Lusovini – Produção e Distribuição Quinta da Lapa – Na terra de Pina Manique, com bons vinhos

Ao sabor da história: Frasqueira Soares Franco

Texto João Pedro de Carvalho

Nas aventuras e desventuras de um enófilo há momentos que marcam de certa forma o nosso percurso, a origem é quase sempre um ou vários vinhos inesquecíveis. Não haverá nada mais empolgante que literalmente dar de caras com uma preciosidade e desbravar caminho até descobrir a sua história. Foi isso que aconteceu com dois exemplares raríssimos pertencentes à Frasqueira de António Porto Soares Franco, cujos vinhos fazem parte do espólio familiar da família Soares Franco localizado no quartel general da José Maria da Fonseca mais propriamente na Adega dos Teares Velhos. Recuamos ao tempo de António Porto Soares Franco, que era na altura sócio da Companhia de Aguardentes da Madeira, as ligações à ilha abriram muitas portas e oportunidades de negócio, é aqui que entra o nome Abudarham. Consultando o livro “Madeira: The islands and their wines by Richard Mayson”, ficamos a saber que José Abudarham tinha dupla nacionalidade, Inglês e Francês, e que chegou à Madeira na primeira metade do séc. XIX. Ali se estabeleceu no negócio do vinho, com acesso ao que de melhor se produzia na altura, mas também do empréstimo de dinheiro, que mais tarde iria dar origem à Companhia de Seguros Aliança Madeirense. O seu negócio do vinho era centrado em vinho engarrafado, vendido essencialmente para França e Alemanha, após a sua morte em 1869 a firma passou a chamar-se Viúva Abudarham & Filhos acabando por na passada do tempo ser vendida à Madeira Wine Association que é hoje a Madeira Wine Company. Sabendo a origem e o seu comerciante, restava apenas reparar nos detalhes que a pequena fita colada à garrafa tinha, a tinta permanente que já mal se vislumbrara no rótulo surgia ténue e a indicar 1795. Após alguma pesquisa e cruzamento de dados chega-se à conclusão que o vinho em causa é um Terrantez 1795 do qual há vários de garrafas que foram a leilão. A rolha saiu à força das lâminas, intacta e com a marca José Maria da Fonseca, sinal de que as rolhas são mudadas de x em x anos, o que foi confirmado pelo próprio produtor.

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Adega dos Teares Velhos – Foto Cedida por José Maria da Fonseca | Todos os Direitos Reservados

A segunda garrafa conta uma história diferente e que nos remete para o Vinho do Porto, também ostenta o nome Frasqueira Soares Franco cujo rótulo apenas mostra R.M 187X. Dada a idade das duas garrafas o tempo encarregou-se de comer grande parte dos rótulos e com eles a sua preciosa informação, no Madeira salvou-se a data numa fita de papel e neste Vinho do Porto ainda lhe resta algo de contra rótulo. Confirma-se posteriormente que as iniciais remetem para Ramiro Magalhães, um antigo comerciante de Vinho do Porto que morava no Bombarral. Ramiro Magalhães foi homem importante na sua terra, grande negociante de vinhos que para o seu tempo teria sido dos primeiros a ter automóvel e motorista. No contra rótulo consegue-se vislumbrar que o número que falta ficando o ano completo deste Vintage de 1878, o último ano pré filoxera. Neste caso não haverá muito mais a dizer, a informação restante apenas nos remete para o ano em causa que foi considerado ano clássico de Vintage.

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Um dos vinhos provados – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Frasqueira Soares Franco – Abudarham – Terrantez 1795: É impressionante a capacidade que este vinho tem em perfumar toda uma sala. Mal cai no copo ficamos hipnotizados pelas tonalidades que brilham no copo, um vinho com 221 anos a mostrar a razão pela qual mesmo depois de todos os vinhos servidos ao jantar, chega o Madeira e é o rei da festa. Neste caso o vinho é arrebatador e inesquecível, antes de tudo um ligeiro pico de volátil para depois ir conquistando com um tom morno e aconchegante de caramelo, baunilha, toffee, que nos preparam para o embate seguinte, uma enorme frescura. É essa mesma frescura que nos domina e deixa de mãos presas ao copo, um uau sai de imediato, é tipo aquelas montanhas russas que quando acaba queremos repetir. Aqui é igual, um vai e vem de sensações, aromas presos no tempo vão saltando do copo, fica a sensação de ligeira untuosidade carregado de frescura, no fundo algo que recorda o cheiro de cinzas de charuto. No palato é outra luta, uma conquista que nos prende com caramelo e açúcar queimado, arredonda ligeiramente num ponto que quase se trinca para depois disparar numa espiral louca de acidez com ligeiro amargo no final de boca. Inesquecível.

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Frasqueira Soares Franco – Abudarham – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

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Frasqueira Soares Franco – Ramiro Magalhães – Vintage 1878 – Foto de João Pedro de Carvalho | Todos os Direitos Reservados

Frasqueira Soares Franco – Ramiro Magalhães – Vintage 1878: Um Vintage com 138 anos de vida, sim disse vida porque apesar de a tonalidade lembrar um tawny velho é notável a frescura e a definição aromática. Muito preciso e delicado, enorme elegância com aromas a fazer lembrar tabaco doce, especiarias finas, casca de laranja cristalizada, fruta em passa com tâmaras, conjunto acolhedor e ligeiramente untuoso. No palato entra guloso, untuoso e com bom volume de boca, ligeiro vinagrinho, é quase como um berlinde doce e fresco que se vai desfazendo no palato até que apenas resta um fino e prolongado final de boca. Majestoso.

      Sobre João Pedro Carvalho
      Wine Writer Blend | All About Wine

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