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Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 – A coroa longe dos holofotes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Vallado significa “grande vale”. Qualquer pessoa que já tenha feito o tour até ao topo desta propriedade do Douro no Land Rover vintage da Quinta do Vallado pode confirmar, é vertiginoso; as vinhas sobem dos 80 aos 380m de altitude. Lá no topo é onde estão as vinhas mais velhas – field blends centenárias de 34 castas diferentes – que teimosamente permanecem enraizadas. Foi destas vinhas que – a coroa – proveio o novo e surpreendentemente diferente vinho tinto da Vallado, Vinha da Coroa – de uma parcela de dois hectares com o mesmo nome.

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Descansar os punhos! O Land Rover chega ao topo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Ao explicar a origem deste vinho, Francisco Ferreira confessou que lhe causava confusão que, “todos os anos, duas parcelas de vinhas velhas adjacentes (e vinificadas da mesma forma) produzissem os melhores e os piores vinhos”. Agora espantem-se, estes “piores” vinhos provinham da Vinha da Coroa! Fazendo cara feia, como se tivesse acabado de mastigar uma graínha de uva, Francisco relembrou, “todos os anos que passavam a fruta Vinha da Coroa tinha um sabor mais verde e mais amargo”.

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Vinha da Coroa – vinhas velhas predominantemente viradas a norte – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Até ao lançamento do Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013, a fruta desta parcela tinha como destino o Vallado Tinto, um vinho de entrada com muito mais volume, uma boa maneira para disfarçar as características específicas desta fruta. Então porquê fazer um vinho produzido unicamente desta parcela? Para Francisco, resultou de um melhor conhecimento da Vinha da Coroa. Uma pista, até há pouco tempo, a parcela costumava chamar-se “Moscatel Velho” (já foi local de plantação desta casta branca de vinho branco). Um factor que, juntamente com os seus solos ricos, explicam por que é que a maturidade dos taninos era um problema para a Vinha da Coroa mas não para as outras parcelas de vinhas velhas da Vallado.

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É tudo uma questão de prespectiva – Francisco Ferreira com vinhas velhas da Quinta do Vallado viradas a sudoeste – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Dado que a Vallado se situa na sub-região mais fria e húmida do Douro (Baixo Corgo), a maior parte das suas vinhas adoram o sol e estão viradas a sudoeste. Um aspecto que, diz Francisco, é o segredo para a qualidade dos taninos “muitos maduros e equilibrados” dos tintos de topo Quinta do Vallado Reserva Field BlendQuinta do Vallado Adelaide, já para não falar da poderosa fruta concentrada.

Assim que Francisco percebeu a diferença, percebeu que resolver o problema da Vinha da Coroa passava por adapatar a vinificação à sua localização mais fria, especificamete extraindo menos taninos e, para o equilíbrio, fruta mais delicada. Afinal de contas, como observa, “o mais importante [questão proeminente para a qualidade do vinho] é o equilíbrio… Não me importa que as uvas estejam muito maduras se mantiverem uma boa acidez e não houver excesso de alcoól e fruta demasiado madura; também não me importa que estejam um pouco menos maduras se o vinho não mostrar taninos verdes ou amargura”. Como demonstra eloquentemente o último e muito equilibrado lançamento da Vallado, com uma menor extracção, a Vinha da Coroa é um local favorável para vinhos com apelo inicial (fruta e taninos suaves), mas com complexidade de sabores de vinha velha. Ou como diz Francisco, “vinhos mais leves, talvez menos vistosos, mas mais apelativos do ponto de vista do consumidor”.

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Da maneira fácil – sem fermentadoras robotizadas (à esquerda) para a Vinha da Coroa – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Na verdade, para o Vinha da Coroa, até escolheu previmente este local frio para demonstrar o seu perfil fresco – gostei muito das frutas vermelhas crocantes, toque apimentado e acidez fresca. Este estilo de vinhos mais leves mas sérios já está assente na Austrália, onde um produtor me disse recentemente “tem que haver vida além da vida e do homem e grande vinhos com peso, poder e força. A Austrália pode fazer isso mas também pode fazer outras coisas”. Tal como o Douro pode, tomando como exemplo, reconhece Francisco, a Nieeport que esteve na vanguarda desta abordagem com o Charme.

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Quinta do Vallado Vinha da Coroa 2013 (Douro) – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Em busca de um estilo mais leve, Francisco não esmaga nenhuma das uvas e, 50% por cento são cachos inteiros. Enquanto que a máquina robotizada de pigeage esmaga as uvas do Reserva e do Adelaide umas quatro vezes ao dia, o Vinha da Coroa foi submetido a um “baixo nível de extracção” (e um pouco de maceração carbónica tipo-Beaujolais) durante os seus 14 dias de fermentação. Foi envelhecido durante 16 meses em barricas de carvalho francês, nenhuma delas nova. Marcadamente mais pálido que os outros tintos 2013 que degustei nesta prova, vivo, com a acidez fresca a trancar as frutas vermelhas crocantes. As notas terrosas e harmoniosas derivadas dos cachos conferem profundidade, enquanto que, as notas de pimenta branca e um toque de eucalipto elevam o final. Corpo médio, com boa longevidade e intensidade, confere uma interessante nota de contraste ao portefólio da Vallado. 14.5%

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Casa do Rio, como um ninho de pássaros, o novo hotel boutique da Quinta do Vallado – Foto Cedida por Quinta do Vallado | Todos os Direitos Reservados

Um contraste que, tomem nota viajantes, está agora reflectido na sua sofisticada oferta de enoturismo desde que Francisco abiu a Casa do Rio no Douro Superior. Enquanto que os hóteis da Vallado estão situados bem perto da Régua e da agitação da cidade, a Casa do Rio fica nitidamente longe destes olhares. E, de facto, até fica à face de um caminho de terra batida e não perto de uma estrada. O caminho desce gentilmente pela vinha da Quinta do Orgal da Vallado, levando-nos até este pequeno hotel boutique (seis quartos) com vista para o Douro. Quase escondido por entre os patamares de vinhas como se de um ninho de pássaros se tratasse, e, embora os quartos beneficiassem com um melhor isolamento acústico, é um local espectacularmente tranquilo – um retiro natural. Recomendo.

Contactos
Quinta do Vallado – Sociedade Agrícola, Lda.
Vilarinho dos Freires
5050-364 – Peso da Régua | Portugal
Tel: (+351) 254 323 147
Fax: (+351) 254 324 326
Website: www.quintadovallado.com

Pormenor: O Diabo está nos detalhes

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Pormenor significa detalhe. Sem dúvida que Pedro Coelho olhou aos detalhes e fez o trabalho de casa – os seus primeiros lançamentos de Pormenor 2013, Douro, já esgotaram. Nada mal para um enólogo de primeira geração que me disse “o meu avó era um produtor de carvalho, o meu pai produtor de cortiça, por isso… era preciso que houvesse alguém na família que produzisse e bebesse vinho… esse alguém sou eu!!!!”

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Rolhas Pormenor – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Portanto, além do entusiasmo juvenil de Pedro pelo projecto, qual é a atracção? A embalagem é simples – não exagera – mas tem classe com um toque contemporâneo que chama a atenção na prateleira. E quão contemporâneo é lançar dois Douros brancos e um tinto! O seu consultor enólogo é o ex-Niepoort Luis Seabra, mais um detalhe, a cuja própria gama de vinhos Cru escrevi estas páginas anteriormente este ano.

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Pedro Coelho – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Tal como Luis Seabra, o objectivo de Pedro é o mostrar o Douro “no seu estado mais natural… com o mínimo de intervenção, dando prioridade às principais carecterísticas do Vale do Douro: vinhas, uvas, solo e clima”. E tal como a gama Cru de Luis Seabra, estes brancos são vivos e muito texturais. De certa forma, não são muito diferentes dos rótulos – sem exagerar mas a insinuar – encontram a sua própria marca.

Na realidade os brancos são o ponto mais forte, achei o tinto um pouco rústico. Algo que é fascinante se considerarmos que os brancos provêm da sub-região Douro Superior, normalmente mais seca e quente , e o tinto da sub-região Cima Corgo. Cima-Corgo, bem no “coração do Douro”, é recorrentemente citada como fonte dos mais elegantes vinhos do Douro e vinhos do Porto, e os Pormenor brancos mantêm essa fasquia – o diabo está nos detalhes, especialmente na especificidade do local. É precisamente este factor que explica porque é que, contrariamente a sabedoria recebida, o Douro Superior é uma das fontes de alguns dos meus vinhos brancos Douro favoritos. Por exemplo, Conceito, Quinta de Maritávora, Ramos Pinto Duas Quintas, Muxagat (apesar de, infelizmente, Mateus Nicolau de Almeida já não estar envolvido no projecto) e Mapa.

Aqui estão as minhas notas relativamente a estes lançamentos de estreia:

Pormenor Branco 2013 (Douro DOC) – este pálido vinho amarelo provém de vinhas muito velhas sobre xisto no Douro Superior, situadas entre 400 a 500 metros de altitude em Carrezeda, Ansiães. As uvas foram apanhas no fim de Agosto a fim de preservar a acidez. Aparentemente a Rabigato e a Códega do Larinho predominam, ambas as castas têm boa fruta, mas a Rabigato é alta em acidez e a Códega do Larinho é mais usave, menor acidez. O vinho foi fermentado e envelhecido em tanques inox. É um amarelo pálido com um palato altamente individual impregenado de abacaxi grelhado com canela, damasco e marmelo mais firme – bastante frutado para o Douro. Uma complexidade de mel de acácia e um nogado cremoso remetem para um palato sedoso e redondo. Uma madura e perfeita, ininterrupta acidez permitem um longo final. Bebe-se já muito bem e sozinho, tem peso e potencial para funcionar bem com pratos condimentados de peixe branco. 12.63%

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Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Reserva Branco 2013 (Douro DOC) – Similarmente, o blend de vinhas velhas (com a Rabigato e a Códega do Larinho a predominarem) foi colhido precocemente de vinhas em Carrezeda, Ansiães. No entanto, a fruta veio de vinhas mais altas, entre 600 a 800m de altitude, portanto, o palato do Reserva (amarelo ligeiramente mais escuro), é, mais firme, mais concentrado, com mais fruta de uva e mineral, assim que ultrapassada a madeira – gostei bastante mais no segundo dia, quando a madeira não foi tão intrusiva e terminou longo, focado e mineral. O Reserva foi naturalmente fermentado e envelhecido durante nove meses em barris de carvalho francês da Borgonha sem controlo de temperatura nem batonnage. Deixa-lo-ia repousar durante mais ou menos um ano de forma a permitir a integração da madeira. 12.5%

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Pormenor Branco Colheita 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

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Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – Foto Cedida por Pormenor Vinhos | Todos os Direitos Reservados

Pormenor Tinto 2013 (Douro DOC) – este blend de médio corpo de algumas uvas clássicas do Douro (principalmente Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Amarela e Rufete) provém de vinhas velhas com mais de 50 anos, em Soutelo do Douro, Cima Corgo, plantadas entre 500 a 600 metros de altitude. Foi fermentado e macerado em cubas de inox com alguns cachos inteiros (engaço e uvas) durante 25 dias e envelhecido durante 14 meses em barris de carvalho francês. Como o Reserva Branco, este vinho precisava de ar. Desta vez por causa de “ruído branco” terroso no nariz que prejudicou a fruta (e que inicialmente pensei ser causado por deterioração bacteriana, brettanomyces). No entanto, a lucidez do palato (da mesma garrafa) ao terceiro dia, sugere que tenha sido um perfil “engaçado” derivado da fermentação com os cachos. Como estava o Pormenor Tinto ao terceiro dia? Apresentou-se com groselha vermelha fresca, cereja e ameixa, com um toque subtil de “floralidade”. Apesar de os taninos serem terrosos e rústicos, não se meteram no caminho dos aspectos mais agradáveis deste vinho – a fruta e a frescura (de facto permitiram aquele bonito toque floral aparecer). Enquanto que a rusticidade remete para a ideia de Pedro mostrar o Douro “da maneira mais natural”, na melhor das hipóteses, os engaços na fermentação de cacho inteiro podem produzir vinhos com especiarias e estrutra empolgantes. Pedro disse-me que este vinho foi colhido no início de Setembro de forma a “manter o alto nível de acidez” mas, embora saude a frescura do palato, pergunto-me se os engaços não teriam benificiado mais se estivessem um pouco mais maduros? Claro que 2013 foi um ano complicado – a partir de 27 de Setembro houve um período de chuvas intenso que incentivou a colheita precoce. Estou sim, interessada em provar as próximas colheitas deste vinho. 12.5%

Contactos
Tel: (+351) 919 679 393
Email: geral@pormenor-vinhos.com
Website: www.pormenor-vinhos.com

Engenharia de Precisão: Monte da Ravasqueira Vinha Das Romãs

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Fiquei boquiaberta com os últimos lançamentos do Monte da Ravasqueira, em especial com o Monte da Ravasqueira Premium White 2012, o Premium Rosé 2013 e o Vinha das Romãs 2012. À terceira foi de vez porque, embora invariavelmente bem feitos, os vinhos deste produtor alentejano não foram amor à primeira vista. Escapou-me alguma coisa? Bem, até os melhores provadores de vinhos acordam do lado errado da cama.

Uma prova vertical em Junho passado respondeu, de certa forma, à minha pergunta. Provar diferentes colheitas do mesmo vinho é a minha maneira preferida de avaliar, não só pela “mão de Deus” (variação da colheita) mas também pela mão humana – as alterações a nível da viticultura e da abordagem na produção do vinho são também postas a nú. O que é que retirei ao analisar as três colheitas do Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs (2012, 2011, 2010)?

Se estivermos a falar da “mão de Deus”, todas as colheitas fizeram juz à expectativa. O 2012 apresentou-se elegante e com uma boa estrutura. O 2011, mais denso, mostrou uma fruta mais poderosa. Quanto ao 2010, estava relativamente aberto e acessível, com um toque de Alicante Bouschet, um toque rústico – significativamente o que menos melhorou com a idade (mesmo tendo em conta a sua relativa idade). Somando tudo, pareceu-me que o 2012 apresentou um toque extra de aprefeiçoamento – grande requinte. Com uma fruta mais brilhante e mais bem definida, mostrou-se mais equilibrado do que o 2011 que se inclinava mais para fruta demasiado madura. Para dizer a verdade, e contrariamente à informação que tinha em relação a estas colheitas, devo dizer que o 2012 irá superar confortavelmente o 2011 em tempo de vida.

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Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Single Vineyard 2012 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-About-Wine-Monte da Ravasqueira-Chief Winemaker Pedro Pereira Gonçalves monte da ravasqueira Engenharia de Precisão: Monte da Ravasqueira Vinha Das Romãs Blend All About Wine Monte da Ravasqueira Chief Winemaker Pedro Pereira Gon  alves

Enólogo Chefe Pedro Pereira Gonçalves – Foto Cedida por Monte da Ravasqueira | Todos os Direitos Reservados

Porquê? O blend varietal (70% Syrah, 30% Touriga Franca) é o mesmo, tal como a vinificação. Não penso que a diferença de um ano de vinha importe muito  (como regra geral, os vinhos atingem melhor equilíbrio com os anos). Para mim, a resposta reside na adopção de uma viticultura de precisão, em 2012, por parte da Monte da Ravasqueira (e da entrada do dinâmico Enólogo Chefe que a implementou, Pedro Pereira Gonçalves).

Utilizando uma frase do “The Oxford Companion to Wine” (Jancis Robinson MW), viticultura de precisão significa que “a gestão da vinha é efectuada de uma forma individual e direccionada, em vez de implementada uniformemente em grandes áreas”. Significa utilizar tecnologias como imagens infra-vermelhos, sistemas de posicionamento global (GPS) e sistemas de informação geográfica (SIG), primeiro para avaliar e depois para gerir as variáveis da vinha (como o tipo de solo, profundiade e estrutura) que influenciam a qualidade, quantidade e estilo do vinho.

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Vista de foto aérea do Monte da Ravasqueira – Foto Cedida por Monte da Ravasqueira | Todos os Direitos Reservados

Para Pedro Gonçalves, a gestão das variáveis de cada um dos 29 blocos de vinha do Monte da Ravasqueira, e até da mesma casta, tem sido a chave para a “verdadeira interpretação do terroir”. Voltando ao puro equilíbrio do 2012, percebe-se que a vinha mostrou todo o seu potencial, tornando fácil agarrar a uma menor densidade antes dos açucares da uva dispararem e a acidez natural estava boa. De qulaquer modo, certamente que explica o porquê de a colheita de 2012 ter um grau e meio a menos de volume de álcool.

Quando posteriormente revelei a Pedro Gonçalves as minhas impressões relativamente ao 2012, reconhecendo que a “mão de Deus” fez o seu papel (“2012 foi um ano fantástico para a Syrah e a Touriga Franca”), concordou com entusiasmo. Agora pegando nas palavras de Jennifer Aniston (!), “aqui vem a parte científica, concentrem-se”. De acordo com o enólogo, “com a informação que obtemos através das técnicas de viticulura de precisão, foi possível identificar os locais da vinha que apresentavam maior equilíbrio e separá-los dos outros. Não quer dizer que os outros tivessem menos qualidade, mas não eram o que estava à procura para o vinho Vinha das Romãs que é um equilíbrio entre álcool, taninos e acidez, qualidade de taninos (níveis elevados de antocianinas e IPT’s (antocianinas+taninos)) e os tipos de sabores de fruta (sabores mais complexos, fruta preta e perfis especiados sem aquela fruta fácil que por vezes encontramos na Syrah)”.

Aqui estão as minhas notas relativamente ao Vinha das Romãs. Curiosamente, Romãs refere-se à anterior encarnação da vinha – foi um pomar de romãs até 2002, altura em que foi substituído por uma parcela de 5 hectares de Syrah e Touriga Franca. A parcela é vinificada e engarrafada em separado porque produz uvas particularmente maduras e concentradas.

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Single Vineyard 2010 (Vinho Regional Alentejano) – um blend maioritariamente composto por Syrah e Touriga Nacional, com uma pequena percentagem de Alicante Bouschet e Touriga Franca (apesar do nome, o conceito de single vineyard ainda não estava implementado porque a vinha “Vinha das Romãs” apenas tem plantação de Touriga Franca e Syrah). O 2010 foi envelhecido durante nove meses em barris de carvalho francês – menos de metade do tempo do 2011 e do 2012. Isto, juntamente com a colheita em si, pode explicar o porquê de ser significativamente mais pálido e menos estruturado que as outras colheitas. No nariz e no palato apresenta um mentol distinto, um perfil especiado e notas pronunciadas de iodo, das quais me recordei da primeira prova do 2012 no início deste ano. Os tons de caça do aberto 2010, doce e com ameixa fazem-me lembrar de Rhône Syrah. Os taninos são maduros com um toque rústico. Bebe-se bem agora, não é para guardar. 14.5%

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Single Vineyard 2011 (Vinho Regional Alentejano) – Este blend especiado de 70% Syrah/30% Touriga Franca foi envelhecido durante 20 meses em barris novos de carvalho francês. É o mais escuro e denso dos três. Amora concentrada e madura, e notas de azeitona preta ainda mais madura (discutivelmente demasiado maduras) estão bem enquadradas com taninos maduros mas presentes. Um impulso firme de acidez agarra na fruta para um final longo. Um vinho vigoroso. 14.5%

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs Single Vineyard 2012 (Vinho Regional Alentejano) – o mesmo blend e evolução do 2011, mas é um vinho mais animado e móvel. Apesar de a amora e a ameixa estarem bem equilibradas e bem definidas, tem uma qualidade espacial que permite as notas de alcaçuz picante, eucalipto e iodo brilhem. Continuo impressionada com o perfil fresco e os taninos firmes, tipo romã, deste intenso mas elegante vinho – qualidades que sugerem que irá envelhecer muito bem – pelo menos durante uma década. 13%

Contactos
Monte da Ravasqueira
7040-121 ARRAIOLOS
Tel: (+351) 266 490 200
Fax: (+351) 266 490 219
E-mail: ravasqueira@ravasqueira.com
Website: www.ravasqueira.com

Foz Torto: Em busca da elegância

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Em 2000, Abílio Tavares da Silva, um empreendedor IT de Lisboa, começou a procurar por uma vinha. Certo que teria que ser no Douro, mas não foi fácil porque era meticuloso. Demorou cinco anos a encontrar o sítio certo. Nos dias que correm tem uma vista de topo sobre o Douro, em particular sobre as vinhas mais altas da Sandeman, na Quinta do Seixo, que está situada na outra margem do rio Torto, imediatamente oposta ao seu próprio pedaço de Douro, Foz Torto.

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Abilio Tavares da Silva no topo do mundo na Foz Torto – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Os 14 hectares de vinha, em patamares íngremes, da Foz Torto, descem até ao rio Douro. Não é apenas pela paisagem vertiginosa que se verifica desde o topo (320m) até ao rio (72m) que Abílio se sente no topo do mundo. Focando um pouco mais a questão, está a aperceber-se da paixão que o levou a vender o seu negócio, a realocar a sua família no Douro e a estudar enologia (tem um curso de Enologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro).

Porquê este lugar? Porque, diz Abílio, “estava à procura de elegância e equilíbrio e a minha vinha no rio Torto é conhecida, há já 200 anos, pelo seu poder e elegância”. “Maioritariamente em vinho do Porto”, acrescenta. E ainda hoje 80-85% das uvas são vendidas à Taylor’s para a produção de vinho do Porto. Atribui, parcialmente, esta reputação à Rufete, que é muito comum no Torto e “mais conhecida pela elegância do que pela força”.

Dito isto, substituiu cerca de 80% das vinhas originais (ficaram a sobrar 3 hectares de vinhas velhas). Justifica, “o vinhedo estava em mau estado porque pertencia a uma família que esteve envolvida em disputas em tribunal durante 10 anos”. A nova plantação inclui Rufete e Tinta Francisca, que o entusiasta de comida descreve como “condimentos” para a Touriga Nacional e a Alicante Bouschet também ali plantadas.

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O jardim de vegetais da Foz Torto – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Abílio é tão apaixonado pelos vegetais que plantou na Foz Torto quanto é pelas suas vinhas. Enquanto me dizia, “Acredito mesmo que as vinhas devem ser desfrutadas e visitadas como um jardim, e não apenas para produzir vinho.”, mostrou-me morangos, cebolas, feijões, batatas, árvores de fruto e oliveiras. Tal é zelo messiânico que tem pela intensidade de sabor da rúcula que me deu a provar que se esqueceu que (e eu também) estávamos prestes a provar os vinhos. A rúcula mais picante (tanto como o rabanete) que já provei e que, lamentavelmente, descalibrou o meu palato. Felizmente, Abílio foi amável e enviou-me amostras frescas para provar em Londres.

Os vinhos, o primeiros lançamentos, de 2010, são feitos com Sandra Tavares da Silva (não são parentes) que aperfeiçoou as suas habilidades de vinificação de Douro no Vale do Torto na Quinta do Vale Dona Maria antes de estabelecer a Wine & Soul com o seu marido, e também enólogo, Jorge Serôdio Borges. Abílio diz que Sandra é a “instrutora” para o “estagiário” que há em si. E, evidentemente, tal como eu, é um grande fã do requintado branco do Douro da Wine & Soul, Guru, já que adquiriu uma segunda vinha de vinhos brancos perto do local de onde provêm as uvas utilizadas na produção daquele vinho, em Porrais, Murça, a 600 metros de altitude. Devo dizer que gosto mais do Foz Torto branco, com grande personalidade, do que do tinto que, apesar de muito bem feito, não é tão elegante o quanto estava à espera dada a localização e o ano da colheita. Mas ainda são os primeiros tempos e Abílio gosta de estudar (para ele “o prazer é a viagem”). Estou mesmo interessada em acompanhar a evolução desta gama. De facto, com os conselhos da sua “instrutora”, que irão contribuir para que os seus vinhos sejam “mais elegantes e distintos”, já começou a instalar lagares para uma vinificação em quantidades menores na velha adega que está a restaurar no Pinhão. Como qualquer bom informático sabe que, “temos de prestar atenção a todos os pequenos detalhes”.

Aqui estão as notas relativamente aos seus últimos lançamentos:

Foz Torto Vinhas Velhas Branco 2013 (Douro) – produzido a partir de um pequeno (menos de um hectare) field blend maioritariamente composto por Códega do Larinho e Rabigato. Abílio disse-me que a vinha cheira a pólvora e, tal como o Guru, este vinho tem um perfil de cordite com, já no segundo dia, um toque feno-grego picante. Apesar de de não ser tão encorpado, poderoso ou longo quanto o Guru, gosto da sua mineralidade e do seu toque incisivo a toranja com limão mais maduro. Notas complementares e complexas de baunilha e óleo de limão, que se mostram graças ao envelhecimento em carvalho francês durante cinco meses. Tem muito do interesse e intensidade das vinhas velhas. 12.5%

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Um trio da Foz Torto – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Foz Torto Tinto 2012 (Douro) – Um blend com 40% Touriga Nacional, 30% Touriga Franca, 10% Tinta Francisca, 5% Tinta Roriz, 5% Alicante Bouschet, 5% Sousão e 5% Tinta Barroca de vinhas com 7-8 anos; foi fermentado durante 8 dias em tanque de inox e envelhecido durante 16 meses em barris de carvalho francês de 2º e 3º ano. Tem amora e ameixa maduras com chocolate preto, tanto no nariz como no palato, com ameixa, tabaco, couro, traços de whisky berber (chá de menta) e taninos de baixa granularidade. O tabaco está mais marcado no segundo dia. Um toque quente (álcool) atravessa a prova; beneficiaria com um pouco mais de definição e frescura. 14.5%

Foz Torto Vinhas Velhas 2012 (Douro) – um field blend de vinhas velhas com mais de 30 castas; foi fermentado durante 8 dias em tanque de inox e depois envelhecido durante 18 meses em barris de carvalho francês (30% novos, 70% 2º ano). Como seria de esperar, é mais concentrado, mineral e picante do que o cuvée mais novo, com cassis rico, mais maduro, ameixa preta mais suculenta e sumarenta e framboesa mais doce. O carvalho novo confere baunilha e notas mais pronunciadas de torrada e mocha. Um pouco maduro demais e quente para o meu gosto, apesar de beneficiar de taninos esbeltos e notas úteis de eucalipto no final. 14.5%

Um Royal Flush da Vasques de Carvalho

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Mendes

Nunca antes o Poker partilhou um pensamento com vinho do Porto. Pelo menos na minha cabeça. Mas, Royal Flush, foi o que me veio à cabeça quando a Vasques de Carvalho me revelou a sua mão inicial – os seus Tawny Ports de 10, 20, 30 e 40 anos, brilhantemente acondicionados.

Blend-All-About-Wine-Vasques de Carvalho-Tawnies vasques de carvalho Um Royal Flush da Vasques de Carvalho Blend All About Wine Vasques de Carvalho Tawnies

Estilo com substância da Vasques de Carvalho – Foto Cedida por Vasques de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

É uma estreia arrojada, topo de gama, num sector onde são bastante patentes as dificuldades de entrada. Pensem nisto, fundar uma nova Casa de vinho do Porto requer um stock mínimo de 150.000 litros, isto se, como a maior parte das Casas, a produção não for exclusivamente proveniente de vinhas próprias. Além disso, a entitulada Lei do Terço determina que, os produtores de vinho do Porto têm de manter em stock 3 vezes mais do que a quantidade que colocam à venda. Assim, e com esta tensão sobre o capital, pode dizer-se que as Casas de vinho do Porto não nascem da noite para o dia.

Então como é que a Vasques de Carvalho conseguiu? A resposta está na parceria por trás da marca. Em 2012 António Vasques de Carvalho herdou as adegas, os 6 hectares de vinhas muito velhas (mais de 80 anos) em Baixo Corgo e aproximadamente 45.000 litros de Portos velhos da sua família(incluindo um lote raro de Porto Tawny de 1880 que o seu avô, José Vasques de Carvalho, guardou em separado). Luís Vale da Kurtpace SA (uma empresa de construção), um amigo de longa data de António, injectou o capital, permitindo assim à Vasques de Carvalho aumentar o seu stock para o requisito mínimo de 150.000 litros. Além disso, a dupla começou a reconstruir a adega e a cave de barricas na Régua (sobre a qual António dorme, uma vez que a cave está situada por baixo de sua casa). A empresa também adquiriu outra adega em Pinhão que já conta com 75.000 litros a envelhecer em pequenos balseiros e tonéis, e também com 4 tonéis com capacidade para 40.000 litros.

O enólogo Jaime Costa está encarregue do portfólio. Tendo trabalhado durante 16 anos na Burmester, o já galardoado Enólogo de Vinhos Fortificados do Ano em 2005 pela Revista de Vinhos, está bastante entusiasmado por ter mais uma vez à sua disposição tão finos e raros vinhos do Porto envelhecidos. Depois das muitas notícias referentes aos Portos Tawny muito velhos, e caros, significa que os Portos Tawny estão finalmente a ter os seus dias de glória.

Para além dos Portos Tawny – a jóia da coroa da Vasques de Carvalho – o portfólio incluí também um vinho do Porto branco velho, um Vintage Port 2013 e vinhos do Douro (Oxum, X Bardos, Velhos Bardos Reserva). No próximo ano a empresa irá lançar a Late Bottled Vintage Port 2012, 880 garrafas de vinho do Porto Tawny muito velho 1880 e a primeira Aguardente Vínica DOC Douro. Apesar dos tintos do Douro, Oxum e X Bardos (ambos de 2012), não me terem impressionado, os Portos Tawny (os únicos Portos da Vasques de Carvalho que provei) impressionaram, especialmente o de 40 anos. A sua fantástica concentração e complexidade é indubitavelmente atribuída ao toque conferido pela presença da Vintage 1880, da qual a empresa mantém um considerável stock  – 1 tonél de 6.000 litros e duas barricas de 400 litros (estes últimos serão provavelmente para lançamento do Very Old Tawny do próximo ano. Jaime Costa disse-me que os 4 Tawnies são 90% provenientes de stocks velhos da Vasques de Carvalho e 10% de outros vinhos que a empresa comprou entre 2012 e 2014.

Blend-All-About-Wine-Vasques de Carvalho-Tasting vasques de carvalho Um Royal Flush da Vasques de Carvalho Blend All About Wine Vasques de Carvalho Tasting

Os Tawnies da Vasques de Carvalho em prova – da esquerda para a direita 10, 20, 30 & 40 anos – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Envelhecido no Douro (contrapondo com os climas mais frios e húmidos de Vila Nova de Gaia), o espectro de sabores dos Tawnies da Vasques de Carvalho é rico e escuro. Mas fiquei intrigada pelo seu requinte – um equilíbrio elegante, persistência (boa acidez) e integração suave e sedosa da aguardente vínica. Perguntei a Jaime Costa se isto seria, talvez, derivado da localizção da principal fonte de fruta (Baixo Corgo é relativamente frio e húmido). Concordou e respondeu “Acho que teve grande influência, porque as temperaturas para o envelhecimento não são tão altas como no alto Douro, e os vinhos ganham muito maior acidez, que será importante durante o envelhecimento e para equilibrar o nível de açúcar nos vinhos. Dessa maneira, obtém-se Tawnies consistentes que não causem enjoo enquanto bebemos vinhos do Porto velhos porque, como sabe, muitas vezes, os Tawnies velhos, por causa do açúcar, podem causar esse efeito.

Aqui estão as minhas notas de prova da gama de Tawnies da Vasques de Carvalho:

Vasques de Carvalho 10 Years Old Tawny Port – tom acastanhado e com ameixa seca e rica, figos, tâmaras secas caramelizadas e notas de frangipane no nariz, que persistem num palato sedoso e brilhantemente equilibrado com uma intensa ressonância nogada. Uma adorável frescura no final – não se sente que seja pesado apesar da riqueza do perfil de sabor. Um 10 anos com classe, concentrado, composto por vinhos entre os 7 e os 14 anos. 136g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 20 Years Old Tawny Port – um tom de Tawny carregado mas muito brilhante, bastante vermelho no núcleo, com uma penumbra mais para o amarelo. Com laranja caramelizada no nariz e palato cítrico, é também frutado e elegante com amêndoas tostadas, geléia de pêssego e camadas de baunilha bourbon. Mais uma vez muito sedoso, com casca de cassia e um palato amadeirado intenso. É composto por vinhos entre os 12 e os 25 anos. 138g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 30 Years Old Tawny Port – âmbar profundo, muito brilhante, com um nariz mais nogado do que o de 20 anos, não perdendo nada nos frutos secos – pêssego, figo seco, tâmaras, marmelada, bolo de mel, marzipan e notas de cravinho e casca de cassia. Na boca revela-se denso, camadas de um panforte concentrado com figo seco, nozes, especiarias e peles cítricas, bem como laranja de chocolate de leite e marmelada com pedaços. Notas de madeira atractivas (aquele carvalho apurado, aqui menos sabor a amêndoa e mais a noz) que estão bem integradas, tal como a sua aguardente vínica, que proporcionam um final longo, suave, intenso mas bem equilibrado. Composto por vinhos entre os 18 e os 40 anos. 131g/l de açúcar residual. 20%

Vasques de Carvalho 40 Years Old Tawny Port – Composto por vinhos envelhecidos entre 25 a 135 anos, e como isso se nota! O “40 anos” é um âmbar profundo no núcleo com bordas de açafrão que se esbatem para o verde azeitona. Notas de pastelaria de grande classe são abundantes num nariz e palato super complexos, ricos em mel e madalenas amanteigadas ricas em gemas de ovos, financier de amêndoa e panforte mais denso. Iodo subtilmente atenuante e notas de vinagrinho conferem tensão e ritmo – uma energia adorável. Sem qualquer sinal de secar, o final é fantasticamente persistente, muito nogado e muito cítrico com marmelada, pele de laranja cristalizada, e até laranjas caramelizadas (um testamento à sua frescura). Um requintado final a conhaque persiste bastante tempo. Delicioso. 144g/l açúcar residual. 20%

Contactos
Vasques Carvalho
Av. Dr. Antão de Carvalho n. 43
5050-224 Peso da Régua
Douro, PORTUGAL
Mobile: (+351) 915 815 830
Tel: (+351) 254 324  263
Fax: (+351) 254 324 263
E-mail: vasquescarvalho43@gmail.com
Website: vasquesdecarvalho.com

Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Blend é um nome brilhante para uma revista de vinhos portuguesa. Porquê? Porque os portugueses são exímios em blending – seja com diferentes castas ou diferentes colheitas. Ter mais de 250 castas nativas também ajuda. Estes artistas vínicos têm à sua disposição uma rica palete de aromas, sabores e texturas.

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Menu blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Menu

O Menu do Evento – Foto de Sip & Savour | Todos os Direitos Reservados

O terroir é, obviamente, outra variável. Um tópico que gostei de analisar em minúcia na prova de vinhos da Sip & Savour, no início deste mês, focada nas regiões Douro e Vinho Verde. Quando pensamos no típico Vinho Verde – fresco, branco, leve e de baixo teor alcoólico – é incrível pensar que a região vizinha, o Douro, produz um dos mais famosos vinhos fortificados do mundo – Portos ricos, tintos e robustos. Como pegar fogo à água do Vinho Verde.

Diverti-me ao contrastar seis exemplares de referência destas regiões nortenhas. Como seria de esperar, os Vinho Verde eram brancos e o duo do Douro tintos (ou assim esperava) – até aqui nenhuma surpresa. Mas também joguei um bocadinho com as percepções, uma vez que não destaquei apenas a frescura, mas também a intensidade dos Verdes de topo e a elegância dos tintos do Douro, ainda que estes últimos fossem originários do Douro Superior, teoricamente a mais quente e seca sub-região. As surpresas continuaram com o vinho escolhido para a sobremesa, um Moscatel do Douro, que provou que o Douro também pode fazer fortificados elegantes.

Voltando à minha analogia fogo e água, a água é uma excelente pista para a grande diferença entre estas duas regiões vizinhas. Situada ao longo do Atlântico e recortada por rios que transportam esta influência até ao interior, a região Vinho Verde é mais húmida e fresca do que a do Douro, rodeada por terra. Saindo do Porto é necessário viajar 100km para se alcançar a região do Douro, que se estende por outros 100km para o interior, em serpenteado, rio Douro acima, até à fronteira com Espanha.

Enquanto que a região vitivinícola Vinho Verde tem um clima maritimamente influenciado (especialmente as partes mais junto à costa), o Douro está abrigado, pela cadeia montanhosa do Marão, do impacto das condições climatéricas do Atlântico. O Marão está situado entre as duas regiões e eleva-se até aos 1415m de altitude (acima do nível médio das águas do mar). A pura verticalidade e massa que apresenta têm um efeito arco-sombra e ajudam o Douro a manter as tempestades atlânticas afastadas.

O facto de o Douro estar localizado no interior também resulta num clima continental, caracterizado por temperaturas extremas. Como um enólogo vivamente apontou, o Douro tem “nove meses de inverno e três meses de inferno”. De volta ao fogo, mas não ao inferno, fogo e perdição! As temperaturas durante o Outono podem chegar acima dos 40ºC (o que é perfeito para vinificação de Porto e tintos), mas as boas notícias são que essas temperaturas não ocorrem por estação mas sim numa constante diária. Durante o Outono, mesmo estando 40ºC durante o dia, a temperatura desce drasticamente à noite.

Além disso, a elevação também tem um papel. Relembro que subimos o Marão até ao Douro – alguns dizem que subimos ao céu e não ao inferno! E, sendo o Douro, ele próprio, montanhoso, as uvas são cultivadas a altitudes, entre 100m-900m, e em todas as direcções – Norte, Sul, Este e Oeste. Uma vez que as temperaturas podem descer até 1ºC por cada 100m que se suba, e, além do facto de que a forma influencia a exposição ao sol e vento, que por sua vez causam impacto no processo de amadurecimento, o Douro pode produzir brancos e tintos elegantes tanto como tintos e Portos robustos. Foi elegância que procurei para esta prova Sip & Savour em pleno Verão.

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Lunch-Sixtyone-Restaurant blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Lunch Sixtyone Restaurant

Sixtyone Restaurant – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Naturalmente, a escritora gastronómica da Sip & Savour, Amber Dalton, surgiu com uma excelente sugestão, o Sixtyone Restaurant. O Chefe Arnaud Stevens tempera sabores arrojados com o seu toque elegante. Disse-nos que na preparação do menu desta prova estava bem informado para harmonizar com a acidez – frescura – dos vinhos portugueses.

O que me traz ao nosso primeiro exemplar, o aperitivo, refrescante e intensamente mineral Quinta do Ameal Loureiro 2013. Escolhi deliberadamente um Vinho Verde monovarietal e sub-regional para descartar de imediato os estereótipos de que os Vinhos Verdes são demasiados diluídos e acídicos. Localizada em Nogueira, o coração da sub-região Lima, local onde a casta Loureiro prospera, a Quinta do Ameal há muito que produz exemplares de referência.

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Lunch-Quinta-do-Ameal blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Lunch Quinta do Ameal

Quinta do Ameal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

O segredo para o sucesso da Quinta do Ameal? Aparte de estar localizada no sítio certo (em Lima, nas encostas viradas a sul), a sua incessante ambição também ajuda. Pedro Araújo, o proprietário, é descendente de Adriano Ramos Pinto, famoso no mundo do vinho do Porto, e trouxe para a Quinta do Ameal o toque mágico do seu bisavô. Por isso, no que toca a matéria prima, Pedro reduziu o rendimento das colheitas de modo a garantir que as suas uvas orgânicas sejam saudáveis e concentradas em aroma e sabor. Para a adega contratou nada mais nada menos que Anselmo Mendes, o guru do Vinho Verde, para garantir a preservação dos aromas e sabores a limão e aipo salgado, bem como da mineralidade fresca, das suas uvas no copo. Bem recebido, foi o tónico perfeito num dia tão quente e húmido em Londres.

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Lunch-Octupus-Carpaccio blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Lunch Octupus Carpaccio

Carpaccio de Polvo – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para a harmonização com Vinho Verde que apreciamos com um fenomenal carpaccio de polvo, pimentão vermelho, azedinha e sésamo, procurei por ainda mais intensidade e concentração. Assim sendo, fazia sentido apresentar a mais seca e quente sub-região do Vinho Verde, Monção e Melgaço, o epicentro da emblemática casta Alvarinho. E ainda por cima dois dos seus expoentes máximos, Quinta do Soalheiro e Anselmo Mendes.

Apesar de ser expectável que seja um lugar mais fresco do que Lima a sul, a sua localização no interior, onde as terras começam a subir e a topografia ajuda a proteger as vinhas das influências Atlânticas, conferem-lhe um clima mais continental, o que ajuda a explicar o porquê de as uvas atingirem um nível tão bom de maturidade (dias mais quentes) e manterem, no entanto, tão boa acidez (as noites são significativamente mais frias). Dá lugar aos vinhos da região com mais fruta, porém frescos, e com mais longevidade; o meu público ficou impressionado com relativa delicadeza e mineralidade do Loureiro em comparação aos dois Alvarinhos.

Quanto à harmonização que mais gostaram – nos eventos da Sip & Savour perguntamos sempre que vinho é que as pessoas mais gostaram sozinho e qual é que gostaram mais com a comida – neste caso a resposta foi a mesma. O Quinta do Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 bateu o Anselmo Mendes Contacto Alvarinho 2014 em ambas as situações. Feito com uvas das vinhas mais velhas da propriedade de cultivo orgânico da família Cerdeira (plantadas em 1974, foram as primeiras de Melgaço) e com uma componente de fermentação em barril (15%), o Quinta do Soalheiro Primeiras Vinhas Alvarinho 2013 mostrou uma maior complexidade. As suas subtis nuances salgadas combinaram excelentemente com o vinagre Sherry, o óleo de sésamo e pinhões presentes no polvo marinado. Mas a diferença foi muito pouca. Também adorei o perfume de madressilva e a abundância de pêssego e damasco do mais arrojado Contacto, proveniente de vinhas mais baixas, perto do rio Minho, em Monção (Curiosamente, o nome deste vinho é derivado do facto de as suas uvas, depois de esmagadas, se manterem em contacto com as peles durante um curto período de tempo antes da fermentação. Porquê? Porque as peles contêm a maior parte dos compostos dos aromas e dos sabores, e também podem conferir um toque de textura extra ao vinho).

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Lunch-Main-Course blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Lunch Main Course

Galinha d’Angola assada – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para o prato principal, que foi Galinha-d’angola assada com sementes de cacau, tomates, ervilhas, azeitonas pretas e lima, escolhi dois tintos do Douro, o Casa Ferreirinha Vinha Grande Tinto e o Conceito Contraste Vinho Tinto. Ambos da elegante colheita 2012 e feitos por enólogos que colocam grande ênfase na frescura e no equilíbrio.

Na Casa Ferreirinha (que produz o icónico tinto do Douro, Barca Velha), Luís Sottomayor segue uma tradição de selecção de uvas de diferentes altitudes para obter um equilíbrio mais elegante. O facto de a Sogrape (proprietária da Casa Ferreirinha) ter duas propriedades no Douro Superior  – a Quinta da Leda a 150-400m de altitude e a Quinta do Sairrão que chega até aos 600m de altitude – também ajuda. Quanto a Rita Ferreira Marques, alega que a frescura dos seus vinhos Conceito é derivada do vale da Teja, o local mais frio do vale do Douro. Não só pela elevação (as suas vinhas estão situadas a 300-450m de altitude), mas também pela distância que o vale da Teja apresenta em relação ao rio Douro. Uma qualidade (frescura) que pude demonstrar com mais ênfase do que estava à espera quando recebi a informação de que o seu importador tinha enviado o Contraste branco em vez do tinto!

A inesperada harmonização do prato principal com um vinho branco e um tinto trouxe-me à memória as sábias palavras de João Pires sobre guiar-se pela cor do prato. Não é por acaso que é um Master Sommelier! Como muitos vinhos brancos portugueses, o Conceito Contraste Branco não é demasiado frutado e, com as suas notas vegetais, proporcionou uma harmonia com as notas de tomilho, alecrim e tomate, bem como com a proteína; a sua acidez também cortou com o molho cremoso. A maior parte preferiu-o com a Galinha-d’angola. Por outro lado, devido à sua excelente fruta primária, os votos foram para o Casa Ferreirinha Vinha Grande Tinto quando bebido sozinho. A fruta era um pouco intensa para os sabores delicados e texturas cremosas do prato.

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Lunch-Desert blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Lunch Desert

A sobremesa – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Só de olhar para esta sobremesa já dá para ganhar peso! Basta dizer que seria difícil encontrar um vinho que se conseguisse sobrepor a esta torta de chocolate e caramelo salgado com marshmallow de caramelo e gelado de caramelo salgado. O desafio era encontrar um vinho que lhe conseguisse fazer frente e, portanto, um fortificado fazia todo o sentido. Mas para a sobremesa e o vinho de sobremesa serem pronunciados como uma harmonização perfeita (como foram), o vinho tinha de ter suficiente frescura para cortar a riqueza do prato e limpar o palato depois de cada (divinal) colherada. Eis o Moscatel do Douro, o vinho fortificado menos conhecido do Douro, já para não dizer o Moscatel fortificado menos conhecido de Portugal (o Moscatel de Setúbal é o mais conhecido).

Blend-All-About-Wine-Sip-and-Savour-Quinta-do-Portal blend Quando a Blend conheceu a Sip & Savour e o Fogo encontrou a Água Blend All About Wine Sip and Savour Quinta do Portal

Quinta do Portal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Os Moscatéis do Douro são feitos com Moscatel Galego, a.k.a. Muscat à Petits Grains, uma variação diferente e mais delicada da Moscatel de Setúbal. O vinho escolhido, Quinta do Portal Moscatel do Douro Reserva 2004, é proveniente de vinhas muito altas (600m), frias e que preservam a acidez, da família Mansilha Branco, em Favaios, no topo norte do vale do Pinhão. Não só teve a frescura necessária para conferir equilíbrio ao conjunto (especialmente quando servido frio) mas, tendo sido envelhecido por vários anos em madeira (nenhuma nova), também teve a profundidade de sabor e complexidade para casar com a tarte de chocolate e todos os seus intrínsecos e texturais acompanhamentos. Tão bom que o restaurante mergulhou num silêncio reverencial durante vários minutos! Um final perfeito.

Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Foi emocionante apresentar uma prova em nome da Comissão dos Vinhos do Alentejo num dos melhores novos restaurantes de Londres, a Taberna do Mercado. E o que é ainda mais emocionante é que, além do Chefe ser português, a comida e os vinhos também são. O que pode parecer uma coisa estranha de se dizer mas, até agora, o nome de Nuno Mendes esteve associado aos pratos inovadores e ecléticos do seu anterior restaurante estrela Michelin, o Viajante, e agora com o menu de sotaque americano no Chiltern Firehouse (onde é o Chefe principal).

Blend-All-About-Wine-Taberna-do-Mercado-Tasting-Nuno-Mendes alentejo Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal Blend All About Wine Taberna do Mercado Tasting Nuno Mendes

Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Numa entrevista com Nuno Mendes,há um par de anos atrás, deixou fugir a ideia de que tencionava abrir em Londres um restaurante “muito casual, divertido e moderno mas ao mesmo tempo rústico”. Mas havia um problema. Explicou que, apesar da “abundância de produtos únicos e de qualidade” em Portugal, era difícil de obtê-los. Porquê? A resposta foi que “a produção é muito limitada em termos de quantidade e também porque muito poucos produtores artesanais vêem potencial além do mercado local para expandir o seu projecto”.

Completamente à espera que Nuno Mendes tivesse ultrapassado estes desafios, perguntei-lhe o que tinha mudado desde a nossa última conversa. Perguntou-me “prefere a reposta simpática ou a resposta verdadeira?”. Naturalmente que respondi que queria a verdade! Admitindo “isto entristece-me”, Mendes demonstra continuar visivelmente frustrado pelo facto de, no Reino Unido, continuar a ser quase impossível obter os melhores produtos portugueses dos quais se pode sentir “super -orgulhoso”. Salientou que os importadores portugueses no Reino Unido “se destinam maioritariamente a abastecer a comunidade expatriada (em vez dos restaurantes topo de gama com clientes exigentes e viciados em comida). Fez-me lembrar de um ponto que Mendes tinha salientado quando nos conhecemos pela primeira vez, o quão importante era “estar ciente do que está a acontecer no mundo do vinho e da gastronomia de modo a conseguirmos encaixar na realidade das outras pessoas”. É por isso que, acrescenta, “tive que me afastar” de Portugal quando o Viajante abriu – a gama de produtos não se encaixava com a realidade estrela Michelin do restaurante. Não era “nada de espectacular”, e não podia contar com a consistência do fornecimento.

Blend-All-About-Wine-Taberna-do-Mercado-Tasting alentejo Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal Blend All About Wine Taberna do Mercado Tasting

Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

As boas notícias? Vendo a Taberna do Mercado como “um portal para chegar aos bons recursos de Portugal” diz-me que, “não vou desistir”. Mendes pode ter um discurso suave e um comportamento modesto, mas há uma determinação de aço nos seus olhos de quando revela a solução. Salientando que, “tenho muitos mais contactos que os importadores aqui sediados” (já para não mencionar a meticulosidade inerente a um Chefe Michelin em busca apenas do melhor), tenciona abrir o seu próprio negócio de importação/exportação. Afinal, a sua reputação depende disso. E está muito em jogo, ao mesmo tempo que diz que é prematuro, dados os problemas de fornecimento, apontar a comida portuguesa como a próxima grande novidade assim como sugeriu recentemente o The Daily Telegraph. É por isso que afirma que, “agora é que entra a parte da pesquisa… não podemos relaxar, temos de nos esforçar e trazer o melhor…temos de evoluir”. Não há espaço para a complacência.

Pouco depois da prova, parei para reflectir sobre os comentários de Mendes em relação ao vinho português quando um jornalista me perguntou porque é que ainda não atingiu o topo. Tenho o prazer de informar que o Reino Unido tem estado bem melhor servido em relação a importadores de vinho, em particular especialistas em vinho português, como a Raymond Reynolds e a Oakley Wine Agencies que têm ajudado os produtores seus clientes a navegar com calma no exigente mercado do Reino Unido. Mas se, como Mendes, tiver que ser uma amiga crítica de Portugal, a verdade é que ainda muitos produtores portugueses têm de encontrar maneira de encaixar nas realidades do mercado do Reino Unido, que é largamente reconhecido como o mais competitivo do mundo. Além disso, o ‘cellar palate’ (ficar demasiado habituado aos nossos próprios vinhos, incluindo as falhas) pode ser um problema. É por isso que os produtores de vinho com mais sucesso continuam a visitar o Reino Unido, para compreenderem onde os seus vinhos se encaixam melhor (e para compará-los com a concorrência). Também ajuda a certificar que continuam a ser vistos e ouvidos no nosso concorrido e barulhento mercado. Foi um desafio ao qual me predispus com gosto.

Felizmente, os oito produtores de vinhos que apresentei na minha masterclass na Taberna do Mercado estão representados no Reino Unido. Mas ainda há trabalho a ser feito já que o Alentejo construiu a sua reputação no Reino Unido numa base de tintos de grande valor, fáceis de abordar e frutados. O próximo passo é aumentar a visibilidade e valorização dos seus tintos e brancos premium, baseados no terroir, por entre os amantes de vinho de qualidade (os vinhos brancos representam agora 20% dos vinhos do Alentejo).

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Eu e Nuno Mendes a falar sobre o vinho e a gastronomia do Alentejo – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

A minha escolha de vinhos foi acompanhada pela opinião contemporânea de Mendes sobre os petiscos (como inseri-los na realidade do mercado do Reino Unido) e seguida de uma excelente prova de azeites do Alentejo conduzida por Teresa Zacarias da Casa do Azeite. Aqui estão as minhas notas relativamente aos vinhos, juntamente com algumas informações sobre o que individualiza esta escolha diversa em termos de terroir e vinificação. Como irá reparar, o Alentejo não é tão plano e ininterruptamente quente como estereótipos regionais nos fazem acreditar. Além disso, todas as uvas foram apanhadas à mão.

Herdade do Rocim Olho de Mocho Reserva Branco 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este monovarietal Antão Vaz vem da Vidigueira, uma das oito sub-regiões da DOC Alentejo. Apesar de ser a que fica mais a sul, tem uma longa tradição de produção de vinhos brancos. Porquê? Porque tem tudo a ver com a disposição da terra, especificamente, a falha da Vidigueira, uma escarpa de 50Km virada a oeste conhecida como a Serra do Mendro que marca a fronteira entre o Alto e Baixo Alentejo. Subindo até aos 420m de altura aprisiona os frios e húmidos ventos atlânticos que arrefecem a região com nevoeiros nocturnos. O ar frio também desce pela Serra do Mendro durante a noite. Além disso, quando os ventos do sul trazem nuvens, a escarpa causa um aguaceiro. Para a enóloga Catarina Vieira, estas são as razões pelas quais “os vinhos muito minerais, elegantes e frescos da Vidigueira envelhecem muito bem”. Acredita que os solos arenosos também melhoram a mineralidade da sua Antão Vaz, proveniente das suas melhores, cultivadas a seco (apenas água da chuva) e de baixa produção, vinhas velhas (24 anos).

Vinificação: Uvas colhidas à mão e cedo (a 3 e 4 de Setembro) de modo a preservar a frescura (sem acidificação necessária), o vinho fermentou em barris novos de Carvalho Francês de 300 litros, aproximadamente durante vinte dias. De seguida foram retiradas as borras e estagiou em barril por cinco meses. Durante esse processo, as borras foram envelhecidas durante dois meses em barris de 2ª mão com batonnage diária, aproximadamente durante um mês, e depois foram readicionadas ao vinho. Para Catarina, “este trabalho com as borras é muito importante no que toca a mineralidade, frescura e potencial de envelhecimento deste vinho”.

Notas de Prova: Graças ao trabalho com as borras, demonstra, no nariz, notas de fósforo ao ser acesso, e palato alimonado, com notas de azeitona verde, ananás verde e, ao abrir-se, pêra seca. Um final longo, firme e mineral com uma acidez atoranjada e atrevida que fez durar a minha garrafa de amostra até ao 3º dia. 13.5%

Blend-All-About-Wine-Taberna-do-Mercado-Tasting-House-Canned-Fish alentejo Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal Blend All About Wine Taberna do Mercado Tasting House Canned Fish

Conservas da Casa ao estilo de Nuno Mendes – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Cartuxa Pêra Manca Branco 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: Este blend de 62% Antão Vaz e 38% Arinto vem de Évora, outra sub-região da DOC Alentejo. Desta vez do Alto Alentejo. A fruta foi seleccionada de três parcelas das vinhas mais antigas da Cartuxa, situadas em encostas que se elevam até 300 metros acima do nível médio das águas do mar. Plantadas em 1980 em solos graníticos castanhos, as vinhas foram cultivadas a seco.

Vinificação: Para este branco mais encorpado e tradicional, a fruta foi colhida à mão mais tarde e em três fases, para obter mais complexidade (12, 18 e 19 de Setembro). A seguir ao desengace e ao esmagamento, uma parte das uvas foi deixada em contacto com as peles antes da fermentação. Sessenta e sete por cento do vinho foi fermentado e envelhecido em borras durante 12 meses em barris (60% novos) de carvalho francês com batonnage, para potenciar o corpo, a complexidade e o potencial de envelhecimento. O equilíbrio foi envelhecido em aço inox (para melhorar a fruta) com muita batonnage (para o corpo). Não houve qualquer acidificação.

Notas de Prova: Nariz rico e a cera de abelha, com frutos de caroço, especialmente alperce perto do núcleo, cujas notas se prolongam no palato com um nogado pronunciado (marzipan/calisson fresco) e carvalho abaunilhado. Apesar de apresentar um pouco de volume, tem um esqueleto maduro mas picante, de acidez cítrica que confere equilíbrio e provoca um final longo, saboroso e a borras, com nuances de casca de limão e laranja. Um vinho poderoso, que frequentemente me recorda um Hermitage no Norte de Rhône, França. 13.5%

Monte da Ravasqueira MR Premium Rosé 2013(VR Alentejano)

Terroir: Este Rosé, 100% Touriga Nacional, é de Arraiolos, Évora, Alto Alentejo. Para o enólogo Pedro Pereira, a chave da frescura da gama Monte da Ravasqueira reside na variação muito patente da temperatura diurna da propriedade. Mesmo nos meses mais quentes, Julho e Agosto, em que as temperaturas podem atingir os 40ºC, à noite podem descer abaixo dos 10ºC. As noites frias ajudam as uvas a reter a acidez de uma melhor maneira; também é bom para os aromas e para a estrutura. Gonçalves atribui esta forte variação de temperatura à natureza topográfica, tipo anfiteatro, da vinha (os 45 hectares estão plantados em encostas que chegam até aos 270m), bem como à floresta adjacente e às barragens. Apesar de ser necessária uma irrigação suplementar, os solos argilo-calcários têm uma boa retenção de humidade e as mais exteriores, de solo granítico, parecem melhorar a mineralidade/frescura, tal como no Dão.

Vinificação: Uma vez que o estilo de Gonçalves gira à volta de “frescura + complexidade (uma matriz de sabores) + natureza varietal + intensidade + concentração”, seleccionou a fruta a partir de cinco parcelas diferentes (por linha de orientação-exposição, tipo de solo e gestão da vinha). Fruta colhida à mão em diferentes dias, compreendidos entre 8 e 27 de Setembro. As uvas foram mantidas em contentores frigoríficos entre 2 a 20 dias, a 2ºC, para a concentração e para melhorar o potencial aromático e a fruta. Duas parcelas foram prensadas directamente para barris novos de carvalho francês e fermentadas naturalmente com batonnage em sólidos. As outras três foram primeiramente repousadas e inoculadas com levedura, antes de serem transferidas para barris novos de carvalho francês no segundo dia de fermentação. As cinco parcelas foram então envelhecidas em borras durante seis meses, com batonnage suave durante os primeiros 2 meses.

Notas de prova: A Touriga Nacional parece encaixar bem nos vinhos rosés e este é um exemplo incomum. Salgado mas frutado, encorpado mas fresco. É absolutamente delicioso com borras cremosas e salgadas, delicados morangos silvestres, bolinhos de morango e chá de pêssego refrescante. Acidez mineral confere frescura e persistência num final duradouro.

Susana Esteban Aventura Tinto 2013 (VR Alentejano)

Terroir: este primeiro tinto é do Alto Alentejo mas é um blend das sub-regiões DOC. Esteban selecciona a Aragonês e a Touriga Nacional (40% e 20% da blend respectivamente) de um vinhedo com 15 anos, em Évora, a 300m de altura em solos argilo-calcários. O equilíbrio vem da mistura de um field blend em Portalegre, a sub-região mais a norte do Alto Alentejo, com 30 anos. Não é só a localização a norte que faz com que Portalegre seja a área mais fria e húmida do Alentejo. A Serra de São Mamede – a mais de 1000m de altitude, o ponto mais alto do Sul de Portugal – confere uma considerável elevação (até 800m) e solos graníticos pobres. Uma vez que o objectivo de Esteban é “produzir um vinho fresco, com carácter mas ao mesmo tempo apelativo”, vai a Portalegre buscar a frescura e a austeridade, ao passo que Évora providencia o calor que a enóloga pensa ser necessário para que a Touriga Nacional e a Aragonês precisam para demonstrar o seu potencial (Salientando que “tenho em atenção para escolher apenas com 13% a 13.5% de álcool”).

Vinificação: as uvas são colhidas à mão e fermentadas naturalmente (sem nenhuma acidificação) em pequenos lagares de inox a temperatura controlada. Aprecio bastante o facto de Susana se ter focado apenas na fruta e na frescura – este vinho é unoaked.

Notas de prova: fantástica textura e vibração (pensem em veludo esmagado) de frutas silvestres em puré (assim parece), puras e acabadas de colher. Taninos suaves e uma jovem acidez reforçam o imediatismo encantador deste tinto jovial. Adorável. 13.5%

Blend-All-About-Wine-Taberna-do-Mercado-Tasting-Casa-do-Porco-Preto alentejo Um sabor a Alentejo no Novo Portal de Londres para Portugal Blend All About Wine Taberna do Mercado Tasting Casa do Porco Preto

Casa do Porco Preto, Alentejo na Taberna do Mercado – Foto de Charmaine Grieger | Todos os Direitos Reservados

Herdade de São  Miguel Reserva 2012 (VR Alentejano)

Terroir: A Herdade de São Miguel está situada na sub-região (DOC) Redondo do Alto Alentejo. Para Alexandre Relvas júnior, a Serra d’Ossa (que sobe até 650m) abriga as vinhas de Redondo dos ventos que sopram de norte e de este, e providencia invernos secos e frios, em contraste com os verões quentes e ensolarados. A vinha está localizada a 400m de altitude em solos de argila/xisto de baixo rendimento que produzem bagas pequenas e concentradas. Este vinho é um blend composto por 80% de Alicante Bouschet, 15% Aragonez e 5% Cabarnet Sauvignon proveniente de vinhas com 13 anos de idade.

Vinificação: fruta colhida à mão é totalmente desengaçada e sujeita a 48h de absorção antes da fermentação em lagares de inox abertos com pigeurs automáticos para uma extracção mais suave. Também é sujeito a uma pequena oxidação natural para “ajudar a corrigir logo à partida a cor e os taninos”, diz Relvas. Foi envelhecido durante 12 meses em barris de carvalho francês de 400 litros (50% novos).

Notas de Prova: nariz intenso a groselha e amora com toque de madeira abaunilhada e nuances de xisto empoeirado, que seguem durante o suculento palato com uma frescura adorável. Apesar de representar apenas 5% do blend, a Cabarnet Sauvignon é bastante evidente no perfil de sabor (groselha com notas de menta) e taninos finos, minerais e de cascalho. Não tem a concentração ou complexidade dos vinhos (mais caros) que se seguiram, mas é equilibrado e persistente. Muito bem feito, suporta bem os seus 15% de volume.

Quinta do Mouro Touriga Nacional 2010 (VR Alentejano)

Terroir: Este monovarietal de Touriga Nacional é de Estremoz, na sub-região Borba (DOC) do Alto Alentejo. Fica a norte de Redondo e da Serra d’Ossa, o que confere um pouco de protecção dos ventos quentes a sul. Uma vez que a Quinta do Mouro está situada a 420m de altitude, a elevação também tempera o clima, da mesma maneira que as descidas bruscas de temperatura durante a noite, as quais, segundo o enólogo Luís Louro, podem ser 20 graus abaixo da temperatura durante o dia, “especialmente nas últimas fases de amadurecimento, e os nevoeiros são comuns”. Solos xistados e vinhas cultivadas a seco também contribuem para o estilo muito estruturado, característico e de bom envelhecimento dos tintos da Quinta do Mouro. Proveniente de uma vinha do Douro “muito boa” de 1998, a Touriga Nacional foi enxertada em vinhas de Castelão que tinham sido plantadas em 1989.

Vinificação: uvas colhidas à mão e parcialmente desengaçadas, deixando cerca de 10% do cacho para obter um pouco mais de estrutura e sabores mais frescos. As uvas foram pisadas a pé em lagares e foram sujeitas a dois dias de absorção a frio antes da fermentação. Terminaram a fermentação em tanques inox de temperatura controlada e, após a prensa, foi envelhecido durante 12 meses em barris novos de carvalho francês de 300 litros.

Nota de prova: cor de ameixa, opaca e profunda, com perfume exótico de bergamota que eleva o concentrado palato a framboesa, ameixa e baunilha, juntamente com notas vivas e apimentadas, sálvia seca e hortelã. Taninos com uma textura acamurçada clivam os sabores no palato, ampliando a sua intensidade e a ressonância do palato. Poderoso, um pouco selvagem, mas equilibrado. Um carismático monovarietal de Touriga. 14%

João Portugal Ramos Marquês de Borba Reserva 2012 (DOC Alentejo)

Terroir: também de Estremoz, este blend compost por 30% Trincadeira, 30% Aragonês, 25% Alicante Bouschet e 15% Cabarnet Sauvignon vem da vinha original de João Portugal Ramos. As vinhas, plantadas em 1989, estão situadas à volta de sua casa e têm sido a fonte do seu vinho desde que foi feito pela primeira vez, em 1997. Localizadas a 350m em solos de xisto muito velhos.

Vinificação: As uvas foram colhidas à mão durante a noite e de manhã cedo. Parcialmente desengaçadas (50%) e início de fermentação (natural) em lagares de mármore com pisa a pé. Para Ramos, as vantagens dos lagares incluem, uma maior área de contacto entre o líquido e a parte sólida do mosto, homogeneização suave do mosto (porque é formada uma camada mais fina em comparação com os tanques normais) e a estética do mármore local (que, por acaso Nuno Mendes também utiliza nos tampos das mesas na Taberna do Mercado). O último terço da fermentação é feito em tonéis de inox, beneficiando de temperatura controlada. A maceração pós-fermentação dura, normalmente, duas semanas. O vinho estagia depois durante 18 meses em barris de carvalho francês de 225 litros (dois terços dos quais são novos).

Notas de prova: um tinto muito polido, com tabaco e caixa de charutos no nariz e no palato. Frutos vermelhos a dominar o ataque, enquanto a Cabarnet se torna mais assertiva com o desenrolar, conferindo groselha bem definida e um revestimento pulverizado de taninos finos mas em pó que ganham vida na boca. Seco, firme, focado e muito fino com uma excelente frescura a equilibrar. O mais fechado dos tintos, com um grande potencial de envelhecimento. 14.5%

Herdade do Mouchão 2010 (VR Alentejano)

Terroir: este blend com cerca de 70% Alicante Bouschet e 30% Trincadeira é de um dos produtores mais estabelecidos da região, a Herdade do Mouchão, que pertence à mesma família desde 1874. Mouchão foi a primeira vinha de Alicante Bouschet a ser plantada e os vinhos actuais denotam a sua origem genética do século 19. Mouchão fica em Sousel, a norte de Borba, no Alto Alentejo. A Alicante Bouschet é seleccionada de várias parcelas perto da adega, a cerca de 230m de altitude, com idades entre os 10 e os 30 anos. Situada num triângulo entre dois pequenos rios, os solos arenosos superiores são bem drenados mas o barro das profundezas retém a humidade que permite um amadurecimento equilibrado e confere frescura e boa acidez. A imagem de marca do Mouchão é o grande potencial de envelhecimento. A Trincadeira de peles finas beneficia por ter sido plantada mais alta, em solos bem drenados a cerca de 400m de altitude.

Vinificação: este vinho, o mais tradicional, teve as suas uvas apanhadas à mão e fermentadas nos lagares de pedra originais da adega com 100% de engace. Depois é envelhecido em grandes e velhos toneis de 5000 litros durante dois ou três anos. Estagia ainda mais dois a três anos em garrafa antes de ser lançado no mercado.

Notas de prova: uma cor muita profunda com um palato e nariz muito complexos – é quase uma refeição – mas equilibrados. O Mouchão 2010 tem camadas de figo maduro seco, azeitona preta e pele incipiente com um floral tintado, tabaco, whisky berber (chã de menta estufado) e notas de eucalipto. Robusto, picante, taninos orientados à uva ganham vida na boca, mas no entanto está tudo bem integrado – nem um pouco agressivo. Um final muito longo e envolvente com um travo do calor da terra desta propriedade. 14%

Beber como um Rei: Moscatel de Setúbal, o Líquido de Ouro da Península de Setúbal

Texto Sarah Ahmed | Translation Bruno Ferreira

Há algum derradeiro teste que comprove melhor o que é delicioso e de grande valor do que o que os membros do trade do vinho compram? Ao abastecerem-se no aeroporto de Lisboa, o grupo de sommeliers que eu levei em excursão pelo Sul de Portugal esbanjou o dinheiro em Moscatel de Setúbal. Espero realmente que o entusiasmo demonstrado se traduza nas suas cartas de vinho quando voltarem a casa. Ao passo que o vinho do Porto se vende a ele próprio, este fortificado, Moscatel, poderia beneficiar se tivesse mais embaixadores de “bem comer e beber” que espalhassem os elogios que bem merece.

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À porta da famosa da José Maria da Fonseca, uma variedade de escolhas – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

No Decanter World Wine Awards, o meu painel é igualmente enamorado pelos seus charmes – não há melhor maneira de terminar um dia de avaliações do que nos perdermos sobre um copo de um irresistível Moscatel de Setúbal. Tal como as medalhas de ouro que regularmente lhe atribuímos demonstram (já para não mencionar a presença assídua na ribalta do Muscat du Monde awards), são puro ouro em todos os sentidos da palavra. E a realeza sabia-o. Aparentemente, o brinde das cortes de Richard II de Inglaterra e de Loius XIV de França foi feito com Moscatel de Setúbal. Suspeito que teria bastante menos valor naquela altura, por isso não somos nós os sortudos? – hoje em dia podemos beber como reis e pagar como plebeus.

Encontrará, mais abaixo, as minhas escolhas relativamente aos vinhos que provei na visita que fiz à Península de Setúbal no mês passado. Mas primeiro vale a pena perder um pouco de tempo a explorar o que faz o Moscatel de Setúbal tão especial. Naturalmente começaremos pela matéria-prima – a casta Moscatel de Setúbal (a.k.a. Muscat de Alexandria), que deve compor pelo menos 67% do vinho (85% se for Moscatel Roxo). Apesar de ser considerada inferior à sua mais famosa parente, a Muscat à Petits Grains, os produtores de Setúbal extraem habilmente o máximo de aroma e sabor da Moscatel de Setúbal, macerando o vinho fermentado e fortificado em peles durante 6 meses. É a melhor maneira para libertar o seu perfume de hortelã, floral, cascas cítricas e gengibre; chá de pêssego no caso da rosada e rara casta Moscatel Roxo.

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De volta ao Torna-Viagem na José Maria da Fonseca – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Para serem uma pura delícia, os vinhos de topo são envelhecidos em barris de modo a permitir a caramelização dos açúcares, e também para concentrar os néctares resultantes da evaporação. No passado, os barris eram amarrados aos conveses de navios altos e enviados pelo equador para optimização do paladar e do carácter. António Soares Franco, CEO da José Maria da Fonseca, disse-nos que, como resultado da brisa do mar, da ondulação e das temperaturas altamente oscilantes no convés, os moscatéis denominados “Torna-Viagem” são altamente equilibrados, suaves e um pouco salgados. Há uns anos atrás tive a sorte de provar um exemplar do séc. XIX e, apesar de não me recordar de salinidade, lembro-me perfeitamente do seu estonteante equilíbrio e do seu paladar polpudo e suave. Parecia extraordinariamente jovem tendo em conta todas as aventuras que passou no mar.

Empolgantemente, desde 2000, que A José Maria da Fonseca vem experimentado a técnica Torna-Viagem com a marinha portuguesa e, como podem ver, esses barris que estiveram no mar parecem ter envelhecido mais rapidamente (as amostras Torna-Viagem à esquerda são mais escuras). Na Bacalhôa Vinhos de Portugal, outra grande produtora de Moscatel de Setúbal da região, a enóloga de fortificados Filipa Tomaz da Costa disse-me que desenvolveram condições especiais de armazenamento “para recriar o ambiente de um navio”. Por outras palavras, “sem qualquer controlo sobre a temperatura, humidade ou secura”. Durante o verão, o vinho que está dentro dos barris pode chegar aos 28ºC! Apesar de a evaporação ser consequentemente alta, Tomaz da Costa não enche os barris, isto porque, mais espaço no topo, em combinação com o calor ajuda a melhorar a complexidade e riqueza dos perfis râncio dos seus vinhos; talvez também um pequeno toque de “vinagrinho” (acidez volátil).

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Bacalhôa Vinhos de Portugal, produtores de Moscatel exótico – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Estes elementos são essenciais para pura delícia do Moscatel de Setúbal, mas os melhores vinhos são distinguidos pelo seu equilíbrio e finesse. E é por isso que são provenientes de solos argilosos e calcários dos morros da região, em especial das encostas mais frias da Serra da Arrábida, viradas a norte (que costumava ser uma ilha há muitos anos atrás). Estes vinhos são marcantemente mais frescos e mais detalhados do que aqueles das planícies arenosas da região.

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Queijo de ovelha, Azeitão, proveniente também da zona montanhosa, uma perfeita harmonição para o Moscatel de Setúbal – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Adega de Pegões Moscatel de Setúbal 2012 – feito a partir de Moscatel 100% proveniente de solos arenosos e envelhecido em barris de carvalho francês e americano durante 3 anos. Este é um estilo mais leve e abordável com buttermint (menta), pouco doce, suave, laranja caramelizada e pêssego. Bom perfume e frescura. 17.5%

Casa Ermelinda Freitas Moscatel de Setúbal 2010 – Tal como o Pegões Moscatel, provém de solos arenosos, mas é bastante mais complexo. É envelhecido pelo menos dois anos, sendo que o normal são 4 a 5 anos, em barris usados num armazém sem qualquer controlo sobre a temperatura. E suspeito que seja isso que faz a diferença, porque é bastante mais concentrado e complexo no nariz e na boca, com deliciosas notas de râncio nogado e um toque de carvalho maltado no seu paladar a laranja caramelizada. Embora generoso, tem uma boa frescura para equilibrar. Digamos apenas que este foi particularmente popular no aeroporto. 17,5%

José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 2010 – Este Moscatel de Setúbal de grande valor, de gama de entrada, figurou a maior parte das minhas noites durante as minhas férias na Costa Vincentina há um par de anos atrás. Para facilitar a abordagem, a fruta é proveniente de um local arenoso e argilo-calcário virado para sul. Ao contrário de alguns vinhos de gama de entrada, foi envelhecido em cascos velhos, o que confere um rebordo delicioso e nogado ao seu palato delicioso de laranja caramelizada; bom equilíbrio e longevidade. 127g/l de açúcar residual; 17,5%

José Maria da Fonseca Colecção Privada Moscatel de Setúbal 2004 – este vinho é o resultado directo de ensaios com aguardente. O enólogo Domingos Soares Franco descobriu que gostava mais de utilizar Armagnac e o Colecção Privada tem uma fluidez (boa acidez) e persistência encantadoras na sua fruta madura, cítrica e pêssego mais redondo. Com uma excelente integração da aguardente, o final continua, e continua, lentamente revelando amêndoas tostadas, caramelo, nogado e um toque mais levantado de buttermint. As uvas são provenientes apenas de solos de argila e calcário. 106g/l de açúcar residual; 17,5%

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Os Moscatéis da José da Maria da Fonseca mais velhos guardados a cadeado na Adega dos Teares Velhos da – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

José Maria da Fonseca 20 anos Moscatel de Setúbal – O mais antigo produtor de vinhos de Portugal tem uma enorme carta de trunfo no que toca a produzir complexos e concentrados Mosctéis de Setúbal – muitas colheitas de Moscatel. Estão armazenadas na climatizada Adega dos Teares Velhos, lugar onde os vinhos mais velhos, com mais de 100 anos, estão guardados a cadeado! António Soares Franco diz-nos que os vinhos mais novos deste blend não-colheita de 20 anos têm 21-22 anos, ao passo que o mais velho tem 60 anos. Reconhece que é um blend de “aproximadamente 14 colheitas diferentes”. Isso é perceptível no seu longo, persistente, muito concentrado e complexo palato que revela casca de laranja caramelizada, substância, notas de marmelada picante e um pouco de marmelada amarga acabadinho de se juntar ao bouquet. Muito refinado, com um corte vivo de toranja a equilibrar o final. 182g/l de açucar residual; 18,4%

José Maria da Fonseca Roxo 20 anos Moscatel de Setúbal – feito a partir de uma Moscatel Roxo rosa muito mais rara, tem uma cor bastante mais escura do que o seu antecessor, e, apesar de ter bastante mais açúcar residual, parece mais fresco, seco (menos saboroso) e mais leve. Doce, aguçado mas sabores exóticos de tangerina, toranja rosa e chá de pêssego misturam-se na boca; grande linha e comprimento. A minha escolha dos 4 da JMF (mas devo ressalvar que sou uma grande fã do Roxo). 217.8g/l açúcar residual; 18%

SIVIPA Moscatel de Setúbal 1996 – de solos argilosos/calcários, este vinho foi envelhecido durante 10 anos em barris de carvalho francês. É um vinho complexo e concentrado, com um toque de aguardente no final mas que flui naturalmente e suavemente, xaroposo, pêssego, damasco seco mais concentrado, amêndoas tostadas e caramelo. 180g/l açúcar residual ; 17%

Blend-All-About-Wine-Moscatel-De-Setubal-Gold-Horacio-Simoes moscatel de setúbal Beber como um Rei: Moscatel de Setúbal, o Líquido de Ouro da Península de Setúbal Blend All About Wine Moscatel De Setubal Gold Horacio Simoes

Horácio Simões Roxo Moscatel de Setúbal 2009 – Foto de Sarah Ahmed | Todos os Direitos Reservados

Casa Agrícola Horácio Simões Roxo Moscatel de Setúbal 2009 – Sou uma grande fã de Horácio Simões, um produtor de boutique de terceira geração. Este longo e duradouro Roxo mostra o porquê. Textura sedosa, concentrado e rico em laranjas caramelizadas, mostra sinais de madeira maltada e deliciosas notas de praline final (foi envelhecido em barricas de carvalho francês). Generosidade espectacular e palato equilibrado.

Bacalhôa Vinhos de Portugal Moscatel Roxo Superior 2002 – o meu painel no Decanter World Wine Awards premiou este incrível Roxo com um medalha de ouro e um troféu regional. Eu teria oferecido o troféu novamente neste alinhamento! As uvas são provenientes de solos argilosos/calcários do norte da Serra da Arrábida. Ainda assim, foi envelhecido durante 10 anos em pequenos barris franceses de 200ml de whisky (do qual beneficia por causa dos poros limpos) e em condições de simulação de embarcação, com grande variação térmica, tem uma frescura e pureza surpreendentes. Referindo-se aos “choques de temperatura, evaporação e concentração do ácido e do açúcar e a libertação de aromas ligados ao açúcar”, o enólogo responsável, Vasco Penha Garcia, diz que “é incrível que quando envelhecemos vinhos nestas condições eles fiquem mais frescos, mais florais”. Sem dúvida que o Bacalhôa Roxo Superior 2002 tem grande intensidade, toque e camada de água de rosas, mentol e aromas de chá de pêssego, que seguem na boca juntamente com pureza bonita de laranjas caramelizadas, tangerina suculenta, casca de toranja rosa e delicadas amêndoas tostadas e notas mais ricas de marzipan. Embora tenho um sabor agradável e rico, é muito persistente (boa acidez) e fino, o final, muito equilibrado. 190.2g/l acúcar residual; 19%

Vim, Vidigueira, Venci: Os vinhos de Paulo Laureano

Texto Sarah Ahmed | Bruno Ferreira

Ainda não tenho a certeza se, quando lhes mostrei esta foto, o meu grupo sommelier ficou aliviado ou deasapontado por não ter conhecido o português detentor do título de melhor bigode na indústria de vinho portuguesa, Paulo Laureano. Como observou friamente um deles, “ele parece tímido”. Nesta foto até um pouco “louco”, mas isso está longe da verdade – posso assegurar-vos que Paulo Laureano é tão equilibrado quanto os seus vinhos ou até como as pontas pontas enceradas do seu bigode.

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Paulo Laureano no barbeiro – Foto de Paulo Laureano | Todos os Direitos Reservados

O enólogo não teve possibilidade de nos mostrar os seus vinhos pessoalmente porque estava no Brasil à procura dos mercados. Mas, no que toca aos vinhos feitos debaixo do nome da sua marca (faz bastante consultadoria), o seu foco é a terra natal. Não só nas castas portuguesas autóctones (incluindo o único tinto monovarietal de Tinta Grossa), mas também na região onde nasceu, o Alentejo.

Devido à popularidade desta região sulista, quente e seca entre os compradores de supermercado, o Alentejo é mais conhecido no Reino Unido pelos tintos suaves, abordáveis e frutados. Não é de todo conhecido pelos seus brancos. Por isso é que foi uma surpresa para o meu grupo, descobrirem que a Vidigueira, a sub-região mais a sul da DOC Alentejo, era capaz de produzir tintos e brancos tão contidos – perfeitos para para os jantares finos que oferecem nos seus restaurantes, o The Ritz em Londres, o Gordon Ramsey’s Maze, o Butler’s Wharf Chop House e o Yauatcha, e também o novo restaurante de Nuno Mendes, focado numa espécie de tapas portuguesas, Taberna do Mercado, onde irei apresentar os vinhos do Alentejo ao mercado no próximo mês.

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Vou apresentar uma grande variedade de estilos do Alentejo no próximo mês, no Taberna do Mercado – Foto de Wines of Alentejo | Todos os Direitos Reservados

Blend-All-ABout-Wine-Paulo Laureano-Taberna-do-Mercado-2 Paulo Laureano Vim, Vidigueira, Venci: Os vinhos de Paulo Laureano Blend All ABout Wine Paulo Laureano Taberna do Mercado 2

Vou apresentar uma grande variedade de estilos do Alentejo no próximo mês, no Taberna do Mercado – Foto de Wines of Alentejo | Todos os Direitos Reservados

Como é que Laureano conseguiu vinificar brancos tão a sul? Quando conheci Laureano há vários anos atrás, explicou-me que, apesar da sua localização, o micro-clima especial da Vidigueira é responsável por esta contenção e estrutura. Os níveis de humidade são mais elevados e o clima mais temperado do que estaríamos à espera porque, devido à sua topografia, as brisas do Atlântico ainda conseguem serpentear até aos 60km terra a dentro. Além disso, a Vidigueira beneficia de maior precipitação graças à Serra do Mendro, por onde o ar frio, que arrefece as vinhas, desce durante a noite. A cereja no topo do bolo são os solos xistosos que caracterizam tantos vinhos Alentejanos. Porquê? Primeiro porque estes solos finos e rochosos, oferecem pouco às vinhas em termos de nutrientes, o que mantém os rendimentos baixos. Segundo porque o xisto tem a capacidade de, lentamente, drenar a água para as vinhas (tal como no Douro). Agora já sabem porque é que a Vidigueira tem história em vinificação de brancos.

Aqui estão as minhas notas de prova dos vinhos de Laureano, que, posso acrescentar, encontrei mais frescos e precisos (especialmente os brancos) do que no passado. Parcialmente devido à colheita ter sido feita mais cedo, foi o que me disseram.

Paulo Laureano Premium Vinhas Velhas branco 2014 (DOC Vidigueira, Alentejo)

Quando, este mês, visitei o Alentejo havia muita entusiasmo em volta dos brancos de 2014. Este medalha de prata no Decanter World Wine Awards 2015 mostra o porquê. Apenas parcialmente fermentado em carvalho (francês) durante quatro meses, com ênfase na fruta e na frescura. A acidez é uma boa marca da sua fruta cítrica madura tropical (toranja rosa e tangerina) e pêra seca. Aliás, neste caso, Vinhas Velhas significa mais ou menos 40 anos. 13,5%

Paulo Laureano Dolium Escolha branco 2014 (DOC Vidigueira, Alentejo)

O Dolium centra-se na típica e mais utilizada casta branca do Alentejo, a Antão Vaz. Envelhecido durante 6 meses em carvalho francês. Embora partilhe a toranja rosa, a tangerina e a pêra seca do Vinhas Velhas, este vinho é mais concentrado, com mais textura, estruturado e complexo, com carvalho nogado e nuances minerais. Equilibrado, com um final longo e muito bem equilibrado. 13%

Paulo Laureano Premium Vinhas Velhas 2013 (DOC Vidigueira, Alentejo)

Este blend de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, de cor intensa, revela amora e groselha suculentas, com notas salgadas de chicória e folha de tabaco. Uma mineralidade xistosa que empresta frescura e nuance ao final. Taninos (finos) e acidez (fresca) muito bem equilibrados.

Paulo Laureano Selection Tinta Grossa 2011 (DOC Vidigueira, Alentejo)

Segundo Diana Silva, gestora da marca Paulo Laureano, só existem 5 hectares de Tinta Negra no mundo, dos quais Paulo Laureano tem 3. Provavelmente porque apresenta pouco rendimento e é um cliente um bocado complicado na vinha. Este vinho apenas foi feito em 2008, 2011 e 2012. As uvas são pequenas e com pele fina, o que sobressai logo na estrutura de taninos deste vinho tintoso e na maneira como consegue absorver o carvalho francês novo com facilidade. No nariz fez-me lembrar Lagerin (uma casta tinta do Norte de Itália), com notas de chocolate amargo, violetas, cereja/ameixa azeda, balsâmico e chicória. Notas essas que continuam no palato, juntamente com notas de ruibarbo, frutas silvestres, lavanda, marmelada/cera de abelha, cravo, casca de cássia e sortido da Bassatt’s Liquorice Allsorts. Os taninos são musculados e um pouco rústicos, mas no bom sentido, e termina firme, seco e saboroso. Um vinho complexo e único. Silva recomenda acompanhar com Carne de porco à alentejana. 14%

Paulo Laureano Dolium Reserva tinto 2012 (DOC Vidigueira, Alentejo)

Este blend maioritariamente composto por Trincadeira (70%), com Aragonês e Alciante Bouschet, foi envelhecido em barricas de carvalho francês e americano durante 18 meses. Tem toque de mocha por causa da sua baga escura mas acabada de colher, groselha e abrunho com notas de cravo. Como nos outros tintos, não há vestígio que indique ser melado. Bom comprimento e equilíbrio com taninos finos.

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À procura do Ouro: O Vinho Português ao Microscópio

Texto Sarah Ahmed | Tradução Bruno Ferreira

Tem sido um grande privilégio para mim presidir, desde 2011, o painel de Portugal na Decanter World Wine Awards (“DWWA”), que reivindica ser a maior e mais influente competição de vinhos do mundo. Estes ano mais de 16000 vinhos deram entrada na competição, 730 dos quais portugueses (não contabilizando vinho do Porto nem vinho Madeira); poderá consultar os resultados no website da Decanter a 14 de Junho.

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À procura do Ouro: A equipa de elite, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Os vinhos são avaliados por especialistas nas suas respectivas áreas. Todos os anos o meu ilustre painel inclui líderes de opinião e colegas campeões do vinho português. Este ano aproveitei a oportunidade para sondar as suas opiniões relativamente à performance do vinho português nos seus respectivos mercados (principalmente no Reino Unido, que é considerado uma janela de vendas para o mundo inteiro). As contribuições são de:

  • Danny Cameron, director da Raymond Reynolds, Reino Unido, uma importadora especializada em vinho português, que trabalha com algumas das mais conhecidas marcas premium do mercado.
  • Nick Oakley, fundador Oakley Wine Agencies, uma importadora especializada em vinho português que conta com quase todos os múltiplos supermercados como clientes.
  • Jo Locke, Master of Wine e responsável pelas compras em Portugal na loja online do Reino Unido – The Wine Society,  que recebeu mais prémios, merecidamente, pela sua lista de vinhos portugueses.
  • Anne Forrest, anterior responsável pelas compras em Portugal na Direct Wines, e que agora é directora na Vinos Sin Fronteras, Lda, sediada no Porto, uma especialista em exportação de vinho e consultadoria de negócios.
  • Cláudio Martins, anterior gestor/sommelier da britânica New Street Wine Shop, e agora director vínico na Montevino Partners Wine Merchants.
  • Madeleine Stenwreth Master of Wine, freelancer sueca de consultadoria vínica, especializada em desenvolvimento de produtos, blending e estratégias de qualidade e estilo.
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Nick Oakley, Claudio Martins, Madeleine Stenwreth Master of Wine, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Notou algum crescimento nas vendas, qualidade e gama dos vinhos portugueses e, se sim, quais?

Danny Cameron: No Reino Unido acho que o valor ideal para as vendas em loja ronda entre as £8 e as £15 (€11-€20). Desde que a simpática Lehman Bros fez o que fez (crise financeira mundial), que o mercado para a alta gama portuguesa se tem debatido, mesmo os rótulos mais icónicos. Isto sugere que Portugal não é ainda um mercado totalmente confiável para estes potenciais consumidores que, durante as recessões, tendem a voltar àquilo que consideram ser escolhas seguras.

Nick Oakley: Sim, bastantes. Estamos a prever um crescimento de 20% em volume de negócio e ainda mais em valor. Estamos dentro das expectativas após estes quatro meses que passaram.

Jo Locke MW:  Sim,verificamos um aumento nas vendas, em grande parte devido ao grande foco dedicado à região (actividade de vendas dedicada e maior presença em mailings padrão), mas também pelas, agora, provas habituais de vinhos portugueses.

Anne Forrest: Sem dúvida que verificamos um aumento nas vendas no último ano, em especial com um crescimento acentuado no sector das ‘categorias especiais’ de fortificados, p.ex. não só nos normais Ruby, Tawny, Porto branco. Existe um grande interesse, e mútuo, por parte das pequenas e grandes vendedoras em encontrar algo realmente especial, com aquele factor único, que cause ‘wow’ ao cliente após o primeiro gole. Colheitas envelhecidos, Tawnies e Moscatel de Setúbal têm provado ser populares, superando as expectativas. Também constatamos um crescimento do Vinho Verde e de vinhos rotulados como monovarietais ou que estejam em grande forma na região do rótulo.

Cláudio Martins: Existe uma nova onda de vinhos portugueses no Reino Unido, as cartas de vinho dos restaurantes estão a aumentar a sua oferta de vinhos do Minho, Douro, Alentejo e até mesmo alguns do Dão, com diferentes categorias de preço, o que é óptimo. Hoje em dia o consumidor está mais consciente dos vinhos portugueses.

Madeleine Stenwreth MW: A qualidade está constantemente a melhorar; o mercado sabe-o, mas os consumidores têm de estar ainda mais convencidos da origem antes de se aventurarem. Não é fácil captar a atenção dos consumidores, salvo vinhos de marcas conhecidas/respeitadas ou assinados pelo énologo (João Portugal Ramos como exemplo), para criar essa confiança que Portugal ainda precisa de construir. Os vinhos são constantemente lançados no mercado, mas não existe poder para os manter nas prateleiras. A categoria está demasiado fragmentada e complicada para os consumidores saberem o que esperar das diferentes regiões. Isto significa que os consumidores precisam de uma marca confiável para se agarrarem. Acho que existe um problema por existirem tantos nomes que não dizem nada aos consumidores.

Que categorias de vinho português (por estilo, região, casta) estão a mostrar serem mais populares entre os consumidores?

Danny Cameron: Em termos de marketing, as regiões que investiram mais ou menos na promoção das suas regiões parecem estar a obter resultados.

Nick Oakley: Dão, Douro and Vinho Verde (uma nova onda de monovarietal). O Dão tem sido particularmente bem sucessido em todas as categorias – independentes, supermercados, online e mercado/restaurantes (por intermediários). No que toca ao Vinho Verde, os monovarietais Arinto e Avesso têm obtido sucesso até agora, juntando-se ao Alvarinho. Não vejo nenhuma razão para que os Loureiro não se juntem a eles.

Jo Locke MW: O Vinho Verde é a estrela actual, a todos os preços.

Anne Forrest: Neste momento o Dão está a vender muito bem, e tanto os blends tintos como brancos estão a mostrar serem muito populares. Enquanto região, o Dão parece estar a ganhar mais e mais tracção, já que os estilos são bastante consistentes por entre as várias marcas e os consumidores sentem-se confiantes para repetir a compra porque sabem que vão gostar do que vão encontrar na garrafa. Também têm um bom preço/qualidade e complexidade suficiente para manter os consumidores intrigados e a querer mais.

Cláudio Martins: Sem dúvida os vinhos do Minho, e os tintos do Douro ainda são a escolha normal da clientela numa wine shop ou num restaurante.

Madeleine Stenwreth MW: Tintos de qualidade comercial com notória concentração de fruta, mas com taninos suaves, redondos e fáceis de beber, acompanhados ou não por comida.

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Beatriz Machado, Nick Oakley, Claudio Martins, Decanter World Wine Awards 2015 – Foto de Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Que categorias (por estilo, região, casta) o/a impressiona mais; onde prevê ver ainda mais crescimento?

Nick Oakley: Para mim o Dão é a maior história e a minha região favorita. Um extra é que desenvolvemos um tinto à imagem californiana, com 14g de açucar, ao estilo Apothik. Chama-se Wolf & Falcon e foi desenvolvido pela Laithwaites. Aqui penso que foram o estilo e o branding que se sobrepuseram à origem.

Jo Locke MW: O Vinho Verde tem potencial para crescer; o Dão parece estar sub-representado e pode, e deve, fazer mais.

Anne Forrest: O Alentejo foi a região que mais me impressionou este ano. É desta a região que os portugueses adoram beber e parece apelar ao sentimento dos consumidores portugueses que escolhem beber em casa ou nos restaurantes. Existe uma grande competição dentro do mercado nacional com muitas marcas/adegas a surgir e que estão a lutar para se estabelecerem, o que está a impulsionar a qualidade. O Alentejo está a começar a ganhar reputação fora de portas e, penso que, eventualmente, com um pequeno número de produtores de topo a mostrarem o caminho, virá a ser uma ‘escolha segura’ para os consumidores no Reino Unido e em todo o lado.

Claudio Martins: Os vinhos do Dão têm muito para oferecer e a Touriga Nacional tem, naquela região, aquilo que os consumidores britânicos procuram. Prevejo observar um crescimento nos vinhos de Lisboa – se for feita uma boa campanha de marketing, direccionada ao mercado britânico, acredito que as pessoas irão começar a reconhecer os vinhos.

Madeleine Stenwreth MW: Tintos bem feitos, com um pequeno toque comercial, mantendo a pureza e honestidade da fruta. O Douro conseguiu isso. O Alentejo já se atreveu a distanciar-se do, demasiado maduro, tosco e over-oaked devido aos problemas de morrer ainda jovem na garrafa. No topo, poucos perceberam que se pode ir longe na elegância mesmo sendo encorpado. Quanto aos brancos, os pontos altos no DWWA foram sem dúvida os brancos [estejam atentos aos resultados do DWWA]. Vinhos de classe mundial!

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Anne Forrest, Matthieu Longuere Master Sommelier, Jo Locke Master of Wine, Decanter World Wine Awards 2015 – Photo by Sarah Ahmed | All Rights Reserved

Onde acha que à espaço para melhorar?

Danny Cameron: Acho que a qualidade do todo dos vinhos portugueses é, no geral, 100% melhor do que há alguns anos atrás. Mas o país ainda tem poucas potenciais grandes marcas que possam singrar no mercado britânico.

Nick Oakley: Gestão de taninos no sul. Rotulagem por denominação em vez da marca (como em França). Isto está a funcionar para o Dão. De momento há milhares de marcas a tentar alcançar visibilidade e nenhuma a consegui-la. Vamos rotular o Dão como Dão, o Douro como Douro. Esqueçam o branding, ou pelo menos diminuam a sua importância. Só desta maneira é que os compradores ficarão a conhecer os vinhos.

Jo Locke MW: As rolhas são o maior problema neste momento. Como é possível que Portugal produza tanto e fique com o pior para si próprio? O número de vinhos de topo com rolhas pobres é chocante e não abona a favor da sua reputação. O rosé não é levado a sério mas não vejo razão para Portugal não produzir muitos e bons exemplares. Para nós, o mercado, bom, de rosé seco ainda é dominado pelo sul de França e não precisa de ser. Ah, e o pequeno problema de auto-confiança!!

Anne Forrest: Acho que um pouco mais de auto-confiança faria maravilhas! Os produtores que se mostram, que não ficam nos bastidores, que se informam dos mercados e que promovem activamente os seus vinhos estão a encontrar caminhos de entrar no mercado. Acho que Portugal está no caminho certo, portanto mantenham a receita, se faz favor!!

Claudio Martins: Intervenções ao nível de marketing, provas para consumidores, é a única maneira de colocar Portugal no mapa dos consumidores britânicos. O mercado já conhece o potencial e qualidade dos vinhos mas o consumidor precisa de o requisitar.

Madeleine Stenwreth MW: O design é muito importante e, juntamente com bom vinho e esforços para uma continuada educação genérica irão ajudar Portugal a mover-se na direcção certa. João Portugal Ramos é um exemplo do esforço constante para melhorar a qualidade e estilo, em constante evolução do todo para manter o consumidor feliz, e nunca desaponta. A consistência é a chave para uma vida longa nas prateleiras.

Para terminar, a escritora Jane MacQuitty juntou-se ao meu painel este ano, durante um dia; tem sido a correspondente de vinho e bebidas do The Times desde os anos 80. O que disse foi isto, “Como sabe, sou uma grande fã do vinho português, mas sinto que o país é o cavalo negro da Europa, com muito potencial com uma enorme quantidade de castas autóctones, muitos estilos de vinhos regionais e de outro tipo. Acho que o Vinho Verde está no topo da montanha mas também acho que o Dão, seja branco ou tinto, irá produzir muitos vinhos wow no futuro. Resumindo, o que Portugal precisa mesmo é de acelerar e de se juntar ao século XXI.”