante e delicadamente perfumado com notas florais, chocolate, pedaços de canela picante, ameixa e bagas vermelhas. Taninos suaves mas fibrosos, leve mineralidade do sal e boa frescura contribuem para um vinho interessante, contudo fácil. Muito bem feito. 13%

Muxagat MUX Tinto 2011 (Douro)

Este vinho é um típico 2011, na sua concentração com estrutura. Tem uma adorável intensidade de bagas pretas suculentas, cerejas e groselhas. Pedaços de canela, as ervas selvagens, chocolate e alcaçuz dão-lhe poder, profundidade e intensidade no final. Taninos maduros e forte acidez contribuem para um final longo e muito vigoroso. Excelente. Carácter e classe.

Muxagat Cisne 2010 (Douro)

Mateus chamou-lhe Cisne porque, como o patinho feio do conto de fadas de Hans Christian Andersen, a principal casta deste vinho (Tinto Cão) só revela a sua beleza com a idade. Na verdade, uma semana antes eu tinha provado este vinho juntamente com um 1981 Tinto Cão da Ramos Pinto (um vinho experimental). O vinho mais velho surpreendeu-me completamente com a sua poderosa intensidade e cor incrivelmente profunda (tinta de lula) e jovem. Cisne é co-fermentado com Rabigato (7%) e envelhecido durante três anos em barricas de carvalho velhas, em esforço para domar seus excessos mais selvagens. Ainda assim, é um vinho muito intenso com notas firmes de chocolate muito amargo/floral e de especiarias, groselha preta bem definida, framboesa silvestre e também um toque vegetal. Taninos bem maturados, porém firmes, e uma acidez que faz prever uma longa vida. Como se diz em Portugal, este não é um vinho “consensual”. Beneficiará certamente do tempo em garrafa. Mas não podemos deixar de dizer que não lhe falta carácter. Singular e, como uma pessoa de personalidade forte, focado em si mesmo e reservado no início, mas depois as ideias vêm em catadupa… e são boas! 14 %

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João Nicolau de Almeida & Filhos Quinta do Monte Xisto 2011 (Douro)

A 300 m de altitude, poder-se-ia esperar que o Quinta do Monte Xisto fosse mais extenso e pesado do que os vinhos Muxagat, que são provenientes em parte de vinhas mais altas. No entanto, com duas encostas, uma voltada a norte (mais fria) e a outra ao sul (mais quente), e a retenção de água do subsolo de xisto sólido, o Quinta do Monte Xisto é surpreendentemente bom, até mesmo elevado. Para isso contribui o facto das uvas das encostas mais baixas serem pisadas em lagares, ao passo que as uvas de maior altitude são fermentada em cuba para preservar o aroma e as frutas. E ainda o facto de ser envelhecido (durante 18 meses) na sua grande parte em grandes barricas velhas e secas de carvalho francês e de austríaco de 4000 L. É muito profundo na cor e muito perfumado no nariz com pétalas de rosa sobre um exótico lokum (Manjar Turco ou Delícia Turca), que se mantém até à boca. E, com framboesa muito pura e esmagada, amoras silvestres e taninos puramente finos, surpreende levemente o paladar. Mas o que é mais notável é a sua mineralidade pronunciada. Não é por nada que o nome da quinta é uma homenagem aos seus solos de xisto. Longo e persistente com uma agradável saturação e vivacidade na boca, o seu final afinado e mineral tem uma deliciosa fluidez – tão distante dos estilos “quanto maior, melhor” do passado. Uma excelente estreia desta jovem vinha.

Contactos:

www.muxagat.pt
Facebook Simplesmente Vinho
quintadomontexisto.com

 

Almoço – Restaurante Palco

Texto José Silva

No primeiro encontro do painel de provadores da Blend, fomos recebidos no Restaurante Palco, do Hotel Teatro, num ambiente requintado e tranquilo, para um almoço em que se pretendia provar grandes vinhos portugueses da actualidade, em harmonia com uma culinária moderna baseada em bons produtos portugueses.

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Feitas as apresentações e com a presença de Paulo Costa, Director do Hotel, que nos fez companhia, começou uma refeição que se viria a revelar de enorme qualidade, ajudada também pelo trabalho excelente dos profissionais de mesa do restaurante, quer no serviço e apresentação de cada prato, quer num serviço de vinhos impecável, entre copos, temperaturas e quantidades servidas.

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Os vinhos, provados dois a dois, estiveram à altura da ementa e fizeram como que um bailado entre si e um diálogo sério com a comida, dando-nos imensos momentos de prazer. Começou-se com um espumante da Bairrada, o Encontro Special Cuvée 2010, que apresentou bolha muito fina com mousse persistente, aromas secos e tostados, na boca tem elegância, notas de palha, excelente acidez, seco, com grande final.

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Fizemos então uma viagem deliciosa por um menu de degustação que começou com uma tapenade de tomate seco bem apresentada, bem ligada, com textura suave e elegante, para barrar no pão, e que veio à mesa numa pedra redonda de belo efeito. Seguiu-se um corneto de azeitona com barandade de bacalhau, que vinha espetado num recipiente repleto de sementes tostadas, num contraste visual muito bem conseguido: a massa crocante e o recheio do pequeno corneto muito bem ligados, a desfazer-se na boca, o contraste bacalhau/azeitona a percorrer o palato e deixar boa memória.

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O Rosé Principal Tête de Cuvée 2010 que veio a seguir estava surpreendente, de uma cor salmão pálido muito requintada, aromas exóticos, com notas secas de fumo, suaves fragrâncias de frutos vermelhos e um volume de boca soberbo, com notas de framboesas e mirtilos muito sedosas, acidez muito equilibrada, alguma frescura, final muito longo.

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Ainda ao nível das entradas, surpreenderam o torricado de pão saloio com cavala fumada e creme de cebola tostada, em que o pão, muito bom, tostadinho, serviu de base ao exotismo da cavala fumada, encimada pela cebola tostada e ladeada por duas salicórnias em tempura. Uma explosão de mar e fumo na boca.

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Continuando nas entradas, com a viagem cada vez mais intensa, o chefe presenteou-nos com aquilo a que chamou “uma versão diferente de bife tártaro e batata frita com mostarda Savora”, assim mesmo: a tosta muito fina e crocante dobrada a formar um tubo, recheada pelo tártaro preparado com rigor, muito saboroso, a ligar de forma inusitada com o paladar forte da mostarda que recheava duas batatinhas fritas às rodelas.

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Depois veio um vinho branco do Dão, da Quinta da Passarela, o Vila Oliveira branco 2012, Casa da Passarela, um vinho extraordinário, com aromas complexos de fruta e plantas do monte, grande estrutura na boca, alguma mineralidade, com uma óptima acidez e um final longo e sedoso..

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Para fechar o ciclo das entradas, um prato que mais parecia uma paleta de cores, mas que na boca revelou uma enorme frescura e uma ligação muito interessante entre ingredientes tão diversos como as vieiras, cannelloni de abacate com sapateira, puré de raiz de aipo fumada com cítrico e camarinhas, aqueles camarões de rio minúsculos de aroma e sabor intensos, que faziam a ligação de todo o prato, excelente.

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Passamos depois a dois vinhos Alvarinho de Melgaço com perfis muito diferentes entre si, ambos muito bons. Primeiro o Curtimenta 2011 de Anselmo Mendes, que se apresentou muito suave no nariz, muito elegante, notas de frescura e de frutos tropicais bem maduros, na boca é envolvente, tem óptima estrutura e grande mineralidade, acidez intensa mas bem equilibrada, um vinho complexo mas exuberante.

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Nos pratos de peixe, começou-se com robalo com caldo de Bulhão Pato, mexilhão, lingueirão e esférico de batata, muito requintado quer no paladar, quer na textura, caldo aveludado, batata cremosa, textura do peixe de mar correctíssima, o mexilhão e o lingueirão a reforçar o paladar a mar, tudo muito suave na textura.

O segundo prato peixe foi o salmonete no seu caldo, gnochis de batata, o peixe de textura acertada, rijinho, saboroso, o caldo cremoso e muito sedoso, o gnochi de batata apaladado, num conjunto algo exótico, muito bom.

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E veio outro grande Alvarinho, o Soalheiro Reserva 2011, com aromas de madeira, tostado, com alguma mineralidade, na boca é intenso, belo volume, fresco e com óptima acidez, notas ligeiras de baunilha, a deixar grande final.

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Sendo o terceiro peixe o bacalhau de meia cura com caldo de cebola tostado, cebolinhas caramelizadas e cebolete, e cannelloni de lombarda com bochechas de bacalhau. Muito complexo na sua harmonização, revelou-se incrivelmente simples no paladar e na textura, tudo a ligar bem e a tomar conta do nosso palato, óptimo.

Seguiu-se o M.O.B. tinto 2011, que apresentou aromas florais cheios de elegância, alguma frescura, exótico, na boca com bela acidez, taninos muito redondos, bem construído, seguro e elegante, notas de frutos vermelhos maduros, aveludado, um vinho para ir descobrindo. Depois foi o Quinta da Casa Amarela Grande Reserva tinto 2011, concentrado, elegante, aromas intensos de frutos vermelhos, notas de fumo e madeira, na boca tem rusticidade, é especiado e elegante, tem volume, os frutos vermelhos bem maduros, um vinho gastronómico.

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Passando às carnes, começou-se com um produto extraordinário, o rabo de vitela maronesa com cremoso de batata trufado e foie gras. Várias texturas a ligar bem entre si, o foie por cima e o cremoso de batata por baixo da carne a transmitir-lhe um toque do trufado ligeiro, a carne a desfazer-se, de paladar intenso mas delicioso.

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Então apresentaram-se dois grandes vinhos de duas grandes regiões. O tinto do Dão, Vinha do Contador 2008, é um clássico daquela região, cheio de elegância, com aromas sofisticados de flores, de plantas silvestres, com um volume de boca incrível, bem estruturado, boa acidez e alguma frescura, frutos vermelhos maduros, algum fumo e um grande final.

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O Quinta do Crasto – Vinha Maria Teresa tinto 2011 representa a excelência do Douro, muito elegante no nariz, aveludado, notas florais de esteva e de urze. Na boca tem excelente volume, é cremoso, sofisticado, taninos soberbos, bem casados, longo, com um final imenso. Os dois vinhos fizeram companhia a todo o requinte e elegância da carne de veado no seu lombinho, beterraba, maçã reineta e cantarelos, paladares secos da terra e de húmus, a carne aveludada e saborosa, o molho a ligar o conjunto, num patamar culinário já muito alto.

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Antes da sobremesa e para limpar o palato, apreciou-se um Amontillado de Jerez, seco, com acidez incrível e com notas adocicadas a contrastar. A sobremesa dizia-se ser “o limão e as nozes em texturas”. E assim foi, várias texturas, das nozes e do crocante de várias folhas tostadas, o limão entre uma esfera, um creme e uma tosta. Resultado retumbante.

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Para as sobremesas apreciou-se um Porto Barros branco velho que esteve muito elegante, aromas intensos de frutos secos, ligeiras notas fumadas, alguma complexidade na boca, com alguma frescura e muito boa acidez a equilibrar o conjunto. E o Moscatel de Setúbal da Casa Horácio Simões que esteve muito bem, nariz intenso, com notas de citrinos, caramelo, fresco. Na boca é envolvente, aveludado, com óptima acidez, toque de casca de tangerina, notas ligeiras de frutos secos e algumas especiarias.

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Acabou-se com uma proposta com nome cheio de humor, mas ainda assim muito bem conseguida: “o bosque visto da baixa do Porto”. Muito bom.

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Fecharam-se os trabalhos com um espumante muito especial, o Quinta dos Abibes Grande Reserva Brut Nature 2009, pleno de elegância, bolha finíssima e cordão com alguma persistência. Nariz encantador, aromas a passar pela fruta branca, algumas nozes, palha, cheio de frescura e vigor. Na boca tem um volume seguro, acidez vibrante e aromas exuberantes, seco, fumado, cremoso, final longo e sedoso.

Um belo final!

Cheers!

Porto Colheitas de Excelência

Texto João Pedro de Carvalho

A Quinta do Noval é uma das grandes casas de Vinho do Porto, que não só produz o mais famoso Vinho do Porto Vintage, o lendário “Nacional”, como é também a única casa cujos vinhos são exclusivamente single vineyard (i.e., “Quinta”).

A história da Quinta do Noval remonta a 1715, altura em que o seu nome surge pela primeira vez nos registos. A área total de cento e quarenta e cinco hectares, que domina o Vale do Pinhão (Cima Corgo), constitui a essência e a alma da Quinta do Noval. Em 1894 (após a devastação causada pela filoxera) a Quinta foi comprada pelo ilustre comerciante António José da Silva. Da Silva deu uma nova vida à Quinta do Noval, com a replantação dos cento e quarenta e cinco hectares de vinha (classificada com letra A), com porta-enxertos americanos. Em 1925, uma muito pequena parte de vinha no coração da Noval (dois hectares) foi selecionada para a tentativa de manter a vinha indígena Portuguesa em porta-enxerto Português (Nacional) como um experimento. O primeiro vinho a ser produzido e vendido resultante destas jovens vinhas foi o Quinta do Noval Nacional Vintage 1931, considerado o mais sensacional Porto do século XX.

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Quinta do Noval © Blend All About Wine, Lda

O trabalho de António José da Silva foi continuado pelo seu genro, Luiz Vasconcelos Porto, que geriu a empresa durante 30 anos, tendo-se aposentado em 1963. Autor de um vasto programa de inovações, transformou os antigos socalcos estreitos em socalcos mais largos, característica distintiva da Noval, com as suas escadas caiadas de branco.
O estêncil nas garrafas foi pela primeira vez introduzido pela Noval em 1920, tendo sido também pioneira no conceito de Tawnies com indicação de idade (10, 20 e 40 anos) e a primeira casa a lançar um late-bottled vintage: 1954 Quinta do Noval LBV.

Em anos excecionais, determinados lotes de vinho com grande potencial de envelhecimento são postos de lado e colocados em barricas. Apenas em determinado momento a Noval decide engarrafar parte dessas Colheitas. O resto é mantido em barricas onde o vinho irá ganhar toda uma nova dimensão em fases posteriores do seu envelhecimento. Os Porto Colheita da Noval são verdadeiras raridades, combinam requinte e elegância, sendo a expressão máxima dos Tawnies com idade e tal como um Porto Vintage assumem as características específicas do respetivo ano de colheita. A legislação exige um estágio mínimo de sete anos em casco, embora na Quinta do Noval apenas sejam comercializadas após 10 a 12 anos de envelhecimento.

António Agrellos, o diretor técnico da Quinta do Noval desde 1994 e um dos grandes “Wine Blenders” do vinho do Porto, conduziu-nos num fantástico passeio pelos Colheitas da Quinta do Noval.

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Quinta do Noval Colheita 2000 © Blend All About Wine, Lda

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Quinta do Noval Colheita 1995 © Blend All About Wine, Lda

Quinta do Noval Colheita 2000

Mostra toda a classe de um Tawny jovem e cheio de vida, com espírito adolescente, que nos conquista pela energia e presença. Exibe uma boa complexidade, com um bouquet intenso e bem definido, fruta cristalizada, nozes e tabaco, num conjunto jovem, fresco e revigorante. Complexo e doce no palato, fresco e preciso, revela uma estrutura elegante e um final harmonioso e persistente.

Quinta do Noval Colheita 1995

Um tawny a caminho da fase adulta, numa nova dimensão com aromas mais evoluídos e de maior complexidade e profundidade. Bem definido nos aromas, mostra uma bonita complexidade, caramelo, frutos secos (nozes e avelãs), especiaria doce, fruta cristalizada (laranja, limão, damasco). Corpo médio, elegante, untuosidade e boa acidez, tudo num final longo e persistente.

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Quinta do Noval Colheita 1976 © Blend All About Wine, Lda

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Quinta do Noval Colheita 1971 © Blend All About Wine, Lda

Quinta do Noval Colheita 1976

Um vinho temperamental que nasceu na era do Punk Rock. Envolto em rebeldia, é certamente o vinho mais exótico da prova ao melhor estilo Ramones. Hey! Ho! Let’s go! – The Anthology. Muito boa complexidade, caixa de charutos, resina, frutas secas e caramelo. Medianamente encorpado e persistente na boca, suave como seda, apresenta nuances de especiarias num longo final.

Quinta do Noval Colheita 1971

A saudade exprime um sentimento muito próprio quando sentimos falta de algo de que gostamos. Este é um daqueles vinhos que deixa saudade. Pura sedução, dominado por uma encantadora complexidade, especiarias, caramelo, passa de uva e frutas cristalizadas. No palato é de uma enorme riqueza e elegância, tem uma frescura fantástica que o envolve com notas de especiarias num final longo e persistente. Um vinho fantástico.

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Quinta do Noval Colheita 1964 © Blend All About Wine, Lda

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Quinta do Noval Colheita 1937 © Blend All About Wine, Lda

Quinta do Noval Colheita 1964
Tal como em 1964 as admiradoras de bandas como Beatles ou The Rolling Stones saltavam e gritavam de entusiasmo, ao provar este vinho apeteceu-me fazer exatamente o mesmo. Intrigante e ao mesmo tempo conquistador, mostra-se dominado por uma refinada complexidade, aroma delicado e pleno de harmonia, com notas de nozes, passa de uva e da madeira velha onde estagiou. Apeteceu-me ficar toda a tarde a cheirar este vinho. Boca de grande nível, quase veludo, cheio e saboroso, com enorme frescura para a idade que tem e com um final muito longo. Espectacular.

Quinta do Noval Colheita 1937

O ano de 1937 foi marcado pela coroação do Rei George VI de Inglaterra, data em que a ponte Golden Gate (São Francisco) foi também inaugurada e J. R. R. Tolkien publica ‘The Hobbit’. Apenas um vinho como este poderia estar à altura de tamanhos acontecimentos. Estrondoso tawny velho a mostrar uma fantástica complexidade, fruto seco, grande definição, especiarias, marmelada, caixa de tabaco e madeira velha. Palato luxuoso, com uma belíssima acidez. Tudo muito equilibrado com camadas de sabor que nos guiam num final interminável e sedutor.

Contactos
Quinta do Noval Vinhos, SA
AV. DIOGO LEITE, 256
4400 – 111 VILA NOVA DE GAIA
Portugal
Tel: (+351) 223 770 270
Fax: (+351) 223 750 365
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