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Poças: Uma nova era de vinhos do Douro com um pouco de “je sais quoi”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

O vinho do Porto é tão representativo de Portugal, que é difícil de acreditar que a Poças Junior é uma das poucas casas de vinho do Porto que se manteve sempre na posse da mesma família (e já agora, de portugueses) desde que foi fundada, há cerca de 100 anos atrás por Manuel Domingues Poças Junior. Quando me encontrei com a viticultora chefe Maria Manuel Poças Maia, fiquei com a certeza de que a sua geração, a quarta, está completamente determinada em mantê-la assim.

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A nova era desarrolhada pela viticultora chefe de vinho do Porto Maria Manuel Poças Maia de Poças Junior – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas isso não é sinónimo de conservadorismo, de falta de imaginação ou entusiasmo. Muito longe disso! Ainda não me tinha apercebido que a Poças Wines foi uma das primeiras produtoras a lançar-se nos vinhos de mesa do Douro, no início da era moderna em 1990. O clique? O primo de Maria, o enólogo chefe Jorge Manuel Pintão, que tinha acabado de entrar no negócio, logo após terminar o curso de enologia em Bordéus e um estágio na Château Giscours, também nesta famosa região francesa. Maria Maia disse-me, “o Jorge queria fazer aqui, aquilo que tinha aprendido em Bordéus, e sabia que o Douro tinha potencial para bons vinhos secos.”

Claro que Jorge não foi o primeiro enólogo a inspirar-se em Bordéus. Fernando Nicolau de Almeida, o criador da Barca Velha, é quem pode ostentar esse “título”. Mas, graças à ligação contínua que Jorge manteve com a prestigiada região francesa (Maria Maia diz que “ele nunca perdeu o contacto com Bordéus”), a Poças deu um passo mais além. No ano passado a empresa garantiu os serviços do enólogo e consultor bordalense Hubert de Boüard de Laforest, dono da famosa Château Angélus, em Saint-Emilion. Juntamente com Philippe Nunes (de descendência portuguesa), da consultora Hubert de Boüard, este duo bordalense ajudou na criação dos vinhos do Douro 2014 da Poças.

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Tempo de reflexão na Poças – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

25 anos a produzir vinhos do Douro fazem da Poças uma das empresas produtoras destes vinhos com mais experiência. Perguntei a Maria Maia porque é que a família sentiu a necessidade de contratar um consultor. A reposta foi franca e sem rodeios – “hoje em dia o mercado está complicado e queríamos expandir os nossos mercados de vinho de mesa. Estamos a crescer a nível de vinho do Porto mas queremos ver o mesmo tipo de crescimento nos vinhos do Douro, que está a começar a ser muito conhecido mas não o suficiente, precisa de ter ainda maior visibilidade.” Por outras palavras, não se tratou apenas de “ter alguém de fora a dar-nos novas ideias para evoluirmos”, mas também pelo perfil que a consultora Hubert Boüard lhes conferiu. E admite sem qualquer problema, “sendo de França, o estatuto é algo importante… Claro que trabalhar com Bordéus está a acrescentar valor à garrafa, mas também está a acrescentar valor à percepção.”

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Maria Manuel Poças Maia of Poças Junior contra um cartaz da Quinta Santa Barbara – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

No entanto, Maria Maia é peremptória a colocar ênfase num aspecto importante, “eles (a consultora Hubert Boüard) estão a ajudar a nossa imagem de vinhos e de estilos a crescer, mas sem nunca esquecer que queremos utilizar castas portuguesas e manter a herança das nossas uvas e do nosso terroir.” Dada a enorme experiência da consultora em vinhos de todo o mundo, a família ficou muito contente por ver o “grande respeito que demonstraram pelo que encontraram aqui no Douro.” Se Maria Maia receava que Boüard tivesse algumas reticências em relação às vinhas velhas, esse receio foi dissipado quando Boüard visitou pela primeira vez Santa Bárbara (as vinhas da Poças em Caêdo, Cima Corgo) e se deparou com as vinhas velhas e o xisto. A brilhar de orgulho, a viticultora que nos seus tenros 23 anos de idade assumiu a responsabilidade pelas três quintas da família em 2005, aponta, “Boüard disse-nos, ‘isto sim, é terroir’, e que estava realmente convencido que poderia fazer um vinho muito bom.”

Blend-All-About-Wine-Poças-Wines-Poças-Coroa-d’Ouro-2014 Poças Poças: Uma nova era de vinhos do Douro com um pouco de "je sais quoi" Blend All About Wine Po  as Wines Po  as Coroa d   Ouro 2014

O novo e melhorado branco do Douro Poças Coroa d’Ouro 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Antes de provar as amostras dos novos, e melhorados vinhos de 2014 (ainda nenhum foi lançado no mercado, e os tintos ainda não estão acabados), falamos sobre as mudanças que foram efectuadas com a entrada da consultora Hubert Boüard. Descrevendo essas mudanças como “ligeiros aperfeiçoamentos”, Maria Maia explicou que o objectivo, no geral, consistia em, “alcançar um estilo mais internacional – uma percepção mais suave dos vinhos do Douro, porque são vistos como sendo muito tânicos, fortes e difíceis de beber.” Nas vinhas, esta procura de elegância,  e em especial de taninos mais refinados, comportou ligeiras mudanças na selecção da fruta. Agora as uvas provêm de parcelas mais maduras, e Boüard introduziu uma nova componente – uma vinha mais nova (15 anos) – à field blend do tinto que comanda as hostes – Símbolo – e que é composta predominantemente por vinhas velhas.

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Que venha o novo, para substituir o antigo – Poças Vale de Cavalos 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Na adega, as alterações passaram por diferentes configurações de prensa (para o branco unoaked) e diferentes escolhas de fermentação e carvalho. Os tintos deixaram de ser envelhecidos na combinação de carvalho francês e americano. Desde 2014 que são envelhecidos em barricas 100% de carvalho francês, utilizando diferentes tanoeiros ou o mesmo mas com diferentes madeiras. Os bordaleses são famosos pelos seus skills em blending, pelo que os vinhos premium são agora produzidos num novo espaço, mais amplo, “para poderem tentar diferentes opções [de blending].”

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Grande potencial do tinto que comanda as hostes Poças Simbolo 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Obviamente é ainda muito cedo para se chegar a qualquer conclusão definitiva relativamente a esta relação Douro/Bordéus, ou aos vinhos de 2014. No entanto, tendo comparado o branco Poças Coroa d’Ouro e as amostras (de barril) dos ainda não terminados Vale de Cavalos e Símbolo, com colheitas anteriores (2013, 2011 e 2007 respectivamente), acho que a Poças não só irá celebrar o seu centenário em 2018 como irá obter um grande retorno do seu investimento. Apesar da juventude, os três vinhos apresentaram um grande requinte no seu final; a longevidade melhorada do branco, e a qualidade dos taninos dos tintos, foram particularmente marcantes. O Símbolo 2007 estava em pleno estado de maturidade e mais desenvolvido do que estava à espera; pelo contrário, os taninos secos já estavam a começar a ofuscar a fruta. Por outro lado, o Símbolo 2014 impressionou-me com os seus requintados e fluentes taninos. A amostra que provei era vibrante, perfumada e mineral, com um longo e elegante final. A mostrar grande potencial, e reconheço que vai proporcionar mais prazer e durante mais tempo do que o 2007. É um testemunho à vinificação, já que o ano de 2007 foi um ano muito aclamado (declarado ano Vintage no vinho do Porto) e o ano de 2014 foi muito mais complicado, com chuvas intermitentes durante a colheita. Espero ansiosamente para provar o produto acabado.

Com o toque je sais quoi [da consultora Hubert Boüard] os vinhos do Douro da gama de 2014 da Poças podem ser novos, melhorados e com um perfil mais conotado, mas há coisas que não mudam. Foi-me dito que a Poças pretende manter a tradição da família no que toca à boa relação preço/qualidade (o preço do actual Simbolo é de €43-50/garrafa). Como diz Maria Maia, “preferimos a qualidade, não a quantidade, mas sem nunca atingir preços inalcançáveis.” Bebo a isso!

Contactos
Manoel D. Poças Junior – Vinhos, S.A
Rua Visconde das Devesas 186
4401 – 337 Vila Nova de Gaia
Portugal
Tel.: (+ 351) 223 771 070
Website: www.pocas.pt

De Volta aos anos 30 com a Casa dos Tawnies

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Big Fortified Tasting (Grande Prova de Fortificados) é a uma feira exclusivamente dedicada a vinhos fortificados, e a maior do mundo para este propósito. E é também uma das minhas provas favoritas do ano, até porque fortificados envelhecidos em madeira – obras vínicas do tempo – estão entre os mais deliciosos e complexos vinhos à face da Terra. Por isso não hesitei quando tive a oportunidade de participar na Masterclass “House of Tawnies”, da Sogevinus, que me levou de volta aos anos 30. Pode ter sido a era da Depressão mas, no que toca ao vinho do Porto, à medida que provava os Colheitas 1935, 1937 e 1938, havia muitas razões celebrar!

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Carlos Alves, Enólogo do grupo Sogevinus – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Não contabilizando a inegável qualidade destes vinhos do Porto, a auto-intitulada alcunha “House of Tawnies” encaixa-lhe que nem uma luva. Quando a Sogevinus adquiriu, há 10 anos atrás, a Kopke, a Burmester, a Barros e a Cálem, ficou em posse do maior stock de Colheitas em Portugal – segundo o enólogo do grupo, Carlos Alves, a Sogevinus possui 17 milhões de litros de Porto Tawny. Além do mais, já que os Colheitas são engarrafados por encomenda, passam muito mais tempo em madeira do que os 7 anos mínimos legais. Agora que tenho tempo para pensar, foi qualquer coisa de extraordinário provar vinhos que passaram mais de 80 anos em madeira. Os 4 Colheitas que provamos tinham sido engarrafados apenas 15 dias antes.

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Os quatro copos na mesa de prova – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

É uma longevidade que se baseia simultaneamente na mestria de selecção das uvas e o cuidado dispensado nestes raros e finos Portos durante o seu longo estágio em madeira. Alves explica que, as uvas não têm apenas de ter estrutura para envelhecer, devem também enquadrar-se na filosofia da casa. Ele certifica-se disso, nas vinhas, todos os anos, a cada vindima; as uvas para os Colheitas são as primeiras a ser alocadas já que esta categoria é uma imagem de marca da empresa.

Nos Kopke, as uvas para os Colheita têm sido obtidas, desde os anos 20, nas parcelas do meio e superiores da Quinta S. Luiz, perto do Pinhão, em Cima Corgo. A 600m acima do nível médio das águas do mar, proporcionam a acidez para o estilo estruturado e intenso do Kopke. Quando a Barros adquiriu a Kopke em 1952, também pensou nas uvas da Quinta S. Luiz mas, neste caso, uvas com um maior teor de açúcar são obtidas de duas parcelas mais baixas e mais quentes, da vinha junto ao rio. São mais adequadas para os Portos mais ricos desta casa.

Quanto ao cuidado dispensado aos Portos durante o tempo que passam em madeira, Alves tem uma equipa dedicada para isso, consistiando de duas pessoas, isto porque “precisam de conhecer os vinhos para trabalhá-los bem”. Acrescenta ainda que, têm o cuidado de se certificarem que as pipas, os tonéis e as barricas se mantém sempre ligados à mesma casa “já que a madeira – o tamanho e tipo de madeira – confere perfil à casa”. A Cálem, por exemplo, com a maior variedade de barris, tem a tradição de envelhecer os vinhos em madeira tropical/exótica.

Alves e a sua equipa transferem os Colheitas, pelo menos uma vez por ano, das pipas individuais de 550 litros (barril de Porto) em que se encontram, para uma barrica grande, isto para poderem ajustar os níveis de aguardente vínica (que evapora ao longo do tempo) e manter os de requisitos mínimos de percentagem alcoólica (a aguardente vínica integra-se muito melhor quando misturada em quantidades mais elevadas, na barrica). Há dois factores que ajudam a explicar o porquê destes Colheitas dos anos 30 – os mais antigos que a empresa tem para venda – terem conseguido manter uma frescura incrível, sendo que um deles é este modo de exposição ao ar, e o outro é o facto de lavarem as pipas antes de recolocarem lá os Portos. Aqui estão as minhas notas de prova:

Kopke Porto Branco 1935

Fundada em 1638 por Christiano Kopke e pelo seu filho Nicolau, a Kopke é a empresa mais antiga de exportação de vinho do Porto. Em 1953 foi adquirida pela família Barros, nas mãos da qual ficou até 2006, altura em que a própria Barros foi aquirida pela Sogevinus. Com cerca de 45g/l de açúcar residual, este pálido e raro Colheita, feito a partir de uvas brancas, é, em termos de estilo, mais seco do que o Kopke Tawny Colheita de uvas tintas. Tem um nariz mais firme e focado, ainda que mais contido. Palato com notas distintas a maresia/ ozono e nogado, estilo Fino (Sherry Seco) – mais leve e menos doce do que o sabor a nozes que normalmente associo aos tawnies. E, talvez por ter menos extracto e açúcar residual, tem uma frescura particularmente marcada. É de um ano altamente considerado no Douro, e tem uma electrizante intensidade de perfume a casca de laranja, laranja e maça eau-de-vie, com notas de anis e apimentado num final longo e limpo.

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Kopke Porto Branco 1935 & Kopke Porto Colheita 1935 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Kopke Porto Colheita 1935

Âmbar carregado e borda de açafrão. Com as suas notas a casca de laranja e toranja no nariz, tem uma sensação palpável de frescura – um ponto a mais. Mas também há riqueza, o que me faz lembrar dos biscoitos Madeleine. Na boca, tem uma energia fantástica. Uma espinha nogada confere longevidade e tensão, o toque a toranja e a casca de laranja conferem sabor, enquanto que, um toque de vinagrinho de frutas faz um contraste picante com o figo seco, doce e suave. Um final longo, muito vibrante, com um timbre maravilhoso. Fabulosamente complexo e com personalidade.

Burmester Porto Colheita 1937

Henry Burmester e John Nash começaram a enviar vinho do Porto para as Ilhas Britânicas após chegarem a Vila Nova de Gaia, em 1750. A casa de Porto permaneceu na família Burmester até 2005, altura em que foi adquirida pela Sogevinus. Apesar de ter uma cor caramelo queimado, é um Colheita particularmente sedoso, com um paladar (e doçura aparente) muito diferente do Kopke. Parece muito mais jovem, tal é o seu perfeito e harmoniosamente frutado paladar a caramelo salgado. Alves descreve-o como sendo “uma caixa de perfume”, devido aos aromas que apresenta. É possível distinguir tamarindo, canela adocicada e cardamomo no chutney de frutas secas e damasco de Tânger. Rico, mas bem equilibrado, tem uma grande postura e persistência no final, carregado a cigarrilhas de café crème. Melífluo, muito elegante.

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Barros Porto Colheita 1938 & Burmester Porto Colheita 1937 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Barros Porto Colheita 1938

A Barros foi fundada em 1903 por Manoel de Almeida e adquirida pela Sogevinus em 2006. Proveniente de ano quente, este Barros tem tons fulvos, e nas bordas, açafrão e azeitona nas. No nariz sente-se um pouco a aguardente, com uma pitada de noz. E, contrariamente à realidade, sugere ser o mais velho dos Colheitas Tawny. Na boca é mais doce, com tâmaras secas, crème caramel, caramelo salgado e nogado. No entanto, o final demonstra um traço de terra e noz amarga – está a secar um pouco. Não é tão harmonioso como os outros.

O meu preferido? É difícil escolher entre o Kopke e o Burmester – são estilos tão diferentes, tal como devem ser. Fazendo um balanço, o Kopke é o mais etéreo dos dois – adorei a energia, tensão e toque que apresentou. Mas o equilíbrio aveludado do Burmester foi o que colheu mais votos.

Se quiser fazer o seu próprio mano a mano Burmester vs Kopke, porque não juntar-se a mim no Tour da Blend – All About Wine ao Porto, Vinho Verde e Douro no próximo mês?  Vamos fazer um frente a frente de Tawnies 20 anos e Portos brancos da Kopke e da Burmester, seguido de dois Colheitas da Kopke, um 1966, e outro de 1957, um dos meus Portos favoritos que também indiquei no artigo que escrevi para a wine-searcher em Dezembro.  Dias felizes!

Contactos
Sogevinus Fine Wines, S.A.
Avenida Diogo Leite nº 344
4400-111 Vila Nova de Gaia
Tel: +351 22 3746660
Fax: +351 22 3746699
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Website: www.sogevinus.com

Olho no Pé: A coragem de ir onde nunca outro homem foi

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

No meu último artigo sobre o Douro disse “procurai e achareis”, porque nenhuma outra região portuguesa pode certamente gabar-se de ter uma tão rica diversidade de terroirs? Na realidade,  se procurarmos bem podemos até descobrir vinhos doces no Douro. É claro que não estou a falar de vinho do Porto. Estou a falar de vinhos de sobremesa influenciados por colheita tardia e por botrytis, isto é, sem ser necessária a adição de aguardente vínica.

A adição de aguardente vínica interrompe o processo de fermentação que transforma os açúcares da uva em álcool, o que explica o porquê de os vinhos fortificados, como o vinho do Porto e o  Moscatel do Douro, serem doces. Por outro lado, os vinhos doces não fortificados, confiam simplesmente em ter níveis de açúcar altíssimos. Deixem as uvas na vinha por tempo suficiente e, se o tempo estiver seco e ensolarado, o Douro irá presentear-vos com enormes quantidades de açúcar. Então porque é que não vemos mais vinhos doces, não fortificados, no Douro?

A resposta reside no facto de que, um grande énologo de vinhos de sobremesa tem de ser um equilibrista perfeito entre o açúcar e a acidez.

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Equilibrista in unbornmind.com

À medida que os açúcares da uva sobem, a acidez diminui. Se a acidez for muito baixa, o vinho vai ser demasiado doce, ou pior, flácido. Os grandes vinhos de sobremesa precisam tanto de altos níveis de açúcar como de acidez. Não é uma combinação fácil num clima quente e seco.

É por isso que o punhado de vinhos doces do Douro que encontrei advêm de vinhas a grande altitude. E podem ser realmente impressionantes. Por exemplo, o Rozès Noble Late Harvest 2009, ao qual o meu painel atribuiu a Medalha de Ouro e o Troféu de Vinho Doce no Decanter World Wine Awards 2011, ou o Quinta do Portal Late Harvest 2007, um dos meus 50 Grandes Vinhos Portugueses 2010.Quanto mais elevadas estiverem as vinhas, mais elevada será a acidez, porque, em altitude, as temperaturas caem drasticamente, especialmente durante a noite. Junte-se a este facto o nevoeiro matinal e a humidade, e estão reunidas as condições perfeitas para a botrytis se firmar. E ao contrário do que seria de se esperar, este fungo dá lugar aos mais mágicos vinhos doces, não só porque concentra a doçura e a acidez, mas também porque dá lugar a uma complexidade melada, muitas vezes floral (camomila ou açafrão). Não é de admirar que também seja apelidada de podridão nobre!

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Tiago Sampaio da Olho no Pé no Simplesmente Vinho – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A minha última descoberta no que toca a vinhos de sobremesa, são os vinhos produzidos por Tiago Sampaio da Olho no Pé. Descrevendo-se como “a one man show”, o despertar do interesse de Sampaio pelo vinho foi desencadeado pelo seu avô que o apresentou, quando ainda jovem, às vinhas do Douro e ao mundo do vinho. Mas tenho as minhas suspeitas de que o foco na frescura que Sampaio apresenta nos seus vinhos é resultado dos 5 anos que passou no Oregon (onde tirou um doutoramento em Viticultura e Enologia). O que explica os pálidos mas prometedores Pinot Noirs que tem no seu portfólio – a delicada casta da Borgonha beneficia das noites frescas do Oregon. Sampaio fundou a Olho no Pé quando regressou ao Douro, em 2007, depois da sua estadia nos Estados Unidos. Os vinhos de sobremesa que me mostrou no Simplesmente Vinho, realizado no início deste ano (finais de Fevereiro), são ambos produto de um field blend de vinhas velhas (com mais de 70 anos) maioritarimente composto por Gouveio, em Alijó e a 600 metros acima do nível médio das águas do mar. Devido à sua altitude, tal como Favaios, o município é tradicionalmente famoso pelo seu delicado e fresco Moscatel do Douro, bem como pelos brancos secos que agora começam a ganhar destaque. Aqui estão as minhas notas relativamente aos deliciosos vinhos doces de Sampaio:

Olho no Pé Colheita Tardia

 2011 (Douro)

Blend-All-About-Wine-Olho-No-Pe-Colheita-Tardia-2011 Olho no Pé: A coragem de ir onde nunca outro homem foi Olho no Pé: A coragem de ir onde nunca outro homem foi Blend All About Wine Olho No Pe Colheita Tardia 2011

Olho no Pé Colheita Tardia 2011 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Sampaio tem um toque muito delicado. Uvas escolhidas a dedo, repletas de açúcar (este vinho tem à volta de 200 g/l de açúcar residual), são colhidas em vindimas sucessivas e altamente selectivas. Foi fermentado de forma natural e muito lentamente. À medida que o sumo da uva se transformava, lentamente, em vinho, foram surgindo aromas e sabores complexos – açafrão, gengibre cristalizado, camomila e peras cozidas. Textura aveludada, muito fresco e puro, o vinho foi envelhecido em borras finas, em barricas de carvalho já usadas, o que permite que a fruta se mostre. Super-agradável com uma qualidade sedutora e não-trabalhada. 11%

Olho no Pé 2011 (Vinho, Portugal)

Se exagerar, será apenas um pouco (no que diz respeito ao Douro), mas reconheço que este cuvée que ainda não tem nome, ousa ir nenhum foi antes. É o produto das mais concentradas uvas atacadas por Botrytis, de 2011 (que é o mesmo que dizer todas as colheitas em que Sampaio já trabalhou). Apenas dois barris foram feitos, que, com o dobro da quantidade de açúcar residual (400 g/l) levaram muito, muito mais tempo para fermentar – dois anos! Com apenas 7% de teor alcoólico está abaixo do nível mínimo para a DOC Douro ou para a classificação VR Duriense. Ainda assim revela a mesma assinatura a açafrão de botrytis que o vinho Colheita Tardia – toque adorável e pureza. Um palato acetinado que revela açúcar caramelizado, algodão doce e uma maçã mais fresca, focada, brilhante e apertada junto do núcleo, conferindo-lhe um traço bem-vindo que equilibra a amargura e a acidez. Saboroso mas fresco, concentrado mas com leveza, esta doce sensação de uvas perdura muito tempo na boca e na memória. Uma experiência!

Contactos
Tiago Sampaio
Rua António Cândido, 7
5070-029 Alijó, Portugal
Mobile: (+351) 960 487 850
E-mail: info@foliasdebaco.com
Website: www.foliasdebaco.com

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio “New Douro”

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Uma das minhas piadas varietais favoritas diz respeito à Cabarnet Sauvignon, sobre a qual o enólogo californiano Sean Thackrey entoou memoravelmente, “Defenitivamente não quereria sentar-me ao seu lado num jantar; é demasiado educada!”. Sem dúvida que esta icónica casta de Bordéus é para as uvas o que as riscas-de-giz são para os fatos – emana postura, sofisticação, poder e controle.

Caso se esteja a perguntar o que é que isto tem a ver com o Douro, fique comigo. Aliás, recue um pouco até ao meu artigo de Fevereiro sobre a vertical de Chryseia com Bruno Prats em que descrevi como este reconhecido enólogo bordalense, nado e criado um homem de Cabarnet, controla soberbamente a sua matéria-prima. Prats confessou que na sua óptica apenas a Touriga Nacional e a Touriga Franca são “interessantes”, ao mesmo tempo que demonstrou uma clara preferência pelas plantações de bloco (monovarietais) em deterimento das tradicionais plantações multivarietais field blend do Douro. Porquê? Para “ter a certeza de as estar a colher na altura certa”.

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend All About Wine New Douro Cristiano Van Zeller

Cristiano Van Zeller in didu.com.br

A ‘altura certa’ é um tema por si próprio (o colega escritor Andrew Jefford aborda-o aqui) mas, discursando na prova anual de Londres “New Douro”, Cristiano van Zeller da Quinta Vale D. Maria discordou sobre até que ponto é necessário manter o controlo dos recursos naturais do Douro. Ao reflectir sobre o carácter português – um carácter que, “gostou do caos durante muito, muito tempo” – afirmou “temos que fazer uso do nosso carácter – um pouco de caos. Não temos de controlar tudo. Uma pequena surpresa todos os anos, é isso temos estado a tentar fazer no Douro”. Em relação às castas sublinhou que, “as plantações são muito diferentes de qualquer outro lugar no mundo… é muito difícil para qualquer uva expressar realmente o que o Douro é e o que tem a dizer, e por isso os viticultores tentam encontrar o perfil do Douro ao juntarem umas às outras”.

Também existe um segredo local. Van Zeller revelou, “se plantarmos por bloco, claro que as uvas têm diferentes períodos de amadurecimento, mas quando estão todas aleatoriamente e razoavelmente misturadas num único talhão, verificamos que a diferença temporal entre a que amadurece primeiro e a que amadurece por último, é muito mais reduzida – apenas 3 a 4 dias.”. A cereja no topo do bolo é que as field blends envolvem necessariamente uma co-fermentação de diferentes castas, um processo que David Guimaraens da The Fladgate Partnership verificou “conferir uma maior dimensão de sabor e equilíbrio”. E é por isso que agora prefere micro-talhões monovarietais (apenas algumas linhas), que podem ser colhidas alternadamente com micro-talhões de diferentes variedades e ser co-fermentadas (pode ler o que David Guimaraens tem a dizer sobre a evolução do afastamento e retoma a uma abordagem mais multi-varietal aqui).

Esta nova abordagem pode ser descrita como um caos organizado mas, quando Van Zeller revelou que a composição varietal das field blends de vinhas velhas é adaptada para os diferentes terroirs, fez parecer que sempre houve método no meio da aparente loucura. Por exemplo, disse que o Vale do Torto tem à volta de 7-8% Rufete, enquanto que o Vale do Pinhão tem mais Sousão; a Tinta Francisca sempre foi mais importante na Quinta do Roriz.

Para David Baverstock, da Quinta das Murças, que fez a abertura do Simpósio “New Douro” e que teve lugar no mês passado, o caos organizado resume bem a vida no Douro. Explicou que os desafios da região são “o que nos move como enólogos – tentar controlar as coisas ao máximo mas sabendo que no final de contas temos de ‘ir com a corrente’. Para além das field blends e da topografia montanhosa, as condições meteorológicas também desempenham um papel importante em qualquer colheita”.

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend All About Wine New Douro David Baverstock

David Baverstock in blog.esporao.com

A diversidade de terroir no Douro foi o tópico do simpósio e, dos quatro oradores, Baverstock era o que estava numa posição mais priveligiada para falar do progresso que foi feito, remontando a 1990 quando deixou a região pela Esporão no Alentjo. Disse-me que “Mudou radicalmente. Era muito fácil no início dos anos 90, não exisitia grande competição na altura. O Barca Velha era reconhecido como um grande vinho mas raramente era lançado para o mercado. O Dirk e o Cristiano estavam apenas começar, a Duas Quintas também, era muito fácil avançar com projectos como a La Rosa e a Crasto. Mas agora, o nível de vinificação, a qualidade dos vinhos e o conhecimento do potencial do Douro, com os seus diferentes meso e micro climas, estão num patamar altíssimo.”.

Aprofundando o tema e passando para os tipos de solo, Baverstock falou do importante papel do xisto no Douro. Aparentemente, o Douro é uma das poucas regiões que tem o xisto alinhado verticalmente, o que permite às raízes da vinha entrarem no solo por entre as placas de rocha. O facto de as chuvas serem escassas no Douro combinado com a friabilidade do xisto permite que as vinhas se enraízem “muito fundo”. Os melhores lugares permitem mesmo que as raízes cheguem a cerca de 10 metros de profundidade, o que ajuda as vinhas a ultrapassar a difícil (quente e seca) época de crescimento. Por outro lado, o xisto (especialmente em encostas íngremes) é bem drenado, o que significa que as vinhas nunca chegam a ficar impregnadas de água. O xisto também é vantajoso porque, estando num constante estado de decomposição, proporciona às vinhas os oligoelementos que precisam para sobreviver.

As raízes das vinhas do Douro podem ser profundas mas, no que toca aos produtores, Paul Symington da Symington Family Estates confessou, “estamos apenas a começar a apalpar a superfície do que é a verdadeira história do Douro.” Contrastando-o com o terroir razoavelmente homogêneo de Bordéus, descreveu o Douro como “a região vitivinícola mais diversa das grandes regiões vitivinícolas do mundo.” As razões desta diversidade? Symington debitou uma longa lista de factores que têm impacto sobre os estilos de vinhos, incluindo a surpreendente variação de precipitação e temperatura, dependendo da localização, altitude e aspecto. Nos sítios em que as vinhas estejam viradas para pontos diferentes, e mesmo dentro da própria vinha, os Symington colhem as uvas em caixas codificadas por cores de acordo com o aspecto. O pH do solo também é muito diferente ao longo Douro, algo que tem impacto na capacidade para vinha absorver os minerais (fica comprometida se os solos forem muito ácidos).

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend All About Wine New Douro Paul Symington

Paul Symington in symington.com

O discurso de Van Zeller centrou-se na grande diversidade de castas do Douro e na tendência de retoma às plantações multivarietais de grande densidade, sejam os micro-talhões de Guimaraens ou a sua nova versão das plantações antigas na Quinta Vale D. Maria. “Estou a misturar tudo”, disse, pois percebeu que a qualidade e perfil não derivam da idade da vinha em si, mas sim da mistura de castas nas vinhas e da co-fermetação das uvas (isto apesar de Dirk Niepoort ter afirmado a sua crença de que as vinhas velhas “falam muito mais alto” sobre o terroir do que a casta). Trabalhar com uma ampla diversidade de castas é, também aqui, um ponto vantajoso, ao dizer “nem todas as castas são afectadas pelas mesmas doenças ao mesmo tempo ou têm a mesma produção, portanto, de uma maneira ou de outra podemos garantir uma certa capacidade de produzir excelênica a maior parte das vezes.

Dirk Niepoort da Niepoort concluiu o simpósio a enfatizar que, o “novo” em “New Douro” se refere ao facto de que até recentemente os produtores apenas pensavam em vinho do Porto – “todos nós sabemos quais são as melhores vinhas e locais para Porto, mas algo novo aconteceu, uma prioridade diferente e portanto temos de olhar para o Douro com uma prespectiva completamente diferente.”

Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend, Tudo Sobre Vinho: Teoria do Caos & O Simpósio "New Douro" Blend All About Wine New Douro Dirk Niepoort

Dirk Niepoort in adfwines.com

Na opinião firme de Niepoort, as melhores vinhas para Porto não são necessariamente as melhores para vinhos DOC Douro, isto porque, “o Porto gosta de condições extremas – vinhas viradas a sul e particularmente secas e quentes. Mas para os tintos e especialmente para os brancos precisamos de algo menos extremo – vinhas viradas a norte são muito mais interessantes e, de repente, por causa do frio da noite que influencia a acidez, a altitude já interessa”. Acredita que os melhores locais para brancos estão agora a ser identificados.

No entanto, os vinhos DOC Douro já representam um terço (em termos de valor) da produção e Niepoort acredita que a procura por mais vinho de qualidade superior vai aumentar muito em breve. Embora Symington não tenha dúvidas na capacidade dos melhores vinhos do Douro competirem com os melhores das outras regiões ou sobre a perspectiva de produzir muito mais, perguntou, “estará uma pessoa normal que vemos passar na rua na disposição de pagar £20 por uma garrafa de vinho do Douro?”. Para ele, a resposta é “Ainda não chegamos lá.”.

Quer esteja na disposição de pagar £20, ou substancialmente mais ou menos, descobri muitos vinhos excitantes no meio dos últimos lançamentos mostrados na prova “New Douro”. Os brancos 2013 representam uma das melhores colheitas que já provei, enquanto que os melhores tintos de 2012 já são abordáveis, com um charme elegante. Procurem e encontrarão!

Quinta de Soalheiro – Alvarinho em todas as Direcções

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

‘Scales fall from the eyes’ (“Tirar as palas dos olhos”). É uma frase dramática. Uma frase que utilizo por duas vezes nesta peça e que portanto, caro leitor, me senti na responsabilidade de investigar a sua origem. Provavelmente já sabe que vem da Bíblia, do conto de Saulo, um perseguidor de cristãos, que após ter sua visão restaurada por um Cristão, vê a luz e converte-se ao Cristianismo.

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Dá-me a luz do sol; A Quinta de Soalheiro é um hotspot para o Alvarinho – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A minha conversão ao Vinho Verde, ou mais propriamente ao Alvarinho, esteve longe de ser uma experiência religiosa. Mas confesso que tenho sido um pouco evangélica em relação ao Alvarinho desde que o descobri, há cerca de 12 anos atrás, na Prova Anual de Vinhos de Portugal. Estava um dia invulgarmente quente e ensolarado em Londres – e qual sítio melhor para saciar a minha sede do que a mesa de Vinho Verde?

À medida que dava o meu primeiro gole do Alvarinho Palacio da Brejoeira, experienciei o meu primeiro momento “scales fall from eyes” (abrir os olhos). Percebi que o Vinho Verde não era apenas um agradável produto comercial, gaseificado, e meio-seco. O Brejoeira era tão elegante e requintado como a sua delicada garrafa flute. E ganhava aos pontos ao Rias Baixas Albariño que eu na altura vendia em Oddbins.

O meu segundo momento “scales fall from eyes” (abrir os olhos)? Foi uma prova vertical na Quinta de Soalheiro com o enólogo Luis Cerdeira. Provamos este, a primeira marca de Alvarinho em Melgaço, da colheita de 1995. Outro mito desmentido. Nem todo o Vinho Verde é, como dizemos na Hugh Johnson Pocket Wine, “DYA” (drink the youngest available – beber o mais jovem dísponível). O 1995 (unoaked) estava glorioso.

Plante a casta certa (Alvarinho) no lugar certo (Monção e Melgaço) e este prospera, mesmo depois de 14 anos em garrafa! Daqui para a frente, valerá a pena procurar nos rótulos de Vinho Verde por essa sub-região de alta importância, Monção e Melgaço, já que estão em andamento planos para permitir que que todos os produtores de Vinho Verde, e não apenas aqueles localizados em Monção e Melgaço, coloquem Alvarinho no rótulo frontal.

O que faz o Alvarinho de Monção e Melgaço tão especial? A pista está no nome da quinta dos Cerdeira. Soalheiro significa ensolarado, localizado no interior e abrigado da influência do Atlântico. Monção e Melgaço é a região do Vinho Verde mais seca e ensolarada. As percentagens hl/ha também são mais baixas, o que explica o porquê dos Alvarinhos desta Sub-Região terem a concentração necessária para envelhecer tão brilhantemente, isto já para não falar da sua grande complexidade e requinte.

Estou ansiosa por partilhar estas experiências de ‘abrir os olhos’ em Junho numa prova mini-vertical na Quinta de Soalheiro (e uma visita ao Palácio da Brejoeira), quando eu estiver a conduzir o Premium Tour da Blend – All About Wine, de produtores de excelência do Douro e Vinho Verde. Espero que se possam juntar a mim.

Aqui estão as minhas notas sobre os últimos lançamentos da Quinta de Soalheiro:

Quinta de Soalheiro Alvarinho Bruto 2013 (Vinho Espumante IG Minho)

Amarelo pálido com bolhas de tamanho considerável. Manga verde no nariz, seguido de um palato cremoso a salada de frutas, muito focado na fruta. É, de facto, muito vínico – mais parecido com um vinho de mesa do que um espumante. Também porque as bolhas não são muito persistentes, embora a fruta seja. E também tenho a certeza que o intuito de Cerdeira não era um espumante tipo champanhe. Pelo contrário, a intenção é destacar fruta ensolarada da Soalheiro. Sim, pensa que apenas a Austrália transporta o sol para copo, acontece que este também. Muito agradável, divertido e irresistível, trouxe-me memórias da minha primeira prova com Cerdeira num longo almoço de convívio no restaurante Panorama. Foi a companhia perfeita a caranguejo barrado em pão rústico e saboroso. Isto é para beber! 12.5%

Quinta de Soalheiro Dócil 2014 (IG Minho)

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Quinta de Soalheiro Dócil 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este Alvarinho meio-seco, equilibrado e com textura, mostra uma cascata de sabores à medida que se abre, desde doce de pêra cozida, casca de pêra e lichia a maracujá. Uma lenta e muito suave pulsação de acidez desperta os sabores. Muito diferente dos estilos mais secos – um Alvarinho em câmara lenta. 9% , 48g/l de açucar residual.

Quinta de Soalheiro Alvarinho 2014 (Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Alvarinho 2014 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Esta foi uma colheita complicada devido às chuvas no fim de Setembro e Outubro. No entanto a Soalheiro já tinha colhido a sua fruta. A amplitude da concentração e complexidade deste vinho fica demonstrada pelo quão bem sabe no segundo dia, quando do copo saltam madressilva, maracujá e lúpulo. Muito expressivo, e no palato mostra maracujá suculento, lichia e pêssego branco. Uma acidez persistente e agradável no final, atractivo para os apaixonados pelos poderosos Sauvignon Blancs da Nova Zelândia. 12.5%

Quinta de Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 (DOC Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

O nome ‘Primeiras Vinhas’ – um dos meus Alvarinhos favoritos – pressupõe que este seja proveniente das vinhas mais velhas da Soalheiro (mais de 30 anos de idade). De um ano excelente e de amadurecimento lento (com mais chuva de Inverno do que o que é costume, e com Julho e Agosto muito secos e quentes mas com noites frias), é um vinho adorável, com várias camadas, sendo porém, de expressão muito suave e elegante. Basta dizer que não salta do copo em direcção a nós como o seu irmão mais novo, mas procure e encontrará! No nariz, damasco ceroso e, no palato revela camadas de laranja vigorosa (um apelativo toque amargo), madressilva, pêssego cremoso amarelo e branco, borras agradáveis e notas de frutos secos nogados (15% deste cuvée foi fermentado em barril). Uma acidez dançante e minerais cintilantes levam a um final muito longo e suave, com uma fantástica ressonância de back palate. Lindo. 13%

Quinta de Soalheiro Reserva Alvarinho 2013 (DOC Monçao e Melgaço)

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Quinta de Soalheiro Reserva Alvarinho 2013 – Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

O Reserva foi fermentado e envelhecido em barricas de carvalho francês (em novas e em já utilizadas), em “batonnage” com borras finas, até ao final de Junho de 2014. Por vezes achei este vinho demasiado amadeirado para o meu gosto mas, o 2013 mostra uma fantástica transparência a alperce, pêssego, lichia e ananás. Um pingo de sabor a baunilha e ervas secas acrescentam interesse. Grande postura e equilíbrio; muito bom. 13%

A propósito, a gama de Alvarinhos da Soalheiro extende-se a uma aguardente Alvarinho e a ‘allo’ uma mistura minhota das castas Alvarinho e Loureiro. Tal como tinha dito, em todas as direcções!

Contactos
Quinta de Soalheiro
Alvaredo . Melgaço
4960-010 Alvaredo
Tel: (+351) 251 416 769
Fax: (+351) 251 416 771
E-mail: quinta@soalheiro.com
Website: www.soalheiro.com

Yes we can: Madeira Vintners – Uma nova abordagem ao Madeira

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

A Declaração de Independência dos Estados Unidos, assinada em 1776, foi comemorada com um copo de vinho Madeira. Mas não é o terceiro presidente dos Estados Unidos (o autor da Declaração), Thomas Jefferson, que me vem à cabeça quando me encontro com Paulo Mendes. Em vez disso, lembro-me do slogan de campanha de Barack Obama ‘yes we can’.

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“Yes, we can” in onlifesuccess.net

O negócio mais difícil

Mendes, o CEO tenaz e arquitecto de raça rara de uma nova empresa da Madeira, teve que ser criativo, até pouco ortodoxo, uma vez que, como é o primeiro a admitir, “A Madeira Vintners tem uma enorme desvantagem – não tem vinhos velhos”.

Embora Mendes se esteja a referir à desvantagem de recriar o perfil estilístico da Madeira a partir de um stock jovem (o vinho Madeira é em grande parte um casamento de vinhos velhos e jovens), essa falta de vinhos velhos quase foi fatal do ponto de vista legal (descrito mais abaixo). A lei prevê que até mesmo as novas empresas devem possuir 120,000 litros de Madeira.

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Paulo Mendes a todo o gás – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Com tudo isto o começo não foi encorajador para este consultor de gestão altamente experiente, que confessa: “no começo eu era o consultor arrogante que pensava que tudo e todos estavam errados”. Quando se deu conta de que “o negócio do vinho é um dos, se não o, negócio mais difícil que eu já vi na minha vida”. Um homem com um curriculum vitae bem considerável voltou a estudar entre 2010-2012, completando MBAs em Wine Marketing & Gestão de Vinhos na Escola de Negócios de Bordéus e em Marketing de Vinhos e Vinificação na Universidade da Califórnia, Davis.

Ainda assim, ele deve ter ido buscar energias ao sucesso da regeneração alcançada na Co-operativa Agrícola do Funchal (“CAF”), o fornecedor de produtos agrícolas e jardinagem que tem sido gerido desde 1999 por este perspicaz estrategista nado da Madeira. Foi o excedente de caixa gerado por esta “profunda” regeneração que incentivou a CAF a diversificar o seu vinho Madeira em 2008 (a Madeira Vintners é uma divisão independente da CAF). Mendes claramente brilha perante os desafios.

Entre a espada e a parede

Naturalmente, de início os planos de Mendes giravam à volta da compra de stocks maduros de vinho Madeira ou da aquisição de uma empresa estabelecida para que cumprisse as normas mínimas de armazenamento e produzir vinho Madeira desde o princípio. Infelizmente, diz-me, nenhuma das empresas existentes estava disponível para vender stock e “perdemos todas as propostas de aquisição”, mais recentemente para a Pereira d’Oliveira, que adquiriu a Barros e Sousa no ano passado. Isto deixou-o entre a espada e a parede.

No entanto, graças a uma vindima generosa em 2012, foi concedida uma isenção especial dos requisitos de armazenamento para novas empresas à Madeira Vintners; a primeira colheita, nesse mesmo ano, foi processada na adega da Barbeito. Com um enorme suspiro, Mendes diz que circulavam rumores a Madeira Vintners não era mais do um veículo estatal criado para comprar os excedentes de uva. Rumores esses que devem ter sido frustrantes já que, e deixando de parte o facto de que a Madeira Vintners (CAF)  é propriedade privada, foram um soco no estômago na estratégia da Madeira Vintners para o sucesso. A Madeira Vintners é altamente selectiva no que toca à origem das uvas.

Má matéria-prima, maus resultados

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Mendes ao lado de pequenas caixas que podem albergar 30Kg nas quais as uvas são colhidas – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Em relação a esta estratégia, Mendes explica que está a apostar na qualidade e proveniência da sua matéria-prima, numa tentativa de diferenciar a Madeira Vintners da competição. Alerta para a dura realidade de que “ou temos qualidade acima da média, ou estamos mortos” certamente faz sentido porque com apenas vinhos jovens para vender, a Madeira Vintners terá como alvo os consumidores de nível de entrada os quais Mendes acredita não estarem actualmente bem servidos. Descartando muitos dos 3 anos Madeiras, 3 anos de nível de entrada do circuito turístico como “impróprios para consumo, apenas para uso culinário”, acredita que é imperativo para a ilha para aumentar a quantidade de vinhos básicos de qualidade se querem que novos consumidores explorem a categoria e não a descartem.

Por esta razão, abandonou o mercado local e tradicional, de modo a controlar melhor a qualidade da uva. Na opinião de Mendes, porque os produtores da ilha são predominantemente pequenos (muitos dos quais são jardineiros ou agricultores, não viticultores), querem vender as suas uvas à primeira oportunidade e os agentes que operam no mercado são pagos ao quilograma, não há incentivos para que as uvas pendurem até que tenham atingido o equilíbrio ácido e de açúcar correcto. São muitas as uvas, diz, colhidas no nível mínimo de maturação (9% de potencial de álcool) e para Mendes, que franze perante o “Madeira que se parece com Porto,” estas uvas altamente ácidas exigem elevadas adições de açúcar desnecessárias.

Tirando o intermediário da equação, a Madeira Vintners lida diretamente com maiores e contratados produtores que são por sua vez mais profissionais. Ainda assim, a Madeira Vintners trabalha com eles intensivamente para garantir que as vinhas são devidamente cuidadas e as uvas colhidas no momento ideal. Em troca, a Madeira Vintners assegura a compra das uvas colhidas mais tarde e mais maduras, pagando mesmo um valor acima da média aos seus produtores.

Não é o único incentivo financeiro para a qualidade. Mendes também paga mais aos produtores que mantiverem baixos os níveis de ácido glucônico, cuja formação está associada à Botrytis cinerea (um bolor). Se tiver demais a Madeira Vintners não vai sequer vindimar.

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Mesa de Selecção – Foto de Madeira Vintners | Todos os Direitos Reservados

O rigoroso processo de seleção continua na nova e brilhante adega da empresa onde, Mendes vangloria-se, a Madeira Vintners é a única empresa a separar as uvas na recepção, bem como na vinha utilizando uma tabela de classificação. Diz que há uma diferença quântica em relação às que são uvas separadas e as que não são; as primeiras têm aromas frutados e nenhuma da rusticidade associada ao bolor. Estimando que 5-10% das uvas colhidas à mão são descartadas, diz, “é doloroso e caro, mas nós acreditamos que, se separarmos as uvas, teremos uvas imaculadas”.

Terroir interessa

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Diferentes produtores, Diferentes Terroirs – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Este ano, a Madeira Vintners comprou 110 toneladas de apenas 20 produtores cuja produção anda à volta de três toneladas – uma quantidade considerável para os padrões da Madeira. Permitindo à Madeira Vintners processar cada vindima dos produtores em separado (a adega está equipada com fermentadores de formato relativamente pequenas, albergando entre uma a dez toneladas). “Para quê estragar os vinhos, misturando”, pergunta, “quando você podemos reflectir o produtor, os solos e o clima?”

Ao adoptar esta abordagem de pequenas quantidades, Mendes está deliberadamente a criar diferença em relação à competição. Como diz pragmaticamente, “para sobreviver e trazer complexidade, estamos a trabalhar com o maior número de quantidades quanto possível nas vinhas”, incluindo o Listrão (a.k.a. Palomino) e o Caracol, da ilha vizinha, Porto Santo, cujos solos calcários diferem do terreno vulcânico da Madeira. Interessado em agradar a um novo público, do qual, admite, os conhecedores costumam fazer parte. Mendes tem como objetivo “levar ao entusiasta da Madeira uma nova abordagem em que as ‘terroir’ interessa”, considerando mesmo a rotulagem dos vinhos por produtor e/ou vinha.

O Pequeno colisor de partículas da Madeira

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Large Hadron Collider in news.discovery.com

A complexidade derivada do Terroir é uma coisa, mas então e a intensidade e complexidade únicas derivadas do envelhecimento dos melhores Madeiras (com cinco ou mais anos)? Essas características (tradicionalmente obtidas através da oxidação do envelhecimento em barril) definem o vinho Madeira e são um pré-requisito para a obtenção de selo de aprovação do Instituto do Vinho da Madeira. Será que o tempo será um inimigo de Mendes até ter acumulado stock de vinhos velhos?

Enquanto diz “Por sermos uma nova empresa não significa que não acreditemos que o tempo é fundamental”, Mendes acredita ter encontrado uma solução alternativa – os seus próprios aceleradores de partículas de vinho Madeira. Essencialmente, trata-se de “utilizar vários e diferentes processos na adega”, que, se tudo correr como planeado, vai ajudar a atingir a complexidade e perfil dos Madeiras 5-10 anos em apenas três anos.

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Tinta Negra fermentada em pele versus sozinha – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Durante a fermentação, estas técnicas incluem, a fermentação em barril, maceração a frio, flotação, fermentação completa da pele e fermentação maloláctica. Fez parte de um programa de degustação de vinhos de 2013 que mostrou como esses métodos podem alterar o perfil do Madeira, às vezes de forma dramática.

A Fermentação em barril introduziu uma maior complexidade derivada de madeira e cognac (os barris foram adquiridos a Remy Martin). Quanto maior for o barril (que variam desde 350 litros a 600 litros), melhor a integração do carvalho.

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Cubas de pequenas dimensões versus barris Remy Martin – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

A maceração a frio em peles durante três dias antes da fermentação produziu um Malvasia mais escuro, com mais especiarias e textura, mais homogéneo e desenvolvido. Um Caracol de 2014 fermentado em peles é muito mais escuro e mais intensamente frutado e picante.

Também foi fascinante ver a diferença entre vinhos fermentados com o sem temperatura controlada (20 graus Celsius). O controlado originou um vinho muito mais equilibrado, com mais frutas e fragrância para equilibrar o álcool.

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Mendes com as cubas de aço inox com temperatura controlada – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Embora cerca de 10% dos vinhos estarem a ser envelhecidos em canteiro (barril) durante um período mínimo de cinco anos, Mendes afastou-se da tradição em relação ao processo de aquecer os vinhos em tanque, estufagem (tradicionalmente os vinhos são mantidos durante três meses a 45-50º C). A sua abordagem mais diferenciada visa introduzir uma maior complexidade – diferentes opções de mistura – através de diferentes tamanhos de estufa (40,000 litros, 10.000 litros e 1,000 litros) e de aquecer as estufas a temperaturas ligeiramente mais baixas do que o normal, com variações de temperatura mais lentas e ao longo de períodos mais longos. O objetivo é imitar o envelhecimento em porão de carga de quando o Madeira foi transportado pelo Equador alcançar o seu paladar de assinatura a terra queimada (madeirado).

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Micro-Oxigenação durante a estufagem – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mendes também está a apostar na utilização da micro-oxigenação durante o processo de estufagem para replicar a oxidação tradicional em barril. Das amostras de 2014 que provamos, os que tiveram um trabalho de oxigênio provaram ser mais encorpados – mais precoces.

Sem coragem não há glória

Ainda sem vinhos para mostrar o fruto dos seus esforços, a pergunta à qual todos esperam resposta é, conseguirá este underdog remar contra a maré da tradição, ou correrá Mendes o risco de se tornar um cruxificado messias como o actual presidente dos Estados Unidos? Só o tempo o dirá, mas, como dizem, sem coragem não há glória.

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A variedade é o sabor da vida – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Estou ansiosa para provar os primeiros lançamentos da Madeira Vintner. Eles estão actualmente agendados para 2016, desde que Mendes (e os clientes seleccionados) ache que estão prontos.  Enquanto os vinhos fortificados lutam para permanecer importantes à geração X e Y, a nova perspectiva de Mendes sobre o Madeira – vinhos baseados em terroir, complexos, mas limpos com álcool inferior mas equilibrado (18 graus no máximo) e níveis de açúcar e acidez mais baixos – é certamente um ponto de vista bem-vindo.

Contactos
Cam. Sao Martinho, 56 Funchal
Madeira 9000-273
Portugal

Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério”

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Teresa Calisto

Se existe um estilo de vinho firmemente associado com o Verão e o espírito das férias é sem dúvida o Rosé. Será coincidência que o Brasil, um país sinónimo de sol e espírito de férias, tenha sido o público-alvo do Mateus Rosé quando este foi lançado pela primeira vez em 1942?

Quanto a nós Britânicos, quando entrevistei o Sir Cliff Richards há uns anos atrás, ele disse-me que é fã de, adivinhem, Mateus Rosé desde que comprou a sua primeira casa no Algarve, nos anos 60. Parece portanto que o espírito das férias da estrela de “Summer Holliday” chegou em força, e na realidade talvez seja o elixir da juventude do cantor ainda com ar de rapaz.

rose_blend Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” rose blend

Mateus Expressions – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Mas ao longo da última década, tem havido uma grande mudança entre os consumidores que, nos dias de hoje, estão a disfrutar do rosé o ano inteiro e não apenas durante as férias ou no Verão. Na realidade, no ano passado no Reino Unido, uma em cada oito garrafas de vinho compradas em supermercado eram Rosé, quando no ano 2000 eram apenas uma em cada 40. A base das vendas de vinhos tem sido as opções agora populares e até na moda, de vinhos correntes mais doces.

Apesar do Mateus Rosé continuar a ter um desempenho acima da média nesta categoria, as marcas californianas, como a Blossom Hill, Gallo e Echo Falls, têm sido sem sombra de dúvida os maiores beneficiários do fenómeno Rosé. Como foi prova o meu painel no Decanter World Wine Awards, regra geral os rosés de baixa gama Portugueses, falharam miseravelmente em construir o seu sucesso a partir da fama do Mateus Rosé, graças ao uso grosseiro de açúcar residual e à falta de frescura.

Contudo, estando na moda, há uma nova tendência: o rosé “a sério” e, vejam lá, o Brad Pitt e a Angelina Jolie produzem um: Chateaux Miraval de Provence! Até o Mateus se tornou mais sofisticado, com o lançamento de uma nova gama alta, Mateus Expressions (na imagem). E fico muito contente de dizer que encontrei recentemente fortes provas que sugerem que Portugal poderá apresentar melhores resultados com esta nova tendência, focada na qualidade e na complexidade. Aqui ficam as minhas escolhas de Rosés “a sério” de entre as opções Portuguesas:

Blend-All-About-Wine-Blue-Skies-Principal Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” Blend All About Wine Blue Skies Principal

Principal Rosé Tête de Cuvée 2010 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Principal Rosé Tête de Cuvée 2010 (Bairrada)

“Tête de Cuvée” é um vinho produzido a partir da primeira prensagem das uvas, o que quer dizer que normalmente é mais puro e de qualidade superior. Principalmente quando, como este vinho, é feito no Rolls Royce das prensas – uma Coquard Champagne – a partir da primeira prensagem (600 lt.) de Pinot Noir, destinado aos vinhos espumosos (comentados abaixo). O sumo prensado passa ao ritmo da gravidade para pequenos tanques (suavemente, mais uma vez), o que também explica a sua tonalidade de um bege rosado super pálido e palato subtil, salino e apetitoso. Cremoso, mas fresco e suavemente frutado (ruibarbo/morango), é muito longo e persistente. Um Rosé seriamente gastronómico – muito provavelmente o melhor que provei de Portugal. Excelente. 12.5% apv (álcool por volume)

Colinas Espumante Bruto Rosé 2009 (Bairrada)

Uma efervescência muito impressionante, salmão, 100% Pinot Noir, que envelheceu durante 3 anos sobre as borras. Tem muita energia e tensão. Apenas uma alusão a arrastamento verde, sobre a impressão geral de aridez e constrição. Um final longo, focado e seco, com uma lágrima fina, muito persistente. Uma estrutura adorável. Excelente. 12.5% apv

Casa de Saima Rosé 2013 (Bairrada)

Cingindo-se às uvas portuguesas desta vez (Baga com apenas um toque de Touriga Nacional) este Rosé da Bairrada, pálido mas brilhante, é fabulosamente salino, fresco e seco. O centro firme e ácido da Baga traz grande energia e linha à sua delicada e crocante fruta vermelha (arando) 13% apv.

Blend-All-About-Wine-Blue-Skies-Vinha-Grande Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” Beber sem preconceitos? A Ascensão do Rosé “a sério” Blend All About Wine Blue Skies Vinha Grande

Casa Ferreirinha Vinha Grande Rosado 2012 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Casa Ferreirinha Vinha Grande Rosado 2012 (Douro)

As marcas Casa Ferreirinha e Mateus pertencem à Sogrape. Enquanto o Mateus Expressions de alta gama é ainda bastante comercial (doce), este rosé seriamente pálido e seco, é ao mesmo tempo, de qualidade e complexo. Com origem 100% Touriga Nacional (que parece funcionar muito bem para os rosés) e do ponto mais alto da Quinta do Sairrão (a 650m) é delicadamente frutado, com um palato texturado (suavemente cremoso), com especiarias, apetitoso (nozes) e mineral. Um rosé adorável, nada pomposo, mas ao mesmo tempo sofisticado, com uma acidez finamente equilibrada. Muito bom. 12% apv

Quinta do Perdigão Rosé 2013 (Dão)

José Perdigão, arquitecto e produtor de vinhos orgânicos a tempo inteiro, está habituado a dar 300% a tudo e, quando ele me disse que este era o Rosé mais sério que já tinha produzido, eu sabia que estava prestes a provar um deleite raro. Comparado com as minhas outras recomendações, tem uma tonalidade rosa muito profundo – parecido com a cor dos notáveis rosés Australianos Grenache! Também é similarmente muscular no palato. A razão? Em 2013, o Dão passou por condições desafiantes na altura da colheita, com momentos de chuva intensa e explosões de tempo quente. Alguma da fruta para este vinho chegou com Baumé muito elevado (com potencial teor alcoólico de 15.5 a 16%!). Consequentemente, Perdigão introduziu, pela primeira vez e muito astutamente, caules de uva à fermentação, o que trouxe perfume, frescura e ajudou a baixar o grau alcoólico. Assim, no final de contas, obteve uma situação win-win: fruta fabulosamente exuberante (baga vermelha, groselha e cereja) e um bom corpo com equilíbrio. Quanto à complexidade, as notas minerais e florais de assinatura do Dão estão bem presentes neste blend de Touriga Nacional, Jaen e Alfrocheiro. Como diz Perdigão “não é um rosé de piscina”. Recomenda ainda que acompanhe atum seco e wasabi. Muito original (talvez até único dado o ano de produção). Muito bom. 13.5% apv

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José Perdigão – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Julia Kemper Elpenor Rosé 2013 (Dão)

O rosé de Kemper também é feito a partir de fruta orgânica, mas não podia ser mais diferente. Feito de 100% Touriga Nacional é pálido e ultra delicado, com suaves notas a fruta vermelha e a flores (violetas). Deliciosamente estaladiço e seco com acidez fresca e mineral.

Muxagat MUX Rosé 2012 (Douro)

Este é um rosé realmente interessante – estou tentada a dizer intelectual, mas tenho receio que isso seja ir longe de mais! Bom, o que quero dizer é que tem pouca semelhança aos vinhos cor-de-rosa adocicados, baratos e alegres que podem ser encontrados em qualquer esquina e supermercado. Tudo isto tem lógica, tendo em conta que MUX vem de uma vinha muito elevada, a 700m. Além disso, é influenciado pelo tipo de rosés secos e apetitosos, que os amigos franceses de Mateus Nicolau de Almeida gostam de beber num dia de Verão (pense em Provence, Bandol, Tavel). Um blend de Tinta Cão e Tinta Barroca, que é fermentado e envelhecido parcialmente em tanque, parcialmente em barril (velho). Este vinho de um bege Rosado é cremoso mas seco e apetitoso com boa acidez, notas florais elevadas e de especiarias secas e um toque de chocolate no seu final duradouro. Muito melhor do que soa! Muito bom. 13% apv

Da Escrita ao Vinho: Parte 1 – Os Vinhos de João Afonso

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

Eu adorei as minhas três curtas, mas doces, participações em vindimas, particularmente na Cullen Wines, em Margaret River, Austrália. Estive lá na altura certa: as uvas chegavam à adega inteiras e rapidamente.

A natureza ditava o que se fazia e quando se devia fazer, o que, apesar de ser fisicamente exigente, era mentalmente relaxante – não valia a pena programar as coisas! E como é delicioso provar os frutos do nosso trabalho! Ainda fico entusiasmada ao lembrar-me que fui eu que fiz a “batônnage” do Cullen 2007 Chardonnay, um vinho que recebeu o prémio de Melhor Chardonnay do Mundo nos Decanter World Wines Awards em 2010.

E confesso que, se o tempo voltasse atrás, eu ficaria extremamente tentada a voltar a fazer vinho, em vez de apenas escrever sobre ele. Talvez devesse seguir as intrépidas pisadas de três produtores de vinho Portugueses que estão a fazer isso mesmo. As suas estórias são inspiradoras. Aqui fica a primeira. As de Richard Mayson e Tiago Teles virão a seguir.

João Afonso nasceu em Coimbra em Fevereiro de 1957. Estudou Educação Física na Universidade de Lisboa e apaixonou-se pela sua primeira carreira, o ballet, quando uma bailarina apresentou a dança ao estudante de desporto. Dois anos depois, dançava pelo mundo fora com o célebre Ballet Gulbenkian, onde passou 15 anos.

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João Afonso – Foto cedida por João Afonso | Todos os Direitos Reservados

 

Afonso diz que se apaixonou pelo vinho mais lentamente já que “os bailarinos falam sempre e (quase) exclusivamente sobre port de bras, cou-de-pie, pirouettes, grand jete… e performances de dança. Comem e bebem pouco, porque têm que estar em boa forma física todas as manhãs”.

No entanto, a semente da ideia de fazer vinhos foi plantada quando em 1983, a mulher de Afonso lhe deu uma cópia do livro “Conhecer e Trabalhar o Vinho” do aclamado professor de Enologia da Universidade de Bordéus, Émile Peynaud. Acrescenta ele “a minha avó era uma pequena produtora de vinho na Beira Alta e, de certa forma, eu estava com saudades dos velhos tempos quando tudo o que comíamos e bebíamos era feito em casa e as coisas tinham outro sabor e outro gosto (nem sempre o melhor, mas mais genuíno, sem sabores sintéticos e fáceis …)”.

Embora tenha frequentado um curso intensivo de uma semana sobre fazer vinho na Escola da Anadia, Bairrada, em 1987 (Afonso tinha desde há muito, uma paixão pelos vinhos maduros da Bairrada), a sua carreira itinerante e de grande notoriedade como o bailarino principal da companhia, impediu-o de perseguir seriamente o seu interesse pelos vinhos. Foi apenas quando a sua carreira na dança terminou em 1993 que, tanto o conhecimento como o interesse floresceram, especialmente depois de ter conhecido o Professor Virgílio Loureiro do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa (na altura, enólogo na Quinta dos Roques e Quinta das Maias no Dão) e João Paulo Martins (o jornalista de vinhos).

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João Afonso – Foto cedida por João Afonso | Todos os Direitos Reservados

 

Em 1994, Afonso tinha começado a fazer vinho, a partir dos dois hectares da vinha envelhecida Ribeiro na Beira Alta. Foi plantada no início do século XX quando a sua avó era ainda uma criança. Primeiro, surgiu um tinto, no ano seguinte, um vinho branco, usando barricas antigas fornecidas por Dirk Niepoort da Niepoort.

Apesar de Afonso estar muito contente com os vinhos, que ele descreve como “extraordinários (na minha modesta opinião)”, o princípio do fim da sua primeira aventura na produção de vinhos, veio quando o seu irmão mais velho arrancou a vinha envelhecida.

Por sorte, Niepoort e Loureiro já tinham apresentado Afonso a Luís Lopes, o director da, na altura, recentemente lançada, “Revista de Vinhos” e, segundo as suas palavras, “como a produção de vinho era um assunto familiar melindroso (eu tenho mais quatro irmãos), comecei com o fantástico e mais fácil assunto da escrita de vinhos, em Maio de 1994”. Ele ainda escreve para a Revista de Vinhos e, entre 2000 e 2008, escreveu o seu próprio guia para vinhos no mercado português. Também escreveu dois livros sobre vinhos “Entender de Vinho” e “Curso de Vinho”. No entanto, ele admite, “escrever não é de todo o que prefiro fazer. Também é uma forma de arte, mas às vezes (muitas vezes) não tem nada a ver com “o lado bom da vida”. Para Afonso, o lado bom da vida é “ver e sentir a beleza e a felicidade”. Uma sensação que ele experimentou vividamente em 2009, quando descobriu uma velha e pequena vinha (3.9 hectares) em Reguengo, Portalegre, à venda e decidiu que a sua missão era protegê-la e recuperá-la.

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João Afonso – Foto cedida por João Afonso | Todos os Direitos Reservados

 

Porquê Portalegre? Afonso responde: “Eu escolho o Norte do Alentejo por três razões: a paisagem é semelhante à da Beira Alta (mais bonita e eu sinto-me em casa); é mais perto (de Lisboa) que a Beira Alta; e, acima de tudo, tem vinhas antigas com materiais envelhecidos (sem selecções de cultivadores de viveiros): castas envelhecidas, todas misturadas no mesmo enredo de vinho. Se podemos falar de “terroir” em Portugal, a Quinta das Cabeças, ou seja, o Reguengo pode ser um”. De facto, e como um bom presságio, depois de ter comprado a quinta, ele soube que o altamente respeitado enólogo alentejano Colaço do Rosário (criador do Pêra-Manca) identificou a encosta da Quinta das Cabeças como o melhor sítio para criação de uvas em todo o Alentejo.

Oito meses depois, Afonso tinha feito os seus primeiros vinhos: Equinócio (branco) e Solstício (tinto), parcialmente fermentado em ânfora de barro, como tinha sido a tradição regional durante séculos). No entanto, ele afirma nunca ter tido uma visão para o vinho: “Eu não sou um enólogo” diz, “Eu só tento proteger a minha vinha e colher as uvas para deixá-las tornar-se vinho”. A confiança de Afonso em deixar que as vinhas falem, advém da sua crença na vinha: “Eu gosto de a ver. Gosto de me sentir dentro dela. Eu não faço vinho, a vinha é que o faz. Eu deixo que os meus olhos escolham por mim”.

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Foto cedida por João Afonso | Todos os Direitos Reservados

A abordagem não intervencionista começa com a vinha, que é organicamente certificada e cultivada de forma biodinâmica. Para Afonso “perceber a nossa propriedade, seguir o calendário lunar de Maria Thun e aplicar as preparações biodinâmicas em doses homeopáticas, resulta em vinhas ainda mais genuínas e intensas”. Para além disso, ele jurou nunca voltar a usar químicos, depois de ter pulverizado os seus olivais em 1999 contra as traças: “o cheiro era tão terrível que achei que, se as oliveiras tivessem pernas, teriam fugido rapidamente!”.

Então, o idílio rural corresponde às expectativas? “Sim. Completamente” é a resposta de Afonso. Uma vez que ele é pouco inspirado pelos “vinhos globalizados ou em voga” (vinhos com Syrah, Merlot, Cabernet Sauvignon, Petit Verdot, Viognier, Sauvignon Blanc, Touriga Nacional…) que ele acredita terem resultado numa perda enorme da tradição vitivinícola, ele orgulha-se intensamente do facto de Cabeças ter “dado provas que é possível fazer bom vinho com uvas que toda a gente despreza”.

Para além disso, a experiência de Afonso implica que ele nunca tenha tido ilusões sobre os desafios inerentes à venda do seu próprio vinho. Ele explica “escrever sobre vinhos ensinou-me a dificuldade de vender vinhos, mesmo vinho muito bom, e eu já tinha tido essa experiência na Beira Alta”. Escrever implicou que Afonso compreendesse bem a importância de ter uma história diferente e genuína e não fazer apenas algo semelhante a outros vinhos: “Teria morrido à partida”, diz.

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Vinhas – João Afonso – Foto cedida por João Afonso | Todos os Direitos Reservados

Afirma ainda “A única hipótese é fazer algo completamente diferente, algo bom e algo difícil de encontrar”. Entrando neste tema e olhando para o quadro geral, ele observa “Portugal é diferente. Não existe isso [as castas e os terroir] em mais nenhum lado senão aqui. E nós fazemos mesmo vinhos muito bons… Eles são puros, bons e falam uma língua simples, sumarenta e fantástica com aqueles que os sabem perceber”. Então por que motivo devemos escolher o seu vinho, pergunto? Porque, responde ele, “é o sabor de uma vinha alentejana de 1920, através dos olhos e das mãos de um crítico de vinhos – um ex-bailarino”. Esta é uma proposta verdadeiramente única. E para reforçar, posso acrescentar que Equinócio e Solstício são também excelentes propostas para amantes de vinhos excitantemente autênticos com uma sensação palpável de lugar.

Insaciável: Rita Ferreira Marques com sede de Conhecimento & A Busca da Excelência

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

O meu último artigo foi sobre Filipa Pato, representante de uma nova geração de enólogos portugueses bem-viajados (ou devo dizer produtores de vinho) que se têm destacado pelos seus vinhos entusiasmantes e orientados pelo terroir.

Em contraste com Filipa Pato (que agora estreitou o seu foco para a Bairrada), Rita Ferreira Marques, um dos elementos do grupo Young Winemakers of Portugal, lançou a sua rede de uma forma bem abrangente. E bem para além das Quintas da Veiga e do Chão do Pereiro no Douro Superior, as duas propriedades da família que têm sido a fonte da sua atractiva marca Conceito desde 2005. Pode-se acrescentar que isso acontece apesar destas quintas serem as maiores propriedades do Vale da Teja. Rita faz também um Sauvignon Blanc de Marlborough, na Nova Zelândia, um blend de Cabernet Sauvignon/Merlot de Breedekloof, na África do Sul e um Alvarinho da sub-região de Monção e Melgaço dos Vinhos Verdes, tudo sob o rótulo Conceito. No ano passado, participou no relançamento da Quinta do Fojo, a famosa quinta no Cima Corgo (Rita faz os vinhos com Margarida Serôdio Borges).
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Rita Ferreira Marques – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Questionei Rita Marques sobre seu desejo aparentemente insaciável de conhecimento e auto-melhoria. De onde vem? E como é que isso influenciou a sua abordagem à produção e ao Marketing dos seus vinhos?

Quais são as lições mais importantes que tem tirado dos seus estudos de enologia?

A importância da ciência e do desenvolvimento tecnológico. O desenvolvimento e o reforço da minha própria intuição e sentido crítico, tendo como base o conhecimento técnico para a compreensão e escolha de aceitar ou rejeitar práticas que vêm da tradição, da inovação, de pressões comerciais, etc. A importância decisiva das aprendizagens baseadas na prática que encontrei em Bordeaux, incluindo inúmeras provas de vinhos.

Quais são as lições mais importantes que tem tirado de suas viagens (visitas e trabalho no estrangeiro)?

Compreender a enologia em vários contextos, desde o quase industrial às pequenas adegas artesanais, onde tudo é feito à mão. Ser capaz de dar conta de todo o trabalho que surja num longo dia, tomando consciência que o vinho vem sempre em primeiro lugar e que justifica todos os sacrifícios. Perceber que algumas vinhas têm qualidades mágicas, seja a luz ou o solo, que as pessoas que fazem esses vinhos têm um enorme respeito pelas videiras e pelas uvas e sentir-me abençoada por ser capaz de utilizar esses factores e integrá-los num grande vinho.

Quais são as lições mais importantes que tem tirado de provar tantos vinhos (estrangeiros)?

Estudar e fazer os meus vinhos faz-me concentrar mais e mais no que posso melhorar em termos de viticultura e enologia. Provar muitos vinhos faz-me querer mais para os meus vinhos, faz-me olhar para fora e tentar perceber para onde quero ir. Provei alguns vinhos que me fizeram pensar “quando eu fizer um vinho assim ficarei satisfeita.”

Como é que essas lições afectaram a sua abordagem à viticultura, à produção e ao Marketing dos seus vinhos?

Todos os anos tento respeitar o que a natureza me oferece. Este respeito é demonstrado, desde logo, no facto de eu não usar pesticidas ou herbicidas na vinha. Faço sobretudo agricultura biológica, mas não me preocupo com certificações ou certificados. Acredito apenas que isso é melhor para os meus vinhos e acho mesmo que isso se vê. A outra lição é agendar a data de colheita, uma das decisões mais importantes que cabe a um enólogo.

Numa fase inicial, tentei fazer vinhos mais fáceis de beber, embora não pondo em risco a sua longevidade. Estou cada vez mais interessada em moderação e em ter meus vinhos cada vez mais bem-recebidos na mesa, preocupando-me cada vez mais com o equilíbrio, a frescura, a pureza, em vez do poder ou do corpo do vinho. Elegância é uma palavra forte para usar aqui, já que o Douro é um lugar quente, e não quero de maneira nenhuma lutar contra a maturação ou profundidade. Mas trabalho no sentido do equilíbrio e, todos as anos, tento adaptar a quantidade e qualidade das técnicas de extracção que uso para respeitar plenamente as uvas e o design dos vinhos que apresento.

A Rita estudou em Bordeaux e na Califórnia, bem como em Vila Real – como é que as abordagens ao Estudo do vinho em Portugal, Bordeaux e Califórnia diferem entre si? Como é que estudar em Bordeaux e na Califórnia a ajudou? Como é que esses estudos trouxeram valor à sua experiência em Vila Real?

Em Bordeaux, tive o prazer de estudar e trabalhar com Denis Dubourdieu, uma grande pessoa, um grande enólogo e um grande professor. Na Universidade de Bordeaux os cursos que fiz foram muito focados na prova e de alguns dos melhores vinhos do mundo. É engraçado que, infelizmente, em Vila Real também temos disponíveis alguns dos melhores vinhos do mundo, mas eles não chegam às salas de aula da Universidade. Os cursos básicos que tirei em Vila Real (e, antes, em Coimbra) tinham um nível adequado ao que aprendi posteriormente em Bordeaux e na Califórnia. Vila Real é mais teórica do que Bordeaux ou Califórnia, não tem a parte prática suficiente. Outra grande diferença é que em Bordeaux tudo tem a ver com o vinho e com a produção de vinho. Assim, os estudantes podem trabalhar em empresas vitivinícolas durante as vindimas, o que é impossível em Vila Real, já que o calendário académico não está adaptado à realidade da produção de vinho.

O site Young Winemakers of Portugal diz que “a nova geração de enólogos portugueses adaptou sua produção a uma nova era e está a criar vinhos que já não podem ser considerados fortes demais para o gosto internacional. A Rita sente que entende o que os consumidores querem nos diferentes mercados e adaptou de alguma maneira a forma de fazer ou apresentar os seus vinhos para que se ajustem a diferentes mercados?

Sim e não. Algumas coisas ainda são um enigma para mim, por exemplo, porque é que um estilo particular de vinho é um sucesso em alguns países e não o é de todo noutros países. Tento fazer vinhos que respeitam o que a natureza oferece em todos os sítios onde os produzo. Os vinhos de que gosto não são pesados ou enjoativos e por isso é natural que tente fazer esses vinhos em todos os locais em que trabalho. Mas sinto que a minha missão (para dizê-lo “em grande”) é oferecer parte daquele lugar (designadamente, e sempre o que penso em primeiro lugar, o Douro) na mesa das pessoas. Não é tanto dar-lhes um vinho que eles possam querer mais do que outro, mas que não iria respeitar esse sentido de origem.

Haverá alguns vinhos das suas viagens que tiveram uma influência fundamental no seu trabalho? Qual o impacto que tiveram?

José Luís Mateo, de Monterey, ou Didier Raveneau, em Chablis, fazem vinhos surpreendentes, cheios de limpidez, de luz, de frescura. Ricardo Freitas, da Madeira, faz vinhos que são uma lição de intuição em enologia para uma produtora de Porto como eu. Nesses casos, a terra oferece uvas perfeitas, eles têm uma obsessão com a acidez e a frescura das uvas e, acima de tudo, fazem as coisas de forma simples e franca.

Existem vinhos de Portugal que tiveram uma influência fundamental em seu trabalho? Qual o impacto que tiveram?

Sim, claro, tanto grandes vinhos como vinhos simples. Por exemplo, ao provar colheitas antigas do Fojo fiquei encantada com a pureza, o foco e a juventude desses vinhos. Mas também ao provar as primeiras colheitas de Duorum fiquei a pensar nas técnicas que permitiriam os meus vinhos serem mais acessíveis numa fase mais jovem e esforcei-me para fazer um trabalho mais preciso na extracção. Depois, os vinhos de Mário Sérgio Alves Nuno, na Bairrada, de Álvaro Castro, no Dão, ou de Miguel Louro, no Alentejo (para citar apenas alguns), também influenciaram a maneira como eu vejo o vinho.

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Rita Ferreira Marques – Foto de Cedida por Rita Marques | Todos os Direitos Reservados

Em Inglaterra há um ditado que diz que o que importa não é o que sabemos, mas quem nós conhecemos. Que vantagens teve por ser tão bem relacionada?

Cada professor ou chefe com que trabalhamos dá-nos parte do seu conhecimento, mais experiência, ajuda-nos a corrigir alguns erros e dá resposta a algumas das nossas perguntas. Mas um professor realmente bom também nos orienta para mais perguntas, faz-nos questionar o que aprendemos e leva-nos a querer aprender mais. Assim, vamos de um lugar para outro, às vezes com uma recomendação, outras vezes só porque ouvimos dizer que os nossos ídolos falaram sobre um dos seus ídolos (ou lugares, ou vinhos). Além disso, é mais fácil voltar a um sítio e começar aí a fazer alguma coisa quando já conhecemos alguém ou temos uma recomendação [Rita está aqui a referir-se ao facto de ter trabalhado em Villa Maria, na Nova Zelândia, e com Bruce Jack de Laje, na África do Sul]. O mundo é pequeno e o mundo do vinho é muito generoso com seus habitantes.

Das pessoas que você conheceu nas suas viagens ao exterior, há alguma em especial que a tenha inspirado ou ajudado?

Já mencionei alguns nomes, mas estou a ser injusta, porque são realmente inúmeras pessoas (todos os lugares onde eu trabalhei inspiraram-me e ajudaram-me a ser uma melhor enóloga) e não apenas os professores e colegas enólogos, mas também sommeliers, clientes, colegas de curso. Podemos todos os dias ser inspirados por alguém. Faço sempre questão de ouvir o que as pessoas têm a dizer, sejam eles famosos enólogos ou o provador de vinho mais inexperiente ou o cliente. Nunca sabemos de onde pode vir uma boa ideia, e muitas vezes conhecimentos bons e preciosos podem estar escondidos nalguma velha história, ou até mesmo alguma ideia errada sobre uma casta, as barricas, um lugar.

Das pessoas que conheceu em Portugal, há alguma em especial que a tenha inspirado ou ajudado?

Jorge Serôdio Borges foi o primeiro enólogo com quem trabalhei e que me inspirou com sua enorme dedicação. Dirk Niepoort com sua paixão pelo vinho. Como disse, é impossível falar de todos eles. Recentemente conheci um produtor, António Ribeiro, que sabe muito sobre castas antigas, o seu desempenho e papel no campo e na adega, e como tudo isso influencia o vinho do Porto que faz. Às vezes, tudo se resume a ter tempo para nos sentarmos, pegarmos num copo e permitirmo-nos passar o tempo numa boa conversa.

Disse que uma das vantagens de produzir vinhos varietais, por exemplo um Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, é que se aprende a fazê-lo rapidamente. Acha que o potencial de Portugal tem demorado um pouco a concretizar-se porque existem tantas castas diferentes para trabalhar, o que faz com que seja difícil os enólogos entenderem como podem conseguir o melhor resultado possível das suas vinhas?

Sou uma grande fã de blends de vinhos e de vinhas. Na verdade, acabei de plantar uma parcela de várias castas com cerca de 15 variedades diferentes. Isso torna a aprendizagem mais lenta, mas é uma questão de utilizar o conhecimento que já existe nas pessoas, mesmo que não esteja estruturado em livros científicos, como acontece noutros países. Não podemos ter as duas coisas. A nossa gama de castas autóctones é um dom que recebemos do passado, um milagre da nossa cultura e da nossa agricultura. Se isso torna os nossos vinhos mais difíceis de entender, isso é um pequeno preço a pagar por trabalhar com tanta variedade e por oferecer diferença, complexidade e interesse aos vinhos, o que Portugal pode e está a fazer. Ao provar vinhos velhos de todas as regiões portuguesas descobrimos que o potencial não foi criado ontem, esteve sempre lá. Os olhos do mundo talvez não estivessem focados nos nossos vinhos, mas esse factor foi talvez decisivo para a preservação do carácter dos nossos vinhos.

Como é que a Rita consegue o equilíbrio certo entre ocupar muito tempo nas suas vinhas para conhecê-las e em viajar pelo mundo a vender o seu vinho e ainda a fazer o vinho no Cabo e na Nova Zelândia?

As estações do ano separam muito bem o hemisfério norte do sul, de modo que foi fácil. O resto também é fácil: só viajo para vender e promover meus vinhos se isso não entrar em conflito com a produção dos vinhos e com o necessário acompanhamento a esse trabalho. Dois acontecimentos recentes mudaram um pouco as minhas condições de trabalho. Fui mãe, por isso tenho menos tempo para estar longe de casa e até certo ponto menos vontade de estar longe de casa. Por outro lado, o enólogo Manuel Sapage começou a trabalhar connosco e isso dá-me uma maior confiança para viajar enquanto os vinhos estão a ser bem acompanhados.

Os site Young Winemakers of Portugal diz sobre o vosso grupo que “Todos eles produzem vinhos distintos e mostram uma nova forma de produzir vinhos diferenciada e desinibida. Aprender com a tradição e trazer novos métodos”. Como é que equilibra a tradição com novos métodos e qual é o seu exemplo mais bem sucedido disso?

Falando por mim, eu diria que o exemplo mais bem-sucedido teria de ser o meu vinho tinto feito exclusivamente de Bastardo. Isto é bastante inovador, já que quase ninguém fez e engarrafou um vinho seco de Bastardo no Douro, mas também porque o vinho é feito da forma mais tradicional possível, sendo as uvas pisadas em lagares de granito sem desengaço e com levedura autóctone.
Tendo em conta a sua experiência em mercados e vinhos internacionais de todo o mundo, quais acha que são os maiores pontos fortes e pontos fracos da indústria do vinho portuguesa.

Pontos fortes: a variedade das castas, os blends, os estilos, o que é surpreendente para um país tão pequeno. Além disso, o maior know-how e a ambição que uma nova geração de produtores de vinho está a demonstrar ter. E o prestígio internacional do vinho do Porto, um verdadeiro potencial que nunca foi plenamente explorado para comercializar os nossos outros vinhos.
Pontos fracos: o contexto económico está a impedir muitos desses jovens de produzir e vender os seus vinhos. Há muita pressão para baixar os preços e isso decorre das empresas, que estando financeiramente fracas, lutam para vender em vez de manter a calma e acreditar na qualidade de seus produtos, defendendo e aumentando o seu valor. Além disso, a promoção deveria ser melhor coordenada pelas entidades públicas, porque resolver os problemas apenas com dinheiro é algo que funciona muito raramente.

Como é que acha que Portugal pode utilizar melhor esses pontos fortes e ultrapassar esses pontos fracos?

Não faço ideia. Acho que apenas temos de continuar. Os dados mais recentes mostram que a tendência é de crescimento. Ainda há muito trabalho a fazer na educação do público dos nossos vinhos e isso inclui alguns dos profissionais que desempenham um papel-chave na indústria. Quanto mais pessoas souberem sobre vinho, mais fácil é vender um bom vinho, designadamente um bom vinho português.

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Aphros: Na vanguarda da Biodinâmica em Portugal

Texto Sarah Ahmed  | Tradução Patrícia Leite

Vasco Croft coloca dinâmica na Biodinâmica, o método holístico de cultivo no qual ele tem sido pioneiro na região dos Vinhos Verdes (e sobre o qual poderá consultar toda a informação neste site.

Desde a última vez que visitei em 2010 a quinta deste anterior Designer de Mobiliário e Arquitecto, em Ponte de Lima, o portefólio ganhou uma “cara nova” com um novo nome (Aphros e não Afros) e novos rótulos.

Croft explica que a mudança do nome foi motivada por um pedido dos EUA, o seu maior mercado de exportação, onde havia preocupações sobre a possível confusão do nome com África ou com o estilo africado de penteado. Felizmente (não me parece ser pessoa de ceder em vão), diz que “o novo nome, que corresponde à escrita em Grego, mantém-se em sintonia com o nome original, que significa “a espuma mítica de onde surge Afrodite”. Tudo está bem quando acaba bem.

Quanto aos rótulos, têm um padrão de três círculos interligados, que foram desenvolvidos a partir de gravuras do seu primo José Pedro Croft, um artista plástico internacional. Não foi só a ligação à família que o fez interessar-se pela imagem. Croft explica: “Espero que esta imagem seja uma lufada de ar fresco no mundo dos rótulos de vinho e que torne a arte contemporânea e o vinho mais próximos”. A propósito, acho que a rotulagem dos vinhos portugueses tem vindo a melhorar. Os rótulos estão mais coloridos e com mais personalidade, o que ajuda os vinhos a destacarem-se nas prateleiras e dá a conhecer aos consumidores algo sobre as pessoas por trás dos vinhos. Uma coisa muito positiva.

Mas o que conta verdadeiramente é o que está na garrafa e, na Aphros, as mudanças vão muito para além da aparência. Croft tem vindo a expandir de forma sustentada o portefólio com um ambicioso Vinhão em madeira (Aphros Silenus), Aphros Rosé, Aphros “Ten” (um Loureiro com baixo teor de álcoo, 10% vol.), Daphne (um Loureiro muito interessante que teve contacto com as películas da uva) e, mais recentemente, AETHER (um lote 50:50 de Loureiro e, para minha surpresa, Sauvignon Blanc, uma casta não-nativa).

Blend-All-About-Wine-Aphros-Cutting-Edge-of-Biodynamics-2 aphros Aphros: Na vanguarda da Biodinâmica em Portugal Blend All About Wine Aphros Cutting Edge of Biodynamics 2

Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

O surto de crescimento na Aphros estende-se às vinhas e também aos vinhos. Em 2009, Croft adquiriu e instalou vinha na Quinta de Casa Nova na freguesia vizinha de Refóios, que foi cultivada desde o início de forma biodinâmica. Planeia ainda transformar uma casa em ruínas num wine bar e, já este ano, deu início aos trabalhos para uma nova adega com capacidade de produzir 120.000 garrafas. Depois disso, ele irá provavelmente “brincar” com um Aphros Pinot Noir da Quinta de Valflores, uma exploração vizinha que arrendou a longo prazo à família Bossert de Oregon, EUA (o que explica a casta Pinot Noir)!

Entretanto a pequena adega original (situada, conforme a tradição, debaixo da casa) da Quinta do Casal do Paço, propriedade histórica da família Croft, continuará a ser utilizada para os lotes mais pequenos, os vinhos artesanais. Sendo pertença da família desde o século XVII, as uvas da quinta eram vendidas às cooperativas locais até Croft dar início à marca Afros/Aphros em 2005. Ele reestruturou as vinhas e começou a cultivá-las de forma biodinâmica com a colaboração de Consultores franceses da área, primeiro Daniel Noel, agora Jacques Fourès; a quinta está certificada na íntegra desde 2011 pela Demeter (Agricultura Biodinamica). É aqui que o composto (na foto) é semeado com preparações biodinâmicas feitas exclusivamente a partir de matéria orgânica, sendo depois aplicado na vinha de acordo com os ciclos dos planetas. Quantidades homeopáticas das preparações são diluídas primeiro com água da fonte, dinamizada pela forma do fluxo da corrente (na foto), e depois energizada pela agitação no tanque de cobre (na foto). São também preparados aqui bio-estimulantes experimentais (na foto).

Mas para Croft nem tudo anda à volta do vinho. Ele Salienta que “[F]azer vinhos por si só não chega”. Para ele, “ser biológico ou biodinâmico é uma questão, em primeiro lugar, de consciência, relacionada com a compreensão e respeito pela Natureza e com a criação de uma relação profunda com a Terra da qual nós somos parte”. Afirma ainda que “não é só uma técnica, muito menos uma opção de Marketing”. É por isso que a sua visão se estende “para a criação de um centro agrícola / cultural”, com um espaço de permacultura e “floresta de alimentos” na Quinta do Casal do Paço – um “santuário” para diferentes espécies de plantas.

Este tipo de aumento da biodiversidade da quinta ajuda a natureza a auto-regular-se (por exemplo, incentiva os predadores naturais que matam as pragas da vinha ou desencoraja as pragas, proporcionando-lhes algo para comer que não seja a vinha!). E a floresta de alimentos irá fornecer produtos da quinta para o wine bar previsto para a Quinta de Casa Nova.

Estou desejosa de conhecer o wine bar numa futura visita mas, entretanto, posso recomendar vivamente que procurem a gama de vinhos Aphros. No mês passado, provei os últimos lançamentos (expostos infra) com Rui Cunha, o Consultor de Enologia de Croft, e aproveitei para lhe perguntar sobre os benefícios de trabalhar de forma biológica e biodinâmica. Ele lembra-se, rindo, que “as pessoas pensavam que era um pouco de loucura no início”. Rui Cunha encontrou-se com praticantes da Biodinâmica alemães e franceses durante as suas viagens, mas a sua prova de fogo aconteceu na Quinta da Covela. Diz que “foi assustador” quando Nuno Araújo (o anterior proprietário desta quinta dos Vinhos Verdes) anunciou que iam começar a converter toda a quinta para a produção Biodinâmica. Isto aconteceu em 2004, num período em que os cursos de enologia em Portugal não faziam qualquer referência ao modo orgânico da agricultura Biodinâmica.

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Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Tal como Croft, Nuno Araújo contratou o Consultor Francês Daniel Noel e, diz Rui Cunha que “vimos um aumento imediato da qualidade das uvas. Eram menos produtivas e de repente mais equilibradas; com o tempo, tornaram-se mais consistentes no rendimento”. Acrescenta que a maturação tem sido mais lenta e a acidez maior, que provou ser particularmente útil num clima quente. Claro que, sendo o sabor o teste final, Rui Cunha diz que “as uvas sabem muito melhor”. Refere ainda que é como comparar um fruto da nossa própria árvore com um fruto comprado, que tenha sido cultivado de forma convencional (ou seja, com produtos químicos – fertilizantes, herbicidas e pesticidas). Quanto às especificidades, Rui Cunha admite que não pode explicar o motivo de algumas práticas biodinâmicas funcionarem, mas já viu em primeira mão como a preparação biodinâmica 500 (um composto de estrume de vaca) dá muito maior vitalidade ao solo e apenas 200 gramas de 501 (pó de quartzo) pode ter um impacto significativo na produção – “as folhas tornam-se mais espessas, ficando mais resistentes ao sol (a queimaduras) e insectos”.

Vasco Croft tem notado que, ultimamente, cada vez mais produtores portugueses estão a trabalhar de forma biológica ou biodinâmica, mesmo que não certifiquem os seus vinhos. De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho, Portugal tem agora cerca de 2.500 hectares de vinhas biológicas certificadas, que são cultivadas por 485 produtores de uva e 52 produtores de vinho certificados como Biológicos. Referindo-se a “uma tendência mundial de respeito pela terra e pela tradição e autenticidade dos vinhos”, na sua opinião, “[I]sso é bom, porque a era agro-química já desapareceu em termos éticos e científicos, pertence ao passado, mesmo que ainda permaneça por um tempo devido à inércia”.

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Aphros AETHER 2013 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Aphros Ten 2013 (Vinho Verde)
Ten foi produzido pela primeira vez em 2011 e provém de uvas Loureiro de vinhas mais jovens. O seu nome é uma referência ao baixo teor alcoólico (claro está, cerca de 10% vol.). O vinho de 2013, uma amostra da cuba, é muito bonito – este Loureiro meio-seco é um floral clássico com notas de pó-de-talco, sabor cristalino de lima e toranja e ainda uma pitada de casca de frutas cítricas. A acidez vivaz e de fazer crescer água na boca mantém o foco e equilíbrio (melhor do que na colheita de 2011, em que faltou um pouco de vitalidade). Muito bom; um excelente vinho para se beber avidamente e com o coração. 10%

Aphros Loureiro 2013 (Vinho Verde)

Há aqui uma série de factores para fazer um vinho mais sério, concentrado e estruturado. Primeiro, a uva vem de vinhas mais velhas. Em segundo lugar, o contacto com as películas da uva durante cerca de 4-6 horas (na prensa) e, uma vez prensado, o mosto é fermentado a temperaturas ligeiramente mais elevadas. É envelhecido nas borras com batonnage, o que dá corpo e complexidade. Assim, embora liderem os sinais florais do Loureiro, o vinho é muito mais firmemente estruturado, focado e mineral. Muito fino, longo e persistente. Acho-o mais puro do que as colheitas anteriores. Rui Cunha concorda comigo, salientando que esta colheita beneficiou com a aquisição de uma prensa (antes a prensa era alugada e não estava sempre disponível no momento ideal em função da vindima). Agora, as uvas podem ser colhidas precisamente no momento certo e ir directamente para a prensa, o que explica a precisão encantadora deste vinho. Muito bom mesmo e tem potencial de envelhecimento. 11,5%

Aphros AETHER 2013 (Minho)
Este vinho é um lote 50:50 de Loureiro e Sauvignon Blanc, produzidos na quinta. Rui Cunha explica que adora a casta Sauvignon, mas também há uma lógica empresarial subjacente a este vinho. A Aphros está a usar a mais conhecida casta francesa para “abrir portas” para os mercados de exportação. Para mim, Aether é um vinho de duas metades. O Loureiro impõe-se no nariz com as suas notas encantadoras, e até celestiais, de flores e talco. O Sauvignon domina na boca, com a mineralidade do giz, notas de rebentos de groselha e um final crocante mais marcado do que os Aphros Loureiros. É agradável e limpo, com o poderoso carácter varietal do Sauvignon, mas tenho que admitir que, pessoalmente, viro-me sempre mais para o charme do Loureiro! 12%

Contactos
Quinta Casal do Paço
Padreiro (S. Salvador)
Arcos de Valdevez 4970-500 Portugal
Tel: (+351) 91 42 06 772
E-mail: info@afros-wine.com

Website: www.aphros-wine.com