Posts Tagged : Quinta da Alameda

Quinta da Alameda Tinto Reserva Especial 2012 e Quinta da Alameda Tinto Jaen 2013

Texto João Barbosa

O Dão está em fase ascendente. A região acordou e está a mexer-se. Como seria de esperar, haverá erros, nada é perfeito, mas só o facto de reagir já é um dado a aplaudir. Está a acordar e a marcar pontos, caminhando para o estatuto que teve outrora. Mérito da Comissão Vitivinícola Regional, mas só possível por haver produtores determinados em fazer bem e a conseguir retorno financeiro.

Carlos Lucas é um dos homens que encabeçaram a ascensão, com a sua passagem pela Dão Sul, hoje Global Wines, empresa hoje presente também no Alentejo, Bairrada, Douro, Lisboa e Vinho Verde, além do Brasil (Vale do São Francisco).

A Dão Sul surgiu em 1990. As marcas Quinta de Cabriz e a Quinta dos Grilos apresentaram-se com preços convidativos e com características de fácil agrado do consumidor. O sucesso levou a que extravasassem o berço.

Os vinhos da Quinta de Ribeiro Santo, situada em Carregal do Sal, confirmaram o acerto de mão de Carlos Lucas. O Dão de hoje seria diferente, talvez muito diferente, sem o trabalho deste enólogo.

A Quinta da Alameda é uma parceria entre Carlos Lucas e o empresário Luís Abrantes, com actividade na indústria de mobiliário (Movecho). A parte de viticultura está a cargo de Amândio Cruz. Situa-se em Santar, no concelho de Nelas. A área é pequena para os padrões europeus, mas acima da média da região. O domínio tem 50 hectares, dos quais 15 são de vinha.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Casa

As vinhas – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Vineyard

As vinhas – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Para os mais curiosos por números, em 2009, do total de 305.266 empresas agrícolas, 283.071 tinham menos de 20 hectares – número que tem vindo a diminuir desde 1979 (é 2,6 vezes inferior). A superfície agrícola utilizada também tem decrescido, embora em menor ritmo (1,4 vezes inferior). A região Centro, onde se situa o Dão, é das que têm dimensão mais reduzida.

Passo dos números para o que mais interessa. Os dois sócios mantiveram uma parte de vinha velha, onde estão várias castas misturadas, como era a tradição, e reconverteram outra parte, plantando alfrocheiro, baga, jaen, tinta roriz, tinto cão e touriga nacional.

Está situada numa zona onde a altitude vai dos 400 aos 700 metros, nas imediações da Serra da Estrela e do rio Dão. Traduzindo numa só palavra: frescura. A escolha das novas castas teve em conta a produção de espumantes.

A valorização da vinha velha, pela constatação da qualidade dos vinhos obtidos, criou uma moda. Quem tem vinhas com 30 anos diz que são velhas… para mim, vale o que vale, não são. Na Quinta da Alameda, a idade dessas plantas é de mais de 80 anos.

Carlos Lucas confessou não ser fã da casta jaen. Porém, na Quinta da Alameda mudou de opinião, em 2012. No ano seguinte vinificou-a separadamente. Estreou-se agora e já conto dele mais adiante.

A região do Dão tem uma categoria de classificação especial, que pode ser comparada com a de Vintage, no Vinho do Porto. Carlos Lucas diz desconhecer se alguma vez foi atribuída a «Dão Nobre» e prevê que dificilmente o poderá ser… mistérios que os vinhateiros guardam.

O Quinta da Alameda Tinto Reserva Especial 2012 foi apresentado a exame e não mereceu a distinção, como o leitor deve ter depreendido do parágrafo anterior. Ficou como Reserva Especial, o que, de alguma maneira, vai dar ao mesmo. Se o topo é inacessível, o patamar imediatamente abaixo ocupa-lhe o lugar.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Carlos Lucas

Carlos Lucas – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Wine

Quinta da Alameda Tinto Reserva Especial 2012 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

A classificação recebida é justa! É um grande vinho e tem o que se espera do Dão. A região vive nestas garrafas, onde se guarda a memória vinda das vinhas velhas e a categoria reconhecida desde sempre.

O Quinta da Alameda Tinto Reserva Especial 2012 fez-se com uvas de alfrocheiro, tinta roriz, tinto cão e touriga nacional… uma pitada de baga, casta proscrita, pese a sua antiga presença no passado por aqueles lados. O vinho conviveu um ano com a madeira de carvalho francês e estagiou outros 12 meses em garrafa. É um vinho de enorme frescura, suavidade e elegância. Uma frescura que encobre os 14 graus de álcool – nem se dá por isso.

O Quinta da Alameda Tinto Jaen 2013 é uma boa expressão da casta. É um vinho didáctico em dois níveis: o que é a casta jaen e o que é um vinho do Dão – apesar de a tradição ser a de vinhos de mistura de castas. O estágio em barricas de carvalho francês durou um ano. É igualmente um tinto com frescura e que dá bom prazer, com a elegância pela qual a região era/é conhecida.

Como é de esperar, não mando nada na região do Dão, tal como acontece com as outras todas. Porém, penso que ao não validar vinhos como Dão Nobre, o painel de provadores não está a beneficiar ninguém. Seria uma boa ajuda para os consumidores mais antigos se reencontrarem e os novos apreciadores se aventurarem nas maravilhas que, de facto, existem na região.

Outras regiões poderão chegar primeiro a uma nova designação de superior classificação, beneficiando da primazia. Cada um sabe de si e dos seus negócios. Fica a minha opinião, que vale o que o leitor quiser que valha.

Lembremo-nos que em Bordéus, Borgonha ou Champanhe «nunca» há anos maus… ou são excelentes ou clássicos. As classificações de topo são usadas e França é o que é.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Chefs
Quinta da Alameda, uma Vinha Velha em Santar

Texto José Silva

Foi no restaurante “Antiqvvm”, no Porto, que Carlos Lucas e Luís Abrantes apresentaram o primeiro vinho da Quinta da Alameda, sua propriedade em Santar. Amigos de longa data, estes dois empresários, embora de áreas diferentes, decidiram há uns tempos comprar a Quinta da Alameda, uma propriedade bem conhecida em Santar, em pleno coração do Dão, com grande tradição e algumas vinhas muito velhas. A par do plantio de vinhas novas, estas vinhas velhas foram acarinhadas e trabalhadas para dali tentar retirar uvas muito boas e fazer vinhos de excelência. Parece que o objectivo foi atingido neste primeiro ano, embora com uma produção muito pequena, decorrente da idade das vinhas. Para mais tarde vai ficar a recuperação de algum património arquitectónico da quinta e a construção duma adega onde as uvas sejam trabalhadas, vinificadas e os vinhos guardados para estágio e engarrafamento. Um dos objectivos é evoluir para a produção em modo biológico, pensando também na defesa cada vez mais premente do ambiente.

Nesta apresentação, o enólogo Carlos Lucas juntou-se aos chefes do restaurante, Vítor Matos e Ricardo Cardoso, e com eles construiu as harmonizações que se mostraram mais adequadas, sempre com algo de surpreendente, como as equipas do Vítor Matos sempre nos habituaram.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Rosa-Teixeira

Rosa Teixeira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Ribeiro Santo

Ribeiro Santo Blanc de Noir – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Num espaço de grande beleza e elegância, requintado, onde a Rosa Teixeira não deixou que falhasse nada, fomos recebidos com o espumante Ribeiro Santo Blanc de Noir, já com provas prestadas. Apresentou-se amarelo com alguma evolução, muito elegante, com bolha finíssima e cordão suave. Seco, aromas de palha, tosta, alguns frutos secos, na boca tem volume, acidez muito equilibrada, muito envolvente e fez óptima companhia aos snacks Antiqvvm..

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Encruzado 2013

Ribeiro Santo Encruzado 2014 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Salmon

Salmão Marinado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Já sentados à mesa, passamos ao vinho branco, o Ribeiro Santo Encruzado 2014, uma casta fantástica, um vinho de cor citrina, cristalino. Muito elegante e sedoso, alguma fruta branca intensa, levemente seco, fresco. Complexo, intenso mas aveludado, frescura e acidez equilibradas, alguma fruta de polpa branca com final sedoso e longo.

Fez companhia a um salmão marinado, coco, morangos, pêra abacate, coentros, capuchinha e ovas de truta e, à parte, um surpreendente tártaro de vieira com malagueta e citrinos, pérola de encruzado e salicórnia.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Vieira

Um surpreendente tártaro de vieira – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Muita frescura, sabores intensos mas equilibrados, a mestria do Vítor Matos à nossa mesa. Mas ainda antes da estrela da noite, houve lugar a uma surpresa, um vinho ainda em barrica, apresentado em garrafa com rótulo provisório, o Jaen 2013. De um ano difícil, um vinho que já é muito interessante e que surpreendeu até mesmo o seu autor, como Carlos Lucas fez questão de dizer. Granada suave, muito limpo, belos aromas de frutos vermelhos, notas de fumo, sedoso. Bom volume na boca, muito, mas mesmo muito elegante, aveludado, notas de chocolate preto, excelente acidez, final longo, um grande Jaen.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Vitor MAtos

Vítor Matos – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Garoupa

Garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Para fazer companhia à garoupa com rabo de boi e molho de trufa toscana, ravioli de tinta de choco e carabineiro, emulsão de morilles, tagliatelles de lulas e funcho.

Então sim, veio a estrela da noite, o Quinta da Alameda Reserva Especial Tinto 2012. Numa garrafa muito bem apresentada, rótulo sóbrio e elegante, tem cor rubi intensa, muito limpo. Floral, notas de frutos vermelhos, esteva, pinheiro. Grande acidez, fresco, intenso, muita fruta, notas balsâmicas, eucalipto, sedoso, taninos bem maduros, irreverentes, final muito longo, um vinho extraordinário, para se beber já ou guardar por muitos anos. Afinal foi a segunda surpresa da noite!!

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Reserva Especial Red

Quinta da Alameda Reserva Especial Red 2012 – Foto Cedida por Quinta da Alameda | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Deer Loin

Lombo de veado – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

E acompanhou mesmo bem o lombo de veado ligeiramente fumado com trompetas da morte e vinagre de boletus, balsâmico velho, cremoso de cherovia e espinafres, pão de pistáchios e molho de especiarias.

Um prato cheio de complexidade a dar luta a um vinho fantástico.

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-dessert

Sobremesa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Quinta da Alameda-Watering

Regar – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Fechou-se com um Porto Tawny Reserva da Quinta das Tecedeiras a fazer companhia a uma sobremesa desconcertante, abóbora com requeijão e pudim apresentados num vaso, que o Vítor Matos haveria de regar, estando no prato a torta de cenoura negra, amêndoas torradas, sorvete de tangerina, creme e espuma de beterraba, legumes com xarope de sabugueiro. Sem palavras…

O Dão continua a dar que falar!