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Real Companhia Velha – Velhos são os trapos…

Texto João Barbosa

Cumpri e terminei com a palavra terroir. Agora prometo finalizar com um brinde. Tanta coisa acontece 250 anos. Por várias vezes mudou a lei, aumentou a área da região vitivinícola, surgiram e morreram grandes figuras… a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro há muito que mudou de natureza, é um operador comercial e produtor.

Ganhou a alcunha de Real Companhia Velha e para que dúvidas não restassem ainda comprou a Real Vinícola, empresa cuja designação baralhava. Todavia, uma boa aquisição, que abriu negócios à casa e acrescentou marcas hoje históricas.

Em 1960, Manuel Silva Reis comprou a companhia, que se mantém na família. Pertencem-lhe cinco quintas (Arciprestes, Carvalhas, Casal da Granja, Cidrô e Síbio) que totalizam 540 hectares de vinha. Embora seja uma das maiores empresas portuguesas do sector, a Real Companhia Velha ainda não saiu de casa, produzindo vinhos Douro, Porto, Moscatel do Douro e Regional Duriense.

Sou conservador e de engenhocas gosto pouco. Parar é morrer e uma coisa é a tradição e outra a «invenção» – o que não é antagónico ou contraditório. O Douro está bem e tão bem e seguro que não vejo as experiências como sendo uma ameaça. Eu, conservador que não gosta de engenhocas, rendi-me a essa inovação do colheita tardia feito no Douro!… O primeiro foi em 1912, pela Real Vinícola.

Em Cidrô plantaram-se castas estrangeiras e estuda-se, é uma quinta de ensaios. Um dia foi chamado um técnico para certificar uma vinha nova, plantas compradas em França da casta semillon. Mas deu-lhe o nome de boal. Como boal?! Ali à volta, naquelas aldeias, o povo até lhe chama semilhão…

Por que é que não me indigno? Com o Grandjó Late Harvest ou com as maquinações que se realizam na Quinta de Cidrô? Porque sinto a segurança de quem está para construir e não para fazer só por fazer. Porque os Grandjó Late Harvest são – sou peremptório – os melhores vinhos de colheita tardia feitos em Portugal.

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Grandjó Late Harvest in realcompanhiavelha.pt

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Real Companhia Velha Logo in realcompanhiavelha.pt

Quem conhece os técnicos da Real Companhia Velha sente segurança e respeito pela região. Como se estivesse a viajar numa autoestrada a 400 quilómetros por hora, num Bugatti Veyron conduzido por Niki Lauda.

Este conjunto de artigos acerca da Real Companhia Velha foram pensados para saírem em Setembro, para assinalar o aniversário… 259 anos! Porém, tenho mais vinho do que dias, que gostaria tivessem 48 horas.

Three texts have many words (you can read part 1 here and part 2 here),

Três textos têm muitas palavras (pode ler a parte 1 aqui e a parte 2 aqui), mas tudo começou com uma ideia retorcida de ironia… a disputa pela maior antiguidade da demarcação… Tokaji (Tokay) dos magníficos vinhos com Botrytis cinerea – garantem que aí foram criados pela primeira vez – e o Douro, com o seu Grandjó.

O marquês de Pombal nunca o deve ter tido em mente, nem mesmo no tédio das viagens desde a Panónia até à Lusitânia, onde cogitou acerca de vinho da Galécia. Brindo a esses dois vinhos e também ao homem que não queria ter como inimigo. À saúde e que venham mais 259 anos!

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4430-022 Vila Nova de Gaia
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Real Companhia Velha – Como o Douro chegou ao Tejo

Texto João Barbosa

Não poderei ser político! Cumpri o prometido… Escrevi «terroir». E porquê? Porque ingleses e franceses andavam novamente às cabeçadas e o vinho do Douro tinha a qualidade que as gargantas insulares exigiam. Sebastião de Carvalho e Melo sabia da qualidade dos vinhos com uma origem específica, por isso demarcou o sítio.

Ainda é preciso recorrer à história e mais uma vez prometo terminar um texto com «terroir». Este conceito é normalmente atribuído a França. Mas isso é uma ilusão, derivada da criação do vocábulo. Ao longo da história sempre se identificaram locais especiais para a produção de vinho. Um dia, alguém lembrou-se de escrever uma lei para que tal ficasse defendido.

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Douro © Blend All About Wine, Lda

Dizem os portugueses que a primeira região demarcada do mundo é a do Douro, através do alvará régio de 10 de Setembro de 1756, redigido por Sebastião de Carvalho e Melo.

Os italianos argumentam que Chianti é que foi a primeira delimitação, datando de 1716. Por seu lado, húngaros e eslovacos contrapõem que foi Tokaji (Tokay), em 1730. Há argumentos para tudo e os portugueses defendem-se com a especificação pormenorizada e colocação de marcos de pedra.

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Chianti Region in wikipédia.com

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Tokaj Region in wikipédia.com

Ainda assim, a ideia deve ter-lhe ocorrido por causa do tempo em que foi embaixador em Viena. O Sacro Império Romano-Germânico foi um Estado sui generis, formado por uma multiplicidade de países, com graus variados de independência e de monarcas. À data da sua extinção, em 1806, era formado por mais de 400! A Toscânia pertencia ao imperador e fazia parte do «Consórcio». A imperatriz era arquiduquesa de Áustria, país integrante do império, e rainha da Hungria, que ficava de fora desse organismo político.

A Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (Real Companhia Velha) tinha várias funções, desde a instituição, regulamentação, policiamento, exercício de justiça, monopolista da venda… Para defender a região e a autenticidade dos seus vinhos, Sebastião de Carvalho e Melo mandou arrancar vinhas de várias zonas do país.

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Real Companhia Velha logo in realcompanhiavelha.pt

Como tudo o que tem valor é imitado (falsificado), houve cedo a tentação de inventar vinho que não existia. Nas adulterações recorriam a bagas de sabugueiro para tingir o líquido. Assim, o governante decretou que fossem arrancados todos os arbustos que ficassem a menos de cinco léguas (portuguesas) da demarcação.

Curiosamente, existem ainda hoje arbustos a cerca de 33 quilómetros da região – porém, não há vinha. Estavam na fronteira, no limite da legalidade. Quer isto dizer que o vinho do Douro continuou a ser pintado, apesar da proibição. Há pouco tempo escrevi, para a Vida Rural, um artigo sobre Sambucus nigra, planta com inúmeras utilizações, mas que não se dá atenção merecida; os 700 hectares que existem no país representam cerca de 2,2 milhões de euros.

Sebastião de Carvalho e Melo foi um homem do seu tempo. Esclarecido e déspota. Perseguiu e quase exterminou a família dos marqueses de Távora, seus adversários. Citação ilustre acabada de inventar:

– Se serves o Estado e não te serves, não mereces tal estado!

O homem que seria agraciado com o título de conde de Oeiras, em 1759, e marquês de Pombal, em 1769, não deixou de ganhar dinheiro duma forma à época vista com benevolência. Da sua quinta em Oeiras saíram muitas pipas de «vinho do Douro», tal como doutras suas propriedades.

Quando o terroir do Douro tinha características da luz forte do mar próximo de Lisboa, de salinidade e de terra calcária ou barrenta. Terroir…

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Real Companhia Velha, tão velha que há tanto… – Parte 1

Texto João Barbosa

Há empresas que têm tanta história que lhe parecem faltar anos para encaixar tanto que há para saber. É o caso da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (Real Companhia Velha), criada em 1756. Muito por causa de quem a instituiu. Antes do vinho, vem a história.

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Real Companhia Velha logo in realcompanhiavelha.pt

Há pessoas à frente do seu tempo e, dentre elas, algumas tornam-se maiores do que o tempo. Este privilégio é concedido aos heróis – há também canalhas, mas não são celebrados. É o caso de Sebastião José de Carvalho e Melo.

Calma! Tem mesmo de ser! Prometo terminar o texto com a palavra terroir. Para já, faz de conta que é Setembro – no terceiro capítulo explico.

Nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1699, no seio duma família da baixa nobreza. Nem sequer é claro se chegava a ser morgado ou se o brasão era, de facto, o da sua família – consta que se extinguira e o nosso homem aproveitou a oportunidade para dar uso ao apelido, que era o mesmo e até trocou as suas armas heráldicas. Porém, assumiu em vida esse título e respectivo escudo de Carvalho. Não tinha direito ao uso de «Dom» antes do nome… nem mesmo quando subiu na hierarquia social se refere tal privilégio.

Em 1723 casou-se com Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada. Deu um salto na escala social… mas teve de raptar a noiva, pois à família da senhora parecia-lhe de muito baixa condição… embora fidalgo.

Peripécias importantes na vida dum homem comum, mas quase indiferentes na dum dos maiores estadistas portugueses e europeus. Sebastião de Carvalho e Melo foi soldado e diplomata.

Sebastião de Carvalho e Melo ascendeu a embaixador em 1738, em Londres. Terá sido por aí que terá começado a conhecer a alta-roda europeia. A 14 de Setembro de 1744 «comprou o bilhete premiado do Euromilhões» – tomou posse como embaixador em Viena.

O prémio traduziu-se no casamento, a 13 de Dezembro de 1745, com a condessa Maria Leonor Ernestina Daun. Através dela chegou à arquiduquesa de Áustria, Maria Teresa, chefe da Casa de Habsburgo, casada com Francisco de Lorena, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Maria Teresa de Áustria é uma das grandes figuras do Despotismo Esclarecido e era sobrinha-neta da Rainha de Portugal… Com a morte de Dom João V e a ascensão de Dom José, Sebastião de Carvalho e Melo sobe até onde podia alguém: secretário de Estado, correspondente ao actual cargo de primeiro-ministro.

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Dom João V, pintado por Miguel António do Amaral

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Dom José, pintado por Miguel António do Amaral

Por volta das 9h30 da manhã de 1 de Novembro de 1755 a terra tremeu. Com epicentro Sudoeste do Cabo de São Vicente, um terramoto de grau nove na Escala aberta de Richter (cálculo) devassou o Sul do país e arrasou Lisboa. Como se não bastasse, e além das réplicas, ergueu-se um maremoto, com ondas que talvez tenham chegado aos 20 metros, e um incêndio que durou dias.

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Terramoto de 1755, Lisboa

A Lisboa vieram grandes figuras do iluminismo. Voltaire muito se impressionou com o estado da outrora rica e orgulhosa capital portuguesa, das maiores e imponentes do seu tempo.

O Paço da Ribeira veio abaixo, tal como o novíssimo teatro da ópera, logo ao lado e inaugurado seis meses antes. Decretou o secretário de Estado:

– Enterrai os mortos e cuidai dos vivos!

Sebastião de Carvalho decidiu-se pela modernidade, desde o modo construtivo dos edifícios, à largura das ruas e do seu traçado ortogonal. Mas não se ficou por Lisboa, pois um ano depois fundou uma empresa emblemática e assente num conceito inovador: terroir.

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