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As refrescantes novidades da Quinta do Portal

Texto João Pedro de Carvalho

O projecto da Quinta do Portal nasce no Douro no início dos anos 90 do séc. XX tendo como base uma propriedade centenária da família do seu proprietário, João Branco. A produção que ali sempre foi de Vinho do Porto, viu estender o conceito de todo o projecto para uma “Boutique Winery” onde é o enólogo Paulo Coutinho desde 1994 o máximo responsável pelos vinhos ali produzidos. Para além da produção de Vinhos do Porto, nascem também vinhos DOC Douro e Moscatel, alicerçados nas quatro Quintas (Portal, Confradeiro, Muros e Abelheira) todas situadas no Cima-Corgo que perfazem um total de 100 hectares de vinha com variações entre os 200 e 550 metros de altitude.

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Adega – Foto de Nélson Garrido | Todos os Direitos Reservados

Na Quinta do Portal não são apenas os seus vinhos que se destacam, a juntar a tudo isto temos também a fantástica adega desenhada pelo prestigiado arquitecto Siza Vieira, naquela que será das primeiras adegas de autor a nascer em Portugal. Para a complementar nasceu a Casa das Pipas, um enoturismo de excelência amplamente galardoado dentro e fora de portas.

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Casa das Pipas – Foto Cedida por Quinta do Portal | Todos os Direitos Reservados

Voltando aos vinhos e à mais recente apresentação que Paulo Coutinho nos proporcionou, o meu destaque desta vez vai para os vinhos de aromas mais frescos, mais atrevidos e digamos até mais apetecíveis para esta época do ano. A prova foi conduzida de forma muito descontraída, para surpresa ainda foram colocados em prova alguns vinhos de colheitas anteriores para tomar o pulso à capacidade de envelhecimento das criações de Paulo Coutinho. Diga-se de passagem que em todos os casos a evolução era notável, mesmo num surpreendente momento de forma do Mural branco 2004 que certamente na altura em que andou pelas prateleiras passou por baixo do radar de todos nós.

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Mural branco 2004 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

O primeiro branco a entrar em cena foi o Quinta do Portal Verdelho/Sauvignon Blanc 2014 que nasce das parcelas experimentais da Quinta da Abelheira. Encantou com os seus aromas frescos e frutados, numa combinação bastante airosa entre as duas castas. O resultado é um branco muito perfumado, com aromas limpos onde o destaque vai para a fruta (citrinos, tropical, frutos pomar) que combina com vegetal fresco e uma ligeira sensação de pederneira. Na boca mostra uma bela frescura que se sente no palato, rico, marcante e a entrar com fruta bem sumarenta terminando seco e prolongado.

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Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Enquanto isso já o Quinta do Portal Moscatel Galego 2014 esperava no copo, exuberante o suficiente para chamar a atenção. Em primeiro plano o apontamento floral a lembrar rosas seguido da fruta madura, aqui com bastante laranja. Muita frescura a embrulhar todo o conjunto, algo linear mas que cumpriu sem falhas a acompanhar um alargado leque de entradas que iam aparecendo à mesa.

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Quinta do Portal Rosé 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Por último o Quinta do Portal Rosé 2014, um blend entre Tinta Roriz, Touriga e Touriga Nacional onde predominam os frutos silvestres e as notas de romã. Pelo meio ligeira nota de hortelã num conjunto a mostrar uma bela frescura que se sente também na boca onde ganha maior expressividade, até mais que no nariz. Gosto da secura final com um travo de morango e amora que perdura no palato, num vinho feito a pensar na mesa e nos amigos.

Contactos
EN 323 Celeirós – 5060-909 Sabrosa
(Estrada Pinhão-Sabrosa)
Tel: (+351) 259 937 000
Telemóvel: (+351) 969 519 021
E-mail: reservas@quintadoportal.pt
Website: www.quintadoportal.com

Monte da Ravasqueira e vinhos fora da norma

Texto João Barbosa

A história vitivinícola do Monte da Ravasqueira é recente. Os trabalhos na vinha datam de 1998. O primeiro plantio ocorreu em 2000 e a primeira vindima a ir para o mercado foi a de 2002, posta à venda em 2003, com o Fonte Serrana. Porém, esta propriedade, situada no concelho de Arraiolos, tem uma existência longa, além da família dos seus actuais proprietários estar intimamente ligada à história contemporânea portuguesa.

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Monte da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A propriedade pertenceu a Dom Nuno Álvares Pereira, condestável de Portugal e estratego que conduziu à vitória o partido de Dom João (futuro João I de Portugal) na guerra de sucessão, entre 1383 e 1385, contra Dom João I Rei de Castela e Leão. A posse da terra foi junta ao título de conde de Arraiolos, de que hoje é (25º) titular Dom Duarte Pio de Bragança, 24º duque de Bragança e herdeiro da Coroa de Portugal.

Mas com o tempo, a Herdade da Ravasqueira mudou de donos e de dimensão. Para o caso, interessa saber a partir de 1943, quando entrou na posse da família Mello, que à época era detentora dum empório empresarial, criado por Alfredo da Silva, com Companhia União Fabril.

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Herdade da Ravasqueira – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Revolução de 25 de Abril de 1974 causou naturalmente convulsões. A política focou-se à esquerda, sobretudo ao Partido Comunista Português, e a família Mello partiu para o exílio e os seus bens foram nacionalizados, sendo a Herdade da Ravasqueira sido ocupada por trabalhadores, no processo conhecido por Reforma Agrária.

A estabilização política e o enquadramento de Portugal na família das democracias da Europa ocidental conduziram ao regresso da família Mello, que voltou a ocupar um lugar na liderança empresarial do país, e à entrega desta propriedade alentejana aos seus antigos donos, em 1980, mas praticamente decrépita por abandono e negligência.

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Cattle – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A Herdade da Ravasqueira tem cerca de 3.000 hectares, perto de 1.500 ocupados com florestal. A criação de bovinos, cruzados de mertolengo e limusine, ascende a 500 cabeças, e o olival também tem uma pequena parcela. A actividade maior é a do vinho, estando plantados 45 hectares de vinhas, divididos por 29 talhões.

Este domínio alentejano é formado em declive, o que permite, através das diferentes altitudes, nuances diferenciadoras. Ao mesmo tempo, o solo é muito variável, existindo dez formações diferentes, sendo dominantes os argilo-calcários, estando a vinha em zonas com afloramentos de granito e de xisto.

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The Vines – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O teor de argila varia entre os 20% a 30%, refere Pedro Pereira Gonçalves, director de viticultura e enologia. A constituição do chão permite retenção de água em profundidade, causando algum stress hídrico e obrigando a planta a esforçar-se. Em caso de necessidade, existe sistema de rega gota-a-gota. «Mais vale ser ela [videira] a pedir água do que lhe dar-mos» – explica o técnico.

Desde 2012 que Pedro Pereira Gonçalves está neste produtor. Embora jovem, tem já currículo e reputação. A aposta tem sido na frescura, apanhando a fruta mais cedo do que acontece na generalidade do Alentejo. Assim, conseguem-se néctares com graduações alcoólicas hoje raras – embora a tendência vá nesse sentido.

«A Ravasqueira tem muitas massas de água e fica num vale, por isso consegue-se maior frescura», assinala Pedro Pereira Gonçalves. Pois, o teor alcoólico dos brancos foi atirado para uns surpreendentes 11,5%, indo até aos 12,5%. Nos tintos, o intervalo situa-se entre os 13% e os 13,5%.

Uma das decisões do jovem enólogo foi – coisa ainda rara em Portugal – mandar fotografar a propriedade, por avião, em diferentes bandas de espectro. «Permitiu que a apanha, que era feita ao talhão, passasse a ser feita à zona» – explica o técnico.

Com estas informações adicionais tem sido possível acertar os vinhos aos perfis pretendidos. A agricultura de precisão «permite fazer o vinho na vinha». Com a chegada de Pedro Pereira Gonçalves aumentou o número das propostas de maior patamar de gama, nomeadamente reservas e monovarietais. A diversidade permite a produção de sete vinhos monovarietais: alvarinho, nero d’avola, petit verdot, sangiovese, sauvignon blanc, touriga franca e viognier. No próximo ano será lançado um espumante.

A casta alvarinho é originária do Noroeste de Portugal, com clima mais fresco. Se os descuidos, na região dos Vinhos Verdes, podem resultar em laranjadas (felizmente não é a regra), no quente Alentejo podem tornar-se rebuçados, um pouco pesados e, por conseguinte, enjoativos. Nada mais diferente do que se apresenta na Ravasqueira, onde a variedade foi plantada numa zona mais arejada e fresca.

O Monte da Ravasqueira Alvarinho 2013 é um vinho com notas de tangerina, mineral e elegante, mostrando potencial de evolução em garrafa. Se fecharmos os olhos, e sonharmos um bocadinho, até nos segreda a palavra Chablis… atenção, é uma sugestão suave.

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Monte da Ravasqueira Alvarinho – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Reserva Branco 2013 fez-se com alvarinho (40%) e viognier (60%) é escorregadio… portanto: cuidado. É um vinho com textura na boca e com aromas a lima, e pêssego.

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Monte da Ravasqueira Reserva White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Branco é um vinho de homenagem ao pai da actual geração que dirige o Grupo Mello, José Manuel de Mello. É um vinho que o enólogo afirma não ser consensual, «mas que não é para ser». É um repositório de todas as castas favoritas do homenageado: alvarinho, arinto, marsanne, semillon e viognier. Na edição de 2013, Pedro Pereira Gonçalves optou por uma abordagem neozelandesa: fechar o vinho dentro das barricas durante um ano. Nasceram notas de baunilha, de bolacha maria, chocolate branco e ameixa. Muito elegante e, mais uma vez, escorregadio.

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MR Premium White – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Monte da Ravasqueira Rosé 2014 é filho de uvas touriga nacional, colhidas precocemente nos diferentes talhões onde está plantada. É fresco e, em vez das violetas de a cultivar oferece no Dão, surge com um ramalhete de rosas. É um vinho falsamente doce. Um rosado muito interessante.

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Monte da Ravasqueira Rosé – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs é, como se percebe pela designação, produto duma só localização, onde pontuam as castas syrah e touriga nacional. Na edição de 2012, a variedade francesa forneceu 70% das uvas. É um vinho bem seco, sem ser austero. Promete vida em garrafa.

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Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O MR Premium Tinto 2012, em virtude da variedade de cultivares, é muito rico e complexo de aromas, que se vão sucedendo, casando, separando e regressando, simples ou acompanhados com o mesmo ou diferente par. Tem um notório traço da natureza alentejana – que muito aprecio – que é o de lenha de azinho. Na boca é também um falso doce. Tem a aceleração e garra de um roadster. Penso que também poderá evoluir bem em garrafa.

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MR Premium Red 2012 – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

O Monte da Ravasqueira Touriga Franca 2012 é para um fanático da casta – eu – uma comichão. Por capricho, proibia que fosse plantada fora do Douro. Considero que das viagens poucas conseguem alcançar o carisma daquela região do Nordeste português. Isto não significa que a qualidade não exista, apenas uma irritação intelectual.

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Monte da Ravasqueira Touriga Franca – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

A touriga franca revelou-se em 2012, na Ravasqueira, como alentejana, com os aromas dos restolhos e dos montados de sobro e de azinho. É seco de nariz e na boca mostra mineralidade, com evocação de giz. Tem uns taninos fantásticos, é racing e elegante, digamos o temperamento dum nobre na sua propriedade rural. Agora precisa de ser decantado com alguma violência ou aberto com antecedência. E vai aguentar-se anos. Reconheço que é uma bela touriga franca!

O Monte da Ravasqueira Syrah e Vignier (2012), em que a casta branca representa 3% do lote, é um vinho com frescura e vivacidade, que evolui bem no copo e interessante. Provei-o depois do vinho anterior. É belíssimo, mas é um menino ao pé do latagão. Definiria com a idiomática: «azar dos Távoras».

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Monte da Ravasqueira Syrah and Viognier – Photo by Monte da Ravasqueira | All Rights Reserved

Ponto de ordem e conclusão: frescura, desalinho dos perfis face à norma, falsas doçuras (bom!), complexidade e promessa de longevidade.

Contactos
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Website: www.ravasqueira.com

Antonio Madeira Branco, agora como dantes

Texto João Pedro de Carvalho

Por vezes o voltar às origens torna-se essencial para fazer perdurar algo que tem ficado esquecido no tempo, neste caso o voltar atrás no tempo à procura de métodos e ideias que por motivos da suposta inovação foram ficando esquecidos. Corremos o risco nos dias de hoje, sufocados pelo reboliço da civilização moderna, em afirmar que a inovação não é mais do que uma volta ao passado. Sinais dos tempos e dos que a seu tempo, enveredaram por esses caminhos mostrando a todos que sim é possível e que sim vale a pena.

E o produtor António Madeira, lusodescendente que tem no Dão para além das suas raízes familiares uma paixão. E foi no Dão que se dedicou de corpo e alma a criar os seus vinhos, que são tal como já disse, um regressar ao antigamente, uma vontade de resgatar o Dão de um passado que teve com glória e que pouco ou nada tem a ver com a realidade actual. Para isso António teve de meter as mãos nas vinhas, foi entendendo as variações entre vinhedo e os solos onde moram, foi acima de tudo aprendendo com a região. Da mesma forma que António foi aprendendo, também foi ensinando e mostrando na saudável teimosia de quem acredita naquilo que faz e quer, conseguir resgatar do esquecimento o que outros já não queriam saber. As vinhas centenárias que salvou são hoje a sua maior riqueza, são também na sua essência a maior riqueza que o Dão tem para nos oferecer.

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António Madeira Branco 2013 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Nessas vinhas que soube ensinar a tornar a viver, mora a essência do lote onde surgem castas de nomes estranhos e engolidos pelo tempo. São em forma e conteúdo, as vinhas que davam origem aos vinhos que hoje apelidamos de clássicos e que construíram toda uma imagem de uma região. E como nestas coisas não faz quem quer mas apenas quem sabe, não será de estranhar o virtuosismo do António que com apenas três vinhos no mercado conquistou no imediato todas as atenções. Os seus vinhos falam por si, mas acima de tudo falam pela região do Dão e por aquele cantinho tão especial que escolheu encostado à Serra da Estrela.

No total controla 5 vinhas velhas com idades entre os 50 a 120 anos que entre os 500 e 600 metros de altitude moram em solos graníticos. Nesse field blend moram mais de 20 castas autóctones onde por vezes as brancas se misturam com as tintas, algumas em vias de extinção, onde neste caso a base é 75% Síria, Fernão Pires e Bical. Aqui não deixa de ser curioso que a existência da casta agora rainha de nome Encruzado, faz apenas parte do blend como sempre fez e onde no passado a sua existência a solo mais não era do que um mero exercício experimental. É pois este o seu primeiro branco, da colheita 2013, que resultou em pouco mais do que 600 garrafas fruto do trabalho de precisão e da vetusta idade das cepas cuja produção é bastante reduzida. António chama-lhe vinho de terroir, obviamente não poderia estar mais de acordo pois o vinho mostra um carácter tão diferenciador que apenas de aquele local poderia nascer um vinho assim. O António Madeira branco 2013 tem de delicado tem de profundo, denso e com uma bonita austeridade mineral que lhe domina os fundos. A fruta mostra-se limpa, pura, arrebitada e bonita, cheirosa com alguns ramalhetes de flores das giestas ali do campo. É daqueles vinhos que precisa de atenção, até de uma decantação prévia para que se mostre em condições, tal como no palato vincado pela força e austeridade do granito, muito boa acidez com a fruta a aconchegar. Sente-se alma e nervo, sente-se que temos aqui vinho para muitos anos, temos aqui um grande vinho do Dão. Perfeito a acompanhar peixes nobres de carne delicada ou simplesmente para apreciar em companhia de grandes amigos. Obrigado António Madeira.

Contactos
António Madeira
Tel: (+33) 680633420
Email: ajbmadeira@gmail.com
blog “A palheira do Ti Zé Bicadas

Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Foi emocionante apresentar uma prova em nome da Comissão dos Vinhos do Alentejo num dos melhores novos restaurantes de Londres, a Taberna do Mercado. E o que é ainda mais emocionante é que, além do Chefe ser português, a comida e os vinhos também são. O que pode parecer uma coisa estranha de se dizer mas, até agora, o nome de Nuno Mendes esteve associado aos pratos inovadores e ecléticos do seu anterior restaurante estrela Michelin, o Viajante, e agora com o menu de sotaque americano no Chiltern Firehouse (onde é o Chefe principal).

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Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Numa entrevista com Nuno Mendes,há um par de anos atrás, deixou fugir a ideia de que tencionava abrir em Londres um restaurante “muito casual, divertido e moderno mas ao mesmo tempo rústico”. Mas havia um problema. Explicou que, apesar da “abundância de produtos únicos e de qualidade” em Portugal, era difícil de obtê-los. Porquê? A resposta foi que “a produção é muito limitada em termos de quantidade e também porque muito poucos produtores artesanais vêem potencial além do mercado local para expandir o seu projecto”.

Completamente à espera que Nuno Mendes tivesse ultrapassado estes desafios, perguntei-lhe o que tinha mudado desde a nossa última conversa. Perguntou-me “prefere a reposta simpática ou a resposta verdadeira?”. Naturalmente que respondi que queria a verdade! Admitindo “isto entristece-me”, Mendes demonstra continuar visivelmente frustrado pelo facto de, no Reino Unido, continuar a ser quase impossível obter os melhores produtos portugueses dos quais se pode sentir “super -orgulhoso”. Salientou que os importadores portugueses no Reino Unido “se destinam maioritariamente a abastecer a comunidade expatriada (em vez dos restaurantes topo de gama com clientes exigentes e viciados em comida). Fez-me lembrar de um ponto que Mendes tinha salientado quando nos conhecemos pela primeira vez, o quão importante era “estar ciente do que está a acontecer no mundo do vinho e da gastronomia de modo a conseguirmos encaixar na realidade das outras pessoas”. É por isso que, acrescenta, “tive que me afastar” de Portugal quando o Viajante abriu – a gama de produtos não se encaixava com a realidade estrela Michelin do restaurante. Não era “nada de espectacular”, e não podia contar com a consistência do fornecimento.

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Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

As boas notícias? Vendo a Taberna do Mercado como “um portal para chegar aos bons recursos de Portugal” diz-me que, “não vou desistir”. Mendes pode ter um discurso suave e um comportamento modesto, mas há uma determinação de aço nos seus olhos de quando revela a solução. Salientando que, “tenho muitos mais contactos que os importadores aqui sediados” (já para não mencionar a meticulosidade inerente a um Chefe Michelin em busca apenas do melhor), tenciona abrir o seu próprio negócio de importação/exportação. Afinal, a sua reputação depende disso. E está muito em jogo, ao mesmo tempo que diz que é prematuro, dados os problemas de fornecimento, apontar a comida portuguesa como a próxima grande novidade assim como sugeriu recentemente o The Daily Telegraph. É por isso que afirma que, “agora é que entra a parte da pesquisa… não podemos relaxar, temos de nos esforçar e trazer o melhor…temos de evoluir”. Não há espaço para a complacência.

Pouco depois da prova, parei para reflectir sobre os comentários de Mendes em relação ao vinho português quando um jornalista me perguntou porque é que ainda não atingiu o topo. Tenho o prazer de informar que o Reino Unido tem estado bem melhor servido em relação a importadores de vinho, em particular especialistas em vinho português, como a Raymond Reynolds e a Oakley Wine Agencies que têm ajudado os produtores seus clientes a navegar com calma no exigente mercado do Reino Unido. Mas se, como Mendes, tiver que ser uma amiga crítica de Portugal, a verdade é que ainda muitos produtores portugueses têm de encontrar maneira de encaixar nas realidades do mercado do Reino Unido, que é largamente reconhecido como o mais competitivo do mundo. Além disso, o ‘cellar palate’ (ficar demasiado habituado aos nossos próprios vinhos, incluindo as falhas) pode ser um problema. É por isso que os produtores de vinho com mais sucesso continuam a visitar o Reino Unido, para compreenderem onde os seus vinhos se encaixam melhor (e para compará-los com a concorrência). Também ajuda a certificar que continuam a ser vistos e ouvidos no nosso concorrido e barulhento mercado. Foi um desafio ao qual me predispus com gosto.

Felizmente, os oito produtores de vinhos que apresentei na minha masterclass na Taberna do Mercado estão representados no Reino Unido. Mas ainda há trabalho a ser feito já que o Alentejo construiu a sua reputação no Reino Unido numa base de tintos de grande valor, fáceis de abordar e frutados. O próximo passo é aumentar a visibilidade e valorização dos seus tintos e brancos premium, baseados no terroir, por entre os amantes de vinho de qualidade (os vinhos brancos representam agora 20% dos vinhos do Alentejo).

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Eu e Nuno Mendes a falar sobre o vinho e a gastronomia do Alentejo – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

A minha escolha de vinhos foi acompanhada pela opinião contemporânea de Mendes sobre os petiscos (como inseri-los na realidade do mercado do Reino Unido) e seguida de uma excelente prova de azeites do Alentejo conduzida por Teresa Zacarias da Casa do Azeite. Aqui estão as minhas notas relativamente aos vinhos, juntamente com algumas informações sobre o que individualiza esta escolha diversa em termos de terroir e vinificação. Como irá reparar, o Alentejo não é tão plano e ininterruptamente quente como estereótipos regionais nos fazem acreditar. Além disso, todas as uvas foram apanhadas à mão.

Herdade do Rocim Olho de Mocho Reserva Branco 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este monovarietal Antão Vaz vem da Vidigueira, uma das oito sub-regiões da DOC Alentejo. Apesar de ser a que fica mais a sul, tem uma longa tradição de produção de vinhos brancos. Porquê? Porque tem tudo a ver com a disposição da terra, especificamente, a falha da Vidigueira, uma escarpa de 50Km virada a oeste conhecida como a Serra do Mendro que marca a fronteira entre o Alto e Baixo Alentejo. Subindo até aos 420m de altura aprisiona os frios e húmidos ventos atlânticos que arrefecem a região com nevoeiros nocturnos. O ar frio também desce pela Serra do Mendro durante a noite. Além disso, quando os ventos do sul trazem nuvens, a escarpa causa um aguaceiro. Para a enóloga Catarina Vieira, estas são as razões pelas quais “os vinhos muito minerais, elegantes e frescos da Vidigueira envelhecem muito bem”. Acredita que os solos arenosos também melhoram a mineralidade da sua Antão Vaz, proveniente das suas melhores, cultivadas a seco (apenas água da chuva) e de baixa produção, vinhas velhas (24 anos).

Vinificação: Uvas colhidas à mão e cedo (a 3 e 4 de Setembro) de modo a preservar a frescura (sem acidificação necessária), o vinho fermentou em barris novos de Carvalho Francês de 300 litros, aproximadamente durante vinte dias. De seguida foram retiradas as borras e estagiou em barril por cinco meses. Durante esse processo, as borras foram envelhecidas durante dois meses em barris de 2ª mão com batonnage diária, aproximadamente durante um mês, e depois foram readicionadas ao vinho. Para Catarina, “este trabalho com as borras é muito importante no que toca a mineralidade, frescura e potencial de envelhecimento deste vinho”.

Notas de Prova: Graças ao trabalho com as borras, demonstra, no nariz, notas de fósforo ao ser acesso, e palato alimonado, com notas de azeitona verde, ananás verde e, ao abrir-se, pêra seca. Um final longo, firme e mineral com uma acidez atoranjada e atrevida que fez durar a minha garrafa de amostra até ao 3º dia. 13.5%

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Conservas da Casa ao estilo de Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Cartuxa Pêra Manca Branco 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: Este blend de 62% Antão Vaz e 38% Arinto vem de Évora, outra sub-região da DOC Alentejo. Desta vez do Alto Alentejo. A fruta foi seleccionada de três parcelas das vinhas mais antigas da Cartuxa, situadas em encostas que se elevam até 300 metros acima do nível médio das águas do mar. Plantadas em 1980 em solos graníticos castanhos, as vinhas foram cultivadas a seco.

Vinificação: Para este branco mais encorpado e tradicional, a fruta foi colhida à mão mais tarde e em três fases, para obter mais complexidade (12, 18 e 19 de Setembro). A seguir ao desengace e ao esmagamento, uma parte das uvas foi deixada em contacto com as peles antes da fermentação. Sessenta e sete por cento do vinho foi fermentado e envelhecido em borras durante 12 meses em barris (60% novos) de carvalho francês com batonnage, para potenciar o corpo, a complexidade e o potencial de envelhecimento. O equilíbrio foi envelhecido em aço inox (para melhorar a fruta) com muita batonnage (para o corpo). Não houve qualquer acidificação.

Notas de Prova: Nariz rico e a cera de abelha, com frutos de caroço, especialmente alperce perto do núcleo, cujas notas se prolongam no palato com um nogado pronunciado (marzipan/calisson fresco) e carvalho abaunilhado. Apesar de apresentar um pouco de volume, tem um esqueleto maduro mas picante, de acidez cítrica que confere equilíbrio e provoca um final longo, saboroso e a borras, com nuances de casca de limão e laranja. Um vinho poderoso, que frequentemente me recorda um Hermitage no Norte de Rhône, França. 13.5%

Monte da Ravasqueira MR Premium Rosé 2013(VR Alentejano)

Terroir: Este Rosé, 100% Touriga Nacional, é de Arraiolos, Évora, Alto Alentejo. Para o enólogo Pedro Pereira, a chave da frescura da gama Monte da Ravasqueira reside na variação muito patente da temperatura diurna da propriedade. Mesmo nos meses mais quentes, Julho e Agosto, em que as temperaturas podem atingir os 40ºC, à noite podem descer abaixo dos 10ºC. As noites frias ajudam as uvas a reter a acidez de uma melhor maneira; também é bom para os aromas e para a estrutura. Gonçalves atribui esta forte variação de temperatura à natureza topográfica, tipo anfiteatro, da vinha (os 45 hectares estão plantados em encostas que chegam até aos 270m), bem como à floresta adjacente e às barragens. Apesar de ser necessária uma irrigação suplementar, os solos argilo-calcários têm uma boa retenção de humidade e as mais exteriores, de solo granítico, parecem melhorar a mineralidade/frescura, tal como no Dão.

Vinificação: Uma vez que o estilo de Gonçalves gira à volta de “frescura + complexidade (uma matriz de sabores) + natureza varietal + intensidade + concentração”, seleccionou a fruta a partir de cinco parcelas diferentes (por linha de orientação-exposição, tipo de solo e gestão da vinha). Fruta colhida à mão em diferentes dias, compreendidos entre 8 e 27 de Setembro. As uvas foram mantidas em contentores frigoríficos entre 2 a 20 dias, a 2ºC, para a concentração e para melhorar o potencial aromático e a fruta. Duas parcelas foram prensadas directamente para barris novos de carvalho francês e fermentadas naturalmente com batonnage em sólidos. As outras três foram primeiramente repousadas e inoculadas com levedura, antes de serem transferidas para barris novos de carvalho francês no segundo dia de fermentação. As cinco parcelas foram então envelhecidas em borras durante seis meses, com batonnage suave durante os primeiros 2 meses.

Notas de prova: A Touriga Nacional parece encaixar bem nos vinhos rosés e este é um exemplo incomum. Salgado mas frutado, encorpado mas fresco. É absolutamente delicioso com borras cremosas e salgadas, delicados morangos silvestres, bolinhos de morango e chá de pêssego refrescante. Acidez mineral confere frescura e persistência num final duradouro.

Susana Esteban Aventura Tinto 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este primeiro tinto é do Alto Alentejo mas é um blend das sub-regiões DOC. Esteban selecciona a Aragonês e a Touriga Nacional (40% e 20% da blend respectivamente) de um vinhedo com 15 anos, em Évora, a 300m de altura em solos argilo-calcários. O equilíbrio vem da mistura de um field blend em Portalegre, a sub-região mais a norte do Alto Alentejo, com 30 anos. Não é só a localização a norte que faz com que Portalegre seja a área mais fria e húmida do Alentejo. A Serra de São Mamede – a mais de 1000m de altitude, o ponto mais alto do Sul de Portugal – confere uma considerável elevação (até 800m) e solos graníticos pobres. Uma vez que o objectivo de Esteban é “produzir um vinho fresco, com carácter mas ao mesmo tempo apelativo”, vai a Portalegre buscar a frescura e a austeridade, ao passo que Évora providencia o calor que a enóloga pensa ser necessário para que a Touriga Nacional e a Aragonês precisam para demonstrar o seu potencial (Salientando que “tenho em atenção para escolher apenas com 13% a 13.5% de álcool”).

Vinificação: as uvas são colhidas à mão e fermentadas naturalmente (sem nenhuma acidificação) em pequenos lagares de inox a temperatura controlada. Aprecio bastante o facto de Susana se ter focado apenas na fruta e na frescura – este vinho é unoaked.

Notas de prova: fantástica textura e vibração (pensem em veludo esmagado) de frutas silvestres em puré (assim parece), puras e acabadas de colher. Taninos suaves e uma jovem acidez reforçam o imediatismo encantador deste tinto jovial. Adorável. 13.5%

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Casa do Porco Preto, Alentejo na Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Herdade de São  Miguel Reserva 2012 (VR Alentejano)

Terroir: A Herdade de São Miguel está situada na sub-região (DOC) Redondo do Alto Alentejo. Para Alexandre Relvas júnior, a Serra d’Ossa (que sobe até 650m) abriga as vinhas de Redondo dos ventos que sopram de norte e de este, e providencia invernos secos e frios, em contraste com os verões quentes e ensolarados. A vinha está localizada a 400m de altitude em solos de argila/xisto de baixo rendimento que produzem bagas pequenas e concentradas. Este vinho é um blend composto por 80% de Alicante Bouschet, 15% Aragonez e 5% Cabarnet Sauvignon proveniente de vinhas com 13 anos de idade.

Vinificação: fruta colhida à mão é totalmente desengaçada e sujeita a 48h de absorção antes da fermentação em lagares de inox abertos com pigeurs automáticos para uma extracção mais suave. Também é sujeito a uma pequena oxidação natural para “ajudar a corrigir logo à partida a cor e os taninos”, diz Relvas. Foi envelhecido durante 12 meses em barris de carvalho francês de 400 litros (50% novos).

Notas de Prova: nariz intenso a groselha e amora com toque de madeira abaunilhada e nuances de xisto empoeirado, que seguem durante o suculento palato com uma frescura adorável. Apesar de representar apenas 5% do blend, a Cabarnet Sauvignon é bastante evidente no perfil de sabor (groselha com notas de menta) e taninos finos, minerais e de cascalho. Não tem a concentração ou complexidade dos vinhos (mais caros) que se seguiram, mas é equilibrado e persistente. Muito bem feito, suporta bem os seus 15% de volume.

Quinta do Mouro Touriga Nacional 2010 (VR Alentejano)

Terroir: Este monovarietal de Touriga Nacional é de Estremoz, na sub-região Borba (DOC) do Alto Alentejo. Fica a norte de Redondo e da Serra d’Ossa, o que confere um pouco de protecção dos ventos quentes a sul. Uma vez que a Quinta do Mouro está situada a 420m de altitude, a elevação também tempera o clima, da mesma maneira que as descidas bruscas de temperatura durante a noite, as quais, segundo o enólogo Luís Louro, podem ser 20 graus abaixo da temperatura durante o dia, “especialmente nas últimas fases de amadurecimento, e os nevoeiros são comuns”. Solos xistados e vinhas cultivadas a seco também contribuem para o estilo muito estruturado, característico e de bom envelhecimento dos tintos da Quinta do Mouro. Proveniente de uma vinha do Douro “muito boa” de 1998, a Touriga Nacional foi enxertada em vinhas de Castelão que tinham sido plantadas em 1989.

Vinificação: uvas colhidas à mão e parcialmente desengaçadas, deixando cerca de 10% do cacho para obter um pouco mais de estrutura e sabores mais frescos. As uvas foram pisadas a pé em lagares e foram sujeitas a dois dias de absorção a frio antes da fermentação. Terminaram a fermentação em tanques inox de temperatura controlada e, após a prensa, foi envelhecido durante 12 meses em barris novos de carvalho francês de 300 litros.

Nota de prova: cor de ameixa, opaca e profunda, com perfume exótico de bergamota que eleva o concentrado palato a framboesa, ameixa e baunilha, juntamente com notas vivas e apimentadas, sálvia seca e hortelã. Taninos com uma textura acamurçada clivam os sabores no palato, ampliando a sua intensidade e a ressonância do palato. Poderoso, um pouco selvagem, mas equilibrado. Um carismático monovarietal de Touriga. 14%

João Portugal Ramos Marquês de Borba Reserva 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: também de Estremoz, este blend compost por 30% Trincadeira, 30% Aragonês, 25% Alicante Bouschet e 15% Cabarnet Sauvignon vem da vinha original de João Portugal Ramos. As vinhas, plantadas em 1989, estão situadas à volta de sua casa e têm sido a fonte do seu vinho desde que foi feito pela primeira vez, em 1997. Localizadas a 350m em solos de xisto muito velhos.

Vinificação: As uvas foram colhidas à mão durante a noite e de manhã cedo. Parcialmente desengaçadas (50%) e início de fermentação (natural) em lagares de mármore com pisa a pé. Para Ramos, as vantagens dos lagares incluem, uma maior área de contacto entre o líquido e a parte sólida do mosto, homogeneização suave do mosto (porque é formada uma camada mais fina em comparação com os tanques normais) e a estética do mármore local (que, por acaso Nuno Mendes também utiliza nos tampos das mesas na Taberna do Mercado). O último terço da fermentação é feito em tonéis de inox, beneficiando de temperatura controlada. A maceração pós-fermentação dura, normalmente, duas semanas. O vinho estagia depois durante 18 meses em barris de carvalho francês de 225 litros (dois terços dos quais são novos).

Notas de prova: um tinto muito polido, com tabaco e caixa de charutos no nariz e no palato. Frutos vermelhos a dominar o ataque, enquanto a Cabarnet se torna mais assertiva com o desenrolar, conferindo groselha bem definida e um revestimento pulverizado de taninos finos mas em pó que ganham vida na boca. Seco, firme, focado e muito fino com uma excelente frescura a equilibrar. O mais fechado dos tintos, com um grande potencial de envelhecimento. 14.5%

Herdade do Mouchão 2010 (VR Alentejano)

Terroir: este blend com cerca de 70% Alicante Bouschet e 30% Trincadeira é de um dos produtores mais estabelecidos da região, a Herdade do Mouchão, que pertence à mesma família desde 1874. Mouchão foi a primeira vinha de Alicante Bouschet a ser plantada e os vinhos actuais denotam a sua origem genética do século 19. Mouchão fica em Sousel, a norte de Borba, no Alto Alentejo. A Alicante Bouschet é seleccionada de várias parcelas perto da adega, a cerca de 230m de altitude, com idades entre os 10 e os 30 anos. Situada num triângulo entre dois pequenos rios, os solos arenosos superiores são bem drenados mas o barro das profundezas retém a humidade que permite um amadurecimento equilibrado e confere frescura e boa acidez. A imagem de marca do Mouchão é o grande potencial de envelhecimento. A Trincadeira de peles finas beneficia por ter sido plantada mais alta, em solos bem drenados a cerca de 400m de altitude.

Vinificação: este vinho, o mais tradicional, teve as suas uvas apanhadas à mão e fermentadas nos lagares de pedra originais da adega com 100% de engace. Depois é envelhecido em grandes e velhos toneis de 5000 litros durante dois ou três anos. Estagia ainda mais dois a três anos em garrafa antes de ser lançado no mercado.

Notas de prova: uma cor muita profunda com um palato e nariz muito complexos – é quase uma refeição – mas equilibrados. O Mouchão 2010 tem camadas de figo maduro seco, azeitona preta e pele incipiente com um floral tintado, tabaco, whisky berber (chã de menta estufado) e notas de eucalipto. Robusto, picante, taninos orientados à uva ganham vida na boca, mas no entanto está tudo bem integrado – nem um pouco agressivo. Um final muito longo e envolvente com um travo do calor da terra desta propriedade. 14%

Herdade do Sobroso, vinhos alentejanos com temperamento especial

Texto João Barbosa

A memória não é o que foi e ainda assim lembro-me, de há uns anos, ter visitado a Herdade do Sobroso, estava tudo muito no começo. O fundamental já lá estava: a vinha, o território florestal e a simpatia.

Herdade do Sobroso – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Agora, retornado com mais tempo, apercebi-me do empreendimento já constituído, na vertente vínica e no enoturismo – que alia o Alentejo, nas cores do seu calor, e à cidade pelo modo contemporâneo e sem a tão comum frieza. Um bom gosto a que não é alheio o traço do arquitecto Ginestal Machado, uma referência na reconhecida Escola do Porto, que já deu a Portugal dois prémios The Pritzker Architecture Prize – o «Nobel» da arquitectura.

Quando Ginestal Machado comprou estes 1.600 hectares, em 2000, estava tudo por fazer, resultado do pouco empenho de anteriores proprietários. Muito já se fez e a natureza não pára. Este domínio é também uma coutada de caça – o que não admira a variedade e quantidade de bicheza avistada, quando dei uma volta de todo-o-terreno com Filipe Teixeira Pinto, operacional da casa e enólogo residente.

Senti-me em reportagem para a National Geographic Magazine: veados, muflões, coelhos, lebres, perdizes, codornizes, javalis, patos bravos… Consta que os Sus scrofa (oink oink) costumam ser grandes e pesados e que um dia foi caçado um com mais do que o dobro do peso média registada na Herdade do Sobroso.

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Piscina – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Vinho não é tudo, mas é o tema da crónica – e vou longo em muita coisa. O Alentejo é uma região, a maior portuguesa – cerca de um terço de Portugal continental, com mais de 31.551 quilómetros quadrados –, mas nela cabem realidades diferentes. A Herdade do Sobroso situa-se na Vidigueira, zona com Denominação de Origem Controlada, e famosa pelos seus vinhos brancos. Este domínio, pela orografia e pela margem do Rio Guadiana, consegue uma frescura que, muitas vezes, está ausente em néctares alentejanos. Filipe Teixeira Pinto tem o apoio, como consultor, de Luís Duarte.

Dos 1.600 hectares, apenas 52 estão ocupados com vinha. O encepamento é formado por castas locais, nacionais e internacionais. As brancas são todas portuguesas: alvarinho, antão vaz, arinto, perrum e verdelho. As tintas são mais «viajadas»: alicante bouschet, alfrocheiro, aragonês, cabernet sauvignon, syrah e tinta grossa.

O primeiro vinho foi posto à venda em 2008, referente à vindima de 2006. A linha condutora é a da frescura, que traz elegância. Penso que, sabiamente, estão a travar o caminho da pujança alcoólica, característica quase inevitável nas regiões quentes. O rosado tem 12,5% de álcool e os brancos 13%, o que nos tempos que correm é quase raro.

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Sobro Rosé 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Pela graduação alcoólica já se percebeu que o rosado não é um subproduto dos tintos. As uvas são colhidas antes das brancas. O Sobro rosé 2014 consegue reunir dois desejos, pois vai bem (perigosamente) em conversas descontraídas e acompanha comidas delicadas. Foi todo feito com uvas de alicante bouschet.

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Anas branco 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Os muitos patos bravios que ali vivem inspiraram a marca de entrada de gama, Anas – a família desta ave palmípede é a Anatidae. O Anas branco 2014 é um diálogo entre as castas antão vaz, quente alentejana, e a arinto, nacional e muito fresca. Esta parelha resulta bem (vários produtores estão a recorrer a este casamento), até porque se deu travão à autóctone, sob pena de pesar como chumbo, sendo colhida «precocemente» (no tempo correcto). É guloso e pede cadeira diante duma vista agradável.

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Sobro branco 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Sobro branco 2014 é mais indicado para acompanhar comida. Mais uma vez, a equipa técnica evitou que as uvas de antão vaz esborrachassem o vinho. A elas se somaram as de perrum e arinto.

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Sobro tinto 2014 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Sobro tinto 2014 fez-se com uvas de aragonês, alicante bouschet, cabernet sauvignon e syrah. Aqui a minha nota vai para o belo cabernet sauvignon, que lhe confere virtudes. Infelizmente, em Portugal nem sempre se sabe trabalhar bem com esta casta – ou não será suposto por inadaptação. Aqui não se trata de pimentão.

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Herdade do Sobroso tinto 2013 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

No Herdade do Sobroso tinto 2013 encontrei o Alentejo. Os outros têm-no, mas este «nasceu lá e vive lá». O lote tem o sotaque cantado, pelas uvas de aragonês, alicante bouschet e alfrocheiro. Cuidado, que os frutos vermelhos e o chocolate são como duendes que distraem a atenção… 14% de álcool. É para ir para a mesa e o que me ocorre é «carne do alguidar», uma iguaria típica alentejana, que consiste em entrecosto temperado com massa de pimentão e muito alho, acompanhado por migas.

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Herdade do Sobroso Cellar Selection tinto 2013 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

O Herdade do Sobroso Cellar Selection 2013 (tinto) é uma coisa à parte, que representa o gosto dos proprietários, um vinho com assinatura. O casamento entre o alicante bouschet e o syrah é de estremecer e, novamente, a frescura torna-o perigoso, aqui são 14,5% de álcool. É um grande vinho. Em termos de gosto pessoal, é este que escolho.

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Herdade do Sobroso Reserva tinto 2012 – Foto Cedida por Herdade do Sobroso | Todos os Direitos Reservados

Por fim, o cume. O Herdade do Sobroso Reserva 2012 (tinto) é também um vinho de excelência, com elegância, vontade de comida e conversa prolongada num serão sem horas para terminar. O lote fez-se com uvas de aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon. Aqui, mais notória, a francesa dá-lhe «um piquinho», especiarias e verdura, a temperar o chocolate de cozinha, cerejas maduras e baunilha. Novamente, rédea curta, que são 14,5% de álcool.

Contactos
Pedrógão, Apartado 61
7960-909 Vidigueira, Portugal.
Tel: (+351) 284 456 116
Telemóvel: (+351) 961 732 958
E-mail: geral@herdadedosobroso.pt
Website: www.herdadedosobroso.pt

Quinta da Touriga-Chã, a plenitude do Douro Superior…

Texto José Silva

Jorge Rosas herdou não só esta belíssima quinta, mas também todo um património genético e a história duma família ligada ao Douro e à produção de vinhos de qualidade.

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A Quinta – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O seu bisavô, Adriano Ramos Pinto, foi o fundador da casa Ramos Pinto em 1880, o seu pai, José António Rosas, foi um visionário no Douro Superior, tendo ficado célebre por comprar os terrenos onde se ergue a quinta da Erva Moira. Mais tarde, em 1990, José António Rosas comprou a Quinta da Touriga, no lugar de Chã, em Foz Côa, também para produzir vinhos. E uma vez mais, como na Erva Moira, ali não havia nada a não ser pedras, xisto.

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Xisto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mas a visão daquele homem e a sua sabedoria e conhecimento profundo dos terrenos, das vinhas e do clima desta região, veio, mais uma vez, dar-lhe razão. Nasceram então os vinhos tintos da Quinta da Touriga-Chã, e têm evoluído de tal forma, que estão entre os melhores vinhos tintos do Douro. Agora já pela mão de Jorge Rosas, que se mantém como administrador da casa Ramos Pinto, mas que dedica uma pequena parte do seu tempo e muita paixão, a levar por diante o trabalho iniciado por seu pai.

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A Casa – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

A quinta tem uma casa muito interessante, cuja intervenção foi pouco invasiva, deixando que aquela paisagem extraordinária fale por si.

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A Piscina – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Construções Rústicas – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Mesmo a piscina parece que faz já parte da paisagem, a par de algumas construções rústicas que ali se mantêm intactas.

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Algum Arvoredo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

À volta, além de algum arvoredo, é a vinha que envolve tudo, naquele serpenteado tão característico dos vinhedos de planalto.

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A Vinha envolve tudo – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Serpenteado Característico dos Vinhedos de Planalto – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Se no início fazia o vinho em adega alheia, mas muito distante da Touriga-Chã, em 2000 Jorge Rosas resolveu avançar com a construção de adega própria, hoje uma realidade e uma aposta ganha.

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A Adega – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

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Fazendo uso de Materiais Tradicionais – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Projectada pelo mesmo arquitecto que tinha feito a casa, é uma adega que utiliza materiais tradicionais, como o xisto, mas que é acima de tudo muito funcional, versátil, como deve ser uma adega. Os mostos e, mais tarde, os vinhos, agradecem. Os vinhos desta quinta têm vindo a evoluir constantemente, dentro do perfil desejado pelo produtor, de tal forma que são reconhecidos e premiados um pouco por todo o lado onde estão presentes. Isto apesar da sua pequena produção, de pouco mais de 6.500 garrafas, divididas por dois níveis de vinho: o Puro e o Quinta da Touriga-Chã, este o mais cotado. E Jorge Rosas afirma categoricamente que quer continuar a fazer vinhos que sejam muito bons quando são lançados, mas que daqui a 5, 10 ou 15 anos sejam excelentes, devido à sua enorme capacidade de envelhecimento.

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Prova Vertical – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Parece que o tempo lhe tem dado razão, o que pudemos confirmar numa simpática prova vertical de algumas das colheitas ainda disponíveis na sua adega.

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Quinta da Touriga-Chã tinto 2010 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O Quinta da Touriga Chã 2010 apresentou-se duma cor granada escura, muito carregado, com laivos violeta, muito intenso. Nariz ainda fechado, austero mas ao mesmo tempo com aquela elegância característica deste vinho. Frutado, fresco, aromas complexos de chocolate preto, de madeira, fumo e especiarias, vai abrindo, precisa de tempo no copo. Na boca é impressionante a força deste vinho, com os taninos ainda bem evidentes mas a evoluir,  cheio de frutos pretos, amoras, ameixas, mirtilos e algumas flores do monte. Leves notas de fumo, muito fresco e com acidez poderosa a ligar todo o conjunto e a proporcionar um final imenso. Está ali para durar e durar.

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Quinta da Touriga-Chã tinto 2011 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se o Quinta da Touriga Chã 2011, um ano excepcional, tem uma cor granada carregada, muito escuro, brilhante. Revela aromas variados de frutos pretos, cheio de frescura, algum fumo e notas de tabaco. Na boca é poderoso, cheio, intenso, com acidez e frescura a casarem lindamente, notas de chocolate preto, amoras, figos, ameixas, apesar disso um vinho que revela a sua enorme elegância, muito sedutor.

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Quinta da Touriga-Chã tinto2012 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

O ano de 2012 apresenta também grandes vinhos tintos nesta região. O Quinta da Touriga Chã 2012 apresentou a mesma cor granada muito carregada, brilhante. No nariz uma explosão de aromas complexos de flores do campo e frutos silvestres, notas de humus, cheio de elegância, sedoso. Na boca revela toda a sua dimensão, muito intenso, aveludado e ao mesmo tempo poderoso, os frutos pretos bem maduros, notas de chocolate preto e ligeiramente especiado, revelando a sua grande elegância num final muito longo.

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Quinta da Touriga-Chã tinto 2013 – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Finalmente veio o Quinta da Touriga Chã 2013 (ainda sem rótulo), o mais jovem da família, e que revelou acima de tudo isso mesmo, a sua juventude. Dum granada muito escuro, opaco, brilhante. Nariz poderoso, cheio de frutos pretos e flores selvagens, muito fresco, até ligeiramente apimentado. Na boca novamente a fruta muito intensa, frescura e muito boa acidez, um vinho saboroso e que promete. Precisa ainda de garrafa e vai certamente dar-nos muitas alegrias.

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Aquela beleza toda no horizonte – Foto de José Silva | Todos os Direitos Reservados

Depois, aproveitando um calor sufocante, mergulhamos tranquilamente na piscina, com aquela beleza toda no horizonte…

Contactos
Quinta da Touriga
Apartado 17
Vila Nova de Foz Côa , 5151-909 Guarda
Tel: (+351) 279 764 196

Vale dos Ares um Alvarinho Consensual

Texto João Pedro de Carvalho

Voltei às minhas origens e à terra que me viu nascer (Vila Viçosa) e é por aqui que tenho andado nos últimos dias em modo de mini férias. Tempo que aproveito para rever e visitar alguns amigos e para matar saudades de casa. É por isso espectável e natural que nestes momentos o ponto alto seja quase sempre à mesa, onde para além da gastronomia se partilha também o vinho e a boa disposição.

Neste último jantar em que estive foram bastante variados os vinhos que marcaram presença à mesa. Curioso verificar que em quase todos esses vinhos à medida que foram sendo bebidos iam sendo acompanhados dos mais variados comentários. Aqui como em todo o lado chega aquele momento em que apenas se bebe e conversa, em que o vinho em causa parece ainda que de forma errónea ter ficado esquecido e sem direito a grande discussão de parte dos presentes. Será pois um vinho que reúne um consenso mais generalizado entre o gosto dos presentes, aquele que agradou de tal forma que ninguém teceu qualquer comentário, costuma-se dizer que quem cala consente, terá sido esta a razão do silêncio.

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Vale dos Ares Alvarinho 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Um desses vinhos foi o Vale dos Ares Alvarinho 2014 oriundo da Região dos Vinhos Verdes produzido por Miguel Queimado (MQ Vinhos) com enologia de Gabriela Albuquerque. É um Alvarinho que não se deixa cair em tentações levianas, não peca nem pelo excesso de exotismo nem pela falta de afirmação, mora ali na rua do meio. Mas o morar na rua do meio não significa que seja descaracterizado, nada disso, é todo ele bem-apessoado, senhor do seu nariz, mostra-se sério e convincente envolto numa bonita e fresca fragrância. Elegante e harmonioso, fresco e convidativo, melhora com algum tempo de copo, com uma prova de boca fresca e marcada pela fruta, equilíbrio e uma estrutura firme embora flexível pelo que o vinho parece que se molda ao nosso palato, muito por causa da batonage a que foi sujeito. Nada a dizer pois claro a não ser como alguém disse à mesa… Deste já não há mais?

Contactos
MQ Vinhos, Unipessoal Lda
Quinta do Mato, sn, Lugar do Mato
4950-740 Sá-MNC
Tel: (+351) 251 531 775
Telemóvel: (+351) 934 459 171
Email: info@mqvinhos.pt
Site: mqvinhos

No Reino do Pêra Manca – Cartuxa

Texto João Pedro de Carvalho

Passados quase 15 anos voltei à Adega da Cartuxa, ali paredes meias com o Mosteiro da Cartuxa onde vivem desde1598 os monges cartuxos. A Adega da Cartuxa, propriedade da Companhia de Jesus, foi nacionalizada após a revolução liberal do século XIX e adquirida em 1869 por José Maria Eugénio de Almeida. Apenas em 1950 a adega viria a ser modernizada por Vasco Maria Eugénio de Almeida, conde de Villalva, tendo entrado para os bens da Fundação em 1975. Foi a partir dessa altura que se começou a encarar a produção vinícola, com plantação de novo vinhedo entre 1982 a 1985, numa perspectiva completamente diferente, com ligação desde o início à Universidade de Évora através da equipa na altura chefiada pelo saudoso Engº Colaço do Rosário, a quem os vinhos do Alentejo muito devem. Foram marcantes as colheitas dos finais dos anos 80 como o Cartuxa branco 1987 estagiado em madeira em destaque ou em 1990 com o surgir do primeiro Pêra Manca tinto.

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Adega da Cartuxa © Blend All About Wine, Lda

Os motivos que me levaram a afastar dos vinhos da Cartuxa prendem-se com as evidentes mudanças de perfil que os vinhos começaram a sofrer com a entrada de uma nova equipa de enologia. Com isto viria um reformular dos rótulos e o meu total afastamento dos vinhos que deixei de encarar com a mesma paixão que então tivera muito por causa do Pêra Manca 1995, aquele que é o vinho mais marcante do meu percurso enquanto enófilo. Passado tanto tempo seria altura de voltar a tomar contacto mais de perto com a realidade vínica que hoje é criada na Adega da Cartuxa. As espectativas não saíram furadas, os vinhos saíram daquela fase confusa após mudanças na enologia, certamente que foram precisos algumas colheitas para assentar o perfil desejado com os necessários retoques.

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Tonéis © Blend All About Wine, Lda

Todos os vinhos provados mostraram um nível muito acima da média, a atenção apesar de tudo o que foi provado ficou centrada apenas nos Cartuxa que terminam em apoteose com os vinhos comemorativos dos 50 Anos, para atingir a apoteose com os Pêra Manca. No que a brancos diz respeito o Cartuxa 2013 resultante de um lote de Arinto e Antão Vaz, destaca-se pela boa frescura e pureza da muita fruta madura (citrinos, pêra, ananás) num conjunto algo tenso com uma passagem de boca muito saborosa e séria, tudo no sítio, com uma acidez cítrica a tomar conta do final. No copo ao lado já estava o Pêra Manca branco 2012 a mostrar uma muito boa exuberância com um certo arredondamento, bonita evolução com tempo de copo que o teve e bastante. Harmonioso e envolvente, enche a boca de sabor e classe, frescura tem a suficiente que abraça todo o conjunto de forma equilibrada de maneira a que não temos por ali pontas soltas. O trabalho de madeira está nesta altura completamente integrado, um novo perfil que me agradou neste belíssimo branco.

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Os brancos © Blend All About Wine, Lda

A grande surpresa estaria guardada para o final da prova com um vinho que em conjunto com outros foi criado para comemorar os 50 anos da criação da Fundação Eugénio de Almeida por Vasco Maria Eugénio de Almeida. O Cartuxa 50 Anos branco 2012 é um branco cujo lote de vinha velha com as castas Arinto, Assario e Roupeiro fermentou com curtimenta completa durante 25 dias. Se tivermos em conta os vinhos que fizeram história nesta casa sempre foram no seu aparecimento autênticas irreverências perante o consumidor menos atento, desta vez a provocação surge logo pela tonalidade com nuances alaranjadas. O vinho tem uma complexidade fantástica, um ramalhete de aromas distinto, muito limpos de fruta madura, laranja, limão, ervas de cheiro, anis, muito cativador e diferente de tudo o resto, pelo meio junta-se a frescura que a tem e em muito boa conta, peso e medida.

Com um nível muito alto colocado na mesa era altura de mudar a tonalidade da prova e os tintos tomaram conta do palco. A conversa inicia com o enólogo Pedro Baptista a apresentar o Cartuxa 2012, que nos mesmos modos da versão branco vê centrar todas as suas atenções na qualidade e pureza da fruta madura, a remeter para aquele perfil mais clássico a que esta zona do Alentejo nos acostumou. Ainda cheio de vigor cheio de especiarias com apontamento vegetal, na boca replica a prova de nariz, amplo e atrevido a espicaçar os sentidos com muita vida e uns taninos marotos ainda por polir no final de boca. O salto que se deu foi em direcção ao Cartuxa Reserva 2012 a mostrar-se mais sério como seria de esperar, embora mantendo a toada clássica, juntando a energia do Alicante Bouschet com a generosidade do Aragonez, alguma gulodice com notas de alcaçuz, fruta madura num conjunto com frescura embora se mostre mais polido e com maior envolvimento. No palato é saboroso mostrando-se num patamar acima do anterior, uma diferença que se sente a todos os níveis.

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Os tintos © Blend All About Wine, Lda

O culminar da prova de tintos seria atingido com a apresentação do Cartuxa 50 Anos tinto 2011 onde a Alicante Bouschet brilha em conjunto com a Syrah. Este vinho em tudo especial mostra-se denso, escuro, misterioso e com uma complexidade que se vai desenrolando no copo de forma fantástica. A fruta carnuda e sumarenta aparece fresca, bem delineada, um deleite para os sentidos, a explodir de sabor no palato em conjunto com algum herbáceo, cacau entre outros. Um verdadeiro colosso com anos de vida pela frente que fez as minhas delícias preenchendo os mais altos requisitos. Fantástico. No copo ao lado estava o expoente máximo da Adega da Cartuxa, nascido pela primeira vez em 1990, o Pêra Manca tinto 2010. Sem comparações possíveis com o vinho anterior, diametralmente oposto pois aqui o que comanda é a finesse e harmonia de componentes, tudo numa toada de pura classe com frescura e fruta de grande gabarito. Diga-se que é dos que se bebem com imenso prazer, sem cansar e apetece sempre mais um copo e outro até que a garrafa fica vazia. É a todos os níveis um grande vinho, que se soube reencontrar no caminho das estrelas e mostra-se ao melhor nível a que a marca me tinha acostumado.

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E-mail: geral@fea.pt
Website: www.cartuxa.pt

Vinho do Porto: um cão é um cão e um gato é um gato

Texto João Barbosa

Não vou escrever acerca de política! Todavia, cito o actual ministro da Educação para ilustração do assunto deste texto. Nuno Crato, governante muito contestado, é um consagrado cientista e professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (

Lisboa), catedrático de Matemática e Estatística. Tem um currículo impressionante, disponível na internet.

Ouvi a Nuno Crato, anos antes de ser ministro, que aprender não tem de ser divertido. Também não tem de ser enfadonho, acrescento. Não tem de ser divertido, porque educar é mais do que, na escola, ensinar números e letras, ou, em casa, a saber comer de faca e garfo e dizer «por favor» e «obrigado». A educação deve preparar a criança/jovem para a vida adulta, onde não vai encontrar mimo dos colegas ou contemplações do director.

Tenho ouvido que o mundo do Vinho do Porto é complicado, demasiado complicado, que o consumidor não entende… que há demasiadas categorias e variantes.

Blend-All-About-Wine-Port Wine-Vinho do Porto

Vinho do Porto in hipersuper.pt

Afirmo que os sete mil milhões de habitantes da Terra são todos Homo sapiens sapiens e, por isso, dotados de inteligência e capacidade de aprendizagem. Nem todos são capazes de desenvolver a fusão nuclear a frio, mas se preparados para tal teriam essa competência. Obviamente, há quem esteja acima da média e abaixo dela.

Por complicado que possa ser, o mundo do Vinho do Porto é menos complexo do que uma tese de doutoramento acerca do papel da estética e rupturas conceptuais nas sociedades modernas e ocidentais.

A última vez que ouvi alguém escandalizado estavam em causa as «12» variações de Vinho do Porto… Eu conto «28». Portanto, parto em desvantagem para a discussão. Se o argumento for simplificar poderia resumir-se tudo a quatro variantes: branco, rosé, tawny e ruby. Ou mesmo só a três, retirando o rosé, porque na verdade é um ruby.

Ora um gato é doméstico é um Felis catus e um cão é um Canis lupus familiaris. Porém, ambos pertencem ao reino Animalia, filo Chordata, classe Mammalia e ordem Carnivora. Diferenciam-se na família: Canidae e Felidae. Atirando o latim pela janela, uma criança gatinhante distingue um cão de um gato. O cão tem donos e o gato tem assistentes pessoais.

Claro que não se pode exigir a alguém acabado de entrar no mundo dos vinhos que saiba tudo, ou quase, sobre o Vinho do Porto… Nem de Bordéus ou de Borgonha, etc.

Portanto, o Vinho do Porto é complicado, certo?! Certo! Escolho outra grande região vinhateira do mundo:

Em Bordéus existem seis sub-regiões (Blayais et Bourgeais, Entre-Deux-Mers, Graves, Libournais, Médoc e Sauternes), subdivididas em 38 denominações de origem controlada.

Em 1855, o imperador Napoleão III ordenou que fosse criada, a pretexto da Exposição Universal de Paris, uma lista em que eram hierarquizados os vinhos de Bordéus. Assim, estabeleceram-se seis patamares qualitativos: Premier Grands Crus, Deuxièmes Grands Crus, Troisièmes Grand Crus, Quatrièmes Grand Crus e Cinquièmes Grands Crus.

Esta listagem apenas abrangeu a margem esquerda do rio Garona. No topo ficaram: Château Lafite (hoje acrescentado Rothschild), Château La Tour, Château Margaux, Château Haut-Brion, Château Mouton (hoje acrescentado Rothschild). Ou seja, três da denominação de origem de Pauillac, um de Margaux e outro de Graves (único, outros ficaram excluídos).

Por terem ficado de fora da listagem de 1855, foram criadas outras tabelas específicas. Em Sauternes et Barsac: Premier Cru Supérieur, Premiers Crus e Deuxièmes Crus. Em Saint-Émilion: Premiers Grands Crus Classés A, Premiers Grands Crus Classeés B, Grand Crus Classés… Chega? Ainda há a tabela de Graves e do Médoc. Ah! E os genéricos Bordéus.

Ah, pois! Seria mais fácil juntar as peças todas, analisar e criar uma lista unificada para Bordéus… já nem digo para França. Mas não! Sarcasticamente digo: Lamentável! Os apreciadores de Bordéus esclarecidos conhecem e debatem os vinhos de cada lado das margens e suas microrregiões… os anos e a meteorologia, as marcas… Sabe quem sabe e saberá quem quiser saber. Para saber um pouquinho, estudará um pouquinho; Para comprar pelo preço, verá o selo e olhará para a algibeira. Quem quiser comprar pela estética do rótulo, escolhe o mais bonito; quem quiser comprar de ouvido, escolherá o que lhe recomendaram.

Vamos a contas:

Brancos – Lágrima (muito doce), Doce, Meio-Seco, Seco, Extra-Seco, 10 anos, 20 anos, 30 anos e 40 anos.

Blend-All-About-Wine-Vinho do Porto-Ramos Pinto Lágrima branco

Ramos Pinto Lágrima branco in ramospinto.pt

Rosé – Rosé (estilo Ruby – evolução em garrafa).

Ruby – Lágrima, Ruby, Ruby Reserve, Ruby Special Reserve, Late Bottled Vintage, Vintage Single Quinta, Vintage, Garrafeira (evolução em demijohns) e Crusted (lote de vários anos).

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Sandeman Port Vau Vintage 2011 in sandeman.com

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Taylor’s Quinta Terra Feita Vintage Port 1991 taylor.pt

Tawny – Tawny, Tawny Reserve, Tawny Special Reserve, 10 anos, 20 anos, 30 anos, 40 anos, Colheita (indicação do ano) e Muito Velho.

Ah! E o Quinado! Não é bem um Vinho do Porto, mas uma associação com quinino. Criado a pensar na população das colónias ultramarinas, visto o quinino ser usado como anti-malárico.

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Quinado Ferreirinha

Os franceses são tão complicados, mas tão dotados de inteligência que conseguem perceber que um cão é um cão e o gato é um gato. Em Portugal, coitadinhos, não somos incapazes de perceber – ou de tentar conhecer – o Vinho do Porto, tal como qualquer outra pessoa doutro povo. Os franceses sabem que os sete mil milhões de habitantes do planeta são todos Homo sapiens sapiens. Por cá, cão e gato precisam de ser explicados.

Já que é para simplificar, por que não retirar as denominações de origem?… Atrapalha ter de saber regiões… e lá fora ligam tanto a isso como a línguas-de-veado e a tisana de lúcia-lima. E porquê mostrar o ano? Algum consumidor pouco conhecedor ou interessado vai preocupar-se se aquele vinho é de 2009 ou de 2010? Saberá das diferenças naturais entre cada safra?

Com sinceridade pergunto: o consumidor comum, fora dos países mais tradicionalistas e do «Velho Mundo», quer saber além da casta? Gosta de branco ou de tinto, «porque sim», e compra syrah, sauvignon blanc ou tempranillo. Esse consumidor típico, do «Novo Mundo» ou de países europeus onde o vinho é menos notório, quererá saber dos estilos do Vinho do Porto ou das classificações de Bordéus? Quem se apaixonar pelo vinho vai procurar, experimentar, estudar, diversificar… ou outros?…

Fernando Lopes Graça – um dos maiores compositores musicais portugueses do século XX – recusava-se a comer ou a beber com música a tocar. Para ele, a música estava acima de qualquer outra coisa, e precisava de sossego para entender e apreciar cada nota. Compreendo?… Sim, mas parece-me exagerado.

Não é snobeira. É simples constatação. Compreendo os amantes dos automóveis que distinguem as jantes dos Ferraris consoante à época e os seus desenhadores. Eu não distingo uma biela duma caixa-de-velocidades. O assunto não me interessa, não uso tempo com isso. É válido para tudo e para o vinho também.

No século XIX, alguém escreveu que existem tantas variedades de Vinho do Porto como de fitas num retroseiro. É facil?! A descoberta dá prazer e conhecimento.

Beber como um Rei: Moscatel de Setúbal, o Líquido de Ouro da Península de Setúbal

Texto Sarah Ahmed | Translation Bruno Ferreira

Há algum derradeiro teste que comprove melhor o que é delicioso e de grande valor do que o que os membros do trade do vinho compram? Ao abastecerem-se no aeroporto de Lisboa, o grupo de sommeliers que eu levei em excursão pelo Sul de Portugal esbanjou o dinheiro em Moscatel de Setúbal. Espero realmente que o entusiasmo demonstrado se traduza nas suas cartas de vinho quando voltarem a casa. Ao passo que o vinho do Porto se vende a ele próprio, este fortificado, Moscatel, poderia beneficiar se tivesse mais embaixadores de “bem comer e beber” que espalhassem os elogios que bem merece.

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À porta da famosa da José Maria da Fonseca, uma variedade de escolhas – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

No Decanter World Wine Awards, o meu painel é igualmente enamorado pelos seus charmes – não há melhor maneira de terminar um dia de avaliações do que nos perdermos sobre um copo de um irresistível Moscatel de Setúbal. Tal como as medalhas de ouro que regularmente lhe atribuímos demonstram (já para não mencionar a presença assídua na ribalta do Muscat du Monde awards), são puro ouro em todos os sentidos da palavra. E a realeza sabia-o. Aparentemente, o brinde das cortes de Richard II de Inglaterra e de Loius XIV de França foi feito com Moscatel de Setúbal. Suspeito que teria bastante menos valor naquela altura, por isso não somos nós os sortudos? – hoje em dia podemos beber como reis e pagar como plebeus.

Encontrará, mais abaixo, as minhas escolhas relativamente aos vinhos que provei na visita que fiz à Península de Setúbal no mês passado. Mas primeiro vale a pena perder um pouco de tempo a explorar o que faz o Moscatel de Setúbal tão especial. Naturalmente começaremos pela matéria-prima – a casta Moscatel de Setúbal (a.k.a. Muscat de Alexandria), que deve compor pelo menos 67% do vinho (85% se for Moscatel Roxo). Apesar de ser considerada inferior à sua mais famosa parente, a Muscat à Petits Grains, os produtores de Setúbal extraem habilmente o máximo de aroma e sabor da Moscatel de Setúbal, macerando o vinho fermentado e fortificado em peles durante 6 meses. É a melhor maneira para libertar o seu perfume de hortelã, floral, cascas cítricas e gengibre; chá de pêssego no caso da rosada e rara casta Moscatel Roxo.

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De volta ao Torna-Viagem na José Maria da Fonseca – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para serem uma pura delícia, os vinhos de topo são envelhecidos em barris de modo a permitir a caramelização dos açúcares, e também para concentrar os néctares resultantes da evaporação. No passado, os barris eram amarrados aos conveses de navios altos e enviados pelo equador para optimização do paladar e do carácter. António Soares Franco, CEO da José Maria da Fonseca, disse-nos que, como resultado da brisa do mar, da ondulação e das temperaturas altamente oscilantes no convés, os moscatéis denominados “Torna-Viagem” são altamente equilibrados, suaves e um pouco salgados. Há uns anos atrás tive a sorte de provar um exemplar do séc. XIX e, apesar de não me recordar de salinidade, lembro-me perfeitamente do seu estonteante equilíbrio e do seu paladar polpudo e suave. Parecia extraordinariamente jovem tendo em conta todas as aventuras que passou no mar.

Empolgantemente, desde 2000, que A José Maria da Fonseca vem experimentado a técnica Torna-Viagem com a marinha portuguesa e, como podem ver, esses barris que estiveram no mar parecem ter envelhecido mais rapidamente (as amostras Torna-Viagem à esquerda são mais escuras). Na Bacalhôa Vinhos de Portugal, outra grande produtora de Moscatel de Setúbal da região, a enóloga de fortificados Filipa Tomaz da Costa disse-me que desenvolveram condições especiais de armazenamento “para recriar o ambiente de um navio”. Por outras palavras, “sem qualquer controlo sobre a temperatura, humidade ou secura”. Durante o verão, o vinho que está dentro dos barris pode chegar aos 28ºC! Apesar de a evaporação ser consequentemente alta, Tomaz da Costa não enche os barris, isto porque, mais espaço no topo, em combinação com o calor ajuda a melhorar a complexidade e riqueza dos perfis râncio dos seus vinhos; talvez também um pequeno toque de “vinagrinho” (acidez volátil).

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Bacalhôa Vinhos de Portugal, produtores de Moscatel exótico – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Estes elementos são essenciais para pura delícia do Moscatel de Setúbal, mas os melhores vinhos são distinguidos pelo seu equilíbrio e finesse. E é por isso que são provenientes de solos argilosos e calcários dos morros da região, em especial das encostas mais frias da Serra da Arrábida, viradas a norte (que costumava ser uma ilha há muitos anos atrás). Estes vinhos são marcantemente mais frescos e mais detalhados do que aqueles das planícies arenosas da região.

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Queijo de ovelha, Azeitão, proveniente também da zona montanhosa, uma perfeita harmonição para o Moscatel de Setúbal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Adega de Pegões Moscatel de Setúbal 2012 – feito a partir de Moscatel 100% proveniente de solos arenosos e envelhecido em barris de carvalho francês e americano durante 3 anos. Este é um estilo mais leve e abordável com buttermint (menta), pouco doce, suave, laranja caramelizada e pêssego. Bom perfume e frescura. 17.5%

Casa Ermelinda Freitas Moscatel de Setúbal 2010 – Tal como o Pegões Moscatel, provém de solos arenosos, mas é bastante mais complexo. É envelhecido pelo menos dois anos, sendo que o normal são 4 a 5 anos, em barris usados num armazém sem qualquer controlo sobre a temperatura. E suspeito que seja isso que faz a diferença, porque é bastante mais concentrado e complexo no nariz e na boca, com deliciosas notas de râncio nogado e um toque de carvalho maltado no seu paladar a laranja caramelizada. Embora generoso, tem uma boa frescura para equilibrar. Digamos apenas que este foi particularmente popular no aeroporto. 17,5%

José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 2010 – Este Moscatel de Setúbal de grande valor, de gama de entrada, figurou a maior parte das minhas noites durante as minhas férias na Costa Vincentina há um par de anos atrás. Para facilitar a abordagem, a fruta é proveniente de um local arenoso e argilo-calcário virado para sul. Ao contrário de alguns vinhos de gama de entrada, foi envelhecido em cascos velhos, o que confere um rebordo delicioso e nogado ao seu palato delicioso de laranja caramelizada; bom equilíbrio e longevidade. 127g/l de açúcar residual; 17,5%

José Maria da Fonseca Colecção Privada Moscatel de Setúbal 2004 – este vinho é o resultado directo de ensaios com aguardente. O enólogo Domingos Soares Franco descobriu que gostava mais de utilizar Armagnac e o Colecção Privada tem uma fluidez (boa acidez) e persistência encantadoras na sua fruta madura, cítrica e pêssego mais redondo. Com uma excelente integração da aguardente, o final continua, e continua, lentamente revelando amêndoas tostadas, caramelo, nogado e um toque mais levantado de buttermint. As uvas são provenientes apenas de solos de argila e calcário. 106g/l de açúcar residual; 17,5%

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Os Moscatéis da José da Maria da Fonseca mais velhos guardados a cadeado na Adega dos Teares Velhos da – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

José Maria da Fonseca 20 anos Moscatel de Setúbal – O mais antigo produtor de vinhos de Portugal tem uma enorme carta de trunfo no que toca a produzir complexos e concentrados Mosctéis de Setúbal – muitas colheitas de Moscatel. Estão armazenadas na climatizada Adega dos Teares Velhos, lugar onde os vinhos mais velhos, com mais de 100 anos, estão guardados a cadeado! António Soares Franco diz-nos que os vinhos mais novos deste blend não-colheita de 20 anos têm 21-22 anos, ao passo que o mais velho tem 60 anos. Reconhece que é um blend de “aproximadamente 14 colheitas diferentes”. Isso é perceptível no seu longo, persistente, muito concentrado e complexo palato que revela casca de laranja caramelizada, substância, notas de marmelada picante e um pouco de marmelada amarga acabadinho de se juntar ao bouquet. Muito refinado, com um corte vivo de toranja a equilibrar o final. 182g/l de açucar residual; 18,4%

José Maria da Fonseca Roxo 20 anos Moscatel de Setúbal – feito a partir de uma Moscatel Roxo rosa muito mais rara, tem uma cor bastante mais escura do que o seu antecessor, e, apesar de ter bastante mais açúcar residual, parece mais fresco, seco (menos saboroso) e mais leve. Doce, aguçado mas sabores exóticos de tangerina, toranja rosa e chá de pêssego misturam-se na boca; grande linha e comprimento. A minha escolha dos 4 da JMF (mas devo ressalvar que sou uma grande fã do Roxo). 217.8g/l açúcar residual; 18%

SIVIPA Moscatel de Setúbal 1996 – de solos argilosos/calcários, este vinho foi envelhecido durante 10 anos em barris de carvalho francês. É um vinho complexo e concentrado, com um toque de aguardente no final mas que flui naturalmente e suavemente, xaroposo, pêssego, damasco seco mais concentrado, amêndoas tostadas e caramelo. 180g/l açúcar residual ; 17%

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Horácio Simões Roxo Moscatel de Setúbal 2009 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Casa Agrícola Horácio Simões Roxo Moscatel de Setúbal 2009 – Sou uma grande fã de Horácio Simões, um produtor de boutique de terceira geração. Este longo e duradouro Roxo mostra o porquê. Textura sedosa, concentrado e rico em laranjas caramelizadas, mostra sinais de madeira maltada e deliciosas notas de praline final (foi envelhecido em barricas de carvalho francês). Generosidade espectacular e palato equilibrado.

Bacalhôa Vinhos de Portugal Moscatel Roxo Superior 2002 – o meu painel no Decanter World Wine Awards premiou este incrível Roxo com um medalha de ouro e um troféu regional. Eu teria oferecido o troféu novamente neste alinhamento! As uvas são provenientes de solos argilosos/calcários do norte da Serra da Arrábida. Ainda assim, foi envelhecido durante 10 anos em pequenos barris franceses de 200ml de whisky (do qual beneficia por causa dos poros limpos) e em condições de simulação de embarcação, com grande variação térmica, tem uma frescura e pureza surpreendentes. Referindo-se aos “choques de temperatura, evaporação e concentração do ácido e do açúcar e a libertação de aromas ligados ao açúcar”, o enólogo responsável, Vasco Penha Garcia, diz que “é incrível que quando envelhecemos vinhos nestas condições eles fiquem mais frescos, mais florais”. Sem dúvida que o Bacalhôa Roxo Superior 2002 tem grande intensidade, toque e camada de água de rosas, mentol e aromas de chá de pêssego, que seguem na boca juntamente com pureza bonita de laranjas caramelizadas, tangerina suculenta, casca de toranja rosa e delicadas amêndoas tostadas e notas mais ricas de marzipan. Embora tenho um sabor agradável e rico, é muito persistente (boa acidez) e fino, o final, muito equilibrado. 190.2g/l acúcar residual; 19%