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Um ávido desejo por lagostim

Texto Ilkka Sirén | Tradução Bruno Ferreira

Yep. Chegou outra vez aquela altura do ano. Todos os anos, a 21 de Julho, ao meio-dia, começa a época de apanha ao lagostim. E todos os anos fico tanto excitado como com um pouco de medo. Embora o lagostim seja delicioso traz com ele uma série de jantares associados em que a schnapps aquavit se bebe como se de água se tratasse, mas volto a este ponto mais a seguir.

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A caminho da apanha do lagostim com o meu filho – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

A época do lagostim está aberta de 21 de Julho até ao final de Outubro. É único período do ano em que se pode legalmente apanhar lagostim. Podemos encontrar estas pequenas criaturas em alguns rios e lagos. Tal como com os cogumelos, os melhores locais para apanhar lagostins são geralmente segredos que as pessoas guardam para si próprias. Ainda sou um iniciado na apanha do lagostim mas já ando à procura dos melhores lugares no meu lago e se encontrar algum lugar espectacular não vou fazer grande alarido. Porquê? Penso que faz parte. Normalmente vou num pequeno barco a remos e coloco as armadilhas durante a tarde porque a actividade destes deliciosos crustáceos é, geralmente, à noite. Portanto, é uma boa prática verificar as armadilhas mesmo antes de nos deitarmos e de manhã cedo.

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Endro – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

A parte difícil é apanhar os lagostins, cozinhá-los é bastante fácil. É só limpá-los, cozê-los em água quente com um pouco de sal, açúcar, endro e um pouco de cerveja. Na verdade o endro domina mesa, não é apenas utilizado no caldo, as pessoas também o utilizam para decorar a mesa nas festas/jantares de lagostim. E, se por acaso, tiveres dores de cabeça no dia a seguir, a culpa é do endro e nunca da schnapps. As festas de lagostim começam, normalmente, com uma sopa. Neste caso foi um sopa cremosa de cogumelos chaterelle com fatias finas de rena, cebolinha e pimento preta no topo feita pela minha mulher. Simplesmente delicioso.

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Sopa cremosa de cogumelos Chanterelle – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Para acompanhar a sopa bebemos o Dócil Riesling 2011 da Nieeport. Um vinho branco do Douro, tipo Mosel. Uma harmonização fabulosa, devo dizer! Apesar de o vinho ter mais corpo à volta da espinha do que os seus parentes germânicos, a qualidade de um Riesling do Douro fresco continua bastante elevada. Uma das razões para isto é a altitude das vinhas (800m). Produzir um vinho com tanta frescura e apenas 8% de teor alcoólico não é fácil mas a Nieeport conseguiu-o. Um vinho leve a acompanhar a sopa de entrada foi uma boa maneira de começar o jantar.

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Niepoort Dócil Riesling 2011 – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Seguiu-se o lagostim. Uma bandeja de estes diabos vermelhos é uma consolo para os olhos. O preço do lagostim finlandês pode ser muito elevado e, por isso, apanhá-los nós próprios é, não só divertido, mas pode também prevenir a tua carteira de implodir. Comer estes espécimes exige arte, embora existam facas especiais para o lagostim a maior parte do trabalho é feito à mão. As pinças têm no interior um pouco do caldo delicioso e bem como alguma carne. Pode comer-se assim ou com pão e manteiga. Simples e saboroso.

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Bandeja de Lagostins – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Depois entra a schnapps. E pronto! O ditado popular diz “um schnapps por pinça”. Cada lagostim tem duas pinças e, em média, cada pessoa tem 10 lagostins à frente. Isso significa beber 20 shots de aquavit durante o jantar. O que vale é que nos dias de hoje isso não passa de um ditado. Ainda assim devo dizer que as pessoas bebem mesmo muito nos tradicionais jantares de lagostim. Também há muita cantoria, sendo Helan går! (“Tudo de uma vez”) a canção mais conhecida. A aquavit não tem a melhor das reputações na Finlândia mas não se enganem, existem muitas boas aquaviit por aí fora.

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Linie Double Cask Aquavit – Foto de Ilkka Sirén | Todos os Direitos Reservados

Uma das minhas favoritas é a Linie Double Cask Aquavit. Tal como os vinhos Madeira antigamente, esta aquavit norueguesa envelhece no mar. Faz duas viagens pelo Equador em cascos de xerez. Esta, em particular, viajou a bordo do M/V “Tamerlane”, de Oslo até Boston e, depois, até Sydney, Singapura, Yokohoma, Panamá e de volta a Oslo. Um aventura e tanto, eh? Depois, quando regressa à Noruega passa por um processo de envelhecimento extra em cascos de vinho do Porto. Tudo somado, 22 meses em casco. Definitivamente não é a maneira mais rentável de produção de bebidas alcoólicas. De qualquer forma é, não só uma das melhores aquavit no mercado, mas também uma das melhores bebidas brancas, ponto final.

Mais uma excelente festa de lagostim. Uma das alturas que anseio sempre todos os anos e que, por sua vez uma, desejo que acabe rapidamente. Aquele endro é letal!

Peixe + Vinho Branco = Portugal

Texto João Pedro de Carvalho

Portugal é actualmente o país da União Europeia com o maior consumo anual por pessoa de pescado, e o terceiro do mundo, só ultrapassado pela Islândia e pelo Japão. A realidade é que Portugal se pode gabar de ter nas suas águas o melhor pescado do Mundo, este facto tem sido amplamente reconhecido por alguns dos melhores Chefes de Cozinha do Mundo. É dito e sabido que das nossas lotas voam diariamente nobres exemplares para os melhores restaurantes do planeta. No aspecto do consumo é necessário o consumidor ter a consciência de que se tem de contribuir para um consumo sustentável das espécies, em que só assim se poderá manter o equilíbrio das cadeias alimentares marinhas.

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Mar de Portugal – Foto de Ciência Viva | Todos os Direitos Reservados

Ciência Viva lançou um catálogo “As espécies mais populares do mar de Portugal” onde são apresentadas as principais espécies de maior interesse económico de pescado do mar de Portugal que chegam à nossa mesa. No total, foram selecionadas vinte espécies de peixes, três espécies de cefalópodes, três espécies de bivalves e três espécies de crustáceos. Para cada uma das espécies apresentadas descrevem-se resumidamente as principais características morfológicas assim como o habitat, etc. Para todos os interessados está disponível de forma gratuita aqui.

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Peixes do Mar de Portugal – Foto de Ciência Viva | Todos os Direitos Reservados

Ora se no pescado damos cartas, é no campo dos vinhos brancos que começamos a ganhar pontos e sem dúvida alguma que nos dias de hoje Portugal dispõe dos melhores brancos, quer em perfil quer em qualidade, para acompanhar na perfeição o pescado que nos chega à mesa. O Homem pensa com o estômago, facto este que associa a cozinha regional ao tipo de vinho ali produzido, basta pensar que as melhores ligações são produzidas entre cozinha + vinho de determinada região. No vinho branco o salto qualitativo que foi dado nas últimas duas décadas em Portugal tornou tudo isto possível e hoje em dia não haverá melhor ligação com o nosso pescado do que o nosso vinho, o Vinho de Portugal.

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Allo 2014 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Um desses exemplos é o Allo 2014, criado na Quinta de Soalheiro (Vinhos Verdes) e que resulta do lote entre Alvarinho e Loureiro. Enquanto a casta Alvarinho lhe dá toda a estrutura e vigor, a casta Loureiro contribui com toda a parte exuberante, o resultado é um branco viciante com apenas 11% Vol que se bebe de forma tão descontraída que quando damos conta a garrafa já acabou. Um verdadeiro vinho de esplanada, que cheira a Verão, a pedir marisco ou como foi o caso uns Pargos assados no forno, combinando toda a frescura dos aromas e sabores com uma acidez revigorante que limpa por completo o palato e pede sempre mais um trago. Se quiser saber mais sobre a Quinta de Solheiro e os seus vinhos, veja aqui.

Contacts
Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica
Parque das Nações, Alameda dos Oceanos Lote 2.10.01, 1990-223 Lisboa, Portugal
Tel: (+351) 21 898 50 20 / 21 891 71 00
Fax: (+351) 21 898 50 55 / 21 891 71 71
Website: www.cienciaviva.pt

Quinta de Soalheiro
Alvaredo . Melgaço
4960-010 Alvaredo
Tel: (+351) 251 416 769
Fax: (+351) 251 416 771
Email: quinta@soalheiro.com
Website: www.soalheiro.com

A Santa Aliança dos Cheesburgers e Vinho do Porto

Texto Ilkka Síren | Tradução Bruno Ferreira

Antes que começem já com “Não, ele não pode ter feito isso”, pensem nisto por um bocadinho. Não é suposto a harmonização de vinho e comida ser uma coisa impossível. E, se pensarmos demasiado na questão corremos o risco de ficarmos entediados pela nossa própria curiosidade. O que vos quero dizer é: fiquem-se pelo simples. Descobrir uma boa harmonização de comida e vinho é, para mim, algo excitante e as regras são, não há regras! Sim, por vezes é preciso arriscar e experimentar algo que normalmente não associamos a certos vinhos. Neste caso foi um cheeseburger com vinho do Porto.

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Cheeseburger e rolha da garrafa acabadinha de abrir – Foto de Ilkka Síren | Todos os Direitos Reservados

Quero desde já deixar uma coisa perfeitamente clara. Eu amo vinho do Porto. Estou sempre a provar todo o tipo de vinhos, cervejas, cidras e bebidas espirituosas e tudo o que tenha o seu quê de <oomph>. Mas nada chega aos calcanhares de um bom vinho do Porto. É simplesmente um incrível e delicioso líquido. Existem muitas comidas boas para acompanhar com vinho do Porto. E, apesar de ser maioritariamente associado a sobremesas, acho que é muito mais gastronomicamente versátil do que isso. Confesso que esta harmonização Hamburger-Porto começou por ser apenas uma semi-intencional tentativa de provocação. Já ouvi pessoas a falar de harmonizações como por exemplo, vinho do Porto e bife suculento com pimentos. Então pensei, porque não fazê-lo com algo ainda mais comum, tipo um hambúrguer. Uma voz dentro da minha cabeça dizia-me que não iria funcionar, mas já aprendi a suprimir esse instinto.

Não quis estar a elaborar muito, sabia que para isto funcionar teria que ser com um cheeseburger, ou melhor, um DOUBLE-cheeseburger. Acompanhar queijo com vinho do Porto é bastante comum e algo de que eu gosto muito. Sempre gostei mais da combinação de sabores doces com salgados do que de doce com doce. Fazer hamburgers não é, normalmente, tarefa complicada, mas a escolha dos ingredientes é a chave para que esta harmonização funcione. Um bom bife com uma pitada de pimenta preta, queijo cheddar – nada dessas porcarias pré-cortadas – e ainda fiz a minha própria maionese de chipotle para conferir um bom sabor picante ao conjunto. Cebola vermelha em conserva para a acidez conferir algo especial e essencial ao hamburger. Nunca esquecendo a verdadeira definição de um bom hamburger: tem de ser possível comê-lo com as mãos.

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Ferreira LBV 2009 – Foto de Ilkka Síren | Todos os Direitos Reservados

Quanto ao Porto, escolhi um LBV Ferreira 2009. Queria algo acessível mas com uma boa estrutura. Este vinho é incrivelmente saboroso. Adoro a sensação na boca, a textura e a fruta inicial com um final picante. Para que esta harmonização funcione, o vinho não pode ser um vinho tímido, tem que ter presença. Este vinho não só tem isso como tem uma excelente relação qualidade/preço e é um exemplo de um bom Porto.

Agora querem saber, certo? Se estava bom? Sim, estava. Pode não ser a combinação mais elegante mas garanto que foi uma das melhores que tive o prazer de saborear nos últimos tempos. Se gostar de cheeseburgers (quem não gosta, certo?) e de vinho do Porto (duh!) então vai gostar desta combinação. Esqueçam por um bocado o snobismo vínico e desfrutem de uma coisa simples mas com comida muito saborosa. A ideia é baixar a fasquia no que toca à experimentação com comidas diferentes. Dito isto, a fasquia da qualidade deve ser sempre elevada. Experimente, e se não gostar experimente uma coisa diferente. Afinal o importante é divertirmo-nos.