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Caves São João – Porta dos Cavaleiros, o perfil de uma região

Texto João Pedro de Carvalho

A história das Caves São João é longa e rica em detalhes, tudo começou com o nome Sociedade dos Vinhos Irmãos Unidos, fundada em 1920 por três irmãos viticultores da Bairrada: José, Manuel e Albano Ferreira da Costa. Durante largos anos prosperou a venda a granel, tendo sido apenas a partir de 1950 quando se juntou Caves São João à denominação da firma. Mas apenas em 1959, já com os descendentes de um dos fundadores, Alberto e Luís Costa nos comandos das Caves, iriam surgir as marcas que lançaram as Caves São João para o estrelato – o Frei João (Bairrada) e o Porta dos Cavaleiros (Dão). Alberto e Luís Costa eram exímios negociantes de vinho, sabiam como poucos escolher e comprar os melhores lotes, direi mesmo que souberam como poucos criar e educar grandes vinhos que ainda hoje perduram e mostram com galhardia toda a potencialidade das duas regiões que abraçaram, o Dão e a Bairrada.

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Sem possuírem qualquer vinha no Dão, eram escolhidos e comprados os melhores lotes e na colheita de 1963 surgiram  os primeiros Porta dos Cavaleiros, tanto o Colheita como o Reserva Seleccionada. Uma marca que tal como a sua congénere na Bairrada, teve o dom de quase “criar” um perfil a que hoje associamos de Clássico a cada uma das regiões. De notar que os Reserva Seleccionada mostram mais frescura que os Colheita, devido a que as uvas dos Reserva eram provenientes dos contrafortes da Serra da Estrela num perfil mais fresco a que se poderá apelidar de “Dão Serrano”, enquanto os Colheita as uvas eram provenientes de zonas mais baixas e porventura mais quentes. Sobre os Reserva Seleccionada sabe-se que o vinho passava quatro anos nos enormes depósitos de cimento e posteriormente mais um ano em garrafa. Vinhos sabiamente educados e de traçada clássica, sérios com toque acetinado tão característico que nos mostram aquilo que a região pode e deve fazer.

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Caves São João – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Visitar as Caves São João e ter o prazer de contemplar mais de um milhão de garrafas que resistiram à passagem do tempo é uma rara oportunidade para os apreciadores. Esta foi uma prova que ficou na memória, em tudo especial até pelo facto de alguns vinhos não se encontrarem já disponíveis para venda face ao reduzido número de garrafas existentes. O primeiro vinho foi o Porta dos Cavaleiros 1964, este branco com 51 anos é arrebatador em todos os sentidos. Notável a evolução no copo, claramente a precisar de decantação. Inicialmente algo preso e contido, a mostrar alguma rezina, desenvolvendo uma complexidade notável com destaque para a fantástica acidez que envolve e segura todo o conjunto. Profundo, floral com nota de cera, untuosidade com fruto seco e ainda alguma fruta madura de caroço. Boca com muita frescura, mostra garra e nervo, grande presença e profundidade, sério, educado, a untuosidade que mostra ter combina em grande com a frescura que refresca o palato terminado longo e persistente.

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Porta dos Cavaleiros 1964 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros 1979 branco – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva branco 1984 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Dando entrada nos anos 70 onde curiosamente são poucos os vinhos das Caves São João que me têm ficado na memória, salvo erro o branco Reserva de 1973 em Magnum e o tinto também Reserva 1975. Este Porta dos Cavaleiros branco 1979 não fugiu à regra, cordial a mostrar-se com vida, fruta já em passa, mineralidade com alguma secura de final de boca. Nos brancos da década de 80 o melhor de todos é o Reserva 1985, este Porta dos Cavaleiros Reserva branco 1984 é um grande branco em idade adulta, mas se comparado peca pela falta de garra tanto na boca como no nariz onde mostra menos frescura e acutilância ou limpeza de aromas. De resto goza de uma belíssima harmonia de conjunto, conjugando a sensação de untuosidade com acidez e presença da fruta ainda vivaça e madura.

No campo dos tintos a entrada não poderia ser melhor, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 é a meu ver o melhor de todos, afirmando-se como um dos melhores vinhos de sempre da região. Pura classe num vinho de compêndio, cheio de caruma e pinhal, muito bosque, frutos silvestres, cerejas, folha de tabaco, eucalipto, couro. Puro veludo num tom que combina austeridade com a gulodice de um vinho cheio de vida e frescura, longo e com final persistente. De passagem pelos anos 70 foi provado o Porta dos Cavaleiros Reserva 1974, novamente o que menos brilhou entre os tintos, com a região bem evidenciada no perfil e a dar uma prova de muito bom nível. Perdeu em poder de afirmação mostrando-se mais delgado e espaçado tanto em complexidade aromática como em presença de boca.

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1966 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1974 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Porta dos Cavaleiros Reserva 1985 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Termino com o segundo melhor tinto, o Porta dos Cavaleiros Reserva 1985, que é um dos que mais prazer me tem dado nas últimas vezes que o tenho tido no copo. Literalmente é daqueles vinhos que está num momento muito alto da sua vida, conjuga toda a frescura da fruta com a complexidade que apenas o tempo consegue oferecer. Por entre os aromas a pinhal e bosque, cogumelos, terroso ligeiro, abre para fruta madura e suculenta, tudo embalado em enorme frescura, limpo com caixa de charutos, especiarias variadas. Na boca é acetinado e ao mesmo tempo vigoroso, com a fruta a explodir de sabor, muita personalidade com ampla presença, profundo e final persistente. Um grande vinho do Dão e do Mundo.

Contactos
S. João da Azenha, Ap-1, Anadia
3781-901, Avelãs de Caminho
Frei João
Porta dos Cavaleiros
Tel: (+351) 234 743 118
Fax: (+351) 234 743 000
E-mail: geral@cavessaojoao.com
Website: www.cavessaojoao.com

Um passeio incompleto pelo Dão

Texto João Barbosa

Uma conversa recorrente cá em casa é acerca da memória. Um tema teimoso, discussão bizantina… é quase um cerimonial para sorrisos, pois já todos disseram e explicaram o que pensam. O meu partido é o de que não são necessárias fotografias para se construírem memórias.

Já colocaram um livro, estrategicamente posto para nele tropeçar com os olhos, em que o autor garante a necessidade das fotografias ou imagens para se fazerem memórias. Ora, em milhares de anos de evolução, o ser humano sempre teve memórias e a fotografia data do século XIX, à década de 20. Mesmo os retratos pintados têm «alguns» séculos, mas são segundos na escala da vivência do Homo sapiens sapiens. Além de que quer a fotografia, quer a pintura – sobretudo esta – não estavam acessíveis à grande maioria da população. Além de que a memória também se falseia e reinventa, até se inventa.

Isto tudo para falar sobre o Dão, de três dos seus vinhos. A minha recordação da zona do Dão limita-se a uma fotografia em que eu e os miúdos de Campo de Besteiros fizemos um comboio com as cadeiras lá de casa. Porém, a recordação mais clara é a da centopeia – que coisa estranha – que se afogara na bacia do lavatório.

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Arco dos Cavaleiros (old) in visoeu.blogspot.pt

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Arco dos Cavaleiros Nowadays in Panoramio.com – Photo by filipe_ | All Rights Reserved

Para mim o Dão – Viseu – tem uma má memória, uma chatice num «restaurante» em que o bife veio com cabelos. Ainda hoje não gosto de Viseu, com todo o respeito pelos seus habitantes, nascidos e apreciadores.

O Dão diz-me quase nada. Porém, o vinho está numa prateleira à parte. O meu pai comprava, muitas vezes, tinto dessa região. Tenho 45 anos e na minha infância o Douro «não existia», o Alentejo «não existia»… da Bairrada não me lembra… havia Vinho Verde e umas marcas de vinhos provenientes de videiras superprodutivas, provavelmente da Estremadura e do Ribatejo.

Como o meu pai bebia quase sempre tinto, o vinho do Dão é encarnado. Ainda hoje! O Doutor Freud explicaria. Porém, é muito mais do que isso. É uma região com néctares maravilhosos, com um bom número de produtores com esmero. O problema do Dão é a dimensão da propriedade e uma característica típica portuguesa – ali talvez sublimada – que é a desunião.

Há dois momentos especiais quando descobri o Dão. Uma garrafa e um evento. O primeiro episódio causou-me o espanto da descoberta do que é um Chuck Norris de salão e outro foi conhecer um grupo de oficiais de alta patente, envergando uniformes de gala.

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Porta dos Cavaleiros Colheita de 1983 in garrafeiranacional.com

Chuck Norris pela sua força e capacidade de resistência, mas com elegância… poderá pensar que James Bond seria «adjectivo» mais correcto, só que o 007 é urbano. Passo a contar: na casa dos meus pais havia uma garrafa de Porta de Cavaleiros, referente à colheita de 1983. Não sei como não foi abatida ao efectivo, mas, como sobreviveu, o meu pai deu-ma, em Fevereiro de 1994, quando passei a ter casa própria e vida de solteiro. Todavia, a garrafa ainda viveu mais de uma década. Um dia, em 2007, resolvi que tinha de ir para dentro. Que espanto! Espanto! Uma jovialidade, elegância… o que tem a ver com Chuck Norris? É que a garrafa (o vinho) apanhou calores, viveu com luz, não se deitou e movimentou-se algumas vezes. Colossal em todos os aspectos!

Não perca o próximo episódio.