As talhas do senhor José Narcissus Fernandesii, simplicidade e requinte de mãos dadas

Jen Pfeiffer: Sou uma rapariga de Fortificados!

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Jen Pfeiffer, da Pfeiffer Wines, a principal enóloga australiana de vinhos fortificados, reconhece que provou vinho do Porto pela primeira vez antes de completar 10 anos. Referindo-se à sua infância afortunada, diz: “Cresci a pensar que era normal ter jantares com Porto Vintage todas as semanas! “. Este ano, na Quinta dos Murças, Pfeiffer cumpriu o sonho de fazer o seu próprio vinho do Porto. Encontrei-me com ela no Douro para saber mais sobre o seu mais recente projecto e fascínio por tudo o que é vinho fortificado.

Quando veio pela primeira vez ao Douro?

Visitei pela primeira vez o Douro com os meus pais quando tinha 10 anos. Lembro-me de me divertir com os balonges (cubas de fermentação em forma de cúpula) e com a viagem de comboio até ao Pinhão. Jantamos lá com o David Baverstock na Quinta do Bomfim da Dow’s, o que é engraçado, porque o David agora lidera a vinificação da Quinta dos Murças!

Esta é a segunda vez que está a fazer vinho no Douro. O que a atrai para o Douro e para Portugal?

Tendo em conta a minha paixão pelo Porto Vintage, ter a oportunidade de trabalhar no Douro foi o meu Santo Graal da vinificação, e só esperava que fosse um ano Vintage. Tive sorte suficiente para o fazer [na sua primeira visita, em 2007, Pfeiffer trabalhou para The Fladgate Partnership na Quinta da Roeda].

Fui embora com um enorme sentimento de conexão com a região e sempre haverá uma parte de mim que pertence aqui. Adoro a tradição e cultura de vinificação que aqui existem há séculos, a bondade das pessoas, o sal da terra, o senso de comunidade nas diferentes aldeias e o intenso esforço humano que durante séculos foi empregue a produzir as vinhas e o vinho. Para mim, o Douro é um lugar mágico.

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Jen Pfeiffer nos Lagares da Quinta dos Murças – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A minha segunda visita não só confirmou a intensidade da relação que tenho com esta região, como também me concedeu uma nova oportunidade com a qual apenas sonhava. Não estou apenas a fazer o meu próprio Porto, estou também a trabalhar num lugar muito diferente, o que tem sido maravilhoso e muito educativo, especialmente porque a Quinta dos Murças faz bons vinhos de mesa, tão bem como os Portos.

Aprendi muito sobre a estrutura de vinhos de mesa do Douro – a extensão e finesse dos taninos e, dependendo da mistura, a elegância e o perfume ou a densidade e a riqueza da fruta. Não me tinha apercebido que os vinhos tintos fossem tão trabalhados nos lagares – não muito diferente do Porto.

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Chris & Jen Pfeiffer na adega dos barris da Pfeiffer Wines’, em Rutherglen – Foto Cedida por Pfeiffer Wines | Todos os Direitos Reservados

Produz uma vasta gama de vinhos fortificados (o famoso fortificado Muscats e Topaques de Rutherglen e outros feitos utilizando as técnicas do Sherry e do Vinho do Porto) e também tintos, brancos, doces e espumantes. Qual é o que lhe dá mais prazer a fazer?

Os fortificados, sou uma uma rapariga de fortificados! Para mim são os vinhos mais desafiantes. Misturar colheitas, variedades e lotes de modo a manter um vinho fantástico durante 50 anos significa que posso estar no meu estado mais criativo e adoro isso. Vindo de Rutherglen, a qualidade, intensidade e aromas do Muscats e Topaques pode ser excitante, tal como trabalhar com os muito delicados vinhos Apera [estilo Sherry] debaixo da flor com quase nenhum enxofre – é preciso um conjunto de diferentes competências. No final de contas, todos são os meus bebês – Não consigo destacar um fortificado como favorito!

Qual é o que gosta mais de beber?

Adoro o Riesling, o Shiraz e, claro, os grandes vinhos fortificados do mundo. Como é óbvio, aqui no Douro estou a gostar muito de beber Porto, especialmente depois de jantar o Porto Tawny 20 Anos porque já desenvolveu uma grande complexidade.

É um modelo raro para uma nova geração de enólogos de fortificados. Qual é a importância de manter a chama acesa para os vinhos fortificados?

É incrivelmente importante continuar a divulgar os vinhos fortificados – Nunca vou parar de partilhar pelo mundo fora o meu entusiasmo por estes vinhos e estou envolvida em iniciativas educacionais na Universidade de Adelaide e na Wine & Spirit Education Trust. Dentro da indústria de vinho de Rutherglen, jovens enólogos formaram um grupo chamado Rutherglen Young Bloods (Sangue Jovem de Rutherglen) cujo objetivo é levar o vinho da região para o mercado e mostrar sua relevância.

Um dos objetivos é mostrar às pessoas a versatilidade dos vinhos fortificados (não são apenas um digestivo para depois do jantar). Estes vinhos dão grandes aperitivos e podem formar a base de algumas misturas de bebidas fantásticas. Pfeiffer Seriously Pink Apera foi inspirado no tempo que passei na Quinta do Roeda onde é produzido o Croft Pink Port; os mixologistas estão a utilizar o nosso Aperas em cocktails. É uma óptima maneira de apresentar o vinho fortificado aos jovens.

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Pfeiffer Seriously Pink – Foto Cedida por Pfeiffer Wines | Todos os Direitos Reservados

Também há espaço para melhorar na maneira de servir vinhos fortificados com comida, o que também iria aumentar a sua relevância. Na porta da adega Pfeiffer Wines’ estamos sempre à procura de maneiras de introduzir os vinhos às pessoas, por exemplo, High Tea com Topaques e Muscats. Também apresentamos alguns pratos salgados que deixam as pessoas boquiabertas, como o Rutherglen Classic Muscat com gaspacho, terrines e patés com chutneys de frutas.

E, claro, a coisa mais importante é colocar os vinhos à frente de tantas pessoas quanto possível, porque geralmente quando alguém prova um vinho fortificado de boa qualidade, torna-se “viciado” !!!!

Eu gostei muito ajuizar no “The Fortified Wine Show da Austrália”. As masterclasses são uma maneira inteligente para juízes seniores para compartilharem a sua paixão, conhecimento e experiência com outros juízes. Na minha opinião Portugal deveria organizar uma mostra internacional de vinhos fortificados. O que acha?

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Rutherglen Wine Show – Os Juízes, Setembro de 2013 – Foto Cedida por Rutherglen Wine Show | Todos os Direitos Reservados

Adoraria que Portugal tivesse uma mostra de vinhos fortificados. Viria e ajuizaria !!!! Seria também uma oportunidade fantástica para juntar pessoas relacionadas com os vinhos fortificados para um intercâmbio cultural e de perspectiva global sobre a categoria. Haveria muita energia e paixão na sala!

O Douro e Rutherglen são ambos famosos pelos seus vinhos fortificados. Trabalhou em ambas as regiões. Que semelhanças e diferenças que vê?

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Jen Pfeiffer na Adega da Quinta dos Murças – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Nós partilhamos uma forte e enraizada tradição e cultura de vinificação inter-geracional que é tão importante com os fortificados porque é mesmo preciso amadurecer o stock para os melhores vinhos. Além disso, trabalhar numa empresa familiar de sucesso é trabalhar com alguém que já lá esteve antes, e portanto podemos falar sobre isso – Rutherglen tem grandes parcerias entre pai e filho como Mick e David Morris da Morris Wines e Bill e Stephen Chambers da Rosewood Chambers e, claro, a sinergia entre mim e o meu pai. Todos nós sabemos o quanto é importante compreender o passado dos vinhos para compreender o seu futuro. No Douro, ao trabalhar primeiro com o David Guimaraens, e, agora com o David Baverstock, fui como uma esponja a absorver tanto quanto pude.

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Jen Pfeiffer nas vinhas da Quinta da Murta – Foto Cedida por Pfeiffer Wines | Todos os Direitos Reservados

Caso contrário, o Douro e Rutherglen são claramente partes do mundo muito diferentes, com um terroir diferente. Não apenas nos perfis de solo (o xisto do Douro versus o barro vermelho sobre argila e apartamentos arenosos e fluviais de Rutherglen), mas, por exemplo, o Douro tem elevação e aspectos diferentes, devido à sua localização montanhosa enquanto Rutherglen é plana, com média de apenas 165 m acima do nível do mar . Os níveis de cultivo e de idade videira são também muito diferentes.

Embora Rutherglen tenha algumas das mais antigas plantações australianas de castas portuguesas, apenas têm cerca de 20 anos, o que significa muito tempo a recuperar. Ainda assim, vejo semelhanças varietais, a riqueza no palato, generosidade da fruta e taninos finos e longos do Touriga Nacional, e a maturação e plenitude do Tinta Barroca. Por outro lado, ao contrário do Douro, o Tinta Roriz não é grande em taninos na Austrália – talvez seja um clone diferente? E o nosso Muscat [Moscatel] é tinto e saiu muito mais maduro do que o branco Moscatel Galego do Douro.

Desde 2004, a Pfeiffer tem, por vezes, co-fermentado diferentes variedades de distitnos blocos de vinhas [em vez de misturar vinhos de variedade única] para obter complexidade e plenitude. No entanto, na minha primeira viagem consigo recordar-me de estar realmente surpresa com o facto de esta ser uma necessidade nas vinhas multi-varietais [variedades misturadas] mais velhas do Douro. Embora tenhamos sempre escolhido com base na maturidade das castas individuais, as vinhas multi-varietais são colhidas como um todo no que toca à maturidade do bloco. Agora percebo que é parte da cultura do Douro olhar para o vinho (não para as uvas individualmente ou componentes varietais), ao avaliar um vinho.

Quão bom é estar de volta a fazer vinho no Vale do Douro, depois de sete anos? O que significa para si fazer Vinho do Porto aqui para sua própria marca?…

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O Porto da Jen na Quinta dos Murças – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

É maravilhoso. Assim que avistei a primeira vinha pela janela do comboio senti-me em casa – parte de mim pertence ao Douro e eu sinto que estive longe demasiado tempo. Quando fui embora, em 2007, disse que o meu sonho seria um dia ser dona de uma quinta aqui no Douro e produzir so meus próprios vinhos para vender na Austrália. Embora não tenha feito exactamente isso, ter a oportunidade de trabalhar com uma empresa progressiva como a Quinta dos Murças e fazer meus próprios vinhos aqui para depois vendê-los na Austrália é como um sonho tornado realidade. Estou extremamente entusiasmada por estar realmente a acontecer.

Os meus vinhos são feitos a partir de várias parcelas de Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca, Tinta Amarela e uma pequena quantidade de Touriga Franca, que tenho seguido desde a colheita passando pela fermentação até ao barril. Quando voltar para a Austrália vou degustar regularmente amostras, de modo a monitorizar o progresso dos meus vinhos e, depois de ter completado a vindima em Rutherglen na próxima primavera, vou voltar e provar cada barril e realizar as misturas para engarrafamento.

Conte-nos sobre o projeto Naked Wines e o mercado para os vinhos deste projeto.

O meu projeto surgiu porque a Naked Wines da Austrália – o grupo de crowd-funding para os produtores de vinho – convidou os seus membros (que são conhecidos como “anjos”) para votarem em um de três projetos do “Australian winemakers’ dream-come-true”. Se um produtor tiver 2.000 votos, o projeto avança. No espaço de três dias, os três projetos tiveram 2000 votos! O meu vinho Porto e Douro dos Murças será vendido on-line na Austrália através da Naked Wines. É muito cedo para dizer se o meu vinho vai ser um Porto Vintage, um Late Bottled Porto Vintage ou um Reserve Ruby.

Uma vez que os outros dois projetos estão na Austrália estou muito agradecida pela atitude “Consegues fazer!” do David Baverstock e da sua equipa na Quinta dos Murças que me ajudaram a transpor aquilo que não passava de um sonho para a realidade e, é claro, aos anjos que acreditaram em mim e me quiseram apoiar. Tenho partilhado a minha aventura aqui com os “anjos” e estou ansiosa por lhes mostrar o meu vinho do Douro e Porto.

Os vinhos, os fortificados e castas portugueses são populares na Austrália?

Acho que as castas portuguesas estão a tornar-se cada vez mais populares na Austrália. À volta de Rutherglen tem havido plantações de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Sousão e Tinta Cão há mais de 20 anos, tanto para o Vintage (Porto) como para vinhos de mesa. Noutras regiões da Austrália, também são estas as castas que estão a subir em popularidade, principalmente a Tinta Roriz (ou Tempranillo como estamos obrigados a chamá-la).

Quem também está a subir em popularidade são os vinhos de mesa portugueses, especialmente vinhos tintos do Douro, Dão e Alentejo. O vinho do Porto é vendido na Austrália há muito tempo, com um foco particular no Vintage e no Tawny. Mesmo o mercado na Austrália não sendo muito grande para vinho do Porto quando comparado com o Reino Unido ou os EUA, continua a ser considerado um estilo de referência do mundo.

É uma coisa boa ou má, a Austrália já não poder utilizar o termo Porto ou Sherry?

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Rutherglen tem um Porto! – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Durante a maior parte da minha vida, os termos de vinícolas têm vindo a mudar. Lembro-me em criança, de enólogos australianos utilizarem os termos Champagne, Hermitage e Claret. Esses termos já não existem. É apenas uma parte do processo evolutivo.

Em última análise, acho que é uma coisa boa – Respeito a região e herança dos vinhos do Porto e Sherry. Os enólogos australianos tentaram imitar esses estilos ao longo dos anos, contudo apenas tem servido como complemento aos originais… mas, naturalmente que estes vinhos agora são novamente únicos. Assim como é importante proteger o património da região de Rutherglen com os nossos Muscats e Topaques, é importante proteger o patrimônio das indústrias do Porto e Sherry.

Embora inicialmente tenha havido uma reação negativa nos media australianos sobre as mudanças de nome, a Pfeiffer Wines viu isso como uma oportunidade para revigorar ambas as categorias. Re-embalamos e re-rotulamos os nossos vinhos com uma abordagem moderna para a nossa marca. Agora, temos a geração de consumidores de vinho X e Y a bater à porta da nossa adega a pedir um Apera, quando nunca teriam pedido um Sherry.

Contactos
167 Distillery Road
Wahgunyah, Victoria, 3687
Australia
Tel: (+61) 260 332 805
Fax: (+61) 260 333 158
Email: cellardoor@pfeifferwines.com.au
Site: www.pfeifferwinesrutherglen.com.au

      Sobre Sarah Ahmed
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