Olho no Pé: A coragem de ir onde nunca outro homem foi Event test

Vinha d’Ervideira Antão Vaz Vindima Tardia 2013

Texto João Barbosa

O ódio é uma coisa feia. Além de criar verrugas no nariz, entortar as unhas dos pés e azedar o fígado, o ódio não constrói nem ajuda. Vejam-se os casos da intolerância fanática e terrorista. É um exemplo fácil e actual, já bastante nas notícias.

Alguém disse que um homem sem inimigos não tem préstimo. Discordo e inverto: um homem sem amigos é que não tem valor. Porém, ninguém é só mau ou só bom. Vou escrever sobre gente e de suas peripécias de gostos. Um debate civilizado é delicioso, sobretudo quando não é uma mera troca de palavras, retórica de confronto e ausência de pensamento. Há casos inexplicáveis, que são também interessantes para conversar.

Tenho uma quezília! Uma guerra quixotesca contra a casta antão vaz. Sinceramente, se tantos agricultores a cultivam é porque são muitos os seus apreciadores. Quem estará «errado» serei eu. Um amigo tem ataques epilépticos – metáfora – se pressente a cabernet sauvignon, comigo é essa uva com nome de pessoa.

Sou um bocado extravagante, por isso tenho arrufos românticos, que noutros tempos levariam a duelo de sabre, contra a antão vaz. É giro fazer género, como as mocinhas adolescentes sorrindo nervosas quando cruzam o olhar com o rapaz mais giro da escola… que era eu!

Como cavalheiro defendendo uma dama ofendida – os prazeres do olfacto e do paladar – sou peremptório:

– Odeio a casta antão vaz! Essas vinhas deviam ser todas arrancadas e os campos higienizados. Quem fosse apanhado com um pé de vinha dessa «coisa» deveria sofrer castigos corporais em campos de reeducação.

Não odeio! Sei – aprendi no ano passado – que há palavras muito perigosas: nunca, sempre, tudo, nada, todos, nenhum…

Numa visita recente à Adega da Ervideira, situada muito perto do burgo medieval de Monsaraz, fui obrigado a engolir uma série de insultos que dirigi à antão vaz. Engolir, literalmente.

Esta casta branca é talvez a mais apreciada do Alentejo. Quase sempre (para mim) pesada, excessiva, enjoativa, cansativa e rústica. Defeitos que os apreciadores admitem existirem em alguns vinhos. Todavia, os alentejanos «descobriram» a arinto e o resultado final é superior à simples soma aritmética.

Mas do que quero dar conta é dum monovarietal de antão vaz, que está na garrafeira de Deus… é um vinho do Diabo. Este é o segundo antão vaz – o outro também monocasta (Solista 2010, Adega Mayor, pelo enólogo Paulo Laureano) – que me dá prazer.

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Vinha d’Ervideira Antão Vaz Vindima Tardia 2013 in wonderfulland.com/ervideira/

Vinha d’Ervideira Antão Vaz Vindima Tardia 2013 tem uma frescura impressionante, nervo, doçura sem enjoo, é racing. Enche a boca, onde liberta aromas e chega longe, profundamente e com tempo.

Só referi este por causa da minha zanga com a antão vaz e pela surpresa de ser uma colheita tardia, sem botrytis. Porém, há uma gama com alternativas e com o traço comum da qualidade e da facilidade com que agradam. Nélson Rolo é o enólogo responsável pelos vinhos da Ervideira.

Já agora… vale a pena ir à Herdadinha, propriedade onde se situa a Adega da Ervideira, e entrar nas brincadeiras do enoturismo. Culminam em Monsaraz, com vista para o lago de Alqueva… Lindo! Mas tenho saudades de quando aquele mar não estava ali… suspiro, conformado.

Contactos
Adega Ervideira
Herdadinha – Vendinha
Reguengos de Monsaraz
PORTUGAL
el: (+351) 266 950 010
Fax: (+351) 266 950 011
E-mail: ervideira@ervideira.pt
Website: www.wonderfulland.com/ervideira

      Sobre João Barbosa
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      3 comentários
      • joseafcunha@gmail.com'
        José Cunha
        REPLY

        È verdade, essas palavras são perigosas 🙂 tinha idêntica impressão, e na verdade este vinho também me surpreendeu de forma muito positiva.De tal forma que a garrafa de tamanho ligeiramente superior ao normal nos colheita tardia ficou vazia bem depressa…o que é bom!
        E um prazer ler o que escreve.
        Felicidades e boas provas!

        Cumprimentos,

        José Cunha

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